Mostrando postagens com marcador refundação do PT. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador refundação do PT. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

NÃO ADIANTA SAIR PELA TANGENTE, LULA: VOCÊ E O PT CONTINUAM NOS DEVENDO UMA PROFUNDA AUTOCRÍTICA!

"Muita gente bota defeito no PT, e às vezes nós acatamos essas críticas. Mas vocês já viram pedirem para o Fernando Henrique Cardoso, para o Bolsonaro, fazer autocritica? Quem quiser que o PT faça autocrítica, que faça a crítica você. Esse partido é encrenqueiro, não presta? É, mas esse é o meu partido. Na dúvida, a gente defende o nosso companheiro."

Lendo esta simplificação tendenciosa da questão da autocrítica do PT por parte do Lula, em discurso que fez em Salvador na última 5ª feira (14), fico em dúvida sobre se ele é tão desinformado como tais afirmações o fazem parecer ou estava apenas desferindo golpes num espantalho, ao invés de responder honestamente aos questionamentos dos quais discorda.

Já conheço de outros carnavais o seu expediente de sair pela tangente quando não tem chance de se dar bem numa discussão. Então, simplesmente vou explicar o que ele não está entendendo (ou fingindo não entender), assim ele fica impedido de repetir esse pulo do gato.

Originalmente, quem cobrou a abertura de um processo de crítica e autocrítica por parte do PT fomos eu e o Tarso Genro (outros companheiros – infelizmente poucos! – vieram na esteira).

O afastamento provisório de Dilma Rousseff da presidência da República foi decidido no dia 12/05/2016, quando o Senado aprovou a abertura do processo de impeachment contra ela. Cinco dias depois o blog Náufrago da Utopia publicou esta minha exortação à abertura de um debate sobre a refundação da esquerda, justificando: 
"Um agudo processo de crítica e autocrítica hoje é imperativo, pois a derrota que acabamos de sofrer foi, em muitos aspectos, pior ainda do que a capitulação sem luta de 1964.
A reaglutinação de forças deve marchar paralelamente com a depuração moral, pois não conseguiremos reconquistar o respeito do cidadão comum se nossa imagem continuar associada à daqueles que, comprovadamente, tenham utilizado a atuação política para, de forma ilícita, perseguir objetivos pessoais como o enriquecimento e a conquista de status. 
E, claro, como não adianta repetirmos o que deu errado na esperança de que na vez seguinte dê certo, temos de discutir quais as novas estratégias e táticas a serem adotadas, para substituírem as que chegaram ao esgotamento na atual década".
Então, o que realmente se propunha era uma discussão em profundidade das causas de uma derrota política que,  saltava aos olhos, teria consequências terríveis para nosso campo.

Pois esta sempre foi a melhor tradição da esquerda: a de refletir sobre seus grandes erros, reciclar-se após os fracassos mais acachapantes e afastar ou rebaixar os dirigentes diretamente responsáveis pelas decisões desastrosas.

O stalinismo, contudo, introduziu a prática oposta, de calarem-se as críticas e os críticos (até assassinando-os!), de forma a impedir discussões que colocassem em risco o mito da infalibilidade do grande timoneiro.

No pós-1964 o Parido Comunista Brasileiro bem que tentou estancar o questionamento de sua atuação desastrosa, mas não conseguiu. O processo de crítica e autocrítica envolveu praticamente toda a esquerda da época e determinou um sem-número de rupturas, esvaziamento de partidos e organizações, fusões, lançamento de novas siglas, migrações de militantes, etc. 

Nosso campo reconfigurou-se totalmente, com o PCB perdendo a posição de força majoritária e boa parte da esquerda começando a direcionar-se para a luta armada.

O impeachment da Dilma, com a presidente petista sendo despachada para casa por um piparote do Congresso, sem que nenhuma reação importante adviesse, era mais do que motivo para haver um processo de discussões tão dramático quanto aquele. 

