quarta-feira, 22 de novembro de 2017

O INFERNO SÃO OS OUTROS? NÃO, O INIMIGO É O CAPITALISMO!

O bom jornalista e escritor Marcelo Coelho fez nesta 4ª feira (22) uma interessante divagação sobre o politicamente correto e seus antípodas.

Eis os trechos principais:

"Hoje se vende muita coisa nas praias do Rio de Janeiro. Não sei por que sumiram as pipas, mas sem dúvida é um progresso que em vez de esteiras as pessoas usem uns paninhos leves de algodão estampado, em geral com as cores do Brasil ou imagens do Cristo Redentor.

Mas veja como é difícil ser politicamente correto. Impliquei com um desses panos —que mostrava, em cores alegres e padrão repetitivo, a imagem estilizada de uma favela.

'Não, com favela eu não compro', declarei à vendedora, uma senhorinha de óculos e um metro e meio de altura.

Minha atitude era a do branco esquerdista de 1970.

Onde já se viu transformar um problema de moradia em item pitoresco para turistas? Vamos vender souvenirs de navio negreiro? Quem acha favela uma coisa bonitinha devia mudar-se para lá...
Marcelo Coelho: espantado com os excessos do novo feminismo.

Apesar de toda a minha consciência crítica, aprendi que eu estava sendo incorreto. A vendedora, sem antipatia, criticou meu modo de ver. "Tenho orgulho de morar em favela", começou. Não havia nada de feio na sua comunidade.

Ela sorria. "Muita gente ainda tem preconceito, não é?" Não adiantava explicar; ela prosseguiu, não sei bem a que propósito, dizendo que sua filha fazia pós-graduação em enfermagem na Alemanha.

Acabei comprando uma toalhinha com estampas de tucano, numa reorientação talvez inconsciente rumo à centro-direita e ao universo mental da terceira idade.

Como muita gente, fico espantado com os excessos do novo feminismo, pelo menos da forma com que aparece às vezes no Facebook. Contaram-me de um rapaz bem-intencionado que se solidarizou com posts contra o assédio sexual —e foi trucidado porque, na sua condição de homem, não poderia nem mesmo imaginar o que sentem as mulheres quando isso acontece.

Assobios, cantadas, galanteios: muito cuidado, isso pega mal. Qualquer frase pode ser entendida como machismo.

Outra que me contaram. A mãe estava com a filha adolescente num táxi. Ao saírem, a filha está indignada. "Viu como o motorista ficou olhando minhas pernas?" A mãe não entendeu. "Ué, mas ele não fez nada... Não falou coisa nenhuma..." A filha estava a ponto de chorar.
Quer saber? Não digo nada, nem acho nada. Como posso legislar sobre o que é ofensivo ou não, de uma ótica tão subjetiva assim? Vai saber que tipo de olhar, que tipo de sensação estava em jogo ali.

"Essas jovens feministas estão loucas!" Há casos e casos.

Muitas vezes, o que homens e mulheres da minha geração acham loucura, erro ou exagero talvez seja simplesmente fruto de mudança.

...A patrulha do politicamente correto existe. Existe também a patrulha dos incorretos, esbravejantes e atrasados. Fico com a vendedora dos panos de praia: não me condenou, não perdeu o bom humor e nem me levou a arrancar os cabelos dizendo que o mundo está perdido".

Lungaretti: nunca a espécie humana esteve tão ameaçada.
A minha visão é um pouquinho diferente. Parto da constatação de que todas essas causas hoje voltadas contra aspectos da sociedade atual (e não contra seu todo) estavam em 1968 englobadas numa luta maior, contra a desumanidade capitalista e pelo advento de um mundo sem exploradores nem explorados, sem opressores nem oprimidos, sem injustos nem injustiçados, sem preconceituosos nem vítimas de preconceitos, sem destruidores do nosso habitat natural nem (por desnecessidade) seus defensores.

Mas, não foi daquela vez que conseguimos tornar realidade a única solução verdadeira e definitiva para todos esses problemas. Então, a frente por meio da qual os melhores momentaneamente somaram forças contra os piores se desintegrou e cada tendência voltou a priorizar seus objetivos específicos. A frustração resultante da derrota maior parece ter levado cada uma dela a intensificar suas lutas menores, radicalizando-as até se tornarem, amiúde, caricaturas de si próprias.

Deu no que deu: fanatismo por atacado, posturas demasiadamente agressivas contra os outros, priorização de besteirinhas que rendem mais discussões estéreis do que avanços significativos, etc. Adultos tentando iludir a si próprios, fingindo-se de rebeldes sem assumirem os riscos do confronto com um inimigo que, como as feras acuadas, desembesta a violência nestes seus momentos finais.

