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quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

QUEM TRAVA O BOM COMBATE LEVA A VIDA INTEIRA ENTRE ALTOS E BAIXOS. EU NÃO A TROCARIA POR NENHUMA OUTRA.

Uma das imagens que eu mais identifico com a sina dos revolucionários é a de Sísifo levando a pedra ao topo da montanha, para logo vê-la despencar pelo outro lado. Simboliza tanto a trajetória da minha geração quanto os altos e baixos que têm me marcado a existência nestes tristes trópicos. 

A coisa vem de longe. Lá pelos meus 15 anos, percebi que não me encaixava nas perspectivas rotineiras dos jovens de baixa classe média da Mooca, bairro proletário de São Paulo que esquecia seu passado heroico e caminhava para a desproletarização. 

Meus colegas de escola queriam virar advogados, engenheiros, médicos; arrumarem bons empregos; terem belas casas, belas esposas e belas proles. Eu não queria nada disso.

Nem sabia direito o que queria, então fui procurar nos livros. Kafka, Sartre, Camus, Cony. Eles confirmaram o que eu já pressentia: a sociedade burguesa era indigna de que eu ajudasse a mantê-la funcionando. Mas, onde estava a saída?

Foi quando o marxismo me encontrou. E passei quase dois anos na transição de sonhador para revolucionário, aprendendo a colocar em prática o que antes só elucubrava.
Fim dos anos 60: feira hippie na Pça. da República (SP)

Em 1968, o que eu e meus sete companheiros secundaristas queríamos era avançar cada vez mais para o centro dos acontecimentos. Tragicamente, conseguimos. O saldo: dois assassinados, cinco presos e muito torturados, uma paranoica. E a devastadora derrota da opção para a qual contribuíramos com nossos fervor e nosso sangue, a luta armada. 

Ao sair de uma casa dos mortos pior ainda que a retratada por Dostoievski, tive novo encontro providencial: com a geração das flores e da contracultura. Numa comunidade alternativa no Jardim Bonfiglioli juntei os cacos, superei os traumas dos porões e retomei gosto pela vida.

Mas, aquele paraíso entre quatro paredes era outro corpo estranho em meio à intolerância e ao medo que grassavam no estado policial. Não podia dar certo por muito tempo. Mais uma pedra que não se manteve no topo da montanha.

Veio a fase dos circuitos literários marginais, os livros bancados por nós mesmos e vendidos para os amigos, as festas para esquecermos nossa tristeza, os espetáculos de poesia, os debates; até de uma Bienal nosso grupo participou, com o projeto nordestino do companheiro Chico Diabo. O vento do tempo levou tudo isso.
2009: Caso Battisti em julgamento no STF.

Obrigado a me incluir cada vez mais no jornalismo para sobreviver, tentei ressuscitar aquelas críticas de música e cinema que outrora discutiam a sociedade em interação com a arte, ao invés de apenas fornecerem subsídios para consumidores de discos e filmes. Quebramos a cara, eu e alguns críticos amigos. Não era o que a indústria cultural queria ou tolerava da parte de quem produzia conteúdos para ela. 

Acabei tendo de atuar num jornalismo que detestava (editorias de economia, agências de comunicação empresarial, serviço de imprensa governamental, etc.) por mera questão de subsistência. As finanças melhoraram, a satisfação profissional evaporou.

Vez por outra um bom combate, como a greve de fome dos quatro de Salvador em 1985 (vide aqui) e a defesa do Paulo de Tarso Venceslau quando quase todos lhe voltavam as costas em 1997 (vide aqui). 

Orgulho-me muito de, no primeiro caso, ter colocado a solidariedade revolucionária acima dos cálculos eleitoreiros de um partido de esquerda que se descaracterizava a olhos vistos; e no segundo, de haver sido dos primeiros a alertar para o ovo da serpente (corrupção) que acabaria destruindo o PT e boa parte da esquerda. 
A esquerda dilapidou o capital político com que saiu da ditadura
Cheguei ao fim da linha no jornalismo profissional no ocaso de 2003. Passei dois anos de enormes dificuldades, mas consegui a anistia do Ministério da Justiça, o esclarecimento de episódios em que fora muito injustiçado no passado e a publicação do meu livro.

