Mostrando postagens com marcador revolução russa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador revolução russa. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

APENAS ATRAVÉS DA CRÍTICA DO VALOR SERÁ POSSÍVEL ALCANÇAR O SOCIALISMO

 


O
marxismo tradicional considerou que bastaria eliminar a extração de mais-valia privada, que assim passaria para as mãos do Estado pretensamente proletário, para que tudo pudesse caminhar para uma sociedade futura sem classes sociais distintas, sem Estado e sem o partido da classe operária, ou seja, para uma sociedade comunista. 

Concluído o processo de revolução armada, com a destituição do poder burguês - ou até mesmo feudal, como no caso da Rússia dos czares e da China dos Mandarins -, seria trilhado o caminho seguro para o comunismo preconizado por Karl Marx. 

Em países continentais como a Rússia e a China foi possível o fechamento das respectivas fronteiras contra o assédio e pressão contrarrevolucionária externa e interna e obter a consolidação de um poder político capaz de promover um avanço tecnológico contra o atraso e a miséria social desses países precursores da experiência marxista tradicional.  

Houve êxitos neste aspecto, tanto assim que a Rússia pode se contrapor militarmente com poderio armamentista até então desconhecido contra a Alemanha de Hitler e ajudar substancialmente o mundo a se livrar do domínio nazifascista.  

Entretanto, a relação social intramuros não deixou de ser capitalista, e sob a forma política verticalizada do Estado proprietário dos meios de produção cujos dirigentes viriam do partido da classe operária e o Estado seria gerenciado dentro dos interesses pretensamente proletários. 

 Instalou-se o capitalismo de estado

A pressão contra a transição necessária para uma sociedade livre do agrilhoamento do sistema de produção social sob a forma valor e seu fetichismo da mercadoria não era (e não é) coisa fácil, principalmente quando ainda havia espaço de expansão para tal forma de relação social.  

Tanto assim que Lenin, mesmo com toda a respeitabilidade advinda da condução vitoriosa do processo revolucionário bolchevique que livrou o povo russo de um regime monárquico feudal atrasado, teve que introduzir a NEP Nova Política Econômica –, que nada mais era do que concessões ao capitalismo privado de alguns setores da produção para o combate à fome que solapava a popularidade do regime então instalado. 

Doente, e cada vez mais debilitado por enfermidade que o levou à morte em 1924, aos 53 anos e apenas oito anos após a revolução bolchevique, não se sabe se ele teria tido tempo para fazer a correção de rumo necessária.  

O certo é que em toda a sua obra político-revolucionária, Lenin jamais abordou a questão da crítica da economia política marxiana no que concerne à negatividade intrínseca da forma valor e que diz respeito à necessária superação da relação social sob tal pressuposto e suas categorias fundantes, que permaneceram intactas sob seu breve período de governo.  

A crítica do valor enquanto modo de relação social negativa sob quaisquer formas políticas de governo é parte fundamental da obra da maturidade de Karl Marx e que suponho fosse por ele conhecida como estudioso do marxismo.   

Josef Stalin, que o sucedeu no poder político russo, ao invés de caminhar no sentido da superação das tais categorias capitalistas, preferiu, por comodidade e ambição inerentes ao seu estilo ditatorial que é em tudo e por tudo contrário ao que se preconiza como sociedade revolucionária anticapitalista, de ideal comunista, perseguir antigos revolucionários, como no expurgo dos anos 30 do século passado, e positivou ainda mais o modo de produção social capitalista sob o tacão do Estado pretensamente proletário.  

A fome dos anos 30 jamais justificaria o holodomor, como ficou conhecido o confisco da produção de grãos ucraniana entre 1932 e 1933 para sustentação do regime russo e que levou à morte milhões de pessoas naquela região de agricultura fértil e que ainda hoje vive oprimida pelos seus vizinhos. 

Com a vitória dos aliados na segunda guerra mundial na qual a URSS teve papel preponderante, Stalin pôde se afirmar como grande dirigente dito comunista até a sua morte aos 74 anos em 05 de março de 1953, na Datcha de Kuntsevo, Moscou, logo após 8 anos do término da segunda guerra mundial, quando começaram a vir à tona as atrocidades por ele cometidas em nome da liberdade comunista falseada. 

Na China de Mao Tse Tung, cujo regime revolucionário havia apenas começado - em 1949, quatro anos após o término da segunda guerra mundial e sob os escombros desta -, a admiração à inescrupulosa orientação stalinista serviu como exemplo a ser seguido, numa repetição de métodos e conceitos, até 1976, quando Deng Xiao Ping, promoveu a guinada para o capitalismo privado chinês, mantendo a forma política de centralização de comando sob um partido que se autointitula comunista.  