E, beneficiado pelas divisões dentre aqueles que deveriam dar-lhe fim, o capitalismo vai alongando sua sobrevida, embora esteja num beco sem saída e nada de positivo tenha a oferecer à humanidade, mas, pelo contrário, a esteja conduzindo para catástrofes econômicas e ecológicas. 

Continuará se arrastando como um zumbi enquanto não nos convencermos de que é ele o grande obstáculo a superarmos, não só para a realização de nossos sonhos, mas para garantirmos a a própria sobrevivência da espécie humana, que nunca esteve tão ameaçada quanto agora.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

TÃO RIDÍCULA QUANTO A 'BATALHA DE ITARARÉ' (QUE NÃO HOUVE) FOI A 'GUERRA DA LAGOSTA' (IDEM). VAMOS RELEMBRÁ-LA?

Graças ao genial jornalista e escritor Aparício Torelly, pioneiro no humorismo político em nosso país, é bem conhecido o episódio ridículo de 1930, quando as tropas insurgentes de Getúlio Vargas marcharam em direção aos contingentes leais a Washington Luiz e se criou a expectativa de que travassem uma grande batalha em Itararé, na divisa entre PR e SP.  

No entanto, o presidente desistiu de resistir, entregando o poder a uma junta governativa; assim, nem um único tiro acabou sendo disparado. Foi quando o mordaz Torelly, num artigo hilário, outorgou a si próprio o título de Barão de Itararé, como herói da batalha que não houve...

Mais ou menos na mesma linha é a guerra da lagosta, que também não houve, entre Brasil e França. Por causa dela, até hoje se atribui ao então presidente francês, o general Charles De Gaulle, uma frase que ele não disse mas resume magnificamente a índole nacional...

Eis uma ótima reconstituição do episódio que o jornalista gaúcho Chico Pereira publicou no seu blogue:

"...De Gaulle nunca disse que o Brasil não era um país sério. O autor da frase é o diplomata brasileiro Carlos Alves de Souza Filho, embaixador do Brasil na França entre 1956 e 1964, genro do presidente Artur Bernardes.

Rolava o ano de 1962 e o contencioso entre o Brasil e França, conhecido como a guerra da lagosta... O casus belli girava em torno da captura de lagostas por parte de embarcações de pesca francesas, em águas territoriais brasileiras, mais precisamente no litoral de Pernambuco. 

Alertado por pescadores brasileiros, a notícia chegou até o terceiro andar do Palácio do Planalto. O presidente João Goulart após reunião do Conselho de Segurança Nacional, mandou despachar para a região um formidável – se considerado o tamanho da ameaça – contingente da Esquadra Nacional, apoiado pela Força Aérea Brasileira. 

De Gaulle, por sua vez, convocou o embaixador brasileiro para uma conversa no Palácio do Eliseu, sede do governo francês.

Detalhe: O episódio serviu para a imprensa francesa lançar um desses debates que embalam a França. A lagosta anda ou nada? Caso nadasse poder-se-ia considerar que estava em águas internacionais; caso andasse, estaria em território brasileiro, uma vez que se admitia à época que o fundo do mar pertencia ao Brasil. 

No debate diplomático, a tese francesa, naturalmente, sustentava que a lagosta nadava. Sem contato com o leito oceânico, poderia ser considerada como peixe. Portanto passível de ser pescada legalmente pelos franceses. 

O almirante Paulo Moreira da Silva, especialista da Marinha contrapôs os franceses com um argumento singelo: Se a lagosta fosse considerada peixe quando dá seus pulos se afastando do fundo submarino, então teria, da mesma maneira, que ser acatada a premissa do canguru ser uma ave, quando dá seus saltos.
O cruzador Tamandaré, escoltado por quatro contratorpedeiros.
Na noite que seguiu a conversa com De Gaulle, o embaixador Alves de Souza Filho foi convidado para uma festa na casa do presidente da Assembléia Nacional, Jacques Chaban-Delmas. Nota-se que a guerra não era tão séria assim. 

Na recepção, o embaixador foi interpelado por outro convidado brasileiro, o jornalista Luís Edgar de Andrade, correspondente do Jornal do Brasil em Paris. O correspondente assuntou o embaixador a respeito da conversa com De Gaulle em particular e sobre o quadro geral da crise. 

Alves de Souza Filho sempre achou o governo brasileiro inábil no trato da questão a nível diplomático... (então) arrematou a conversa informal, off the record no jargão jornalístico, com a famosa frase: 'O Brasil não é um pais sério'. 

