Quando o filho do homem nasceu para o mundo, filho do homem e filho do mundo, com a cara do espírito santo pintada nas muralhas, alguém lutava contra toda a opressão, com a espada, e a mais miserável das mulheres erguia o cadáver de um filho morto, fosse pela fome dos hebreus ou por uma ordem do rei dos hebreus, porque há tempo para nascer e para morrer, tempo para amar e tempo para odiar, e não há nada novo debaixo do sol.
E quando o filho do homem proclamou a nova de libertar o povo e refazer o mundo, e quando pregaram nele a cruz, porque a cruz foi pregada nele, a terra partiu-se, sem que houvesse partilha, e dizem que as lágrimas de Deus cobriram o Oriente Médio, para selar o pacto da liberdade e da justiça, embora as lágrimas nunca deixassem de banhar o Oriente Médio, sem liberdade e sem justiça.
E você, Evaristo. Como é difícil, dom Paulo, encontrar a amizade do filho do homem, que está em nós ainda quando a ignoremos, e que nos procura ainda quando não a queiramos, porque nos acostumamos, até mesmo nós, a achar que o homem vale o que traz nos bolsos, e que a violência pode ser bonita, e que a tirania pode ser boa, se os tiranos disserem aquilo que nós desejamos ouvir.
E você, Evaristo. Eu me lembro de você, naquele dia em que a ditadura pisoteava e chutava o Brasil, e vinha de todo o país o ar corajoso das lutas nacionais. A ditadura queria um pretexto para pisar o Brasil e chutá-lo ainda mais, e você conduzia a prece pelo assassinato de um judeu, e toda a nossa gente gritou, em silêncio, e todos proferiram um discurso, em silêncio.
Você, Evaristo. Você, amigo íntimo de todo ser humano, até mesmo do ser humano desprezível, desprezado, odioso, odiado, louco, enlouquecido, violento, violentado.
Quando o filho do homem nasceu para o mundo, filho do homem e filho do mundo, com a cara do espírito santo pintada nas muralhas, alguém lutava contra toda a opressão, com a espada, e a mais miserável das mulheres erguia o cadáver de um filho morto, fosse pela fome dos hebreus ou por uma ordem do rei dos hebreus, porque há tempo para nascer e para morrer, tempo para amar e tempo para odiar, e não há nada novo debaixo do sol.
E quando o filho do homem proclamou a nova de libertar o povo e refazer o mundo, e quando pregaram nele a cruz, porque a cruz foi pregada nele, a terra partiu-se, sem que houvesse partilha, e dizem que as lágrimas de Deus cobriram o Oriente Médio, para selar o pacto da liberdade e da justiça, embora as lágrimas nunca deixassem de banhar o Oriente Médio, sem liberdade e sem justiça.
E você, Evaristo. Como é difícil, dom Paulo, encontrar a amizade do filho do homem, que está em nós ainda quando a ignoremos, e que nos procura ainda quando não a queiramos, porque nos acostumamos, até mesmo nós, a achar que o homem vale o que traz nos bolsos, e que a violência pode ser bonita, e que a tirania pode ser boa, se os tiranos disserem aquilo que nós desejamos ouvir.
E você, Evaristo. Eu me lembro de você, naquele dia em que a ditadura pisoteava e chutava o Brasil, e vinha de todo o país o ar corajoso das lutas nacionais. A ditadura queria um pretexto para pisar o Brasil e chutá-lo ainda mais, e você conduzia a prece pelo assassinato de um judeu, e toda a nossa gente gritou, em silêncio, e todos proferiram um discurso, em silêncio.
Você, Evaristo. Você, amigo íntimo de todo ser humano, até mesmo do ser humano desprezível, desprezado, odioso, odiado, louco, enlouquecido, violento, violentado. Você, Evaristo, irmão do filho do homem. Você, irmão do homem.
Se observarmos as coisas com alguma calma, e fizermos uma reflexão, perceberemos que o atual movimento das escolas ocupadas é todo negativo; ou seja, definido por uma característica negativa.
O movimento não aceita a reforma do ensino médio nem a PEC 55 (1), mas não propõe nada que possa ser concretamente contraposto aos dois projetos do governo, que faça sentido, que os trabalhadores e o povo possam entender. Portanto não reivindica nada.
