Mostrando postagens com marcador greve geral. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador greve geral. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de junho de 2019

TODOS À GREVE GERAL!

Greve é parar a produção, parar a geração e circulação de capital. A greve é o momento em que o trabalho mostra ao capital a real origem de sua riqueza. 

A greve, no entanto, não é um ato de ruptura revolucionária. Ela é um processo limite da dinâmica burguesa, momento de expressão extrema da insatisfação laboral. A greve não questiona a propriedade privada, mas impõe-se no limite do processo de exploração.

A greve pode mesmo ser considerada um caso extremo da liberdade de expressão, pois é o instante em que o trabalhador usa o próprio corpo para anunciar à classe dominante seu descontentamento. Por isso, a greve acaba sendo um direito no estatuto burguês liberal, direito este negado em regimes ditatoriais. 

Ao longo do tempo, a greve acabou sendo acoplada a uma dinâmica institucionalidade, com o sindicato aparecendo como representante jurídico dos trabalhadores. 

O grande problema disso é justamente que o sindicato, enquanto estrutura jurídica, acabou por criar uma série de interesses próprios, muitas vezes alheios aos dos trabalhadores, daí resultando a docilização do instrumento da greve, regrado ao mínimo nível institucional e, muitas vezes, atropelado em nome de interesses sindicais específicos. 
Não podemos esquecer que a greve geral de 2017 contra a reforma da Previdência, altamente combativa, com adesão maciça ao redor do Brasil, foi logo traída pelas centrais sindicais em troca da manutenção do imposto sindical. Traídos os trabalhadores e traídos os sindicatos, pois, no frigir dos ovos, ficaram mesmo sem o imposto. 

Fato é que muitas greves convocadas pelas grandes centrais brasileiras eram cênicas, com pouco esforço efetivo de mobilização. 

Apesar disso, a greve é um processo combativo construído de fato pelos trabalhadores e pelas trabalhadoras e, por isto, seu impulso pode atropelar a letargia sindical. 

A greve deste 14 de junho de 2019 é mais um processo de mobilização popular contra o projeto de neoliberalismo radical da burguesia brasileira, por hora capitaneado por Bolsonaro e sua trupe de bestas-feras. 

A mobilização teve início em 15 de maio, quando milhões de professores e estudantes fizeram uma gigantesca greve da educação, com passeatas e atos massivos. 

O processo continuou em 30 de maio, com novas manifestações pela educação. Agora, chega a vez de todos os trabalhadores pararem juntos para enviar um recado forte e altivo à plutocracia nacional. 

Não podemos perder a visão geral de que tais mobilizações são mais um capítulo da gigantesca luta de classes iniciada em 2013 e continuada no impeachment, nas ocupações de escolas, na greve dos caminhoneiros e na eleição do neofascista Jair Bolsonaro. 

Nesta luta, a população brasileira, destemidamente, combate as estruturas excludentes, corruptas e genocidas do capitalismo periférico nacional, no qual sua burguesia só pode ter por opção ampliar o saque ao povo e a crueldade de seu Estado racista e assassino. 

Marx já colocava que um trabalhador não revolucionário não era nada, justamente porque no capitalismo ele só pode ser um joguete da espoliação burguesa, alguém considerado por tecnocratas ministeriais como causador do deficit fiscal. 

Mas, para alguém ser revolucionário, precisa adquirir a consciência de classe, a qual não caí do céu, mas é forjada na luta diária. O povo brasileiro, nestes últimos anos, vem forjando sua consciência de classe. 
Para a burguesia brasileira pouco importa que doentes, mutilados, depressivos ou enfermos morram sem sustento. Ela só se interessa por seu lucro e sua boa vida em Miami. Seu projeto é genocida na forma e no conteúdo. 

Reajamos nós, portanto, lançando-nos nessa batalha de vida ou morte! 

À greve! (por David Emanuel de Souza Coelho)

EDITORIAL: O IMPERATIVO DE REAGIRMOS À MAIS NEGATIVA DAS ENTROPIAS

Por Celso Lungaretti
Pelo que meu apoio valer, ele está integralmente oferecido à greve geral desta 6ª feira, 14. 

