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quinta-feira, 29 de agosto de 2024

A ESQUERDA QUE NÃO SE DEIXOU COOPTAR PELO CAPITALISMO: UM LEGADO (parte 3)

Enquanto era realizado o congresso do racha dos sete, transcorriam
as negociações do sequestro do embaixador estadunidense Charles Elbrick.
Até o racha dos sete, as circunstâncias vinham me propiciando uma escalada relâmpago nas fileiras da esquerda. 

Era, contudo, algo que eu não cogitava, nem sequer pretendia. Nunca tive obsessão pelo poder e. aos 18/19 anos, já possuía suficiente senso de autocrítica para perceber que não estava pronto para voos tão altos.  

Mas, eu mentiria se não admitisse que o novo status me deslumbrou um pouquinho que fosse, principalmente após passar 1968 inteiro ressentido com o tratamento entre paternal e ligeiramente desdenhoso que os militantes universitários dedicavam a nós, secundaristas, colocando-nos ora no papel de tarefeiros, ora no de bois de piranha

[Caso, p. ex., de quando nos escolheram para panfletar Osasco ocupada pela PM em junho de 1968, sob a alegação de que, presos, iríamos para o Juizado de Menores e não para o Deops. Mas isto não passava de papo furado: a ditadura não tinha tais melindres.]  

Quando a minha sorte de principiante acabou e a realidade crua da luta armada começou a desabar sobre mim, isso me abalou mais do que deveria. Primeira foi a morte de um companheiro da VPR a quem não conhecia, Carlos Zanirato, em junho. Preso, ele resolveu dar um fim às torturas pela via do suicídio. conduzindo a repressão a um ponto falso e atirando-se sob um veículo pesado. 
Fernando Ruivo, vítima de um acaso.

No mês seguinte vieram o
Elias e um  ex-dirigente da Dissidência Estudantil de São Paulo, de quem eu muito ouvia falar quando fazia movimento secundarista na órbita dessa organização universitária em 1968: o Fernando Ruivo (Fernando Borges de Paula Ferreira). 

Um caso chocante porque ambos tiveram o azar de estarem num carro que empacou logo quando passava por uma boca quente paulistana. Havia policiais emboscados esperando surpreender traficantes, então os dois, sabendo que uma revista revelaria a existência de armas e munição no porta-malas, abriram fogo. 

O Ruivo morreu na hora e o Elias foi salvo pelos médicos mas expirou quando submetido a torturas prematuras.

Em outubro veio o pior baque para mim: a morte do meu colega de escola, amigo, companheiro de militância secundarista e um dos sete quadros que conduzi para as fileiras da VPR, Eremias Delizoicov. 

Eu estava longe, participando da equipe precursora do treinamento guerrilheiro na região de Registro (SP), mas me senti culpado mesmo assim: tornara-me comandante estadual graças aos que, como ele, me haviam escolhido como líder de nossa base e delegado ao congresso de 1969 da VPR. 

Mas, não zelara por nenhum dos sete, absorvido que estava pelas minhas novas funções. A morte do Eremias, que preferira trocar tiros do que entregar-se vivo, embora pouca participação tivesse até então na VPR e não fosse depositário de segredos valiosos para a Operação Bandeirantes (precursora do DOI-Codi) pesava sobre meus ombros. Apesar das normas de segurança em contrário, eu teria como contatar alguns dos sete, mas não o fizera. E o despreparo do Eremias terminara em tragédia.

O certo é que, após estar a um passo da expulsão durante o Congresso de Teresópolis e ver-me salvo na enésima hora  pela decisão do Lamarca de desfechar o racha dos sete, não me senti vitorioso, muito pelo contrário. A beligerância com que se travara a luta interna, com os neo-massistas utilizando um verdadeiro arsenal de meias-verdades e mentiras descaradas para prevalecerem contra o Moisés e eu me lembrou os piores momentos do movimento estudantil.

Não conseguia engolir o episódio em que até a minha queda os adversários do nosso campo tramaram, como se fôssemos inimigos mortais. 



É que voltei de Teresópolis com a missão de apresentar aos militantes da VAR em SP  a visão dos refundadores da VPR, enquanto o Antônio Roberto Espinoza expressava a posição neo-massista. Isto só ocorreu, contudo, duas vezes.

Na primeira, apesar de o Espinosa ter sido sempre do Comando Nacional enquanto eu era comandante estadual, sai-me melhor do que o outro lado esperava. Aí, finda a segunda dessas reuniões, fui  a um ponto com antigos companheiros secundaristas que eu queria atrair para a VPR; em seguida, deveria ser apanhado por pessoal da VAR, pois nós havíamos ficado sem aparelhos em SP  e competia a eles me abrigarem.

Faltaram ao ponto e também faltaram na alternativa horas depois, deixando-me entregue à própria sorte, com meu rosto nos cartazes de procurados vistos em todo lugar, sem documentos capazes de enganar policial algum e com um .38 embaixo do braço. E deixara de ser seguro enfiar-me num hotelzinho barato, como fizera meses antes, ao sair de casa para entrar na clandestinidade.

