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sexta-feira, 21 de março de 2025

APESAR DA VITÓRIA LOTÉRICA CONTRA A COLÔMBIA, SELEÇÃO BRASILEIRA PRECISA DE UM TÉCNICO MELHOR PARA O MUNDIAL

Aconteça o que acontecer com a Seleção canarinha na partida contra uma Argentina desfalcada de Messi e talvez desinteressada nas eliminatórias sul-americanas para o Mundial de 2026 (já que se classificou com um pé nas costas), o técnico Dorival Jr. merece ser mantido nos quatro jogos que ficarão faltando e receber, em seguida, o agradecimento final dos torcedores brasileiros. 

Afinal, ele herdou um escrete que fazia campanha horrorosa sob o comando de Fernando Diniz, com sete pontos conquistados em seis partidas (38,8% de aproveitamento e grande possibilidade de nem sequer garantir uma vaga para a Copa) e, nos sete jogos seguintes, a seleção obteve 15 pontos (71,4% de aproveitamento) e saltou para a vice-liderança, com o que a nossa torcida pôde voltar a dormir tranquila. 

O mérito dele só não foi maior porque esta comparação é feita com o desempenho de um dos piores treinadores que já estiveram à frente do nosso selecionado. Teimoso como uma mula, Diniz meteu na cabeça ter inventado a pólvora e não há quem consiga convencê-lo de que precisa preparar seus comandados para várias opções táticas (joga invariavelmente com o mesmo esquema, manjadíssimo).

A torcida do Flamengo sonha com o mister até hoje 
Mas, a vitória lotérica contra a Colômbia por 2x1 --graças a um gol no apagar das luzes e que só aconteceu porque a defensável finalização de Vinícius Jr. desviou num colombiano, rendendo o goleiro--, não deve iludir ninguém,

O Brasil de Dorival Jr. mais parece um bando de individualidades, cada uma delas tentando ganhar a partida à sua maneira, do que um conjunto de praticantes do football association

Que ele termine o serviço, seja demitido de forma respeitosa e se passe a buscar algum técnico capaz de fazer o escrete render contra os adversários muito mais qualificados que enfrentará no ano que vem.

O único treinador que obteve resultados incríveis e deslumbrou a torcida brasileira, de bom tempo para cá, foi o português Jorge Jesus no Flamengo de sonhos de 2019. 

Torço para que os cartolas da CBF, uma vez na vida, escolham um profissional que libere a criatividade dos jogadores, sem engessá-la com um excesso de imposições táticas brochantes.  

Quem realmente gosta de futebol hoje quer ver uma mágica sinergia de craques que atuam sem posições fixas e vão descobrindo as melhores formas de se complementarem em cada circunstância.

Abel Ferreira, o rei do piti
Não ao estrelismo de jogadores (que tentam resolver tudo sozinhos) ou de treinadores (que, prepotentes, tudo fazem para ser vistos como as principais vedetes dos seus times)!

Mais: foi estarrecedora para mim a informação de que Dorival Jr., aos 12 minutos do segundo tempo, escolheu, para substituir o inútil João Pedro, o Matheus Cunha... pelo critério de que tem 11 centímetros mais de altura do que Endrick, um jogador bem melhor!

Ou seja, em casa o Brasil mostrou ter mais receio do jogo aéreo da Colômbia do que de a partida terminar melancolicamente empatada, como era a tendência naquele momento. 

Já que o medo de perder tira de Dorival Jr. a vontade de vencer, ele não tem mesmo nada que fazer no banco brasileiro em plena Copa do Mundo. Não era assim que o Brasil atuava quando aqui era o país do futebol.
    
De resto, chega de esperar a ressurreição do Neymar, que já escolheu ser outra coisa na vida! 

E chega do deslumbramento com discípulos dos intragáveis José Mourinho e Diego Simeone, como o prima donna Abel Ferreira, valorizado no Brasil mas inexistente no resto do Planeta Bola! 

No futebol, pelo menos, Jesus é a solução... (por Celso Lungaretti)
Inspirada lembrança do que foi e nunca mais será...

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

A FRASE DO DIA É DE UM IMPRESCINDÍVEL

"Os publicitários
 são filhos de
 Goebbels" 
.
(Zé Celso Martinez Corrêa, sobre os exacerbadores do consumismo, que impingem ao povo os milagres fajutos do capitalismo agonizante, levando-o a ignorar o milagre da multiplicação dos peixes)
"Eles não falam do mar e dos peixes, nem deixam ver a moça
pura canção, nem ver nascer a flor, nem ver nascer o sol"

terça-feira, 2 de agosto de 2022

REFLEXÕES MELANCÓLICAS NO PAÍS DO ETERNO RETORNO

Machado de Assis, em "Dom Casmurro"
L
a vecchiaia è una brutta bestia, dizia um velho italiano que passava o dia jogando sinuca num boteco da Mooca. 