Pelo menos, não de modo organizado. Vale a pena pensar sobre isto, particularmente quanto à reforma educacional apresentada, de um modo tão desastrado, por um governo impopular.
A atual proposta de reforma do ensino médio não é bem do governo Temer; apareceu em 2013 sob o governo Dilma, quase idêntica ao modo como está agora, e ficou mofando no Congresso.
Já nos anos 1990 se falava de um ensino médio semelhante ao que era antes da ditadura, com matérias opcionais e aumento da carga horária.
Em 2014, entra em vigor o Plano Nacional de Educação (PNE), uma política de Estado vigente até 2024, com vinte metas, algumas das quais contempladas pela reforma. Então, o que há de errado com a reforma? Sabemos responder a isto?
O maior problema foi, provavelmente, a medida provisória, aquela forçada de mão que o presidente pode usar, e que um sujeito como o Temer usará sem dó.
Caiu realmente muito mal, porque Temer é uma figura odiosa, intragável. Mas tem algo a seu favor neste caso, que é a falência, real, verdadeira, do ensino médio.
É preciso ser muito ingênuo para sair por aí repetindo que a falência do ensino médio é discurso da direita, como se a direita tivesse algum sólido repertório para discutir esses assuntos; não tem.
Também não preciso dar os dados, conhecidos de todos, do que é o sucateamento do ensino médio, dos quais a evasão de aproximadamente 50% será talvez o mais grave, o mais perverso e duro para a juventude (é algo semelhante a um genocídio); e nem o resultado do Ideb (2)foi inventado pelo [atual ministro da Educação] Mendonça Filho.
É óbvio que o ensino médio precisa de uma reforma, grande, estrutural. E é a partir daí que o movimento precisaria ser assertivo e positivo, propondo uma reforma alternativa, melhor que a do governo.
Parece que vêm fazendo muito sucesso nas ocupações as discussões sobre gênero, feminismo, essas conversas. Todos os temas são pertinentes e as pessoas têm mesmo o desejo de falar dessas coisas, mas política educacional, que é bom, até agora apareceu de modo bem secundário.
Se não fosse assim, já teríamos uma pauta nacional dedicada aos rumos do ensino médio, e não há nada nem sequer parecido com isto.
Sabemos que o assunto é mais ou menos discutido nas diversas ocupações, e que os grupos de pessoas são heterogêneos (como não podem deixar de ser), mas não existe uma reivindicação sobre a reforma, e provavelmente não existe a consideração da sua necessidade.
E lutas que se resumem a negar ou denunciar algo, sem exigir coisas reais, e melhores, estão sempre condenadas ao fracasso. Quem estudar a história das lutas pequenas ou grandes verá que digo a verdade.
Se o problema pode ser sanado, então é uma tarefa que cabe aos atuais estudantes do curso secundário e aos atuais professores e professoras das redes públicas (e também da rede privada, se isto for possível), porque a maior autoridade para dizer como as coisas precisam ser é quem tem, neste momento, um cotidiano profissional ou estudantil na escola.
Por outras palavras: seria tarefa dos estudantes, mas principalmente dos professores e professoras, pela importância que têm, criar a linha intelectual e política necessária.
Para definir uma pauta nacional e propô-la, um contingente de estudantes e professores em rede precisaria se dedicar a estudar, mais uma vez, tanto a proposta da reforma quanto o PNE, confrontá-los e tirar conclusões.
A reforma e o PNE, porque são a política de governo e a política de Estado em curso, e por este motivo é de onde se pode partir. Outros elementos viriam depois, com a discussão, e o objetivo seria o de criar outra via para o ensino médio.
Criar, produzir, projetar, construir. Seria um bocado difícil. Mas, sem um esforço desse tipo, o atual movimento das escolas ocupadas só convencerá aqueles que já estão convencidos. É o que está acontecendo. Parece que a nossa época gosta que as coisas sejam assim.
Quanto à PEC 55, creio que a linha deveria ser pela defesa de uma auditoria pública sobre os negócios do Estado e sobre a dívida pública. Este é outro assunto, embora também devesse ser considerado.. 1. Proposta de Emenda à Constituição impondo limites aos gastos e investimentos públicos nos próximos 20 anos. 2. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica 2015, divulgado em setembro último, mostrou que o ensino médio segue estagnado na média das escolas do país, com o mesmo resultado de 2011 e 2013: 3,7. A meta era 4,3. .
