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terça-feira, 10 de março de 2020

LINCHAMENTO MORAL DE JOSÉ PADILHA EM NADA DIFERE DOS COMETIDOS PELA ESCÓRIA BOLSONARISTA

Trechos do desabafo de José Padilha 
"Conheci Marielle Franco no mesmo dia em que conheci Marcelo Freixo. Foi no Cine Odeon, num debate ancorado na projeção de Ônibus 174, meu primeiro filme. Participamos de outros debates. Tenho alguns deles filmados. Freixo e Marielle (...) me ajudaram na pesquisa e na pré-produção do Tropa de elite 2.

Freixo me deu acesso à CPI das milícias, que frequentei regularmente. (...) Senti a importância do gabinete de Freixo e aportei recursos na campanha do PSOL.

Saí do país alguns meses depois, porque fui vítima de uma tentativa de sequestro por parte de policiais milicianos. 

Mesmo morando fora, Antonia Pellegrino me procurou. Queria ajudar as pessoas mais próximas a Marielle e Anderson. Queria fazer uma série de TV. Queria levar o nome de Marielle aos quatro cantos da Terra. Julgava que, comigo no projeto, a série teria mais chances de obter distribuição internacional. E a família teria mais recursos. 

Aceitei na hora. Negociei por meses. Estava fechando um acordo internacional quando a Globoplay se interessou pelo projeto.

No Brasil, a Globo tem alcance infinitamente maior do que qualquer estúdio estrangeiro. Tem ótimo elenco de atores negros. Tem ótimos diretores negros. Tem ótimas escritoras negras. Tem ótima equipe técnica negra. (...) Além disso, uma série na Globo pressionaria as autoridades a encontrar e a punir quem matou Marielle.

"Marielle nunca me chamou de fascista"
Cheguei ao Brasil para assinar contrato. O meu trabalho seria ajudar na montagem do writers room, escrever um roteiro em parceira com a Antonia e dirigir o primeiro de, no mínimo, oito episódios. 

Além disso, queria ajudar Antonia, a Globoplay e o Instituto Marielle Franco a treinar novos talentos, usando a série como uma espécie de escola.

Não consegui nem começar.

O que aconteceu no dia seguinte ao da assinatura do contrato foi estarrecedor. Além de acusarem Antonia de racismo —apesar de a Antonia estar trabalhando com afinco para montar um equipe representativa da comunidade negra no Brasil e no exterior— e de me tacharem de fascista (Marielle nunca me chamou de fascista), atacaram a legitimidade da família de Marielle, atacaram a Mônica [Mônica Tereza Benício, a viúva de Marielle] e atacaram Marcelo Freixo.

Foi um linchamento moral sem direito a respostas ou tempo para explicações. Os linchadores reduziram tudo à cor da minha pele, como se eu fosse fazer o projeto sozinho, como se não fôssemos contar a história de Anderson, um homem branco, como se não fôssemos montar uma equipe repleta de realizadores negros. Linchamentos sumários são compatíveis com os valores de Marielle?"
Celso Lungaretti
Respondo eu: linchamentos morais são odiosos, repulsivos e inaceitáveis, pouco importando se o alvo dos indignos que esfaqueiam pelas costas, confortavelmente escondidos atrás de seus teclados, se chama Patrícia Campos Mello ou José Padilha.

E pouco importando, também, como se vejam os integrantes dessas maltas espumando de ódio: são todos fascistas, pois o discurso difere mas a alma é a mesma. 

Alma de fanfarrões que arrotam valentia quando estão juntos com a matilha mas não valem nada quando se trata de enfrentarem sozinhos o inimigo. 
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