A falta de vitalidade que a esquerda demonstrou, aceitando com tamanha resignação um desfecho desfavorável ao extremo, foi o ponto de partida de todas as desgraças posteriores. O inimigo percebeu que poderia fazer impunemente o que bem entendesse – e fez!
Merece nosso reconhecimento o Tarso Genro, pois foi ele quem começou a propor uma refundação do PT, ainda em 2006, durante o escândalo do mensalão. Tentou em vão sensibilizar Lula em novembro de 2014 (foto acima). E, entrevistado pela Folha de S. Paulo em março de 2016, voltou a bater nesta tecla:
"O PT dificilmente vai ter perspectivas de poder nacional no próximo período. Isso não é uma consequência específica das operações. É o fim de um ciclo econômico, social e político do Brasil que foi levado ao esgotamento.  
O PT não soube reconstruir seu projeto desde o fim do governo Lula. Ficou excessivamente vinculado às limitações de uma frente tradicional com o PMDB, fundamentada em velhas práticas que a sociedade não aceita mais.
O PT vai ter que se refundar, vai ter que se reformar profundamente, se quiser continuar com um ator político importante"
 Candidatura fantasma: megalomaníaco desperdício de tempo!
Palavras proféticas: o partido sairia das eleições municipais do mesmo ano como o décimo (!!!) mais votado, e pior: a caminho de duas verdadeiras catástrofes, a prisão do Lula por 580 dias e a entrega do poder à extrema-direita em 2018.

O processo de crítica e autocrítica, que Lula sempre fez tudo para evitar, talvez alterasse o rumo dos acontecimentos. Sem coragem para encarar seus esqueletos no armário, o partido desceu ao fundo do poço.

Pode-se pensar, p. ex., que o próprio culto quase religioso à personalidade do Lula poderia ter sido colocado em xeque em tempo de evitarem-se descomunais lambanças, como o travamento de toda a articulação e mobilização do PT (e, por tabela, do resto da esquerda) para a fatídica eleição presidencial de 2018 em função da quimera de que o STJ permitiria sua participação como candidato.

Ou seja, ele colocou como prioridade maior a tentativa de provar que era inocente das acusações em função das quais estava sendo sentenciado e relegou a segundo plano o imperativo de evitar que neofascistas conquistassem o poder. 

Jamais perdoarei as vaquinhas de presépio do seu entorno, que lhe permitiram desperdiçar tanto tempo numa aposta que até as pedras das ruas sabiam que estava de antemão perdida.

E a megalomaníaca superestimação de sua força eleitoral levou Lula a cometer outro pecado capital, ao detonar quaisquer chances de formação de uma frente  de esquerda para enfrentar Bolsonaro. 
Se o PT apoiasse candidato de outro partido, não daria a Bolsonaro o formidável trunfo do antipetismo
Deu um chapéu em Ciro Gomes e tratou de inviabilizar a possibilidade de uma coligação de esquerda encabeçada pelo dito cujo, pela Marina Silva ou pelo Guilherme Boulos, oferecendo de mão beijada para o inimigo um trunfo fundamental, ao criar o cenário mais favorável para a acentuada rejeição ao PT tornar-se decisiva para o resultado final.

Agora, depois de ter dado contribuição fundamental para a conquista de quatro anos de mandato por parte do mais tosco presidente da história de nossa república, ainda faz questão de que sejam cumpridos até o último dia, para melhorar as chances de ele, Lula, ser eleito sucessor!

Ao tornar o PT uma cidadela inexpugnável à autocrítica conforme é praticada pela esquerda, Lula desempenhou papel dos mais  destacados na sucessão impressionante de desastres dos últimos anos.

E, mesmo no sentido mais banal da palavra autocrítica, que é o único ao qual Lula alude nas suas tiradas demagógicas, ele deve, sim, uma autocrítica ao povo brasileiro por:
Foi trágico Lula não ter tomado o lugar de Dilma em 2014
— haver afiançado a arrogante e incompetente Dilma Rousseff, cuja decisão de exumar teses econômicas de meio século atrás (o totalmente superado nacional-desenvolvimentismo) mergulhou o Brasil na recessão em que se debate até hoje;
 ter ficado surdo aos apelos de correntes importantes do petismo, as quais, avaliando corretamente que Dilma não conseguiria lidar com a crise que fabricara, cansaram de apelar para que ele, Lula, a substituísse como cabeça de chapa em 2014; e
 ter reduzido a questão da corrupção nos governos petistas a uma questão pessoal, como se eventuais vitórias nos processos criminais o eximissem da responsabilidade política pelo mar de lama em que um partido de esquerda se mancomunou com as figuras mais repulsivas do capitalismo putrefato, quando o que se impunha era um juramento solene (do Lula) de que tais fatos jamais se repetiriam, ponto de partida para o homem comum voltar a crer no PT e na esquerda em geral.

