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sábado, 4 de julho de 2020

O CALCANHAR DE AQUILES DE SERGIO MORO

Nos últimos dias publiquei a minha melhor série de muito tempo para cá: Dois capitães entrelaçam as milícias do RJ com os torturadores da ditadura.

Nela, depois de aprofundar o tema da absorção de antigos membros da repressão política do regime militar na modalidade criminosa então emergente e destacar as flagrantes afinidades das milícias brasileiras com as máfias italianas,  conclui apontando uma grave vulnerabilidade de Sergio Moro.

Afinal, trata-se de um personagem que tem tudo para sobreviver à atual derrocada do bolsonarismo e continuar encarnando a ameaça de um estado policial na eleição presidencial de 2022.

Mas, colocado no finalzinho da 3ª e última parte da série, tal alerta corria o risco de passar despercebido, daí  este artigo complementar em que chamo a atenção especificamente para ele, começando por reproduzi-lo (em verde):   
                                                                                                                                           .
Em 2010, as milícias já controlavam 41 comunidades (eufemismo de favelas) do Rio de Janeiro, segundo levantamento do Ministério Público Estadual. O número, claro, deve ter crescido desde então, ainda mais a partir de 2018, quando colocou um pé nas mais altas esferas governamentais...

Elas começaram vendendo proteção e hoje extorquem de várias outras maneiras os moradores das áreas sob seu controle, cobrando, p. ex., comissões sobre venda de botijões de gás, água, TV a cabo ilegal e transporte.

Estão também envolvidas na/no:
— grilagem de terras de reservas ambientais pertencentes à União;
— extração de pedra e saibro nessas áreas;
— venda das terras com registro legal;
— venda de material de construção;
— construção de imóveis;
— furto de petróleo cru que passa pelas tubulações da Petrobras após extração na costa do Rio de Janeiro;
— comercialização de mercadorias ilegais; e
— até no despejo ilegal e derrubada de imóveis de um condomínio para que nele pudessem instalar-se milicianos.

Ou seja, assim como as várias máfias italianas, as milícias passaram da extorsão camuflada em fornecimento de proteção para uma atuação bem mais ampla e diversificada, combinando negócios ilícitos e outros legais, amiúde recorrendo a pressões, intimidações e até violências para atingirem seus intentos nos dois casos, além de cada vez mais influírem nos três poderes da República e neles se infiltrarem. 

O imperativo de o Estado brasileiro combater decididamente esse tipo de organização criminosa salta aos olhos.

Por último, uma pergunta que não quer calar: por onde anda aquele juiz que, em 2004, escreveu uma razoável tese (acesse-a aqui) sobre a Operação Mãos Limpas (por ele apresentada como "uma das mais exitosas cruzadas judiciárias contra a corrupção política e administrativa" que "havia transformado a Itália em (...) uma democracia vendida")?  Morreu?

Não, está bem vivo, mas Giovanni Falcone, se também o estivesse, decerto não se orgulharia desse pretenso discípulo.

Pois, ao integrar o governo Bolsonaro e até contribuir para a implementação de algumas das medidas presidenciais que claramente favoreciam as milícias, ele atuou não para evitar a atuação mafiosa, mas para alçá-la a um patamar mais elevado.

Se o Brasil se tornar efetivamente uma democracia vendida, parte da culpa, sem dúvida, lhe caberá.

Seu nome, todos já devem ter adivinhado, é Sergio Fernando Moro. 
.
Ou seja, as lamentações a respeito do que ele fez ou deixou de fazer com o Lula sensibilizam principalmente os contingentes que já não votariam nele de jeito nenhum.

Pode  causar-lhe muito dano, contudo, a constatação de que ele já em 2004 esforçava-se ao máximo para atrelar sua imagem à da Operação Mãos Limpas mas, ao participar do Governo Bolsonaro, envolveu-se com um presidente que desde sua exclusão do Exército vinha mantendo relações altamente comprometedoras com a organização criminosa brasileira cuja trajetória mais se assemelha à das várias máfias italianas.