Reconstruí a vida em 2006, as situações que haviam saído de controle se ajeitaram, veio minha segunda filha, ocupei-me intensamente da luta pela liberdade do Cesare entre 2008 e 2011. Mas, quando parecia marchar para uma velhice tranquila, as pedras começaram a rolar montanha baixo de novo. 

A indenização retroativa que me permitiria sair do aluguel e manter minhas finanças equilibradas esbarrou numa sabotagem burocrática (em parte por preconceitos ideológicos, em parte devido à lerdeza habitual do Estado brasileiro quando o que está em jogo são os direitos violentados de cidadãos comuns) cujos efeitos ainda perduram após 13 anos, 11 dos quais de disputa judicial por mim travada contra o poder de fogo imensamente superior da União.

A esquerda que alçáramos da derrota devastadora nos anos de chumbo para a posição de principal força da redemocratização brasileira desperdiçou o capital político acumulado à custa do sangue e dos tormentos de companheiros valorosos: despencou nos últimos anos para uma situação de desprestígio popular próxima àquela em que se encontrava na década de 1970.
Cabe-nos o dever de honrarmos uma tradição secular

Cesare Battisti, cuja salvação fora uma das maiores vitórias dos brasileiros com espírito de justiça em todos os tempos, viu sua situação já definida de residente legal ser pulverizada por pressões italianas e consequentes decisões juridicamente aberrantes dos togados brasileiros. Sua pedra também tombou e ele se vê obrigado a retomar, idoso, a sina cheia de incertezas de um perseguido político.

Temos todos de empurrar novamente as pedras montanha acima. Até quando? Enquanto vivermos. 

Sem dúvida, cometemos erros que tornaram ainda mais desigual o enfrentamento com um inimigo que sempre teve todas as vantagens e trunfos. Por eles pagamos um preço muito alto, individual e coletivamente. 

Só nos resta seguirmos lutando, pois foi assim que nos construímos e só assim morreremos aliviados: se as vitórias duradouras não estavam ao nosso alcance, os que nos mantivemos íntegros temos nossa coerência como consolo. Os que lambuzaram com o melado da sociedade burguesa, conspurcado pelo suor e sangue alheios, nem isto.

E dos pósteros, só desejamos que "quando chegar o tempo em que o homem seja amigo do homem, pensem em nós com um pouco de compreensão" (Brecht). 
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Observação: por força dessas armadilhas do destino, estou sendo obrigado a reconstruir novamente a minha vida. O que mais necessito, neste momento, é de qualquer espacinho para morar na capital paulista, de forma a continuar próximo das minhas filhas. 

As dificuldades são nome sujo (segundo os imundos critérios capitalistas) e falta de recursos para depósito-caução. Companheiros estão tentando encontrar alguma boa alma que aceite receber o mês adiantado e mais nada; enquanto isso, bato pernas por aí tentando a sorte.  

E, por sugestão do nosso bom David Emanuel, inscrevi-me numa vaquinha virtual (acesse aqui), que poderá, espero, permitir-me arcar com o depósito-caução, se não houver como escapar dele. (Celso Lungaretti)

domingo, 30 de abril de 2017

UM DIÁLOGO NA VÉSPERA DA GREVE GERAL

"Nada se parece mais com o pensamento
mítico do que a ideologia política"
(Claude Lévi-Strauss, antropólogo)
.
Francisco de Assis (nome escolhido pela sua mãe, por devoção religiosa), apelidado de Chico Passeata, era o filho mais novo de uma família de operários metalúrgicos que migrara do nordeste há mais de três décadas e morava em São Paulo. 

Chico Passeata, com seus 24 anos de idade, já nascera em São Paulo, e estava desempregado. Abandonara o colégio antes do término do 2º grau e agora se entregava inteiramente à militância no movimento sindical dito progressista da CUT, detestando aqueles a quem chamava de pelegos da Força Sindical. Considerava-se completamente diferente destes últimos. 

