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segunda-feira, 13 de março de 2023

IRRACIONALISMO DO CAPITAL PODE LEVAR O MUNDO À GUERRA NUCLEAR

 


C
uba mantém todas as categorias capitalistas intactas e é por isso que não aceito a pequena ilha como exemplo de caminho para uma sociedade verdadeiramente comunista, ou seja, sem forma valor, Estado, partido político e classes sociais, como preconizou Karl Marx no seu ideário.

Sei também que isto seria impossível de acontecer num país de pouco mais de 10 milhões de habitantes e pequena extensão territorial. A queda do capitalismo se dará a partir da implosão dos seus próprios fundamentos e o castelo tenebroso de cartas deverá ruir por dentro e a partir dos grandes centros capitalistas mundiais. O importante auxílio de eventuais movimentos revolucionários foquistas, de guerrilhas urbanas, trabalhistas, de movimentos sociais civilizatórios, etc., serão complementares.  

Mas sempre me emociono quando leio sobre a bravura de Fidel e Raul Castro, Che Guevara, Camilo Cienfuegos, Faustino Perez, Célia Sanchez e tantos outros revolucionários que tombaram no confronto com o corrupto presidente Fulgêncio Batista, queridinho dos Estados Unidos, numa guerrilha a partir do desembarque em um pequeno barco de 12 metros com 82 revolucionários - com capacidade para no máximo 25 pessoas, o lendário Granma-, sob intenso fogo do exército regular cubano durante e após o desembarque no qual morreram 70 tripulantes. A saga da revolução cubana se iniciou com os 12 sobreviventes, com um precário apoio terrestre e com poucas armas. Uma epopeia digna de respeito. 

Foi, como disse certa vez Fidel, protegidos por uma escudo moral intransponível às agressões e uma convicção inabalável na vitória final contra tudo que representava a corrupta democracia burguesa cubana, que todo aquele movimento se estabeleceu e saiu vitorioso. 

Certamente os Estados Unidos pensaram que se tratava apenas de mais um golpe de Estado numa república bananeira caribenha, até que compreendeu a extensão da indignação do povo cubano com tudo que vinha sofrendo por conta de ser considerada a latrina estadunidense, onde corrupção política, prostituição e jogos em cassinos oferecidos aos turistas eram a base comportamental e de sustentação da precária economia daquela ilha caribenha. 

Em seguida à vitória retumbante, Fidel se declarou adepto do socialismo real, preconizado à ´época pela URSS, com comportamento tropical. Quando os Estados Unidos acordaram era tarde.    

A predominante população negra de Cuba  vivia em condições semelhantes às demais na América Central, em um nível profundo de pobreza e de super exploração. Enquanto ainda hoje estas populações vivem assim ou numa situação piorada, em Cuba o negro doutor e a população alfabetizada é fato destoante entre os países da região, apesar dos embargos econômicos de décadas, e este é um fato relevante.

Depois veio a tentativa de invasão estadunidense, somente contida pela ameaça de guerra nuclear após a instalação de mísseis atômicos soviéticos na ilha, numa negociação tensa que quase acionou o gatilho da destruição total. 

Cuba sobreviveu e Fidel morreu de velho, apesar dos embargos econômicos e de se situar a poucos quilômetros da costa estadunidense, e tudo decorreu como a resultante do equilíbrio das forças atômicas da guerra fria.

Agora, vivemos, novamente, uma situação de ameaça de guerra nuclear. 

O trem da Rússia daquela época da guerra fria já havia descarrilhado do rumo comunista e a de hoje nem de longe representa o ideal libertário comunista. Stalin, com Kruschev pelo meio, e Putin são versões políticas de uma mesma degeneração.

O capitalismo russo de hoje, sob uma forma política ditatorial, representa o oposto de todo o corolário do figurino de emancipação humana em busca de uma sociedade sem classes sociais, sem estado, sem partido político e completamente livre. 