O embaixador Carlos Alves de Souza relatou o caso em seu livro Um embaixador em tempos de crise (Livraria Francisco Alves Editora, 1979):
'Provavelmente o jornalista telegrafou ao Brasil não deixando claro se a frase era minha ou do general De Gaulle, com quem eu me avistara poucas horas antes desse nosso encontro casual. Luís Edgar é um homem correto, e estou certo de que o seu telex ao jornal não teve intuitos sensacionalistas. 
Mas a frase pegou. É evidente que, sendo hóspede do general De Gaulle, homem difícil, porém muito bem educado, ele, pela sua formação e temperamento, não pronunciaria frase tão francamente inamistosa em relação ao país do chefe da Missão que ele mandara chamar. Eu pronunciei essa frase numa conversa informal com uma pessoa das minhas relações. A história está cheia desses equívocos'".
Por último, uma curiosidade. Na época foi lançada em disco uma ótima paródia sobre o episódio, utilizando a música da marcha carnavalesca Cachaça não é água (de Carmen Costa e Colé), mas com a letra inteiramente alterada. 

Ficou assim: "Você pensa que lagosta é peixe? / Lagosta não é peixe, não! / Peixe é bicho que nada, / crustáceo não nada, não! /// Pode faltar tudo ao brasileiro: / arroz, feijão e pão. / Mas, a lagosta é nossa, / De Gaulle não bota a mão! /// Pode mandar vaso de guerra, / disto até acho graça: / por causa da lagosta, / até eu vou sentar praça!".

ASSISTA NO BLOG A "MEU NOME É NINGUÉM" (Obs.: o título até que caberia bem, mas não se trata da cinebiografia do Jair Bolsonaro)

Meu nome é ninguém (1973) é mais um western italiano idealizado, produzido e dirigido pelo grande Sergio Leone; só que, neste caso, ele preferiu transferir a seu assistente Tonino Valerii o crédito de diretor.

Por quê? Tenho cá pra mim que Leone  não quis quebrar a sequência evolutiva de sua obra. Começara dirigindo épicos da Antiguidade (Os últimos dias de Pompéia –também não creditado–, 1959; e O colosso de Rodes, 1961); inventara o bangue-bangue à italiana ao transferir para o velho Oeste uma saga de samurais (Por um punhado de dólares, 1964) e foi realizando filmes cada vez mais ambiciosos:
  • Por uns dólares a mais (1965), em que uma busca de vingança assume contornos grandiosos;
  • Três homens em conflito (1966), perfeito como filme de ação e extraordinário como líbelo contra a guerra;
  • Era uma vez o Oeste (1968), um western nostálgico e filosófico, que contrapõe lendas e realidade, desmistificando fábulas românticas consagradas, ao mesmo tempo em que presta tributo a essas belas fantasias;
  • Quando explode a vingança (1971), tudo que ele queria dizer sobre as revoluções, sem prejuízo da ação propriamente dita, magnífica!
O passo seguinte seria Era uma vez a América (1984), monumento cinematográfico, uma das maiores obras-primas da sétima arte em todos os tempos.

Enquanto acumulava forças e reunia recursos para seu projeto mais caro e ousado, que tal ganhar um dinheirinho surfando na onda do sucesso de Terence Hill em clave cômica? [Este ator começara seguindo as pegadas de Franco Nero como mocinho taciturno, mas nesta linha não convencia e acabou descobrindo sua real vocação ao estrelar o acomediado Chamam-me Trinity , ao lado do fortão Bud Spencer (d. Enzo Barboni, 1970).]

Meu nome é ninguém combina o melhor do Leone (novamente a discussão sobre como se engendravam as lendas, a belíssima trilha musical –desta vez um tanto wagneriana– de Ennio Morricone e a dignidade que Henry Fonda confere ao seu personagem), com o pior do Terence Hill (as sequências típicas de comédia de pastelão, cuja ausência seus fãs jamais perdoariam, mas cuja presença frustrou os devotos do western puro-sangue). 

A história é a de um jovem desconhecido, mas muito hábil no gatilho (Hill), que importuna uma lenda viva do Oeste (Fonda), tentando por todos os meios forçá-lo a, antes de aposentar-se, inscrever seu nome definitivamente na História: quer porque quer que ele enfrente sozinho um verdadeiro exército de malfeitores.

Em termos qualitativos, o desperdício de tempo com as palhaçadas de Hill o coloca mais ou menos no patamar de Por um punhado de dólares; sem tal concessão comercial, seria uma espécie de irmão menor de Era uma vez o Oeste
Mesmo assim, tem um ótimo ponto de partida e algumas sequências inesquecíveis. Merece ser visto.

Leone repetiria a dose com Trinity e seus companheiros (1975), usando Damiano Damiani como testa-de-ferro

O resultado foi constrangedor, perda total. Trata-se de um filme vazio e indefensável, pior do que qualquer western dirigido por Leone ou pelo Damiani ele mesmo (afinal, antes de entrar nessa roubada, Damiani firmara reputação em 1966 com o ótimo Gringo, uma das inesquecíveis incursões da Cinecittà pela Revolução Mexicana). 

