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sábado, 8 de dezembro de 2018

IMBRÓGLIO NO VOO DO LEWANDOWSKI TERÁ SIDO UM ATO DE 'GUERRILHA DA INFORMAÇÃO' BOLSONARISTA?

demétrio magnoli
A HORA DOS ALUNOS
As savanas, como o nosso cerrado, são ambientes sujeitos à combustão espontânea —mas a maior parte das queimadas naturais nascem de um foco de fogo humano, que pode ser um fósforo aceso ou a bituca de um cigarro.

Na política, quase nada é espontâneo. A ofensa lançada pelo advogado Cristiano de Acioli ao ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski no espaço restrito de uma aeronave não foi um gesto impulsivo de indignação, mas um ato inscrito numa estratégia política.

No episódio, de fortuito existiu apenas o encontro com o ministro num voo de carreira.

Um passageiro abordou o ministro do STF durante voo e disse que "o Supremo é uma vergonha"

Não fosse aquele dia, seria outro. Não fosse Acioli, seria outro. A frase ofensiva circula há tempo, como mantra, nos blogues e redes sociais bolsonaristas. No dia seguinte ao episódio, ressurgiu como projeção de luz na fachada do edifício do STF, por obra do MBL.

Acioli agiu como militante, ativando previamente seu celular para registrar a cena, a fim de difundi-la nos territórios da guerrilha da informação.

Para livrar-se de acusações legais, o militante bolsonarista alega que seu alvo era a corte suprema, não a pessoa de Lewandowski. Mas —com o perdão de Derrida— o texto nada significa sem o contexto.
O bolsonarista Acioli amiúde posta críticas ao STF nas redes

vergonha de ser brasileiro de Acioli relaciona-se aos votos e opiniões de Lewandowski, de Gilmar Mendes e de Toffoli, não aos de outros integrantes do STF. O problema dele —um advogado!— é a existência do habeas corpus e, de modo geral, do devido processo legal.

O governo Bolsonaro é, sob certo sentido, o fruto maduro da era do lulismo. Da militância petista, os bolsonaristas aprenderam a demonizar a opinião divergente e a exibir seus adversários como inimigos do povo.

A prolongada pedagogia do PT os ensinou a constranger publicamente os desviantes, para depois difamá-los no conforto anônimo das redes sociais. 

O lulismo tinha seus blogueiros de estimação; o bolsonarismo já os tem. Nas artes da guerrilha da informação, os alunos já ultrapassaram seus mestres.

O PT inspirou-se na tradição do castrismo para promover atos de repúdio. O bolsonarismo reativa a prática, talvez sem conhecer sua origem.

Acioli, muito esperto, não gravou tudo. Depois da provocação registrada, ele conclamou os passageiros a vaiarem Lewandowski. 
"difamar os desviantes no conforto anônimo das redes sociais"
O indignado Acioli é um farsante —tanto quanto os indignados petistas que injuriaram a blogueira cubana Yoani Sánchez em 2013 ou os que vandalizaram a mesa de debate na qual eu estava, numa festa literária na Bahia, no mesmo 2013.

Na Cuba castrista, o ato de repúdio contra dissidentes é uma rotina semioficial, patrocinada pelos Comitês de Defesa da Revolução, ou seja, pelo partido único.

Por aqui, é um evento político que precisa ocultar sua natureza. Sem o amparo formal do Estado, a militância envolvida invoca o princípio da liberdade de expressão. 

Foi sob esse pretexto que uma matilha de delegados ao congresso do PT afogou em insultos a jornalista Miriam Leitão, casualmente também durante um voo de carreira. Acioli, o bolsonarista, é um petista tardio.

No Brasil, é livre a crítica ao STF, como a qualquer de seus juízes. Acioli tem o direito de escrever que a corte é uma vergonha ou que os votos de Lewandowski o envergonham. Ninguém lhe negará a prerrogativa de falar isso tudo em espaços apropriados de debate.
"o bolsonarismo nutre-se da intolerância raivosa"

Mas, como os demais, a liberdade de expressão é um direito relativo, que convive com outros. Acioli sequestra a palavra liberdade quando a utiliza para fantasiar a ofensa, o constrangimento público e a violação da privacidade.