E, com ou sem transporte público, darei um jeito de chegar ao vão do Masp, na avenida Paulista, onde terá lugar uma manifestação a partir das 16 horas. Nem que seja caminhando os seis ou sete quilômetros que de lá me separam. 

Mas, não especificamente por causa da reforma da Previdência ou dos cortes na educação, mas sim pelo conjunto da obra do pior presidente brasileiro de todos os tempos. 

Ele é o agente da mais negativa das entropias que presenciei na minha já longa existência, pura destruição desordenada, sem a mais remota noção de como edificar algo sobre as cinzas e os escombros.

Se Bolsonaro fosse capaz de implantar regimes eficientes na administração de sua desumanidade, como os de Hitler e Mussolini, estaríamos numa enorme roubada, pois os brasileiros, com honrosas  exceções, se prostram vergonhosamente aos tiranos. No século passado, o fizeram por 36 anos.
"um buraco negro ou triângulo das Bermudas que a todos tragará"

Mas, uma vez na vida sou obrigado a concordar com o Mino Carta: Bolsonaro não é ultradireitista, soberanista, nem mesmo fascista. Bolsonaro é demente. 

Com seu caos mental, ele faz da demência uma forma de governo, um buraco negro ou triângulo das bermudas que a todos tragará, se não reagirmos.

Então, temos de multiplicar iniciativas como os atos de protesto dos estudantes e professores, a greve agora promovida pelas centrais sindicais e tudo mais que possa deixar bem marcado o repúdio dos civilizados à barbárie em curso.

E acreditar que do conjunto de todos os inconformismos surgirá alguma resposta para a angustiante questão de que este país e este povo simplesmente não conseguirão suportar tal desgoverno por mais três anos e meio. 

UMA GREVE GERAL É SEMPRE EDUCATIVA E FAZ TREMEREM OS EGOÍSTAS INSENSÍVEIS

Um slogan do maio de 1968 francês
dalton rosado
AS BANDEIRAS CONSISTENTES DE
 UMA GREVE GERAL
A primeira greve que realmente tocou na questão da negação da vida mercantil ocorreu em maio de 1968 na França, quando estudantes e operários cruzaram os braços e paralisaram o país. 

Charles de Gaulle, partidos de direita e de esquerda, sindicatos patronais e de trabalhadores, todos ficaram atônitos com muitas das inusitadas bandeiras ali levantadas, cujos teores remetiam à contestação de tudo o que até então era tido como conceito positivo.  

Ao serem indagados sobre a pauta de reivindicações do movimento grevista, ouviram dos estudantes e operários: Queremos o direito à vida! 

E havia slogans que evocavam aspirações difíceis de serem compreendidas pela lógica do enquadramento sistêmico. Sejamos realistas, peçamos o impossível! 

Os incríveis anos 60 e seu sentimento libertário não se coadunavam com as reivindicações costumeiras dos movimentos grevistas tradicionais, cujos eixos principais reivindicatórios se cingiam às melhoras salariais e de condições de trabalho, ou seja, pugnavam pela permanência implícita das relações capitalistas sob critérios mais humanizado (estes sim, impossíveis de serem concretizados!). 
A Sorbonne ocupada na greve de maio/68: "fechada para a administração, aberta para seus estudantes"
Este diferencial do maio de 68, numa das principais economias do 1º mundo e num período de ascensão capitalista, parecia aos olhos conservadores como um raio em céu azul, mas que já era cinzento aos olhos revolucionários.  

A negação do stalinismo revisionista do Partido Comunista Francês e das bandeiras das centrais sindicais transcendia a compreensão das corporações que somente conseguiam raciocinar a partir do seu umbigo, entendendo que o particular beneficia sempre o coletivo. 

Mas a vida não era e não é bem assim ... 

Na atualidade brasileira, amanhã (14) será dia da primeira greve geral a partir da posse do governo ultradireitista. Ela deve ser saudada como retomada da presença contestatória nas ruas de uma população oprimida e como uma paralisação da produção em meio à crescente perda de direitos econômicos e sociais. 

Mas ela embute um risco que deve ser cuidadosamente compreendido sob pena de reforçarmos tudo aquilo que secularmente nos oprime, pois a greve sem consistência de conteúdo e de rumo não é remédio genérico para as agruras da opressão de que somos vítimas. 