Nos dois exemplos sabemos todos o que veio a seguir.  

A China acelerou o seu ingresso na economia de mercado até atingir, hoje, o capitalismo de mercado livre sob o regime explorador de mais-valia de agricultores pobres urbanizados para conquistar o mundo com suas mercadorias baratas vendidas na concorrência mundial de mercado, causando um decréscimo na produção global de valor nunca antes experimentado. 

A Rússia seguiu caminho parecido, abrindo-se à economia de mercado, cujo marco de tal comportamento é simbolicamente compreendido como o momento da queda do Muro de Berlim em 1989 e a unificação da Alemanha dividida entre o bloco dito comunista oriental e o bloco capitalista liberal na época da guerra fria.   

É interessante considerar que o capitalismo precisa de expansão comercial de novas fronteiras de produção e comercialização de mercadorias sem o qual não sobrevive e foi justamente tal necessidade que forçou as aberturas capitalistas nestes dois países após cumpridas as etapas de modernizações capitalistas intramuros.  

Mas a expansão capitalista necessária, sem a qual o capitalismo esbarra nas suas próprias fronteiras, não pode suportar a paralisia que lhe é imanente e definha definitivamente!  

É justamente nesse ponto que a teoria marxiana contida n'O Capital  e bem mais detalhada nos rascunhos de estudos de Karl Marx hoje dado ao conhecimento - os GRUNDRISSE, obra que no Brasil somente em 2011 foi dado a conhecer em nosso idioma - encontra seu ponto de maior credibilidade histórica, confirmada pela atual situação de impasse irresolúvel sob a lógica da produção capitalista, equivocadamente considerada como dado ontológico da existência humana e como conquista irreversível da humanidade.  

O limite interno de expansão capitalista encontra sua fronteira histórica em dois aspectos:  

a) não há mais nenhuma sociedade mundial onde possa se instalar como novidade, e nem se desenvolver substancialmente sob os auspícios da produção mercadorias, vez que nestas sociedades empobrecidas nas quais se instalou tal modo de produção impera a miséria crescente e a barbárie; 

b) a guerra da concorrência mundial de mercado impôs a substituição gradativa da fonte primária da produção de valor capitalista, o trabalho vivo, assalariado, dito abstrato porque produtor de valor econômico, pelo trabalho morto, das máquinas tecnológicas, da era da microeletrônica dos robôs, computadores e satélites de comunicação mundial imediata, que somente  produz valor de modo globalmente decrescente, porque reduz o valor das mercadorias no altar da mão-invisível do mercado sem que haja acesso à compra e venda destas pelos trabalhadores tornados supérfluos na era do desemprego estrutural

Dessa forma, a direita nazifascista, doutrina que se considerava morta e sepultada pela consciência mundial consolidada graças aos horrores produzidos por ela na segunda guerra mundial, ressurge pelas mãos daqueles que temerosos de perderem os privilégios adquiridos na sociedade do capital, ou por mera ignorância histórica, e que sem nenhum pejo defendem os seus postulados, e não raro se expondo com as insígnias que até há bem pouco tempo seriam objeto de repulsa populacional.   

Por sua vez a socialdemocracia em seus vários matizes, incorporando os partidos da esquerda institucional e os partidos dito comunistas, também institucionais, adeptos do marxismo tradicional revogado pelo próprio Marx, preconizam a volta da retomada do desenvolvimento econômico numa demonstração de duas possíveis hipóteses simultâneas ou não, quais sejam:   

- dependência por deliberada e consciente aderência à forma de relação social capitalista da qual se tornaram defensores pretensamente humanistas e administradores políticos por incrustação ou inclusão no orçamento estatal cobrador de impostos - leia-se dinheiro advindo da produção capitalista e cobrado aos explorados assalariados nos quais tal forma de relação social extrai mais-valia, e que ainda financiam a própria opressão estatal; 

- por ignorância do caráter fetichista, egocêntrico, autotélico, onívoro, opressor, socialmente destrutivo e autodestrutivo da forma valor.   

E neste sentido que a crítica do valor não é uma mera corrente de pensamento doutrinário, mas a própria síntese da revolução atual antagônica ao servilismo político bem-intencionado e por ser uma constatação marxiana e que deve ser incorporada pela esquerda revolucionária como condição sine qua non para a superação dos impasses políticos-econômicos-ecológicos atuais e como forma de contraposição à autodestruição da humanidade. 