O bolsonarismo nutre-se da intolerância raivosa, tanto quanto antes nutriu-se o lulismo. A agressão a Lewandowski parece singular, até admissível, pois se trata de uma autoridade.

As aparências enganam: hoje é ele; ontem fomos eu, Yoani e Miriam Leitão; amanhã é você. Os alunos imitam seus mestres —e os superam. (por Demétrio Magnoli)

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

SUPLICY E OS LILIPUTIANOS

Nos bons tempos, com Lula e o saudoso Plínio.
O companheiro Eduardo Suplicy foi hostilizado por intolerantes chiques numa livraria chique da avenida Paulista. Sou, claro, totalmente solidário a ele.

Quando perdeu a cadeira no Senado para o neo-ultradireitista José Serra, elogiei Suplicy por "haver exercido durante todo esse tempo o papel de principal defensor dos direitos humanos no Senado, participando de cruzadas importantíssimas como a travada contra a extradição de Cesare Battisti, em favor da apuração rigorosa dos crimes cometidos pela PM durante a bestial invasão do Pinheirinho, contra as perseguições fascistoides aos manifestantes de rua a partir de junho de 2013, etc.". 

Mas, fiz uma ressalva que, de certa forma, foi premonitória, antecipando a saia justa deste domingo:
"Tendo pisado feio na bola ao permanecer num partido cada vez mais distanciado das bandeiras que o haviam empolgado no passado e sendo, por natureza, um homem afável, não confrontou certas abominações com a contundência cabível. 
Seu grande momento nos últimos anos: a luta por Battisti.
Ainda assim, com sua fala mansa, teve a coragem de divergir da tacanha linha justa em episódios como o dos pugilistas cubanos (despachados pelo governo brasileiro da forma mais sumária e arbitrária) e da blogueira Yoani Sánchez (a quem as autoridades daquele país tentavam impedir de viajar para cá, onde tinha um prêmio a receber). 
Afora haver tido, em 2009, a vergonha na cara de exigir a renúncia por corrupção do então presidente do Senado José Sarney, a quem, deploravelmente, Lula acabaria atirando uma boia quando estava prestes a submergir".
Parece não ter sido suficiente. E os que o agrediram verbalmente, decerto ignoram que Suplicy também tem sérios motivos de indignação contra o atual núcleo dirigente, pelo qual foi ostensivamente abandonado na última campanha eleitoral. Dilma e seu grupo o atiraram às feras, porque, com sua inquestionável integridade, era o espelho que revelava o quanto eles haviam se tornado Calibãs.

Pena que as mágoas tenham levado Suplicy a municipalizar-se, deixando de desenvolver a atuação nacional  à qual um homem de sua envergadura política e moral não deveria furtar-se num momento tão crítico da vida brasileira.  

Se o fizesse, talvez não o confundissem com os liliputianos, como o fizeram ontem. Embora relutante em usar sua força, Suplicy ainda é um Gulliver, um dos últimos sobreviventes políticos e morais de uma geração inesquecível. Merece respeito! 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

COM AMIGOS COMO ESSES, O LULA NÃO PRECISA DE INIMIGOS.

Os blogueiros que se intitulam progressistas parecem acreditar que intolerância, prepotência e ranzinzice sejam sinônimos de evolução. 

No meu entender, caracterizam, isto sim, retrocesso. Lembram a Idade Média, quando qualquer ofensa a vultos religiosos poderia levar o coitado às masmorras da Inquisição.

Sou da geração 68 e me esbaldei com O Pasquim. Como era hilário ver os reaças expostos ao opróbrio no cemitério dos mortos-vivos do cabôco mamadô! O Henfil lavava a nossa alma...

Eis que a direita começa a civilizar-se e, ao invés de criar novos CCC's para vandalizar teatros e espancar atores, agora recorre ao humor: produziu um boneco inflável do Lula com uniforme de presidiário, que caiu nas graças de muita gente. Acontece.

A reação mais inteligente seria levar na esportiva e pagar na mesma moeda. Mas, a esquerda casmurra preferiu passar recibo de que ficou melindrada com a gozação. Quanto primarismo!

