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quarta-feira, 23 de março de 2022

O POVO BRASILEIRO NÃO TEM REPRESENTAÇÃO CONGRESSUAL LEGÍTIMA – 2

(continuação deste post)
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. a representação política infiel ao povo (mas fiel ao poder poítico-econômico elitista) – como sabemos, o processo eletivo republicano é dominado pelo poder econômico, que se manifesta sob as mais variadas formas. 

A classe média, que corresponde a cerca de 15% da população, se junta à classe alta, que detém outros 5%, formando um conjunto cujo poder de formação de opinião costuma influenciar  a vontade soberana e consciente dos 80% restantes da população, os quais têm interesses diversos dos daqueles que os influenciam, definindo a vitória eleitoral dos seus representantes. 

Neste mister são ajudados pela grande mídia e por disparos robóticos de comunicação via internet. 

Tal distorção eleitoral ocorre, principalmente, nas cidades do interior, que correspondem geralmente à maioria do eleitorado do estado-membro, e que por terem maior dependência econômica local, quase sempre votam em parlamentares e governantes cujos propósitos desconhecem (ou conhecem apenas superficialmente). Depois, tais eleitores não têm como fiscalizar a contento aqueles em quem votaram.. 

O sistema de representação política da democracia burguesa é um cheque em branco passado pelo eleitor a representantes que o manipulam e dificilmente lhe prestam conta. 

É evidente que a maioria das questões decididas nas esferas executivas e legislativas obedecem à lógica do capital, que é avessa ao interesse popular porque, se assim não fosse, o capitalismo não seria o que é; e se não fosse a manipulação das consciências, ele não sobreviveria nem seria aceito pelos oprimidos como o sistema de exclusão e segregação social escravista que é. 

Daí a presença de políticos ligados à corporações elitistas e até criminosas (bancadas ruralista, da bala, do crime organizado, da religiosidade farisaica e fundamentalista, dos banqueiros do sistema financeiro ou dos jogos de azar, de grandes industriais, do agronegócio, das principais cadeias de comércio, etc.) ser 
 sempre majoritária no parlamento.

Os representantes institucionais das corporações de base popular (sindicatos e movimentos sociais) são sempre minoritários e, assim mesmo, estão presos a um juramento e decoro parlamentar ou administrativo que os enquadra constitucionalmente. 

Assim, apenas cumprem a triste missão de dar legitimidade institucional, pela via eleitoral, a algo que é absolutamente ilegítimo: a ordem opressora político-econômica do capital.        

Mesmo quando da proclamação da República no Brasil  via um golpe militar conservador e sem participação popular, apoiado pela elite política conservadora nacional que achava o monarca Dom Pedro II muito avançadinho –, o povo foi apenas avisado pelo general dirigente. 

Até esta data jamais tivéramos um parlamento cujos representantes de corporações e partidos políticos de base ocupassem 25% das cadeiras do congresso, e muito menos do que isto de mulheres e negros, o que comprova  o domínio eleitoral burguês elitista, racista, misógino e pernicioso. 

O povo brasileiro não tem representação congressual legítima e os cargos executivos são igualmente ocupados por representantes do capital na sua grande maioria; os que não o são e ousam contestar, costumam ser ejetados do poder burguês como um vírus estranho ao corpo no qual se instalou!
3
. o absolutismo do capital 
assume muitas faces, mas a essência é sempre a mesma:
 nas monarquias despóticas de antes e de agora (vide a Arábia Saudita do cruel príncipe Mohammed bin Salman), o que prevalece é a vontade do rei; 
— nas ditaduras militares, é a vontade marcial da força bruta reluzentemente fardada; 
— nas democracias de governantes com aspirações ditatoriais (e são muitos os que se elegem pelo voto e desejam eliminá-lo para governar sem quaisquer tipos de filtros), é a força bruta de milícias e aparelhos policiais que surgem das trevas do submundo político criminoso;
— nas democracias burguesas liberais (no sentido político, não econômico, que tem conceito diferente do conceito de liberalismo capitalista), são as instituições de predominância da lógica de mediação do capital, que fazem a filtragem de quaisquer movimento popular de base.   