Como se admitir como correto, sob qualquer argumento, o bombardeio de civis em várias cidades ucranianas, de leste a oeste, e de norte a sul, de modo unilateral, posto que nenhuma cidade russa foi até agora atingida? 

A Ucrânia vem sofrendo historicamente agressões de seus vizinhos alemães e russo, e não é por menos que muitos ucranianos aplaudiram ingenuamente a invasão hitlerista, até perceberem ser o déspota do oeste tão ofensivo e sanguinário quanto o do leste.

O nacionalismo capitalista em busca de hegemonia econômica é aquilo que está na base de todos estes conflitos, pois o capitalismo é uma guerra de mercado protegida por um Estado lhe dando sustentação jurídica no plano institucional, mas que não hesita em usar a força no plano bélico quando seus interesses econômicos se veem ameaçados. 

Como estamos percebendo, a China, com seu imenso potencial humano e bélico, tem se mantido numa posição dúbia, expressa da seguinte forma:

- ora se alia a uma parceria sem limites com a Rússia, se abstendo de condenar explicitamente a indefensável invasão ucraniana, além de criticar a ajuda ocidental militar, como justificativa para uma possível ajuda militar chinesa aos russos;

- ora medindo os seus vínculos comerciais e financeiros com o ocidente num mundo de economia globalizada, agindo de modo pretensamente equidistante de uma intervenção direta do conflito. 

O que se conclui de tais posicionamentos é que a questão moral humana se queda diante de interesses mesquinhos de lado a lado; é o capital dando ordens desumanas aos seus súditos humanos e, assim, a humanidade se vê à mercê de tais interesses e de ameaça tenebrosa de extinção. 

Em resumo: qualquer decisão de apoio a qualquer dos lados está previamente contaminada pelo equívoco essencial e básico, raciocinar sob a lógica do capital ao invés de negá-la peremptoriamente

A conclusão é que desde a crise nuclear cubana, passando pela dissolução na União Soviética, pela virada chinesa sob Deng Xiao Ping para a abertura de mercado e pela queda do muro de Berlim, nada mudou, ou seja, o capital comanda a ordem mercantil internacional e a relação entre os povos de modo xenófobo, numa briga na qual os dois lados estão previamente errados.    

Nós estamos como alguém que estando em São Paulo e querendo chegar ao Paraná, num veículo novo e possante, pega a via Dutra para o Rio de Janeiro e, quanto mais acelera, mais se distancia do destino correto. 

Precisamos de um novo parâmetro de referência social que não passa nem pelo totalitarismo político anticivilizatório, nem pela pretensamente boa, mas maliciosa, ou ingênua, intenção da democracia liberal burguesa de humanização de algo que é visceralmente desumano: a relação social produtora de mercadorias e a ordem jurídica que lhe dá sustentação

Acordemos da nossa teimosa letargia secular capitalista que nos impede de ver o óbvio. (por Dalton Rosado


terça-feira, 20 de julho de 2021

NEM 5 ANOS DEPOIS DA MORTE DE FIDEL, AS RUAS CLAMAM POR MENOS RIGIDEZ BUROCRÁTICA E MAIS QUALIDADE DE VIDA.

Segue a íntegra do artigo que lancei um dia após a morte de Fidel Castro. 

Serve para mostrar que uma explosão de insatisfação popular já era bem previsível, tendo a bola de neve crescido mais e mais desde então, até desencadear-se agora em julho.

E certamente vai repetir-se adiante, caso as respostas da nomenklatura no poder ao justificado inconformismo das massas não mudem diametralmente. 

O problema era e continua sendo o fato de a revolução não estar dando passos adiante, seja em termos de satisfazer às expectativas econômicas da maioria da população, seja na desmontagem desse aparato totalitário do Partido-Estado (veja aqui), que asfixia sobretudo as novas gerações. 

