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domingo, 18 de fevereiro de 2018

AINDA SOBRE A AJUDA QUE CUBA PODERÁ PRESTAR PARA QUE HAJA UMA SOLUÇÃO NEGOCIADA DA CRISE VENEZUELANA

Toque do editor
A posição deste blogueiro é que temos de procurar, com a máxima urgência, soluções alternativas para a crise da Venezuela, caso contrário ela acabará sendo decidida pelas armas, com as matanças somando-se à penúria que já castiga terrivelmente o povo e leva muitos venezuelanos a deixarem o país em desespero. 

Devemos considerar golpe de Estado ou guerra civil como as piores de todas as possibilidades, pois maximizariam o sofrimento de quem já sofreu demais!

Neste sábado (17), o blogue colocou no ar uma proposta interessante do Demétrio Magnoli, passando, contudo batido pelo fato de tratar-se apenas de uma derivação da posição há algum tempo defendida pelo sociólogo mexicano Jorge Castañeda.

Então, para darmos a informação completa, publicaremos, ainda que com considerável atraso, as considerações do Clóvis Rossi a tal respeito.

"'Não há saída para a tragédia de Caracas sem Cuba; não haverá cooperação cubana sem algo em troca', escreveu Castañeda já no ano passado [2017].

Cuba tem atualmente na Venezuela 60 mil efetivos, entre militares, policiais, médicos e treinadores esportivos. A oposição venezuelana jura que todos são agentes de segurança e inteligência.
Raúl Castro deixa o poder em abril. O que virá depois?

Pode ser exagero, mas é evidente que os cubanos tutelam as forças armadas venezuelanas e os serviços policiais, de identificação, de inteligência e de registros de identidade.

Cuba ganha em troca 105 mil barris/dia de petróleo praticamente de graça, além do pagamento dos serviços de seus agentes na Venezuela.

Escreve Moisés Naím, outro acadêmico venezuelano radicado dos Estados Unidos: 'A ajuda venezuelana é indispensável para evitar que a economia cubana entre em colapso'.

Acrescenta: 'Ter um governo em Caracas que mantenha tal ajuda é um objetivo vital do Estado cubano'.

Eis então o ponto que transforma em pensável a proposta de Castañeda: se a comunidade latino-americana conseguir convencer Cuba de que um novo governo em Caracas manterá ao menos em parte os favores a Havana, talvez Cuba colabore para a mudança de regime na Venezuela.

Até porque, o colapso econômico já está afetando seriamente essa ajuda. Carmelo Mesa Largo, cubano radicado nos Estados Unidos (...) e que estuda seu país há 55 anos, calculou (...) que os 105 mil barris/dia originalmente acertados entre Cuba e Hugo Chávez reduziram-se, agora, a pouco mais da metade (55 mil), justamente pela crise na Venezuela.
Êxodo de venezuelanos, que fogem da crise...
Mesmo assim, Mesa Largo duvida que Cuba se disponha a entrar no jogo proposto por Castañeda. Lembra que, quando Barack Obama iniciou o processo de degelo nas relações com a ilha, esperava-se que Raúl Castro ao menos suavizasse a retórica anti-americana e arrastasse com ele países afins, como Nicarágua, Equador e Bolívia.

Não foi o que aconteceu. Ao contrário: Raúl deixou claro que Cuba 'não se venderia por um prato de lentilhas', lembra Mesa Largo.

Em todo o caso, como o prato de lentilhas está minguando e Raúl Castro deixa a presidência em abril, abre-se um período de incertezas. 'Paira um grande ponto de interrogação sobre o que fará Miguel Díaz Canel [provável sucessor]', diz Mesa Largo.
...mas não da penúria!
Há um outro obstáculo para pôr em prática a proposta de Castañeda: que país latino-americano poderia fazer a ponte com Cuba? Mesa Largo só vê duas possibilidades:
  • México, de tradicionais boas relações com a ilha; e
  • Colômbia, já que seu presidente Juan Manuel Santos e Raúl Castro construíram uma boa relação durante as negociações de paz entre o governo colombiano e as Farc – negociações ocorridas exatamente em Havana.
Se o regime cubano patrocinou uma bem sucedida negociação entre um governo conservador e uma guerrilha de origem marxista, em tese poderia desempenhar idêntico papel entre um governo que se diz socialista mas é apenas fracassado e os países da região.

