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sexta-feira, 10 de março de 2023

POR TRÁS DO TRABALHO ANÁLOGO À ESCRAVIDÃO ESTÁ A PRECARIEDADE TRABALHISTA ALIMENTADA HÁ DÉCADAS NO BRASIL

 

danilo paris 

Trabalho Escravo Irrompe na Miragem de um Novo País

Agora foi a vez da gigante Colombo Agroindústria S/A, produtora do açúcar refinado Caravelas, ser flagrada com 32 trabalhadores em condições análogas à escravidão em um canavial em Pirangi (SP). A Colombo Agroindústria é uma das maiores produtoras de açúcar e etanol do Brasil, com mais de 5100 empregos diretos e um lucro líquido de R$ 251,59 milhões em 2022. 

Dias antes, mais de 200 pessoas foram resgatadas em situação análoga à escravidão trabalhando nas colheitas de uva das vinícolas Aurora, Garibaldi e Salton, no Rio Grande do Sul. Para completar, ainda assistimos cenas grotescas, como o festival de xenofobia e racismo proferido por vereador de Caxias do Sul, Sandro Fantinele  uma declaração da entidade patronal das vinícolas, defendendo os empresários que estavam maximizando seus lucros através da hiper-exploração. Não por acaso, esses casos envolvem trabalhadores do campo, expostos a grandes grupos capitalistas que concentram enormes quantidades de terras, em todo um ramo produtivo acostumado a utilizar as formas mais precárias de trabalho.

A exploração burguesa, sem seus adornos e enfeites, revelou-se nua e crua para todo o país. Situações de servidão por dívida, condições degradantes de trabalho, jornadas extenuantes, castigos físicos, extrema precariedade das moradias, falta de camas, inexistência de banheiros funcionando, falta de ventilação e fiação exposta, além da superlotação, foram alguma das imagens divulgadas pelos principais meios de comunicação.

O que vários desses casos, entre tantos outros que nunca se tornarão públicos, têm em comum? A terceirização do trabalho. Ela é uma engrenagem fundamental que, em determinadas situações, serve como porta de entrada para o trabalho análogo à escravidão. E por que? As mudanças na legislação trabalhista, entre tantos outros esmagamentos de direitos, permitiu a terceirização da atividade fim, além de poder ser uma artificio para livrar a cara das empresas que contratam subsidiárias. Em outras palavras, a gigante Colombo Agroindústria S/A também se beneficiou das condições terríveis de trabalho que agora vieram à público, mas o caminho para que ela seja responsável por arcar com indenizações, multas e etc., é muito mais complexo por se tratar de uma outra empresa que foi flagrada se utilizando do trabalho escravo.

No entanto, a situação é tão grave, e a justiça tão cúmplice, que até mesmo entre as empresas que são diretamente responsáveis por empregar trabalho escravo, o grau de responsabilização e punição é muito baixo. É chocante que apenas 4,2% de acusados por trabalho escravo sejam punidos, conforme revelou estudo da Universidade Federal de Minas de Minas Gerais.

A imprensa agora faz reportagens sentimentais, compadecendo-se da situação desses trabalhadores. Toda sua lógica é responsabilizar os maus patrões, mas há um mecanismo que é preservado pela esmagadora maioria dos analistas e jornalistas: a reforma trabalhista e todos os ataques aos direitos dos trabalhadores.

Aqui mora uma questão central, que é um choque entre a ideia de que o governo Lula-Alckmin traria um novo Brasil e a própria realidade de um país inundado por um tsunami de trabalho precário. A questão é que a transição entre governos produz uma miragem que um novo país está sendo reconstruído, bastando esperar que as coisas irão voltar aos trilhos. A recente experiência com a existência de um governo de extrema-direita, que representava o projeto do ultra neoliberalismo, e que, portanto, defendia sem rodeios a maximização da exploração do trabalho, produz, entre tantos outros efeitos, a ilusão de que a face mais cruel e brutal da estrutura social brasileira seria gradativamente modificada.