Felizmente, não houve uma terceira associação de Leone com Terence Hill, um ator simpático e carismático, mas que se projetou num contexto de decadência e descaracterização do ciclo, acabando por as simbolizar.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A MÁ NOTÍCIA: AS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS ESTÃO AÍ PARA FICAR. A PIOR NOTÍCIA: NÃO SE SABE SE SOBREVIVEREMOS A ELAS.

Por Marcelo Leite
PREPARE-SE PARA A MUDANÇA DO CLIMA, POIS ELA JÁ SE
 TORNOU INCONTORNÁVEL

Terminou em Bonn, na Alemanha, a 23ª Conferência das Partes (COP-23) da convenção da ONU sobre mudança climática. Quase meio século de negociações, e mais uma vez pouca coisa saiu do lugar.

Ficou tudo para resolver, ou quase tudo, na Polônia, ano que vem, durante a COP24. Ou para 2019, no Brasil, se vingar a proposta do governo Michel Temer de sediar a conferência de quase duas centenas de países (195 mais União Europeia, para ser preciso).

Enquanto o tempo passa e nada de mais concreto se resolve, o dióxido de carbono (CO2) e outros gases do efeito-estufa continuam a se acumular na atmosfera. Partimos de 280 partes por milhão de CO2 (na era pré-industrial) para mais de 400 ppm (agora).

Os gases do efeito-estufa que lançamos hoje permanecem retendo radiação solar na atmosfera por muito tempo, até mais de um século. A gastança de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural) dos últimos dois séculos já garante um aquecimento global para lá de arriscado, não importa o que se fizer a partir de agora (e quase nada está sendo feito, perto do que seria necessário).

Veja bem: o Acordo de Paris (2015) consagrou uma meta de 2ºC de aquecimento máximo, de preferência 1,5ºC. Só que a temperatura média da atmosfera já esquentou 1ºC. E as emissões passadas, mais as que ocorrerão em uma ou duas décadas (não se desliga uma civilização de petróleo da noite para o dia), nos põem numa trajetória de pelo menos 3ºC.

A cada ano que passa, torna-se mais e mais complicado resolver a questão.

Antes se acreditava que bastaria começar a diminuir as emissões de carbono paulatinamente, até zerá-las ali por 2040 ou 2050. Como ninguém tirou o pé do acelerador para fincá-lo no freio, como é racional fazer quando há um desastre à frente, vai ser preciso dar uma guinada e correr o risco de capotar.

Será necessário recorrer à captura do carbono já emitido, para talvez injetá-lo nas profundezas da Terra –por ironia, ou injustiça poética, cogita-se fazer isso em poços abandonados de petróleo. Uma tecnologia que ninguém ainda domina direito, quanto mais provar que seja economicamente viável.
Enquanto isso, em Bonn, como fizeram desde 1992, quando a convenção da ONU foi adotada no Rio durante a Eco-92, líderes de países ricos e pobres se engalfinham em torno do princípio das responsabilidades comuns porém diferenciadas. Traduzindo: quem poluiu mais e antes deve agora financiar quem ainda acha que tem o direito de poluir (como o Brasil com seu pré-sal e seu desmatamento ainda em patamar alto).

Uma picuinha de 23 anos, sem perspectiva de solução. Ainda mais agora que Donald Trump chegou para jogar carvão e óleo na fogueira.

Prepare-se para a mudança climática, com suas secas (como a do Nordeste nos últimos seis anos), ressacas (como as que têm castigado Santos e Rio), furacões intensos (como Maria, Harvey e Irma, que devastaram Houston e o Caribe) e o desaparecimento progressivo de países insulares como Maldivas, Tuvalu e Kiribati.

Kiribati? –perguntaria Trump. Who cares?

O autor deste artigo, Marcelo Leite, é jornalista especializado em Ciências.

domingo, 19 de novembro de 2017

NÃO CABE À MULHER REIVINDICAR DIREITOS DO MACHO, SUBSTITUINDO-O NO ODIOSO EXERCÍCIO DE UMA DOMINAÇÃO NEGATIVA!

O EQUÍVOCO DO MOVIMENTO FEMINISTA

"O valor é masculino, branco e ocidental"
(Roswitha Scholzpublicista alemã)
O movimento feminista teve e tem como bandeira referencial de sua luta o combate à discriminação da mulher pelo homem, como se esta questão estivesse preponderantemente circunscrita apenas a uma postura machista patriarcal consciente (que, contudo, existe).

Tal movimento está inserido na imanência capitalista, assim como todos os demais movimentos reivindicadores de direitos dentro da modernização capitalista. E passou a reivindicar historicamente as pretensas vantagens do macho (dizemos pretensas por se situarem existencialmente no invólucro segregacionista da forma-valor, estando, portanto, por ele contaminadas e depauperadas) como pretenso modo de obtenção de sua emancipação.    