Os dirigentes atuais parecem ter esquecido lições que deveriam  ter bem claras em suas mentes, até por força da derrubada de Fulgencio Batista no alvorecer de 1959: a repressão só adia o inevitável, pois, como dizia Napoleão Bonaparte, baionetas servem para muitas coisas, menos para sentarmos sobre elas. (por Celso Lungaretti)
O OUTONO DO PATRIARCA CHEGA AO FIM
Fidel Castro, comandante da revolução cubana e principal dirigente do país durante 47 anos, faleceu na noite de 6ª feira, 25. 

Foi personagem marcante da segunda metade do século 20, mas sua estrela vinha se apagando desde o fim da União Soviética e do bloco socialista por ela encabeçado.

Em seguida foram suas forças físicas que declinaram, a partir da primeira hemorragia que sofreu em 2006, como consequência de uma doença nos intestinos.

Foi então que, sabendo-se impossibilitado de assumir uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total, ele, dignamente, trocou a farda pelo pijama. 

Havia liderado uma heroica revolução em 1958 e depois tentou romper o isolamento a que os Estados Unidos submeteram Cuba, incentivando guerrilhas similares noutros países do continente americano (enquanto Che Guevara tentava a sorte no Congo, igualmente em vão).

Fidel e o Che, no melhor momento de ambos.

O resultado acabou sendo o mais indesejado possível: a ocorrência de banhos de sangue e a proliferação de ditaduras direitistas, pois os EUA cuidaram ciosamente de evitar a propagação do mau exemplo no seu quintal. 

[Êxitos verdadeiros, Cuba só colheu em lutas de libertação nacional, ao ajudar, com tropas, munições e outros recursos, países africanos que confrontavam o colonialismo português.]

Curvando-se à evidência dos fatos, Castro foi obrigado a domesticar sua revolução para garantir-lhe a sobrevivência, ainda que desfigurada.

Desistiu de exportá-la e a institucionalizou, repetindo os mesmos desvios autoritários e burocráticos que engessaram a congênere soviética (a qual, com seu ímpeto transformador estancado, acabou sendo retirada de cena em 1989).

Aposentado compulsoriamente, Fidel durou até os 90 anos, mas os últimos dez não contam: tornara-se um inativo político.

Foi grande um dia, mas decerto não se interessava pelo rock, daí ter passado batido pelos conselhos de Pete Townshend (Prefiro morrer antes de envelhecer) e Neil Young (É melhor consumir-se em chamas/ do que definhar aos poucos").

O Che escutou: morreu na hora certa.

Os grandes se acertaram sem dar
a mínima para a opinião de Castro

SEU PERFIL ERA DE LIBERTADOR – Castro nunca pretendeu revolucionar o mundo, como Marx, Lênin ou Trotsky. Aspirava apenas a ser o libertador de Cuba, livrando-a da ditadura corrupta de Fulgêncio Batista, que fizera da ilha um centro de entretenimentos para turistas ricos interessados em prostituição, jogatina, canciones calientes, drogas... e anonimato.

Os tão alardeados paredóns (as execuções de inimigos, durante a guerra de guerrilhas e depois da tomada do poder) inserem-se perfeitamente na tradição sanguinária das rebeliões latino-americanas.

Até então, Fidel pouco mais era do que um caudilho típico da região, o filho de latifundiários que abraça a causa dos pobres e se torna seu general. Chegou a declarar enfaticamente que não havia comunismo nem marxismo em nossas ideias, só democracia representativa e justiça social.

A hostilidade exacerbada dos EUA ao novo governo acabou jogando-o nos braços da URSS, pois só a outra potência mundial poderia dar-lhe alguma chance de sobrevivência face ao poderoso vizinho que lhe impunha um embargo comercial, apoiava invasões armadas e promovia atentados terroristas (vários planos mirabolantes da CIA para matar ou desmoralizar Castro fracassaram).

A contrapartida ao guarda-chuva protetor foi a completa submissão da ilha às imposições soviéticas, com a adoção do modelo stalinista de socialismo num só país: economia totalmente estatizada, autoritarismo político e submissão da classe trabalhadora à burocracia que a deveria, isto sim, representar.

