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quarta-feira, 8 de julho de 2020

HÉLIO SCHWARTSMAN, PERDOA-LHES, PORQUE NÃO SABEM O QUE FAZEM...

O presidente da República cansou de defender e justificar a indiferença diante da morte de um número menor de infectados pelo coronavírus para que viva um número maior de pessoas ameaçadas de serem privadas, pela paradeira da economia, dos recursos necessários à própria sobrevivência e de suas famílias.

Ou seja, a questão era e é colocada por ele como uma mera comparação numérica: se a quarentena (por causar fome, miséria, outras doenças, etc.) vai indiretamente matar mais cidadãos do que a pandemia diretamente, então que se deixe a agricultura, comércio, indústria e serviços desenvolverem suas atividade à vontade e causarem quantas contaminações causarem. Depois, enterrem-se os mortos e os sobreviventes que sigam adiante.

Isto se chama consequencialismo: jogam-se no lixo a ética, a moral, a compaixão, etc., e se leva em conta apenas as resultantes objetivas dos atitudes (ou seja, o valor moral de um ato é determinado exclusivamente por suas consequências). 

No caso do consequencialismo tosco do Bolsonaro, podemos presumir que, se ele tiver de optar pela morte tranquila, durante o sono, de 101 pessoas ou a morte horrível, sob lancinantes torturas, de 100 pobres coitados,  salvará uma pessoa a mais e condenará uma centena a suplícios inenarráveis...
Hélio Schwartsman fez um artigo demonstrando a monstruosidade implícita nesse posicionamento de Jair Bolsonaro de uma forma inusitada: provou que, se ele morrer de Covid-19, o ganho quantitativo de vidas será imenso, já que seu negacionismo, disseminando a confusão e servindo como exemplo que cidadãos ignorantes e influenciáveis imitam, é causa de óbitos por atacado.

Então, com uma fina ironia pela qual os tacanhos e os simplórios passam batidos, ele escreveu que estava torcendo pela morte do presidente.

E os tacanhos e os simplórios reagiram: o ministro das Comunicações, como se estivéssemos mergulhados nas trevas da Santa Inquisição, tomou o paradoxo argumentativo ao pé da letra e zurrou que torcer pela morte do presidente é um ataque à instituição presidencial (!). Será que eu ainda posso escrever que torço contra o time do presidente (que em São Paulo é o Palmeiras) sem ser investigado pela PF? 

Ato contínuo, o ministro da Justiça zurrou à Polícia Federal que investigue... nada, pois nada existe para ser investigado. O crime, se crime fosse, corporifica-se no próprio texto. Interrogar o autor para que ele declare o que pretendia com tal artigo seria digno das velhas chanchadas da Atlântida.

O que o ministro André Mendonça tem realmente de fazer é: 
— ou reconhecer que viajou na maionese e que o artigo em questão não fere lei nenhuma, nem mesmo a ditatorial Lei de Segurança Nacional do regime militar, cujo demoníaco nome está sendo invocado em vão;  
— ou processar Schwartsman, passando recibo de que não entende bulhufas nem da nossa Constituição nem de qual seja a sua função numa democracia e voluntariando-se para receber uma completa aula do STF a respeito.

Até quando, oh Catilinas, vocês continuarão abusando da nossa paciência?! (por Celso Lungaretti) 

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA: GOLDFINGER PALOCCI E BRANCALEONE MOURÃO.

A nova edição da revista (?) veja traz uma matéria-de-capa que me fez lembrar a velha frase do folclore futebolístico, atribuída ao técnico Otto Glória: "Quando ganho, chamam-me de bestial; quando perco, dizem que sou uma besta".

Pois é, Antonio Goldfinger Palocci estaria prometendo ao Ministério Público que, se este lhe conceder os privilégios de delator premiado, sustentará que o ex-ditador líbio Muammar Gaddafi forneceu ao PT US$ 1 milhão para financiar a campanha presidencial de Lula em 2002.