Uma greve meramente politicista corre o risco de cair no vazio, cansar os seus participantes e provocar descréditos contestatórios. 

É justo reivindicarmos mais verbas para a educação quando o governo faz um corte linear do orçamento para esse setor vital da vida social, colocando tal medida como necessária para o ajuste fiscal (compatibilização de receita dos impostos com as despesas orçamentárias do governo)?  

A resposta a esta indagação é sim, mas desde que façamos a ressalva de que a solução definitiva do problema não está no fortalecimento do Estado que cobra impostos de uma população economicamente exaurida, para que, assim, ele possa manter (e até ampliar) o financiamento da educação. Urge, isto sim, superarmos o próprio Estado! 

Reconheço que não é fácil acrescentar-se à questão circunstancial (melhores condições de trabalho ) a questão principal (superar o trabalho, enquanto categoria capitalista que é).

Mais difícil ainda é fazer os cidadãos em geral compreenderem que aquilo que tanto se reivindica (mais dinheiro sob a forma de salário) corresponde à manutenção implícita da célula germinal de nossa tragédia, qual seja a mediação social pelo dinheiro e mercadorias.

Mas, separar uma coisa da outra representa uma tarefa de indispensável ao meticuloso discernimento e condução da luta emancipatória social dos protestos grevistas. Faz-se necessário afirmar durante a greve que queremos um escola que ensine a negatividade da exploração capitalista e a vacuidade do seu fim, o qual é, em si, irracional, destrutivo e autodestrutivo, daí causar tanta infelicidade. 

É possível se conscientizar com bandeiras coerentes e eficazes, ao mesmo tempo em que se mobiliza o povo insatisfeito com questões objetivas que expressa o seu brado de revolta contra tudo que está aí? Evidentemente, isto só será possível a partir de um elevado estágio de consciência dos organizadores e participantes. Eles precisam saber bem o porquê do movimento e quais seus corretos objetivos teleológicos de curto prazo e de longo prazo.

Duas frases panfletárias nesse sentido seriam: Hoje verbas para a educação, amanhã abolir o dinheiro graças à educação! e Educar é libertar!.

É justo nos rebelarmos contra a perda de direitos previdenciários no bojo do ajuste do déficit fiscal? É claro que temos de denunciar a supremacia da lógica do capital sobre a vida dos idosos e deserdados da sorte desta sociedade do capital tão insensível aos dramas humanos e que somente raciocina a partir de sua teleologia autotélica. É claro que devemos dar um sonoro não! à restrição de direitos da previdência social.

Duas frases panfletárias nesse sentido seriam: Os aposentados não podem pagar o ônus da falência capitalista e Paulo Guedes garfa os aposentados mas paga juros altos aos financistas!

É justo reivindicarmos melhores salários e empregos? É claro que devemos alertar para o perigo que isto representa, justamente porque mais e melhores salários representam a afirmação e manutenção da exploração capitalista (que consiste justamente na positivação do trabalho abstrato, fonte de todos os males advindos da riqueza abstrata) e sua acumulação segregacionista, sem a qual ela não sobrevive (não há como socializar o valor, ao contrário do que supõem muitos pretensos marxistas). 

Três frases panfletárias nesse sentido seriam: Não trabalhe jamais!, Não produza o dinheiro que o escraviza! e Produza para o consumo social, sem mercado!.
Sítio Brotando a Emancipação (CE): uma experiência avançada de produção para o consumo social
É justo aceitar-se no movimento grevista partidos de oposição ao governo, mas que involuntariamente ou inconscientemente fazem parte da estrutura opressora do Estado que os subvenciona? É evidente que não se deve excluir pela força e por censura ideológica aqueles agrupamentos e políticos que queiram aderir ao movimento grevista, mas sempre se fazendo a ressalva de que eles precisam ser superados, juntamente com todo o establishment institucional a que pertencem.

Duas frases panfletárias nesse sentido seriam: Os partidos são vassalos da economia e do Estado, abaixo os três! e Governemo-nos, antes que a barbárie nos destrua!.   