A luta feminista se traduziu (e se traduz, até aqui) em maiores oportunidades de emprego para mulheres na atividade produtora de mercadorias; salário igual para o mesmo tipo de trabalho; participação em igualdade de condições na esfera política; combate à violência contra si; enfim, igualdade de tratamento conferido aos homens, estes últimos também vítimas da segregação social que a todos atinge, ainda que de modo heterogêneo. 

Tal foco reivindicatório, por mais legítimo que pareça ser, carece de consistência emancipatória, limitando-se à mendicância de direitos dos servos do trabalho abstrato (homens e mulheres produtores de valor) aos senhores do capital, ratificando o dito cujo ao invés de negá-lo. Assim, ainda que parte das reivindicações seja justa, elas não têm nada de consistente e definitivamente emancipatórias.

Este enfoque imanente à forma-valor torna inevitável uma disputa nefasta por hegemonia entre homens e mulheres. O capital mantém os indivíduos sociais em permanente oposição (ora explícita, ora dissimulada) aos outros indivíduos sociais, dividindo-os para reinar sobre todos eles. Isto se dá tanto no mercado de trabalho quanto na vida social e privada, como se fossem indivíduos ontologicamente antagônicos e destinados ao eterno conflito de interesses.

Foi graças à solidariedade grupal e ao sentimento gregário que nossos ancestrais longínquos sobreviveram a animais maiores e mais fortes do que eles, garantindo a sobrevivência da espécie. A socialização pela forma-valor representa uma violência à natureza humana e gera distorções como o pretenso e fratricida antagonismo homem/mulher. 

Ao patriarcado assumido das sociedades pré-capitalistas sucedeu o patriarcado velado do moderno sistema produtor de mercadorias em esferas separadas, em que ao homem foi reservado o papel de reprodução do valor por meio do trabalho abstrato, sua substância; e à mulher, as tarefas de reprodução da força de trabalho pela afetividade, maternidade, gerenciamento das tarefas domésticas, etc. 

Tal lógica faz com que o papel do homem prepondere sobre o da mulher, pois ao sistema produtor de mercadoria interessa sobretudo a reprodução do valor e não da vida, da qual faz uso oportunista e descartável (como ocorre agora com o ser humano, que, por haver-se tornado supérfluo na reprodução do valor, já que a tecnologia de produção microeletrônica o substitui com vantagem, está sendo condenado à morte). 
A negatividade contida na relação social forma-valor, sujeito autômato das sociedades mercantis, transforma tanto os homens como as mulheres em seus vassalos submissos, que apenas servem à realização do seu vazio fim em si. 

Agora o sistema produtor de mercadorias, como consequência de suas contradições internas, está no limite de sua capacidade auto-reprodutiva; isto aguça a crise da dissociação de gênero por ele mesmo provocada. 

Mais do que nunca os movimentos sociais, inclusive o feminista, devem pugnar pela superação da forma-valor, desobstruindo o caminho para o estabelecimento de uma relação vital, complementar e solidária entre homens e mulheres.   

O MUNDO DO MACHO ACABOU!

A moderna sociedade patriarcal produtora de mercadorias, enquanto modo fetichista de relação social, entrou em disfunção existencial e já não consegue ser nem precariamente eficaz como era no passado. 
Outrora, logrou desenvolver-se e manter-se dominante graças à violência (guerras, repressão militar); à exclusão social (ilhas de prosperidade e oceanos de miséria); e à segregação da mulher, à qual foi reservado um papel socialmente secundarizado e sub-repticiamente sacralizado de reprodução da vida como rainha do lar

Naquele contexto, o movimento feminista, juntamente com tantos outros movimentos de esquerda, sem o saber, sem o querer (ou, em alguns casos, conscientemente), reafirmou a forma-valor no seu invólucro do capital, seja no formato político liberal (democracias burguesas), seja no estatal (socialismo real). 

Agora, o mundo do valor (do macho) entra em acelerado e profundo processo de disfunção social, face à sua dessubstancialização pelo desuso substancial do trabalho abstrato na produção de mercadorias. 

Trata-se de um fato social que gera incapacidade reprodutiva de valor e tem, como uma de suas consequências, a de tornar evidente a falta de sentido contestatório das reivindicações de direitos imanentes a tal lógica destrutiva. 

Ditas reivindicações, por seu atendimento haver se tornado impossível graças à crise do capital (que, no mundo inteiro, cancela os direitos outrora concedidos), podem e devem ser feitas no sentido da afirmação da necessidade de ruptura com as categorias capitalistas fundantes: trabalho abstrato, dinheiro, mercadoria, mercado, estado, política, socialismo, democracia. Só assim, sob outra forma de relação social, poderão doravante ser atendidas. 

