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quarta-feira, 3 de abril de 2024

A CINEBIOGRAFIA DE HANNAH ARENDT É UM TRIBUTO À DIGNIDADE DE UMA JUDIA QUE NÃO ABDICOU DO SEU ESPÍRITO CRÍTICO

Barbara Sukowa foi convincente como Hannah Arendt 
Não considero o filme Hannah Arendt uma obra-prima da sétima arte. 

Estou longe de ser um fã de carteirinha da diretora alemã Margarethe von Trotta, a quem avalio como inferior a outros cineastas que incursionaram pelo cinema político, como Costa Gravas, Damiano Damiani, Francesco Rosi, Gillo Pontecorvo e Giuliano Montaldo

Seu Rosa Luxemburgo, p. ex., ficou muito aquém da magnitude da personagem histórica que antecedeu Trotsky na firme rejeição dos componentes autoritários que acabariam por descaracterizar completamente a revolução soviética.  

Mas, o quarto de século transcorrido entre um e outro filme lhe fez bem (assim como à atriz Barbara Sukowa, muito melhor no de 2012 que no de 1986). 

Se na biografia cinematográfica da Rosa vermelha a von Trotta quis abarcar acontecimentos demais e não soube separar o fundamental do dispensável, em Hannah Arendt tomou a sábia decisão de restringir-se ao que realmente importava: a cobertura do julgamento de Adolf Eichmann e o fogo amigo que Arendt enfrentou por não ter abdicado do seu espírito crítico.

Judia alemã, ela se refugiara nos EUA e por lá ficou, tendo se tornado uma respeitada professora de filosofia,  autora de um livro famoso: Origens do totalitarismo.
Eichmann: "eu era um funcionário subalterno sem autonomia".

Quando agentes israelenses sequestraram o criminoso de guerra nazista na Argentina, em 1960, Arendt convenceu o jornal 
New Yorker a designá-la para a cobertura do julgamento de cartas marcadas que o Estado judeu encenaria para dourar a pílula da execução, confundindo justiça com uma vendetta subsequente a um ato de pirataria.

[As bestas-feras da Operação Condor teriam agido da mesmíssima maneira, mas sem o cinismo de tentarem legitimar a lei das selvas...]  

Embora não tivesse até então denunciado a ilegalidade e imoralidade intrínsecas àquela farsa judicial, Arendt recuperou-se ao destoar da linha justa israelense, que erigia Eichmann num monstro, com redobrado furor em função da má consciência: perseguidos durante milênios, os judeus, lá no fundo, sabiam muito bem que haviam cometido um erro terrível ao desrespeitarem a soberania de um país que nem inimigo deles era (a Argentina). 

Afora que, não tendo sido capturado em território israelense, Eichmann só poderia ser julgado por um tribunal internacional como o de Nuremberg.

Então, vilificavam-no ao máximo, da forma mais estridente possível, para abafar os tímidos posicionamentos discordantes. Começavam a incidir nas mesmas práticas que tanto haviam recriminado nos nazistas.
Arendt, contudo, teve a coragem moral de, nos seus artigos para o New Yorker (depois reunidos no livro 
Eichmann em Jerusalém - um relato sobre a banalidade do mal) apresentar o réu apenas como um burocrata medíocre, um pau mandado, um elo a mais da engrenagem totalitária.

[É como sempre vi os Ustras, Curiós e delegados Fleury: tão primários e tacanhos que nem sequer aquilatavam o quanto seus atos eram hediondos. Mereciam expiar seus crimes nos 30 anos de cativeiro que as leis brasileiras admitem, mas muito mais culpados foram os que tinham plena consciência do que faziam ao abrirem as portas do inferno. Refiro-me, claro, aos oportunistas como o Delfim Netto, que lhes retiraram as focinheiras ao assinarem o AI-5.]

Outra heresia, no bom sentido, de Arendt foi apontar a cumplicidade de alguns judeus com os carrascos: os chamados conselhos judaicos, na Alemanha e na Polônia, haviam ajudado os nazistas a confiscarem bens, arrebanharem as vítimas e as enviarem para os campos de concentração. Era uma informação que os israelenses preferiam omitir, por motivos propagandísticos óbvios.