É justo se defender políticos corruptos em nome de uma partidarização maniqueísta?  Mesmo considerando que há muito de hipocrisia e de objetivos inconfessáveis no combate à corrupção (o principal deles é a defesa da saúde financeira do erário público opressor), não devemos jamais ter como princípio norteador das nossas ações a aceitação ou a tolerância com a desonestidade, seja ela de que tipo for. A corrupção é contrarrevolucionária; o combate institucional a ela, hipócrita. 

E importante se compreender que a existência do dinheiro é a corrupção em si enquanto instrumento da segregação social e da acumulação indébita pelo próprio capital. Tratando-se de riqueza abstrata e, consequentemente, da riqueza material transformada em mercadoria que é socialmente produzida, o dinheiro deve ser associado intrinsecamente à corrupção política.

Corrupção mercantil pela produção da mercadorias e corrupção com o dinheiro dos impostos são duas faces da mesma moeda, embora a primeira seja aceita oficialmente e a segunda, criminalizada. 

Quatro frases panfletárias nesse sentido seriam: Todo político, ou é corrupto, ou é servo involuntário da opressão estatal!, Não há eleição sem corrupção financeira da vontade!, O dinheiro é a corrupção em si! e Política e corrupção são irmãs siamesas!

São justas as instituições do Estado nas quais uma legisla e outra julga de acordo com esta mesma lei legislada? Como sabemos, todas as casas legislativas do mundo burguês (liberal ou estatista), consideradas falaciosamente como casas do povo, têm uma predominância de parlamentares eleitos pelas mais variadas formas de manipulação da livre vontade de escolha. 

É o dinheiro quem elege os parlamentares na sua grande maioria; e os poucos que não estejam contaminados pela corrupção eleitoral (os revolucionários que aceitam ocupar cadeiras no parlamento correm o risco de, laçados pela gravata, ficarem domesticados) apenas legitimam com suas presenças a permanência da chamada banda podre parlamentar. 

Neste sentido, as leis obedecem ao interesse sistêmico e os magistrados se portam da mesma forma que Pilatos no credo, ou seja, como meros cumpridores das leis e dos seus ritos processuais de execução; e, sendo parte integrante do Estado que os subvenciona, tornam-se (com raras exceções) felizes cumpridores da opressão contida nessas mesmas leis. 

Três frases panfletárias nesse sentido seriam: A imparcialidade do Moro desmoronou!, O deputado legisla pelo capital e o juiz executa! e A justiça é cega, os políticos não têm olhos!.

Vou ficando por aqui e me preparando para participar da greve, pois, afinal, apesar de todos os riscos de manipulação, viva a greve geral!. Ainda que que suas bandeiras possam ser equivocadas ou oportunistas, ela é sempre educativa e faz tremer o bloco dos egoístas insensíveis! (por Dalton Rosado)

domingo, 30 de abril de 2017

UM DIÁLOGO NA VÉSPERA DA GREVE GERAL

"Nada se parece mais com o pensamento
mítico do que a ideologia política"
(Claude Lévi-Strauss, antropólogo)
.
Francisco de Assis (nome escolhido pela sua mãe, por devoção religiosa), apelidado de Chico Passeata, era o filho mais novo de uma família de operários metalúrgicos que migrara do nordeste há mais de três décadas e morava em São Paulo. 

Chico Passeata, com seus 24 anos de idade, já nascera em São Paulo, e estava desempregado. Abandonara o colégio antes do término do 2º grau e agora se entregava inteiramente à militância no movimento sindical dito progressista da CUT, detestando aqueles a quem chamava de pelegos da Força Sindical. Considerava-se completamente diferente destes últimos. 

Tinha um irmão dois anos mais velho, Carlos Frederico, que estudava filosofia e recebera tal nome como uma homenagem do seu pai, antigo militante do pecebão, a Karl Marx e Friedrich Engels. 

Este, que o pai sonhara ver tornar-se marxista, era conhecido como Fred Nerd, por seu ar intelectual sua disposição de sempre tentar compreender os segredos da vida e a elucubrar sobre cada atitude individual ou coletiva. Ao invés das tradicionais camisas vermelhas costumava usar roupas pretas; naquela noite de 5ª feira vestia uma camiseta que tinha, na frente, os dizeres as meninas boas vão para o céu... e, atrás, ...as meninas más, vão para onde quiserem.