A crítica capitalista feita pela esquerda tornou-se obsoleta porque se tornou parte integrante do seu próprio objeto: a produção social capitalista. Assim, é a própria esquerda que tem que se reciclar sob pena de sucumbir perante a direita que cresce mundialmente em face do descrédito dos seus opositores de esquerda por estes últimos não apresentarem e defenderem alternativas consistentes.  

Trilhar um caminho pedregoso, com os graves riscos de quem trafega na contramão do sistema, é a única forma de atingirmos aquilo que Karl Marx preconizou como forma de alcançarmos os cimos luminosos que a própria humanidade forjou ao desenvolver os saberes científicos atuais. 

Tais saberes ora adquiridos, caso instalássemos revolucionariamente um modo de produção voltado para a satisfação das necessidades coletivas e não para a já impossível reprodução capitalista do valor no quantum necessário para a sobrevida do sistema de exploração, nos possibilitariam uma vida confortável e sustentável ao invés da barbárie que se instala pela contradição entre tais saberes e o conteúdo da relação social que se tornou obsoleta junto com os postulados políticos ora praticados.  

Não precisamos de salvadores da pátria, nem de pátria;  

não precisamos de estadistas, nem de Estado; 

não precisamos de guerras, mas de paz em uma vida sem armas; 

não precisamos de riqueza abstrata acumulada por poucos, mas de riqueza material acessível a todos; 

não precisamos de eleições para o exercício de um poder delegado e vertical, mas de decisões horizontalizadas, sem transferência de responsabilidades a procuradores infiéis; 

não precisamos de heróis, mas de gente simples e de vida simples compartilhada e solidária; 

não precisamos da morte, mas de vida sustentável, longeva, saudável e feliz! (por Dalton Rosado) 


quinta-feira, 12 de agosto de 2021

QUANDO A DEGRADAÇÃO DAS CONDIÇÕES DE VIDA DE UM POVO EXCEDE O TOLERÁVEL, AS MUDANÇAS PODEM SER VERTIGINOSAS!

"Volta e meia a vida se solta
E vem a reviravolta
E nada volta ao lugar"
(Sérgio Ricardo)
Após a abdicação do tzar em fevereiro de 1917, os bolcheviques eram força minoritária, quase insignificante, no poderoso soviete de Petrogrado. 

Daí a grande maioria dos delegados (liberais, mencheviques e sociais-revolucionários) ter caído na gargalhada quando, à pergunta retórica de um orador sobre se existia alguma força política apta a assumir o poder naquele instante, em substituição ao governo provisório encabeçado por um príncipe latifundiário, Lênin respondeu que seu partido estava preparado para tanto. 

Nem meio ano depois, ficou comprovado que não se tratara de uma bravata. 

É que, nos momentos em que a dinâmica das lutas políticas e sociais se acelera, as situações e as correlações de força mudam tão depressa que nós mesmos, os revolucionários, temos dificuldade para absorver e interpretar tudo que estamos fazendo e tudo que sucede a nosso redor. Foi assim em 1968, quando mal conseguíamos refletir sobre aonde nos levavam as respostas de bate-pronto que dávamos aos desafios surgidos a cada dia. 

Muitos partidos e organizações de esquerda acabavam se dando conta de que, levados pelas circunstâncias, haviam adotado táticas contraditórias com suas definições estratégicas sobre:
— se a revolução brasileira teria caráter democrático-burguês ou socialista;
— se na vanguarda estaria o povo ou o proletariado;
— se haveria o recurso às armas ou as flores venceriam o canhão;
— se o foco principal seria o campo ou as cidades, etc.  

Então, conforme a Eliane Cantanhêde detalhou neste artigo, o significado maior da tríplice derrota de Jair Bolsonaro na última 3ª feira (10)  foi o de acelerar ainda mais a queda galopante de seu prestígio, aproximando-o da inevitável derrocada, pois já perdeu todas as condições reais de conduzir o país em meio à pandemia que nem de longe está controlada; e à depressão econômica que tende a atingir o ápice no próximo semestre (o recente e injustificado otimismo nos mercados já ficou para trás e as previsões para 2022 são nefastas).

Se não houver impeachment, é porque demora mais do que os brasileiros conseguirão suportar, após uma década perdida e dois anos e meio catastróficos. A explosão social chegará antes.

