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terça-feira, 18 de outubro de 2022

O "SALVE-SE QUEM PUDER" HÁ DE VIRAR "SALVEMO-NOS A NÓS TODOS" – 2

(continuação deste post)
Damares, a que viu Cristo na goiabeira...
fenômeno brasileiro da eleição de personagens caricatos como Damares Alves (Senado) e Eduardo Pazuello (deputado federal mais votado), dentre outros, explicita o caráter perverso de setores elitistas da nossa população, seja porque detêm capital, seja por estarem culturalmente dominados pelo fetichismo da mercadoria .

Cresce mundialmente o equivocado sentimento ultraconservador nazifascista diante do fracasso da social-democracia em querer humanizar o capitalismo. Não se entende que o que está em jogo não é uma questão de forma, mas de conteúdo.

Não há forma política, bem ou mal intencionada, que sobreviva satisfatoriamente à mediação social capitalista, alicerçada e efetivada pelas categorias valor, dinheiro, mercadorias, mercado, trabalho abstrato, Estado, política eleitoral e partidos políticos, etc.

A questão imperiosa neste momento de exaustão de tal modelo é a de conteúdo: impõe-se a adoção de outro modo de produção social, compatível com o atual estágio do saber tecnológico.

Ora, como disse corretamente Marx, é o modo de produção que define o caráter das sociedades.

Uma sociedade cujo modo de produção se assenta num critério subtrativo dessa mesma produção, transformada pelos administradores do capital  na abstração valor sob a forma-mercadoria, em obediência à própria lógica autotélica e ditatorial de crescimento constante do dito cujo até o limite de sua saturação (como agora ocorre), não pode ser outra coisa senão a fantasmagórica, bárbara e cruel realidade do salve-se quem puder ora em curso.
O "uns mandam e outros obedecem" Pazuello

Tais políticos toscos e estapafúrdios, com seus preconceitos retrógrados próprios à superficialidade dos aventureiros de ocasião, tendem a uma volta ao passado mais recente (que era ruim, mas menos catastrófico do que o presente), 

Surfando no medo que a população tem do desconhecido, conseguem convencer expressivos contingentes a aceitarem as suas cantilenas racistas, homofóbicas, odiosas, xenófobas, misóginas, etc. Dão, assim, sobrevida avelharias que deveriam estar definitivamente superados, mas não estão.

Esta é a explicação para a volta ao velho, como se a invenção da roda fosse um desserviço à humanidade.

Não pensem os nossos leitores que estamos todos imunes a tais equívocos. Não foi a Alemanha culta que embarcou na canoa genocida da 1ª e 2ª guerras mundiais, curvando-se às iniciativas dos seus governos (o do imperador Guilherme 2º e o do ditador Adolf Hitler)?

Não foram os alemães que engoliram a pílula da supremacia branca ariana, aceitando insensivelmente a perseguição racista de judeus que, mesmo sendo membros de famílias instaladas havia muito tempo no país, passaram a ser presos, torturados e exterminados? 

[Não esquecendo outras perseguições igualmente odiosas, como as movidas contra homossexuais, ciganos, alguns povos eslavos, partidários da esquerda, sindicalistas, Testemunhas de Jeová, etc.]

A barbárie capitalista está instalada mundialmente e a expressão mais visível de sua presença é a injustificada agressão à Ucrânia por parte do ditador capitalista russo sob o pretexto ridículo de proteger a própria Ucrânia contra o nazismo, com o qual ele se identifica na prática.
Em tempos melhores, a eleição de esquisitices era só
uma galhofa (leia mais sobre o Cacareco
aqui)

É supostamente para proteger ucranianos que Putin os dizima com mísseis lançados de grandes distâncias, atingindo tanto combatentes que defendem o próprio país quanto crianças e civis inocentes! 

É a inversão equivocada de conceitos que faz com que uma Damares da fé mercantilzada, o supremacista bilionário Donald Trump, a fascista assumida Giorgia Meloni e a ultraconservadora francesa Marine Le Pen sejam eleitos (ou quase isto). 

Trata-se de um detestável fenômeno mundial, chocante por tais péssimos cidadãos estarem recebendo votos de pessoas zelosas dos seus comportamentos profissionais e familiares, bem como de religiosos (tanto os recatados quanto os fundamentalistas) que fazem vistas grossas à violência armada ou matam em nome de Jesus Cristo.