Eu, lá pelos meus 10 anos, às vezes ficava um tempinho olhando. Memorizava jogadas que tentava repetir depois, quando calhava de ter uma mesa à minha disposição.

Suspeitava que a velhice fosse mesmo uma fera horrorosa. Agora tenho certeza. 

A grande maioria dos idosos vive com um monte de doenças e num miserê danado. Quem tem a sorte de ficar fora dessa vala comum (e é sorte mesmo, num país de tantas incertezas e injustiças como o Brasil), percebe que, se passou a vida inteira acumulando experiências valiosas e aprimorando suas habilidades, quase nada tem a fazer com umas e com outras. 

É vítima do paradigma: os jovens o consideram ultrapassado e dão um duro danado para reaprenderem por si mesmos lições que o matusalém tentara em vão lhes repassar.

E o Brasil é terrível neste aspecto. Trata-se do país do eterno retorno.

Para a geração 68, o populismo era exatamente o que Glauber Rocha mostrou ser no Terra em Transe: uma crença despropositada em que a personalidade do governante de um país fosse suficiente para resolver seculares problemas estruturais.

Nunca é. Ele acaba sempre se rendendo às evidências dos fatos e mancomunando-se com as forças do atraso para garantir a governabilidade. 

Ou resistindo frouxamente a tais pressões e levando um pé na bunda, como João Goulart e Dilma Rousseff. 

Ou resistindo corajosamente a tais pressões e virando mártir, como Getúlio Vargas e Salvador Allende.

Mas, de que adianta eu hoje tentar explicar o que aprendi lá no comecinho da minha trajetória, mais de meio século atrás? Quase nada. 

Ajudo a estimular o pensamento crítico num ou noutro leitor, mas a força dominante da esquerda, que para nossa desgraça está sendo o PT desde os anos 80, prefere bisar todos os erros e colher invariavelmente as mesmíssimas derrotas. 

Fiquei pasmo, p. ex., quando vi a presidente Dilma, brizolista de coração, tentar corrigir suas lambanças anteriores entregando a condução da política econômica a um conservador com carteirinha assinada. 

Como ela pôde ignorar que foi exatamente o mesmo que João Goulart, sogro de Brizola, fez em 1963, com tais ministros sendo sabotados pela própria esquerda até desistirem e vazarem?

Então, Joaquim Levy não passava de um fracasso anunciado. E, quando entregou os pontos, a História se repetiu também quanto ao destino de quem tentou salvar o mandato às custas de relações promíscuas com antípoda ideológico: logo foi derrubado(a).

E por aí vai, eu poderia dar muitos outros exemplos. 

Mesmo assim, insisto. Desde que sobrevivi a uma luta armada na qual pelo menos duas dezenas de companheiros estimados morreram, me considero em débito com os que tombaram e com os que tiveram suas existências arruinadas. 

Parafraseando os versos de Fernando Brant na canção que melhor expressa os que combatemos e sobramos vivos e lúcidos para contar a história, sentinelas somos do corpo de nossos irmãos que já se foram e amiúde relembramos tudo que ocorreu, fazendo o que está a nosso alcance para que a memória não morra e para que os bons exemplos do passado frutifiquem no presente.

Vez por outra bate o desânimo, claro. Mas, passa. O mito de Sísifo tem tudo a ver com os revolucionários: nosso destino é empurrar de novo a pedra para o topo da montanha enquanto nos restarem forças. Para nós não existe o repouso da guerreiro nem a desistência da luta, mas sim uma missão a cumprir.

Que, curiosamente, lembra a visão dos samurais japoneses a respeito do dever. Quem acredita que não deve nada para ninguém, pode fazer o que quiser. Mas, quem crê que tem um dever, será um verme se não honrá-lo. Simples assim.

E o conhecimento da História mantém vivas as esperanças em reviravoltas e nas brechas que se abrem de quando em quando, dando aos que têm noção do que está acontecendo a possibilidade de influírem decisivamente nos acontecimentos.

É para isto que vivo. Para poder cumprir pessoalmente tal papel ou para formar seguidores que o façam quando eu não estiver mais aqui. 