Não há por que descrermos da intenção de Palocci: já fez tudo que podia para queimar o filme de Lula no que se refere às ligações perigosas com a Odebrecht. Por que não se dispor a uma alcaguetagem mais bombástica ainda, em troca de que finalmente lhe abram a porta da gaiola?

Noves fora, se Palocci conseguir uma mísera prova consistente de que tal doação existiu mesmo (*), estará criado um fato político bestial, que pode justificar inclusive a cassação do registro do PT.

Se ficar tudo no blablablá, Palocci sairá do episódio mais desgastado ainda, seja por ter desempenhado o papel de uma besta quadrada, seja por haver tentado fazer todos nós de bestas.

*  *  *
Até quando, oh general Antonio Hamilton Mourão, abusarás da nossa paciência? Nem Catilina, apesar da exasperação que causava em Cícero, conseguia encher tanto o saco dos seus contemporâneos...

Às vésperas de trocar a farda pelo pijama, o que fará no próximo dia 31 de março (escolheu a data a dedo!), o Mourão da vez novamente se deu a incontinências verbais que configuram clara insubmissão contra o presidente da República, que é também o comandante supremo das Forças Armadas; e emitiu opiniões inadmissíveis para qualquer militar na ativa.
O pregador de uma nova temporada de atrocidades...

Se nem agora Mourão for punido pelos seus superiores, é melhor mudarem o nome do glorioso Exército Nacional para Casa da Mãe Joana Armada.

Sobre Temer, o incrível general Brancaleone disse:
"Nosso atual presidente vai aos trancos e barrancos, buscando se equilibrar, e, mediante o balcão de negócios, chegar ao final de seu mandato".
E disparou também contra Lula, afirmando que, como "sobrevivente ao mensalão, ele achou que podia tudo"; como consequência, "as comportas foram abertas do lado da incompetência, da má gestão e da corrupção".

Além, é claro, de novamente rasgar seda para a ditadura de 1964/85, pregando uma nova quartelada.
...e quem o convidou para a hora da saudade das trevas

De resto, para que não restasse nenhuma dúvida a respeito das abominações que defende, ele deitou sua falação no Clube do Exército, em Brasília, ao qual compareceu como convidado... das viúvas e remanescentes da ditadura agrupados no movimento  Terrorismo Nunca Mais!!! Em comparação com os fanáticos ultra-direitistas do Ternuma, até Átila, Vlad Dracul e Gengis Khan eram cavalheiros sofisticados e comedidos...

São dois perdidos numa noite suja. Um que se desgarrou de sua turma, entrou em parafuso moral e chafurda na mais absoluta abjeção; e o outro que se desgarrou do seu tempo na vã tentativa de fazer as rodas da História girarem para trás, pois seu ambiente mental é o de um passado medonho e repulsivo que hoje só tem lugar na lixeira da História.

* Vale acrescentar uma informação posterior: o Élio Gaspari, em sua coluna de 10/12/2017, lembrou um agradecimento de Lula a Gaddafi, em dezembro de 2003, durante visita a Trípoli: "Hoje, como presidente da República do Brasil, jamais esqueci os amigos que eram meus amigos quando eu ainda não era presidente da República".


quarta-feira, 28 de junho de 2017

ATÉ QUANDO, JANOT, ABUSARÁS DA NOSSA PACIÊNCIA?!

Quando o procurador-geral Rodrigo Janot, de braços dados com as Organizações Globo e contando com o aval do ministro do STF Edson Fachin para passar como um trator por cima da Constituição Federal, desencadeou uma guerra relâmpago para forçar a renúncia do presidente da República ou tanger a Justiça Eleitoral a condenar a chapa Dilma-Temer, estranhei a afoiteza com que foi lançada tal blitzkrieg: por que tanta correria, a ponto de ele ter aceitado sem restrição nenhuma, como prova válida, uma gravação ilegal, imperfeita e inconclusiva, negligenciando até a lição de casa de submetê-la à imprescindível perícia?! Não me caiu, de imediato, a ficha de que o fim do mandato de Janot estava tão próximo.

