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quarta-feira, 13 de setembro de 2023

O EPISÓDIO REAL DO CANTOR QUE, DEPOIS DE OBTER SUCESSO COM UMA MÚSICA SOBRE A SITUAÇÃO DE PÓS-MORTE, FALECEU JOVEM.

Um relato que me impressionou na meninice foi o do intérprete de uma composição sobre a pós-morte que realmente faleceu em seguida, vítima de um acidente improvável aos 22 anos de idade.

O povo dizia que o coitado tinha sido punido por revelar os mistérios do além, tendo então recebido o castigo de conhecer prematuramente a situação descrita na música.

Garimpando no Google, localizei o episódio. O cantor se chamava Almir Ribeiro (1935-1958) e já fazia considerável sucesso ao morrer afogado numa praia de Punta del Este apropriadamente chamada de Brava. Estava naquela cidade turística uruguaia apresentando-se no Casino San Raphael. Era sua primeira viagem ao exterior.

A música é o samba-canção Onde estou?, de Hervê Cordovil e Vicente Leporace. Visivelmente inspirado no kardecismo, mostra um espírito desorientado, ainda ignorando o que lhe aconteceu mas já suspeitando da verdade (o verso final é "será que a morte abreviou os dias meus?"). 

O compacto simples que a incluía tinha sido lançado cerca de dois anos antes de ele morrer. 

Além das elucubrações supersticiosas, outro motivo de seu destino trágico ter repercutido muito foi ele estar então namorando a também cantora Maysa, cujos amores suscitavam considerável escândalo naquela época puritana.  

Pelo sim, pelo não, dali em diante nenhum(a) outro(a) cantor(a) gravou ou interpretou essa canção. Tornou-se tabu.

Encontrei no Youtube o filme Absolutamente certo (d. Anselmo Duarte, 1957) em que Almir Ribeiro canta a música mórbida. 

Vejam na janelinha embaixo. Sabendo o que depois lhe sucedeu, dá arrepios vê-lo se movimentando erradio por um cenário digno do Zé do Caixão, enquanto dançarinos executam uma coreografia fantasmagórica  

Resolvi lembrar aqui este aspecto aparentemente premonitório porque nem no Google está presente (a notícia mais completa sobre Almir Ribeiro é esta, de um jornal de Itapetininga, sua cidade natal). 

Qualquer dia inspirará um filme de terror... (por Celso Lungaretti)
Onde estou? começa exatamente em 1:02:48

terça-feira, 1 de novembro de 2022

QUE TAL APROVEITARMOS O FINADOS PARA O ENTERRO DO BOLSONARISMO?

C
omo editor deste blog, sempre preferi batizar os posts com títulos impactantes. 

O propósito, contudo, não é o de fazê-los sensacionalistas como os da imprensa marrom ou dos jornais de crimes. Jamais abro mão do rigor da informação. 

Busco, contudo, um ponto intermediário entre conteúdos sérios e opções técnicas para torná-los atraentes aos olhos de leitores porventura não muito interessados nos assuntos abordados.

Então, quando esta foi uma das primeiras páginas virtuais e noticiar e dar uma interpretação básica da vitória do Lula, optei pela manchete O brasil suspira aliviado: o bolsonarismo está morto! (vide aqui). E ilustrei com uma foto do Christopher Lee no papel de Drácula, debatendo-se com uma estaca cravada no peito.

Houve contestações, na linha de que a derrota do Bolsonaro não extinguiria o bolsonarismo. Mas, os fatos vieram imediatamente me dar razão.

Por que o chamamos de bolsonarismo, e não de ultradireitismo? Porque não é apenas a versão cabocla do extremismo de direita internacional, cujo principal teórico é Steve Bannon. Trata-se de uma avacalhação adicional do que, em si, já era tosco e avacalhado.

Jair Bolsonaro nem fascista de verdade chega a ser. Não passa de um indivíduo medíocre e cheio de problemas mentais que, depois de ser escorraçado das Forças Armadas por causa de suas maluquices (como o plano de explodir um reservatório de água no RJ), resolver levar vida mansa na política, vocalizando o ódio dos piores seres humanos e sendo representante legislativo de milicianos e dos escalões militares inferiores.