Chico Passeata separava a bandeira vermelha da CUT e a camiseta vermelha com a espirituosa frase Lutar sempre, Temer jamais! que usaria no tão aguardado dia seguinte, a 6ª feira da greve geral. 
O protesto também tem sua grife...

Este, que a mãe sonhara ver tornar-se franciscano, dividia um quartinho com o irmão, num apartamento de 70 m² de conjunto habitacional, apertadíssimo para uma família de cinco pessoas (pai, mãe, tia e os dois filhos já adultos). Ele não parava de receber telefonemas e fazer ligações no seu celular, articulando a mobilização do dia seguinte. 

A um companheiro perguntou se as faixas abaixo a reforma trabalhista e por uma política de mais emprego tinham sido providenciadas. A outros, se os piquetes nas portas das garagens de ônibus estavam bem programados e se os coquetéis molotov e archotes inflamáveis seriam suficientes para incendiar aqueles ônibus que ousassem trafegar durante a greve. Era uma ansiedade só.

Fred tudo observava impassível, sentado na sua pequena escrivaninha, com a luz focando no livro que relia, um romance policial tendo como pano de fundo a vida política e social na Rússia czarista de 1866: Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievski. 

Chico se irritava com a postura do irmão: não compreendia como alguém dotado de certa cultura e que falava em revolução e emancipação humana, podia ser tão indiferente ao que considerava como um momento vital na vida política brasileira – a greve geral do dia seguinte. 

Considerava o irmão, a quem dedicava um amor crítico, como alguém culto e sensível, mas totalmente destituído de sentido prático; portanto, todo o seu saber seria um desperdício e um inutilidade. Fred lhe despertava um misto de admiração e frustração. 

Naquele dia tal alheamento incomodou tanto Chico que ele provocou Fred: 
— Enquanto você fica aí sentado com esse livro, indiferente a tudo, os caras estão aprovando a reforma trabalhista que nos retiram os direito, Mano. Com sua passividade você contribui com os home, tá sabeno?
"A questão é saber como e para onde você quer ir"
Sem alterar-se e sem se virar para o irmão, Fred responde: 
— E você, quanto mais acelera o seu carro na direção do seu pretenso objetivo, mais dele se distancia. 

Aí Chico pega pressão e altera a voz, indignado: 
— Como assim, mano? Por acaso ficar calado e se omitir da luta é correto?

Fred explica: 
— A questão não é se omitir do confronto, mas saber como e para onde você quer ir. Se pega a estrada errada, quanto mais acelera o seu caro mais se distancia do ponto em que você deseja chegar. Com essas bandeiras que eu vi e ouvi você defender, você apenas está desejando mais do mesmo, e dificultando ainda mais a superação do que é ruim e está posto.
          
— Ora, Fred! Você aceita a retirada dos direitos trabalhistas?

— Não, eu sou contra o próprio direito trabalhista.

— Então você á a favor da exploração pelos patrões?

— Não, Chico. Eu sou contra a existência de patrões.
"O dinheiro é um modo de escravização de todos nós"

— Então você quer que o Estado seja dono de tudo e que se acabe com os patrões?

— Não. Eu sou contra a existência do Estado e de tudo que ele encarna, e principalmente o Estado como patrão!

— Ora, Fred, eu não entendo nada do que você diz. Você é contra tudo; os patrões e os trabalhadores ao mesmo tempo. Você está em cima do muro? 

— Não. Eu também sou contra a existência do tal muro que somente na aparência os separa. Eles são faces de uma mesma moeda. Literalmente. 

Arre, égua! [expressão que ouvia em casa desde menino, como filho de bom cearense que era] Você é contra tudo. Me explique isso direito. 

— Chico, vocês estão reivindicando direitos trabalhistas que representam a permanência do trabalho e do trabalhador, sem compreenderem que tanto uma coisa como a outra são categorias imanentes ao capitalismo que dizem combater. Vocês reforçam e justificam aquilo que combatem. 

— E o que é que você acha que eu devo defender?

— Vocês deveriam defender o fim do trabalho e do trabalhador, pois enquanto categorias capitalistas que são, elas apenas contribuem para a formação do capital, seja ele gerenciado pelo patrão privado ou pelo patrão estado. 
"Vocês deveriam defender o fim do trabalho e do trabalhador"
— Mas, Fred, isso que você defende é impossível de acontecer. Você, como sempre, está com a cabeça na lua, e se omite diante da opressão concreta. É preciso agir.