Todos estes regimes políticos tem um senhor que os comanda: o capital. O qual, como já dissemos noutras oportunidades, não admite outro senhor que não seja ele mesmo.

Trata-se de uma lógica de mediação social coisificada, na qual a forma-valor, uma abstração numérica, ganha vida e dá vida às coisas inanimadas (os objetos da natureza, processados industrialmente ou obtidos in natura) transformando-os em mercadorias, e passam a teleguiar a ação dos seres humanos sob seu fetiche macabro.

Desde que se produza valor tudo é desculpável, justamente porque se considera que o valor é um Deus que dá vida e que por isto deve ser adorado.

Ninguém questiona o fato de que, em qualquer objeto material que sirva ao consumo ou qualquer serviço necessário, não exista um grama sequer de dinheiro, a representação mefistofélica do valor. Mas todos dizem que somente se faz alguma coisa com dinheiro. 

E assim o é de fato numa sociedade completamente mediada pelo capital (daí o imperativo de nos livrarmos das limitações que tal modo de relação social nos impõe!). 

Se assim fosse, Pedro Álvares Cabral não teria encontrado nas praias da Bahia, há 522 anos, centenas de pessoas vivas, belas, a que chamou de índios. 

Elas não conheciam a forma-valor e as mercadorias (por isso trocavam ouro por espelhos), mas comiam, bebiam, pintavam-se numa nudez sem pecado, amavam sob um código moral livre, poligâmico, sem patriarcado. Os recém-chegados, contudo,  neles viram seres sem alma, que precisavam ser catequizados para adquiri-las.       

O concessão de centenas de milhões de dólares em armas para a Ucrânia, por parte dos Estados Unidos, repercute na nossa mente a ideia equivocada de que somente quem tem dinheiro pode produzir, seja arma ou alimento. 

Desta forma, todo o arcabouço republicano de poder se funda no ato de gerenciamento político de outro ato que lhe é anterior e soberano, qual seja o de produzir valor econômico, que nada mais é do que uma convenção de relação social imposta, determinada, escravista, segregacionista, ilusória, reificada, contraditória, com caráter onívoro, destrutiva da natureza e das boas relações humanas e sociais e, por fim, autodestrutiva (porque destrutiva de sua própria forma). 

Muitos outros males poderiam ser elencados como crítica ao republicanismo burguês, uma forma política tida como sacrossanta, e que tem servido de parâmetro comportamental de vetustos senhores das esferas estatais de poder (nem sempre tão republicanos assim), mas que não passa de um episódio histórico, e como tal, não ontológico da existência humana. 

Um dia, será visto como uma etapa atrasada e inferior do nosso processo evolutivo, caso não sucumbamos todos diante de sua irracionalidade fratricida. 

No momento ficaremos por aqui, mas tem muito mais coisa podre no reino do republicanismo burguês... (por Dalton Rosado)

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

BOZO ANO 1: AS BASES DA RECUPERAÇÃO ECONÔMICA FORAM MESMO ASSENTADAS OU ESTAMOS SENDO ILUDIDOS? (parte 2)

(continuação deste post)
SOBRE O RESULTADO DO PIB no início do ano de 2019, as previsões menos otimistas para o crescimento anual do Produto Interno Bruto se situavam em torno de 2,2%. 

Contrariando o wishful thinking de sempre, a evolução do PIB foi negativa (-0,2%) no 1º trimestre do ano passado e insatisfatória tanto no 2º ((0,5%) quanto no 3º (0,6%). Embora os números do 4º trimestre ainda não estejam fechados, os expertos estimam que o crescimento anual ficará entre 1,1% e 1,2%. 

Segundo as análises dos organismos econômicos internacionais de insuspeita tendência capitalista como o FMI e a OCDE, que projetam um menor crescimento do PIB mundial para 2020, são inconsistentes as previsões que novamente jogam para cima as taxas de crescimento do PIB brasileiro (fala-se em 2,2% ao ano). 

E o pior é que tal patamar, mesmo que atingido, seria diminuto, já que tivemos uma redução global do PIB de 4,8%, somando-se todos os anos desde 2014.  