Foi o suficiente para desabar uma tempestade de críticas sobre Arendt, que passou a ser tão estigmatizada pelos judeus (inclusive os progressistas), como, digamos, Joaquim Barbosa pelos petistas. Para quem nunca soube ou não se lembra, mesmo sendo um ministro do Supremo simpático aos ideais esquerdistas, ele manteve a imparcialidade no julgamento do mensalão, ao invés de empurrar os delitos companheiros para baixo do tapete.

Hannah Arendt foi de uma dignidade exemplar, não recuando um milímetro. 

Daí merecer hoje nosso enfático reconhecimento, não só por pela relevância e atualidade de sua obra, mas também por haver sido uma pensadora que teve o vislumbre do ovo da serpente sionista e se manteve fiel a sua visão libertária, resistindo às fortíssimas pressões oriundas do seu círculo. 

Se dependesse dela, Israel teria continuado a ser o dos kibutzim, não o dos pogroms. (por Celso Lungaretti)

domingo, 12 de abril de 2020

A DIREITA É O GUIZO DA CASCAVEL E A VINGANÇA DA IGNORÂNCIA (imperdível!)

Na esteira da epidemia virá outra onda humanista?
josé roberto aguilar
O PÊNDULO DA HISTÓRIA
A pele que eu habito me machuca. Como se tivesse espinhos dentro. Nós, brasileiros, nunca estivemos dentro de uma guerra. Agora estamos. A peste chegou com o nome de novo coronavírus.

Eliminou o conforto, a normalidade, a razão e, inclusive, o tempo. Numa parte do dia sentimos este pânico momentâneo e depois ele some, e a razão volta a sussurrar nos ouvidos: “Tudo isso vai passar”. Sim, vai passar, mas vai deixar rastros que vão conduzir ao caminho de uma nova pele.

A epidemia traz consigo uma cruzada tenebrosa: o humanismo contra a barbárie. Junto com a banalização do mal (teoria criada pela alemã Hannah Arendt) caminha a banalização da morte. A eliminação pura e simples dos menos aptos: os idosos.

Aqueles que não têm a capacidade do desempenho e do consumo numa sociedade capitalista. São, portanto, descartáveis.

Outra epidemia conveniente foi há três décadas: a da Aids. Eliminou as sociedades alternativas e o amor livre, altamente perigoso para o consumo e a família. 

A epidemia mais tenebrosa foi a gripe espanhola. Ceifou 40 milhões de vidas. Esta banalização da morte levou ao surgimento do fascismo e do nazismo, ao genocídio de raças impuras e à 2ª Guerra Mundial.
Se o pêndulo vai para a esquerda, paz. Para a direita, guerra

O pêndulo da história está sempre em movimento, acompanhando a consciência coletiva, e ele só tem duas direções: para a esquerda, paz. Para a direita, guerra. 

Esquerda significa o humanismo. O olhar para si próprio e olhar o outro. Cuidar! O outro é você. Saber que a sua pele foi feita de consciência. E de lutas pela igualdade humana. 

Filósofos, cientistas, artistas, libertários e pessoas comuns ajudaram a costurar essa pele com enorme sacrifício, como demonstra a história. A sua pele é a sua casa, é a sua vida. 

Esquerda não é só uma posição política. É, antes de tudo, uma consciência humanitária.

direita é a ordem imperando sobre a razão. A ordem do consumismo, da ganância e do poder. O domínio da mesmice e da sobrevivência do mais apto ao conformismo. A anticultura, a antipele. O guizo da cascavel. Mais do que uma posição política, é a vingança da ignorância.

O maior salto que poderemos dar é reconhecer a nossa barbárie. Todos nós somos as duas coisas. Amor e ódio. Não devemos combater o ódio (a barbárie) em nós mesmos pela luta. Na luta ele se fortalece. 