O que, na teoria ao menos, torna menos impensável o impensável de Castañeda.

Até porque, como já se viu, o que é pensável não funciona e a Venezuela derrete irremediavelmente."(por Clóvis Rossi)

segunda-feira, 26 de julho de 2010

CHÁVEZ ÀS FARC: SAIAM DA LUTA ARMADA!

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia são um grupo guerrilheiro que teimou em continuar atuante após o término do ciclo das ditaduras militares sul-americanas e sua contrapartida, a opção das esquerdas pela via armada de libertação.

Pior: as Farc descaracterizaram-se como defensoras de valores nobres, ao estabelecerem relações promíscuas com o narcotráfico e ao criarem a indústria de seqüestros.


Uma prática tão vil e desumana só podia ser relevada no caso da troca dos reféns por presos políticos, ou seja, como alternativa extrema aos assassinatos e torturas a que estavam sujeitos os resistentes nas garras de regimes despóticos. Sua generalização como fonte de recursos financeiros e instrumento de chantagem política é inadmissível para quem foi formado na tradição marxista.


Os três parágrafos acima hoje talvez não encontrem mais tanta rejeição entre homens de esquerda. Mas, no início de março de 2008, fez desabar o mundo virtual na minha cabeça. Foi o primeiro dos rolos compressores que enfrentei em minha atuação na internet -- e o mais virulento deles.

O artigo em questão -- A guerra dos esfarrapados -- foi uma resposta à insanidade de esquerdistas brasileiros que pregavam uma guerra entre Equador e Colômbia, como resposta ao bombardeio colombiano que matou integrantes das Farc em território equatoriano.

Não via nem vejo motivos para revolucionários açularem conflitos bélicos entre nações; acabam sempre sendo matadouros de coitadezas que nem sequer sabem direito por que estão lutando. Não é na ponta das baionetas que espalhamos nossos ideais pelo mundo.

A grita contra a Colômbia veio acompanhada por um absurdo endeusamento das Farc, do qual só eu e o companheiro Ivan Seixas tivemos coragem de divergir.

O Ivan qualificou as Farc de uma guerrilha que ficara tempo demais na selva, acabando por esquecer o que estava fazendo lá, além de lembrar a regra de ouro da luta armada brasileira acerca de sequestros: vida só se troca por vida.

Ou seja, trata-se de uma opção que um combatente revolucionário só faz em circunstâncias extremas, para garantir a integridade física e evitar a execução de militantes encarcerados.

Reforcei:
"Embora fosse mais fácil obter recursos financeiros para nossa luta por meio de sequestros com objetivos pecuniários, considerávamos tal prática indigna e preferíamos correr riscos bem maiores expropriando bancos".
Embora não fosse minha intenção falar com tamanha franqueza, a enxurrada de críticas despropositadas, tendenciosas e demagógicas, levou-me a colocar de vez os pingos nos ii, em Os homens unidimensionais ditos de esquerda:
"Seqüestrar centenas de pessoas para obter resgates e fazer chantagem é atitude de bandidos, não de revolucionários. Quem se propõe a conduzir a humanidade para um estágio superior de civilização não pode, jamais, sob justificativa nenhuma, incidir em práticas hediondas!"
E, aos que qualificavam minha postura de moralismo pequeno-burguês, ao mesmo tempo em que tentavam canhestramente defender os sequestros seriais da Farc alegando que quem os criticava era o PIG, retruquei:
"Não serão os homens unidimensionais ditos de esquerda que vão reconquistar o respeito da cidadania para nossas causas, tão abalado por acontecimentos recentes [o escândalo do mensalão]. Isto só poderão lograr aqueles que não negarem o óbvio ululante rotulando-o de 'propaganda burguesa', nem atropelarem os fundamentos da vida civilizada para defender bandos armados".
Sem conseguirem fazer com que suas posições prevalecessem na batalha dos argumentos, os sectários organizados foram eficientes em insuflar prevenções contra mim, fazendo com que alguns espaços da esquerda virtual se fechassem para meus textos.