Na verdade, o renitente baixo crescimento do PIB brasileiro, na faixa de 1,0% ao ano (como veio ocorrendo em 2016, 2017, 2018 e 2019 sob o presidente Temerário e o capitão Boçalnaro, o ignaro), evidencia uma incapacidade de retomada do desenvolvimento econômico brasileiro após o período de forte recessão nos últimos anos do governo Dilma Rousseff.

O Brasil não tem competitividade na guerra comercial fratricida pela venda de manufaturados que agregam valor. Isto ocorre pela contradição de sermos uma país ao meio do caminho nas relações de produção de mercadorias, ou seja, temos uma elite política e judiciária cara, altos níveis de concentração de renda, um Estado burocrático e oneroso, altos índices de analfabetismo escolar e incipiente educação científica.   

Desejado pelos empresários e políticos de todos os matizes, que tanto querem ver o capitalismo tupiniquim dando certo, o Brasil está fadado, isto sim, ao fracasso, já que estamos sob a égide das relações mercantis em processo de dessubstancialização mundial.

Contraditoriamente, precisamos com urgência dessa impossível retomada do crescimento sob pena de termos uma redução drástica da renda média nacional, uma precarização dos serviços públicos (vale destacar que, mesmo com a reforma impingida aos brasileiros, os custos da Previdência Social continuarão altos) e a inadimplência de compromissos com o pagamento de juros da dívida pública – esta última acarretando retaliações nacionais e internacionais do sistema de crédito. 
Destarte, diante do quadro recessivo internacional, e da idiossincrásica política de relações comerciais exteriores, entendo que são infundados os prognósticos otimistas baseados apenas na melhora dos resultados nos dois últimos trimestres, que se deveu principalmente à liberação dos recursos do FGTS para saque por uma população assalariada de baixa poder aquisitivo e muita carência represada de consumo.

Tal bônus politiqueiro rapidamente movimentou o comércio, mas sem perspectiva de continuidade sustentável por tratar-se de distribuição monetária pontual única.

Confirmando os prognósticos sombrios, no exato momento em que escrevo essas mal traçadas linhas, eis que os EUA, sob as ordens do presidente destrumpelhado, assassinam o comandante militar supremo do Irã, o general Qasem Soleimani.

Tal fato pode desencadear uma nova guerra no mundo árabe, com repercussões ainda mais negativas na combalida economia mundial, de vez que atingiria a questão energética dos combustíveis fósseis petrolíferos, que apesar de altamente poluente da atmosfera, ainda é, infelizmente, principal fator de movimentação econômica da produção industrial e do grande comércio por essa mercadoria.

Irã (dos fundamentalistas religiosos do Islã) e Estados Unidos (policiais do mundo e aliados da Arábia Saudita, do criminoso Mohammed Bin Salman) travam uma disputa pela hegemonia nos países árabes, que ora pende para o Irã; e as nações do mundo se dividem entre apoiadores e opositores dessa luta insana, com argumentos que correspondem aos seus interesses econômicos imediatos ou estratégicos como se fossem verdades absolutas que tudo justificam.

É sempre assim: dois governos regidos pela ambição de riqueza abstrata se digladiam numa luta de morte e esperam que tomemos partido por um ou outro lado. 

Os emancipacionistas somos contra a guerra e contra seu móvel assassino, a acumulação ad infinitum da riqueza abstrata como forma de poder político-econômico nacionalista e excludente. 
.
COMÉRCIO EXTERIOR (balança comercial) o Brasil ainda é um país exportador de matérias primas por excelência. Nossas exportações de manufaturados que agregam valor é pouco representativa se levarmos em conta a nossa população, extensão territorial e valor total de PIB, que nos coloca entre as dez maiores economias do mundo.

Temos uma produção e comércio interno que nos salvam precariamente. 

Já as nossas exportações foram afetadas pela guerra comercial entre EUA e China e pela depressão econômica argentina, nossa grande compradora de manufaturados. É graças a isso e à precarização das nossas estapafúrdias e contraditórias relações exteriores, aliada à queda do PIB mundial, que vimos decrescer o saldo da nossa balança comercial em 2019.