Misoginia, misantropia, racismo, homofobia, desprezo pelos indígenas, anticomunismo anacrônico, devoção pelos carrascos do terrorismo de Estado, todos esses ingredientes entraram na composição de um personagem odioso, mas que dava vazão à hostilidade reprimida de gente (?) suficiente para reelegê-lo até o fim da vida, oportunizando-lhe, ademais, a obtenção de ganhos extras com rachadinhas e outras ilegalidades.

Quando a presidência da República lhe caiu circunstancialmente no colo, fez o que os autoritários costumam fazer: negou-se a arquivar essas esquisitices de políticos bizarros e insignificantes, pois elas eram lembradas pela imprensa e o deslumbrado Bolsonaro passou a ver-se realmente como um mito. Insistiu em dar murros em ponta de faca porque, em seus delírios de anormal, era um mito de verdade. Pobre imbecil!

Mas, líderes da extrema-direita sem coragem de ir às últimas consequências têm vida curta no movimento. E o Bolsonaro se desmoralizou diante do núcleo duro de seus seguidores um sem-número de vezes, principalmente nos golpes que agendou para os dois últimos dias da Pátria, refugando vergonhosamente na Hora H (com o agravante de, em 2021, ter ido buscar socorro no colo do tio Temer, como um fedelho apavorado).

E chegamos às palhaçadas atuais, com a Polícia Rodoviária Federal primeiramente utilizada para atrapalhar e chegada dos eleitores aos locais de votação, depois para facilitar a obstrução de vias públicas por parte de caminhoneiros aloprados.

Fracassado o plano infalível nº 1, de tentar maximizar a abstenção na esperança de assim evitar a derrota nas urnas, acionou o nº 2, de criar um tamanho tumulto que as Forças Armadas fossem chamadas a intervir.

[Acreditava que o fariam em seu benefício, sem atentar para que jamais em nossa História os militares viraram a mesa em benefício de tenentes furrecos que ascenderam a capitães ao serem forçados a dar baixa. Eles só se envolvem em tais tramoias quando se trata de empossar generais.] 

Quis, para se preservar, parecer suficientemente distante do caos nas marginais e rodovias. Não vai adiantar: Deus e o mundo sabem de quem era a mão que balançava o berço.

E, ficando com um pé no golpe e outro pé na inocência fingida, não conseguiu atrair os apoios que pretendia para os caminhoneiros, enquanto Lula era reconhecido como presidente a todo vapor pelos poderosos daqui e do exterior. 
Depois de perder mais esta parada, Bolsonaro se tornou definitivamente uma figura desprezível para aqueles que cultuam a força, a imponência e o destemor. Na sua reaglutinação, é inevitável que a extrema-direita troque de líder, livrando-se desse campeão absoluto de rejeição em todos os tempos.

E a infestação brasileira dessa praga internacional deverá receber um nome derivado do de seu sucessor, a menos que a vaga seja preenchida pelo Carlos Bolsonaro. Embora pareça pouco provável, é uma possibilidade que não pode ser desde já descartada.

Caso contrário, o termo bolsonarismo deverá ser arquivado para sempre, pois evoca as idiossincrasias tóxicas do Jair, começando pelo ódio às mulheres, que deve remontar a alguma brochada do passado, mas se constitui na suprema estupidez para qualquer político.

Tratar a pontapés mais da metade do eleitorado é coisa de jerico! (por Celso Lungaretti)   

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

GOVERNO INICIADO COM GOLDEN SHOWER TINHA DE TERMINAR EM BROCHADA

No carnaval de 2019, Bolsonaro compartilhou um vídeo em
que dois foliões praticavam o fetiche da golden shower
P
ara o palhaço que transformou o Brasil num circo de horrores, o mandato presidencial foi uma oportunidade de ouro para vingar-se de todas as humilhações que sofreu ao longo de uma existência parasitária e medíocre.

Nem sequer original ele foi: apenas repetiu na vida real o que José Mojica Marins fez num dos episódios de seu filme de 1968, O estranho mundo de Zé do Caixão (acesse aqui), intitulado Ideologia. Foi uma resposta a todas as esculhambações que sofreu dos críticos e dos cidadãos respeitáveis no início de carreira, quando tarado era um dos rótulos mais amenos que lhe aplicavam.

Interpretou um professor igualmente apedrejado pelos defensores da moral e dos bons costumes, cujo nome (Oaxiac Odez) nada mais era que do um anagrama da denominação do seu personagem célebre. Depois de ser massacrado numa entrevista de TV, ele convida um dos inquisidores a ir visitá-lo com sua esposa.