Faz-se necessária, neste sentido, um claro discernimento do que deve ser feito para a superação do eterno antagonismo homem/mulher (como, de resto, os remanescentes entre todos os indivíduos sociais  que foram tornados adversários entre si) engendrado pelo sistema produtor de mercadorias e suas categorias funcionais e institucionais. 

Além das acima referidas, são reivindicações históricas do movimento feminista:
Angela Davis: mulheres deveriam combater também o capitalismo

— o direito ao voto; 
— maior espeço na política; 
— espaço de ascensão funcional na vida pública e privada; 
— salário igual para idênticas tarefas profissionais; 
— reconhecimento dos direitos patrimoniais no casamento; 
— igualdade de tratamento no direito civil, etc.

Estas e outras reivindicações imanentes à lógica do valor evidenciam agora, com maior nitidez, seu anacronismo enquanto bandeiras contestatórias (que outrora foram, em boa parte, justas) e se tornam obsoletas juntamente com aquilo que lhe é subjacente: a sociedade do valor!           
A sociedade do valor, que é a sociedade do macho por excelência, sucumbe atualmente pelos seus próprios fundamentos contraditórios, e com ela sucumbe, também, o mundo do macho. 

Assim, já não cabe à mulher reivindicar direitos do macho e  reproduzir a sua dominação negativa substituindo-o nesse odioso papel, mas negar o próprio poder social de um gênero sobre o outro, superando radicalmente todos os construtos sociais do capital por uma nova forma de relação social, omnidimensional

Por Dalton Rosado
Neste deprimente período de avanço do pensamento conservador, uma suicida e ditatorial fuga pra frente, cabe ao movimento feminista, como aos demais movimentos sociais, tomar as praças e ruas com suas bandeiras emancipacionistas, que devem consistir na negação de todos os construtos do capital.

Diante da perspectiva do medo, não se deve ter medo de nada!

sábado, 18 de novembro de 2017

A DIFÍCIL VIDA DO BRANCO, HETERO E RICO

Por Eduardo Mahon 
O Ives Gandra não é negro, nem homossexual, nem índio, nem sem-terra e pergunta como vai fazer para viver no Brasil nos dias atuais.

Alega o renomado tributarista que, de certo modo, virou minoria. Por um momento, fiquei com pena de Ives Gandra.

Ele, coitado, é mesmo franca minoria em nosso país. Está confortavelmente instalado em três andares inteiros na Alameda Jaú, Cerqueira César, num dos bairros mais refinados de São Paulo.

Não é para qualquer um. Trata-se de 0,001% da população. Como será aguenta viver nos Jardins? É quase impossível!

Sendo branco, advogado, católico, professor aposentado, presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomércio de São Paulo, estou emocionado com as condições deploráveis de vida deste reles pagador de tributos.

Até eu quero saber: como é que um cidadão como Ives Gandra Martins consegue viver no Brasil? 

No Brasil, de acordo com o IBGE, mesmo com a política de cotas, 13% de jovens negros chegam às universidades, um escândalo para Ives Gandra Martins.

É um absurdo que pretos e pobres tenham tanto espaço, tantas vagas, sejam tratados de forma mais benéfica, na visão do causídico que se desespera vivendo nesse regime opressor tupiniquim 
Gandra não sabe como viver num país como o Brasil atual

É menos da metade que os pobres brancos que não têm a menor condição de cursar medicina, por exemplo, um curso em que 98% do corpo discente é composto pela minoria de Ives Gandra, ou seja, brancos.

Já os pobres – ah, os pobres, sempre atrapalhando a riqueza nacional! – somam 8,3% dos estudantes universitários nas instituições públicas de ensino superior, e ficam com 4% das vagas nas faculdades particulares.

É um absurdo que pretos e pobres tenham tanto espaço, tantas vagas, sejam tratados de forma mais benéfica, na visão do causídico que se desespera vivendo neste regime opressor tupiniquim.

Na visão de Ives Gandra, ser índio no Brasil é morar num paraíso. De cada 1000 crianças indígenas, 50 morrem antes de completar um ano de vida, 100% mais do que a média nacional.

Do alto dos três andares do escritório na Cerqueira César, Ives reclama que os índios estão com uma porção de terra absolutamente desproporcional ao número de habitantes que sobraram nas aldeias.

Segundo o banco de dados do SUS, 55% das mortes por desnutrição ocorrem entre índios. 