Nesse mesmo contexto, supostos aliados da democracia, baluartes da normalização do país, ao descer no terreno da produção social, revelam seu verdadeiro espírito, impregnado com o que existe de mais arcaico na formação histórica do Brasil. Em particular o STF, tido por muitos como redentor da democracia e carrasco da extrema-direita, tem todas as suas digitais espalhadas nessas cenas horrendas dos últimos dias. Destaque para Alexandre de Moraes, nomeado ministro por Temer, a mão que segurou a caneta que assinou a destruição dos direitos trabalhistas. Jorge Luiz Souto Maior, desembargador da Justiça do Trabalho, é preciso nessa análise quando diz:

“O Supremo Tribunal Federal, a grande mídia, grandes juristas, os juristas trabalhistas, empresas, associações, todos eles contribuíram para difundir e naturalizar a terceirização como um fator de reengenharia da produção, como uma forma de melhorar a economia. Todo mundo sabe disso, não é mesmo? Mas eles mentiram sobre a terceirização para realmente excluir a responsabilidade social das empresas, transferindo-a para outras empresas com menos capital ou sem capital algum. Isso levou a uma pressão cada vez maior nas empresas subcapitalizadas, que precisam competir com outras empresas para prestar serviços e, por sua vez, acabam conduzindo a exploração do trabalho a níveis que estamos vendo hoje.”

Além do STF, há outros atores, que subitamente apareciam como defensores da constituição, mas que na realidade, defendiam, e seguem defendendo, a ditadura do capital contra o trabalho. A mais notória delas, a FIESP, no grande e iluminado prédio da Avenida Paulista onde se pode localizar figuras que foram fundamentais para ampliação do trabalho precário no Brasil. Foi ela que esteve entre os impulsionadores do simbólico dia 11 de agosto de 2022, data que marcou a conformação da chamada Frente Ampla. A mesma FIESP que teve entre seus diretores aqueles que defenderam fervorosamente a reforma trabalhista e a ampliação da terceirização, propondo até que o trabalhador deveria almoçar com uma mão e seguir trabalhando com outra, eliminado assim o inconveniente horário do almoço.


Mas, poderia se argumentar: estamos apenas no terceiro mês do novo governo, e por óbvio isso é uma herança do bolsonarismo. No entanto, as coisas não são assim. Marcio Pochmann, intelectual, economista e figura orgânica ao Partido dos Trabalhadores (PT), portanto insuspeito de querer prejudicar seu próprio partido, demonstra que mesmo nos governos Lula e Dilma a expansão do trabalho precário foi a regra e não a exceção. Segundo ele, a maioria dos postos de trabalho criados na primeira década do século XXI no Brasil tinham baixos rendimentos, até 1,5 salário mínimo mensal, o que é chamado de working poor (trabalhadores pobres). Considerando os governos Lula e Dilma a terceirização saltou de 4 milhões para 12,7 milhões de trabalhadores.

Como já afirmamos, o governo Lula foi um período também de avanço da terceirização no serviço público. Os gastos estatais com a terceirização cresceram 61%, contra aumento de 24% dos servidores com contratos diretos. Na indústria do petróleo, dominada pela Petrobras, a terceirização cresceu meteoricamente, atingindo 630% entre 2000 e 2013.

Embora a terceirização tenha sido implementada durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, ela se expandiu enormemente durante os governos do PT, atingindo um quarto do emprego formal no Brasil em 2014. É uma característica estrutural daquilo que se denominou chamar lulismo, transformar a explosão de empregos informais sob o governo de FHC em empregos formais, porém com baixos salários e direitos subtraídos, principalmente por meio da terceirização. E foi justamente esse um calcanhar de Aquiles dos governos do PT, quando analisamos grandes mobilizações operárias que ocorreram naquele período.