Pois, encerrando com uma citação desta vez textual dos versos de Brant, "o mundo só vai se curvar, quando o amor que em seu corpo já nasceu liberdade buscar, na mulher que você encontrar". (CL)

sábado, 30 de março de 2019

...E A DITADURA CORTOU AS ASAS DA PANAIR

encontro com a ditadura – 11
dalton rosado
REGISTRO HISTÓRICO DE UMA VIOLÊNCIA JURÍDICA DO
ARBÍTRIO GOLPISTA (E QUE SE DIZIA NACIONALISTA!)

"Descobri que minha arma é
o que a memória guarda dos tempos da Panair.
Nada de triste existe que não se esqueça,
alguém insiste e fala ao coração.
Tudo de triste existe e não se esquece,
alguém insiste e fere no coração"
(Fernando Brant e Milton Nascimento, 
Conversando no bar (Saudade 
dos aviões da Panair)

Não sou exatamente um defensor das empresas capitalistas e muito menos do capitalismo, mas isto não significa, evidentemente, desconhecer a necessidade de organização de atividades econômicas setoriais pós-capitalistas, quando ditas atividades já não mais se voltarem para produção de valor econômico (dinheiro e mercadorias).

Neste sentido, e abstraindo o aspecto meramente mercantil de sua atividade, temos, no Brasil, um exemplo de empresa que orgulhava a todos os brasileiros por sua eficiência administrativa e desenvoltura tecnológica.

Como filho de um aeronauta, vivi a minha infância e pré-adolescência em meio a aviões e hangares da Panair do Brasil, e sei como eram gostosos os sanduíches que sobravam dos voos e que, vez por outra, eu comia tomando Coca-Cola, fruto da generosidade daquelas aeromoças que mais pareciam deusas da beleza e elegância. 
Em 1930, ainda como subsidiária da Panam Airways.

Quando penso naqueles tempos, ainda sinto o cheiro do interior daqueles aviões impecavelmente limpos e que transportavam milhares de pessoas com facilidade ao redor do Brasil e do mundo, ainda nos anos 40, 50 e início dos '60.  

Tal empresa, dirigida por empresários que não aderiram prontamente ao golpe de 1964, foi fechada por mera perseguição política de um governo que se dizia restaurador das liberdades democráticas e promotor do combate à corrupção, discurso usualmente adotado por golpistas de todas as espécies. 

Tratamos da decretação da falência da Panair do Brasil, um raio em céu de brigadeiro

Tal violência constituiu-se numa farsa jurídico-administrativa que bem demonstra como a institucionalidade (aí incluído o poder Judiciário) pode servir a governos déspotas cobrindo os seus atos de uma aura de legalidade que o tempo sempre se encarrega de demonstrar como tal.    

A Panair do Brasil, que originalmente se chamou New York Buenos Aires nasceu em 1929 como empresa de aviação subsidiária da Pan Américan Airway, de propriedade de empresários estadunidenses. 
A partir de 1942, ainda na ditadura de Getúlio Vargas, foi sendo aos poucos nacionalizada, até que no governo João Goulart passou integralmente às mãos dos empresários brasileiros Celso da Rocha Miranda e Mário Wallace Simonsen, este último também dono da rede de TV Excelsior (que acabaria sendo fechada pelo regime militar).

No início da 2ª Guerra Mundial, o recém-criado Ministério da Força Aérea não tinha a capacidade ou técnica para construir e manter seus campos de pouso e aeroportos. 

Assim, por um decreto de junho do Governo Getúlio Vargas, a Panair do Brasil foi autorizada a construir, melhorar e manter os aeroportos de Macapá, Belém, São Luís, Fortaleza, Natal, Recife, Maceió e Salvador, o que foi feito; eles permanecem operacionais até os dias atuais, com modernizações e novas construções.

Tais aeroportos tiveram uma importância estratégica fundamental para a defesa do Atlântico Sul e na logística de transporte entre o Brasil e a África Ocidental. A autorização durou 20 anos.

Com o término do conflito mundial, a Panair do Brasil tornou-se uma promissora empresa nacional de aviação com prestígio e reconhecimento internacional (a ponto de conseguir fazer frente ao Syndicato Condor, controlado por empresas alemãs) e passou a operar importantes linhas aéreas internacionais.

A importância histórica da Panair na aviação brasileira é inconteste; mais do que isto, foi importante no processo de integração nacional, numa época em que as estradas eram extremamente precárias. A Panair salvou vidas levando remédios e transportando pessoas doentes; facilitou a comunicação nacional e criou tecnologia aeronáutica genuinamente brasileira.