Mas, uma moeda caiu em pé. Andando por ruas menos movimentadas do centro velho de SP, enquanto refletia sobre como escapar daquela enrascada, dei de cara com o Devanir de Carvalho, do Movimento Revolucionário Tiradentes, mais procurado ainda do que eu (travara tiroteio com agentes da repressão que vinham prendê-lo e aos irmãos, acabando por escapar ferido no braço).

Encontrá-lo caminhando pela rua, ainda com o braço na tipoia, foi um inacreditável golpe de sorte. Ele me abrigou como pôde e reatou meu contato com a VPR. Mas, a solidariedade impecável do Devanir não foi suficiente para eu esquecer que aqueles que nem duas semanas antes pertenciam à mesma organização, acabavam de tentar entregar-me às feras.

Amargurado, nem quis participar do rápido encontro no qual alguns dos principais quadros da VPR refundada aprovaram basicamente as teses do Jamil como plataforma doutrinária e elegeram um novo Comando Nacional. 

Em seguida, por estar muito queimado em SP (até na Biblioteca Central a Oban plantou agentes, na esperança de que eu aparecesse por lá, como fazia amiúde nos tempos de secundarista!), incumbiram-me de ajudar a preparar uma área de treinamento guerrilheiro para receber os primeiros aprendizes.
Livro raro, é o que melhor reconstitui
a queda das áreas guerrilheiras da VPR

Não fui tão mal no trabalho de campo como detratores exagerariam depois, mas o noticiário de cada dia me fazia tanta falta quanto o ar para respirar. 

Não suportava permanecer distante enquanto outros companheiros poderiam estar morrendo nas cidades. Quando chegava o motorista que trazia nossas provisões, mensagens e utensílios, eu simplesmente devorava os jornais recentes.

Então, quando o Lamarca decidiu que aquele sítio próximo a Jacupiranga tinha vários inconvenientes para nosso projeto e os trabalhos deveriam ser transferidos para outro município, supostamente longínquo, pedi para voltar ao trabalho urbano, pois avaliara que nele seria mais útil.

O Massafumi Yoshinaga, velho companheiro de militância secundarista (atuava na zona Sul e eu na Leste, mas ambos pertencíamos à mesma entidade), também aproveitou a ocasião para sair, não para outro tipo de trabalho, mas para desligar-se da VPR. Não suportava o isolamento das massas, "ficar ouvindo o dia inteiro papo sobre assuntos militares".

Iniciei 1970 no Rio de Janeiro, novamente designado para criar e comandar um serviço de Inteligência integrado por aliados e simpatizantes. Era um momento em que tinha até receio de abrir o jornal a cada manhã, pois eram cada vez mais frequentes as notícias de quedas e mortes de companheiros que eu conhecia pessoalmente.  

Organicamente ligado apenas a dois comandantes nacionais e a dois comandantes de unidades de combate. aos quais municiava com informações e análises, tinha uma visão bem clara de que nossa luta estava nos estertores: ou conseguiríamos virar o jogo com o lançamento da coluna móvel estratégica, ou definharíamos aos poucos. 

E chegou a mim uma mensagem familiar: um tio rico estava disposto a bancar a minha fuga para algum país da América do Sul ou Europa. 

Pensei um pouco no assunto e conclui que, ficando no Brasil, apostaria num fio de esperança e possibilidade muito maior seria a de acabar preso, torturado, morto. Não tinha ilusões quanto a isto.

Se partisse, minha utilidade para a revolução seria praticamente nenhuma. Como já queimara as pontes com a sociedade burguesa, eu alhures me tornaria um estranho numa terra estranha, perdendo inclusive a auto-estima.

Decidi ficar, até a improvável vitória ou até o mais amargo fim. (por Celso Lungaretti)    

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domingo, 9 de abril de 2023

MEMÓRIA E PROFISSÃO DE FÉ

1970: aos 19 anos,
preso político.
 
H
oje é domingo, domingo de Páscoa. Dois motivos para sair um pouco do usual deste blog e apresentar uma divagação, digamos, mais íntima. Sei lá por quê, foi o que me apeteceu fazer(1).

É que me lembrei da velha constatação de Freud e de muitos artistas, de que aquilo que nos acontece no início da vida define nossos padrões de comportamento para sempre.

Eu fui criança enfermiça até os sete anos, amiúde gripado e febril, muito magro. Tuberculose era um fantasma que assombrava o sono dos meus pais, mais ou menos exorcizado com as antigas vacinas BCG que me eram aplicadas no posto de saúde, mas elas não dissipavam todos os seus temores. 

E um tio farmacêutico, numa época em que os controles de seu ofício quase inexistiam, aplicava-me penicilina sempre que necessário, por conta própria e sem me causar nenhum dano. 