Pitaco do editor
OS ERROS NA ESCOLHA DAS
BANDEIRAS E NO TIMING
Além das barricadas, as ocupações de escolas e de fábricas foram iniciativas dos jovens contestadores de 1968 que impactaram fortemente em vários outros países. Um mês após o maio parisiense, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na rua Maria Antônia, já era ocupada... apenas para que permanecesse aberta durante as férias escolares de julho, servindo como ponto de aglutinação do movimento estudantil.
Eu sei, estava lá; e também me lembro, com menos nitidez, da ocupação do Conjunto Residencial da USP, o Crusp. Aquele foi nossoterritório livrepor um bom tempo.
Existiam então bandeiras específicas do movimento estudantil, como a luta contra o acordo MEC-Usaid – o qual, na nossa visão, representava uma ingerência estadunidense na educação brasileira, pois os recursos vindos de fora teriam o objetivo de tecnicizá-la e de dar o pontapé inicial no processo de gradual eliminação da gratuidade no ensino universitário.
Mas, o que realmente nos motivava e mobilizava não era a perspectiva um tanto distante da aplicação do dito acordo, mas o confronto imediato com o autoritarismo, seja na escola, seja na sociedade. O sloganÉ proibido proibir!talvez fosse o que melhor expressava nossa geração.
Creio ser desnecessário lembrar que tudo era muito diferente quando estávamos submetidos a uma ditadura tão truculenta quanto tacanha, a ponto de apreender, quando desocupou o Crusp pela força, umManual de bomba hidráulicapor supor que se referisse à fabricação de explosivos; eA capital, do Eça de Queirós, confundindo-a com O capital, do Marx.
Depois, ainda por cima, os incluiu no lote de livros subversivos que exibiu triunfalmente à imprensa, como troféus de batalha! Foi por essas e outras que o grande Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta definiu aquele período como sendo o de umfestival de besteiras que assola(va) o País.
Hoje inexiste insatisfação com o governo federal equivalente à de 1968 (o humor do cidadão comum, azedo durante o tempo de vacas magras, só mudaria em 1970, a partir domilagreeconômico). Embora estejamos em pindaíba semelhante, as ruas culpam o PT por tal situação, daí o desempenho catastrófico que os candidatos petistas tiveram nas eleições municipais... de apenas três semanas atrás!
Então, está certíssimo o Eduardo: ocupações de escola, no presente, só terminarão em vitória se forem deflagradas por motivos claros, justos e aglutinadores no nível da escola e da comunidade a que serve. Desgastar governos deveria ficar para depois, quando a correlação de forças se alterar em nosso favor; e isto só acontecerá... se começarmos a vencer as lutas, ao invés de as perder.
Exemplar foi a ocupação da reitoria da USP em 2007 (vide aqui), reestreia desta prática de luta no movimento estudantil brasileiro. Alunos e professores estavam mesmo, em sua grande maioria, rejeitando os quatro decretos autoritários do governador José Serra. E eles acabaram sendo derrubados!
O mesmo ocorreu em 2015, quando mais de 200 escolas secundárias de São Paulo foram ocupadas em protesto contra uma tentativa de reorganização da rede que implicaria fechamento de 93 unidades e transferências de alunos para estabelecimentos distantes de suas moradias.
Com apoio dos pais e da comunidade, os estudantes conquistaram memorável vitória, lavando nossa alma: o governador Geraldo Alckmin, sob vara, teve de recuar do seu desmoralizado intento.
A onda de ocupações atual serve como aprendizado de luta para muitos jovens – e eles precisam mesmo sair de sua apatia, voltando a dar contribuição destacada para a construção de uma sociedade justa e igualitária.
Mas, os erros na escolha das bandeiras e notimingpodem ocasionar uma derrota que bem melhor seria evitarmos, deixando como última imagem, até podermos produzir outra melhor, o nocaute que os secundaristas aplicaram no Alckmin.
É, repito, o momento de passarmos a acumular forças; fiascos já vínhamos acumulando durante todo o ano de 2016. Infelizmente, por não proporem objetivos exequíveis, as atuais ocupações tendem a engrossar a lista. (por Celso Lungaretti) .