A tramoia fracassou, depois de virar o País de pernas pro ar; afetar profundamente os mercados, beneficiando a uns e prejudicando a outros (principalmente aqueles que não dispunham de informações privilegiadas e deixaram de se proteger adequadamente); comprometer a tênue recuperação econômica para o qual a economia brasileira marchava, de fôlego curto, claro, mas que daria um pequeno alívio aos coitadezas que arrancam os cabelos sob os rigores da recessão desde 2015; lançar sérias dúvidas sobre a lisura da Operação Lava-Jato, fornecendo o melhor trunfo que até agora caiu nas mãos dos políticos encalacrados, etc. O estrago foi enorme.

Qualquer cidadão com um mínimo de simancol cessaria imediatamente as hostilidades e tentaria passar tão despercebido quanto possível até setembro (quando Janot finalmente entregará o cargo). Mas, não ele! Obcecado em ter uma cabeça presidencial para levar como troféu quando esvaziar as gavetas, ele decidiu manter uma inútil guerrilha contra Temer, fazendo o Brasil inteiro refém de suas pirraças. 
Rodrigo Janot curtiu

Não importa que suas novas tentativas sejam cada vez mais capengas em termos legais; que sua decisão de apresentar duas ou três denúncias separadas se evidencie flagrantemente como uma tática de guerra psicológica e não uma iniciativa juridicamente justificável; nem dá a mínima para o fato de que um processo de impeachment, mesmo que os deputados federais aprovassem sua abertura (o que até as pedras das ruas sabem que não farão), levaria à substituição provisória de Temer pelo presidente da Câmara e depois à eleição pela via indireta de um presidente que governaria no máximo três trimestres, ou seja, muito barulho por (quase) nada.

Conforme notou o bom repórter Rubens Valente, da sucursal da Folha de S. Paulo, a primeira das denúncias-bomba apresentadas por Janot é recheada com vento: tenta envolver Temer no recebimento de R$ 500 mil por parte de seu antigo assessor Rodrigo Loures, mas não consegue provar em lugar nenhum que a grana da JBS foi parar no bolso do presidente. Ilações e conjeturas não bastam para o monumental passo que Janot quer dar, mas ele parece estar tão premido pelo calendário e transtornado com os fracassos que agora partiu para o vale tudo.

Antes mesmo de qualquer advogado, Valente já desconstruiu a denúncia do Janot:
"Ao restringir a denúncia de corrupção passiva contra Michel Temer ao recebimento de R$ 500 mil pelo ex-assessor Rodrigo Loures, a Procuradoria-Geral da República deixou exposta a maior fragilidade da investigação: a dificuldade de comprovar que o presidente foi o beneficiário final ou que solicitou o dinheiro... 
...A investigação foi curta, durou apenas dois meses. É comum grandes investigações da PF durarem até mesmo anos antes de uma denúncia.
Uma das consequências da pressa em concluir o caso (...) é a ausência, na denúncia, de laudos bancários ou tributários para comprovar conexões financeiras entre Loures e Temer. O caminho do dinheiro não foi desenhado na denúncia.
 ...a PGR não conseguiu demonstrar, nas 60 páginas da acusação, como seria a suposta operação monetária que beneficiaria Temer depois da chegada da mala a Loures. (...) Não há indício de relação financeira entre os dois...
As mais de 2.000 conversas telefônicas interceptadas com ordem judicial e a conversa gravada pelo empresário da JBS Joesley Batista com Temer em 7 de março não trazem a informação objetiva de que o presidente pediu os R$ 500 mil, mesmo que 'por intermédio' de Loures".
Até quando, Janot, abusarás da nossa paciência?!
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