Submete o casal à fome, à sede e a todos os ultrajes, até a prova final: um deles só sairia dali vivo causando a morte do outro. E, claro, um deles se presta a tão ignominioso papel, comprovando a tese do professor, de que os seres humanos, em circunstâncias extremas, sacrificam quaisquer escrúpulos para garantir a sobrevivência.

Da mesma forma, Jair Bolsonaro retaliou tantos quanto o desprezaram, começando pelo Exército, que era identificado com uma imagem idealizada do duque de Caxias e passou a ter como figura emblemática o um-manda-e-o-outro-obedece Eduardo Pazuello.

Mas, ao contrário do triunfante Zé do Caixão par lui-même, o Zé da Rachadinha, além da crassa ignorância e da incompetência em qualquer coisa que não seja a malandragem dos becos, tem evidentes problemas mentais, de igualmente óbvia origem sexual, daí haver feito um governo simplesmente depravado e pornográfico, que até à necrofilia chegou quando empilhava cadáveres durante a pandemia de covid.

O último ato da longa esbórnia foi fazer o Exército que o expeliu servir de escada para sua histrionice eleitoreira, obrigado na comemoração cívica deste 07/09 a pular  enquanto ele dava tiros no chão.

E expôs o Brasil à vergonha extrema de ter o bicentenário de sua independência transformado num comício eleitoral ilegal e tosco de um candidato com incontinência verbal.

De resto, contraditório como qualquer esquizofrênico, ele aproveitou a comemoração que sequestrou para proclamar-se imbrochável, quando, no sentido lato, já brochou infinitas vezes, como: 
— 
quando tentou ser um garboso oficial das gloriosas Forças Armadas e foi considerado indigno de sua pretensão, a ponto de até o ditador de plantão o qualificar de mau militar;
— quando foi assaltado por bandidos de quinta categoria e negou fogo, entregando-lhes docilmente a moto e a pistola;
— quando marcou um golpe de Estado para o Dia da Pátria de 2021 e foi o primeiro a não comparecer ao encontro, indo buscar socorro e conforto no colo do tio Temer;  
— quando novamente criou expectativa de golpe neste 7 de setembro e acabou substituindo-o por uma mistura de retórica politiqueira com monólogo de baixarias que envergonharia até o Ary Toledo das últimas décadas.

Quanto ao sentido estrito, só interessa a ele e a quem transa com ele. A nação e o povo brasileiros não tinham nada a ver com isso, muito menos numa ocasião solene. (por Celso Lungaretti) 

sábado, 4 de setembro de 2021

BADERNAÇO VAI HAVER. MORTES PODEM OCORRER. MAS, A VIABILIDADE DO PUTSCH SÓ EXISTE NOS DELÍRIOS DE UM ANORMAL

hélio schwartsman
HÁ CHANCE DE GOLPE NO 7 DE SETEMBRO?
Tudo o que não é proibido pelas leis da física pode acontecer, o que inclui a possibilidade de a estátua do Borba Gato sair andando pela avenida Santo Amaro e de Jair Bolsonaro ser coroado rei no próximo dia 8.

Tais eventos, porém, têm uma probabilidade tão diminuta de ocorrer que podemos considerá-los na prática impossíveis. 

Bolsonaro e sua malta, embora ainda contem com a proteção da PGR e de deputados do centrão, encontraram uma linha de resistência no STF e no Senado. 

O presidente tem o apoio de fatia considerável da população, que deverá dar as caras no 7 de Setembro. De modo ainda mais preocupante, conta com o suporte de milicianos, de PMs e do baixo oficialato de várias forças militares. 

Mas vai perdendo aliados e fiadores estratégicos. A parte menos ideológica do empresariado se cansou da incompetência e começa a desembarcar. Até os banqueiros, que trazem em seu DNA os genes do governismo, soltaram uma rara nota em que deixam claro que não apoiarão nenhuma esquisitice extra institucional.

A chance de Jair Bolsonaro tentar dar um golpe não é, infelizmente, tão remota. Pelo contrário, é bastante real. A boa notícia é que a probabilidade de ter êxito numa empreitada dessa natureza é pequena e diminui a cada dia. O governo do capitão reformado é fraco e vai se desmilinguindo aos olhos de todos.
Por um bom tempo eu temi que a combinação do arrefecimento da epidemia com a recuperação da economia tornaria Bolsonaro um candidato competitivo em 2022. 