Boçalnaro, o ignaro, está mais próximo do seu antigo colega de farda Hugo Chávez do que pensam muitos dos seus incautos eleitores (existem, contudo, os que têm consciência disto, tanto nas casernas belicistas quanto nos ambientes supremacistas e financeiros).

Mas o salve-se quem puder ainda há de se transformar em salvemo-nos a nós todos, coletivamente.

Tudo só depende de nós, pois. como disse John Lennon, "se você quiser, a guerra acaba amanhã". (por Dalton Rosado)

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

SUCESSOR DO RINOCERONTE CACARECO, DO 'MEU NOME É ENEAS' E DO BUFÃO TIRIRICA, BOLSONARO DÁ MÁ FAMA À IGNORÂNCIA

josias de souza
BOLSONARO TRATA VACINA COMO UMA SUB-CLOROQUINA
N
uma época em que o mundo aprende a conviver com a inteligência artificial, é duro ter de aturar a ignorância natural. 

A pretexto de se contrapor a declarações desnecessárias do governador paulista João Doria e de defender as liberdades do brasileiro, Jair Bolsonaro repetiu que a vacina contra o coronavírus "não será obrigatória". Ao assumir o papel de garoto-propaganda da liberdade individual de infectar, o presidente desconsidera o direito coletivo de não ser infectado. 

A lei 13.979, sancionada pelo próprio Bolsonaro em 06/02/2020, prevê no seu artigo 3º que, para enfrentamento de emergência de saúde pública de importância internacional,[...] as autoridades poderão adotar medidas excepcionais. Dentre elas, a determinação de realização compulsória de vacinação
Estatuto da Criança e do Adolescente também determina, em seu artigo 14, que "é obrigatória a vacinação das crianças". 

A despeito das previsões legais, não é tradição no Brasil impor vacinas aos cidadãos. O estado costuma recorrer a campanhas de esclarecimento sobre a importância da vacinação. Quando esse hábito foi negligenciado, o país experimentou retrocessos. P. ex.: a volta de uma doença como o sarampo.

 Em meio a uma pandemia, é no mínimo inusitado que um presidente que se apresentou como prova viva de que cloroquina cura Covid-19 trate a vacina como uma espécie de sub-cloroquina. 

A Constituição consagra liberdades individuais. Mas também impõe limites e responsabilidades. Ao administrador público cabe esclarecer que certos limites não são arbitrários, mas necessários. 

Bolsonaro prefere jogar na confusão. Durante uma pandemia, vende a liberdade de não usar máscara, a liberdade de não se vacinar, a liberdade de infectar. 

Diante de um caso assim, não resta ao brasileiro de bom senso senão exercer a liberdade de se imunizar contra a enfermidade do ignorante que ignora sua própria ignorância. (por Josias de Souza) 

quarta-feira, 6 de julho de 2016

CACARECO, O VEREADOR MAIS CASCA GROSSA QUE SÃO PAULO JÁ ELEGEU...

Outubro de 1959. Eu era um pirralho que mal acabara de completar nove anos e acompanhava meu pai à escola na qual ele votava.

Ele se desencantara da política com o suicídio de Getúlio Vargas, que lhe provocou até lágrimas. Desde então, referia-se a todos os políticos como safados e ladrões, reservando os piores insultos a Carlos Lacerda, o  corvo, por considerá-lo culpado da morte do seu ídolo.

Via com simpatia o protesto que tinha brotado de forma quase espontânea na capital paulista: como manifestação de repúdio ao governador rouba-mas-faz Adhemar de Barros e ao baixíssimo nível dos 450 candidatos à Câmara Municipal, pregava-se o voto no rinoceronte Cacareco.

O simpático animal fora emprestado pelo zoológico do Rio de Janeiro quando da fundação do congênere paulistano e caíra na graça do público. Então, no momento em que os cariocas o pediram de volta, houve resistência à sua devolução.

Como o Cacareco estava no noticiário exatamente no período eleitoral, bastou o jornalista Itaboraí Martins lançar essa ideia para que ela galvanizasse a cidade.