Aceitação. Ao aceitar o seu (meu, nosso) ódio, ele perde a força. Isso é mutação, ou a costura de uma nova pele, sempre em transformação. O fim do dualismo e do confronto.
"a direita é a ordem do consumismo, da ganância e do poder imperando sobre a razão"
Estarmos preparados para o desconhecido é que vai gerar uma nova economia. Não baseada no supérfluo e na moda, mas focada nas necessidades de uma vida mais despojada. Uma nova sociabilidade, que não se guia na competição individual, mas no abraço social. 

Os paradigmas do passado se esvaneceram. Traduzir o momento vai ser o maior desafio e para isso vamos ter que cair no aqui e no agora. 

Vai ser angustiante porque as canções de ninar também desapareceram, assim como o conforto de uma liderança política paternal. É angustiante, mas é a única forma de se ter uma identidade pessoal; isto é, uma nova pele.

A batalha de Armagedon não está na sobrevivência à epidemia do novo coronavírus. Mas em como vamos nos comportar depois dela. Devir e cair dentro do humanismo. (por José Roberto Aguilar, escritor, pintor e videomaker)

segunda-feira, 4 de março de 2019

GIULIANO GEMMA MARCA DUELO NA RUA PRINCIPAL DE CARACAS. FERNANDO SANCHO VAI ENCARAR? QUEM PISCARÁ PRIMEIRO?

Guaidó pode até ser um mocinho fake...
No mundo é carnaval, na Venezuela é bangue-bangue: o autoproclamado presidente Juan Maria Guaidó resolveu partir para o tudo ou nada contra o presidente de facto mas de fraude Nicolas Maduro, cuja recente reeleição teve a mesmíssima legitimidade da eleição de Jair Bolsonaro. 

[A única diferença está em que o venezuelano já conseguiu se desmoralizar por completo e o brasileiro só o fez, por enquanto, aos olhos de quem sabe ler e entender o noticiário político, uma pequena minoria dos cidadãos destes tristes trópicos...]

Diferenças na ideologia de que os dois servem-se para realizar suas ambições pessoais à parte (não dá para levar nem um nem outro a sério neste quesito), bem que Maduro poderia dizer para Bolsonaro: eu sou você amanhã. Pois, se não lhe botarem freio, ele, com seus filhos aloprados e seus bizarros ministros,  produzirão estragos de idêntica monta no Brasil. Não sobrará pedra sobre pedra. 

Guaidó marcou para esta 2ª feira (4) um duelo na rua principal, mesmo ciente de que as podres autoridades da cidade podem prendê-lo e até olharem para o outro lado enquanto um assassino providencial o mata (há assassinos providenciais que realmente matam, assim como há outros que fingem tentá-lo para beneficiar a suposta vítima, como os brasileiros aprendemos recentemente).

Se fosse um western italiano, Maduro, embora vilão da cabeça aos pés, teria cojones para ir encarar o mocinho... e perderia, claro, pois onde já se viu um galã parecido com o Giuliano Gemma levar a pior contra um gorducho bigodudo que faz lembrar o Fernando Sancho?

De qualquer forma, se Maduro nem sequer nos diverte (parece-me a própria personificação da banalidade do mal a que se referiu Hannah Arendt), Guaidó pelo menos tem se esforçado para proporcionar bons espetáculos. Vamos ver se, ha hora H, não vai piscar.
...mas de que Maduro seja um vilão não existe a mais remota dúvida.
O último que tentou proezas similares  foi um canastrão lá de Honduras,  Manuel Zelaya, em 2009.


Isto após ter, num primeiro momento, vacilado feio: aceitou docilmente ser conduzido de pijama para o aeroporto e despachado para fora do país, a mando do Congresso (que o depôs da presidência) e dos militares. 

Programou um retorno épico, acreditando que o povo estaria à sua espera na fronteira para carregá-lo nos braços de volta ao palácio. Chegou, viu o dispositivo militar que o aguardava, enfiou o rabo entre as pernas e desistiu da empreitada.