Aliás, para a clientela pobre do bairro, ele substituía com vantagem os médicos que os coitadezas não tinham como bancar (os serviços públicos eram dantescos e a maioria fugia deles, salvo nos casos realmente graves).

Só entrei na escola com sete anos, em 1958. Comecei a cursar o 1º ano do curso primário com tais limitações. Nas férias, fui operado das amigdalas... e meus problemas mudaram quase instantaneamente.
2023: sempre no
bom combate
.

Passei a ser saudável... demais. Com enorme apetite, que meus pais correram a satisfazer, aliviados por se verem livres dos receios que a minha magreza antes lhes causava.

Fiquei obeso até lá pelos 12, 13 anos, quando o crescimento me colocou no peso normal.

Mas, o fato é que, primeiramente por ter saúde frágil, depois por ter ficado gordo, não me enturmei bem com os colegas do primário. E adquiri o perfil de lobo solitário, que acabou me ficando para sempre.

Excluído da panelinha dos mais destacados e brilhantes, reagi ficando na moita e não me esforçando até o exame final, quando surpreendia a todos obtendo o melhor resultado da classe.

No ginásio começaram os trabalhos em grupo e eu desenvolvi outra estratégia: formei minha própria panelinha, agrupando os patinhos feios e liderando-os de tal forma que o conjunto acabasse competitivo em relação à panelinha dos brilhantes e até a superasse.

Percebendo que meus protegidos jamais exporiam os trabalhos tão bem quanto os desembaraçados, mesmo que eu lhes preparasse ótimos scripts, introduzi a apresentação em forma de jogral. Imprimia o texto, distribuía as cópias com as falas de cada um sublinhadas, ensaiávamos, destacávamos os trechos mais importantes recitando-os em coro, etc. Funcionava.
Março/68: morte do Edson Souto.
Foi a minha primeira passeata.
 

De resto, tinha um ou outro amigo isolado, para conversar, ir ao futebol e ao cinema, jogar sinuca, remar no lago do Ibirapuera, sair atrás de garotas (quase sempre sem sucesso) e das prostitutas do centro da cidade (barra que não era sensato encarar sozinho).

Um episódio marcante: certo sábado, eu e um colega da escola, não propriamente amigo, fomos ao  
centrão  e ele gostou de uma prostituta. Tinha dinheiro para pagar e eu, não. Mesquinhamente, não se propôs a me emprestar o necessário, então abandonei-o lá. Na 2ª feira, estava com ferimentos feios no braço. Houve uma desavença e ela o feriu com gilete...

Só no movimento estudantil me vi como parte de um conjunto de iguais  e foi um tempo inesquecível. De uma ou outra forma, éramos todos diferentes dos jovens da nossa idade; e, irmanados pelo ideal comum, não competíamos entre nós, respeitando e prestigiando o talento de cada um. O meu era a redação. O grupo assumiu que eu deveria escrever os textos de panfletos, manifestos, etc., e ponto final.

Com a radicalização da luta, acabei separado dos meus caros amigos. E, mais uma vez, enfrentando rejeições em função da precocidade que, de um lado, me tornou, provavelmente, o mais jovem comandante da guerrilha de então, aos 18 anos, como integrante do Comando Estadual da VPR em São Paulo (abaixo apenas do Comando Nacional).

De outro, valendo-me invejas e hostilizações que afloraram quando o José Raimundo da Costa e eu iniciamos o processo que acabaria levando ao racha dos 7 e à recriação da VPR.
Também atirei minha pedra no governador Sodré, que
a esquerda escorraçou do 1º de maio na Praça da Sé.

Inicialmente, fomos combatidos com distorções e calúnias, acabando isolados e só não perdendo a parada porque, em função dos rumos do Congresso de Teresópolis da VAR-Palmares, em outubro de 1969, o Lamarca encamparia nossa visão; e, mais ainda no ano seguinte, quando foi tão facilmente aceita uma grave acusação contra mim que, alguns pelo menos, sabiam ser falsa (e eu, preso, não tinha como dela me defender).

Passei o resto da vida fora das panelinhas e tendo uma relação conflitante com elas. É claro que tudo se tornou bem mais difícil, pessoalmente, para mim.

Por outro lado, escapei da tendência bem brasileira de se relevar os erros dos amigos e transigir em relação a princípios. Pouco importando se sozinho ou com muitos ao meu lado, defendo sempre o que julgo ser correto. E desenvolvi uma couraça que me tornou imune à ação de rolos compressores.

Para mim, a política não se reduz a um jogo de futebol, em que tudo é visto pelo prisma do time pelo qual se torce e o gol impedido no finzinho do jogo merece aplausos.
Maio 2020: a avenida Paulista, da qual os fascistas expulsaram os petistas em 2016, era
 retomada por secundaristas e torcedores de futebol. As novas gerações são nossa esperança!
Então, por piores que sejam as práticas em que o inimigo incorra, serei fiel até o fim aos valores originais do marxismo. Devemos contribuir para o advento de um estágio superior de civilização, com cada um de nós corporificando pelo menos algumas das virtudes dos homens novos que, numa sociedade igualitária e livre, todos nos tornaremos.