Tinha um irmão dois anos mais velho, Carlos Frederico, que estudava filosofia e recebera tal nome como uma homenagem do seu pai, antigo militante do pecebão, a Karl Marx e Friedrich Engels. 

Este, que o pai sonhara ver tornar-se marxista, era conhecido como Fred Nerd, por seu ar intelectual sua disposição de sempre tentar compreender os segredos da vida e a elucubrar sobre cada atitude individual ou coletiva. Ao invés das tradicionais camisas vermelhas costumava usar roupas pretas; naquela noite de 5ª feira vestia uma camiseta que tinha, na frente, os dizeres as meninas boas vão para o céu... e, atrás, ...as meninas más, vão para onde quiserem.

Chico Passeata separava a bandeira vermelha da CUT e a camiseta vermelha com a espirituosa frase Lutar sempre, Temer jamais! que usaria no tão aguardado dia seguinte, a 6ª feira da greve geral. 
O protesto também tem sua grife...

Este, que a mãe sonhara ver tornar-se franciscano, dividia um quartinho com o irmão, num apartamento de 70 m² de conjunto habitacional, apertadíssimo para uma família de cinco pessoas (pai, mãe, tia e os dois filhos já adultos). Ele não parava de receber telefonemas e fazer ligações no seu celular, articulando a mobilização do dia seguinte. 

A um companheiro perguntou se as faixas abaixo a reforma trabalhista e por uma política de mais emprego tinham sido providenciadas. A outros, se os piquetes nas portas das garagens de ônibus estavam bem programados e se os coquetéis molotov e archotes inflamáveis seriam suficientes para incendiar aqueles ônibus que ousassem trafegar durante a greve. Era uma ansiedade só.

Fred tudo observava impassível, sentado na sua pequena escrivaninha, com a luz focando no livro que relia, um romance policial tendo como pano de fundo a vida política e social na Rússia czarista de 1866: Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievski. 

Chico se irritava com a postura do irmão: não compreendia como alguém dotado de certa cultura e que falava em revolução e emancipação humana, podia ser tão indiferente ao que considerava como um momento vital na vida política brasileira – a greve geral do dia seguinte. 

Considerava o irmão, a quem dedicava um amor crítico, como alguém culto e sensível, mas totalmente destituído de sentido prático; portanto, todo o seu saber seria um desperdício e um inutilidade. Fred lhe despertava um misto de admiração e frustração. 

Naquele dia tal alheamento incomodou tanto Chico que ele provocou Fred: 
— Enquanto você fica aí sentado com esse livro, indiferente a tudo, os caras estão aprovando a reforma trabalhista que nos retiram os direito, Mano. Com sua passividade você contribui com os home, tá sabeno?
"A questão é saber como e para onde você quer ir"
Sem alterar-se e sem se virar para o irmão, Fred responde: 
— E você, quanto mais acelera o seu carro na direção do seu pretenso objetivo, mais dele se distancia. 

Aí Chico pega pressão e altera a voz, indignado: 
— Como assim, mano? Por acaso ficar calado e se omitir da luta é correto?

Fred explica: 
— A questão não é se omitir do confronto, mas saber como e para onde você quer ir. Se pega a estrada errada, quanto mais acelera o seu caro mais se distancia do ponto em que você deseja chegar. Com essas bandeiras que eu vi e ouvi você defender, você apenas está desejando mais do mesmo, e dificultando ainda mais a superação do que é ruim e está posto.
          
— Ora, Fred! Você aceita a retirada dos direitos trabalhistas?

— Não, eu sou contra o próprio direito trabalhista.

— Então você á a favor da exploração pelos patrões?

— Não, Chico. Eu sou contra a existência de patrões.
"O dinheiro é um modo de escravização de todos nós"

— Então você quer que o Estado seja dono de tudo e que se acabe com os patrões?

— Não. Eu sou contra a existência do Estado e de tudo que ele encarna, e principalmente o Estado como patrão!

— Ora, Fred, eu não entendo nada do que você diz. Você é contra tudo; os patrões e os trabalhadores ao mesmo tempo. Você está em cima do muro? 

