terça-feira, 10 de março de 2026

MEU RITO DE PASSAGEM FOI UMA DESCIDA AO INFERNO DO DITADOR MÉDICI

A política brasileira anda um tédio só, com o exageradíssimo destaque dado a mais um episódio de corrupção, insignificante na comparação com outros do passado mas significativo como munição para os feios, sujos e malvados que disputam a corrida presidencial.
,
,Resolvi, então, publicar um trecho do meu livro Náufrago da Utopiasobre o momento em que saí de casa para, como cantou a Gal Costa, correr mundo, correr perigo

Foi quando me tornei adulto. Antes, o movimento estudantil era puro deleite, mesmo tendo fugido da polícia duas vezes na base do pernas, pra que te quero

Iludia-me com a presunção de que sempre escaparia. E em abril de 1970, quando o pior finalmente aconteceu, eu já era considerado veterano, pois poucos duravam um ano naquele  auge do terrorismo de estado.

O destino me deu uma trégua, com os três primeiros meses transcorrendo sem mortes do nosso lado. O assassinato de Carlos Roberto Zanirato escancarou a porteira e os óbitos não cessaram mais.

Na primeira parte do livro, narrada na terceira pessoa, eu me denomino Júlio, meu nome de guerra quando era ativista da Frente Estudantil secundarista

Não sei a data exata do episódio aqui lembrado, mas já lá se vão 57 anos, tendo, com certeza, ocorrido no mês de março de 1969. (CL)

"...há quedas em cascata a partir da prisão [em 23/01/1969] de quatro militantes que, numa chácara de Itapecerica da Serra. maquilavam um caminhão para torná-lo idêntico aos do Exército.

Júlio recebe aviso da irmã de Maria das Graças, a  Baianinha: a repressão pode ficar conhecendo seu nome real e endereço a qualquer momento. Diego [Perez Hellin], Eremias [Delizoicov] e  Edmauro [Gopfert] também estão em risco. É melhor nenhum dos quatro passar o fim de semana em casa.

Júlio e Diego vão para Santos, com pouco dinheiro.

O azar os persegue. Só têm o suficiente para um almoço pobre, que dividem fraternalmente. Diego passa mal com sua gastrite.

À noite não podem dormir na praia por causa do toró que despenca. Tentam abrigar-se num edifício e acordam sob a mira do revólver do vigia, que os expulsa para a chuva. Finalmente o tempo melhora e ambos  desmaiam  na praia.

Acordando quase ao meio-dia, Júlio percebe que suas pernas haviam ficado expostas ao sol.

Queimadura brava, febre, fome, gastrite, tudo que pode acontecer de ruim com eles, acontece. Aguentam até o anoitecer e voltam.

Júlio chega em casa por volta da meia-noite e o pai dá o recado: a  Baianinha  esteve lá de novo e disse que o perigo é grande. Zonzo, desaba na cama e dorme. Mas, logo acorda sobressaltado e decide colocar-se a salvo. Já recobrou um pouco suas forças.

O que mais o inquieta, entretanto, é o receio de não estar preparado para as situações que vai enfrentar.

Como agiria agora um revolucionário experiente? Gastaria quase todo o seu dinheiro num hotel de bom padrão ou correria o risco de alojar-se num barato, mais exposto à polícia? É seguro colocar seu nome numa ficha?

No trajeto da Vila Prudente até o centro da cidade, não consegue desgrudar os olhos do taxímetro, fazendo contas e mais contas. Percebe que está fraco demais e precisa de repouso. Avalia que, mesmo sendo descoberto seu nome, levará tempo até que comecem a procurá-lo pra valer.

Acaba optando por um hotel simples mas respeitável, que não recebe pares para curta permanência.

Quando encosta a cabeça no travesseiro, percebe que o destino decidira por ele. Há alguns meses enfrentava o dilema de sair ou não de casa. Sabia que, para avançar na luta, teria de dar esse passo.

Levava a vantagem de, desde o primeiro momento, haver utilizado o nome-de-guerra em todas as atividades estudantis fora de sua própria escola. Os espiões da repressão devem conhecê-lo só como o  Júlio da Zona Leste. Jamais se colocava publicamente como aluno do MMDC. Tomava o maior cuidado para não ser seguido depois de uma passeata ou assembleia.

Mas, se o Deops realmente quisesse apanhá-lo, acabaria chegando a ele; suas chances de sobrevivência na luta aumentariam muito  caindo na clandestinidade.

No outro prato da balança colocava o desgosto que causaria aos pais, a forma como reagiriam à perda do filho único.

E, como não tinha mesmo dinheiro para manter-se fora de casa, ia adiando a decisão. Até que tudo se resolveu de forma praticamente automática, naquela noite. O rubicão foi transposto, as pontes queimadas.

Mas, jamais esquecerá a imagem do pai simulando um ataque cardíaco para comovê-lo e fazer com que desistisse. Foi a decisão mais difícil que tomara até então na vida
".

"Mamãe, mamãe, não chore,/ a vida é assim mesmo, eu fui embora./ Mamãe
mamãe, não chore,/ eu nunca mais vou voltar por aí/ ...eu quero mesmo é
isto aqui" Clique e ouça Gal Costa cantando Mamãe Coragem

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