Isso, aliás, tem acontecido com frequência nos últimos anos: aqueles a quem derroto nas polêmicas de peito aberto, atacam depois, sorrateiramente, pelas costas. As intrigas e maledicências são as armas dos covardes.

FIDEL: "NENHUM PROPÓSITO
REVOLUCIONÁRIO JUSTIFICA ISSO"


Alguns meses depois, entretanto, os próprios ícones dessa gente a deixaram falando sozinha.

Fidel Castro escreveu declaração bombástica quando da libertação de Ingrid Betancourt, vindo ao encontro do meu moralismo pequeno-burguês:
"Civis nunca deveriam ser sequestrados, nem militares deveriam ser mantidos como prisioneiros nas condições da selva. Eram fatos objetivamente cruéis. Nenhum propósito revolucionário justifica isto".
O PT, discretamente, já vinha há bom tempo se distanciando das Farc, tanto que tem vetado sua participação nas reuniões do Foro de São Paulo.

E Hugo Chávez desde 2008 aconselha as Farc a aceitarem negociar com o governo colombiano, para que possam depor as armas com segurança, voltando a participar da política convencional.

Tornou a fazê-lo na semana passada, culpando-as pela nova crise na região:
"...os movimentos armados na Colômbia deveriam reconsiderar sua estratégia armada. (...) Não há condições na Colômbia para que eles possam tomar o poder. (...) Pelo contrário, converteram-se na principal desculpa para o Império penetrar na Colômbia a fundo e, a partir de lá, agredir a Venezuela, agredir Equador, Nicarágua, agredir Cuba".

"O mundo de hoje não é o mesmo mundo dos anos 1960 [quando as guerrilhas combatiam as ditaduras latinoamericanas]. Aí está Pepe Mujica, está Daniel [Ortega], está Evo [Morales], está Lula e estará Dilma, enfrentando as oligarquias e o imperialismo".
Isso não quer dizer que eu, o Ivan, o PT, o Fidel e o Chávez estejamos necessariamente certos em nossas restrições às Farc.

Mas, se existe tal convergência de opiniões por parte de dirigentes, militantes e forças díspares do campo da esquerda, isto, no mínimo, indica que se trata de um assunto a ser discutido aberta e objetivamente, não de uma heresia a ser respondida com o atear de fogueiras.

Então, a lição a ser tirada deste caso emblemático é: já passou da hora de reaprendermos a dialogar respeitosamente com as tendências adversárias do nosso campo, deixando o tratamento de inimigos apenas para os adeptos do capitalismo e do neofascismo.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

POR QUE OS DEMOTUCANOS BATERAM EM RETIRADA?

Quem nunca trabalhou na (ou com a) imprensa, às vezes desconhece algumas características da atividade, como o fato de que jornais e revistas dificilmente metem o nariz nos textos de seus colunistas.

Quando concedem espaço permanente a alguém, são obrigados a engolir suas posições eventualmente heréticas.


A alternativa é retirar-lhe o espaço, quando a dissonância assume maior vulto. Mas, isto pega tão mal que é raro algum veículo optar pela reação extremada.

Daí eu frequentemente reproduzir trechos dos bons textos de colunistas da grande imprensa, pois o fato de alguém ser publicado na Folha ou no Estadão não significa que se comporte como capacho das chefias. É uma confusão que muitos companheiros de esquerda fazem, por desconhecerem as entranhas do PIG.

Vide, p. ex., este sarcástico artigo de 3ª feira (20) da Dora Kramer, do
Estadão: O fato que virou fardo. Praticamente antecipou o que aconteceria ao longo do dia, com o Índio sendo colocado de castigo pelos caciques demotucanos. Teve até de cancelar sua participação em eventos.