Para se ter uma ideia dessa involução, tivemos em 2019 o menor superávit da balança comercial desde 2015: US$ 46,7% bilhões (exportamos US$ 224 bilhões e importamos US$ 177,3 bilhões). Comparativamente a 2018, houve uma acentuada queda de 19,8%.

E, se em 2019 aumentamos em 52,7% nossas exportações de commodities (matérias primas como minerais), tivemos uma queda de 34,6% na exportação de manufaturados. 
Ainda em 2018 Cuba recebia novas carroças Lada...

Sendo as primeiras bem menos valorizadas do que as segundas, isto explica a involução registrada. O mundo industrializado vende mais caro seus produtos em relação àqueles que compra como commodities; tal relação é o retrato da injustiça intrínseca às relações comerciais, que não são nem um pouco isonômicas.

Che Guevara já denunciava essa falta de paridade entre o açúcar cubano o os caros carros Lada soviéticos, entre outros produtos manufaturados que a ilha caribenha não podia produzir. O comércio exterior é uma guerra comercial e nele nem de longe existem fraternas relações bilaterais.  (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

terça-feira, 2 de julho de 2019

A GRANDE DIÁSPORA MUNDIAL – 3

(continuação deste post)
Segundo Ramadhani, refugiado burundinês de 26 anos, viver numa dessas tendas de acampamento corresponde a uma luta diária para conseguir comida e água. Tais condições acabam com a vida de qualquer um, diz ele, mas é melhor do que viver com medo e trancado em casa, daí preferir permanecer nesses campos até morrer. 

Segundo relato da psiquiatra Carolyne César, da ONG Médicos Sem fronteiras, é alarmante e o índice de tentativas de suicídios dos imigrantes enviados à ilha de Nauru pelo governo australiano; as crianças, acrescenta, afirmam que é melhor morrer do que ali permanecer.  

Esta é a cruel realidade de um mundo moldado por uma ordem sócio-econômica genocida. 

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados denuncia que 68,5 milhões de pessoas foram expulsas de suas casas à força, como consequência das ações de governos despóticos; da intolerância de grupos fundamentalistas religiosos; do temor inspirado por milicianos que praticam a extorsão, vendendo pretensa proteção; e do crime organizado. 

Mas, o que está na base dessa formação sócio-criminosa é a impossibilidade de produção social dos países da periferia do capitalismo sob um contrato econômico one world que encontrou o seu limite interno absoluto de convivência social harmônica.
Todos esses fenômenos ocorrem sob o primado da barbárie social causada por um modelo de produção social fundado na concorrência de mercado e financiamento da produção a juros extorsivos para os países da periferia capitalista (como ocorre com o Brasil, que aceita tal imposição docilmente, pois, afinal, é mais fácil cortar direitos previdenciários).  

Os países que se beneficiam de tais relações de produção e que rejeitam os originários de suas antigas colônias, agora estão também ameaçados nas suas pujanças econômicas, pois não se pode explorar indefinidamente sem que as consequências dessa lógica demonstre a sua insustentabilidade de longo prazo (e continue impune!). 

A debacle que já se observa na União Europeia, expressa nos altos níveis de desemprego, problemas com a previdência social e dívida pública crescente, denunciam que o barco capitalista, tal como os barcos do mar Mediterrâneo cheios de imigrantes desesperados, está afundando.

Neste contesto, dois segmentos políticos ganham espaço nos países capitalistas dominantes da União Europeia:  
 um é o dos partidos ultraconservadores (foto ao lado), que abrigam os defensores dos privilégios tradicionais, ora ameaçados, e que reforçam os discursos nacionalistas xenófobos, tentando manter o status quo pela força (os arminhas de lá) e impor retrocessos civilizatórios; e
 o outro é o dos partidos ecológicos (os verdes), que, apesar das boas intenções, não tocam na questão fundamental que é a falência e negatividade das relações de produção capitalistas. 

A crise ecológica, vale ressaltar, tem uma abrangência global, não seletiva. Atinge as florestas europeias (e estadunidenses) com incêndios cada vez maiores; prejudica a agricultura; e causa poluição insuportável, tanto quanto a desertificação, as secas e inundações tropicais. 

A hipocrisia mundial é algo que deveria causar indignação nas mentes mais esclarecidas.