Como diziam os antigos, quem sai na chuva é para se molhar. Se os petistas agiam da mesmíssima maneira com o FHC, por que se ofendem tanto agora? O Lula virou santo? É sacrilégio fazer piada com ele? Que cabecinha pequena tem essa gente!

Piores ainda são os ferrabrases  que já furaram uma vez o tal do pixuleco e prometem reincidir. Aí a coisa descamba para a selvageria das turbas organizadas de futebol.

E, claro, tal truculência transforma uma besteirinha que passaria despercebida em assunto de repercussão nacional, fazendo o jogo da direita, que quer mais é ver todo mundo falando sobre o boneco. Assim, o cidadão comum aos poucos se acostumará à ideia de que o Lula pode ser preso na sequência da Operação Lava-Jato.

Foram lambaças semelhantes que centuplicaram a repercussão da turnê brasileira da blogueira Yoani Sánchez. Os especialistas em tiro no pé não aprenderam nem esqueceram nada desde então.

Com amigos como esses, o Lula não precisa de inimigos.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

SUPLICY: UM GULLIVER EM MEIO AOS LILIPUTIANOS POLÍTICOS E MORAIS.

O companheiro Eduardo Suplicy fez um balanço dos seus três mandatos sucessivos como senador por São Paulo (totalizando 24 anos), que pode ser acessado aqui

Infelizmente, magnificou as miudezas da política oficial, que servem como trunfos na caça aos votos mas não cheiram nem fedem numa perspectiva histórica, enquanto condensou o que havia de realmente significativo na sua trajetória num sucinto e insuficiente parágrafo. Este:
"Em todo o meu mandato, procurei sempre estar presente nos mais diferentes lugares para atender a chamados quando direitos humanos foram feridos. Foram milhares de cartas de cidadãos com relatos dos mais diversos problemas, que enviei às autoridades para que pudessem resolvê-los".
Numa avaliação criteriosa,  os verdadeiros diferenciais de sua atuação como senador foram dois:
  • ter sido folclórico no bom sentido (com suas cantorias desafinadas e seus happenings hilários), num meio em que quase todos se fingem de sérios e se levam a sério, mas não passam de canastrões sinistros;
  • haver exercido durante todo esse tempo o papel de principal defensor dos direitos humanos no Senado, participando de cruzadas importantíssimas como a travada contra a extradição de Cesare Battisti, em favor da apuração rigorosa dos crimes cometidos pela PM durante a bestial invasão do Pinheirinho, contra as perseguições fascistoides aos manifestantes de rua a partir de junho de 2013, etc. 
Tendo pisado feio na bola ao permanecer num partido cada vez mais distanciado das bandeiras que o haviam empolgado no passado e sendo, por natureza, um homem afável, não confrontou certas abominações com a contundência cabível. 

Ainda assim, com sua fala mansa, teve a coragem de divergir da tacanha linha justa em episódios como o dos pugilistas cubanos (despachados pelo governo brasileiro da forma mais sumária e arbitrária) e da blogueira Yoani Sánchez (a quem as autoridades daquele país tentavam impedir de viajar para cá, onde tinha um prêmio a receber).

Afora haver tido, em 2009, a vergonha na cara de exigir a renúncia por corrupção do então presidente do Senado José Sarney, a quem, deploravelmente, Lula acabaria atirando uma boia quando estava prestes a submergir.

No meio de tantos liliputianos políticos e morais, Suplicy foi um Gulliver. Fará falta.

No entanto, deveria dar mais valor a si próprio. Por que festejar, logo no primeiro parágrafo de sua mensagem de despedida, o fato de que a presidenta Dilma Rousseff se dispôs a recebê-lo nos próximos dias? A audiência que Dilma lhe ficou devendo é bem outra, uma para convidá-lo a ser uma exceção à mediocridade do seu ministério. 

Isto para não lembrar a gritante omissão dos principais dirigentes do PT, Dilma inclusive, quando ele tentava mais uma reeleição.

Trocando em miúdos, a estrofe mais apropriada para o Suplicy cantar, sobre suas relações com os grãos petistas, seria esta do Chico Buarque: "Eu bato o portão sem fazer alarde/ Eu levo a carteira de identidade/ Uma saideira, muita saudade/ E a leve impressão de que já vou tarde".