— O impossível está na sua cabeça, e agir não é necessariamente sempre o mais correto e eficaz. A omissão pode ser até mais violenta do que a ação. Mais vale você parar de ser trabalhador e se negar a produzir valor do que exigir direitos trabalhistas que não virão na atual conjuntura.

— Mas se nós pararmos de trabalhar definitivamente, como você quer, quem é que vai pagar os nossos salários?

— Aí é que está. Nós temos de abolir não apenas o trabalho e salário, mas o dinheiro como modo de mediação social. O dinheiro é um modo de escravização de todos nós e os trabalhadores contribuem para a sua existência. Pedir direitos trabalhistas é afirmar o trabalho, a exploração feita por meio  dele e o próprio capital que você diz combater. 

— Mas, como é que nós vamos viver sem trabalho e sem dinheiro?
"De que adianta remover Temer e os deputados elegerem outro?"

— Você não compreende que, ao considerar o trabalho e o dinheiro como indispensáveis à vida, está afirmando um modo de negação da própria vida? Nenhum objeto destinado ao consumo humano tem um grama sequer de dinheiro; e o esforço humano para a produção de qualquer objeto que sirva para tal consumo não significa que somente possa ser obtido por meio da produção de mercadorias e do salário,que é a tradução do trabalho que vocês tanto defendem. O esforço humano individual ou coletivo de produção de bens e serviços deve ter outro conteúdo, em lugar de mercadorias e trabalho. Tem de ser apenas produtor de vida e gerador de abundância. 

A expressão de Chico já revela alguma impaciência, mas Fred prossegue: 
— Outra coisa, nós todos temos de deixar de ser trabalhadores economicamente ativos, passando a ser pessoas socialmente contributivas. Isso não tem nada a haver com a produção de valor, ora travada pelas contradições internas do capital. 

— Pára aí Você já está fundindo a minha cuca com essa sua conversa complicada. Quer dizer que você é contra o nosso protesto é contra até o fora Temer!, esse golpista oportunista que já vai completar um ano de governo e só faz aumentar o desemprego, que já passou de 14 milhões de trabalhadores...
"Novos ônibus serão fabricados após os incêndios"

— A questão que se coloca não é o fora Temer!, mas fora a política e o sistema que o produziu e o mantém!. De que adianta remover o Temer e os deputados elegerem outro dos seus? Aliás, ainda que houvesse eleições, surgiria um pilantra qualquer se arvorando de salvador da pátria e iria engabelar o povo de novo. 

Resolvido a dessa vez ir até o fim com seus questionamentos, Fred acrescenta: 
— Ademais, Chico, eu ouvi você falando sobre tacar fogo nos ônibus. Isso é somente uma forma de retirar a legitimidade do protesto e se descredenciar perante as pessoas, que encaram esses atos como desesperados e inconsequentes. Novos ônibus serão fabricados após os incêndios, a exploração do suor dos trabalhadores continuará gerando lucros para a indústria automobilística e tudo continuará na mesma. Muito mais violento e eficaz do que queimar ônibus, fazer saques e depredar bancos seria nós todos cruzarmos pacificamente os braços diante do trabalho, até no interior das nossas casas, definitivamente, conscientemente, sabendo o porquê dessa atitude, e não somente num dia de greve. 

— Pára aí, mano. O que você quer é impossível e eu não vou mais me estressar com a sua conversa fiada. O que vale é a ação prática, tá sabeno? Chega de filosofia. 

Fred voltou a ler seu livro e Chico fingiu dormir, enquanto refletia sobre tudo que ouvira e sobre o que se programara a fazer no dia seguinte. Não pregou olhos bem cedinho saiu para dar apoio à greve, mas agora sem muita convicção da correção de todo o ativismo grevista e suas bandeiras.
"...aliviado por não ter sido atingido pela bala de borracha..."

Estava decidido a depois refletir melhor sobre aquela conversa noturna, pois trazia no seu coração o sentimento revolucionário de combate à injustiça. Só lhe faltava agregar ao seu voluntarismo a consciência crítica. 

