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domingo, 12 de abril de 2020

A DIREITA É O GUIZO DA CASCAVEL E A VINGANÇA DA IGNORÂNCIA (imperdível!)

Na esteira da epidemia virá outra onda humanista?
josé roberto aguilar
O PÊNDULO DA HISTÓRIA
A pele que eu habito me machuca. Como se tivesse espinhos dentro. Nós, brasileiros, nunca estivemos dentro de uma guerra. Agora estamos. A peste chegou com o nome de novo coronavírus.

Eliminou o conforto, a normalidade, a razão e, inclusive, o tempo. Numa parte do dia sentimos este pânico momentâneo e depois ele some, e a razão volta a sussurrar nos ouvidos: “Tudo isso vai passar”. Sim, vai passar, mas vai deixar rastros que vão conduzir ao caminho de uma nova pele.

A epidemia traz consigo uma cruzada tenebrosa: o humanismo contra a barbárie. Junto com a banalização do mal (teoria criada pela alemã Hannah Arendt) caminha a banalização da morte. A eliminação pura e simples dos menos aptos: os idosos.

Aqueles que não têm a capacidade do desempenho e do consumo numa sociedade capitalista. São, portanto, descartáveis.

Outra epidemia conveniente foi há três décadas: a da Aids. Eliminou as sociedades alternativas e o amor livre, altamente perigoso para o consumo e a família. 

A epidemia mais tenebrosa foi a gripe espanhola. Ceifou 40 milhões de vidas. Esta banalização da morte levou ao surgimento do fascismo e do nazismo, ao genocídio de raças impuras e à 2ª Guerra Mundial.
Se o pêndulo vai para a esquerda, paz. Para a direita, guerra

O pêndulo da história está sempre em movimento, acompanhando a consciência coletiva, e ele só tem duas direções: para a esquerda, paz. Para a direita, guerra. 

Esquerda significa o humanismo. O olhar para si próprio e olhar o outro. Cuidar! O outro é você. Saber que a sua pele foi feita de consciência. E de lutas pela igualdade humana. 

Filósofos, cientistas, artistas, libertários e pessoas comuns ajudaram a costurar essa pele com enorme sacrifício, como demonstra a história. A sua pele é a sua casa, é a sua vida. 

Esquerda não é só uma posição política. É, antes de tudo, uma consciência humanitária.

direita é a ordem imperando sobre a razão. A ordem do consumismo, da ganância e do poder. O domínio da mesmice e da sobrevivência do mais apto ao conformismo. A anticultura, a antipele. O guizo da cascavel. Mais do que uma posição política, é a vingança da ignorância.

O maior salto que poderemos dar é reconhecer a nossa barbárie. Todos nós somos as duas coisas. Amor e ódio. Não devemos combater o ódio (a barbárie) em nós mesmos pela luta. Na luta ele se fortalece. 

Aceitação. Ao aceitar o seu (meu, nosso) ódio, ele perde a força. Isso é mutação, ou a costura de uma nova pele, sempre em transformação. O fim do dualismo e do confronto.
"a direita é a ordem do consumismo, da ganância e do poder imperando sobre a razão"
Estarmos preparados para o desconhecido é que vai gerar uma nova economia. Não baseada no supérfluo e na moda, mas focada nas necessidades de uma vida mais despojada. Uma nova sociabilidade, que não se guia na competição individual, mas no abraço social. 

Os paradigmas do passado se esvaneceram. Traduzir o momento vai ser o maior desafio e para isso vamos ter que cair no aqui e no agora. 

Vai ser angustiante porque as canções de ninar também desapareceram, assim como o conforto de uma liderança política paternal. É angustiante, mas é a única forma de se ter uma identidade pessoal; isto é, uma nova pele.

A batalha de Armagedon não está na sobrevivência à epidemia do novo coronavírus. Mas em como vamos nos comportar depois dela. Devir e cair dentro do humanismo. (por José Roberto Aguilar, escritor, pintor e videomaker)

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

"LULA, ANTES DE TUDO, CORROMPEU-SE ETICAMENTE, AO REJEITAR O HUMANISMO E A REVOLUÇÃO"

Por David Emanuel de Souza Coelho
LULA E A CORRUPÇÃO
Lula praticou corrupção no sentido jurídico. Porém, tal forma de corrupção é apenas consequência de uma outra corrupção mais fundamental, de natureza ética.