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

BLOGUEIRA: BADERNAÇO ERA TUDO DE QUE O PIG PRECISAVA

O badernaço promovido logo no início da programação brasileira da blogueira Yoani Sánchez era tudo de que o PIG precisava para colocá-la em evidência.

Se os militantes truculentos não fizessem o jogo dos inimigos, a visita se resumiria à blogueira repetindo pela enésima vez aquilo que escreve no blogue, ou seja, mais do mesmo. 

Agora, é assunto para editoriais dos principais veículos da mídia golpista, como os jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. É capaz de a Veja dar até matéria de capa...

Quem é burro, pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue.

Em tempo: se queremos a liberdade de expressão e o direito de ir e vir para nós, não podemos concordar com que eles sejam violados no caso daqueles de quem não gostamos. É simples assim.

Os governantes cubanos criaram um monstro ao agirem autoritariamente contra a blogueira, tornando-a vítima. Se tivessem o bom senso de ignorar o blogue, sua repercussão não só continuaria sendo mínima em Cuba, como a tal Yoani não teria alcançado notoriedade mundial.

Os ativistas daqui --manifestantes e internautas que desperdiçam tempo e esforços fazendo campanha contra ela-- repetem o mesmíssimo erro. Não esqueceram nem aprenderam nada. São um desastre em comunicação.

POST SCRIPTUM: TIRO PELA CULATRA 

Em sua coluna desta 6ª feira (22/02), a Eliana Cantanhêde, da Folha de S. Paulo, constata exatamente a bola que eu cantei, ou seja, que a iniciativa cubana de municiar manifestantes brasileiros com um dossiê e incentivar atos de repúdio à blogueira, acabaria redundando num tiro pela culatra. 
Eis a avaliação da Eliana: "Cubanos não entendem patavinas de jornalismo e, ao organizar uma recepção com insultos e grosserias, deram outra dimensão à viagem da 'perigosa' Yoani... Em vez de algumas linhas na chegada, ela foi alçada durante dias às primeiras páginas e à TV. Em vez de lançar um livro e divulgar um documentário no aconchego do interior da Bahia, ela fez isso dentro do Congresso Nacional. Virou uma estrela".
Outra atualização, esta de sábado (23/02): a Veja deu mesmo matéria de capa. E os tucanos também tiraram sua casquinha. Quem precisa pagar um novo cabo Anselmo, se a turba ululante, gratuitamente, levanta a bola para a direita marcar pontos e mais pontos?

segunda-feira, 26 de março de 2012

CUBA ENVERGONHA A REVOLUÇÃO. O PAPA ENVERGONHARÁ O CATOLICISMO?

Eram estes que faziam o que bem
entendiam sem dar satisfações a ninguém
Cuba, lamentavelmente, repete práticas vetustas, obtusas e autoritárias como a de prender cidadãos que poderiam criar embaraços para o regime durante a visita do Papa.

Isso os antigos faziam com prostitutas e marginais.

E ditaduras costumam fazer com seus descontentes.

É cansativo e tedioso ser obrigado a repetir o óbvio, mas adultos jamais podem ser tutelados: se cometem crimes, que sejam indiciados; se não cometeram crime, estado nenhum tem o direito de privá-los  preventivamente  da liberdade ou de restringir seus direitos civis.

Os dirigentes cubanos envergonham a revolução ao impedirem a saída do país da blogueira Yoani Sánchez sem acusá-la formalmente de coisa nenhuma e ao deterem 150 pessoas apenas porque, presumivelmente, encabeçariam protestos ou deles participariam durante a estada de Bento 16.

Nós, revolucionários, existimos para conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização, não para restaurar o absolutismo.

Finalmente: Bento 16 envergonhará os católicos do mundo inteiro caso não exija a imediata libertação de quem não deveria ter sido preso.

Se fosse um papa de fibra, nem sequer desembarcaria na ilha enquanto alguém estivesse detido em função de sua visita.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

OS LOUCOS ASSUMIRAM A DIREÇÃO DO HOSPÍCIO

A Veja obteve (por que será?) o privilégio, concedido a poucos veículos do mundo inteiro, de fazer uma reportagem em Guantánamo, a prisão de estilo nazista que os EUA mantêm arrogantemente em Cuba, a despeito da promessa de Barack Obama de desativar tal monstruosidade.