Quando os bolivarianos venezuelanos chegaram ao governo com a eleição de Hugo Chávez, em 1998, sabiam que era preciso promover uma transformação na educação pública, tendo optado pela via da educação popular, com beleza, com todo o colorido que os povos da nossa América possuem; e também com lucidez, com um projeto muito concreto a ser realizado.
A revolução educacional, diferentemente do que se passou no Brasil durante os governos Lula e Dilma, era parte fundamental do processo encabeçado por Chávez, frustrado em alguns aspectos, vitorioso em outros. Os bolivarianos estabeleceram uma linha política arrojada e séria, segundo a firme convicção de que a educação serve para libertar o povo, rumo à emancipação dos povos da América Latina e em nome de sua união. E puseram-se a trabalhar.
Implantaram as Missões Bolivarianas — que consistiam na mobilização de caravanas compostas por um convicto professorado de luta, estudantes, artistas e lutadores sociais— pelos quatro cantos do país: cada cidade, cada povoado e cada bairro.
Um dos resultados, em aproximadamente sete anos de mobilização educacional nas escolas e fora delas, foi nada menos que a erradicação do analfabetismo na Venezuela, um feito comemorado pelas forças populares no mundo inteiro — as forças democráticas, as forças humanistas, enfim, todos aqueles que compreendem a façanha extraordinária que é dar fim ao analfabetismo em qualquer país latino-americano.
Outro resultado foi a construção de um pensamento educacional, todo um repertório, todo um conteúdo amplo, popular, camponês, operário, negro e indígena. O imenso estado de espírito construído em grande medida pela educação popular garantiu a vitória de 2002, contra uma tentativa da burguesia venezuelana e dos Estados Unidos de esmagarem a experiência daquele povo, por meio de um golpe de estado DE VERDADE.
Os trabalhadores, a juventude e os patriotas revolucionários venceram, armados com enxadas, pistolas, fuzis e livros. Mas armados com a poderosa espada dos povos em todos os momentos da História, sem a qual as pistolas e os fuzis nada podem, que é a das ideias fortes, quando associadas a uma forte esperança.
No Brasil da atualidade, sob outras condições e com muita dificuldade, nós também podemos trabalhar pela realização de uma revolução educacional, que faça sentido no horizonte das lutas populares e democráticas, e até mesmo no horizonte das conquistas tecnológicas e científicas. Haveria muito o que dizer a respeito.
É uma possibilidade que se tornou bem mais palpável desde que contingentes independentes de estudantes secundaristas partiram para a ocupação de escolas públicas, centenas delas, primeiramente em São Paulo, em seguida em Goiás, contra as agressões de tipo neoliberal que a escola pública vem sofrendo, e que sofrerá ainda mais.
Entre outras características de um movimento como o que poderemos lançar brevemente no Brasil, estará a consideração de que devemos nos assumir como um povo latino-americano, de que devemos nos enxergar assim.
A América Latina é toda feita de lutas, inclusive por uma revolução educacional, grande, para cada um dos nossos países e para toda esta parte do mundo. Os secundaristas mais aguerridos do Brasil adotaram esta palavra de ordem, tão significativa quanto inspiradora: "Acabou a paz! Isto aqui vai virar o Chile!"
Por outro lado, o esforço pela refundação da esquerda no Brasil, cujas tarefas estarão na ordem do dia mais cedo ou mais tarde, vai ocorrer necessariamente em torno das novas lutas educacionais, na escola e fora dela, de maneira que a revolução educacional defendida por Hugo Chávez continuará a ser uma referência real, a despeito dos rumos do governo de Nicolás Maduro, este cavaleiro da tristíssima figura.
E, se quisermos experimentar, apenas experimentar, um lema para as lutas educacionais que virão, penso que este aqui poderia ser interessante:
"O capitalismo criou uma ficção chamada sociedade do conhecimento; cabe a nós assumirmos o objetivo revolucionário de convertê-la em realidade!"
Janot pediu a prisão de Renan Calheiros, um dos donos da capitania hereditária do Brasil, ex-ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso, um verdadeiro peixão.