— Não. Eu também sou contra a existência do tal muro que somente na aparência os separa. Eles são faces de uma mesma moeda. Literalmente. 

Arre, égua! [expressão que ouvia em casa desde menino, como filho de bom cearense que era] Você é contra tudo. Me explique isso direito. 

— Chico, vocês estão reivindicando direitos trabalhistas que representam a permanência do trabalho e do trabalhador, sem compreenderem que tanto uma coisa como a outra são categorias imanentes ao capitalismo que dizem combater. Vocês reforçam e justificam aquilo que combatem. 

— E o que é que você acha que eu devo defender?

— Vocês deveriam defender o fim do trabalho e do trabalhador, pois enquanto categorias capitalistas que são, elas apenas contribuem para a formação do capital, seja ele gerenciado pelo patrão privado ou pelo patrão estado. 
"Vocês deveriam defender o fim do trabalho e do trabalhador"
— Mas, Fred, isso que você defende é impossível de acontecer. Você, como sempre, está com a cabeça na lua, e se omite diante da opressão concreta. É preciso agir.

— O impossível está na sua cabeça, e agir não é necessariamente sempre o mais correto e eficaz. A omissão pode ser até mais violenta do que a ação. Mais vale você parar de ser trabalhador e se negar a produzir valor do que exigir direitos trabalhistas que não virão na atual conjuntura.

— Mas se nós pararmos de trabalhar definitivamente, como você quer, quem é que vai pagar os nossos salários?

— Aí é que está. Nós temos de abolir não apenas o trabalho e salário, mas o dinheiro como modo de mediação social. O dinheiro é um modo de escravização de todos nós e os trabalhadores contribuem para a sua existência. Pedir direitos trabalhistas é afirmar o trabalho, a exploração feita por meio  dele e o próprio capital que você diz combater. 

— Mas, como é que nós vamos viver sem trabalho e sem dinheiro?
"De que adianta remover Temer e os deputados elegerem outro?"

— Você não compreende que, ao considerar o trabalho e o dinheiro como indispensáveis à vida, está afirmando um modo de negação da própria vida? Nenhum objeto destinado ao consumo humano tem um grama sequer de dinheiro; e o esforço humano para a produção de qualquer objeto que sirva para tal consumo não significa que somente possa ser obtido por meio da produção de mercadorias e do salário,que é a tradução do trabalho que vocês tanto defendem. O esforço humano individual ou coletivo de produção de bens e serviços deve ter outro conteúdo, em lugar de mercadorias e trabalho. Tem de ser apenas produtor de vida e gerador de abundância. 

A expressão de Chico já revela alguma impaciência, mas Fred prossegue: 
— Outra coisa, nós todos temos de deixar de ser trabalhadores economicamente ativos, passando a ser pessoas socialmente contributivas. Isso não tem nada a haver com a produção de valor, ora travada pelas contradições internas do capital. 

— Pára aí Você já está fundindo a minha cuca com essa sua conversa complicada. Quer dizer que você é contra o nosso protesto é contra até o fora Temer!, esse golpista oportunista que já vai completar um ano de governo e só faz aumentar o desemprego, que já passou de 14 milhões de trabalhadores...
"Novos ônibus serão fabricados após os incêndios"

— A questão que se coloca não é o fora Temer!, mas fora a política e o sistema que o produziu e o mantém!. De que adianta remover o Temer e os deputados elegerem outro dos seus? Aliás, ainda que houvesse eleições, surgiria um pilantra qualquer se arvorando de salvador da pátria e iria engabelar o povo de novo. 

Resolvido a dessa vez ir até o fim com seus questionamentos, Fred acrescenta: 
— Ademais, Chico, eu ouvi você falando sobre tacar fogo nos ônibus. Isso é somente uma forma de retirar a legitimidade do protesto e se descredenciar perante as pessoas, que encaram esses atos como desesperados e inconsequentes. Novos ônibus serão fabricados após os incêndios, a exploração do suor dos trabalhadores continuará gerando lucros para a indústria automobilística e tudo continuará na mesma. Muito mais violento e eficaz do que queimar ônibus, fazer saques e depredar bancos seria nós todos cruzarmos pacificamente os braços diante do trabalho, até no interior das nossas casas, definitivamente, conscientemente, sabendo o porquê dessa atitude, e não somente num dia de greve. 