Tempos depois, desembarcou secretamente em Tegucigalpa e enfurnou-se na embaixada brasileira, onde ficou coçando o saco durante quatro meses até cair na real, enfiar o rabo entre as pernas mais uma vez e conformar-se com o exílio. 

Tomara que o show do Guaidó seja menos decepcionante.

Sei que este texto zombeteiro vai escandalizar muito companheiro que ainda acredita em contos de fadas. No mundo real a presidência de Maduro já está nos estertores, nada nem ninguém a salvará e, quanto mais demorar a agonia, mais o povo venezuelano (a grande e única vítima desse imbroglio) vai sofrer terrivelmente. 
Um mau precedente: Zelaya rugiu, rugiu... e afinal miou.

Mais: se temos motivos de sobra para desconfiarmos do Guaidó e seus apoiadores, a inadequação do Maduro é uma certeza. Não dá para esquerdista consciente nenhum defender personagem tão sinistro, lamento; caso contrário, daremos razão a todos os inimigos que nos qualificam de totalitários e sanguinários em potencial.

Que Maduro caia logo. Para que venezuelanos realmente idealistas salvos do incêndio, se ainda existirem, comecem depressa a reconstruir sua esquerda, que foi feita em cacos — assim como a nossa, que deveríamos ter começado a reconstruir há dois anos e meio, mas estamos marcando passo até hoje... (por Celso Lungaretti) 

sábado, 20 de outubro de 2018

HÁ UM ABISMO ENTRE A SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL DO SÉCULO 21 E OS FEUDOS DA IDADE DAS TREVAS. CAIREMOS NELE?

demétrio magnoli
É FÁCIL PROPOR ESPELHISMO ENTRE BOLSONARO
E HADDAD, MAS SERIA À BASE DE SOFISMAS
A muito custo chegamos até aqui...
Um leitor solicita que eu produza a carta que Bolsonaro não escreverá, como complemento da carta que Haddad não escreverá (vide aqui). Fazê-lo, porém, seria sugerir uma simetria que não existe. 

Há simetria se uma figura no plano pode ser dividida em partes de tal modo que elas coincidam exatamente, quando sobrepostas. A simetria perfeita é uma construção matemática. Na biologia, na arquitetura e na arte registram-se simetrias quase perfeitas. Em política, existem simetrias estruturais, mas não simetrias formais. 

Exemplo clássico: os totalitarismos nazista e stalinista, tal como descritos por Hanna Arendt. Mesmo se seus regimes exibiram formas muito distintas, Hitler e Stalin seriam capazes de reconhecer, um no outro, as suas próprias imagens. Isso não acontece com os dois candidatos presidenciais restantes.

Nas simetrias axiais, o eixo de simetria separa a figura em metades espelhadas. É fácil propor espelhismos políticos entre Bolsonaro e Haddad. O empreendimento, contudo, sustenta-se à base de sofismas.  
...mas existem brasileiros tentados a voltarem para cá.

A linguagem da violência é um traço comum ao PT e a Bolsonaro. Mas eles procedem de modo assimétrico. Os alvos do PT que insulta (fascistaracista) ou tenta excluir do debate público (inimigo do povo) são adversários políticos definidos.

Já os alvos de Bolsonaro são, além de adversários singulares, grupos sociais inteiros: mulheres, gays, quilombolas. (Nota: o descarrego de Marilena Chaui, "eu odeio a classe média", não é regra, mas exceção). 

A violência, ela mesma, também aproxima os antagonistas. Mas não há simetria. O PT habituou-se a praticar violência simbólica, via militantes que irrompem aos berros em debates políticos e eventos acadêmicos ou se organizam em atos de repúdio contra figuras públicas. 

Já os camisas amarelas bolsonaristas inauguram, antes ainda do desfecho eleitoral, a prática da violência física contra pessoas comuns que expressam opiniões divergentes. (Nota: o atentado sofrido por Bolsonaro partiu de um indivíduo desequilibrado, não de uma turba militante).

Tanto o PT como Bolsonaro devem ser reprovados no teste do repúdio a regimes ditatoriais. O PT brada contra ditaduras de direita, mas acalenta as de esquerda; Bolsonaro faz o contrário.