Se ficar muito tempo na geladeira virará picolé de Índio, para compensar a gelada em que colocou os chefes da aldeia.

Dora também acertou ao antecipar que não daria em nada a tentativa de usar uma suposta cumplicidade do PT com as Farc como trunfo eleitoral. Foi um furo n'água, que só serviu para projetar uma imagem deplorável de José Serra e inspirar fundados temores de que, sendo ele eleito e não podendo cumprir seu mandato, o substituto legal submeterá o Brasil a um
programa de índio.

Eis os principais trechos da coluna da Kramer:
"O vice, aguardado como o grande fato político da temporada (...), acabou se transformando em um fardo.

"Agora o PSDB enfrenta aborrecimentos com o vice, escolhido sabe-se lá por qual critério: juventude, fina estampa ou para tentar suprir a lacuna de uma confusa e pouco profícua aliança com o PV no Rio de Janeiro...

"...o que lhe falta [ao Índio da Costa] em experiência não lhe sobra em sapiência e extrapola em imprudência.

"...sem medir palavras contra os inimigos, Índio da Costa simplesmente disse que 'todo mundo sabe' que o 'PT é ligado às Farc, ao narcotráfico, ao que há de pior'.

"No dia seguinte retratou-se: 'O PT não faz narcotráfico'. Que bom, não é?

"O desmentido deve ter soado tranquilizador ao titular da chapa, José Serra, aos partidos e aos demais cidadãos do Brasil, quiçá do mundo, que, segundo a primeira versão, sempre souberam da ligação do PT com o narcotráfico. Não precisam se sentir cúmplices por não terem denunciado à polícia o que sabiam.

"Índio da Costa tampouco precisará demonstrar a veracidade de afirmação tão peremptória. Apenas terá de responder a ações do PT por injúria, calúnia e difamação e danos morais.

"O candidato [José Serra] ainda saiu em socorro do companheiro, deixando o narcotráfico para lá, mas 'endossando' a história das Farc, mais velha que a Sé de Braga e absolutamente inócua em termos eleitorais.

"E pensar que José Serra achou que a escolha de um candidato à Vice-Presidência fosse um assunto secundário. Bastaria, segundo seus critérios, encontrar alguém que não lhe trouxesse 'aporrinhação'.

"Como se viu, não era tão trivial assim..."

FARC, O ESPANTALHO DA VEZ

Oscar de Melhor filme de 1967, mostra como o filósofo Thomas More abdicou do poder (e da própria vida) para permanecer fiel a suas convicções. Há quem faça a opção contrária...

Pois bem, o PT não é narcotraficante, mas está ligado às Farc, que o são -- dizem, em úníssono, José Serra e Índio da Costa.

E, tendo feito uma óbvia insinuação, de extrema gravidade, desobrigam-se de justificar suas alegações, pois "todo mundo sabe".

O Estado de S. Paulo vem socorrer a ambos, com um artiguete de Roberto Lameirinhas, que foi meu foca quando eu editava revistas musicais. Se arrependimento matasse...
Intitulado Grupo surgiu em 1964 para lutar por regime leninista, o texto tenta, ademais, ressuscitar o espectro favorito do Olavo de Carvalho, que não assusta mais ninguém: o Foro de São Paulo.

Só os dois parágrafos iniciais são relevantes:
"Mais antiga guerrilha esquerdista em atividade na América Latina, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) foram fundadas em 1964, como o braço armado do Partido Comunista Colombiano. No mesmo ano, iniciou sua campanha contra o Estado, com o objetivo de instalar no país um regime marxista-leninista. Em 46 anos, estima-se em mais de 200 mil os mortos do conflito.

"Como força política, as Farc mantiveram vínculos com partidos e movimentos de esquerda de várias partes do mundo. Os laços com o Partido dos Trabalhadores, do Brasil, tornaram-se mais claros em 1990, quando o PT lançou o chamado Foro de São Paulo - que reúne grupos esquerdistas de vários países da América Latina e Caribe. Uma carta do então líder das Farc, Pedro Antonio Marín, também conhecido como Manuel Marulanda ou Tirofijo ('Tiro Certeiro', em espanhol), foi lida na abertura do evento".
Ou seja, no primeiro parágrafo, o Lameirinhas esboça um retrato das Farc, mais horroroso que o de Dorian Gray.

