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domingo, 20 de agosto de 2023

AS JOIAS SÃO A DESCULPA, MAS BOLSONARO IRÁ PRA CADEIA PORQUE SE TORNOU DISFUNCIONOU À BURGUESIA BRASILEIRA

 

danilo paris
Com certeza a última semana foi a pior da vida política de Bolsonaro, excetuando-se quando ele perdeu seu segundo mandato. Ele viu o hacker de Araraquara soltar uma rajada de denúncias na CPMI, seu ex-ajudante de ordens sinalizar uma possível confissão, cujo desfecho ainda é nebuloso, e ter seus sigilos bancário e fiscal quebrados por Alexandre de Moraes - medida estendida também a Michele Bolsonaro.

Os grandes jornalões dormiram e amanheceram em polvorosa. Todos os analistas declararam que estavam assistindo a um momento histórico, creditando ao STF a salvaguarda da democracia brasileira que pretendia ser surrupiada por uma gentalha de contrabandistas de caneta e relógio.

Por todos os movimentos feitos até o momento, existe a possibilidade de que a prisão de Bolsonaro ocorra. A denúncia de que Alexandre de Moraes teria sido grampeado - ou uma tentativa disso - gera consequências. A selfie de um general que foi do alto comando com um produto de contrabando, também. Além disso, não é uma casualidade que tudo ocorra simultaneamente na mesma semana. Há uma ofensiva articulada e coordenada.

O contexto internacional também pode oferecer algumas sugestões. O bom desempenho eleitoral do reacionário Javier Milei nas eleições primárias da Argentina há poucos dias talvez seja um fator nesse cálculo. Essas ações podem se relacionar ao senso de urgência provocado pela possibilidade de um maior fortalecimento de um aliado seu na América Latina.

A questão que fica, e que nenhum grande veículo de mídia quer responder, é: por que Bolsonaro, que passou a ser a melhor opção da grande mídia e o favorecido pelo STF em 2018, agora se torna um alvo?

Dizer que seu mandato revelou o que ele realmente era não convence. Frases asquerosas e ações tresloucadas formam sua biografia. E mesmo assim, todos esses embarcaram no processo que resultou em sua chegada à presidência.

O problema principal é que um componente central, senão o principal, da política se chama hegemonia. Portanto, nunca é demais voltar a Gramsci. Entre as definições que o comunista sardo utiliza para explicar o conceito, podemos encontrar a capacidade de organização do consenso exercida no âmbito da sociedade civil. O que, convenhamos, nunca foi o forte de Bolsonaro.

Ainda que nenhum governante consiga a organização total do consenso na sociedade, ao menos essa tentativa deve ser buscada. Em tempos normais das democracias burguesas, um maior equilíbrio entre coerção e consenso é fundamental para manutenção da hegemonia burguesa, e o consenso não brota de um repolho, deve ser construído.

Bolsonaro pôde oferecer um projeto econômico ultraneoliberal e por isso conquistou apoio de poderosas frações da classe dominante. Uma vez cumprido esse programa, era preciso aparar as arestas dos efeitos indesejados. Isto é, tornou-se indesejável a permanente desestabilização que seu modo de governo provocava.

Problema que a Frente Ampla de Lula e Alckmin se propôs a resolver e por isso conquistou o apoio antes perdido entre estratos da classe dominante. É por isso que hoje Bolsonaro pode ser preso por um relógio ou uma caneta. Pode ainda ter uma condução coercitiva devido a denúncia de um hacker do interior paulista.

Para estabilização do regime político, balançado pelo golpe institucional de 2016 e permeado por um mar revolto nos últimos anos, Bolsonaro deve ser parado. No entanto, todo o seu legado econômico será cuidadosamente preservado por todos aqueles que agora querem se apresentar como seus algozes. (Danilo Paris, no Esquerda Diário) 


sexta-feira, 10 de março de 2023

POR TRÁS DO TRABALHO ANÁLOGO À ESCRAVIDÃO ESTÁ A PRECARIEDADE TRABALHISTA ALIMENTADA HÁ DÉCADAS NO BRASIL

 

danilo paris 

Trabalho Escravo Irrompe na Miragem de um Novo País

Agora foi a vez da gigante Colombo Agroindústria S/A, produtora do açúcar refinado Caravelas, ser flagrada com 32 trabalhadores em condições análogas à escravidão em um canavial em Pirangi (SP). A Colombo Agroindústria é uma das maiores produtoras de açúcar e etanol do Brasil, com mais de 5100 empregos diretos e um lucro líquido de R$ 251,59 milhões em 2022. 

