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sábado, 29 de abril de 2023

NA FRANÇA PULSA O CORAÇÃO REVOLUCIONÁRIO!

 


N
a história recente da humanidade, a França vem ocupando um lugar de destaque como vanguarda dos movimentos revolucionários. Os alemães filosofaram e filosofam, e os franceses não só pensaram como agiram, e agora novamente agem, numa simbiose de teoria e ação contributiva importante entre atuais filósofos e militantes revolucionários. 

Karl Marx, judeu alemão revolucionário, quando acossado pela monarquia tirânica prussiana, no seu país de origem, exilou-se na França contribuindo para a efervescência do pensamento revolucionário naquele sítio irradiador de ideias, até que os burgueses republicanos o expulsaram de lá.  

Após a França, Marx se exilou na Inglaterra, onde encontrou relativa tolerância que lhe foi capaz de proporcionar os estudos e produzir seus escritos fundamentais para a crítica da economia política obtendo informações vitais na famosa British Library, com milhares de publicações, e contando com a ajuda financeira de Friedrich Engels para seu sustento e da sua família.  

O processo final de transição do feudalismo para o capitalismo da revolução republicana francesa do final do século dezoito implicava na unidade de interesses entre antigos barões feudais falidos, capitalistas emergentes e militarismo napoleônico de conquistas próprias à necessidade de expansão do capital tornando a França como epicentro das turbulências políticas europeias e das ideias socialistas que se contrapunham ao iluminismo burguês nascente. 

A revolução republicana francesa foi a primeira grande manifestação popular mundial contra o poder vertical personificado então na monarquia, e ocorreu exatamente no final de século 18 por conta da pressão que a doutrina iluminista, consentânea com os interesses emergentes da burguesia e manipulando a insatisfação popular por conta da miséria causada pela tirania despótica decadente então enfraquecida. 

Os fisiocratas de ascendência feudal deram lugar aos mercantilistas emergentes cujo poder e influência sociais foram capazes de conspirar e estabelecer uma organização de poder na qual o Estado, dividido em três poderes independentes e harmônicos num mesmo objetivo capitalista - executivo, legislativo e judiciário -, passaria a ser regulamentador de uma nova ordem burguesa que parecia ilusoriamente libertária por ser a negação do servilismo feudal, então reinante por toda a Europa.  

O povo francês, iludido, passou a viver sob uma nova ordem jurídica de divisão do poder político sem se aperceber que um novo tipo de escravização se estabelecia: a escravização indireta do trabalho abstrato.  

É na esteira da percepção teórica deste engodo que se deu o embate sobre o significado e modus operandi da nova ordem republicana para a sociedade.  

De um lado, surgiram na França as várias correntes do pensamento socialista cuja filosofia doutrinária confusa e divergente em muitos encaminhamentos, e até certo ponto ingênuas, que fizeram o contraponto ao outro lado representado pelo surgimento do ciclo evolutivo do capitalismo incipiente e do que viria a ser uma constante na nova ordem: o militarismo belicista como guerra de conquista nacionalista patriótica e xenófoba, tão bem expresso nas guerras napoleônicas. 

Na educada oposição ao capital surgiram os chamados socialistas utópicos, nascidos no século 18, e vivendo sob o espírito do tempo iluminista de então, que desenvolveram as bem-intencionadas e ingênuas doutrinas de justiças sociais às suas maneiras.  

O primeiro deles, Saint-Simon, nascido em 1760, pregava a conciliação de classes na qual interesses operários e patronais poderiam ser convergentes e harmônicos, e de modo a que se fizessem leis nas quais todos seriam contemplados e viveriam harmoniosamente - como quer Lula e similares sociais democratas mundo afora.   

Robert Owen, nascido em 1771, entendia que as ações deveriam se concentrar na educação de base, vez que reinava profundo analfabetismo entre os trabalhadores franceses recrutados a ferro e fogo do campesinato para o processo de produção industrial urbano que se iniciava, e que isto se desse dentro da uma ordem jurídica pretensamente justa sob o capital.  

Charles Fourier, nascido em 1772, pregava o surgimento de uma sociedade na qual os meios de produção fossem cooperativados, a que denominou de falanstérios. 

 Predominava entre os denominados socialistas utópicos a ideia de boa convivência com o capital sem a compreensão do caráter autofágico e escravista espoliador do dito cujo, que se constitui numa lógica de acumulação autoritária e ditatorial abstrata que transcende qualquer ideia de boa vontade entre as partes - detentoras do capital, de um lado, e da força de trabalho, do outro - posto que disputam de modo inconciliável a apropriação do valor, representado por um mesmo objeto que lhes dá ordens: um padrão monetário qualquer denominado mercadoria dinheiro

O trabalho abstrato é a outra face de uma mesma moeda, e a primeira e primária célula na construção do capital; são espécies de um mesmo gênero, a forma valor, e uma espécie não vive sem a outra. É por isto que precisamos superar as duas, concomitantemente.  