No fluxo revolucionário dos anos 60, era mais fácil defender tais posições (depois taxadas de  utópicas  pelos inimigos de 1968). Hoje, no refluxo, parece até lógico o retorno ao velho maniqueísmo stalinista e à  realpolitik  do tempo da guerra fria, aceitando-se como  males menores  déspotas maiores do tipo de Gaddafi e Saddam Hussein(2), apenas porque seus interesses não se alinha(va)m com os de EUA, Israel e países europeus. 
A sobrevida do capitalismo durou bem mais do que Marx
previa, mas sua margem de manobra é cada vez menor.

Esquece-se até que de revolucionários eles não tinham ou têm absolutamente nada!

Só que tais  males menores, por sua ignorância, iniquidade e barbárie, produzem, na verdade, o pior de todos os males: a descaracterização da esquerda

Deixamos de representar, aos olhos dos injustiçados e dos oprimidos, a alternativa à desumanidade do capitalismo putrefato e à liquidação dos valores mais nobres sob o primado dos cálculos mesquinhos.

Quando encaminhamo-nos para cenários propícios à retomada das lutas pela revolução mundial (3), é hora de voltarmos a pensar grande. E com ética. E com humanidade.

E com, no mínimo, senso comum: quem quer mudar o mundo, não pode estar associado ao que de pior o mundo já produziu.

Se minha sofrida trajetória teve algum sentido, foi o de me preparar para o desempenho do atual papel, de trincheira contra a descaracterização da esquerda, mantendo viva a lembrança das premissas libertárias do marxismo, que os  pragmáticos  de hoje tudo fazem para relegar ao olvido. (por Celso Lungaretti)
1Este artigo foi escrito e publicado pela primeira vez em 2011, mas continua expressando fielmente meus valores e sentimentos;
2Hoje seriam os igualmente desprezíveis Putin, Ortega e assemelhados, gente disposta a passar sobre montanhas de cadáveres para satisfazer suas ambições e/ou compulsões torpes;
3Sim, 12 anos atrás eu estava esperançoso quanto ao que adviria da insustentabilidade definitiva do capitalismo e da escalada do aquecimento global. Incurável otimista, não me passavam pela cabeça as hipóteses da entropia, do caos e do retrocesso civilizatório. E continuo até hoje acreditando que a humanidade acabará sobrevivendo aos estertores agônicos do capitalismo e aos horrores decorrentes das alterações climáticas, mesmo pagando um preço terrível por sua demora em buscar a salvação. (CL)
Poesia-tributo aos companheiros que comigo ingressaram na VPR.
Após a morte do Eremias, Gerson, Mané e Gilson, restamos quatro: o 
Diego, o Edmauro, a Teresa e eu. Declamei-a por insistência da  
minha prima Nádia Stabile, que decidira gentilmente criar este vídeo.

domingo, 11 de setembro de 2022

COM SUAS TESES DE 1969, JAMIL RECRIOU A VPR. VEJA AS TESES DE 2022.

Foto do professor Ladislau Dowbor. Do guerrilheiro
Jamil não havia imagens na busca virtual, exceto...
Em meados de 1969, a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) se fundiu ao Colina (Comando de Libertação Nacional), dando origem à VAR-P (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares).

No Comando Nacional então criado, eram quatro os integrantes envolvidos com a montagem da coluna móvel estratégica, o objetivo fundamental da organização.
  
Dois outros (o Max/Carlos Franklin da Paixão Araújo) e o Bento/Antônio Roberto Espinosa faziam a ponte entre o trabalho principal e os comandos estaduais, dos quais o principal era o de São Paulo.  

Várias divergências surgiram entre esses comandantes nacionais e nós outros, os três membros do Comando paulista (o quarto, Elias/João Domingues da Silva, acabara de ser assassinado pela Oban, que o torturou antes de restabelecido de um ferimento a bala, causando-lhe hemorragia).

Foi quando nos pareceu que o Bento e o Max estariam, na contramão das nossas definições estratégicas, favorecendo o inchaço da VAR-P nas cidades, em detrimento do crescimento no campo, cujo trabalho não deslanchava. 

Enquanto o Moraes/Samuel Iavelberg evitava ir tão longe, o Moisés/José Raimundo da Costa e eu (Douglas) interpretamos o que estava ocorrendo como uma nova investida da tendência que acreditava ser fundamental uma ligação orgânica com os movimentos de massas e fora derrotada na luta interna da VPR do final de 1968. 
...as dele com os demais companheiros libertados quando do sequestro do embaixador alemão.
Nossa visão era a de que tal tendência se fortalecera com a chegada dos militantes do Colina, daí termos decidido levar ao congresso nacional da VAR-P, marcado para outubro, uma proposta de volta ao status quo ante, desfazendo a fusão e reassumindo-nos como VPR. 