Aparentemente, Castro ainda tentou escapar dessa armadilha, ao concordar com os planos de Che Guevara para levar a revolução à África e, principalmente, levantar a América do Sul.

Com a execução a sangue-frio do Che e o extermínio dos principais movimentos revolucionários latino-americanos, Fidel teve de se conformar com o isolamento em relação a seus vizinhos e a dependência de um aliado distante e arrogante.
Um sucesso incontestável: o sistema de saúde cubano.

Ao monumental sapo engolido em 1962, quando Nikita Kruschev nem se deu ao trabalho de consultar Cuba antes de acertar com os EUA a desmontagem das bases de mísseis instaladas na ilha, seguiram-se outros, sempre indigestos e, ainda assim, digeridos.

Para compensar, Castro obtinha ajuda econômica que lhe permitiu oferecer condições de existência minimamente dignas para o conjunto da população, com destaque para as realizações marcantes em educação e saúde.

Se pessoas mais capazes e empreendedoras se ressentiam por estarem sendo impedidas de obter a condição diferenciada que seu potencial lhes asseguraria alhures, acabando por emigrar de um jeito ou de outro, é certo também que a grande maioria considerava sua situação melhor do que era antes.

Daí a gratidão e carinho que tributava a Fidel, apesar da falta de liberdade e da gestação de uma odiosa nomenklatura, reproduzindo a distorção soviética: onde todos deveriam ser iguais, a burocracia partidária e governamental concedia privilégios indevidos aos seus membros, tornando-os mais iguais.

Cubanos debandando, a imprensa burguesa adorando...

APÓS O FIM DA URSS, A AGONIA LENTA – A situação, que começara a mudar com a Perestroika, tornou-se crítica após a derrubada do muro de Berlim e o fim do socialismo real no Leste europeu.

Ao deixar de ser sustentada pela URSS, que lhe injetava recursos e a utilizava como um cartão postal do (que ela pretendia ser o) comunismo, Cuba atravessou uma gravíssima crise econômica, até reaprender a andar por suas próprias pernas. 

Daí as fugas da ilha com barcos improvisados terem chegado ao auge na década de 1980, para júbilo da mídia ocidental. Até o remake de Scarface (d. Brian De Palma, 1983) a incluiu, embora o gangster do filme original (d. Howard Hawks, 1932) nada tivesse a ver com Cuba.

O pior momento acabou passando, mas os tempos heroicos também. O povo cubano não era o mesmo que se orgulhava de haver reconquistado sua dignidade, com a ilha deixando de ser bordel dos estadunidenses. Tais lembranças haviam se tornado muito distantes. E a penúria, muito presente.

Então, o debilitamento da saúde de Fidel veio a calhar para que Raúl Castro, governante menos carismático mas também menos identificado com excessos do passado, lançasse e fosse implementando sua versão de abertura lenta, gradual e segura.

2013: sua última aparição pública.
[O paralelo irônico com a flexibilização do regime militar brasileiro sob Ernesto Geisel procede, pois a intenção de Raúl é ir normalizando pouco a pouco suas relações econômicas com os países capitalistas.

Quanto a Fidel, acabou tendo seu destino atrelado à bipolarização do poder mundial, que, enquanto durou, permitiu-lhe inflar demais o balãozinho cubano. Mas os ventos mudaram e, no fim da linha, o esperava a agonia lenta.

Em circunstâncias quase sempre dificílimas, Castro fez o melhor que pôde por seu povo e seu país – não pelo marxismo ou pela revolução mundial, que nunca foram suas verdadeiras devoções.

Quando se puder avaliar seu papel sem exageros propagandísticos e tiroteios ideológicos, deverá ser reconhecida, sobretudo, sua vontade inquebrantável, que o fez ser reconhecido como um titã, apesar da ínfima importância geopolítica da nação que representava.