Foi assim que surgiu o chamado socialismo científico trazido para a França pelos alemães Karl Marx e Friedrich Engels, que haviam sido expulsos da Alemanha kaiserista prussiana, e que eram revolucionários detentores de embasamento filosófico sobre a essência e natureza das relações sociais sob o capital, razão pela qual admitiam que a classe operária emergente deveria se aglutinar como força política capaz de estabelecer uma ordem político-jurídica-constitucional anticapitalista. 

A Europa conflagrada pelo confronto entre monarquistas fisiocratas e republicanos capitalistas criava um ambiente no qual os atores - entre eles a Igreja Católica, então muito poderosa nu mundo ocidental - se pintava para a guerra. É neste contexto que surge, em 1848, o Manifesto Comunista de Marx e Engels: um panfleto convocatório da sublevação da classe operária contra a ordem burguesa liberal. 

A ideia de um estado forte, proletário, capaz de fazer a transição para uma sociedade sem classes sociais e sem as estruturas políticas partidárias e verticais que se tornariam desnecessárias, e sem dinheiro, ou seja, voltado para a criação de uma sociedade comunista, norteava aglutinação político-partidária dos trabalhadores. 

A este pensamento revolucionário se denominou como científico-social, que encontrou oposição da França de correntes de pensamentos num mesmo campo de ideais que negavam o poderio estatal bueguês e eclesiástico: os anarquistas. 

Os anarquistas duvidavam da eficácia de transição a partir de um Estado forte, mesmo sem atinarem para o caráter onívoro e ditatorial da essência da relação social sob a forma valor, motivo pelo qual jamais negaram a mediação social pelo dinheiro, mas apenas a possibilidade de sua pretensamente justa distribuição, o que se constituiu como um erro doutrinário fundamental.  

Personalidades como o russo Mikhail Bakunin, que perseguido pelo Czar fugira do seu país, Koenigsten, Ernest Coeurderoy, Joseph Déjacque, Elisée Reclus, Benôite Malon e Albert Richard, figuram como expressões de vanguarda da corrente anarquista francesa que se alastrou posteriormente pela Espanha e Itália onde criou raízes e de onde depois vieram para o sul do Brasil muitos dos seus membros perseguidos.  

Mas o mais proeminente dos anarquistas, por suas obras muito divulgadas desde então, foi Pierre-Joseph Proudhon, que fez um libelo acusatório brilhante sobre o teor da exploração capitalista, e tem nas abras O que é a propriedade, de 1842; Sistema das Contradições Econômicas e Filosofia da Miséria, de 1846, exemplos daquilo que defendia.  

Os marxistas consideravam os anarquistas pequenos burgueses ingênuos, e faziam críticas ácidas e até perseguições nos locais onde disputavam influência no campo revolucionário, e com base nas pretensamente sólidas argumentações politicistas de Marx, que chegou a debochar de Proudhon escrevendo A miséria da filosofia.  

Não é por menos que foi lá que se deu o primeiro levante anticapitalista da história, a Comuna de Paris, que eclodiu em 18 de março de 1871, patrocinado pela AIT – Associação Internacional dos Trabalhadores – que tomou o poder político até 28 de maio do mesmo ano, até ser sufocada por forças da guerra franco-prussiana, adversários que se aliaram contra um inimigo comum de classe provocando a morte de milhares de communards revolucionários - vide artigo anterior sobre a Comuna de Paris.  

Dando um salto na história, podemos dizer que o maio de 1968, que negou as premissas equivocadas dos rumos que tomava o chamado socialismo real da União Soviética e da China, representa o melhor da rebeldia revolucionária francesa que agora se  manifesta publicamente contra medidas de restrição de direitos previdenciários e outros por conta da debacle capitalista mundial que por lá se apresenta como fenômeno resultante da inconciliabilidade entre forma e conteúdo de tal mediação social que agora encontra o seu ponto de saturação histórico.  

O pensamento marxiano da teoria crítica radical à forma valor e à dissociação de gênero participa, converge e influencia o movimento social francês para o qual não é a democracia burguesa, nem o retrocesso fascista de Marine Le Pen, a solução para o povo francês, mas a revolução mundial social e ecológica capaz de se apropriar dos ganhos da ciência em favor de uma vida sustentável, digna e justa para todos os povos.  

Vive la France!  (por Dalton Rosado)



segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

COMO NASCEU O MANIFESTO COMUNISTA DE 1848 (QUE HOJE ANIVERSARIA)?