No final do dia Fred voltou para casa, exausto, com os olhos irritados pelo gás lacrimogênio e aliviado por não ter sido atingido pela bala de borracha que passara tão perto de sua cabeça.

Tudo voltou a ser como dantes no quartel de Abrantes. O ministro da Justiça garantia que a greve fora um fracasso, enquanto os sindicalistas e os partidos de oposição afirmavam ter feito um protesto significativo. (por Dalton Rosado)

sábado, 29 de abril de 2017

PARA DEMÉTRIO MAGNOLI, O BRASIL É UMA "NAÇÃO DE COLONOS ESTATIZADOS".

"Na pré-história da nação brasileira, estão colonos empenhados em fazer a América, capturando índios, buscando pedras preciosas, extraindo ouro. Prezamos, acima de tudo, a recompensa pecuniária pessoal. 

Na Istambul de 2013, uma onda de manifestações antigovernistas foi deflagrada pela defesa do parque Gezi, que se queria converter em shopping center. Aqui, não fazemos isso. 

Escolas, hospitais, redes de esgoto, metrôs e trens, praças públicas, bibliotecas, museus, parques nacionais? Não: lutamos por repasses em moeda sonante, nas formas de aposentadorias precoces, pensões especiais, bolsas, multas rescisórias, passes livres, cestas básicas, uniformes escolares, faltas abonadas, cotas raciais, meia-entrada. Desprezamos os direitos sociais universais. Queremos nossa parte em dinheiro –e já!.
__________________________________________________________

"Desprezamos os 
direitos sociais 
universais. Queremos nossa parte em
 dinheiro e já!"

__________________________________________________________
.
A história política moderna do Brasil começa com Getúlio Vargas. O primeiro pai do povo ensinou-nos que o Estado funcionará como intermediador geral da disputa por rendas. Com ele, aprendemos a interpretar os direitos como notas promissórias emitidas pelo Tesouro em nome de indivíduos organizados em corporações.

Os empresários almejam subsídios do BNDES, os sindicalistas protegem o imposto sindical, os artistas cantam a glória de leis de incentivo financiadas por renúncia tributária. A nossa parte em dinheiro depende da qualidade da conexão política de nossa corporação. Séculos depois, os colonos ainda fazem a América, mas por outros meios. A efígie de Vargas tremula na ponta dos mastros da greve geral.

Lula ensaiou uma reforma previdenciária, no primeiro mandato. Dilma falou sobre a necessidade de aumentar a idade de aposentadoria, no curto outono realista de seus últimos meses. De volta à oposição, o PT se esqueceu disso, investindo na canção antiga, que toca a alma da nação de colonos estatizados." 
.
Observação: postei seis parágrafos do artigo de Demétrio Magnoli deste sábado, 29, por considerá-los uma análise das mais lúcidas do quadro brasileiro, com a qual, excetuado o finalzinho, concordo inteiramente.

No último parágrafo, dou-lhe inteira razão quanto ao fato, que já mencionei neste artigo, de que a reforma de cunho neoliberal agora repudiada pelo PT é exatamente a que Dilma Rousseff tentou nos socar goela adentro em 2015. 

A postura do partido é das mais hipócritas e irresponsáveis, pois, tendo desistido de fazer uma revolução para acabar com a exploração do homem pelo homem, agora se limita a disputar nacos de poder sob o capitalismo; mas contesta oportunisticamente reformas hoje indispensáveis para o funcionamento do sistema capitalista, escondendo de seus seguidores que não há alternativa possível a elas dentro do quadro atual.


A alternativa se situa fora dele: fazermos uma revolução que estabeleceria a prioridade do atendimento das necessidades humanas sobre o lucro, a ganância e a contabilidade insensível que hoje expele os trabalhadores para a rua da amargura, condenando os inativos à penúria e ao desespero. Mas, este é o passo o PT não admite mais dar. 

Concluindo: o PT almeja ser sócio menor do capitalismo sem o ônus de assumir as responsabilidades inerentes; o Magnoli advoga o respeito à lógica capitalista, reformas impopulares inclusas; e eu quero mais que o capitalismo, sua lógica e suas reformas se explodam, pois já passou do tempo de nos livrarmos de toda essa tralha nauseabunda e construirmos uma sociedade igualitária e justa. (Celso Lungaretti)
Related Posts with Thumbnails