Também aí, inexiste simetria. O apoio do PT às ditaduras cubana e venezuelana exprime-se genericamente. A nostalgia de Bolsonaro pela ditadura militar brasileira inclui o elogio da tortura e a celebração de torturadores. 
Bolsonaro faz "o elogio da tortura e a celebração de torturadores"
O silêncio  de Haddad diante da morte de Fernando Albán, um opositor sob custódia da polícia política de Maduro, num caso similar ao de Vladimir Herzog, não equivale às homenagens de Bolsonaro ao coronel Brilhante Ustra. As duas posturas são repulsivas, mas assimétricas.

A prova decisiva de que a simetria é falsa encontra-se na história. O PT é fruto da transição da ditadura para a democracia. O partido, principal máquina eleitoral e parlamentar do Brasil, só pode existir no ambiente de liberdades oferecido pelo regime democrático. 

Nos seus longos anos poder, apesar de uma certa retórica voltada para dentro, o lulismo respeitou a regra do jogo —inclusive quando seus dirigentes foram condenados e encarcerados. 

Já Bolsonaro é fruto de uma crise da democracia: o movimento pela intervenção militar que acompanhou, como sombra agourenta, o processo do impeachment. A seleção de seu vice e de um círculo de conselheiros militares arromba a porta que separava a política dos quartéis. 

Mesmo nas circunstâncias atuais, Haddad não assinará uma crítica dos erros de política econômica, dos crimes de corrupção e das taras ideológicas do PT pois é prisioneiro do lulismo.

Se corresse riscos eleitorais, Bolsonaro assinaria um termo falso de imorredouro amor pela democracia pois não está preso a nenhuma estrutura política estável. 
(por Demétrio Magnoli)

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

OS MOTIVOS DAS GUINADAS ABRUPTAS À DIREITA NA POLÍTICA MUNDIAL

Não é novidade o fato de que em momentos de crise econômica aguda surjam movimentos abruptos à direita. A análise que se pode fazer sobre tais movimentos é que eles consistem numa busca desesperada de soluções sem maior reflexão por parte da população economicamente exaurida. 

É nesse contexto que surgem mais facilmente os salvadores da pátria com seus discursos simplistas de soluções aparentemente práticas para problemas complexos.

O exemplo histórico mais emblemático é o surgimento do Partido Nazista, que levou o povo alemão a uma histeria supremacista a partir de 1923, quando a inflação alemã estava de tal modo acentuada que o marco alemão nada valia e toda a economia do país se deteriorava, deixando o povo perplexo.

Hitler apareceu como o homem forte capaz de resgatar o orgulho alemão ferido de morte na 1ª Guerra Mundial e capaz de recuperar a economia como um outsider de espírito militarista disciplinador.

A economia alemã, na esteira da recuperação mundial depois da crise de 1929/1930, caiu como uma luva para aquele que parecia ser capaz de reconduzi-la ao patamar que os germânicos consideravam ser o seu lugar numa Europa que lhes impunha sacrifícios enormes desde a derrota militar.

O resultado do endeusamento dos princípios militaristas dos nazistas, fixados no respeito à disciplina e ao trabalho abstrato produtor de valor (nos campos de concentração nazistas se lia a frase O trabalho liberta) atingiram seu clímax com concentração de poderes em Hitler, cujo despotismo incubado acabou logrando a legitimação pelo voto. Era a democracia burguesa a serviço da tirania.
De início, salvador da pátria; depois, seu destruidor

Os valores humanistas passaram a ser sistematicamente desmoralizados pela propaganda de massas surgida a partir de um novíssimo instrumento de comunicação de então – a radiofonia. 

Assim, os métodos nazistas de imposição da força passaram a ser absorvidos pela consciência alemã como resultante natural de um sentimento supremacista diuturnamente introjetado nas consciências dos cidadãos alemães pelo maciço proselitismo do seu ministro da Propaganda Joseph Goebbels. 