Embromação só cola quando direcionada a fanáticos ou a simplórios. E não é deles que o PT precisa neste instante, mas sim dos brilhantes formadores que um dia teve aos montes e depois insensatamente afugentou.

Se quiser começar a reverter o quadro, Lula precisa deixar de falar tolices sobre a autocrítica que o PT nos deve a todos e tratar de fazê-la, enquanto ainda existe algo para se salvar. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

PASMEM: AINDA EXISTE VIDA INTELIGENTE DENTRO DO PT! CONSEGUIRÁ SOBREVIVER A LULA E SEU SEBASTIANISMO IMOBILIZANTE?

Por Celso Lungaretti
Já nem me lembro mais de quando havia lido pela última vez frases proferidas por um dirigente petista que não fossem a habitual mistura de ortodoxia anacrônica com simplismo tacanho e auto-suficiência messiânica.

Eu já estava até desistindo, mas eis que me deparo com a entrevista do governador baiano Rui Costa à edição da Veja que está nas bancas e nela encontro, pelo menos, meia-dúzia de trechos (abaixo reproduzidos) contendo aquele óbvio ululante do qual o PT fugia como o diabo da cruz. 

É pouco? Claro! Mas, alguma coisa é sempre melhor do que nada. 

Para um partido que parecia ter abdicado em definitivo da vida inteligente, trocando a crítica, a autocrítica e o debate franco pelo culto submisso à sua própria versão de mito, Rui Costa representa uma esperança de que o PT vá finalmente sair da pasmaceira.
Nem o mito da direita, nem um D. Sebastião na esquerda

Agora, podemos até sonhar com o PT  se compondo com as demais forças de esquerda e algumas do centro para a viabilização de uma alternativa ao retrocesso civilizatório em curso. 

Segue abaixo o que Rui Costa declarou à Veja, e que para mim soou como um cesse tudo o que a antiga musa canta [em Curitiba], que um valor mais alto se alevantou [em Salvador]...  
.
"...o certo era ter apoiado o Ciro Gomes lá atrás [na última eleição presidencial]. Essa não é uma opinião que dou com a partida já encerrada. Eu e o ex-governador Jaques Wagner defendemos naquele momento a ideia de que o PT deveria ter um candidato de fora do partido caso houvesse o impedimento do ex-presidente Lula. Nenhuma outra liderança teria condições de superar o antipetismo ou disputar a Presidência em pé de igualdade naquele cenário..." 
Rui Costa: frente de esquerda é prioridade maior no momento
"...as últimas revelações mostram que essa apuração da Operação Lava-Jato foi usada com viés político-partidário. Não sou da opinião de que tudo o que foi apurado é falso ou fruto de manipulação para perseguir e condenar o PT e outros partidos de esquerda. Muitas daquelas coisas têm provas materiais. Entretanto a operação não tinha como alvo apenas corruptos, e sim filiações partidárias..." 
.
"...não acho que esse [a defesa do Lula livre] é o ponto que deve ser usado pelo PT para condicionar qualquer diálogo com as oposições para formar uma frente..."
.
"...manifestamos unilateralmente apoio a um dos lados na Venezuela, independentemente do que estivesse ocorrendo. A Venezuela enfrenta o mesmo momento que o Brasil, mas no oposto ideológico. Há sinais claros de que a democracia está sendo desrespeitada e de que agressões estão sendo desferidas contra pessoas e seus direitos..."
Ciro Gomes se considerou "miseravelmente traído por Lula" e disse que o PT elegeu Bolsonaro
"...eu me filiei ao partido no início da década de 80. Naquele momento, tínhamos núcleos nas comunidades mais pobres e uma capilaridade social grande. Isso se perdeu ao longo do tempo. Houve uma burocratização nas últimas décadas que afastou o povo do PT. Se o partido ainda tivesse esses núcleos, teria sentido o crescimento evangélico nas periferias e a urgência de um debate sobre a violência..." 
.
"...o maior desafio do PT é se reconectar com a sociedade brasileira. Para muita gente, foi o PT que criou a corrupção. Isso é uma falácia. A acusação que se pode fazer ao partido é de não ter correspondido à esperança de que ele enfrentaria aquele modelo político que existia no Brasil. A política brasileira pós-ditadura foi toda financiada com campanhas de dinheiro não regularizado..."
Incoerência: quem combate a arminha do Bolsonaro não pode defender a espada do Maduro