Teori Zavascki, insuspeito, um funcionário cumpridor dos seus horários, sujeito até mesmo inexpressivo, apagado no horizonte da tradicional manobra política ou jurídica, encarregou-se de garantir que, em Renan e nos seus, ninguém põe a mão, pelo menos por enquanto.
Em seguida Renan, apoiador e compadre de Lula desde os tempos em que o pai dos pobres era presidente, a certa altura muito arranhado em sua reputação (aquele assunto envolvendo a pensão milionária paga por todos nós a certa mulher e a certa criança, nada sério), recobra forças como um vampiro.
Qual um Bento Carneiro de odiosa figura, a despeito da imensa crise de credibilidade que assola todo o nosso sistema político, Renan lança a campanha pelo impeachment de Janot, para que este aprenda de um vez por todas a não se meter a besta.
Com o apoio entusiasmado de um Fernando Collor defensor da ética. Com o riso raivoso de Cunha, ameaçando levar com ele mais de 150. Sob o silêncio do intragável Michel Temer, que não se pronuncia, nem deixa de se pronunciar.
Renan Calheiros é mesmo um gigante da nossa desventura. Palavras de Nietzsche: “Os fortes, quando tomam veneno, ficam mais e mais fortes.”
QUE SIGNIFICADO TERIA A PRISÃO DO LULA?
.
Lula poderia ser preso por lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio, essas coisinhas. Para um certo ramo da esquerda, já totalmente acostumado a fazer os seus juízos de valor utilizando os dois pesos e a duas medidas a favor dos seus líderes (às vezes por ingenuidade, às vezes por outro motivo), tratar-se-ia de mais uma vitória das forças do mal contra as forças do bem, estas ilibadas e cândidas, dirigidas por aquele puríssimo brasileiro que perdeu o dedo na máquina, embora tenha ficado podre de rico fazendo política, segundo a pior tradição, o pior espírito e os piores princípios.
Sérgio Moro é algum bobalhão deslumbrado, alguém disposto a abraçar a agenda das forças do mal, a tantos por dia, como diz aquela esquerda que gosta de ser financiada por governos? Difícil.
É um falso juiz, como chegou a boquirrotar o Paulo Henrique Amorim? Claro que não.
É um tipo ambicioso, que pretende passar à História como um Eliot Ness acaipirado, rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco e vindo do interior? Certamente. Se Lula for preso, será sob todos os assim-chamados rigores da Lei. Não há amadores nisto.
Para a esquerda mais autêntica, que desejará se reconstruir, que já sente a necessidade de renascer com toda a consciência e com força, a eventual prisão de Lula precisará significar, ainda mais, o fim de um tempo, o esgotamento de uma era e o fracasso dos métodos adotados por Lula e por todos os dirigentes do lulismo. Ou a esquerda de um modo geral compreende isto, ou marchará, a passo largo e decidido, para a completa insignificância.
UM ENFRAQUECIDO CRISTOVAM BUARQUE
.
No Senado, Cristovam Buarque tomou a palavra para confrontar o presidente, rei, vizir, sultão, marajá, marechal Renan Calheiros. Com a esquerda mordendo-lhe os flancos por um lado, e a direita, de outro, dando-lhe aquele desprezo respeitoso que pessoas como Buarque costumam receber num ambiente como o do Senado.
Buarque pode ter se equivocado ao votar pelo impedimento de Dilma (talvez, por ser favorável à realização de novas eleições, opção melhor fosse a de abster-se, não sei), mas ele carrega o mérito imenso de ser, como político, um pensador da Nação, “este deserto de homens e ideias” como dizia o Barão de Itararé.
É dele, p. ex., o projeto minucioso, corajoso e totalmente viável de federalização da educação básica no Brasil, para elevar o salário do professorado a 10 mil mensais, promover uma integração educacional em termos estruturais, e, finalmente, redefinir as prioridades do Estado, para que se invista na escola pública segundo as nossas mais graves necessidades, sob rigorosa fiscalização e com metas claras a serem atingidas.
Ainda assim, os lulistas, entre eles muitos professores, apontam Buarque como um golpista, um inimigo do povo, um bandido, um canalha, um facínora capaz de tudo.