O risco ainda existe, mas um ciclo de crescimento econômico capaz de favorecê-lo parece cada vez mais longe. Ao contrário, a perspectiva é de desemprego e inflação elevados, além do perigo de apagões elétricos.

Paradoxalmente, é um cenário que aumenta a chance de o presidente se aventurar num ato desesperado e diminui a de que tenha sucesso em fazê-lo. O resultado desse duplo movimento tende a ser confusão limitada. (por Hélio Schwartsman)

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

"UM MANÍACO EM FÚRIA, INFECTADO POR CORONAVÍRUS E VOANDO EM ESTEROIDES, COLOCANDO O PAÍS EM CHAMAS": É TRUMP!

 nelson de sá
TRUMP 'DESEQUILIBRADO' PROVOCA TENSÃO DE WASHINGTON A PEQUIM
A notícia que saiu da entrevista de Trump ao canal Fox Business foi, de modo geral, que ele recusou o debate por videoconferência com Joe Biden.

Mas a CNN se fixou logo no que importava: que foi um devaneio feio de uma hora. Listou 48 frases desequilibradas, até contra seus secretários mais fiéis, da Justiça e de Estado.

O Drudge Report abriu manchete para coluna de Piers Morgan no tabloide Daily Mail, que lembrou também os tuítes e comentou: Um maníaco em fúria, infectado por coronavírus e voando em esteroides, colocando o país em chamas.

Até o site de celebridades TMZ entrou, ouvindo de um médico que seria roid rage, ira causada por esteroides.
New York Times, Washington Post e outros foram mais contidos, registrando quando muito, em parágrafos escondidos, que um dos medicamentos que ele tomou, dexamethasone, pode causar euforia, oscilações de humor e eventuais manifestações psicóticas.

Nos veículos mainstream, o noticiário só começou a mudar após Nancy Pelosi, que preside a Câmara, anunciar no fim do dia uma comissão para garantir liderança efetiva e ininterrupta. Citou a 25ª Emenda, que formaliza a sucessão pelo vice, e foi manchete da Fox News, acusando-a de querer um golpe.

Foi parar também na manchete do South China Morning Post, Pequim evita atirar contra ameaça de Trump de 'fazer a China pagar'. Logo abaixo, Retórica não deverá levar a um confronto militar, dizem analistas.

O SCMP destacou que o barulhento Huanqiu/Global Times, o tabloide nacionalista, e outros jornais ligados ao PC chinês emudeceram(por Nelson de Sá)

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

EM 22 DE MAIO ÚLTIMO, O BOZO RODOU A BAIANA E PASSOU A BERRAR, ESPUMANDO DE ÓDIO: "VOU INTERVIR! VOU INTERVIR!"

É hilária, no gênero de humor negro, a longa reportagem que a revista piauí publicou, de autoria da jornalista Mônica Gugliano: O dia em que Bolsonaro decidiu mandar tropas para o Supremo (acesse aqui). 

Comédia por comédia, eu prefiro, contudo, O rato que ruge (d. Jack Arnold, 1959), sobre uma república das bananas que decide declarar guerra aos EUA, esperando ser derrotada e depois obter ajuda para sua reconstrução – uma alusão sarcástica ao Plano Marshall. Por dois motivos: 
— Peter Sellers era um grande ator, Jair Bolsonaro nem para chanchadas presta;
— o plano dos governantes de Fenwick chega a parecer equilibrado e sensato, se comparado com o chilique grosseiro e grotesco do rato que ruge brasileiro. 

A reportagem o mostra fora de si ao receber a notícia de que o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, consultara a Procuradoria-Geral da República sobre a possibilidade de apreender seu celular e o do filho Carlos, uma formalidade de rotina face a uma notícia-crime apresentada por três partidos.

Tão desinformado quanto desequilibrado, Bolsonaro rodou a baiana e passou a gritar, espumando de ódio: "Vou intervir! Vou intervir!".