Na visão do emérito professor Ives Gandra Martins, é provável que esses índios morram porque não querem comer. E, talvez, diga ele que são pobres – sim, são os cidadãos mais pobres do país – porque decidiram viver na extrema miséria.
Nós não sabemos como conviver com alguém como ele num mesmo país
Há de mostrar três ou quatro índios com caminhonete, vivendo nababescamente, enquanto não diz que as tribos passam fome, morrem de diarreia, malária, tuberculose e outros presentes deixados por sociólogos, antropólogos e assemelhados.

A cada ano, morrem 365 gays, lésbicas, bissexuais e travestis. Apenas pela condição sexual, nada mais.

Esse índice faz do Brasil o país que mais violenta sexualmente suas minorias que, na visão de Ives Gandra Martins, é privilegiada por políticas públicas com secretarias, comissões e outros disparates.

Contra as mulheres, são contabilizadas cinco mortes a cada 100 mil, o que coloca o país em quinto no ranking de mais violento.

Especificamente contra mulheres negras, o homicídio subiu 54% nos últimos 10 anos, conforme dados do Ipea. 
2011: paulistanos protestando contra a gente diferenciada.

Num balanço recentemente realizado pela Central de Atendimento à Mulher, em comparação a 2014, houve aumento de: 44,74% no número de relatos de violência, 325% de cárcere privado (média de 11,8/dia), 129% de violência sexual (média de 9,53/dia), 151% de tráfico de pessoas (média de 29/mês).

O doutor Ives Gandra Martins deve sofrer com algum tipo de síndrome de alheamento. É acometido pelo pensamento simplista de que, quando há trabalho e educação, há prosperidade.

Ocorre que os negros, índios e LGBTs têm 70% menos estudo e, portanto, menos chances no mercado de trabalho. A culpa é deles mesmos  essa gente preguiçosa que vive de bolsas do governo.

Ele deve pensar que gays podem ser gays somente da porta de casa para dentro, pretos devam voltar para a África, assim como índios devam se confinar em aldeias inacessíveis.

Concordo com o professor-doutor: é muito difícil viver no Brasil. Vou além: como é que nós conseguimos conviver com alguém como Ives Gandra Martins num mesmo país?
 .
O autor deste artigo, Eduardo Mahon, é advogado e escritor em Cuiabá.

IVES GANDRA MARTINS TROMBETEIA QUE NÃO É NEGRO, GAY OU ÍNDIO. PERTENCERÁ ELE AO OPUS DEI OU À KU KLUX KLAN?

Quando não está ajudando os podres de ricos a pagarem menos impostos, o advogado tributarista Ives Gandra Martins preenche seu tempo negando ser isto ou aquilo. 

Esquisito, não? Eu, que nunca tive o menor interesse no que ele é, fico tentando imaginar quem se daria ao trabalho de ler suas mal tecladas linhas só para ficar sabendo... o que ele não é! Parece criança tentando chamar atenção.

O certo é que, no artigo que ele escreveu e foi publicado num blog da comunidade luso-brasileira (vide aqui), suas negações vieram trombeteadas até no quilométrico título: Não sou nem negro, nem homossexual, nem índio, nem assaltante, nem guerrilheiro, nem invasor de terras... etc.

O que ele prefere destacar a seu respeito está no primeiro parágrafo: "branco, honesto, professor, advogado, contribuinte, eleitor, hétero". Só que o Gandra alinhavou características comuns a uma imensidão de brasileiros, o que pouco nos serve para formarmos uma imagem mais definida a seu respeito.

Como sou um homem caridoso, perguntei-me como o poderia ajudar. Aí uma busca virtual me revelou que ele pertence a um universo bem menor e muito mais revelador: Gandra é o principal porta-voz do Opus Dei, como se constata, p. ex., no documentário da Rede Viva que coloquei no pé deste texto.

Fazer parte de uma fechadíssima sociedade secreta (dizem até que ele seria o principal dirigente do Opus Dei no Brasil): eis um dado mais substancioso para ficarmos sabendo quem realmente é Ives Gandra Martins.