No segundo, diz que o PT tinha laços com as Farc em 1990 -- e como depois muda o disco, passando a abordar a problemática especificamente colombiana, deixa subentendido que até hoje tais laços persistem.

Mas, na
Folha.com, Clóvis Rossi (PT, Farc, meia verdade e ambiguidade) preenche a lacuna, contando o que aconteceu depois:
"O que Serra não explicitou é que o PT cortou tais laços depois que chegou ao poder. Ou, pelo menos, a parte mais importante do partido [o fez].

"Já em 2005, a Folha informava que o PT vetara a participação do grupo colombiano na reunião que marcaria o 15º aniversário do Foro, realizado em São Paulo -- e com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Eis o que dizia então a
Folha: 'A tentativa frustrada [de participação no encontro de São Paulo] está registrada em e-mail atribuído a Raúl Reyes, obtido pela Folha, e foi confirmada pelo advogado colombiano Pietro Lora Alarcón. Professor da PUC-SP, Lora disse que foi procurado pelo padre Olivério Medina, então embaixador das Farc no Brasil. Porém, o pedido de Medina foi rejeitado pela secretaria executiva do Foro, que era dominada pelo PT'.

"Dois anos depois do veto, as Farc voltaram a ser marginalizadas no encontro realizado em San Salvador.

"Declararam à época: 'Cremos ser oportuno manifestar nossa inquietação e desagrado pela posição de alguns companheiros que, em forma e sob responsabilidade pessoal, publicamente dizem que as Farc não podem participar no Foro, por ser uma organização alçada em armas'.

"Quando o Foro de São Paulo foi criado, em 1990, só um dos partidos nele representados estava no poder [o Partido Comunista Cubano]. No encontro de San Salvador, já eram oito os países governados por partidos do Foro: além de Cuba, Venezuela, Bolívia, Nicarágua, Equador, Brasil, Uruguai e Argentina.

"Ou seja, em vez de o poder abrir portas para um sócio como as Farc, elas se fecharam".
Resumo da opereta: para o bem ou para o mal (cada leitor terá uma opinião a este respeito, mas não devemos dispersar o foco da discussão), o PT se distanciou das Farc, exatamente quando elas passaram a ter sua imagem insistentemente associada ao narcotráfico.

Então, utilizá-las como espantalho eleitoral contra a candidata petista é uma falácia, na linha das invencionices manipulatórias dos sites e correntes virtuais de extrema-direita.

Que um despreparado figurante, alçado subitamente a protagonista em plena campanha presidencial, recorra a essas práticas goebbelianas (martelar mentiras para ver se passam por verdades), dá até para compreendermos. Mas não aceitarmos, evidentemente.

O caso muda de figura quando é um Serra, com meio século de trajetória política nas costas, a utilizar tal expediente -- ele que, em tempos idos, já foi acusado de receber
ouro de Moscou para prestar serviço à conspiração comunista internacional.

Volta contra os adversários de hoje as práticas torpes que os inimigos de ontem utilizavam contra si.

Até onde estará disposto a ir, na sua marcha acelerada para a direita?

Se perder, vai apoiar uma virada de mesa, como a que o levou ao exílio?

É
assim que quer ser lembrado pelos pósteros?!