Foi quando li um documento de circulação interna intitulado Teses do Jamil, que percebi imediatamente tratar-se do embasamento teórico ideal para nossa propsta de recriação da VPR. Ele simplesmente cortava o nó górdio da discussão sobre se a revolução brasileira deveria ter uma etapa nacional-democrática (no sentido de erradicar os traços coloniais e as reminiscências feudais ainda existentes) ou seria, de imediato, socialista.

Não era uma questão meramente retórica, pois, no primeiro caso, deveríamos aliar-nos à burguesia nacional e ao campesinato; no segundo, o sujeito revolucionário seria o proletariado do campo e das cidades.

O Jamil contrapôs que, como a revolução inexoravelmente seria socialista, isso pouco nos deveria importar. Caberia a nós iniciá-la e, no próprio processo, as forças de esquerda de nós discordantes acabariam incorporando-se à luta como consequência da dinâmica dos acontecimentos.  
Ferimentos do Elias
reabriram; ele morreu

Parece simples, mas foi uma espécie de ovo de Colombo que o Jamil colocou em pé, baseado em seu conhecimento de proposições teóricas da esquerda européia, pois passara alguns anos estudando na Suíça (é francês de nascimento, embora criado no Brasi), antes de voltar para cá e ingressar na luta armada. Em especial, influenciara-o o livro do Andre Gunder Frank então muito influente, O desenvolvimento do subdesenvolvimento

Como eu vinha do movimento estudantil, soube aquilatar a importância das Teses do Jamil, que estavam passando despercebidas na organização. Lancei imediatamente um artigo de circulação interna apoiando-as entusiasticamente (*). E elas acabaram sendo mesmo a proposta teórica da VPR quando esta voltou a ter identidade própria a partir do racha dos 7 no congresso da VAR-P de outubro de 1969.

Jamil, que passou a ser comandante nacional, foi arrastado nas quedas em cascata da VPR em abril de 1970 e, dois meses depois, incluído na lista dos 40 presos políticos cuja libertação foi exigida em troca do embaixador alemão von Holleben (leia mais sobre o Jamil e tal período da trajetória da VPR aqui).

Desde então o guerrilheiro Jamil desapareceu de cena, enquanto seu alter ego, o economista Ladislau Dowbor, lecionava na Universidade de Coimbra, assessorando depois, como consultor, os governos da Guiné Bissau, Nicaragua, Costa Rica, África do Sul e Equador.

Regressou ao Brasil com a anistia de 1979, foi secretário de Negócios Extraordinários na gestão da prefeita Luíza Erundina em São Paulo, professor de pós-graduação na PUC e consultar de diversas agências da ONU.

Graças a um comentarista cá do blog, fiquei sabendo que Jamil/Ladislau Dowbor lançou novo livro neste ano, Resgatar a função social da economia – uma questão de dignidade humana (Editora Elefante, 178 pag.); o download gratuito pode ser feito clicando aqui.

Eis como ele sintetiza sua proposta:
"A atividade industrial permanece, sem dúvida, como permaneceu a atividade agrícola diante da Revolução Industrial; mas o eixo de dominação e controle já não está nas mãos dos capitães da indústria, e sim nas de gigantes financeiros como BlackRock, de plataformas de comunicação como Alphabet (Google), de ferramentas de manipulação como Meta (Facebook), de intermediários comerciais como Amazon.

O mecanismo de apropriação do excedente social mudou, e com isso mudou a própria natureza do sistema. Estamos no meio de uma transformação profunda da sociedade, nas suas dimensões econômica, social, política e cultural, gerando o que tem sido chamado de crise civilizatória. Transitamos para outro modo de produção, e o presente estudo sistematiza os novos mecanismos presentes nesse cenário. Na última parte, propomos caminhos".
Voltarei a escrever sobre ele assim que o tiver lido. Mas, antecipo que consegue mesmo atualizar a visão que temos da dominação capitalista, sem, contudo, oferecer resposta à grande dúvida destes tempos: o que fazer?. Ou seja, como organizarmos nossas fileiras para uma luta realmente efetiva contra o capitalismo atual. 

A impressão que dá, e que tenho sustentado nas últimas décadas, é a seguinte: a manipulação das consciências a partir dos mimos do consumismo e da lavagem cerebral efetuada pelos meios de comunicação de massa atingiu tal perfeição que as chances de ruptura se limitam, por enquanto, aos imprevisíveis protestos que têm eclodido quando a exploração se torna extremada e afrontosa demais, como sucedeu em 2013 no Brasil e pipocou ao longo de 2019 em vários países. 
Elisa Quadros, musa dos protestos de 2013 no RJ

Se nossa única esperança for mesmo o espontaneísmo, só nos restará tentar capacitar uma vanguarda para aproveitar melhor as chances que surgem, não as deixando entregues às lideranças de ocasião, como a pobre
Sininho (despreparada ou não, a omissão da esquerda face à desmedida perseguição judicial que ela sofreu foi vergonhosa!!!).  