terça-feira, 20 de junho de 2017

RUPTURA À VISTA: ESQUERDA PETISTA COGITA CRIAR NOVA LEGENDA COM O BOULOS OU INGRESSAR NO PSOL

Era um partido sem patrões, hoje é dócil com os patrões. 
Lá se vão quase dez meses desde que o Senado Federal extinguiu o mandato presidencial de Dilma Rousseff, selando a mais vergonhosa derrota da esquerda brasileira desde o golpe de 1964 – uma nova destituição de chefe do Governo sem resistência minimamente significativa, com a agravante de que, se daquela vez os tanques saíram à rua para intimidar João Goulart, em 2016 bastou um piparote parlamentar para despachar Dilma. 

E só agora, apesar da insistência da cúpula petista em evitar que o partido efetue o imprescindível processo de crítica e autocrítica, o bloqueio começa a ser rompido: os quadros mais consequentes já se reúnem com outras forças para tirarem as conclusões que se impõem, discutindo as causas do fiasco e buscando novas linhas de atuação para substituírem as que fracassaram rotundamente.

A Folha de S. Paulo noticia que, na tarde e noite do último domingo (18), alguns petistas mais consequentes estiveram reunidos com dirigentes do PSOL e representantes de movimentos de esquerda a fim de traçarem "uma estratégia conjunta para a oposição". 

Segundo a repórter Cátia Seabra, o anfitrião foi Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, que convidou, entre outros, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ); o ex-ministro da Justiça Tarso Genro; o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) e o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ).

Decidiram insistir na elaboração de uma plataforma comum da esquerda, proposta que já foi rechaçada duas vezes pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (uma delas ao discursar no recente Congresso Nacional do PT). 

Neste sentido, promoverão debates públicos e via internet, visando à formulação de um "programa mais à esquerda", que "vá além" da timidez dos governos petistas. A reforma do sistema tributário, uma auditoria do sistema da dívida e o controle da mídia serão alguns dos assuntos em discussão, de acordo com a notícia.

Também estaria sendo cogitada a possibilidade de a chamada esquerda petista deixar o partido, ou para formar uma nova agremiação juntamente com Guilherme Boulos, ou em direção ao PSOL.

A pá de cal parece ter sido a postura atual do Lula, de deixar tudo como está para ver como fica, tendo feito declarações do tipo "depois dos discursos inflamados, tem que chegar em casa e colocar na balança, para saber se ele é exequível". 

Lula chegou ao cúmulo de dizer que, para governar, é preciso fazer alianças com os eleitos – ou seja, prega a repetição dos mesmíssimos erros que conduziram aos infernos do mensalão e do petrolão, além da descaracterização e domesticação graduais que o PT vem sofrendo desde a desastrosa opção pela conciliação de classes.

E não poderia faltar a nota pitoresca: segundo Tarso Genro, os participantes da reunião teriam feito um acordo para evitar que sua realização vazasse para a imprensa. Mas vazou, como tudo vaza nos círculos políticos, governamentais e jurídicos. Somos o país da incontinência verbal... e de incontinências piores também.

Por último, como avaliarmos a iniciativa desses companheiros? A coisa ainda está embrionária, mas uma certeza existe: a esquerda chegou ao fundo do poço e, pior do que está, não pode ficar. Quaisquer mudanças de rumos têm, portanto, enormes chances de serem para melhor.

sábado, 22 de abril de 2017

OS QUE FORAM PERSEGUIDOS NO PT FAZEM UM APELO AOS ANTIGOS COMPANHEIROS

Por Dalton Rosado
Confesso que experimento um sentimento de constrangimento, até de vergonha, diante da comprovação da dimensão da corrupção praticada pelo núcleo duro do poder petista. Não se trata de um regozijo revanchista para com ex-companheiros da direção partidária ora em desgraça e que nos perseguiram dentro do PT. É também um voto de esperança, torcendo para que tudo sirva de lição e aprendizado.

Não se pactua com satanás sem que se saia queimado pelo calor do seu tridente.      