A ilha caribenha é onde os estadunidenses costumam fazer, na moita, o que pegaria mal fazerem em casa.

Antes da revolução, a jogatina e as orgias dos ricaços.

Depois, os atentados contra um país livre e seus líderes, cujo ponto culminante foi a frustrada invasão da baía dos Porcos, em 1961.

Finalmente, as torturas a que submete cidadãos de outras nações, sequestrados alhures sob suspeita de terrorismo.

E, mais uma aberração (que até a Veja foi obrigada a reconhecer): os julgamentos farsescos, inquisitoriais, de cidadãos que deveriam ser considerados prisioneiros de guerra.

Os EUA os capturam como tais, mas, depois, não os julgam como tais. Chegam ao cúmulo de, mesmo que seu tribunal de exceção seja obrigado a declará-los inocentes --por pesarem conta eles unicamente as confissões arrancadas nas torturas, inaceitáveis em termos legais--, AINDA ASSIM NÃO OS LIBERTAREM!!!

Imaginem a cena, um juiz encerrando desta forma o julgamento:
"Declaro o réu inocente. Reconduzam-no à cela!"
Infelizmente, Cuba abdica da superioridade moral que colocaria cada homem justo do planeta ao lado de suas exigências de fim do embargo econômico e desativação de Guantánamo, ao agir de forma também indefensável e inaceitável.

A blogueira cubana Yoani Sánchez teve negado pela 19ª vez seu pedido de vista de saída, agora para participar de um evento cultural no Brasil.

Não é acusada de nada. Não está sendo submetida a processo nenhum. Mesmo assim, não lhe permitem ir para onde quiser e voltar quando quiser. Está confinada em seu país, como se fosse súdita de um reizinho nos tempos longínquos do absolutismo.

E ainda debocham, como fez a funcionária que lhe transmitiu a decisão absurda: "Tente quantas vezes você quiser".

Então, ao serem criticados pelo arremedo de justiça que encenam em Guantánamo, os estadunidenses poderão sempre responder: "É uma prática característica de Cuba".

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

CUBA NUMA SINUCA DE BICO: ITAMARATY AUTORIZA ENTRADA DA BLOGUEIRA

Para sair de uma sinuca dessas, só o
  lendário  Carne Frita (ver vídeo abaixo)...
Como eu venho dizendo desde o primeiro momento, fez-se uma tempestade em copo d'água acerca da viagem da blogueira Yoani Sánchez ao Brasil. Se as autoridades cubanas houvessem tido o bom senso de não atrapalharem um mero evento cultural (a estréia do documentário Conexão Cuba-Honduras, no próximo dia 10), seria apenas e tão somente uma noticia de pequena relevância, como tantas outras.

No entanto, negaram a Yoani Sánchez autorização para sair do país, esta apelou à presidente Dilma Rousseff, o senador Eduardo Suplicy acionou a Comissão de Relações Exteriores e o caso acabou assumindo proporções que não deveria nem precisava ter.

Agora o Itamaraty acaba de anunciar a concessão do visto de entrada a Yoani.

O ônus da intransigência foi esta sinuca de bico na qual Cuba se colocou: ou cede e dá o braço a torcer, ou não cede e cria um atrito totalmente desnecessário com um governo que lhe tem sido simpático.

Cuba causa muito mais mal a si mesma
do que Yoani seria capaz de lhe causar
Alguns criticarão a decisão da presidente Dilma Rousseff, sem atentarem para o fato de que era pra lá de previsível: depois de repudiar enfaticamente o apedrejamento de Sakineh Ashtiani e prometer que não relativizaria o respeito aos direitos humanos, o que mais ela poderia fazer? Desmoralizar-se na primeira  prova dos nove  a que seu discurso é submetido?

Falharam, isto sim, os diplomatas cubanos, que não souberam passar aos dirigentes do seu país um quadro mais realista do lado brasileiro do  imbroglio, deixando que perseverassem no erro.

O Carlos Lungarzo e eu temos sido atacados por assumirmos posição diferente da dos que se colocam incondicionalmente ao lado dos governos que lhes são simpáticos, mesmo quando estes estão viajando na maionese.