Impossível esquecer a revolta, tida como selvagem, dos operários que construíam a usina de Jirau, no Rio Madeiro, que incendiaram os dormitórios, ônibus e maquinários, em uma explosão de ódio contra as mais precárias condições de trabalho e de vida. Nada menos do que o maior canteiro de obras do Brasil, literalmente em chamas, escancarando o pacto conservador do PT com grandes empreiteiras, para erguer um projeto de país que tinha entre os seus pilares a precarização do trabalho.

E agora, qual a posição do governo sobre a reforma trabalhista? Não foi uma, mas inúmeras as declarações de diversos membros do governo garantindo a manutenção da reforma trabalhista, alternando, no máximo, alguns pontos. Isso implica que a natureza da reforma permanecerá inalterada, apesar dos recentes escândalos que ganharam repercussão nos últimos dias.


O plano de governo da Frente Ampla, que une tanto adeptos do neoliberalismo quanto das reformas, quer se apresentar como um empreendimento civilizatório. Entretanto, ao analisarmos o cenário do mercado de trabalho, a realidade se assemelha à barbárie. Não há meio termo. É preciso enfrentar a reforma trabalhista de forma frontal. As bandeiras da efetivação dos terceirizados e da defesa de igualdade salarial e de direitos nunca foram tão atuais. Caso contrário, a normalização do trabalho análogo à escravidão - bem como outras formas que potencializam a exploração, como a uberização que se expande como peste - serão as consequências de um novo país que sempre se modernizou de maneira combinada com as formas sociais mais arcaicas. (Danilo Paris) 


segunda-feira, 15 de junho de 2020

POR QUE A LEI DE SEGURANÇA NACIONAL É INVOCADA CONTRA NOBLAT E AROEIRA? PORQUE, EM 35 ANOS, NÃO A REVOGARAM!

Como qualquer cidadão minimamente civilizado, expresso meu mais veemente repúdio à censura que se tenta de forma velada restaurar no país, seja contra o humor, seja contra a opinião, sejam todas as formas de intimidação de que Estados totalitários servem-se para calar os descontentes.

Mas, se um entulho autoritário tão repulsivo e sanguinolento quanto a Lei de Segurança Nacional da ditadura militar ainda pode ser invocado para a retaliação contra o Ricardo Noblat e o Renato Aroeira, isto se deve à chocante omissão de governantes e parlamentares que nada fizeram para revogá-la durante esse tempo todo. 

Encaminhar sua remoção para a lixeira (juntamente com a anistia que em 1979 nos igualou a nossos torturadores) deveria ter sido a primeira providência dos justos após a instalação da Nova República em março de 1985. 

Mas, 35 anos depois, nem uma nem outra aberração foi corrigida. Foi deixada intacta a corda que se destinava a nos enforcar e o resultado está aí.

Suponho que os avessos às autocríticas fingirão que não é com eles, então dou nome aos bois: mais do que todos, o FHC, o Lula e a Dilma tinham a obrigação moral de haver priorizado a eliminação de tal entulho autoritário. 

Gostem ou não os três, eles nos devem explicações.  E eu não deixaria de cobrá-las, em toda oportunidade que doravante tiver. (Celso Lungaretti)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A COMISSÃO DA VERDADE EM FRASES

"Merecem a verdade factual aqueles que perderam amigos e parentes e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo e sempre a cada dia. É como se disséssemos que, se existem filhos sem pai, se existem pais sem túmulo, se existem túmulos sem corpos, nunca, nunca mesmo pode existir uma história sem voz."
(presidente Dilma Rousseff, dando uma no cravo)

"...também reconheço e valorizo pactos políticos que nos levaram à redemocratização..."
(Dilma Rousseff, dando a outra na ferradura, pois ditadores não podem anistiar-se e a seus esbirros em plena ditadura, nem cabe a qualificação de  pacto --salvo na acepção medieval de  acordo com o demônio-- para o que foi negociado em posição de força por um dos lados, tendo a libertação dos presos políticos e a permissão de volta dos exilados como moeda de troca para impor sua vontade ao outro lado, o que configura CHANTAGEM pura e simples)