O desafio é tentarmos ir além disto, de nada adiantando ficarmos patinando sem sair do lugar com o obreirismo e/ou a ilusão, já detonada faz mais de um século pela Rosa Luxemburgo, de que o reformismo possa um dia vir a humanizar e exploração do homem pelo homem...  (por Celso Lungaretti)
* Longe de mim a pretensão de que seria o único na organização capaz de decifrar o artigo do Jamil. 

Mas, os que o compreenderam devem ter sido exatamente os que dele discordavam: embora derrotados na luta interna, havia muitos companheiros que continuavam acreditando que, sem termos contato mais direto e frequente com as massas, nos tornaríamos militaristas insensíveis e sanguinários... 

O Jamil ia na direção contrária, propondo que cumpríssemos as tarefas arnadas da revolução por sermos a organização mais apta para tanto, e deixássemos a conscientização do povo (e os enormes riscos de segurança nela envolvidos) por conta de outras forças da esquerda. 

Então, meu verdadeiro papel foi o de ter tornado as proposições do Jamil compreensíveis para aqueles que naturalmente deveriam sentir-se por elas representados, mas não o estavam fazendo, talvez por não as terem entendido direito.
(CL)

sábado, 11 de julho de 2020

CURIOSIDADE: UM ARTIGO QUE ESCREVI PARA CIRCULAÇÃO INTERNA NA VPR VOLTA ÀS MINHAS MÃOS MEIO SÉCULO DEPOIS – 3

(continuação deste post)
Bento manchado de sangue, após prisão 
O artigo que redigi em janeiro de 1970 e voltou agora às minhas mãos (acessem-no aqui) era o capítulo final de uma série criada para vender aos nossos quadros e a outros militantes de esquerda a ideia de que as Teses do Jamil, depois incorporadas ao programa da nova VPR, seriam a culminância da trajetória evolutiva do pensamento revolucionário no Brasil. Mas, não me culpem por tal exagero, também as outras organizações se promoviam assim, enfeitando demais o pavão.

O que o Jamil fez foi, isto sim, um primor de pragmatismo, varrendo as teias de aranha teóricas que atrapalhavam a união da esquerda contra o inimigo principal.

O PCB passara décadas pregando que, não tendo o Brasil passado por uma revolução burguesa típica, sobravam resquícios feudais no campo e existiria uma burguesia nacional tão indisposta com o imperialismo a ponto de o enfrentar.

Duas bobagens. Se o trabalhador rural brasileiro aspirava a ter sua terrinha, isto não implicava que, tão logo a possuísse, se tornaria inimigo figadal dos socialistas; ele estaria ocupado demais, tentando sobreviver à concorrência desigual com os grandes proprietários e com os grandes empreendimentos rurais. 

Nada indicava que, proclamando-nos socialistas e dispondo-nos a contribuir para que ele obtivesse a sonhada terra, ele dissesse não, com vocês não quero papo...     

Quanto aos resmungos de industriais e comerciantes genuinamente brasileiros contra o maior poder de fogo das multinacionais, eram superestimados pelo PCB que, por sinal, sempre se deu bem demais com os ditos cujos e foi por eles financiado... 
A burguesia nacional, na visão de Glauber Rocha

Na verdade, tal nacionalismo de araque ia até receberem oferta melhor do imperialismo, como Glauber Rocha magnificamente exemplificou em sua obra-prima Terra em Transe: o magnata das comunicações Julio Fuentes (Paulo Gracindo) confronta a multinacional que domina o país até que esta o seduz propondo-se a anunciar maciçamente nos seus veículos. 

Aí Fuentes retira a escada do esquerdista Paulo Martins (Jardel Filho), que ditava a linha editorial, deixando-o pendurado na brocha.

Mas, para não assustar os camponeses (que nem ligariam) e a burguesia nacional (que, no frigir dos ovos, optaria pelo lado inimigo), o PCB adotava a linha cautelosa que explodiu na sua cara em 1964, evitando falar em revolução e em darmos um fim à exploração capitalista. Falava em povo e nos dias que o Brasilino passava consumindo produtos e serviços estrangeiros a cada momento...

No processo de crítica e autocrítica subsequente ao golpe de 1964 (sim, naquele tempo não nos conformávamos passivamente com as grandes derrotas que sofríamos e as discutíamos aprofundada e apaixonadamente, para detectar nossos erros e aperfeiçoar nossa atuação), os contingentes da esquerda mais dispostos à luta contra a ditadura foram substituindo os manuais de Nelson Werneck Sodré, Josué de Castro e que tais pelo A revolução brasileira, de Caio Prado Jr., que proclamava enfaticamente o caráter socialista da revolução.