Tal duplicidade pode desmascará-lo aos olhos de muitos e muitos que acreditaram piamente nas lorotas por ele espalhadas desde quando ainda era um quase desconhecido precisando se promover.

Pior: Lula pode mesmo ser culpado por praticar ou fechar os olhos à corrupção política que marca toda a história da República brasileira, mas as milícias do Rio de Janeiro exploram as comunidades mais pobres e vulneráveis, barbarizam, torturam e matam.

Se Moro quisesse mesmo ser o Giovanni Falcone brasileiro, como tanto forçou a barra para fazer-nos crer, eram as milícias do Rio de Janeiro ele deveria combater em primeiro lugar, não Lula e o PT. 

O certo teria sido liderar cruzadas tanto contra a corrupção política quanto contra as máfias do Rio do Janeiro. Mas, ele priorizou o inimigo menos perigoso e jamais combateu as milícias com o rigor que se impunha (muito menos quando tinha o dever de fazê-lo, como ministro da Justiça). 

Isto precisa ser explicado àqueles eleitores que ainda acreditam na imagem fantasiosa que a mídia dele espalhou. 

Dois juízes empenhados em destruir as máfias italianas foram assassinados ao cumprirem fielmente seu dever. Moro pega carona no martírio deles, mas jamais correu verdadeiro perigo. (por Celso Lungaretti)

sábado, 30 de novembro de 2019

"O IRLANDÊS" É UM FILME DE MÁFIA COMO MUITOS OUTROS. POR QUE TANTO AUÊ?

Pacino (79 anos) e De Niro (76): prodígios da maquilagem
Bem que eu tentei afirmar-me como crítico de cinema, mas a minha paixão pela sétima arte atrapalhou: eu queria ir fundo na análise dos filmes e a indústria cultural já então optava por apenas fornecer indicações para consumo, de forma que o leitor pudesse avaliar se compensava ou não assistir àquele filme.

De 1979 até o final de 1984 (saiba mais sobre tal fase aqui), enquanto tentei oferecer uma alternativa às críticas rasas como poças d'água, com número cada vez menor de linhas, que os críticos-padrão entregavam, tive muito prazer, p. ex., em não rasgar seda para as produções que todos eles endeusavam apenas porque tinham chegado com reputação firmada nos grandes centros cinematográficos.  

Naquele tempo as empresas exibidoras programavam sessões especiais ou cabines para assistirmos a seus lançamentos mais ambiciosos antes da estreia e podermos entregar nossas apreciações a tempo de serem publicadas simultaneamente à entrada em cartaz. Então, várias vezes ouvi os medalhões de então confessarem não ter gostado de um filme importante para depois constatar que, ao escreverem sobre ele, haviam ficado oportunisticamente em cima do muro.

Comigo não, violão. Minha inflexibilidade me acarretou problemas com tais empresas e também com veículos para os quais trabalhei, mas nunca conseguiram obrigar-me a fazer média com seja lá o que ou com quem for.
Jack Nicholson foi o Hoffa de 1992...
Então, se hoje fosse publicado em algum jornalão ou revistona, haveria pelo menos uma voz discrepante desse auê todo para O irlandês

Não passa de mais um filme de máfia como tantos outros:
— inferior a quase todos os realizados por diretores italianos como Francesco Rosi, Damiano Damiani, Elio Petri e Giuliano Montaldo, além do melhor de todos os tempos e países, Era uma vez na América, do genial Sergio Leone; 
 ínfimo diante dos de conterrâneos dele como Francis Ford Coppola e Brian De Palma; e que 
 perde de goleada para um montão de fitas de cineastas japoneses que exploram o filão yakuza.

Scorcese é um diretor superestimadíssimo, que realiza filmes desnecessariamente longos e arrastados, como se isto acrescentasse qualidade. No caso do Sergio Leone, sim, sem dúvida. No dele e do Quentin Tarantino, isto só faz o tédio aumentar a cada minuto. 