O Manifesto do Partido Comunista, escrito por Karl Marx e Friedrich Engels, foi publicado no dia 21 de fevereiro de 1848, uma 2ª feira como hoje. 

Por se tratar de um dos textos políticos mais influentes da história da humanidade, este blog avaliou como interessante para os leitores a colocação no ar de um artigo bem didático e esclarecedor sobre como se deu tal parto; e optou pelo escrito por Marcele Juliane Frossard de Araujo para o site infoescola

Ademais, recomenda, como complemento, o filme O jovem Karl Marx, que relembra exatamente o período que vai do início da amizade dos parceiros revolucionários até a criação do Manifesto. 

É lamentável o Youtube estar impedindo que possa ser visto no blog sob a suspeita alegação de restrição de idade, mas os leitores podem lá acessá-lo, gratuitamente e com legendas, por este link(CL) 
O
ano de 1848 é crucial para compreender a história do Ocidente, mais especificamente da Europa. Segundo Eric Hobsbawm, nunca houve uma revolução que se tivesse espalhado tão rápida e amplamente, alastrando-se como fogo na palha por sobre fronteiras, países e mesmo oceanos.

Foi neste contexto que o Manifesto foi publicado, na iminência da realização de uma revolução sem precedentes. Resultado do estreitamento das relações dos dois autores com a Liga dos Justos, uma união de trabalhadores fundada em 1836 por artesãos alemães emigrados na Inglaterra, o panfleto tinha como objetivo conscientizar os trabalhadores de sua condição e da força de sua união.

Em 1840 a Liga entrou em crise principalmente pela dificuldade de estabelecer as ideias que a regiam, já que seus integrantes cultivavam utopias, ideologias e crenças que se distanciavam de uma concepção clara e objetiva da realidade dos trabalhadores na Inglaterra. 

Quando Engels visitou a Inglaterra em 1845, viu que a Liga dos Justos poderia representar o correspondente ao Comitê Comunista na Inglaterra. E, aos poucos, a Liga foi mesmo se convencendo de que deveria abandonar a luta para estabelecer um sistema utópico, passando a desempenhar um papel consciente nas mudanças sociais em curso naquele momento.

É a partir dessa mudança que Marx e Engels começam a fazer parte da Liga: os dois foram convidados para reorganizá-la, com a condição de se associarem e de a tornarem uma seção do Comitê Comunista na Inglaterra. 

A Liga dos Justos passou a se chamar Liga Comunista e seu lema mudou de Todos os homens são irmãos para Trabalhadores do mundo, uni-vos!

Dois congressos foram organizados para pensar o novo papel da Liga e seu alinhamento com os ideais comunistas. O primeiro aconteceu em 1847 e ali surgiu a necessidade de um documento que orientasse os trabalhadores sobre sua situação.

O comunismo é compreendido como o resultado final da força da história, o sistema que substituiria o capitalismo. A frase de abertura deste panfleto demonstra o impacto que pretendia causar e que causa até hoje: A história de toda sociedade até os nossos dias é a história da luta de classes

O objetivo era conscientizar os trabalhadores das suas condições sociais, históricas; conscientizá-los de que aquilo que os impedia de ter uma vida digna e boa eram as relações de trabalho às quais estavam submetidos, e que isto poderia ser rompido quando eles abandonassem a ideologia da qual eram prisioneiros, a ideologia burguesa dominante.

O livro traça uma linha evolutiva, demonstrando que a burguesia já cumpriu seu papel: 
A burguesia não forjou apenas as armas que lhe darão a morte; também engendrou os homens que empunharão essas armas: os operários modernos, os proletários
A força deste documento é imensurável. Claramente, com o olhar do presente, encontramos limites nas suas propostas, mas nada que diminua sua importância. (por Marcele Juliane Frossard de Araujo, doutoranda em Ciências Sociais pela UERJ e mestre em Ciências Sociais pela PUC-RJ)

domingo, 10 de outubro de 2021

O TIRANO DO BIGODÃO NÃO DIFERE TANTO DO GENOCIDA DE BIGODINHO, MAS O VELHO BARBUDO NADA TEM A VER COM ESSES DOIS

josé ovejero
O MANIFESTO COMUNISTA E O 
MEIN KAMPF SÃO COMPARÁVEIS?
"
Agora vamos ver se você traduz Mein Kampf", provocavam-me recentemente, após eu publicar uma edição do Manifesto Comunista, além de me jogarem na minha cara que estava difundindo uma obra que causou milhões de mortos. 

Confesso que me deixou perplexo essa equiparação entre os dois livros, que também encontrei em artigos de opinião. 