Jamil foi além:
Greve de Osasco, 1968; seus 2 líderes ingressariam na VPR
— se era impossível afirmar-se por aqui um capitalismo nacional, independente do imperialismo, por que temê-lo? 
— se os pequenos proprietários rurais não conseguiriam competir com os grandes empreendimentos capitalistas no campo, por que vê-los como adversários em potencial, caso conseguissem o que queriam?
— se uma revolução democrático-burguesa já deixara de ser possível no Brasil (se é que algum dia o fora...), por que deveriam os defensores do estágio socialista perder tempo e dispersar esforços combatendo os contingentes de esquerda que a defendiam, pregando a revolução popular ao invés da revolução socialista?

Enfim, o melhor era acreditarmos que, uma vez desencadeada a revolução, sua dinâmica necessariamente conduziria ao socialismo, daí ser desnecessário e desgastante batalharmos por isso. Travando uma luta contra inimigo mais poderoso, teríamos de unir todos que pudéssemos mobilizar contra ele, ao invés de afastar os que não rezassem por cartilha idêntica à nossa nos mínimos detalhes.

A derrubada da ditadura não seria fruto de uma guerrilha nos moldes cubanos, da guerra popular maoísta nem da greve geral leninista, mas sim da conjugação de uma miríade de ações revolucionárias no campo e nas cidades. Assim como Guevara recomendava que se criassem no mundo um, dois, três, mil Vietnãs, deveríamos estimular o afloramento de focos de resistência por todo o Brasil.  
Livro que foi muito influente

E se perdêssemos o controle desse processo e outra tendência acabasse se tornando a dominante após a vitória da revolução? Era um risco a corrermos. Não poderíamos nem deveríamos tentar controlar todo o processo, mas sim deixar que as iniciativas dos outros brotarem, apoiando-as na medida do possível. E confiar que a nossa coerência nos colocaria em posição destacada depois.

E qual o papel que nos caberia nessa luta pulverizada? Como a organização militarmente mais capacitada, as de:
— lançarmos uma coluna móvel estratégica (que não se fixaria em determinada região, mas se movimentaria sempre, atacando o inimigo para desgastá-lo e para exemplificar que era possível derrotar as Forças Armadas e, com isto,  alimentar a chama da resistência em todo o país); e
— a de fazer propaganda armada nas cidades (tomando supermercados para que o povo pudesse saqueá-los, sequestrando ricaços para obrigar suas famílias a distribuírem mantimentos nas favelas, etc,).

Enfim, a partir da modernidade revolucionária que presenciara na Europa; de influências como os livros A revolução na revolução, de Regis Debray e O desenvolvimento do subdesenvolvimento, de Gunder Frank; e da proposta da coluna móvel estratégica do Cesar, o Jamil criou o melhor programa possível para o estágio da luta que atravessávamos naquele momento. 

Realmente, perdíamos cada vez mais a iniciativa e mal conseguíamos realizar ações de grande porte sem a participação conjunta duas ou mais organizações, daí ser tão oportuna tal conclamação à união da esquerda, para que ninguém tentasse ocupar posição hegemônica como a do PCB até 1964, as organizações cooperassem umas com as outras ao invés de competirem estupidamente, as iniciativas isoladas surgissem em todo lugar e, numa etapa mais avançada do processo, se desse a união de todas essas forças para a derrubada da ditadura.

Infelizmente, já era tarde demais. 
Moraes desmentiu a versão de suicídio da irmã, Iara Iavelberg 
O Moisés e eu não fomos páreo para o Max e o Bento que, com os poderes de comandantes nacionais, conseguiram fazer com que fosse anulada nossa auto-indicação como delegados para o congresso nacional da VAR-Palmares que teve lugar em Teresópolis (RJ), setembro/1970, enquanto transcorria o sequestro do embaixador estadunidense Charles Elbrick pela ALN.

É que, com o caos pelo qual passava a Organização em SP devido à queda e morte do Elias, os três comandantes remanescentes decidimos ser temerária a realização de uma conferência nacional e optarmos por indicarmos nós mesmos os dois delegados. O Moraes, adepto da posição massista, insistiu que fôssemos ele e um de nós, o Moisés ou eu. 

O Moisés ficou tentado a ceder-lhe a vez, mas argumentei que duas vozes num congresso de umas 40 já teriam enorme dificuldade para prevalecerem; uma, menos ainda. Inconformado, o Moraes recorreu depois ao Max e ao Bento, que contra-atacaram com seu maior poder de fogo. 