Ora, isto era demais para um governo militar engendrado em meio à histeria anticomunista dos anos 60 e que tinha de dar demonstração de sua subserviência aos capitalistas internacionais, bem como de animosidade com relação ao nacionalismo tupiniquim. Afinal, os financiadores do falso milagre brasileiro do início dos anos 70, fruto da rapinagem dos investimentos financeiros do capital internacional, esperavam demonstrações de obediência por parte dos novos donos do poder.   

Esse foi o leitmotiv do fechamento da Panair, 10 de fevereiro de 1965, pelo então ministro da Aeronáutica, brigadeiro Eduardo Gomes; os argumentos inventados para justificar tal violência jurídica não passam, hoje, de inconsistentes penduricalhos jurídicos próprios do arbítrio. Desemprego, suicídios e depressões pessoais decorreram desta ignominiosa arbitrariedade do governo militar. 
Era valioso o espólio da Panair do Brasil: aeronaves modernas, aeroportos, hangares, escritórios, excepcional estrutura organizacional (a família Panair até hoje se reúne para manter vivo o sentido de equipe e as boas lembranças), uma oficina tecnológica de aviação denominada Celma (que era a mais moderna da América Latina), bens imateriais relativos às concessões de exploração de linhas aéreas nacionais e internacionais, etc. 

Tudo isso foi transferido para outras empresas de aviação por preços vis, numa violência jurídico-patrimonial que bem demonstra de quanto é capaz o arbítrio, tão defendido por desavisados de última hora e por espertalhões políticos que se fazem passar por potenciais salvadores da pátria(por Dalton Rosado)

Não estranhem: trata-se de um título alternativo da música
que todos conhecemos como Saudade dos aviões da Panair.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

...E A DITADURA MILITAR CORTOU AS ASAS DA PANAIR (um artigo indignado de Dalton Rosado).

REGISTRO HISTÓRICO DE UMA VIOLÊNCIA JURÍDICA DO
ARBÍTRIO GOLPISTA (E QUE SE DIZIA NACIONALISTA!)

"Descobri que minha arma é
o que a memória guarda dos tempos da Panair.
Nada de triste existe que não se esqueça,
alguém insiste e fala ao coração.
Tudo de triste existe e não se esquece,
alguém insiste e fere no coração"
(Fernando Brant e Milton Nascimento, 
Conversando no bar (Saudade 
dos aviões da Panair)

Não sou exatamente um defensor das empresas capitalistas e muito menos do capitalismo, mas isto não significa, evidentemente, desconhecer a necessidade de organização de atividades econômicas setoriais pós-capitalistas, quando ditas atividades já não mais se voltarem para produção de valor econômico (dinheiro e mercadorias).

Neste sentido, e abstraindo o aspecto meramente mercantil de sua atividade, temos, no Brasil, um exemplo de empresa que orgulhava a todos os brasileiros por sua eficiência administrativa e desenvoltura tecnológica.

Como filho de um aeronauta, vivi a minha infância e pré-adolescência em meio a aviões e hangares da Panair do Brasil, e sei como eram gostosos os sanduíches que sobravam dos voos e que, vez por outra, eu comia tomando Coca-Cola, fruto da generosidade daquelas aeromoças que mais pareciam deusas da beleza e elegância. 
Em 1930, ainda como subsidiária da Panam Airways.

Quando penso naqueles tempos, ainda sinto o cheiro do interior daqueles aviões impecavelmente limpos e que transportavam milhares de pessoas com facilidade ao redor do Brasil e do mundo, ainda nos anos 40, 50 e início dos '60.  

Tal empresa, dirigida por empresários que não aderiram prontamente ao golpe de 1964, foi fechada por mera perseguição política de um governo que se dizia restaurador das liberdades democráticas e promotor do combate à corrupção, discurso usualmente adotado por golpistas de todas as espécies. 

Tratamos da decretação da falência da Panair do Brasil, um raio em céu de brigadeiro

Tal violência constituiu-se numa farsa jurídico-administrativa que bem demonstra como a institucionalidade (aí incluído o poder Judiciário) pode servir a governos déspotas cobrindo os seus atos de uma aura de legalidade que o tempo sempre se encarrega de demonstrar como tal.    