O quadro é tão dramático que há bom tempo eu aposto antes numa renúncia presidencial ou em qualquer filigrana jurídica (na linha das famosas  pedaladas fiscais...)  que os doutos garimpem para responder a esta situação imensamente mais grave que a incompetência de Dilma Rousseff: o clamoroso desequilíbrio mental que Bolsonaro já demonstra e tende a acentuar-se cada vez mais, à medida que seu arremedo de governo afunda. 

Quando a degradação das condições de vida de um povo excede o tolerável, as mudanças podem ser vertiginosas. Quem (sobre)viver, verá. (por Celso Lungaretti) 

segunda-feira, 17 de maio de 2021

CABE-NOS PROVAR QUE A EMANCIPAÇÃO HUMANA PODE SER INICIADA NO BRASIL

dalton rosado
VIVEMOS UM MOMENTO HISTÓRICO
Lênin, nas Teses de Abril
Há momentos na história nos quais parece que o universo conspira contra o que está socialmente posto como se a própria natureza estivesse vivendo as dores do parto de um novo porvir. 

Acabei de assistir, por indicação do blog, ao bom filme O trem de Lenin (saiba mais sobre clicando aqui) que mostra a importância de um grupo de revolucionários exilados na suíça e seu retorno à Rússia no processo de ruptura daquele país com a monarquia czarista dos Romanov, ao mesmo tempo em que se desenrolava a 1ª Guerra Mundial

A penúria do povo russo aumentava pela guerra e se aliava à instabilidade própria de uma mudança de conceitos políticos e relações de propriedade então em curso. 

A deposição de Nicolau II e a instalação, no começo de 1917, de um governo provisório vacilante quanto à continuidade ou não da participação da Rússia campesina numa guerra que dizimava milhões de seus cidadãos impunha a tomada de decisões fora do tradicional colaboracionismo social-democrata emergente, representado pelo novo poder vacilante que se instalara.

Os bolcheviques, liderados por Lenin e com a decisiva participação de Trotsky no processo revolucionário armado, compreenderam a necessidade de a Rússia firmar imediatamente a paz em separado com a Alemanha, o que se deu em março de 1918, garantindo a sobrevivência do primeiro Estado dito proletário, que havia sido criado em novembro de 1917 (correspondente a outubro no antigo calendário juliano).
Líderes bolcheviques em 1917: Trotsky (batendo continência) comandou a tomada do poder e criou o Exército Vermelho; Lênin (à dir.) forjou o partido revolucionário e formou o governo
Jamais poderemos saber se seria dado um novo rumo ao processo revolucionário caso Lenin não tivesse morrido em 1924, após o agravamento do seu estado de saúde, apenas sete anos após a chamada revolução vermelha (em contraposição à revolução branca, liberal, de fevereiro de 1917); são os desígnios da história, às vezes impossíveis de desvendarmos). 

Pessoalmente, mesmo respeitando a liderança, o gênio político e a indubitável postura revolucionária de Lenin, suponho que ele não havia compreendido a necessidade de a Rússia, com sua grande extensão territorial e recursos materiais, promover uma ruptura com as categorias capitalistas então continuadas.

Vale, aliás, lembrar que foi Lenin o principal proponente da chamada Nova Política Econômica, de orientação liberal, um passo atrás para se retirarem trunfos propagandísticos das mãos dos contrarrevolucionários e combater a fome que se instalava na Rússia. 

Ele a defendeu como medida conjuntural que permitiria a retomada do rumo socialista adiante, quando seriam dados dois passos à frente

Se, sobrevivendo, Lenin daria mesmo uma nova guinada nesse processo, é coisa que jamais saberemos, mas cumpridor de suas promessas ele sempre foi... 

Em toda a sua vasta obra, Lenin pouco, ou quase nada, se reportou ao que considero a parte mais importante da obra de Karl Marx – a crítica da economia política , ou seja, da forma-valor e de toda a sua nefasta entourage acessória.

A partir da morte de Lenin, estabeleceram-se na direção do Partido Comunista pretensos revolucionários, oportunistas como Stalin, incapazes de promover novos avanços sociais e de conviver com a têmpera e renúncia ao culto personalista de poder que deve nortear o senso de justiça dos verdadeiros revolucionários.

Seguiu-se a perseguição e morte dos integrantes da chamada velha guarda bolchevique em processos forjados, como sempre acontecia com a monarquia czarista e tantos outros governos ditatoriais mundo afora em relação aos seus opositores. 