São perguntas que o Serra deveria formular a si mesmo, com a mão na consciência... se é que ainda a possui.

terça-feira, 20 de julho de 2010

SERRA ADOTA DISCURSO DA DIREITA MAIS RETRÓGRADA E GOLPISTA

O professor Olavo
de Carvalho tem um
novo discípulo...
Os dois jornalões paulistas, inimigos históricos hoje irmanados nas cruzadas reacionárias, manchetearam, eufóricos, a reação do presidenciável José Serra à reprovação, por parte dos analistas políticos e de cidadãos equilibrados de vários partidos, das declarações destrambelhadas e abestalhadas do seu vice Índio da Costa contra Dilma Rousseff e o PT.
O Estado de S.Paulo: ''Todo mundo sabe que o PT é ligado às Farc', diz Serra"

Folha de S.Paulo: "Serra sai em apoio ao vice e aponta ligação de PT e Farc"

Eias o que declarou Serra em Belo Horizonte:

"A ligação do PT é com as Farc. Isso todo mundo sabe, tem muitas reportagens, tem muita coisa. Apenas isso. Agora, as Farc são uma força ligada ao narcotráfico, isso não significa que o PT faça o narcotráfico".
O próprio Índio da Costa, devidamente adestrado pelos caras pálidas, também recuou da acusação que nenhum demotucano pode provar, refugiando-se no abrigo seguro das insinuações:

"PT não faz narcotráfico. As Farc, sim".
Interessante o Serra repetir o todo mundo sabe da frase indefensável do seu vice que deflagrou esta polêmica ("Todo mundo sabe que o PT é ligado às Farc, ao narcotráfico, ao que há de pior").

Todo mundo sabe, p. ex., que ele é um ex-presidente da UNE e teve de fugir do Brasil para não ser encarcerado pela ditadura militar.

Todo mundo sabe, também, que ele deveu sua liberdade e talvez sua vida às gestões solidárias de companheiros de vários países, quando prisioneiro de Pinochet.

E daí? Hoje o Serra coloca a tropa de choque da PM no campus da USP e nega solidariedade a Cesare Battisti.

Então, a insistência do antigo Zorro e do certamente Tonto num tema tão ao gosto do alarmista/fantasista Olavo de Carvalho e dos sites neointegralistas faz temer o pior.

Esta campanha presidencial começa a assumir os contornos de uma briga de foice no escuro, com tentativas desesperadas das aves de mau agouro e dos sempre demoníacos, no sentido de gerarem, artificialmente, um clima similar ao de 1964.

Com a única diferença de que as fileiras obscurantistas foram quantitativamente reforçadas pela adesão de José Serra.

Mas, para quem dá mais valor à qualidade e à integridade, não houve prejuízo nenhum.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

LULA ESVAZIA JOGADA DE CHÁVEZ NA UNASUL

"O Foro de São Paulo, com a aprovação risonha do nosso partido governante, reivindica o poder ditatorial sobre todo o continente." (Olavo de Carvalho)

"Olavo de Carvalho, misto de (péssimo) jornalista, (eficiente) propagandista e (pretenso) filósofo, descreve o Foro de São Paulo de forma tão delirante que parece Ian Fleming introduzindo a Spectre numa novela de James Bond." (Celso Lungaretti)

“Fique pois o leitor sabendo que os partidos de Lula, Kirschner, Chávez, Morales e tutti quanti não governam nada ou então não pertencem ao Foro de São Paulo, embora eles próprios digam o contrário em ambos os casos.” (OC)

"Quem crê ou tenta fazer os outros crerem que o populismo autoritário de Chávez determinará o destino de grandes nações como o Brasil e a Argentina, já foi além até das fantasias de 007. Isso está mais para O Rato Que Ruge, aquela ótima comédia com Peter Sellers." (CL)

Estas afirmações foram parte da longa polêmica que eu e Olavo de Carvalho travamos em setembro/novembro de 2007, cuja íntegra pode ser acessada aqui.

O estopim foi exatamente o alarmismo de OC ao apresentar o Foro de São Paulo como uma conspiração sinista para a implantação de uma constelação de ditaduras esquerdistas na América Latina, seguindo o figurino de Chávez.

Levei na galhofa e OC veio babando para cima de mim. Só que o contragolpe lhe tirou toda a vontade de lutar: arrastou-se no ringue por mais dois assaltos e saiu de fininho...

Desde então, o que se viu? Chávez tentou empurrar o Equador a uma guerra contra a Colômbia no início de 2008, mas Lula liderou a turma do deixa-disso e foi a sua posição que prevaleceu.