São eles comparáveis, exceto por sua enorme influência histórica? São igualmente imperdoáveis? É imoral traduzir e difundir o Manifesto?

Por mais diferentes que sejam, é inegável que têm aspectos comuns: são antiburgueses, defendem a revolução e o uso da violência, desconfiam da democracia parlamentar e expressam o desejo de melhorar a situação da classe operária. 

Mas, o que mais escandaliza os críticos do Manifesto é que também esta obra foi utilizada por regimes totalitários culpados de torturas e milhões de mortos.

Uma defesa bem-intencionada da obra de Marx consiste em observar que ele é tão pouco responsável pelos desmandos das ditaduras comunistas como Adam Smith pelos mortos provocados pelos regimes liberais em suas colônias. 

Hitler não só escreveu um texto que influenciou sistemas políticos posteriores; ele foi sobretudo o instigador de uma guerra que causou dezenas de milhões de mortos e da tentativa de exterminar os judeus. 

Embora a acusação a Hitler seja óbvia, a defesa de Marx não é totalmente suficiente. Não estamos falando de seus trabalhos mais teóricos, como
O Capital; embora o Manifesto inclua um esboço do materialismo histórico e uma breve análise da sociedade burguesa e do capitalismo, seu objetivo principal é orientar a ação dos movimentos proletários; assim é, em parte, responsável pelos atos que possa ter inspirado. 

Mas pode-se atribuir a ele a culpa pelo que fizeram décadas depois os revolucionários que agitam o livro vermelho de Marx?

Ponhamos as coisas em seu contexto: quando a Liga dos Comunistas encarrega Marx de redigir seu manifesto, as associações operárias são ilegais em numerosos países e os trabalhadores não podem votar; ou seja, não existe uma forma de representação pacífica de seus interesses; tal representação só foi obtida mediante enfrentamentos com as forças repressivas e com revoluções como a de 1848. 

Além disso, nos encontramos numa época em que a situação da classe trabalhadora é de miséria, desnutrição, moradias insalubres... A luta operária persegue a própria sobrevivência dos operários e suas famílias. Embora a evolução posterior tornasse obsoletas partes do Manifesto, é inegável sua contribuição para reduzir a exploração e melhorar a justiça social.

No entanto, são diferentes não apenas as condições nas quais ambos os livros foram escritos –quanto à liberdade de imprensa ou de associação e participação política, mas também o seu conteúdo. 

Mein Kampf defende a guerra da raça ariana contra todas as demais, especialmente a judaica, a repressão a qualquer dissidência e uma política internacional baseada na força. Seu nacionalismo feroz só conhece um fim: impor a cultura e a hegemonia alemãs. Nada de bom saiu daquele livro, nenhuma conquista social, nenhuma forma de convivência nem de progresso pacífico. 
Já graças ao movimento operário impulsionado pelo Manifesto desfrutamos de boa parte dos direitos sociais que hoje nos parecem evidentes.

Não se trata de justificar os crimes do stalinismo pondo-os na balança com avanços sociais. É que seria absurdo culpar o Manifesto por tais crimes. Muitas interpretações partidárias e interessadas dos textos marxistas pouco têm a ver com as teorias de seu autor.

Tomemos como exemplo há muitos outros a surrada ditadura do proletariado. Marx não a menciona no Manifesto, mas sim a necessidade de que os operários assumam todo o poder para transformar o Estado. 

Apesar do uso dado a esse conceito por quem recorre a Marx para justificar suas políticas revolucionárias e/ou ditatoriais, ele não se refere a uma ditadura tal como a entendemos hoje, quando temos a experiência das terríveis ditaduras do século XX. Ele está pensando numa forma de república democrática tal como a descreverá em A guerra civil na França

Para Marx, em meados do século 19 se dá uma ditadura da burguesia, pois é a única que pode impor seus interesses nos Parlamentos.

A classe operária, mais numerosa, depois de ter acesso ao governo mediante eleições – o que lhe parecia preferível – ou mediante ações revolucionárias, imporá uma democracia operária, transformará as relações econômicas até eliminar as diferenças de classe e alcançar a sociedade comunista; então o Estado já não será mais necessário. 

A ditadura do proletariado seria uma fase transitória em que novos servidores públicos plenamente responsáveis, e remunerados como operários, substituiriam os funcionários impostos pela burguesia. Marx nunca desejou a ditadura de partido único, e menos ainda a de uma só pessoa.

Por estas razões, e muitas outras, equiparar a obra do ditador nazista ao manifesto comunista exige ter muito má intenção ou não ter lido nenhuma das duas, como provavelmente é o caso. (por José Ovejero, na edição brasileira do jornal global El Pais)
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