O irlandês, p. ex., teria um final até impactante se não fosse o anticlímax de mostrar tudo que sucederia na vida do personagem principal após o acontecimento culminante, só que aí nada mais havia que valesse a pena vermos, ainda mais depois de três horas de filme. Aguentei até o fim porque assistia confortavelmente em casa; no cinema, estaria trocando de posição na poltrona a cada minuto...
...Stallone o de 1978, com o nome de Kovak em vez de Hoffa...

Minha sensação de perda de tempo aumentava por conhecer muito bem a história de Jimmy Hoffa, o poderoso presidente de uma confederação de caminhoneiros dos EUA que fizera carreira em parceria com a máfia e, quando a justiça fechava o cerco sobre ele, teve o destino habitual de quem sabe demais e complicará pessoas perigosas se der com a língua nos dentes como um Odebrecht qualquer. 

Eu acompanhara os relatos jornalísticos em 1975 e já havia visto a história nas telas em duas versões que me agradaram muito mais:  Hoffa - um homem, uma lenda (d. Danny DeVito, 1992) e F.I.S.T. (d. Norman Jewison, 1978). 

A primeira por causa do roteiro superlativo de David Mamet, um dos últimos sinais de vida inteligente na Broadway e em Hollywood (o roteirista de O irlandês, Steven Zaillian, não lhe chega aos pés). 

E a segunda, que não é uma biografia cinematográfica assumida  de Hoffa mas claramente nele se inspira, porque Jewison sempre foi um diretor bem melhor do que Scorcese, ponto.

O que muitos consideram grande mérito de O irlandês, montar um painel das relações entre o crime organizado, os negócios e a política, é que o faz parecer um filme tão velho: este enfoque já foi visto em pelo menos uma centena de fitas e seriados, principalmente a partir da consagração de O poderoso chefão 1 (1972 ) e 2 (1974).  Saturou.
...e Pacino, o de 2019 (o da vida real está à direita)
Deu pena ver Robert De Niro, aos 76 anos, com tintura no cabelo e muita maquilagem para aparentar ter uns 30 e poucos no início do filme. Não engana ninguém; teria sido melhor utilizarem dois atores.

Scorcese é um cineasta que quase sempre me frustra. Dele, a rigor, só gostei mesmo do final de Taxi driver (1976), do documentário musical O último concerto de rock (1978) e de Touro Indomável (1980).

E simplesmente abominei A cor do dinheiro (1986), sequela que é mais uma traição ao filme anterior, um dos meus maiores cults pessoais, Desafio à corrupção (d. Robert Rossen, 1961). 

A sofrida trajetória redentora do personagem principal certamente o tornaria um ser humano diferenciado, então jamais o reencontraríamos, duas ou três décadas depois, como aquele indivíduo meramente ávido por reingressar no universo vicioso  das competições profissionais de sinuca que o filme de Scorcese mostra. 

Se tudo por que havia passado não o tivesse libertado da obsessão pela cor do dinheiro, de que valera, afinal? E qual a razão para nos interessarmos pela sina dele? 

A recusa final do personagem a chafurdar na podridão capitalista simplesmente desapareceu da sequela. Foi uma opção artisticamente inaceitável e moralmente indefensável de Scorcese. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 16 de abril de 2019

O CINEASTA JOSÉ PADILHA SE ARREPENDE DO APOIO A SÉRGIO MORO E VÊ SEU PACOTE ANTICRIME COMO "UM PACOTE PRÓ-MILICIA"

Este foi assassinado pela máfia
josé padilha
O ministro AntiFalcone
Sergio Moro sabe que:
1. as milícias são organizações criminosas controladas por policiais civis e militares corruptos e violentos;
2. esses policiais utilizam o aparato do Estado, como armas, helicópteros e caveirões, para expulsar o tráfico e dominar as favelas;
3. as milícias cobram por proteção e dominam atividades econômicas importantes nas áreas que controlam: distribuição de sinais de TV e de gás de cozinha e transporte alternativo;
4as milícias decidem quem faz propaganda eleitoral nas suas áreas e financiam campanhas políticas;
5. milicianos e políticos ligados a milicianos foram eleitos no Brasil para cargos legislativos e executivos em níveis municipal, estadual e federal.