Fui fundador do PT em Fortaleza. Participei da eleição de 1982 quando escolhemos um antigo comunista honrado, o professor Américo Barreira como nosso candidato a governador. Éramos poucos e, como diziam amigos de esquerda, descrentes da possibilidade do PT vir a ter alguma representatividade política no Ceará (nem o PMDB conseguia enfrentar os coronéis com alguma chance de vitória), nós todos cabíamos numa Kombi. Perdemos, obviamente, mas saímos de cabeça erguida, sem apelar para ajudas financeiras espúrias. 

Mas a coisa foi tomando corpo e, aos poucos, apareceu gente do movimento de bairros, do movimento sindical, do movimento de mulheres, de pessoas ligadas à defesa dos direitos humanos (como eu, que era advogado nessa área), alguns intelectuais progressistas, etc. De repente, passamos a ter alguma representatividade.

O PMDB (que, à época do bipartidarismo, hospedava diversas vertentes da esquerda) forçou a saída de membros mais revolucionários, passando a assumir a sua verdadeira identidade, qual fosse ade falsa oposição à ditadura; afinal, foi um partido criado pelos usurpadores do poder como forma de dar legitimidade à farsa democrática de um governo militar ditatorial.
Maria Luíza: símbolo de um PT mais ético

O nascente Partido dos Trabalhadores foi o receptáculo natural de muitos dos militantes de esquerda que estavam fustigando no início dos anos 80 a combalida ditadura, enfraquecida pela corrupção e piora da economia após o falso milagre brasileiro.
  
O PT de então agrupava sindicalistas combativos e pessoas que arriscavam a vida e privilégios numa afronta perigosa a uma ditadura militar que, embora decadente, ainda estava viva e apoiada pela sempre poderosa e conservadora elite econômica e política brasileira. 

Qualquer grande capitalista que aparecesse nas reuniões e assembleias do PT se sentiria como peixe fora d’água. O discurso petista enchia de esperança os que, como eu, desde os albores da juventude, lutavam por uma sociedade justa a partir da inserção no jogo político eleitoral (com certa dose de ingenuidade). 

Bradávamos por eleições diretas como se essa fosse a chave para a solução de todos os problemas (ou, no mínimo para o início da solução). Desconhecíamos o poder de manipulação do capital e da elite política brasileira a seu serviço no processo eleitoral. O foco de todos nós era a queda da ditadura. 

As grandes mobilizações de 1984 pelas eleições diretas foram traídas por muitos daqueles que estavam à frente do movimento, mas fazendo jogo duplo, pois lhes convinha mais que a decisão se desse no Colégio Eleitoral. Caso da velha raposa da política tradicional, o peemedebista de então Tancredo Neves, cuja possibilidade de ser o principal candidato das oposições pela via direta era mínima. 

Veio a rejeição da Emenda Dante de Oliveira e muitos dos chorosos parlamentares derrotados no Congresso Nacional, vibraram em seus gabinetes e corações com a possibilidade de escolha de um presidente e vice por eles mesmos. 
Outro expurgo traumático: Heloísa Helena, Luciana Genro e Babá
Foi assim que José Sarney, o presidente do PDS (partido da ditadura militar que, no futuro, se tornaria aliado confiável do PT), conseguiu se eleger presidente da República, ou seja, a ditadura caiu e seu representante político mais proeminente ficou de pé e dirigindo o país. Só com uma elite política como a brasileira é que tal fato político pode ser explicado. 

O PT parecia ser a força política capaz de galvanizar a luta dos oprimidos contra a opressão. 

Foi nesse caldo de cultura que veio a primeira vitória do PT numa capital de estado: em Fortaleza, a quinta do país, em 1985. A eleita era uma mulher temperada nas lutas do povo, marxista, decidida a governar a cidade mesmo sem ter a apoiá-la um único vereador, deputado estadual ou federal; e isto quando as prefeituras ainda funcionavam como secretarias de estado, uma vez que a ditadura havia retirado suas autonomias financeiras (que somente seriam restabelecidas em 1989).

Fui secretário de Finanças desta primeira experiência petista e comemos o pão que o diabo amassou por mantermos a nossa postura de não conciliação com as forças políticas convencionais; ademais, sem ceder um milímetro às tradicionais concessões (leia-se corrupção) com o dinheiro público. 