Resultado: nossa auto-delegação foi cassada e acabamos permanecendo em Teresópolis apenas como seguranças, com direito a assistirmos aos debates com o bico calado quando não estivéssemos vigiando durante horas e horas os caminhos pelos quais a repressão eventualmente chegaria, para darmos o alarme e sermos os primeiros a morrer...   
O Mário Japa depois casou com a viúva do Juvenal

E os massistas iam vencendo ponto por ponto até que, ao perceber que a guerrilha rural deixaria mesmo de ser, na prática, a prioridade suprema, reduzindo-o a uma rainha da Inglaterra, o Cesar se decidiu a romper com a VAR, encabeçando aquele que seria chamado de racha dos sete: ele, o Alberto (José Araújo da Nóbrega), o Léo (Darcy Rodrigues), o Mário Japa (Shizuo Ozawa), o Matos (Cláudio de Souza Ribeiro),  o Moisés e eu.   

Ambos tivemos, então, reconhecido nosso papel: o Cesar se desculpou por não ter percebido antes que, ao invés de sermos os golpistas alegados pelo Bento e pelo Max, nós é que estávamos com a posição correta. 

O nosso novo programa teve realmente como espinha dorsal as Teses do Jamil, a organização passou realmente a ocupar-se apenas das tarefas armadas e a VPR foi realmente restaurada. Só erramos ao supor que o Colina fosse inteiramente massista e devêssemos nos separar in totum da metade VAR; parte viria, em seguida, para o nosso lado, como o Juvenal (Juarez Guimarães de Brito), a Lia (sua esposa Maria do Carmo) e o Virgulino (Wellington Moreira Diniz). 

A VAR tinha cerca de 300 quadros e acabou conservando uns 200. Mas os nossos 100 abrangiam  os mais aptos para as ações armadas, daí termos certeza de que desempenharíamos papel mais relevante no prosseguimento da luta. E a previsão se confirmou.
*  *  * 
Augusto foi homenageado na escola que cursou
Em termos pessoais, esse reencontro com um passado tão distante me fez perceber que formara retrospectivamente uma visão amarga demais do que fora aquele período para mim. A agressividade dos nossos adversários na luta interna, esmagando-nos com o peso de seus cargos e os meios de que dispunham para espalhar versões deturpadas a respeito de nossos objetivos, me chocou.

Depois, à medida que os massistas iam prevalecendo no desenrolar do congresso, refleti que, com a vitória deles, necessariamente exigiriam de mim uma autocrítica que eu jamais faria, inconformado com o jogo sujo que sofrera. 

Mas, procurado em todo o país, com a minha cara nos cartazes (por nós apelidados de galeria dos imortais da Oban), para onde iria? O que faria? Ainda assim, mesmo que tivesse de deixar Teresópolis por minha própria conta, com a grana que tinha no bolso, eu estava decidido a me desligar de imediato.

O Moisés, com sua mania de conservar sempre um trunfo guardado na manga, deveria ter-me contado que já acertara o ingresso de nós dois na Rede Democrática do Bacuri (Eduardo Leite). Só o fez depois de, na enésima hora, a maré ter virado em nosso favor... 

E a maior decepção de todas ocorreu na volta a SP. Recebi a tarefa de explicar a posição VPR aos companheiros, em reuniões conjuntas com o Bento, que defenderia a posição VAR. Nesse ínterim, ficaria abrigado num aparelho da VAR, para o qual fui conduzido, como era nossa norma, de carro e com os olhos fechados.
Sobrevivi para travar outras lutas, como a do Battisti em 2008/11

Depois de uma ou duas dessas reuniões (só me lembro que estava sendo convincente, mas não tenho certeza de quantas foram), o companheiro que deveria me apanhar no pontofurou; e não compareceu nem nas alternativas de meia hora depois e de várias horas depois. 

Abandonado, desnorteado e muito procurado, um incrível acaso me tirou da enrascada, pois, em pleno centro velho de SP, dei de cara com o Henrique (Devanir de Carvalho, do MRT), também procuradíssimo, e ele me prestou ajuda solidária, abrigando-me e me recolocando em contato com a VPR.

Constato agora que, no finzinho de janeiro, eu já havia assimilado todos esses maus momentos (inclusive a participação insatisfatória na equipe precursora da área 1 de Registro e o assassinato do Augusto (Eremias Delizoicov, meu colega desde o curso primário, depois amigo, companheiro de movimento estudantil  e um dos sete que ingressaram comigo na VPR).

No documento, vejo que defendia (o melhor que pude) nosso racha e tentava transmitir otimismo. Por que lembrava dessa série como fora da realidade da VPR, intelectual demais e descabida? Provavelmente porque, depois do Congresso de Teresópolis da VAR, do racha e do novo Congresso que recriou a VPR, baixara na Organização um clima de ojeriza por textos programáticos/teóricos e por congressos, a ponto de eu mesmo ter optado por não participar desse último.  

Aí, quando o Moisés me disse que alguns veteranos estavam considerando minha série um desperdício de papel, acabei ficando com essa imagem na cabeça. Hoje percebo que estava longe de ser tão ruim assim, embora hoje a fizesse menos triunfalista e mais realista.

Mas os jovens são mesmo mais entusiasmados que os idosos e meio século não transcorre sem nos modificar, para melhor ou para pior...  
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(por Celso Lungaretti)
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