Temo, contudo, que não sejam muitos os leitores conhecedores do próprio Opus Dei. Vale a pena, para elucidá-los, reproduzir alguns trechos de um longo artigo (vide aqui) do competente jornalista Altamiro Borges:
"O Opus Dei (do latim, Obra de Deus) foi fundado em outubro de 1928, na Espanha, pelo padre Josemaría Escrivá. (...) Preocupado com o avanço das esquerdas no país, este excêntrico religioso, visto pelos amigos de batina como um 'fanático e doente mental', decidiu montar uma organização ultrassecreta para interferir nos rumos da Espanha... 
...Reconhecida oficialmente pelo Vaticano em 1947, esta seita logo se tornou um contraponto ao avanço das ideias progressistas na Igreja. Em 1962, o papa João 23 convocou o Concílio Vaticano II, que marca uma viragem na postura da Igreja, aproximando-a dos anseios populares. No seu fanatismo, Escrivá não acatou a mudança. Criticou o fim da missa rezada em latim, com os padres de costas para os fiéis, e a abolição do Index Librorum Prohibitorum, dogma obscurantista do século 16 que listava livros perigosos e proibia sua leitura pelos fiéis...  
...Josemaría Escrivá faleceu em 1975. Mas o Opus Dei se manteve e adquiriu maior projeção com a guinada direitista do Vaticano a partir da nomeação do papa polonês João Paulo II...
...Além do rigoroso fundamentalismo religioso, o Opus Dei sempre se alinhou aos setores mais direitistas e fascistas. 
Durante a Guerra Civil Espanhola, deflagrada em 1936, Escrivá deu ostensivo apoio ao general golpista Francisco Franco contra o governo republicano legitimamente eleito. Temendo represálias, ele se asilou na embaixada de Honduras (...), antes de fugir para a França. Só retornou à Espanha após a vitória dos golpistas, firmando então sólidos laços com o ditador sanguinário Francisco Franco... 
...Há também fortes indícios de que Josemaría Escrivá nutria simpatias por Adolf Hitler e pelo nazismo. De forma simulada, advogava as ideias racistas e defendia a violência. Na máxima 367 do livro Caminho, ele afirma que seus fiéis 'são belos e inteligentes' e devem olhar os demais como 'inferiores e animais'. Na máxima 643, ensina que a meta 'é ocupar cargos e ser um movimento de domínio mundial'...  
...Pouco antes de morrer, Josemaría Escrivá realizou uma 'peregrinação' pela América Latina. (...) Na região, o Opus Dei apoiou abertamente várias ditaduras.  No Chile, participou do regime terrorista de Augusto Pinochet. O principal ideólogo do ditador, Jaime Guzmá, era membro ativo da seita (...). 
Na Argentina, numerários foram nomeados ministros da ditadura. No Peru, a seita deu sustentação ao corrupto e autoritário Alberto Fujimori. 
Igreja Católica foi cúmplice ou omissa face ao nazismo 
No México, ajudou a eleger como presidente seu antigo aliado, Miguel de La Madri, que extinguiu a secular separação entre o Estado e a Igreja Católica"
Resumindo: não passam de herdeiros de Torquemada pregando um retrocesso ao catolicismo medieval e tudo fazendo para tanger governos ao fascismo, que priorizam a infiltração na grande imprensa e seu controle político-ideológico como meios para atingirem seus objetivos. Os quais, para aqueles (meu caso) a quem Deus foi apresentado como um Deus de amor e não do ódio, parecem muito mais ser obras do diabo

Que tipo de homem é capaz de bater no peito, orgulhando-se de não ser "negro, nem homossexual, nem índio"?! Quem é contemporâneo espiritual do século 21 e não um nostálgico empedernido da intolerância medieval, fica chocado ao constatar a forma rancorosa como Gandra alude ao fato de alguém ter nascido negro, índio ou preferir praticar o amor com pessoas do mesmo sexo (os héteros que não têm fixação por tais ninharias simplesmente concordam com o belo verso de Caetano Veloso, "qualquer maneira de amor vale a pena").

E o que têm a ver tais posturas repulsivamente preconceituosas com os ensinamentos do próprio catolicismo, afinal? Se negros e índios fossem mesmo o cocô do cavalo do bandido, por que Deus os teria criado? 
Opus Dei teve forte influência nos regimes de Franco e Pinochet
Os pretensos executantes da obra de Deus parecem, isto sim, estar querendo corrigi-la. Vale lembrar que São Tomás de Aquino considerava a soberba como o pior dos sete pecados capitais...

[É curioso que o racismo explícito, assinado e com firma reconhecida do chefão do Opus Dei tenha, nas redes sociais, provocado grita infinitamente inferior à desqualificação furibunda de William Waack sob o pretexto de haver feito um gracejo de mau gosto para os colegas no ambiente de trabalho, sem nenhuma intenção de torná-lo público. A que se deverá uma disparidade tão paradoxal nas reações aos dois episódios?]

Quanto às outras negações do Gandra, eu fui guerrilheiro e tenho muito orgulho de haver confrontado uma tirania odiosa e sanguinária; não hesitaria um segundo em ajudar a invadir latifúndios e terras improdutivas para que famílias pobres tivessem onde morar e trabalhar; e, mesmo não me agradando a ideia de ser um assaltante, ainda preferiria tal opção a ser um dirigente do Opus Dei.

Este documentário sobre o Opus Dei é meramente apologético, então nem me 
preocupei em postar suas outras 5 partes, que podem ser encontradas
com facilidade no Youtube. Meu  objetivo foi apenas o de mostrar 
o Gandra cumprindo seu papel de porta-voz do Opus Dei.
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