— Pára aí, mano. O que você quer é impossível e eu não vou mais me estressar com a sua conversa fiada. O que vale é a ação prática, tá sabeno? Chega de filosofia. 

Fred voltou a ler seu livro e Chico fingiu dormir, enquanto refletia sobre tudo que ouvira e sobre o que se programara a fazer no dia seguinte. Não pregou olhos bem cedinho saiu para dar apoio à greve, mas agora sem muita convicção da correção de todo o ativismo grevista e suas bandeiras.
"...aliviado por não ter sido atingido pela bala de borracha..."

Estava decidido a depois refletir melhor sobre aquela conversa noturna, pois trazia no seu coração o sentimento revolucionário de combate à injustiça. Só lhe faltava agregar ao seu voluntarismo a consciência crítica. 

No final do dia Fred voltou para casa, exausto, com os olhos irritados pelo gás lacrimogênio e aliviado por não ter sido atingido pela bala de borracha que passara tão perto de sua cabeça.

Tudo voltou a ser como dantes no quartel de Abrantes. O ministro da Justiça garantia que a greve fora um fracasso, enquanto os sindicalistas e os partidos de oposição afirmavam ter feito um protesto significativo. (por Dalton Rosado)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

MATANÇA EM MANAUS FOI UMA AMOSTRA EXTREMADA DA SEGREGAÇÃO SOCIAL GERADA POR UM SISTEMA MORIBUNDO

"Isso é um erro que não podemos cometer,
achar que esse massacre e essas rebeliões 
são simplesmente guerras de facções"
(ministro da Justiça Alexandre Moraes)
Qual a conexão entre o fato de que, numa região com baixa densidade demográfica como a Amazônia, pessoas precisem morar em palafitas (construções em áreas alagadas) e nela ocorra um massacre tão chocante como o ocorrido no presídio Compaj,  de Manaus, matando 56 presos, muitos deles degolados? 

Qual a conexão entre o massacre do Carandiru, cujo saldo foi de 110 presos mortos e nenhum policial participante vitimado (sem que nenhum destes últimos tenha sido verdadeiramente punido), além de tantos outros motins diários que ceifam presidiários e funcionários públicos, e o fato de que existem quase 700 mil presos alojados em presídios capacitados para a internação de pouco mais de 300 mil?

É a seguinte: vivemos numa sociedade que não tem o mínimo respeito pelos direitos humanos e trata os pobres como animais de carga, encarando seus assassinatos como episódios de ínfima importância. 

Por que há centenas de milhares de mandados de prisões expedidos a partir de sentenças já transitadas em julgado (caso todos estes condenados fossem presos, nem sequer caberiam nos presídios atuais) sem que a polícia consiga prender os condenados, com a ineficácia policial estimulando o monstruoso índice de violência, a ponto de a vida humana valer menos do que um aparelho celular? 

Por todos os motivos anteriores; mas, principalmente, porque vivemos numa sociedade que produz uma quantidade insuportável de criminosos graças a um conjunto de fatores (corrupção, desemprego estrutural, analfabetismo, favelamento, etc.) cujo traço comum é a miséria do capitalismo. 

Segundo relatório do Ministério Público, as empresas Umanizzare (o nome é uma ironia involuntária!) e Multi Serviços Administrativos recebiam R$ 4.709,78 por cada preso sob sua guarda em regime de terceirização. A presidente do STF, ministra Carmem Lúcia, afirmou que um preso em estabelecimentos penais do Estado requer cerca de R$ 2,4 mil, o que faz suspeitar de superfaturamento na Casa dos Mortos de Manaus, muito mais terrível do que a celebrizada pela obra-prima de Dostoievski.  

O conjunto de gastos com que a sociedade arca é enorme: a construção de presídio e sua manutenção física; energia e água; alimentação dos prisioneiros, roupas e lavanderia; remuneração dos agentes penitenciários e policiamento dos presídios, bem como toda a estrutura judiciária (funcionários, promotores de justiça, juízes, viaturas e escoltas para transporte de presos). Ou seja, o custo de um preso é elevadíssimo para os padrões médios de receitas de um cidadão brasileiro. 