Dias antes, mais de 200 pessoas foram resgatadas em situação análoga à escravidão trabalhando nas colheitas de uva das vinícolas Aurora, Garibaldi e Salton, no Rio Grande do Sul. Para completar, ainda assistimos cenas grotescas, como o festival de xenofobia e racismo proferido por vereador de Caxias do Sul, Sandro Fantinele  uma declaração da entidade patronal das vinícolas, defendendo os empresários que estavam maximizando seus lucros através da hiper-exploração. Não por acaso, esses casos envolvem trabalhadores do campo, expostos a grandes grupos capitalistas que concentram enormes quantidades de terras, em todo um ramo produtivo acostumado a utilizar as formas mais precárias de trabalho.

A exploração burguesa, sem seus adornos e enfeites, revelou-se nua e crua para todo o país. Situações de servidão por dívida, condições degradantes de trabalho, jornadas extenuantes, castigos físicos, extrema precariedade das moradias, falta de camas, inexistência de banheiros funcionando, falta de ventilação e fiação exposta, além da superlotação, foram alguma das imagens divulgadas pelos principais meios de comunicação.

O que vários desses casos, entre tantos outros que nunca se tornarão públicos, têm em comum? A terceirização do trabalho. Ela é uma engrenagem fundamental que, em determinadas situações, serve como porta de entrada para o trabalho análogo à escravidão. E por que? As mudanças na legislação trabalhista, entre tantos outros esmagamentos de direitos, permitiu a terceirização da atividade fim, além de poder ser uma artificio para livrar a cara das empresas que contratam subsidiárias. Em outras palavras, a gigante Colombo Agroindústria S/A também se beneficiou das condições terríveis de trabalho que agora vieram à público, mas o caminho para que ela seja responsável por arcar com indenizações, multas e etc., é muito mais complexo por se tratar de uma outra empresa que foi flagrada se utilizando do trabalho escravo.

No entanto, a situação é tão grave, e a justiça tão cúmplice, que até mesmo entre as empresas que são diretamente responsáveis por empregar trabalho escravo, o grau de responsabilização e punição é muito baixo. É chocante que apenas 4,2% de acusados por trabalho escravo sejam punidos, conforme revelou estudo da Universidade Federal de Minas de Minas Gerais.

A imprensa agora faz reportagens sentimentais, compadecendo-se da situação desses trabalhadores. Toda sua lógica é responsabilizar os maus patrões, mas há um mecanismo que é preservado pela esmagadora maioria dos analistas e jornalistas: a reforma trabalhista e todos os ataques aos direitos dos trabalhadores.

Aqui mora uma questão central, que é um choque entre a ideia de que o governo Lula-Alckmin traria um novo Brasil e a própria realidade de um país inundado por um tsunami de trabalho precário. A questão é que a transição entre governos produz uma miragem que um novo país está sendo reconstruído, bastando esperar que as coisas irão voltar aos trilhos. A recente experiência com a existência de um governo de extrema-direita, que representava o projeto do ultra neoliberalismo, e que, portanto, defendia sem rodeios a maximização da exploração do trabalho, produz, entre tantos outros efeitos, a ilusão de que a face mais cruel e brutal da estrutura social brasileira seria gradativamente modificada.

Nesse mesmo contexto, supostos aliados da democracia, baluartes da normalização do país, ao descer no terreno da produção social, revelam seu verdadeiro espírito, impregnado com o que existe de mais arcaico na formação histórica do Brasil. Em particular o STF, tido por muitos como redentor da democracia e carrasco da extrema-direita, tem todas as suas digitais espalhadas nessas cenas horrendas dos últimos dias. Destaque para Alexandre de Moraes, nomeado ministro por Temer, a mão que segurou a caneta que assinou a destruição dos direitos trabalhistas. Jorge Luiz Souto Maior, desembargador da Justiça do Trabalho, é preciso nessa análise quando diz:

“O Supremo Tribunal Federal, a grande mídia, grandes juristas, os juristas trabalhistas, empresas, associações, todos eles contribuíram para difundir e naturalizar a terceirização como um fator de reengenharia da produção, como uma forma de melhorar a economia. Todo mundo sabe disso, não é mesmo? Mas eles mentiram sobre a terceirização para realmente excluir a responsabilidade social das empresas, transferindo-a para outras empresas com menos capital ou sem capital algum. Isso levou a uma pressão cada vez maior nas empresas subcapitalizadas, que precisam competir com outras empresas para prestar serviços e, por sua vez, acabam conduzindo a exploração do trabalho a níveis que estamos vendo hoje.”