Surgiram centenas de cabos eleitorais fazendo campanha voluntária para o rinoceronte. Até cédulas em seu nome foram impressas por gráficos brincalhões.

Naquele tempo não havia urna eletrônica. O mesário entregava um envelope e o eleitor se dirigia para a cabine, nele colocava cédula(s) do(s) candidato(s) que escolhera, lacrava e ia botar na urna.

Meu pai queria votar no Cacareco, mas não tinha cédula. Eu olhava para o chão, na esperança de encontrar alguma, dentre as milhares espalhadas pela calçada. E encontrei.

Todo orgulhoso, entreguei-a a meu pai. Depois, ao sair da sala de votação, ele me garantiu que aproveitara mesmo aquela cédula.

Não via a hora de chegar em casa e contar à minha mãe a pequena aventura. Hoje, 56 anos depois, o episódio continua vivo na minha memória.

Cacareco foi o vereador mais votado de 1959, com quase 100 mil votos. O partido que elegeu a maior bancada teve, ao todo, cerca de 95 mil votos. E o candidato com maior votação não passou de 11 mil.

O rinoceronte, entretanto, não tomou posse, pois havia sido devolvido ao zoológico carioca dois dias antes do pleito. O que não impediu que a comemoração do seu triunfo perdurasse até o carnaval seguinte, quando várias marchinhas o homenagearam, inclusive uma inesquecível: Cacareco é o maior, gravada pelo palhaço Risadinha:
"Ca...ca...Cacareco, Cacareco, Cacareco é o maior.
Ca...ca...Cacareco, de ninguém tem dó..."
.
O então jornalista Neil Ferreira, que depois se tornaria publicitário famoso, também lhe dedicou uma crônica saborosa na principal revista brasileira da época, O Cruzeiro (24/10/59): Cacareco agora é Excelência. Eis alguns trechos:
"Dos 450 candidatos que ‘ofereceram suas vidas em holocausto ao bem-estar público’ concorrendo às 45 cadeiras da Câmara Municipal de São Paulo, somente um -- Cacareco -- conseguiu empolgar, de maneira espetacularmente inédita o eleitorado paulistano. 
"Sem prometer nada (ele não pode prometer: não sabe nem falar), sem partido politíco definido (...), enfim, com sua candidatura lançada somente alguns dias antes do pleito, sua eleição está garantida. A soma de seus votos é um recorde nas eleições municipais de São Paulo.
A força de um jingle espirituoso elegeu Tiririca...
"Sua candidatura ganhou corpo no seio da massa, de maneira espontânea, conquistou o restinho da classe média que ainda não morreu de fome e atingiu as mais altas camadas da burguesia.
"Cacareco se zangou quando foi intentada (e conseguida) uma solução extralegal e antidemocrática para sua candidatura: (...) as forças ocultas conseguiram que o candidato popular fosse exilado, dois dias antes da eleição, para o Rio de Janeiro. 
"O golpe consumou-se na calada da noite, mas a coisa não foi tão calada assim: sem mais aquela, enfiaram-no num caminhão. 
"Aí, sim, ele se danou. Ficou perigoso. Não só para o regime, mas (e principalmente) para quem estava por perto. Mas o Povo e as Classes Oprimidas foram magnificamente à forra e concederam, aproximadamente, cem mil votos a Cacareco".
Bons tempos aqueles, em que havia brasileiros cordiais utilizando o humor como arma contra a sordidez da política!
... bisando o fenômeno meu nome é Enéas.
E, cá entre nós, talvez fosse melhor termos no Legislativo um autêntico casca grossa como o Cacareco, do que um bufão banal como o Tiririca (que em 2010 se elegeu deputado federal com 1,35 milhão de votos e em 2014 se reelegeu com 1,02 milhão, votações proporcionalmente muito inferiores à de Cacareco)

Pois o primeiro seria capaz de, imbuído de justa indignação, investir contra alguns deploráveis personagens lá presentes.

Enquanto o Tiririca está longe de ser um daqueles palhaços cuja alegria é ver o circo pegar fogo. Quer mais é levar vantagem, como recomendava o craque Gerson, que a publicidade transformou em símbolo do amoralismo oportunista..

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

DEIXEM O TIRIRICA EM PAZ!

Voto de protesto saudável era o endereçado a figuras como o rinoceronte Cacareco e o futebolista Biro-Biro, que não participavam do pleito.