Algumas dezenas de bilhões de reais são, neste sentido, retiradas da precária receita tributária; somadas aos custos da dívida pública e da pesada máquina administrava do Estado, pouco sobra para o contribuinte receber a contrapartida dos seus impostos na forma de serviços indispensáveis para a coletividade. 
É, repito, em função do imenso contingente de criminosos que nossa sociedade está produzindo e à existência de custos prisionais tão onerosos, que o Estado perdeu a capacidade de prender, causando sensação de impunidade que se constitui num combustível adicional para o crime.  

Dentro deste contexto, o tráfico de drogas movimenta bilhões de reais no Brasil inteiro, financia o crime organizado e concorre para o aumento de outras formas de criminalidade. Neste artigo já disséramos que a droga é uma mercadoria (clandestina) e que todas as mercadorias são drogas (oficiais). Só há uma maneira de se extirpar o tráfico de drogas como cancro social: a superação da própria mercadoria.  Tal princípio vale igualmente para as armas de fogo.
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SOBRE A CRÍTICA AOS DIREITOS HUMANOS
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Face à intensificação da escalada da violência e à incapacidade do Estado de enfrentá-la, surgem as mais diversas teses sobre o tratamento policial desta questão, na contramão do respeito os direitos humanos. 

É que a violência urbana (e até rural) está se tornando uma guerra civil não declarada tanto no Brasil (em todos os estados, o que demonstra não ser uma questão localizada e nem apenas de boa ou má administração) e em muitas regiões do mundo.

A desigualdade social brasileira e mundial se aprofunda. Segmentos excluídos da sociedade, que são grande parte da população (vale ressaltar que existem também delinquentes entre as chamadas classe média e alta, principalmente os corruptos de colarinho branco), derivam para o crime e para a barbárie, justamente por não terem consciência de quando, como, por que e por onde devem canalizar as suas insatisfações. A violência cega a nada leva de construtivo. 

Infelizmente, tal inconsciência é a base não apenas da barbárie, mas também, e principalmente, da existência da própria exclusão e da aceitação (até certo ponto) da opressão sistêmica. Afinal, a barbárie nunca foi e nem jamais será instrumento eficaz de transformação social.

Mesmo assim, continuam pipocando nas abordagens dos segmentos mais conservadores e melhor aquinhoados da sociedade as demagógicas críticas à supostamente injusta defesa dos criminosos por parte dos defensores dos direitos humanos, no que diz respeito às:
– condições carcerárias desumanas;
– aos assassinatos em motins nos presídios;
– à truculência da polícia, que, diante da incapacidade de uma prisão pelo Estado, passa a torturar, mandar bala a torto e direito, a executar suspeitos já rendidos, etc., o que, numa espiral de violência, acaba elevando também o número de mortos em suas fileiras. 
Quando não se trata de policiais mancomunados com o crime a ponto de acobertarem com suas fardas ou distintivos o extermínio de concorrentes dos seus segundos patrões, são agentes que se desviam do dever para atuar como justiceiros, em contraponto à insegurança e às agressões sofridas pelas vítimas. Só que um erro não justifica outro nem lhes confere o direito de tomar a justiça em suas mãos.. 

Os nazistas eram os maiores propagadores dessas teses, e todos sabemos no que deu. 

Os comentários negativos contra defensores dos direitos humanos geralmente fazem chantagem emocional com a situação das vítimas de assaltos ou chacinas e suas respectivas famílias, como se certa fosse a primitiva lei do talião e errada, a civilização que penosamente construímos ao longo de milênios.

Tal postura deriva de uma falsa dicotomia. A análise que parte de uma suposta oposição de tratamento entre vítimas e criminosos está contaminada por pressuposto equivocado, uma vez que tanto vítimas como criminosos sofrem, cada um do seu modo, com o resultado prático de uma negatividade social endógena (as relações sociais sob o capitalismo). 