"Os sete integrantes da Comissão são sensatos, ponderados e preocupados com a justiça e o equilíbrio."
(mais uma de Dilma na ferradura, ao omitir que havia um critério imposto pela direita parlamentar para a escolha desses sete, o de não terem sido vítimas diretas da ditadura, pois ex-resistentes  sensatos, ponderados e preocupados com a justiça e o equilíbrio  existem vários e foram todos barrados no baile)

"Espero que a comissão realmente encerre de uma vez por todas esses problemas."
(ex-presidente Fernando Collor, que nada fez para encerrá-los quando tinha poder para tanto, ou seja, antes de ser expelido da chefia do Estado sob vara)

"O esclarecimento dos crimes não será uma revanche."
(ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que igualmente se omitiu, embora haja tido mais tempo ainda, oito anos, para esclarecer os crimes)

"A criação da Comissão foi um passo estupendo."
(ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, esquecendo de dizer que preferível a tal  passo estupendo teria sido a impugnação do habeas corpus preventivo que os criminosos da ditadura concederam a si próprios em 1979 e ele não permitiu que fosse sequer questionado em 2007, quando proibiu seus ministros Tarso Genro e Paulo Vannuchi de pleitearem a revogação da Lei de Anistia) 

"...as ações da esquerda não exigem mais do que as recuperar. Hoje ainda é preciso investigar crimes da ditadura justamente porque seus militares e policiais investigaram as ações da esquerda desarmada e da esquerda armada.

Fizeram-no com os métodos que depois não tiveram a hombridade e a coragem de reconhecer, motivo real da Comissão da Verdade...
"
(Jânio de Freitas, colunista da Folha de S. Paulo, constatando o óbvio)

"...não se preocupem as vítimas, os familiares, a esquerda, porque essa história fala por si. Basta contá-la, sistematizando o que já há e acrescentando o quanto falta para que tenha um começo, um meio e (finalmente...) um fim.

Foi uma guerra desigual e desumana, com torturadores de um lado e torturados de outro. Não há nenhuma outra verdade a ser investigada que possa se impor a essa realidade.
"
(Eliane Cantanhêde, colunista da Folha de São Paulo, idem)

"...o direito de qualquer réu é não criar provas contra si. Isso quer dizer: pode mentir que não tem problema... Como agora no julgamento, se for necessário, eu posso exercer esse direito também. Isso é inerente à Justiça brasileira."
(tenente-coronel Maurício Lopes Lima, que torturou Dilma Rousseff e dezenas de presos políticos, admitindo que mentirá à Comissão)

"...o cenário que se desenha é o do parto da montanha produzir um rato: os militantes já cansaram de proclamar a verdade e os militares não terão motivo nenhum para abdicar da mentira.

A tendência é que  se sistematizem as versões já conhecidas sobre as execuções e demais atrocidades da ditadura, pouco se avançando na descoberta dos armários em que eles guardaram os esqueletos --salvo se a Comissão pudesse ao menos ordenar a prisão dos comprovadamente perjuros.

Mas, é óbvio que isto não ocorrerá.
"
(euzinho, antecipando que os militares continuarão enrolando, numa repetição de como agem em relação aos restos mortais dos guerrilheiros covardemente executados no Araguaia)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

COMEÇA A TEMPORADA DE DEBATES: EIS OS MAIS MARCANTES (OU RIDÍCULOS)

Debates eleitorais pela TV costumam ser extremamente tediosos, um mero entrechocar de imagens forjadas por marqueteiros como o Duda Mendonça, cujos cordéis movimentam os fantoches em cena.