Além do STF, há outros atores, que subitamente apareciam como defensores da constituição, mas que na realidade, defendiam, e seguem defendendo, a ditadura do capital contra o trabalho. A mais notória delas, a FIESP, no grande e iluminado prédio da Avenida Paulista onde se pode localizar figuras que foram fundamentais para ampliação do trabalho precário no Brasil. Foi ela que esteve entre os impulsionadores do simbólico dia 11 de agosto de 2022, data que marcou a conformação da chamada Frente Ampla. A mesma FIESP que teve entre seus diretores aqueles que defenderam fervorosamente a reforma trabalhista e a ampliação da terceirização, propondo até que o trabalhador deveria almoçar com uma mão e seguir trabalhando com outra, eliminado assim o inconveniente horário do almoço.


Mas, poderia se argumentar: estamos apenas no terceiro mês do novo governo, e por óbvio isso é uma herança do bolsonarismo. No entanto, as coisas não são assim. Marcio Pochmann, intelectual, economista e figura orgânica ao Partido dos Trabalhadores (PT), portanto insuspeito de querer prejudicar seu próprio partido, demonstra que mesmo nos governos Lula e Dilma a expansão do trabalho precário foi a regra e não a exceção. Segundo ele, a maioria dos postos de trabalho criados na primeira década do século XXI no Brasil tinham baixos rendimentos, até 1,5 salário mínimo mensal, o que é chamado de working poor (trabalhadores pobres). Considerando os governos Lula e Dilma a terceirização saltou de 4 milhões para 12,7 milhões de trabalhadores.

Como já afirmamos, o governo Lula foi um período também de avanço da terceirização no serviço público. Os gastos estatais com a terceirização cresceram 61%, contra aumento de 24% dos servidores com contratos diretos. Na indústria do petróleo, dominada pela Petrobras, a terceirização cresceu meteoricamente, atingindo 630% entre 2000 e 2013.

Embora a terceirização tenha sido implementada durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, ela se expandiu enormemente durante os governos do PT, atingindo um quarto do emprego formal no Brasil em 2014. É uma característica estrutural daquilo que se denominou chamar lulismo, transformar a explosão de empregos informais sob o governo de FHC em empregos formais, porém com baixos salários e direitos subtraídos, principalmente por meio da terceirização. E foi justamente esse um calcanhar de Aquiles dos governos do PT, quando analisamos grandes mobilizações operárias que ocorreram naquele período.

Impossível esquecer a revolta, tida como selvagem, dos operários que construíam a usina de Jirau, no Rio Madeiro, que incendiaram os dormitórios, ônibus e maquinários, em uma explosão de ódio contra as mais precárias condições de trabalho e de vida. Nada menos do que o maior canteiro de obras do Brasil, literalmente em chamas, escancarando o pacto conservador do PT com grandes empreiteiras, para erguer um projeto de país que tinha entre os seus pilares a precarização do trabalho.

E agora, qual a posição do governo sobre a reforma trabalhista? Não foi uma, mas inúmeras as declarações de diversos membros do governo garantindo a manutenção da reforma trabalhista, alternando, no máximo, alguns pontos. Isso implica que a natureza da reforma permanecerá inalterada, apesar dos recentes escândalos que ganharam repercussão nos últimos dias.


O plano de governo da Frente Ampla, que une tanto adeptos do neoliberalismo quanto das reformas, quer se apresentar como um empreendimento civilizatório. Entretanto, ao analisarmos o cenário do mercado de trabalho, a realidade se assemelha à barbárie. Não há meio termo. É preciso enfrentar a reforma trabalhista de forma frontal. As bandeiras da efetivação dos terceirizados e da defesa de igualdade salarial e de direitos nunca foram tão atuais. Caso contrário, a normalização do trabalho análogo à escravidão - bem como outras formas que potencializam a exploração, como a uberização que se expande como peste - serão as consequências de um novo país que sempre se modernizou de maneira combinada com as formas sociais mais arcaicas. (Danilo Paris) 


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