Ou seja, em vez de simplesmente anularem o voto, os eleitores desencantados com a democracia burguesa, como bons brasileiros cordiais, faziam piada.

Talvez Biro-Biro tenha sido o primeiro oportunista a vislumbrar a possibilidade de surfar nessa onda: ele se candidatou  na eleição seguinte e foi eleito.

Depois veio o Enéas Carneiro, que lembrava muito um personagem de HQ, o Dr. Bactério das tiras do Mortadelo e Salaminho.

Com sua performance teatralizada, parecendo um Zé do Caixão da política, rebocou uma legião de nulidades para o Legislativo.

Por menos que eu apreciasse Fernando Collor, não pude deixar de reconhecer que ele teve toda razão quando, designado para fazer uma pergunta a Enéas num debate eleitoral, pensou, pensou, mas não lhe ocorreu o que indagar de quem nada mais era do que a aberração da campanha.

Acabou se dirigindo ao mediador:
"Manda ele falar o que quiser!"
Enéas usou sua intervenção inteira para criticar o próprio Collor, que nem se deu ao trabalho de rebater, ao chegar o momento da tréplica:
"Manda ele continuar falando!"
A NOVA SENSAÇÃO DO PICADEIRO ELEITORAL GRATUITO

O palhaço Tiririca não passou de um novo exemplar dessa fauna, tendo renovado o repertório de besteirol no famigerado horário eleitoral gratuito.

Assistindo a suas limitadíssimas performances, morro de saudades de congêneres imensamente mais dignos como Arrelia e Pimentinha, atração dominical obrigatória da minha infância.

Mesmo assim, e ainda que justificadamente detestemos Tiririca e o  inferno pamonha  do qual ele faz parte, não há como aceitarmos a cassação da sua candidatura apenas para que as cadeiras por ele conquistadas sejam transferidas a palhaços de circos, digo partidos mais poderosos.

Concordo em quase tudo com o artigo de Rui Martins, bravo guerreiro das boas causas, só não endossando o título, Somos todos palhaços Tiririca. Comigo não, violão...

Mas, sua argumentação é irrefutável:
"Se a justiça eleitoral reabrir o processo de registro de Tiririca estará desrespeitando suas próprias leis e infrigindo uma norma básica de Direito, segundo a qual depois de transitada em julgado, uma questão não poder ser reaberta. E mais que isso, se estará colocando em questão a própria essência da democracia ao se deixar de validar os votos do mais votado deputado federal.

"Hoje será o Tiririca por um pretendido analfabetismo, amanhã um candidato sem curso primário e, mais além, um presidente por não ter feito universidade. As eleições têm regras, que devem ser respeitadas e não podem mais ser revistas depois de realizado o pleito. Isso é um princípio fundamental, quebrá-lo corresponde ao risco de se colocar em perigo a própria democracia".
Então, fiz questão de botar meu nome no abaixo-assinado que o Rui lançou e pode ser acessado aqui.

Minha justifitiva foi:
"Antigamente se dizia: ou se restaure a moralidade, ou locupletemo-nos todos.

"O mesmo raciocínio cabe agora: cassem-se todos os palhaços da política ou deixem o Tiririca em paz.

"Afinal, os palhaços meramente medíocres são preferíveis aos palhaços sinistros como o Índio da Costa".

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O PRECURSOR DO TIRIRICA: UM RINOCERONTE QUE VIROU "EXCELÊNCIA"...

Outubro de 1959. Eu era um pirralho que mal acabara de completar nove anos e acompanhava meu pai à escola na qual ele votava.

Ele se desencantara da política com o suicídio de Getúlio Vargas, que lhe provocou até lágrimas. Desde então, referia-se a todos os políticos como “safados” e “ladrões”, reservando os piores insultos a Carlos Lacerda, o  corvo, por causa do papel que desempenhara na morte de seu ídolo.

Via com simpatia o protesto que tinha brotado de forma quase espontânea na capital paulista: como manifestação de repúdio ao governador  rouba-mas-faz  Adhemar de Barros e ao baixíssimo nível dos candidatos à Câmara Municipal, pregava-se o voto no rinoceronte Cacareco.