A Panair do Brasil, que originalmente se chamou New York Buenos Aires nasceu em 1929 como empresa de aviação subsidiária da Pan Américan Airway, de propriedade de empresários estadunidenses. 
A partir de 1942, ainda na ditadura de Getúlio Vargas, foi sendo aos poucos nacionalizada, até que no governo João Goulart passou integralmente às mãos dos empresários brasileiros Celso da Rocha Miranda e Mário Wallace Simonsen, este último também dono da rede de TV Excelsior (que acabaria sendo fechada pelo regime militar).

No início da 2ª Guerra Mundial, o recém-criado Ministério da Força Aérea não tinha a capacidade ou técnica para construir e manter seus campos de pouso e aeroportos. 

Assim, por um decreto de junho do Governo Getúlio Vargas, a Panair do Brasil foi autorizada a construir, melhorar e manter os aeroportos de Macapá, Belém, São Luís, Fortaleza, Natal, Recife, Maceió e Salvador, o que foi feito; eles permanecem operacionais até os dias atuais, com modernizações e novas construções.

Tais aeroportos tiveram uma importância estratégica fundamental para a defesa do Atlântico Sul e na logística de transporte entre o Brasil e a África Ocidental. A autorização durou 20 anos.

Com o término do conflito mundial, a Panair do Brasil tornou-se uma promissora empresa nacional de aviação com prestígio e reconhecimento internacional (a ponto de conseguir fazer frente ao Syndicato Condor, controlado por empresas alemãs) e passou a operar importantes linhas aéreas internacionais.

A importância histórica da Panair na aviação brasileira é inconteste; mais do que isto, foi importante no processo de integração nacional, numa época em que as estradas eram extremamente precárias. A Panair salvou vidas levando remédios e transportando pessoas doentes; facilitou a comunicação nacional e criou tecnologia aeronáutica genuinamente brasileira.

Ora, isto era demais para um governo militar engendrado em meio à histeria anticomunista dos anos 60 e que tinha de dar demonstração de sua subserviência aos capitalistas internacionais, bem como de animosidade com relação ao nacionalismo tupiniquim. Afinal, os financiadores do falso milagre brasileiro do início dos anos 70, fruto da rapinagem dos investimentos financeiros do capital internacional, esperavam demonstrações de obediência por parte dos novos donos do poder.   

Esse foi o leitmotiv do fechamento da Panair, 10 de fevereiro de 1965, pelo então ministro da Aeronáutica, brigadeiro Eduardo Gomes; os argumentos inventados para justificar tal violência jurídica não passam, hoje, de inconsistentes penduricalhos jurídicos próprios do arbítrio. Desemprego, suicídios e depressões pessoais decorreram desta ignominiosa arbitrariedade do governo militar. 
Era valioso o espólio da Panair do Brasil: aeronaves modernas, aeroportos, hangares, escritórios, excepcional estrutura organizacional (a família Panair até hoje se reúne para manter vivo o sentido de equipe e as boas lembranças), uma oficina tecnológica de aviação denominada Celma (que era a mais moderna da América Latina), bens imateriais relativos às concessões de exploração de linhas aéreas nacionais e internacionais, etc. 

Tudo isso foi transferido para outras empresas de aviação por preços vis, numa violência jurídico-patrimonial que bem demonstra de quanto é capaz o arbítrio, tão defendido por desavisados de última hora e por espertalhões políticos que se fazem passar por potenciais salvadores da pátria. (por Dalton Rosado)


Não estranhem: trata-se de um título alternativo da música
que todos conhecemos como Saudade dos aviões da Panair.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

SABEM QUAIS SÃO AS CRÔNICAS MAIS BELAS? AS CANÇÕES!

Crônica, o que é? É jogar conversa fora. 

Ah, esses homens e mulheres tocados pelo gênio e seu maravilhoso jogar conversa fora, punhados delas,  embebidas de arte, emoção, paixão. A revirar o fundo das nossas almas. 

Gentes agraciadas pela divindade, esses cronistas! Trilham por todos os mais escondidos caminhos do planeta azul. Pena não chegarem até nós todas as suas delirantes mensagens. Elas se perderão nas noites do tempo.

Na  macia alcova de seus sentimentos, esses seres especiais celebram casamentos. Contraem núpcias um punhado de  palavras de mãos dadas com  ricas melodias e seus intérpretes.  E assim nascem as mais belas crônicas, as canções, puras rezas dos corações cheios de ais.  

O cronista põe a letra.

O compositor empresta a música.

O cantor passa o recado.

Mistura explosiva, essa.

Esqueça-se a aborrecida história da crônica, quando em seu berço era aquela montanha de letras em rede, cansativamente apinhadas no papel jornal, um martelar enfastiante de pseudo saber político.