Quais os delírios de um anormal que passavam por sua cabeça? Estes, segundo a Mônica:
"Bolsonaro queria mandar tropas para o Supremo porque os magistrados, na sua opinião, estavam passando dos limites em suas decisões e achincalhando sua autoridade. Na sua cabeça, ao chegar no STF, os militares destituiriam os atuais onze ministros. 
Os substitutos, militares ou civis, seriam então nomeados por ele e ficariam no cargo até que aquilo esteja em ordem, segundo as palavras do presidente. 
No tumulto da reunião, não ficou claro como as tropas seriam empregadas, nem se, nos planos de Bolsonaro, os ministros destituídos do STF voltariam a seus cargos quando aquilo estivesse em ordem"
Depois de uma caricata reunião de cúpula cujo relato nos transmite a mesma sensação de mediocridade abissal daquele outro show de horrores encenado por alguns dos mesmos personagens, cuja gravação foi exibida aos brasileiros por ordem do STF conseguiram finalmente tirar-lhe aquela ideia fixa da cabeça oca:
"Dois argumentos ajudaram a acalmar Bolsonaro na reunião. 
O primeiro: não havia ordem para apreender seu celular, apenas uma consulta do ministro do STF, de modo que ainda havia a possibilidade de que a apreensão não ocorresse. 
(De fato, dez dias depois, Celso de Mello arquivou o pedido de apreensão, mas, em sua decisão, fez questão de mandar um recado ao presidente, dizendo que o descumprimento de uma ordem judicial configuraria gravíssimo comportamento transgressor.) 
O outro argumento: o governo daria uma resposta contundente ao STF na forma de uma nota pública. Combinou-se na reunião que o general Heleno assinaria a nota".   
Mas, independentemente do que o ridículo aprendiz de ditador pensava que poderia fazer, baseando-se em interpretações falaciosas sobre um poder moderador que os militares não estão de maneira alguma autorizados pela Constituição a desempenhar (Ives Gandra Martins melhor faria se continuasse apenas ensinando aos ricos como pagarem menos impostos ou nenhum imposto), a realidade dos fatos está é neste outro trecho da reportagem:
"Entre os militares da reserva, estão os saudosos da ditadura militar. Eles defendem a radicalização do governo, inclusive com a adoção de medidas de exceção. 
A situação é outra entre os atuais comandantes, que têm tropa e poder. Esses querem distância da polarização política e rejeitam qualquer hipótese de intervenção militar. 
Nos três últimos meses, enquanto Bolsonaro minimizava a pandemia e apoiava manifestações radicais na frente de quartéis, as três forças – Marinha, Exército e Aeronáutica – se encarregaram de adotar um comportamento oposto, participando das ações de combate à Covid-19. 
No mesmo dia em que Bolsonaro fez pronunciamento na tevê dizendo que a pandemia era um problema sério na Itália, mas não no Brasil, o comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, publicou um vídeo dizendo que a crise sanitária talvez seja a missão mais importante de nossa geração".
Ou seja, se a turma do deixa disso não tivesse impedido Bolsonaro de intervir, certamente (e bota certeza nisso!) teria quebrado a cara e, como consequência, sido reconduzido à insignificância do qual um destino insólito o retirou, para desgraça dos brasileiros. (por Celso Lungaretti)

domingo, 26 de abril de 2020

NO ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO, NINGUÉM DESTRUÍA UM PAÍS SÓ PARA SE VINGAR DOS QUE O HAVIAM ESNOBADO

O post deste sábado sobre o Zé do Caixão foi um pequeno gracejo que virou artigo. 

Minha intenção inicial era, basicamente, a de disponibilizar o filme Delírios de um anormal para poder zoar o Bozo, pois desconheço título que definisse melhor o móvel de suas maluquices presidenciais.

Mas, o saudosismo acabou me levando a falar mais sobre o Zé, até porque deixara de fazê-lo quando de sua morte, há dois meses. Estava devendo.

E percebo que ainda ficou faltando algo, então tentarei completar o serviço agora.

Na história do cinema, eu colocaria o Zé na prateleira dos realizadores intuitivos que oscilam entre a ruindade e a genialidade, ao lado do Edward D. Wood Jr. (tido como o pior cineasta do mundo), do Jess Franco, do Jean Rollin e outros que tais.

Simplesmente grotesco, p. ex., foi o inferno de papelão que o Zé exibiu em Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967), o segundo da saga do coveiro em busca da mulher apropriada para gerar seu filho perfeito (com todo jeitão de ser o anticristo, mas ele não podia deixar isto explícito no Brasil de então). 