Nesta segunda-feira, novamente, Chavez tentou fazer com que a cúpula da União de Nações Sul-Americanas repudiasse o acordo militar Colômbia/EUA, Lula liderou a turma do deixa-disso e foi a sua posição que prevaleceu.

Nos dois casos, a Argentina concordou discretamente com os panos quentes.

Então, fica comprovado que não foi a capacidade de argumentação de cada um de nós que decidiu aquela polêmica, mas sim o fato de meu realismo político fazer muito mais sentido do que as teorias conspiratórias de OC.

As grandes nações continuam se comportando como grandes e as pequenas, como pequenas.

Lula pode discursar contra a violação do território equatoriano no ataque às Farc, a presença militar dos EUA na Colômbia e em nossos mares, o golpe de estado hondurenho, etc., mas, no frigir dos ovos, não apóia nem apoiará soluções armadas que possam resultar num aumento da influência de Chávez no nosso continente.

O cara sabe que, no jogo político que desenvolve, é-lhe mais vantajoso oscilar na órbita de Obama. O resto não passa de retórica, palavras ao vento.

Quanto à Argentina, preferirá ficar num confortável segundo plano enquanto Lula der conta do recado sozinho. Mas, se tiver de intervir, será para reforçar a posição de Lula.

Completando o cerco velado à Venezuela, os EUA, com suas bases e sua frota, emitem um óbvio recado: estão prontinhos para intervir caso, p. ex., Chávez vá às vias de fato contra Uribe.

Não vou entrar aqui em juízo de valores, pois outros já o fazem até demais. Apenas quis mostrar como o tabuleiro está armado.

E quão disparatados são os superestimam fatores ideológicos e subestimam os geopolíticos, ao projetarem as posturas que Brasil e Argentina assumirão.

segunda-feira, 16 de março de 2009

DEFESA DESCARTA FLEXIBILIZAÇÃO DO ESPAÇO AÉREO COM A COLÔMBIA

Assinalo o recebimento, no dia 16/03/2009, da seguinte mensagem de José Ramos, assessor de Comunicação Social do Ministério da Defesa, referente a meu artigo Jobim articula nova Operação Condor:

"Caro jornalista, gostaria de alertar para um erro de interpretação em sua coluna. Brasil e Colômbia discutem troca de informações sobre faixa de fronteira de até 50 km, não flexibilização de espaço aéreo. As informações serão obtidas por radares e outros sistemas eletrônicos. Com isso, um avião suspeito proveniente de um país, já poderá ser visualizado no radar pela autoridade do outro país antes de cruzar a sua fronteira".

Esclareço que não houve nenhum erro de interpretação da minha coluna, pois reproduzi fielmente a notícia "Jobim e Santos avaliam pacto contra as Farc" ( http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1203200914.htm ), publicada na edição de 12/03/2009 da Folha de S. Paulo. Está lá: "Segundo Jobim, uma das medidas em estudo é a flexibilização do espaço aéreo [grifo meu] para que as aeronaves dos dois países possam ultrapassar as fronteiras até 50 quilômetros".

Então, caso a informação seja incorreta, quem deve retificá-la é a Folha de S. Paulo.

Vale ressaltar que, se a medida em estudos for a que o assessor José Ramos comunica, não há o que temermos: trata-se de procedimento aceitável.

Já "a flexibilização do espaço aéreo para que as aeronaves dos dois países possam ultrapassar as fronteiras até 50 quilômetros" significaria darmos um cheque em branco para um país (a Colômbia) que desrespeitou a integridade territorial alheia em episódio recente, quando bombardeou um grupo de militantes das Farc em solo equatoriano.

Finalmente, na hipótese de que a medida noticiada pela Folha estivesse mesmo sendo cogitada e tenha havido um recuo do Ministério da Defesa, ótimo: tudo que almejo é contribuir para que sejam evitadas as decisões desastrosas. Já disse em outras situações que jamais fui adepto do "quanto pior, melhor".

quinta-feira, 12 de março de 2009

JOBIM ARTICULA NOVA OPERAÇÃO CONDOR

Quando as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia foram o pivô de uma crise que quase provocou uma guerra entre seu país de origem e o Equador, alinhei-me decididamente com os bombeiros, contra os incendiários: nada, absolutamente nada, justificava que os pobres e os excluídos desses dois países matassem uns aos outros, numa versão século XXI da Guerra dos Farrapos.