No criticado artigo Minha posição sobre a blogueira cubana (ver aqui), eu tentava justamente evitar que um episódio menor se tornasse um pomo da discórdia entre os dois países. Vale lembrar:
"...eu prefiro que a pressão [para autorizarem a viagem de Yoani] seja de esquerdistas autênticos (sem vezo autoritário) sobre o governo cubano. Não da presidente Dilma, do Senado, nem mesmo de parlamentares bem (Suplicy) ou mal intencionados.

Não é uma questão entre nações, mas sim de visões diferentes sobre como deve ser exercido o poder popular".
Moral da história: nem sempre os capachos, os bajuladores e os fanáticos são os que prestam o melhor serviço a quem tem de posicionar-se em situações delicadas. Foi o que os reis aprenderam da pior maneira possível, às vezes perdendo a coroa e até a cabeça no curso do aprendizado...

 Se você acha que a foto foi só um pretexto para eu
colocar este vídeo do Carne Frita... acertou em cheio!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

ISTO É YOANI SÁNCHEZ

O rumor de que amanhã, sexta-feira, Raúl Castro poderia anunciar uma flexibilização a estas restrições de entrada e saída não me deixa dormir. Em quatro anos meu passaporte se encheu de vistos para outras nações, porém carece de uma só permissão para que eu possa transpor essa insularidade. Dezoito negativas de viagem é demais; parece mais uma vingança pessoal do que o exercício de alguma regulamentação burocrática. 

Tenho minha bagagem preparada desde há muito. A roupa que contém foi amarelando com o tempo, os presentes que levaria para os amigos caducaram ou passaram de moda, as comunicações que iria ler ao vivo em certos eventos perderam a atualidade. Porém a maleta continua me olhando de um canto da casa. 

Quando viajamos? Imagino que suas rodas gastas me interrogam. E só atino em lhe responder que talvez esta sexta-feira num parlamento – sem poder real – alguém decrete a devolução de um direito de que sempre deveria desfrutar.

No caso de que a esperada “reforma migratória” seja anunciada, provarei seus limites no aeroporto, em frente à guarita que tantos temem. Minha maleta e eu estamos prontas. Dispostas a comprovar se o guarda apertará o botão que abre a porta para a sala de espera ou se chamará a segurança para que me tirem do lugar.

(final do post de 22/12/2001, Com a maleta preparada, segundo a tradução publicada no blogue Geração Y . Ela escreve bem. E, pelo menos quanto ao direito de viajar para onde preferir, não há como negar que está coberta de razão. Quem quiser realmente ajudar Cuba, que tente convencer seus governantes a abandonarem estas práticas indefensáveis aos olhos das pessoas civilizadas. Elas dão péssima imagem à revolução.)

domingo, 8 de janeiro de 2012

MINHA POSIÇÃO SOBRE A BLOGUEIRA CUBANA

"Liberdade é sempre, fundamentalmente, a liberdade de quem discorda de nós."

A máxima de Rosa Luxemburgo jamais deve ser esquecida. É a vacina e o antídoto contra o despotismo.

Então, peço aos dirigentes cubanos que reconsiderem sua decisão sobre a blogueira dissidente Yoani Sánchez.

Como ela não está sob prisão domiciliar, tem o direito de viajar ao Brasil e para onde mais quiser, quando quiser.

É totalmente inconcebível e inaceitável que ela haja pedido autorização para deixar Cuba 18 vezes, e nas 18 vezes a tenham negado.

De resto, eu prefiro que a pressão seja de esquerdistas autênticos (sem vezo autoritário) sobre o governo cubano. Não da presidente Dilma, do Senado, nem mesmo de parlamentares bem (Suplicy) ou mal intencionados.

Não é uma questão entre nações, mas sim de visões diferentes sobre como deve ser exercido o poder popular. Então, revolucionários devem se posicionar como revolucionários, não em nome de seus países.

Só em casos extremos --impedir uma execução grotesca e bestial como a de Sakineh Ashtiani, p. ex.-- é que se justifica a intervenção de governos.

Acredito que a justiça social possa coexistir com a liberdade e com o respeito aos direitos humanos. Os que pensam como eu, que enderecem suas mensagens aos governantes cubanos. São eles os destinatários corretos.
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