Claro que se associar a pilhadores do dinheiro público é um desvio desmoralizante por si só. Porém, numa sociedade regida pela pilhagem generalizada, tal conduta não chega a ser anti-ética. 

A pilhagem é o valor supremo do capitalismo, sendo todo milionário e bilionário um pilhador por excelência. Na dinâmica do capital, legalidade e ilegalidade se embaralham e, no fim, a dose certa do crime acaba sendo a métrica de ação das forças judiciais. 

Como já se falou por aí, de tempos em tempos a justiça burguesa opera uma limpeza no excesso de criminosos do colarinho branco, tudo para manter o crime nos limites toleráveis. Tal como no futebol, a disputa física é permitida, e até mesmo um tronco mais forte é aceitável; mas, quando a violência descamba, é preciso agir. 

O erro ético de Lula é mais profundo, trata-se do erro de ter escolhido os valores da sociedade burguesa. 

A autêntica ética é regida pelo humanismo, a busca pela realização, autonomia e completude do ser humano. Algo radicalmente contrário ao capitalismo e aos valores burgueses, centrados na diminuição do ser humano em favor do capital. 

Durante certa época, nos primórdios do capitalismo, a burguesia também foi humanista, ao menos nos países centrais. Tal fato, porém, mudou no século XIX, diante da realidade implacável de que seu poder só se sustentaria baseado na exploração e espoliação dos trabalhadores. 

A partir daí, a burguesia renegou o humanismo e aderiu a um discurso cínico e apologético. A desigualdade foi transformada em fato natural, inescapável, e a crítica social foi abandonada em prol da culpabilização individual: se você está na pior, o problema é seu e não da sociedade. 

O humanismo, contudo, não morreu, apenas mudou de mãos. Agora, o princípio humanista estava com a classe trabalhadora. Enquanto classe explorada, caberia a ela conduzir a crítica social e denunciar a desumanidade do capitalismo. 

Na mesma época em que a burguesia abandonava o humanismo, a classe trabalhadora, por meio de seus pensadores, identificava o capitalismo como sendo radicalmente desumanizador. Seja com os socialistas utópicos – de modo ainda confuso e idealista – ou com os anarquistas e comunistas, a sociedade capitalista era entendida como geradora de miséria, opressão e sofrimento. 

Com o tempo, foi transparecendo que a única solução possível seria a superação radical da sociedade capitalista em prol de uma nova sociedade. Revolução, portanto, seria a única alternativa viável para a realização do humanismo. 

Ora, sendo o humanismo um valor ético, a revolução só pode ser, igualmente, uma opção ética. A ética está no terreno da liberdade, e cada ser humano pode escolher adequar-se ou não a ela. Portanto, cada ser humano pode escolher ou não o humanismo, escolher ou não a revolução. 

Lula rejeitou a revolução e, portanto, rejeitou o humanismo, o resto é consequência. A corrupção fundamental de Luís Inácio foi a corrupção ética, quando aceitou a sociedade burguesa como o estágio definitivo da humanidade. 

Ao proceder deste modo, escolheu também os valores burgueses com todo o seu rosário de iniquidades. Aceitou que a exploração e a espoliação são elementos naturais da sociedade. 

A partir daí, participar da espoliação de modo ilegal seria apenas mais um fato da vida. Se todo mundo faz, por que ele não poderia também?

Como dito antes, a sociedade burguesa oscila entre o legal e o ilegal. Longe de ser uma anomalia, a ilegalidade é parte essencial do sistema capitalista, mas, igual às bactérias de nossos corpos, a ilegalidade precisa ser mantida em níveis aceitáveis. Faz, portanto, parte da calibragem do sistema o combate esporádico à corrupção.
Do mesmo jeito que faz parte dele um certo controle da pobreza e miséria extremas, donde podemos concluir que a famosa sensibilidade de Lula com os pobres não é um fator ético, mas tão somente parte de uma sistemática burguesa que oscila entre a denúncia implacável da feiura da fome e a culpabilização dos pobres pela sua própria pobreza. 

Nunca, é claro, tocando na raiz da origem da miséria: a sociedade capitalista ela mesma. 

Portanto, se Lula é hoje um corrupto do ponto de vista jurídico, é porque, antes de tudo, corrompeu-se eticamente, ao rejeitar o humanismo e a revolução.
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