Mas Buarque cometeu mesmo um erro, grosseiro, estranho, que foi o de se filiar ao PPS de Roberto Freire, um partido de direita embora se chame socialista. No início dos anos 1990, Roberto Freire, Sérgio Arouca e congêneres tentaram impedir, recorrendo à justiça burguesa, que o histórico Partido Comunista Brasileiro continuasse a se organizar com esse nome, lançando mão de todas as calúnias e agressões contra os antigos companheiros.
E foram cair nos braços do PSDB, e do atual DEM, ao ponto de apoiarem ainda hoje um governo tão reacionário como de Alckmin, em São Paulo. E o Cristovam Buarque lá, sempre um peixe fora d'água, sempre tentando manter uma independência difícil ou impossível, sempre muito sério e sincero, mas todo manchado, todo lambuzado. É realmente uma pena. (por Eduardo Rodrigues Vianna)
Um capítulo à parte na longa história da identidade nacional está naqueles slogans que enfeitam identidades visuais, como Brasil, um país de todos, ou o inacreditável País rico é país sem pobreza, segundo aquele peculiar modo Dilma Rousseff de filosofar, ou de contar lorotas.
Até ontem nós éramos a Pátria educadora, a despeito dos 38% de analfabetos funcionais matriculados em cursos universitários, ou das condições de vida e trabalho do professorado em todos os níveis.
E agora, sob o cetro de Temer, somos somente Ordem e Progresso, sem pompa, sem grandes arroubos, sem um futuro radiante a sangue e lágrimas se preciso for, sem nenhuma dessas coisas que não convêm a um mero governo interino, conduzido por um vice-presidente, para todo o sempre um sujeito com cara de vice, embora sem as cascatas e papelões, digamos, de um Café Filho.
Mas podemos imaginar o Brasil de outras formas e em outras prosas dando uma olhada nesse palavreado bonito, por vezes estranho ou francamente ridículo, que adorna os auspícios da Nação. Se alguém se escandalizar, diremos que é licença poética, como ocorre com os discursos do ministro da Saúde dizendo que bom mesmo, para um país como o nosso, é plano de saúde privado.
Vamos, então, imaginar outras paginações para o Brasil, com outros lemas. Carlos Drummond de Andrade já deu o mote há bastante tempo: "Sem imaginação, nada feito nesta vida".
P. ex., aqui o Brasil venceu o seu subdesenvolvimento: deixou de exportar matérias-primas e comprar tecnologia, e deixou sobretudo de se desprezar a si próprio como o grande país que é, rompendo para sempre com aquela mediocridade que tanto desagrado causava ao Lima Barreto e a tantos outros.
Esse Brasil compreendeu a contradição imensa entre o que somos e o que deveríamos ser, trabalhou por criar uma fisionomia própria, uma luz própria como dizia o Brizola, e adotou um lema simples: BRASIL, UM PAÍS PORRETA!
Acolá o Brasil despertou do berço, para espanto das nações e alegria da América Latina, devotando todos os seus esforços à realização da reforma agrária. Ah, meus amigos, nem mesmo nós brasileiros podíamos antever o impacto tremendo que haveria de causar o Brasil agrariamente reformado, capaz de reverter todos os processos urbanos e sociais do êxodo rural provocado pela concentração da terra; com comida farta e barata para todos, pela primeira vez; com todo o respeito pela Natureza, uma vez que nós, humanos, somos os parasitas conscientes das plantas; e a custa de lutas tão cruentas que uma das grandes revoluções do mundo brilhou.
Num país tão atrasado do ponto de vista democrático quanto é o Brasil, até mesmo algo tão elementar como reforma agrária enseja revolução. Então, caberia o lema: BRASIL, SE NÃO GOSTOU, VEM PRO PAU!
Ali o Brasil se decidiu por encarnar de novo o espírito voador de Santos Dumont e, com toda a potência, com um milhão de cavalos de força acima, em direção ao céu de estrelas (não de nuvens: de estrelas), com o Veículo Lançador de Satélites para começar.
[Veículo Lançador de Satélites, VLS, um belo projeto brasileiro que foi boicotado o tempo todo pelos Estados Unidos, até explodir em 2001, num acidente que muita gente ainda não engoliu.]