Hipócritas são, p. ex., as alegadas preocupações dos EUA e seus subservientes apoiadores sul-americanos com a tragédia humana da Venezuela (independentemente de o governo de Maduro não me inspirar a mais remota simpatia) e a condenação do regime cubano.
Mohammed bin Salman ainda encontrou quem apertasse sua mão ensanguentada
Por que? Entre muitos outros motivos, por tolerarem na reunião do G-20 a participação de um assassino como o príncipe saudita Mohammed bin Salman, responsável pela morte do jornalista Jamal Khashoggi e de outros dissidentes políticos decapitados por regime brutal.  

E o alegado sentimento humanitário da União Europeia e da Turquia se revela uma balela à medida que financiam o governo despótico da Líbia para que, com sua guarda costeira no mar Mediterrâneo, detenha embarcações de imigrantes utilizando os métodos mais cruéis e desumanos.    

Observemos tragédias mundiais como:
 a dos povos da minoria rohingya em Mianmar;
 as perseguições de comunidades inteiras na Nigéria e em Camarões;
 a miséria do Sudão do Sul e do Burundi;
 o êxodo venezuelano (foto ao lado), salvadorenho, guatemalteco, hondurenho, haitiano e boliviano;
 a guerra permanente da Líbia e da Síria;
 as guerras fundamentalistas religiosas do Afeganistão, de Mossul e de tantas outras regiões do oriente médio; e
 a disputa territorial entre palestinos e israelenses. 

Todas têm, um ponto em comum: a falência (e ganância) de um modelo político-econômico que está a clamar por sua superação.

Entretanto, tal superação implica uma autocrítica de nossa servidão voluntária ao sistema que está na base de toda essa tragédia planetária. Devemos honestamente reconhecer nossa condição de cúmplices, ainda que involuntários, com todos esses crimes de lesa-humanidade. 

Seremos capazes de, conscientemente, antes mesmo que a realidade nos empurre para a tomada de medidas de emergência ou de desaparecermos da face da Terra, operarmos a transformação emancipatória necessária e indispensável? 

Somente a nós cabe a resposta. (por Dalton Rosado)

"...quando há uma terra prometida/ o bravo irá e outros o seguirão/ a beleza
do espírito humano/ é a vontade de realizar os próprios sonhos/ e assim,
as massas atravessam o oceano/ em direção a uma terra de paz e
de esperança/ mas ninguém ouviu uma voz ou viu uma luz/
enquanto era jogado na costa/ e ninguém foi recebido
pelo eco da frase Eu levanto minha lâmpada
junto à porta dourada..."  

domingo, 24 de fevereiro de 2019

A VENEZUELA, SOB O CRIVO DO OLHAR EMANCIPACIONISTA DE DALTON ROSADO

"A Venezuela, com todo o seu ferro e todo o seu petróleo, nunca valerá mais do que os seus habitantes" (Renny Ottolina, político e 
apresentador de rádio e TV)
Mais uma vez se coloca diante da visão emancipacionista da humanidade uma falsa dicotomia entre dois projetos políticos capitalistas na base, de forma que a diferenciação entre ambos é meramente política.

Nessa briga de posturas eminentemente políticas, cabe-nos meter a colher para evitar que esses dois projetos sejam tidos como os únicos possíveis. Há outra opção, que se impõe para toda a humanidade e que deverá surgir de modo global, como forma de se viabilizar socialmente.  

De um lado está o autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, um parlamentar apoiado pelos governos liberais capitalistas ditos democráticos, alinhados aos Estados Unidos; do outro, um governo que se agora se afirma claramente como marxista tradicional, ainda que sob a insígnia de um bolivarianismo latino-americano. 

Afirmamos enfaticamente que ambos são capitalistas pelos simples fato de que se regem na economia pelas categorias capitalistas que estão presentes em seus projetos políticos, independentemente de se proclamarem como de direita ou de esquerda.
A melhor escolha entre esses dois é... nenhum deles!

Afinal, dinheiro e mercadoria como expressões materializadas do valor, mercado, Estado, parlamento burguês, controle monetário, trabalho abstrato e trabalhador, Constituição que sacramenta o direito de propriedade, são categorias presentes em ambos os projetos políticos.