São exceções irrisórias as situações pitorescas nesses debates. Eis algumas:

  • quando Richard Nixon, ainda sem aquilatar a importância da imagem, foi ao confronto decisivo contra John Kennedy com a barba por fazer. Mais do que os argumentos, o eleitorado dos EUA comparou o garboso Kennedy ao mal-encarado Nixon, com os resultados conhecidos;
  • quando um deputado dos mais obesos queria entregar alguns papéis a Jânio Quadros no ar e foi se arrastando grotescamente por baixo do ângulo captado pelas câmeras... sem imaginar que, maldosamente, elas se voltariam na sua direção, expondo a todos os telespectadores seu puxa-saquismo explícito;
  • quando Franco Montoro esperou sua tréplica a Jânio Quadros, no encerramento do debate, para acusá-lo de torpeza (havia sido vítima da ditadura e estava mancomunado com os antigos perseguidores), de forma que suas tentativas raivosas de dar resposta foram rechaçadas pelo mediador, fazendo-o parecer destrambelhado e patético;
  • quando Boris Casoy perguntou a Fernando Henrique Cardoso se ele acreditava em Deus e FHC se queixou de que haviam combinado não tocar nesse assunto, dando ao adversário Jânio Quadros um trunfo talvez decisivo para vencer uma eleição parelha;
  • quando Brizola e Maluf perderam as estribeiras e ficaram se xingando no ar. "Filhote da ditadura!", repetiu várias vezes o gaúcho, enquanto o outro respondia: "Desequilibrado! Desequilibrado! Passou 15 anos no estrangeiro e não aprendeu nada!" (foto acima);
  • quando Lula teve um apagão no debate decisivo com Collor e reagiu com apatia aos ataques do inimigo, não contestando sequer a afirmação de que seu aparelho de som era melhor que o do ricaço das Alagoas;
  • quando o mesmo Collor, tentando voltar à tona depois de botinado do poder, foi escalado para formular uma questão ao folclórico Enéas Carneiro e, depois de pensar um pouco, desistiu: "Manda ele falar o que quiser". Enéas gastou seu tempo criticando o próprio Collor, que esnobou de novo o adversário ao ter a chance da réplica: "Manda ele continuar falando".
Lembrei-me de sete momentos interessantes num sem-número de debates a que assisti ou dos quais tomei conhecimento. Posso ter esquecido um ou outro mais. O certo é que a mesmice e a chatice predominam de forma avassaladora.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

SERRA SE UNE AOS LINCHADORES DE BATTISTI

Em sua marcha acelerada para a direita, o presidenciável tucano José Serra finalmente desceu do muro em relação à exigência italiana de extradição do escritor Cesare Battisti: somou-se aos linchadores dos dois continentes, contra a posição do Governo brasileiro, dos defensores dos direitos humanos e das pessoas imbuídas de espírito de justiça.

Eis o que ele declarou nesta 4ª feira (14/04) à rádio Metrópole de Salvador, respondendo à pergunta de um ouvinte do programa de Mário Kertész, na contramão dos seus antigos ideais, da soberania nacional e até da gramática:
"A Itália é um país democrático, é um país que tem um estado de direito, é uma bela democracia representativa, um estado de direito.

"O Cesare Battisti foi condenado pela Justiça italiana.

"Se ele foi condenado pela Justiça italiana, em respeito à autodeterminação dos povos, ele devia (!) ser entregue à Justiça italiana, porque se trata de uma democracia, não de uma ditadura que persegue de maneira arbitrária alguém.

"Foi condenado num processo normal, legal, por terrorismo, por ter matado pessoas.

"Na minha opinião ele devia (!!) ter sido entregue à Justiça italiana."
Para quem não quiser acreditar que ele tenha ido tão longe em sua capitulação aos antigos inimigos, eis o link para download : http://www.radiometropole.com.br/objetos/audios/2010_04_1422_03_00992serra_mk.mp3, à altura de 33'30''.

Quanto ao que se deveria ou não fazer, Serra continua esquecido de que deve a liberdade, a integridade física e, talvez, a vida à solidariedade dos melhores seres humanos para com perseguidos políticos: foram as desesperadas gestões de Fernando Henrique Cardoso, mobilizando um sem-número de apoios humanitários, que o livraram do matadouro de Augusto Pinochet, no pior momento do golpe chileno.