Dispor de orçamento mais elevado parece ter-lhe feito mal, pois botou cor, tornou-se mais pretensioso e... viajou na maionese. O charme dos primitivos é exatamente o de parecerem mesmo primitivos. Foi um erro ele ter tentado enfeitar o pavão.
O coveiro das telas não conseguiu gerar o anticristo...

Filmes de baixíssimo orçamento não precisam necessariamente deixar sua precariedade tão evidenciada que até despertam a compaixão dos espectadores. 

George A. Romero, recém-formado na Universidade de Pittsburg, trabalhava no depósito de uma grande produtora dos EUA e encontrou uma enorme quantidade de fitas virgens em preto-e-branco, não utilizadas porque os filmes coloridos haviam monopolizado o mercado.

Veio-lhe a ideia de aproveitá-las para fazer um filme de zumbis. Os mortos-vivos haviam desaparecido das telas após a primeira metade do século 20, quando a Universal Pictures os invocava vez por outra (predominavam os vampiros, lobisomens, múmias e cientistas loucos com seus respectivos monstros). 

Romero só introduziu duas novidades: seus zumbis eram resultantes de contaminação ambiental e não da macumba haitiana; e passam quase que o filme inteiro tentando matar seres humanos entrincheirados numa casa, assim como os índios dos westerns sitiavam os fortes apaches. 

Seu filme ressuscitou e revigorou um filão praticamente extinto, foi um dos que mais inspiraram derivações em todos os tempos e, apesar do orçamento precário e dos atores terem sido laçados por Romero entre seus amigos e ex-colegas de faculdade, permanece suportável até hoje; já os do Zé, sinceramente, assisti a todos os de seu personagem emblemático, mas jamais revi nenhum. 
...e o da vida real também não, mas Carluxo não ficou tão longe.

Só para comparar: meus cults de estimação, como Quando explode a vingança e O dia da desforra, seguramente já assisti mais de 20 vezes cada.

Não posso, contudo, deixar de mencionar um grande momento do Zé, ainda nos anos 60, quando o sucesso retumbante de À meia-noite levarei a sua alma indignou a caretíssima classe média de 1964 (o ano entra aqui como referência tanto de época quanto de mentalidade...).  

Lembrando as teorias de Freud sobre o retorno do reprimido, os cidadãos respeitáveis não suportaram ver, no espelho do Zé, impulsos inconscientes ou nem tanto que infestavam suas mentes e eles tudo faziam para impedir de se tornarem evidentes, pois escandalizariam seus pares (os quais decerto enrustiam os mesmíssimos impulsos). Então, o que ela fez foi, simbolicamente, quebrar o espelho. Caliban explica...

Muitos programas de rádio e TV davam vazão aos chiliques de tal classe média, malhando o Zé como se fosse um Judas em sábado de aleluia. Criticavam-no pela carga erótica não muito dissimulada dos seus filmes, pela violência de certos trechos, por submeter suas toscas atrizes a contracenarem com aranhas e cobras, etc. Qualificavam-no de doentio.

Como bobo ele nunca foi, até surfou nessa onda, pois não lhe passou despercebido que estavam lhe proporcionando publicidade gratuita como o Zé jamais teria dinheiro para pagar. Mas, evidentemente, isto também o incomodava.
"qualificavam-no de doentio"

Só que não resolveu destruir um país inteiro apenas para retaliar os rebentos das classes superiores que o esnobaram a vida inteira, como está fazendo o Bozo. Usou uma ferramenta mais inofensiva para se vingar, com a vantagem de tornar sua catarse pessoal lucrativa.

Trata-se do terceiro episódio do filme abaixo disponibilizado, O estranho mundo de Zé do Caixão (1968), no qual seu ersatz  Oãxiac Odez (o nome é um anagrama), depois de ser humilhado por um debatedor arrogante num programa de TV, faz com ele o que o Zé gostaria de ter feito com essa raça na vida real. 

Mas, como ele próprio não era nenhum demente, deu-se por satisfeito em apenas ficar matutando sobre isso com seus botões, até que acabou desabafando nas telas. (por Celso Lungaretti)

sábado, 25 de abril de 2020

NÃO SE DEIXE ILUDIR POR DELÍRIOS TOSCOS DOS ANORMAIS DA POLÍTICA. PREFIRA O PRODUTO ORIGINAL: ZÉ DO CAIXÃO!