Esse Brasil, de muita ciência e alta tecnologia, disposto a enterrar e plantar grama sobre todo o obscurantismo provindo dos quatrocentos anos de escravidão, resoluto em criar e ofertar primorosa educação pública para cada um de seus meninos e meninas, em menos de trinta anos convertido no mais sofisticado país do Ocidente em termos educacionais e culturais, também tem o seu lema: BRASIL, O PAÍS DAS ALTURAS.
E é claro que não podemos nos esquecer do mais célebre lema do Brasil, ou atribuído ao Brasil por um estrangeiro, um judeu europeu refugiado de guerra, chamado Stefan Zweig: BRASIL, O PAÍS DO FUTURO.
A ditadura de Vargas encomendou a obra de Zweig, mas melou a circulação dos livros, com a acusação de comunismo. O desterrado Zweig, inimigo vencido dos nazis, viu-se nas mãos de gente que simpatizava com o regime de Hitler, cá em terras brasileiras, e suicidou-se.
Mas que slogan bonito, e sobretudo verdadeiro, nós poderíamos ter? Que significasse bem o conjunto de necessidades e realizações que definem o Brasil de hoje?
É certo que precisamos de luta, as grandes lutas nacionais, populares, contra as oligarquias e os abusadores da sociedade, de todos os tipos e origens.
Mas nós também precisamos criar inteligência, a esquerda brasileira precisa se dedicar à autocrítica como em nenhum outro momento, para viabilizar uma refundação da esquerda, um renascimento de esquerda, e temos de ser sérios nisto.
ÁRIESTempestades, trovoadas, socos e pontapés à direita. Ruídos estranhos e risadas misteriosas à esquerda. Vire à esquerda, claro. Um rolo compressor virá em sua direção: desvie.
Cor da sorte: vermelho, vermelho sangue, vermelho paixão, vermelho China!
Negócios: deixe isso pra lá.
Amor: as coisas sempre podem piorar, ou melhorar, depende disso e daquilo, amor é assunto da mais alta complexidade.
TOURO Haverá grande manifestação em Madrid, promovida exatamente por touros, contra as touradas, contra o Podemos, contra a Lei e o Rei. Se não puder estar presente, acompanhe pelo Facebook. Sinais de fumaça serão enviados de algum lugar; finja que não é com você.
Negócios: seja honesto, você não tem nada a perder.
Cor da sorte: azul, uma cor do baú.
Amor: ela/ele voltará, e você, que tanto esperou por esse momento, não saberá sequer o que fazer com as mãos. Ou qualquer coisa por aí.
GÊMEOS As coisas não são o que parecem ser, não confunda liberdade com patifaria. Um cofre cairá sobre sua cabeça em janeiro, ou em agosto, mas mantenha a espinha ereta. Lembre-se do ditado: "Com os cofres de uma tonelada que me atiraram, todos vazios, fiz uma grana no ferro velho".
Negócios: arranjar um emprego com a máxima urgência, ou mudar de.
Cor da sorte: laranja, em memória daquelas ocasiões em que te passaram para trás.
Amor: esqueça aquela absurda papagaiada a respeito das almas gêmeas, nascidas uma para a outra. Isto, definitiva e simplesmente, não existe. É preciso ser imbecil para crer nisso.
CÂNCER Deixe de fumar, para sempre, a partir de agora. Deixe de beber, e nada de salsichas. Vai por mim, amizade, vai por mim. O Demônio aparecerá no sábado, interessado em comprar a sua alma. Não a venda, nem alugue. Se quiser doá-la, lembre-se de que é muito mais digno dar a alma do que vendê-la.
Negócios: os do patrão; você só vai mesmo é trabalhar.
Cor da sorte:xadrez.
Amor: conte dez passos, vire-se, e atire.
LEÃO Não leve desaforos para casa; é melhor levar dinheiro, sobretudo quando não se tem nada na despensa. Se alguém pisar os seus calos, morda-lhe as sobrancelhas! Se alguém gritar com você, atire-lhe um meteoro! Se alguém fizer um convite para irem ao bar, beba apenas um coquetel Molotov, e retire-se, trançando as pernas se necessário, mas com toda a dignidade.
Negócios: dize-me com quem andas, e eu te direi com quantos paus se faz uma canoa.
Cor da sorte: amarelo manga.
Amor: talvez, é sempre uma possibilidade, não é mesmo?