Para nossa surpresa, eis que o PT nos virou as costas. Já estava em curso a negação de tudo aquilo que se acreditava ser a própria alma do PT.
Este jamais seria conivente com mensalões e petrolões

Fomos expulsos porque o então chamado grupo da Maria Luíza não só me indicou para concorrer à sucessão, como não se vergou às pressões para desistir da escolha que fizera,       

Deixamos o poder municipal como entramos (pobres financeiramente); e perseguidos pelo PT e por outros segmentos da esquerda (PC do B incluso), que fizeram coro com a direita que sempre nos detestou. Mas saímos com o sentimento de quem cumpriu um dever histórico e com a consciência em paz de quem jamais manchou a própria honra. 

Tudo isso nos serviu como lição que aos poucos consolidaria convicções práticas e teóricas riquíssimas, capazes de nós fazer compreender quão ineficaz é a luta política tradicional contra o poder do capital dentro de sua arena eleitoral e administrativa, e da qual jamais devemos participar. 

O PT, daí em diante, cada vez mais se tornou igual àqueles que dizia combater. O poder corrompe; e a continuidade no poder corrompe muito mais, como se dizia outrora. 

Tal qual na fábula da rã que não se apercebeu que o calor reconfortante inicial da água em aquecimento terminaria por entrar em ebulição e matá-la, o PT está sendo cozido no caldeirão do diabo no qual escolheu viver e conviver.                       
.
AOS MILITANTES HONESTOS QUE SOFREM COM OS RESPINGOS DE LAMA
.
O que pode esperar quem se associa a Suicídio Amoral?
Conheci e conheço muita gente digna no PT, que sofre por ser identificada como petralha, mesmo não o sendo. 

Gente que está assistindo, incrédula, ao festival de delações ricas em detalhes e de fácil comprovação, muitas feitas por inimigos de classe que jamais deveriam ter sido aceitos como parceiros de jornada; outras por aliados do PT; algumas provenientes de companheiros do tipo Dulcídio do Amaral (Suicídio Amoral, se me perdoam o trocadilho pronto); e até de quem tem histórico revolucionário mas o compromete em infames tentativas de salvar a própria pele. São delatores corruptos que estão apontando os seus dedos sujos contra parceiros de roubalheira. Um nojo.  

Em seu sofrimento, há os que tentam justificar tudo como se fosse uma orquestração da direita (que realmente se regozija com a retirada das máscaras de caráter de importantes dirigentes da esquerda), alegando que tudo não passaria de uma grande conspiração orquestrada pelo capital nacional e internacional, como se o fim justificasse os meios utilizados pelo PT quando do exercício do governo. Ou seja, as maracutaias teriam sido perpetradas em benefício do povo, num sentido mais amplo. Tal postura é evidentemente, injustificável e insustentável. 

Antes de defenderem os desvios de caráter (que indiscutivelmente ocorreram!) por parte daqueles em quem acreditaram e confiaram, tais companheiros íntegros deveriam combatê-los, compreendendo que existe uma contradição inconciliável entre o exercício do poder político burguês, institucional, e a honestidade. 
Há tendências do PT opondo-se à conciliação de classes

Quando a esquerda chega ao poder sob a égide do capital, ou se corrompe, e assim sobrevive por algum tempo até que o próprio sistema a desmascare (como agora ocorre); ou não se corrompe e dele é defenestrado politicamente como um vírus estranho ao organismo.  

A principal lição a ser extraída pelos que estão a presenciar tal festival de horrores, que estão com o coração sangrando de dor e a mente latejando com a humilhação sem fim (digo isto sem nenhum espírito de retaliação contra os que tanto me hostilizaram e agora estão em desgraça), é a seguinte: ao invés de almejarmos a assunção ao poder burguês, temos é de o negar completamente.

Como? Lutando para forjarem um anti-poder que, mesmo não sendo imune aos vários tipos de corrupção inerentes à condição humana, dificulte a sua prevalência, ao invés de se constituir num estímulo à sua ocorrência, como se dá sob o capitalismo.

A saída para os companheiros petistas dignos, enfim, não é a defesa do indefensável, mas a construção de um novo caminho, sem o capital e seus construtos político-institucionais.
.
PS: delatar companheiros para salvar a pele, alegando que age em nome do bem do Brasil, demonstra que o delator, além de hipócrita e corrupto assumido, é dedo-duro traidor de seus cúmplices de roubalheira. 

Para que tem dignidade pessoal, a cadeia por longo tempo é moralmente mais digna do que uma tornozeleira eletrônica num apartamento de milhões de reais por pouco tempo.
Related Posts with Thumbnails