Face à contrapartida nenhuma que ele dá e ao cidadão nocivo que se tornou, fico me indagando se FHC deveria mesmo ter se preocupado tanto...

O certo é que, cada vez mais, tenho motivos para concordar com a terrível frase final de uma trilogia do escritor francês Maurice Druon: viver envilece.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

PASTA DE VANNUCHI DENUNCIA PRÁTICAS HEDIONDAS DA POLÍCIA GAÚCHA

Uma amiga virtual gaúcha, estudante de jornalismo, há muito me cobra uma condenação dos desmandos e arbitrariedades da governadora Yeda Crusius.

Eu vinha lhe pedindo paciência, pois detesto entrar em tiroteios entre os dois esquemas políticos que disputam a hegemonia no Brasil: o do PT e o do PSDB/DEM. [Quanto aos gelatinosos partidos mercenários, quanto menos falarmos neles, menos poluiremos o espaço virtual.]

Não vejo os esquemas lulista e tucano/demoníaco como solução para nada. Eles são, isto sim, o problema. Disputam a gerência do estado burguês, para fazerem cumprir os objetivos capitalistas. Nada mais.

Pouco se me dá se os banqueiros têm como representante de seus interesses no Palácio do Planalto, envergando a faixa presidenciual, um petista, um tucano ou um capeta. A política econômica neoliberal introduzida por Fernando Henrique Cardoso quando era ministro de Itamar Franco, atravessou inalterada os dois governos de FHC, o primeiro do Lula e o segundo também, até agora.

Então, se presidentes da República se prestam a iludir os cidadãos, fingindo tudo decidir quando só decidem o secundário e obedecem ao poder econômico no fundamental, não sou eu que vou coonestar essa farsa.

Quem não tem autonomia para contrariar o grande capital e os banqueiros não é, a bem dizer, um presidente. Está mais para rainha da Inglaterra.

E eu, plebeu convicto, nada tenho a ver com as intrigas da Corte, pois dela não participo nem quero participar. Ponto final.

Já as violações dos direitos humanos são outro departamento. Estas eu condeno sempre, seja quem for que as cometa.

Há quem me acuse de favorecer o PT, quando protesto contra o sinal verde que Serra deu para trogloditas fardados barbarizarem a USP.

Há quem me acuse de favorecer o PSDB, quando protesto contra o sinal verde que Lula deu para trogloditas fardados barbarizarem o morro da Providência.

Pouco me importa. Sou revolucionário: defendo princípios. Sempre.

Então, repudio com máxima indignação a tortura de crianças e o uso de choque elétrico na ação dos policiais militares do RS durante a reintegração de posse da fazenda Southall, no mês passado.

Mais: se Crusius não punir severamente os responsáveis, considero que este seja motivo suficiente para sua destituição do cargo.

Governante que compactua com práticas hediondas tem de ser remetido de volta às cavernas. Não serve para governar civilizados.

Faço minhas as conclusões da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, que colheu depoimentos na semana passada em São Gabriel e constatou ter havido "emprego desproporcional e inadequado da força policial letal", com o uso ostensivo de cachorros e da cavalaria contra as famílias do MST e o lançamento de bombas a esmo, tanto que atingiram até crianças com seus estilhaços (um bebê foi ferido no rosto).

Quanto ao assassinato do sem-terra Elton Brum da Silva, baleado pelas costas, foi uma recaída na barbárie da qual pensávamos nos ter livrado em 1985, quando o Brasil saiu das trevas.

É simplesmente ultrajante que até o nome do carrasco esteja sendo sonegado da opinião pública pelo governo gaúcho. Quem comete um ato desses não merece privilégio nenhum, mas sim a execração da coletividade.

O relatório da Pasta de Paulo Vannuchi será encaminhado ao Ministério Público Federal e Estadual, à Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal e da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, ao Ministério da Justiça e à Corregedoria Geral da Brigada Militar.