Havia correntes de esquerda defendendo incondicionalmente as Farc e açulando a guerra. Foi quando o corajoso companheiro Ivan Seixas e eu lembramos o critério da luta armada brasileira: vida só se troca por vida, não por grana.

Sequestrar diplomatas para salvar companheiros da tortura e da morte nas mãos da repressão era válido como medida extrema; sequestrar 800 pessoas e mantê-las em cativeiro degradante para exercer pressões políticas e arrecadar recursos não, jamais! Métodos de revolucionários nunca podem se confundir com os da Máfia.

Então, ambos apontamos as Farc como uma guerrilha desnorteada, que esquecera a causa e perdera o rumo.

Em vez de solidariedade para prosseguirem atuando como atuavam, precisavam, isto sim, ser convencidas a buscarem a saída do atoleiro em que se colocaram. Sem serem dizimadas, mas também sem continuarem a travar uma guerra perdida, anacrônica e rejeitada tanto pelos colombianos quanto pelo resto do mundo.

Faço esta introdução para deixar bem claro que não se trata de um simpatizante das Farc escrevendo, pois a direita usa e abusa de estereótipos para desqualificar seus críticos.

E é contra um dos queridinhos da direita que me posicionarei neste artigo: o ministro da Defesa Nelson Jobim. Aquele que, no Ministério de Lula, lidera a corrente empenhada em manter intocável a anistia concedida a si próprios pelos torturadores antes da redemocratização do País.

Em reunião que Jobim manteve nesta quarta-feira (11), em Brasília, com o ministro da Defesa colombiano Juan Manoel Santos, começou a ser esboçada "uma espécie de pacto contra as Farc", segundo a Folha de S. Paulo ( http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1203200914.htm ).

O jornal atribui a Jobim a revelação de que "uma das medidas em estudo é a flexibilização do espaço aéreo para que as aeronaves dos dois países possam ultrapassar as fronteiras até 50 quilômetros".

E cita uma declaração literal do próprio Jobim: "As Farc serão, em território brasileiro, recebidas a bala. Há um grande controle da fronteira. Vamos discutir com a Colômbia a questão da visibilidade do espaço aéreo. Cinquenta quilômetros adentro, para ver os aviões e barcos que vêm em direção ao Brasil, e vice-versa".

Como no Caso Battisti, a direita brasileira quer fazer de nosso país uma casa da sogra, contemplando os interesses estrangeiros ao preço de avacalhar nossa soberania.

Não cabe ao Brasil receber as Farc nem ninguém a bala, a menos que venham atirando. Nosso papel é apenas o de não deixá-las entrar ilegalmente em nosso país.

Qualquer atitude além desta implicará tomarmos partido num conflito que não nos diz respeito, assumindo uma posição de ingerência em assuntos internos de outra nação (pouco importando o consentimento ou não dos governantes colombianos).

E é simplesmente inqualificável que um ministro da Defesa brasileiro admita, com tal desfaçatez, a possibilidade de conceder a militares colombianos o direito de invadirem a bel-prazer nosso espaço aéreo -- ainda mais se levarmos em conta que eles não hesitaram em dizimar combatentes da Farc no Equador, ao arrepio de todas as normais internacionais.

A licença para invadir acabará sendo licença para matar, ou seja, uma versão recauchutada da escabrosa Operação Condor. Eu sei. Os leitores sabem. Jobim sabe - e não liga.

Se ele confirmar os termos da entrevista concedida à sucursal de Brasília da Folha, só caberia uma atitude a um governo cioso da soberania nacional: sua exoneração.

Ele está agindo como ativista da direita sul-americana, não como Ministro da Defesa brasileiro. Que vá exercer esse papel fora do Ministério!
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