É evidente que não se podem proteger criminosos com a impunidade, mas nem por isto se justificam tratamentos cruéis e ignominiosos. 

Devem, portanto, ser incisivamente repudiados os opositores dos direitos humanos que erigem a punição degradante como alternativa à impunidade, ao invés de terem a coragem e a dignidade de discutirem o que está subjacente a tal guerra civil não declarada entre excluídos e incluídos, reconhecendo que de uma sociedade intrinsecamente injusta (como é a capitalista, principalmente quando atinge o seu limite interno absoluto de expansão) não pode resultar a felicidade coletiva. 

Afinal, quando se planta uma erva daninha, dela não se podem esperar bons frutos. (por Dalton Rosado)

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

DALTON ROSADO: "EM LOUVOR DOS PERDEDORES SOCIAIS".

"Ao vencedor, as batatas!"
(frase irônica de Quincas Borba,
personagem de Machado de Assis)
. 
As modernas sociedades mercantis sacramentaram o conceito de vencer na vida, que consiste em subir na escala social. Os vencedores são aqueles que ganham dinheiro e ficam ricos; então, como a grande maioria da população (cerca de 80%) não consegue ficar rica, temos 80% de perdedores. 

Nada mais injusto do que se qualificar uma pessoa pelo seu poder aquisitivo e não pelas suas qualidades humanas e contribuição social! Mormente quando é a própria sociedade quem cria um mecanismo básico de mediação social segregacionista, fundado na extração de mais-valia, que viabiliza a acumulação do capital em detrimento de que o produz e que é causa da existência de uma sociedade de perdedores
   
O maior literato brasileiro, Machado de Assis, há mais de um século colocou na boca de um personagem sarcástico, Quincas Borba, a afirmação de que, numa disputa fratricida pelo alimento vital, aos vencedores caberiam batatas e aos perdedores, ódio ou compaixão – além da fome, é claro! A fina ironia machadiana contestava, assim, a tese darwiniana da seleção das espécies aplicada ao humanismo. 

Mas, quem são eles e o que é ser perdedor? O critério de aferição a partir do poder aquisitivo e da renda é a expressão mais bem acabada de uma sociedade que elege pressupostos sociais equivocados como válidos, decorrendo daí a inversão dos melhores conceitos do que seja virtude. Ou seja, a construção da negatividade social passa a ser vista como algo virtuoso.
O certo não é mirar-se nos de cima, é lutar pela igualdade!

O que dizer daquele que acorda pela madrugada e pega um trem lotado, depois mais dois ônibus igualmente abarrotados, e que após quase duas horas de viagem chega ao trabalho (isto quando está empregado, pois desempregado é ainda pior), para uma jornada de oito horas de dura labuta, finda as quais refaz o itinerário no sentido inverso, passando pelas mesmíssimas agruras, para ganhar um salário pouco maior que o mínimo de R$ 880, a paga que recebe por produzir a riqueza do Brasil? Será ele um perdedor? Ou um herói? 

Acaso podem ser considerados vencedores e merecedores do respeito social aqueles que estabelecem conluios com seus apaniguados para a prática da corrupção? E que, quando aprisionados, correm a delatar seus iguais, para escaparem pela porta do fundo das (ou atenuarem as) consequências dos seus atos? Fruto de um sistema político no qual impera o poder econômico, eles amiúde amargam um certo tempo de ostracismo e logo recuperam seu status de privilegiados, chegando a cometer os mesmíssimos delitos adiante...

Acaso os
 vencedores, aí incluídos bicheiros, especuladores monopolistas financeiros e industriais, traficantes, políticos e empreiteiros corruptos, etc., merecem a reverência social que normalmente lhes é concedida por terem renda e patrimônio acima da média dos perdedores (apesar de a riqueza que embasa tal valorização ter sido produzida pelos últimos e indevidamente apropriada pelos primeiros)? 
Vale a pena tornar-se um vencedor ao preço da desumanização?
Acaso os manipuladores do capital e seus submissos capitães do mato, sempre prontos a punir os escravos da modernidade que venham a se rebelar de alguma forma contra a opressão, devem ser admirados e imitados?