A democracia liberal é sempre uma farsa de escolha popular. Escolhe-se entre o que já foi previamente escolhido, ou seja, as candidaturas se processam sob a égide de regras previamente estabelecidas de cumprimento dos cânones burgueses constitucionalmente constituídos, a partir dos quais se deve governar, tudo sob a influência avassaladores dos poderes econômico e midiático que tudo comandam. 

Assim, quando se fala em governos democráticos como os que apoiam Guaidó (cujos interesses são os do capitalismo liberal mundial em fim de feira) há que se considerar a impropriedade da alusão – pelo menos se tivermos em mente uma verdadeira democracia, com participação popular livre de pressões econômicas e de manipulação das consciências.

As democracias burguesas fogem como o diabo da cruz da hipótese de mediação social sem a participação escravista indireta da forma-valor, pois isto significaria o desmascaramento da sub-reptícia escravidão indireta patrocinada pelo trabalho abstrato, que produz a acumulação da riqueza abstrata e suprime o acesso da maioria da população à riqueza socialmente produzida. 
O obtuso Maduro não encontrou uma boa resposta para isto 

Por sua vez o projeto de governo de Nicolás Maduro, que se por ele intitulado de proletário, esquece-se de dizer ao povo que a existência mesma do proletariado é uma forma de mediação social escravizada pela lógica do capital, que tem provocado a miséria do povo venezuelano em meio a tanta riqueza material existente naquele país. 

Dói em mim a contraditória hipocrisia de governos ditos democráticos, regidos pelo capital, que garroteiam economicamente a Venezuela por esta não se submeter aos seus caprichos político-econômicos, e ao mesmo tempo querem posar de beneméritos fornecedores de comida e remédios a um povo que está perdendo peso por subnutrição e morrendo por falta de assistência medicamentosa e hospitalar. 

Estabelece-se, assim, uma falsa dicotomia de projetos similares na sua base econômica e diferenciados na sua concepção de acesso ao poder político e de governabilidade do Estado.

Neste quadro ressurgem sintomas da não ultrapassada guerra fria do pós-guerra, com a Rússia e a China, grandes credores internacionais da Venezuela, a se posicionarem contra o bloco capitalista burguês, tudo dentro de um mesmo interesse mesquinho: a detenção da hegemonia econômica, que é nefasta para o povo qualquer que seja o seu tutor político (os venezuelanos estão sendo induzidos e escolherem entre a cruz e a caldeirinha...).
Marcarão os caminhões mais uma derrubada de presidente?

É melancólico ver aquele povo desesperado se digladiando na defesa de projetos políticos que lhe são antagônicos na essência, tudo por pura inconsciência sobre o que está a lhe infelicitar.   
Tanto o bloco democrático burguês liderado pela arrogante Donald Trump e seus seguidores latino-americanos, quanto a Rússia de Vladimir Putin ou a China de Ji-Xiaoping, nenhum deles está interessado na soberania do povo da Venezuela; quer é estabelecer sua hegemonia econômica sobre o país mais rico da América latina em petróleo, gás natural, ferro e outros minerais valiosos. 

Ressalte-se que a Venezuela detém reservas de petróleo maiores que as da despótica Arábia Saudita, cujo príncipe herdeiro (Mohammed bin Salman) manda matar seus adversários políticos na própria embaixada, como ocorreu com o jornalista saudita Jamal Khashoggi, nem por isto deixando de ser aliada dos Estados Unidos. Continua deles recebendo reconhecimento político e sendo sua parceira econômica.  

Mas, algo está a evidenciar-se nessa disputa hegemônica de poder político-econômico que se trava em torno da Venezuela:
Quem merece nossa solidariedade é o povo, e só ele
— a hipocrisia de uma ajuda humanitária cujo objetivo claro é desestabilizar o governo Maduro e entronizar o aliado Guaidó; e 
— a incapacidade de sustentação de governos despóticos, militarizados, que se mantém fieis à lógica capitalista ainda que se digam anticapitalistas, e que querem manter Nicolás Maduro no poder a qualquer preço.
Nesta falsa dicotomia entre projetos políticos idênticos na sua base econômica, os emancipacionista dizem fora tudo, fora todos, clamando ao povo para que se organize em estruturas administrativas horizontalizadas, abandonando a lógica produtora do lucro e assumindo a produção social unicamente voltada para a satisfação das necessidades de consumo. 