Tudo se processou num espaço de apenas 20 anos; uma consequência foi o maior genocídio já sofrido pela humanidade, com aproximadamente 50 milhões de mortos e atrocidades tão terríveis contra a vida humana que antes tidas como impossíveis de acontecer. Os relatos sobre os crimes de guerra nazistas não têm precedentes em crueldade. 

Qualquer semelhança de 1939/1940 com a realidade político-econômica mundial de 2018 não é mera coincidência, mas sim a repetição histórica de um quadro de depressão que, com a potencialidade genocida atual (população maior, economia globalizada e artefatos militares nucleares de destruição), prenuncia-se como muito mais grave.

Candidatos que se propõem a resolver complexos problemas sócio-econômicos (cuja base reside no choque entre forma e conteúdo do modo de produção social que encontrou o seu limite existencial) a partir de bravatas simplistas que buscam na causa do mal a solução para o mal, infelizmente calam fundo na inconsciência popular pauperizada e desesperada pelo desemprego e subemprego –tendente, portanto, a acolher tal discurso ilusionista, pois este vai ao encontro dos seus anseios mais imediatos. 
"Maior genocídio já sofrido pela humanidade"

A massificação da informação imediata pela internet, ao vivo e a cores, com abrangência imensamente maior do que a do rádio da época hitlerista, é agora otimizada por mecanismos de análise mercadológicos (a análise da emoção como base da indução ao comportamento), podendo ser tão perigosa quanto foi durante o período que vai da ascensão de Hitler ao poder até o seu suicídio.

O fenômeno do surgimento de novos salvadores da pátria é mundial porque a crise do capitalismo é mundial e não são difundidas alternativas consistentes e modernas a esse modo de mediação social.   

Mesmo os Estados Unidos, tido como exemplo a ser seguido economicamente por seus elevados PIB e  níveis de empregabilidade, não resiste a uma análise mais acurada e fria da sua realidade: a insustentabilidade de longo prazo fica bem evidente. 

Segundo o secretário do Tesouro Steven Mnuchin o déficit do orçamento fiscal estadunidense cresceu 17% em 2017, atingindo a cifra de US$ 799 bilhões e a dívida pública americana bateu recorde totalizando US$ 20 trilhões, para um PIB anual de USS 19,3 trilhões.

Como os EUA conseguem conviver com tais números sem grandes traumas na sua economia? Com a credibilidade do seu dólar, moeda internacional por todos aceita, que assim pode ser emitida sem lastro e exportada sem causar inflação interna; e com a venda de títulos a juros substancialmente baixos.

Tal mecanismo, artificial por excelência, não perdurará indefinidamente. 
Será iminente outra grande crise?

Já a China, segunda economia mundial em termos absolutos, recebeu em agosto passado um comentário do FMI, que considerou perigoso o seu alto nível de endividamento, de 235% do PIB com projeção de crescimento para 290% até 2022. O FMI alertou que isto poderá eventualmente provocar uma desaceleração acentuada do PIB anual de 6,7%, o que seria desastroso para a economia mundial já combalida. 

A nossa rica e vizinha Argentina, com o governo de centro-direita de Maurício Macri, vive um processo de deterioração econômica, com inflação de 40% ao ano, tendo já batido às portas do FMI para pedir empréstimos salvadores. Na América latina o quadro é de depressão, como, aliás, em toda periferia mundial do capitalismo. 

Nesse cenário depressivo em âmbito mundial ocorre uma fuga para a frente, ou seja, a ilusão de que a melhora do quadro seja possível com medidas político-econômicas de austeridade, além da redução de franquias democráticas e de vários direitos, um pacote somente passível de ser implementado por políticos que se dizem avessos ao que até então vinha sendo praticado (os outsiders). Sonha-se com a recomposição do antigo status quo, ora em rota de deterioração crescente. 

A falta de conhecimento teórico por parte da população sobre as causas do seu infortúnio abre caminho para o acolhimento de bravatas eleitorais simplistas estimuladas por uma propaganda ágil, que, embora falsa, atinge o cerne dos anseios populares.