Acaso um povo que tem renda média anual de R$ 2.117 (dado do IBGE, 2015), que reflete uma generalização e disseminação da pobreza, pode ser considerado culpado por tudo isso e, ainda por cima, taxado de perdedor

Costumamos a admirar o falso brilho da prosperidade expresso no brilho real das coisas belas que o dinheiro produz, e es
ta é a forma sublinear pela qual os perdedores inculcamos nas nossas mentes a culpa pela própria miséria. Mas, tal admiração a nos imposta é totalmente equivocada. Se não, vejamos:
– o esplendor das luzes de neon não ilumina os becos escuros onde dormem os meninos de rua e os velhos abandonados; 
 os carros luxuosos e com mil quinquilharias modernosas não encobre a irracionalidade da paralisia do trânsito que faz com que o congestionamento nas ruas torne o tráfego mais lento do que as carruagens do século XIX, além de emitirem na atmosfera o gás carbônico que produz o aquecimento do planeta graças ao efeito estufa (prisão planetária dos raios solares); 
Raridade: uma exortação religiosa que não trai Cristo.
– o conforto e elegância iluminada dos bairros grã-finos ofuscam a imensidão das ruelas mal iluminadas das favelas; 
– a alegria inata ao povo brasileiro, que contrasta com sua miséria (será alegre o dia-a-dia entre uma bala perdida e outra achada na favela?) e encanta turistas entediados em busca de prazer, não torna a miséria algo positivo; e por aí vai. 
Ocorreu-me o paralelo com a visão crítica dos homens novos, imortalizados no herói raznochintsy (1do livro Memórias do subsolo, de Dostoievski; embriões dos revolucionários bolcheviques de 1917, eles eram os invisíveis perdedores intelectuais na São Petersburgo que se industrializava com o capital estrangeiro na Rússia da metade do século XIX. 

Tinham extrema ojeriza pelo Projeto Urbanístico Nevski, em função de sua pretensão de brilho modernoso à moda de Paris, com o qual se queria encobrir a miséria e o atraso reinante na periferia da cidade e em todo o país, patrocinado pela monarquia czarista. E estavam certos, embora isto possa hoje parecer até uma esquisitice: é que os perdedores imitam mesmo os vencedores, querendo desfrutar seus privilégios, imbuídos, no dizer de Marx, de uma falsa consciência da realidade em que vivem.  Isto é o que tornava o tal Projet Nevski tão detestável para os raznochintsy.
Lance Armstrong: destruído!
Com um pouco de sorte, os perdedores acabam finalmente percebendo que a busca da igualdade na diversidade é o melhor caminho a ser seguido. Mas, por enquanto, são raros o que atingem tal estágio de discernimento. 
   
É evidente que este artigo não terá o condão de mudar o conceito de vencedores e perdedores, pois, ainda que consideremos como corretos os questionamentos aqui levantados, será a regra do você vale quanto você tem que continuará prevalecendo. Afinal, trata-se de um critério internalizado nas nossas mentes pelas sociedades mercantis ao longo de séculos. 

Apesar disto, quero fazer a meu solitário e solidário louvor aos perdedores contumazes nas batalhas de uma vida mal vivida, conferindo-lhes uma medalha de ouro social, ainda que eu não tenha nenhuma legitimidade nem méritos para incumbir-me de tal outorga; mesmo assim faço-o, por ter certeza de que os seus sofridos e oprimidos méritos existem. (por Dalton Rosado)

(1) Os raznochintsy, que se pretendiam  representantes do homem novo, eram uma nova geração de cidadãos russos intelectuais que não provinham das classes nobres. Tal geração começou a surgir na década de 1860, durante o reinado de Alexandre II, período em que houve transformações radicais na cultura russa, como a libertação dos servos. Os homens novos questionavam as instituições, as convenções sociais e, na década de 1870, realizavam manifestações públicas, algo até então desconhecido na Rússia autocrática. [Observação do editor: não confundir com a acepção dada ao homem novo pelos contestadores de 1968, que o viam como um ideal de perfeição a ser atingido, o ser humano solidário e pleno que uma sociedade livre engendraria.] 
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