Assim mesmo, não podemos esquecer que, durante seus anos de isolamento com relação à concorrência de mercado capitalista, a Rússia conseguiu alavancar a industrialização e instalar a infraestrutura básica  de que ainda era carente (energia, estradas, eletrificação, petróleo, alfabetização, etc.), compensando o atraso  acumulado sob os czares.  

Tal recuperação tardia, contudo, só pôde seguir até esbarrar nos limites exigidos pela lógica expansionista do capital e ter de se abrir para a fratricida concorrência de mercado externo.
A vitória russa em Stalingrado é tida como a batalha que selou o destino de Hitler 
E não devemos esquecer, também, que a heroica resistência do povo russo, ao custo de cerca de 27 milhões de mortos (mais de 50% do total de óbitos na guerra), e sua até então desconhecida força bélica mecanizada (melhor adaptados ao clima e topografia, os tanques russos prevaleceram sobre a blitzkrieg –guerra relâmpago– alemã) foram o fator determinante da guinada no rumo do conflito, com os aliados saindo da defensiva para a vitória. 

Vivemos um momento impar na história recente e breve do capitalismo, de pouco mais de duas centenas de anos em suas formas políticas e de revoluções industriais. 

Conjugaram-se no presente momento dois fatores explosivos:
— a obsolescência dos conceitos de produção de valor a partir da exploração do trabalho abstrato, hoje tornado em maior parte desnecessário, o que representa a morte da galinha dos ovos de ouro;
— o alastramento de uma pandemia virótica que, apesar do seu baixo grau de letalidade per capita (em torno de 2% a 3% dos infectados), é tão abrangente a ponto de estar criando um impasse capitalista entre se morrer infectado ou adotar-se o isolamento social, arcando com a consequente redução da produção e circulação de mercadorias a patamares insuficientes para o abastecimento do consumo e a dinâmica da reprodução da massa de valor.  
Chile, 2019: pesadelo para o Paulo Guedes!

Tal como Lenin, estamos num contexto no qual a única saída possível é nos voltarmos para um modo de produção capaz de promover a ruptura com o velho capitalismo carcomido, cujos sinais de esgotamento são evidentes.

Podemos constatar nos nossos vizinhos o exaurimento de governos que atuam sob a égide de todo o sistema capitalista. Basta uma fagulha para começar o incêndio. 

O aumento de passagens no Chile (como já acontecera no Brasil em 2013), foi o bastante para que houvesse um levante capaz de mobilizar o povo chileno na exigência de uma constituinte, prenúncio de um novo tempo em substituição ao esgotamento de uma modelo que encontrou o inconciliável limite e choque entre forma e conteúdo sociais. 

Na Colômbia se observa o mesmo processo de insatisfação popular; na Bolívia os golpistas conservadores de ontem estão a ser presos; na Argentina o governo conservador perdeu as eleições e se elegeu um governante de centro, mais keynesiano do que liberal, mas que logo, logo enfrentará o desgaste de um processo irreversível de esgotamento do modelo ainda vigente por lá; no Paraguai, germina a mesma insatisfação.

Se lançarmos um olhar para Jerusalém; para o Iêmen; para a Síria; para o Afeganistão; para a França dos coletes amarelos; para os movimentos civis étnicos dos Estados Unidos, etc., vamos ver que o quadro mundial é de ebulição social.    

Nesta nação-continente que tem mais da metade de toda a população da América do Sul e é uma das mais ricas em recursos naturais do planeta, cabe-nos dar um exemplo ao mundo de nossa capacidade revolucionária, demonstrando ser possível iniciarmos aqui o processo de emancipação humana. 
Os requisitos para tanto estão dados, pois este é um país que:
— tem mais boi do que gente;
— mais soja e cereais do que capacidade de comê-los (e ainda assim há fome!); 
— mais ferro do que toda a China; 
— mais água potável no Rio Amazonas do que em todos os rios da Europa;
— mais terra fértil do que se possa necessitar;
— mais gente criativa e miscigenada, capaz de conviver sem conflitos, do que qualquer outra nação no mundo;
— maior capacidade de ser feliz, apesar da violência urbana que toma ares de uma guerra civil e de outras mazelas erradicáveis

À tarefa, pois!!! (por Dalton Rosado)
Observação: surgidos na derrotada revolução de 1905 e recriados a partir da abdicação  do czar em fevereiro de 1917, os sovietes eram cada um dos conselhos constituídos pelos delegados dos trabalhadores, dos camponeses e dos soldados. Após a tomada de poder pelos bolcheviques em novembro de 1917, passaram a ter função de órgão deliberativo (DR).
Related Posts with Thumbnails