Deveria se constituir como crime eleitoral (tal como ocorre na venda de mercadorias) a propaganda enganosa de políticos com viés totalitários que mais não são de que a defesa do velho travestido de novo.  
Tudo isso já foi falado ou tentado, nada vingou
O quadro brasileiro da economia imporá medidas de austeridade como forma de recuperação do orçamento fiscal num cenário de depressão econômica renitente, num país com moeda sem credibilidade internacional; o candidato Boçalnaro, o ignaro apresenta-se como o personagem talhado para tal papel, o de reprimir violentamente qualquer manifestação de insatisfação popular que venha a ocorrer.                   

Os eleitores ricos sabem muito bem por que apoiam Boçalnaro, o ignaro; os pobres são induzidos a acreditar na sua cantilena de que, com murros na mesa, resolverá problemas para os quais ele verdadeiramente não tem solução. Tudo dentro do melhor figurino de estelionato eleitoral. 

A nós cabe resistir a tais evoluções hoje, amanhã e a partir de 2019. (por Dalton Rosado)

domingo, 10 de julho de 2016

QUEM BOTA A POLÍCIA PARA PERSEGUIR BRINCALHÕES É FILHO DE EICHMANN!

A banalidade do mal...
Neste sábado (9), esfreguei nas fuças do presidente da mais corte do País, para o caso de ele a ter esquecido, a cláusula pétrea da Constituição Federal que impede qualquer agente do Estado de restabelecer a censura por conta própria, ao arrepio das leis brasileiras e até do bom senso. [É patético ao extremo querer intimidar com canetadas os cidadãos que fazem oposição política utilizando o humor como arma! Preferirá ele que adotem as armas de fogo?]

Na galeria de recordações dos piores momentos do STF em todos os tempos, ao lado da autorização para que Olga Benário fosse entregue aos nazistas e da validação da auto-anistia que os carrascos da ditadura de 1964/85 se outorgaram para evitarem contratempos futuros, está o ofício mandando a Polícia Federal investigar os responsáveis pela confecção e exibição de dois bonecos infláveis satirizando o cidadão acima de qualquer crítica Ricardo Lewandowski e o procurador-geral da República Rodrigo Janot.

Era exatamente assim que agiam os censores do regime militar, enxergando "grave ameaça à ordem pública" em qualquer besteirinha. Lembro-me de que, certa vez, chegaram a implicar com um jornalão que colocou foto e notícia de uma entrega de espadins aos calouros de uma academia militar na mesma página em que apareciam catástrofes e matanças. 
...e a banalização do azedume.

Qualificaram este mero acaso de guerra psicológica adversa, certamente porque nunca haviam se dado ao trabalho de folhear o noticiário da editoria de Geral. Se cultivassem o hábito da leitura, saberiam que em tal espaço o que sai são, quase sempre, episódios negativos...

Quanto ao alegado "inaceitável atentado à credibilidade" do Judiciário, não o cometeram os brincalhões dos pixulekos, mas sim as otoridade ranzinzas e atrabiliárias que nos cobrem de ridículo às vésperas de uma Olimpíada! Éramos conhecidos e amados como brasileiros cordiais, o que dirá o mundo quando souber que nos tornamos brasileiros boçais e carrancudos?!

Desconfiem de quem não tem senso de humor e está sempre pronto para impor aos outros suas rabugices. São, ainda que em miniatura, filhos de Eichmann (aquele burocrata do Holocausto que inspirou Hannah Arendt a discorrer sobre a banalidade do mal).

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

HANNAH ARENDT: A DIGNIDADE E A CORAGEM DE UMA PENSADORA

Para minha satisfação, o filme Hannah Arendt foi rapidamente disponibilizado no Youtube, completo e legendado; era um dos que eu mais queria trazer para este espaço. 

Não que eu o considere uma obra-prima da sétima arte. Estou longe de ser um admirador da diretora alemã Margarethe von Trotta, a quem considero inferior a outros cineastas que costuma(va)m incursionar pelo cinema político, como Costa Gravas, Giuliano Montaldo, Francesco Rosi e o falecido Gillo Pontecorvo. 