Então, canções. São elas:

Um: conversas fiadas em torno da mesmice chorosa de amores perdidos. Dois: pranto repetitivo  da paixão que não deu certo, por isso mesmo paixão eterna, viva para sempre. Três: corações a chorar.

Atenção: um bando de linhas, mais música, mais  intérprete e dá-lhe gemidos de amor.  É a conjugação do verbo doer, do inflamante verbo querer. Eu, tu ele, nós vós, eles, queremos, gememos. 

A crônica musical é o hino do fechar do peito pelos golpes da traição, o bambolear das pernas com a separação, a aflição do abandono, as lágrimas do ir embora, a pancada na alma do não te quero mais. Ela já não gosta mais de mim. A aflição dos rejeitados. 

A seguir, alguns escassos exemplos de  incendiadas conversas fiadas. 

[Antes de seguir, miserável homem sou eu, a cometer  injustiça aos cronistas musicais e seus intérpretes habitantes de todos as esquinas deste nosso, por enquanto, ainda planeta azul, por não poder alinhar todas as suas preciosas conversas jogadas fora,  tantas, tantas, recheadas de amor, graça, paixão, gemidos, gritos por justiça, anseios por um mundo melhor.]

Seguindo.
— gemidos de amor, a começar pelo homem dono de mais de mil mulheres sem aquela que ele tem no coração. Esse homem não é ninguém. Ele está na crônica-samba de Ataufo Alves: mulher a gente encontra em toda a parte, mas não encontra a mulher que a gente tem no coração

— o choro do tudo perdido: ela já não gosta mais de mim, mas eu gosto dela mesmo assim. Que pena, Jorge Ben Jor, cronista, músico, intérprete. 

— perdido na vida: buscando um novo rumo que faça sentido nesse mundo louco. Charles Brown Jr. 

— o estigma do querer: não sei porque insisto tanto em te querer se você sempre faz de mim o que quer. Fagner 

— o sufoco da ausência: não vejo mais você faz tanto tempo, que vontade que eu sinto de olhar em seus olhos, ganhar seus abraços. Caetano Veloso.

— amarga é a aproximação do adeus: me dê motivo para ir embora, estou vendo a hora de te perder. Tim Maia. 

— e a malvada faca do ciúme, a furar a nossa alma: me sentindo enamorado e saber que outro ao teu lado pronto pronto te falará de amor. Carlos Gardel.

— não há ponto final numa história de amor: tudo entre nós terminou, a vida não continuou para nós dois, caminhemos, talvez nos vejamos depois. Francisco Alves.
— o jovem sonhador com sua pequenina crônica Imagine, pequenina no tamanho, a imaginar grandiosamente um novo mundo: eu espero que algum dia você se junte a nós e o mundo será um só. John Lennon.

Continha de somar: palavras, mais música mais intérprete, igual a três professores a registrar a História. Se não vejamos: 

— ah, aquelas pranteadas conversas fiadas ecológicas, benditas defensoras do planeta, temerosas por sua destruição: Será que no futuro haverá flores? Será que os peixes vão estar no mar? Será que os arco-íris terão cores? E os passarinhos vão poder voar? Toquinho.
— ah, aquelas rezas encharcadas de ais contra a tirania: Morte, vela, sentinela sou do corpo desse meu irmão que já se foi. Revejo nessa hora tudo que aprendi, memória não morrerá. Longe, longe, ouço essa voz que o tempo não vai levar. Fernando Brant. 

— letras, músicas e intérpretes de autoria de combatentes da liberdade e da justiça, a alimentar revoluções: Todo jornal que eu leio me diz que a gente já era, que já não é mais primavera. Oh baby, oh baby, a gente ainda nem começou. Raul Seixas.

— o recado falado e cantado a tirar o sossego dos usurpadores da vida: Seu moço, tenha cuidado com sua exploração, se não lhe dou de presente a sua cova no chão. Gilberto Gil. 
— o poder de cantar abate o poder das ditadura: Tanta vida pra viver, tanta vida a se acabar. Com tanto pra se fazer, com tanto pra se salvar. Você que não me entendeu, não perde por esperar. Geraldo Vandré.

Tal é a espada afiada da crônica musical.

Ah,  pudéssemos ouvir, cantar, rezar todas as canções nascidas nos mais ocultos cantos e  recantos da nossa morada terrestre, brotadas em mil e um corações dedicados a falar o idioma da emoção. (por Apollo Natali)
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