VIRGEM Não seja pessimista. Nem sempre a luz no fim do túnel é a do trem que vem vindo, prestes a esmagar todo mundo. Se um completo desconhecido oferecer flores, na rua, certifique-se de que não são as flores do mal. Se forem, tanto melhor, porque paixão é uma forma extraordinária de doença. Se a Virgem Santíssima aparecer em seus sonhos, deposite esperanças na loteria.
Negócios: você venderá tudo o que tem, sua força de trabalho, em troca de uma posição no IBGE.
Cor da sorte: zebra.
Amor: é dor que desatina sem doer.
LIBRA Libere-se, Libra, libere-se. A coisa vai esquentar no segundo semestre, não saia de casa sem uma garrafinha de vinagre, e sem o número do Dr. Glauco, advogado dos manifestantes. Se vir algum abuso, grave com o celular! Se vier o Choque, resista! Se vier a morte, aproveite a viagem, e ressuscite, dentro de três dias úteis!
Negócios: venda caro o seu couro, tão caro quanto possível.
Cor da sorte: cinza chumbo.
Amor: acredite nele, no amor.
ESCORPIÃO Você é porreta, Escorpião. Você é terrível, Escorpião. Você é mesmo um poço de veneno, Escorpião. Você é todo vermelho, Escorpião. Sou fã de carteirinha, Escorpião.
Negócios: aqueles, você sabe, com o devido sigilo.
Cor da sorte: qualquer uma.
Amor: uivos e gemidos semelhantes ao som do Apocalipse. A vizinhança, em estado de choque, será acordada às duas da madrugada, e você, com toda a sinceridade e toda a pureza d'alma, não dará a isto a menor importância.
SAGITÁRIO Na quarta, aparacerá o vendedor de escovas: compre. Na quinta, as Testemunhas de Jeová: deixarão aquela revistinha, as ilustrações são boas. Na sexta, telefonará o sujeito da prestação; deva, não pague, negue enquanto puder! Uma peste de ratos fará miséria na Indonésia, e você se lembrará, com alívio, de que estamos no Brasil. Em seguida, pensando sobre o Brasil, você desejará se mudar para a Indonésia.
Negócios: vá levando.
Cor da sorte: o negro profundo, o negro universal.
Amor: o de sempre, e dê-se por muito feliz.
CAPRICÓRNIO Você dará com a testa em algum canto da casa, e quebrará os chifres. O mundo acabará em abril. Você finalmente se tornará uma pessoa disciplinada e cheia de foco em maio, sem dar importância ao fato de o mundo haver desaparecido. O Universo conspirará a seu favor. Deus ouvirá suas preces. Um unicórnio lilás aparecerá em sua porta, e você o receberá, com direito ao fundo musical de sua escolha.
Negócios: parados.
Cor da sorte: turquesa.
Amor: vai muito bem com espinafre, cru.
AQUÁRIO Alguém atirará uma pedra em você, e será uma covardia. Alguém dirá horrores a seu respeito, e será mentira. Alguém se esquecerá de você, e será uma injustiça. Alguém irá esvaziá-lo completamente, Aquário. E você, feliz, vai se dar conta de que a água estava podre. Você achará um papel, na rua, com os dizeres do Barão: "De onde menos se espera, daí é que não sai nada." Guarde-o.
Negócios: estranhos.
Cor da sorte: marrom bombom, chocolate amargo.
Amor: procure atrás do sofá.
PEIXES Você, peixe doméstico, peixe de bem que vive no aquário, vai se libertar dessa prisão de vidro, pode apostar. A libertação custará a sua vida, mas valerá a pena. Você morrerá asfixiado, mas valerá a pena. Tenha fé, acredite, persevere, prossiga! Se os planos derem errado, você terá morrido de qualquer maneira. Em caso de desespero, fuja para o oceano. Um tubarão se aproximará de você. Reaja com educação, mas afaste-se.
Negócios: molhados.
Cor da sorte: prata, escamas brilhantes como diamantes.
Amor: um mistério profundo.
OBSERVAÇÃO DO HOROSCOPISTA
.Este texto é uma homenagem tardia ao Ivan Lessa, morto em 2012, que publicou n'O Pasquimum horóscopo na mesma linha, 'tão sabendo?