Seu Rosa Luxemburgo, p. ex., ficou muito aquém da magnitude da personagem histórica que antecedeu Trotsky na firme rejeição dos componentes autoritários que acabariam por descaracterizar completamente a revolução soviética.  

Mas, o quarto de século transcorrido entre um e outro filme lhe fez bem (assim como à atriz Barbara Sukowa, muito melhor no de 2012 que no de 1986). 

Se na biografia cinematográfica da Rosa vermelha ela quis abarcar acontecimentos demais e não soube separar o fundamental do dispensável, em Hannah Arendt tomou a sábia decisão de restringir-se ao que realmente importava: a cobertura do julgamento de Adolf Eichmann e o fogo amigo que Arendt enfrentou por não ter abdicado do seu espírito crítico.

Judia alemã, ela se refugiara nos EUA e por lá ficou, tendo se tornado uma respeitada professora de filosofia,  autora de um livro famoso: Origens do totalitarismo.

Quando agentes israelenses sequestraram o criminoso de guerra nazista na Argentina, em 1960, Arendt convenceu o jornal New Yorker a designá-la para a cobertura do julgamento de cartas marcadas que o Estado judeu encenaria para dourar a pílula da execução, confundindo justiça com uma vendetta subsequente a um ato de pirataria (as bestas-feras da Operação Condor agiriam da mesmíssima maneira, mas sem o cinismo de tentarem legitimar a lei das selvas).  

Embora não tivesse denunciado a ilegalidade e imoralidade intrínsecas àquela farsa judicial, Arendt recuperou-se ao destoar da linha justa israelense, que erigia Eichmann num monstro, com redobrado furor em função da má consciência: perseguidos durante milênios, os judeus, lá no fundo, sabiam muito bem que haviam cometido um erro terrível ao desrespeitarem a soberania de um país que nem inimigo era (a Argentina), bem como que, não tendo sido capturado em território israelense, Eichmann só poderia ser julgado por um tribunal internacional como o de Nuremberg.

Vilificavam-no ao máximo, da forma mais estridente possível, para abafar os tímidos posicionamentos discordantes. Começavam a incidir nas mesmas práticas que tanto haviam recriminado nos nazistas. 

Arendt, contudo, teve a coragem moral de, nos seus artigos para o New Yorker (depois reunidos no livro Eichmann em Jerusalém - um relato sobre a banalidade do mal) apresentar o réu apenas como um burocrata medíocre, um pau mandado, um elo a mais da engrenagem totalitária.

[É como sempre vi os Ustras, Curiós e delegados Fleury: tão primários e tacanhos que nem sequer aquilatavam o quanto seus atos eram hediondos. Mereciam expiar seus crimes em longo cativeiro, claro, mas muito mais culpados foram os que tinham plena consciência do que faziam ao abrirem as portas do inferno. Oportunistas como o Delfim Netto, que lhes retiraram as focinheiras ao assinarem o AI-5.]

Outra heresia de Arendt foi apontar a cumplicidade de alguns judeus com os carrascos: os chamados conselhos judaicos, na Alemanha e na Polônia, haviam ajudado os nazistas a confiscarem bens, arrebanharem as vítimas e as enviarem para os campos de concentração. Era uma informação que preferiam esconder, por motivos propagandísticos óbvios.

Foi o suficiente para desabar uma tempestade de críticas sobre Arendt, que passou a ser tão estigmatizada pelos judeus (inclusive os progressistas), como, digamos, Joaquim Barbosa pelos petistas.

Ela foi de uma dignidade exemplar, não recuando um milímetro. 

Daí merecer hoje nosso enfático reconhecimento, não só por pela relevância e atualidade de sua obra, mas também por haver sido uma pensadora que teve o vislumbre do ovo da serpente e se manteve fiel a tal visão, resistindo às fortíssimas pressões oriundas do seu círculo. Se dependesse dela, Israel continuaria sendo o dos kibutzim, não o dos pogrons. 

A versão legendada em português não está mais no
Youtube. Esta, provisória, tem legendas inglesas.
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