Mesmo sabendo de tudo isso, o ministro Sergio Moro declarou que as milícias representam a mesma coisa que as facções criminosas dentro das prisões, sugerindo que esses grupos operam como o varejo do tráfico de drogas.

Ora, o leitor sabe que sempre apoiei a operação Lava Jato e que chamei Sergio Moro de samurai ronin, numa alusão à independência política que, acreditava eu, balizava a sua conduta. Pois bem, quero reconhecer o erro que cometi. 

Digo isso porque não há outra explicação: Sergio Moro finge não saber o que é milícia porque perdeu sua independência e hoje trabalha para a família Bolsonaro. Flávio Bolsonaro não foi o senador mais votado em 74 das 76 seções eleitorais de Rio das Pedras por acaso...

O pacote anticrime que Sergio Moro enviou ao Congresso —embora razoável no que tange ao combate à corrupção corporativa e política— é absurdo no que se refere à luta contra as milícias. De fato, é um pacote pró-milícia, posto que facilita a violência policial.
Este não será assassinado pelas milícias

Se Sergio Moro tivesse estudado os autos de resistência no Brasil teria descoberto que:
1. apenas no Rio de Janeiro, a cada seis horas, policiais em serviço matam alguém;
2. a versão apresentada por esses policiais costuma ser a única fonte de informações nos inquéritos instaurados em delegacias para apurar os homicídios;
3. como policial tem fé pública, a sua versão embasa a excludente de ilicitude, evitando a prisão em flagrante;
4a Polícia Civil, além de raramente escutar testemunhas ou realizar perícias no local dos assassinatos, tem mania de desfazer as cenas do crime para prestar socorro às vítimas, apesar de a maioria delas morrer instantaneamente em decorrência de disparos no tórax;
5. desde 1969, quando o regime militar editou a ordem de serviço 803, que impede a prisão de policiais em caso de auto de resistência, apenas 2% dos casos são denunciados à Justiça e poucos chegam ao Tribunal do Júri.

Aprovado o pacote anticrime de Sergio Moro, esse número vai tender a zero. Isto porque o pacote prevê que, para justificar legitima defesa, bastará que o policial diga que estava sob medo, surpresa ou violenta emoção —ou, ainda, que realizava ação para prevenir injusta e iminente agressão.

O hábito que os policiais milicianos têm de plantar armas e drogas nos corpos de suas vítimas para justificar execuções é tão usual que deu origem a um jargão: todo bom miliciano carrega consigo um kit bandido. Aprovado o pacote de Moro, nem de kit bandido os milicianos precisarão mais.
"pacote de Moro vai estimular o crescimento das milícias"
Sergio Moro nunca sofreu atentados e nunca lidou com a máfia. Mas o juiz Giovanni Falcone, em quem o ministro diz se inspirar, foi morto aos 53 anos de idade na explosão de uma bomba colocada pela máfia numa estrada. Sua mulher e três seguranças morreram com ele.

O crime foi uma reação da máfia à operação Maxiprocesso, que prendeu mais de 320 mafiosos na década de 1980. Ela deu origem à operação Mãos Limpas, que mostrou que a máfia elegia e controlava políticos importantes na Itália.
Ora, no contexto brasileiro, é obvio que o pacote anticrime de Moro vai estimular a violência policial, o crescimento das milícias e sua influência política. Sergio Moro foi de samurai ronin a antiFalcone. Seu pacote anticorrupção é, também, um pacote pró-máfia. (por José Padilha)
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