Espera-se que, desta vez, haja apurações isentas e punições compatíveis com a gravidade dos crimes.

Pois o acobertamento dos maiores culpados e as punições insuficientes de outras recaídas na barbárie (o massacre da Casa de Detenção à frente) contribuíram para a situação a que chegamos, em que nossas instituições estão absolutamente desacreditadas aos olhos do homem comum.

Se não começarmos a reverter esse quadro, mais dia, menos dia, as consequências serão funestas.

Ou a democracia brasileira consegue manter a aparência de que funciona a contento, passando a punir pelo menos os crimes flagrados, ou algum homem providencial acabará se oferecendo para restabelecer a moralidade pública com a imposição da ordem unida.

É simples assim.

quarta-feira, 11 de março de 2009

SERRA, BATTISTI E A VIL LINGUAGEM DOS INTERESSES POLÍTICOS

Terra em Transe (1967) é, disparado, o melhor filme brasileiro de todos os tempos.

Uma das muitas passagens antológicas da obra-prima de Glauber Rocha: o ersatz de Carlos Lacerda, o político direitista Porfirio Diaz (Paulo Autran), acusa o poeta Paulo Martins (Jardel Filho) de haver traído a amizade que um dia houvera entre eles em nome da "vil linguagem dos interesses políticos". E o outro, cabisbaixo, nada tem a retrucar, pois está prostrado pelos remorsos.

E o que sempre me vem à mente quando vejo ex-companheiros das jornadas de 1968 hoje se comportando como sustentáculos do stablishment que um dia combateram. Vendem-se por um prato de lentilhas: candidaturas, ministérios ou secretarias, boquinhas, status, grana, posição na hierarquia acadêmica. Nada que compense a perda da alma.

O grande cartunista Henfil os colocaria a todos no cemitério dos mortos-vivos. Eu não o faço porque me repugna até citar seus nomes.

Mas, a insistência do Governo José Serra em se mostrar confiável aos olhos dos conservadores e direitistas me leva a abrir exceção.

Como pode um ex-presidente da UNE tratar movimentos estudantis e sociais como casos de polícia?

Como pode um ex-exilado criticar a concessão de refúgio humanitário a um indiscutível perseguido político, apenas porque a decisão foi tomada pelo ministro de outro partido?

Serra já negara Battisti uma vez, ao fazer coro dúbio aos ultimatos italianos e à grita dos reacionários brasileiros: ""Em princípio, não estou de acordo [com a decisão do ministro Tarso Genro], pelos antecedentes que vi na imprensa. Não olhei os processos, mas me parece um exagero o asilo dado".

Não teve sequer a dignidade de firmar taxativamente sua posição, preferindo deixar aberta a porta para desdizer-se, conforme o rumo dos acontecimentos.

A segunda negação acaba de vir numa declaração do seu secretário de Justiça Luiz Antonio Marrey que melhor caberia na boca de alguma viúva da ditadura: "Foi absolutamente equivocada a decisão de dar refúgio político a um assassino condenado pela Justiça italiana".

Se tudo que os estados afirmam sobre seus desafetos deve ser tomado como verdade absoluta, erraram a França e o Chile ao não entregarem o subversivo Serra para os torturadores brasileiros.

E se a solidariedade entre os combatentes das causas justas virou letra morta, errou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que, com suas gestões desesperadas, salvou Serra da morte quando do pinochetazzo.

Não duvido que a terceira negação seja logo proferida -- em nome, sempre, da vil linguagem dos interesses políticos.

Se para Pedro houve perdão, para Serra não há nenhum. Não descarta seus princípios de outrora para salvar a vida, mas, tão-somente, para ocupar a posição de gerente-geral dos interesses capitalistas no Brasil, vulgo presidente da República.

O que, para quem não abdicou de suas convicções revolucionárias, nada mais é do que um prato de lentilhas.
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