O século 20 finalmente terminou. E o atual, em termos de grandes personagens históricos, é um deserto. (CL) 

sábado, 26 de novembro de 2016

O OUTONO DO PATRIARCA CHEGA AO FIM: FIDEL CASTRO ESTÁ MORTO.

A entrada vitoriosa em Havana, no início de 1959.
Fidel Castro, comandante da revolução cubana e principal dirigente do país durante 47 anos, faleceu na noite de 6ª feira, 25.

Foi personagem marcante da segunda metade do século 20, mas sua estrela vinha se apagando desde o fim da União Soviética e do bloco socialista por ela encabeçado.

Em seguida foram suas forças físicas que declinaram, a partir da primeira hemorragia que sofreu em 2006, como consequência de uma doença nos intestinos.

Foi então que, sabendo-se impossibilitado de “assumir uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total”, ele, dignamente, trocou a farda pelo pijama. 

Havia liderado uma heroica revolução em 1959 e depois tentou romper o isolamento a que os Estados Unidos submeteram Cuba incentivando guerrilhas similares noutros países do continente americano (enquanto Che Guevara tentava a sorte no Congo, igualmente em vão).

O resultado acabou sendo o mais indesejado possível: a ocorrência de banhos de sangue e a proliferação de ditaduras direitistas, pois os EUA cuidaram ciosamente de evitar a propagação do mau exemplo no seu quintal. [Êxitos verdadeiros, Cuba só colheu em lutas de libertação nacional, ao ajudar, com tropas, munições e outros recursos, países africanos que confrontavam o colonialismo português.]
Fidel e o Che, no melhor momento de ambos.
Curvando-se à evidência dos fatos, Castro foi obrigado a domesticar sua revolução para garantir-lhe a sobrevivência, ainda que desfigurada.

Desistiu de exportá-la e a institucionalizou, repetindo os mesmos desvios autoritários e burocráticos que engessaram a congênere soviética (a qual, com seu ímpeto transformador estancado, acabou sendo retirada de cena em 1989).

Aposentado compulsoriamente, Fidel durou até os 90 anos, mas os últimos dez não contam: tornara-se um inativo político.

Foi grande um dia, mas decerto não se interessava pelo rock, daí ter passado batido pelos conselhos de Pete Townshend ("Prefiro morrer antes de envelhecer") e Neil Young ("É melhor consumir-se em chamas/ do que definhar aos poucos").

O Che escutou: morreu na hora certa.

SEU PERFIL ERA DE LIBERTADOR – Castro nunca pretendeu revolucionar o mundo, como Marx, Lênin ou Trotsky. Aspirava apenas a ser o libertador de Cuba, livrando-a da ditadura corrupta de Fulgêncio Batista, que fizera da ilha um centro de entretenimentos para turistas ricos interessados em prostituição, jogatina, canciones calientes, drogas... e discrição.
Cuba: humilhada na crise dos mísseis.

Os tão alardeados paredóns (as execuções de inimigos, durante a guerra de guerrilhas e depois da tomada do poder) inserem-se perfeitamente na tradição sanguinária das rebeliões latino-americanas.

Até então, Fidel pouco mais era do que um caudilho típico da região, o filho de latifundiários que abraça a causa dos pobres e se torna seu general. Chegou a declarar enfaticamente que não havia “comunismo nem marxismo em nossas idéias, só democracia representativa e justiça social".

A hostilidade exacerbada dos EUA ao novo governo acabou jogando-o nos braços da URSS, pois só a outra potência mundial poderia dar-lhe alguma chance de sobrevivência face ao poderoso vizinho que lhe impunha um embargo comercial, apoiava invasões armadas e promovia atentados terroristas (vários planos mirabolantes da CIA para matar ou desmoralizar Castro fracassaram).

A contrapartida ao guarda-chuva protetor foi a completa submissão da ilha às imposições soviéticas, com a adoção do modelo stalinista de socialismo num só país: economia totalmente estatizada, autoritarismo político e submissão da classe trabalhadora à burocracia que a deveria, isto sim, representar.

