Na atual sociedade do espetáculo, é enorme o contingente de cidadãos que, mesmo sendo sofisticados, acostumaram-se a acreditar nas supostas tempestades de som e fúria da política.
Não se dão conta de que, como Shakespeare alertou mais de quatro séculos atrás em Macbeth, elas ora estão significando nada.
E a história não é mais contada por um tolo, e sim pelos que lucram mantendo viva a ilusão de que os desenlaces dos grandes acontecimentos estão em acirrada disputa, embora salte aos olhos que, pelo contrário, eles já foram determinados pela correlação de forças econômica, tornando-se extremamente previsíveis.
O que seria da nossa grande imprensa caso tivesse se generalizado a minha conclusão de que, após não ter dado seu autogolpe quando as circunstâncias lhe eram propícias no seu primeiro ano de governo, Bolsonaro dificilmente lograria adiante seu objetivo? Quantos bilhões de dólares a indústria cultural teria deixado de faturar em cima da paúra dos eternos torcedores?
Pior ainda seria se os cidadãos manipulados de forma científica pela lavagem cerebral de nossos tempos percebessem a obviedade de que, desde janeiro de 2020, quando Donald Trump foi expelido da presidência dos EUA, o improvável se tornou impossível.
Por quê? Porque os acontecimentos políticos importantes do Brasil são decididos fora do Brasil desde 1500.
Porque Portugal era um tigre de papel, mas o gigante deitado eternamente em berço esplêndido desperdiçou a chance de adiantar o calendário da História em mais de três décadas com os inconfidentes mineiros, só consumando a independência sob a proteção da pérfida Albion e pelas mãos do príncipe estrangeiro.
Porque o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravatura, apenas o fazendo quando ela já se tornara contraproducente em termos econômicos.
Porque a ditadura de Getúlio Vargas apenas teve fim quando os estadunidenses, após lutarem contra a Alemanha e a Itália campos de batalha da Europa, decidiram que não queriam miniaturas de Hitler e Mussolini empoderadas no seu quintal.
Porque o golpe de 1964 já vinha sendo tramado e até tentado pelos mesmíssimos conspiradores desde a década anterior, mas só virou realidade quando os EUA lhes deram sinal verde e se comprometeram a intervir militarmente em favor deles caso necessário.
De resto, uma ditadura ultradireitista como a sonhada pelos irmãos Bolsonaro, com a complacência do pai coruja, afeta negativamente os negócios, então se tornou no presente século uma opção indesejável para o grande capital (não confundir com os vira-latas do capitalismo, como os predadores ambientais).
Com o fracasso de Trump, seu boquirroto apoiador bananeiro passou a ser discretamente torpedeado por aquele gigante de quem em muito dependia economicamente e cujos militares desde os tempos da Força Expedicionária Brasileira exercem influência poderosa sobre os oficiais superiores do nosso Exército.
Apesar de contemporizarem com Bolsonaro, tais comandantes, se tivessem de decidir se ficariam a favor ou contra um autogolpe no nascedouro, se inclinariam inevitavelmente para a segunda opção.
Então, apenas bisou o Hitler que conseguiu tomar a Áustria e a Tchecoslováquia apenas blefando, mas não conseguiu fazer o mesmo com a Polônia, pois ingleses e franceses haviam aprendido a lição com os recuos anteriores e lhe declararam guerra em setembro de 1939.
Com sua crassa ignorância histórica, Bolsonaro não percebeu que nem seus blefes. nem o apoio do centrão comprado a peso de cargos e verbas, lhe proporcionariam o poder absoluto.
E não foi o Supremo Tribunal Federal quem realmente inviabilizou sua escalada destrambelhada, mas sim os verdadeiramente poderosos (os donos do PIB e os altos escalões militares), ao garantirem aos nada heroicos ministros do STF que poderiam honrar suas togas sem risco da chegada de um soldado e um cabo para fechar a corte.
Excluída a hipótese do autogolpe, depositou sua última esperança de reeleição na capitalização do bicentenário da independência, cometendo em vão um rosário de crimes eleitorais, pois seu destino já estava selado e a sólida rejeição por ele acumulada pesou mais do que tais pirotecnias na enésima hora.
O novo ano começará com um novo presidente despachando no Palácio do Planalto. A mudança vai ser para melhor, pois pior seria impossível.
Mas, não se iludam: devolvida a racionalidade ao governo e sanadas as aberrações mais óbvias, a pátria desalmada continuará não sendo mãe gentil para a maioria dos filhos deste solo.
Isto não está nos planos de quem já assumirá comprometido com a perpetuação de um sistema que coloca a obtenção do lucro acima da satisfação das necessidades humanas, nem sairá das urnas eletrônicas, nem vai cair do céu .
Só ocorrerá se e quando a gente brasileira se tornar realmente brava e tomar em mãos o próprio destino. (por Celso Lungaretti)