A riqueza material mundial deve ser usada para a grandeza da espécie humana como um todo, sem fronteiras, de modo ecologicamente sustentável e corporificando uma nova concepção ético-moral de comportamento. (por Dalton Rosado) 

domingo, 13 de janeiro de 2019

ESTARÁ EVO MORALES À ALTURA DO GESTO DE SOBERANIA QUE O MOMENTO EXIGE?

dalton rosado
A ALEGRIA E HIPOCRISIA DOS CARRASCOS
O motivo da encarniçada perseguição a Cesare Battisti não é a realização da justiça, mas sim a demonstração de que não vale a pena lutar contra o poderio avassalador do establishment, ainda que ele seja genocida em larga escala.

Por que não se condena a príncipe saudita Mohammed Bin Salman, que mandou matar o jornalista Jamal Khoshoggi, seu conterrâneo, numa embaixada na Turquia?

Por que jamais se condenou à prisão qualquer torturador e assassino brasileiro pelas atrocidades e crimes praticados durante a ditadura militar?

Por que Lula, o único brasileiro operário guindado à Presidência da República pelo voto popular (graças à falência da burguesia em administrar o que é seu), mesmo com toda a sua subserviência ao sistema e pacto corrupto com a escória da política brasileira, acabou sendo nosso único presidente encarcerado?

Por que um magistrado de primeira instância que de uma hora para outra resolver processar e prender (corretamente) políticos como jamais aconteceu na nossa história de tradição de corrupção, é premiado com o mais alto posto do comando da promoção administrativa da justiça no Brasil?
Criminosos de guerra impunes: o senhor e seu lacaio.

Por que jamais se condenou George W. Bush que bombardeou o Iraque com aviões distantes 10 mil metros de altura, matando grande quantidade de civis inocentes, inclusive crianças que dormiam, sob a alegação da existência de armas químicas jamais comprovadas? Por que não é considerado terrorista?

Por que há quem apoie o sanguinário ditador da Síria Bashar Al-Assad, relativizando os crimes hediondos que marcam sua infame trajetória?

Por que os Estados Unidos aceitavam um ditador corrupto e subserviente aos seus interesses, Fulgêncio Batista, inclusive asilando-o em seu solo com toda a sua riqueza saqueada ao povo cubano, mas financiaram a invasão da ilha para a derrubada de Fidel Castro?

Por que o corrupto ex-presidente paraguaio Alfredo Stroessner pode viver tranquilamente em Brasília, desfrutando comodamente sua fortuna, sem jamais ser extraditado? 

Por que Anastácio Somoza, o sanguinário e corruto ditador da Nicarágua recebeu pronta assistência militar e apoio financeiro na sua luta contra os sandinistas (desvios condenáveis e deploráveis do Daniel Ortega, que se subsumiu à lógica do capital, à parte)?

Por que Jesus Cristo foi condenado a morrer na Cruz por uma massa induzida? 
"gestos altaneiros que podem afirmar a dignidade de um povo"

Seriam intermináveis os porquês da história.

Mas há também gestos altaneiros que podem afirmar a dignidade de povo, como se fosse um Davi diante do Golias a dizer peremptoriamente: aqui decidimos conforme nossas próprias convicções e um perseguido político, uma vez em nosso solo, não se submeterá a nenhum submisso capricho alheio.

Estará Evo Morales à altura do gesto de soberania que o momento dele exige?    

Basta! 

Coloquemos abaixo a hipocrisia, pois ela, por si só, jamais se autocriticará; é seu instrumento de manipulação das consciências! (por Dalton Rosado, que recomenda aos leitores esta sua composição em homenagem ao Cesare)
PS: falando nisso, por que o Lula, ex-presidente da República, era conduzido
coercitivamente para prestar depoimento, enquanto o Queiroz dança,
deita e rola no hospital Albert Einstein, debochando da Justiça?
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