Aparentemente, Castro ainda tentou escapar dessa armadilha, ao concordar com os planos de Che Guevara para levar a revolução à África e, principalmente, levantar a América do Sul.

Com a execução a sangue-frio do Che e o extermínio dos principais movimentos revolucionários latino-americanos, Fidel teve de se conformar com o isolamento em relação a seus vizinhos e a dependência de um aliado distante e arrogante.
Um sucesso incontestável: o sistema de saúde cubano.
Ao monumental sapo engolido em 1962, quando Nikita Kruschev nem se deu ao trabalho de consultar Cuba antes de acertar com os EUA a desmontagem das bases de mísseis instaladas na ilha, seguiram-se outros, sempre indigestos e, ainda assim, digeridos.

Para compensar, Castro obtinha ajuda econômica que lhe permitiu oferecer condições de existência minimamente dignas para o conjunto da população, com destaque para as realizações marcantes em educação e saúde.

Se pessoas mais capazes e empreendedoras se ressentiam por estarem sendo impedidas de obter a condição diferenciada que seu potencial lhes asseguraria alhures, acabando por emigrar de um jeito ou de outro, é certo também que a grande maioria considerava sua situação melhor do que era antes.

Daí a gratidão e carinho que tributava a Fidel, apesar da falta de liberdade e da gestação de uma odiosa nomenklatura, reproduzindo a distorção soviética: onde todos deveriam ser iguais, a burocracia partidária e governamental concedia privilégios indevidos aos seus membros, tornando-os mais iguais.

APÓS O FIM DA URSS, A AGONIA LENTA – A situação, que começara a mudar com a Perestroika, tornou-se crítica após a derrubada do muro de Berlim e o fim do socialismo real no Leste europeu.
Cubanos fugindo de bote: a mídia ocidental adorava.

Ao deixar de ser sustentada pela União Soviética, que lhe injetava recursos e a utilizava como um cartão postal do (que ela pretendia ser o) comunismo, Cuba atravessou uma gravíssima crise econômica, até reaprender a andar por suas próprias pernas. 

Daí as fugas da ilha com barcos improvisados terem chegado ao auge na década de 1980, para júbilo da mídia ocidental. Até o remake de Scarface (d. Brian De Palma, 1983) a incluiu, fazendo uma marota atualização do filme original (d. Howard Hawks, 1932). 

O pior acabou passando, mas os tempos heroicos também. O povo cubano não era o mesmo que se orgulhava de haver reconquistado sua dignidade, com a ilha deixando de ser bordel dos estadunidenses. Tais lembranças haviam se tornado muito distantes. E a penúria, muito presente.

Então, o debilitamento da saúde de Fidel veio a calhar para que Raul Castro, governante menos carismático mas também menos identificado com excessos do passado, lançasse e fosse implementando sua abertura lenta, gradual e segura (o paralelo com a flexibilização do regime militar brasileiro sob Ernesto Geisel tem tudo a ver...), visando ir normalizando pouco a pouco suas relações econômicas com os países capitalistas. 

Quanto a Fidel, acabou tendo seu destino atrelado à bipolarização do poder mundial, que, enquanto durou, permitiu-lhe inflar demais o balãozinho cubano. Mas os ventos mudaram e, no fim da linha, o esperava a agonia lenta.
2013: sua última aparição em público.
Em circunstâncias quase sempre dificílimas, Castro fez o melhor que pôde por seu povo e seu país – não pelo marxismo ou pela revolução mundial, que nunca foram suas verdadeiras devoções.

Quando se puder avaliar seu papel sem exageros propagandísticos e tiroteios ideológicos, deverá ser reconhecida, sobretudo, sua vontade inquebrantável, que o fez ser reconhecido como um titã, apesar da ínfima importância geopolítica da nação que representava.

O século 20 finalmente terminou. E o atual, em termos de grandes personagens históricos, é um deserto.
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