O simpático animal fora emprestado pelo zôo do Rio de Janeiro quando da fundação do Zoológico de São Paulo e cativara os paulistanos. Então, quando os cariocas o pediram de volta, houve resistência à sua devolução.

Como o Cacareco estava no noticiário exatamente no período eleitoral, bastou o jornalista Itaboraí Martins lançar essa idéia para que ela galvanizasse a cidade.

Surgiram centenas de cabos eleitorais fazendo campanha voluntária para o rinoceronte. Até cédulas em seu nome foram impressas por gráficos brincalhões.

Naquele tempo não havia urna eletrônica. O mesário entregava um envelope e o eleitor ia para a cabine, nele colocava cédula(s) do(s) candidato(s) que escolhera, lacrava e vinha colocar na urna.

Meu pai queria votar no Cacareco, mas não tinha cédula. Eu olhava para o chão, na esperança de encontrar alguma, dentre as milhares espalhadas pela calçada. E encontrei.

Todo orgulhoso, entreguei-a a meu pai. Depois, ao sair da sala de votação, ele me garantiu que aproveitara mesmo aquela cédula.

Não via a hora de chegar em casa e contar à minha mãe a pequena aventura. Hoje, 51 anos depois, o episódio continua vivo na minha memória.

Cacareco foi o vereador mais votado de 1959, com quase 100 mil votos. O partido que elegeu a maior bancada teve, ao todo, cerca de 95 mil votos. E o candidato com maior votação não passou de 11 mil.

O rinoceronte, entretanto, não tomou posse, pois havia sido devolvido ao zoológico carioca dois dias antes do pleito. O que não impediu que a comemoração do seu triunfo perdurasse até o carnaval seguinte, quando várias marchinhas o homenagearam, inclusive uma inesquecível: “Cacareco É O Maior”, gravada pelo palhaço Risadinha:
“Ca...ca...Cacareco, Cacareco, Cacareco é o maior.
Ca...ca...Cacareco, de ninguém tem dó...”
O então jornalista Neil Ferreira, que depois se tornaria publicitário famoso, também lhe dedicou uma crônica saborosa na principal revista brasileira da época, O Cruzeiro (24/10/59): “Cacareco agora é Excelência”. Eis alguns trechos:
“Dos 540 candidatos que ‘ofereceram suas vidas em holocausto ao bem-estar público’ concorrendo às 45 cadeiras da Câmara Municipal de São Paulo, somente um -- Cacareco -- conseguiu empolgar, de maneira espetacularmente inédita o eleitorado paulistano. Sem prometer nada (ele não pode prometer: não sabe nem falar), sem partido politíco definido (...), enfim, com sua candidatura lançada somente alguns dias antes do pleito, sua eleição está garantida. A soma de seus votos é um recorde nas eleições municipais de São Paulo.

“Sua candidatura ganhou corpo no seio da massa, de maneira espontânea, conquistou o restinho da classe média que ainda não morreu de fome e atingiu as mais altas camadas da burguesia.

“Cacareco se zangou quando foi intentada (e conseguida) uma solução extralegal e antidemocrática para sua candidatura: (...) as ‘forças ocultas’ conseguiram que o candidato popular fôsse ‘exilado’, dois dias antes da eleição, para o Rio de Janeiro. O ‘golpe’ consumou-se na calada da noite, mas a coisa não foi tão calada assim: sem mais aquela, enfiaram-no num caminhão. Aí, sim, ele se danou. Ficou perigoso. Não só para o regime, mas (e principalmente) para quem estava por perto. Mas o ‘Povo’ e as ‘Classes Oprimidas’ foram magnificamente à forra e concederam, aproximadamente, cem mil votos a Cacareco.”
Bons tempos aqueles, em que havia brasileiros cordiais utilizando o humor como arma contra a sordidez política!

E, cá entre nós, talvez fosse melhor termos no Legislativo um autêntico casca grossa como o Cacareco, do que um bufão banal como o Tiririca (que deverá atingir a maior votação para deputado federal deste ano, na casa de 900 mil, segundo as projeções).

Pois o primeiro seria capaz de, imbuído de justa indignação, investir contra alguns personagens lá presentes.

Enquanto o segundo não leva jeito de ser um daqueles palhaços cuja alegria é ver o circo pegar fogo.

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