Este personagem é coveiro assumido...
O Brasil vai se transformando num imenso cemitério, com cadáveres amontoados ao léu e um doido de pedra empoderado, totalmente descontrolado, tudo fazendo para maximizar os óbitos nossos de cada dia. 

Nada mais oportuno, portanto, do que aproveitarmos a quarentena para reavaliarmos um filme e um personagem que agora chegam a parecer até premonitórios, inclusive por ter um coveiro demente como grande atração: Delírios de um anormal (d. e c/ José Mojica Marins, 1978). 

De 1979 a 1984, quando eu escrevia sobre cinema, eram frequentes minhas andanças pela rua do Triunfo e adjacências, alguns quarteirões decadentes do centro velho de São Paulo que concentravam duas atividades: as produtoras/montadoras/distribuidoras de filmes tinham como vizinhas as esforçadas profissionais da... baixa prostituição. 

Era uma convivência sem atritos, salvo quando algum(a) representante desses grupos bebia além da conta e a coisa descambava em gritaria, cadeiras voando e olhos roxos.   

Dificilmente eu deixava de cruzar com o Zé e/ou seu fiel escudeiro, o Satã, um mulato fortão com cabeça raspada e cavanhaque (daí o nome artístico) misto de vilão coadjuvante de seus filmes, guarda-costas e faz-tudo no dia-a-dia. 

Eram gente boa, ambos. Mas, foi um período no qual o Zé só fez um filme de terror e vários de sexo explícito (um filão que eu não abordava), então apenas nos cumprimentávamos e dizíamos rápidas palavras. Era cordial o tratamento entre os habitués da boca do cinema
...mas bem pior é o coveiro enrustido da vida real

Uns 20 anos depois levei minha então esposa e uma colega dela para entrevistá-lo e fiquei surpreso com sua amabilidade e suas respostas que vinham bem ao encontro das necessidades de repórteres. Ficou uma moleza para ela escrever a matéria. 

Filho de um projecionista de cinema, assistia de graça tantos filmes quanto queria e passava horas lendo os gibis daquele tempo, principalmente os macabros. 

Aos 12 anos ganhou uma câmara e não parou mais de fazer filmes artesanais; aos 17, montou uma escola de interpretação, passando a formar ele próprio seus futuros astros e estrelas; aos 22 concluiu um faroeste caboclo, aos 27 um drama piegas e aos 28, no ano maldito de 1964, estourou com À meia-noite levarei a sua alma, iniciando a saga do Zé do Caixão.

Se os projetos anteriores foram mais aquilo que ele conseguiu viabilizar com as parcas fontes de financiamento que encontrou, atores principiantes e técnicos que davam uma força nas brechas de seus empregos principais, À meia-noite... era exatamente o filme que queria fazer. Mas, teve até de vender um caminhão para bancá-lo.

Em São Paulo ocorreu de eu passar diante do cine Art Palácio, enorme mas decadente, e me surpreender com uma fila extensa como aquele pulgueiro nunca tinha, formada por gente mais pobre do que a que costumava frequentar os cinemas da região. 

Era o início do fenômeno Zé do Caixão, um personagem que tinha tudo a ver com os filmes B de terror estadunidenses dos anos 50 e com gibis da editora La Selva que marcaram época, como  O terror negro

Como eu também curti intensamente tais filmes e tais gibis, os filmes do Zé não me surpreenderam. O próprio visual do personagem, no qual críticos e scholars enxergaram as mais estapafúrdias inspirações, eu logo percebi assemelhar-se ao de uma entidade da umbanda, o Exu Capa Preta. 

Quando os moralistas rançosos de 1964 começaram a perseguir o Zé como um mau exemplo para nossa angelical sociedade, a intelectualidade, em contrapartida, o adotou. Tornou-se cult para os transgressores artísticos, desde o Zé Celso Martinez Correa até a turma do cinema marginal

Nem tanto cá, nem tanto lá, admirei o Zé como um batalhador incansável, adorava vê-lo chocar carolas e quatrocentões, vi algum charme no seu primitivismo, mas não a genialidade absoluta que lhe atribuíam, fascinados, na verdade, com alguns momentos inspirados e com o exotismo de um universo que desconheciam. (por Celso Lungaretti)
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Toque do editor — não estava prevista, mas acabei produzindo uma continuação deste post, que os leitores podem acessar teclando aqui.

sábado, 5 de outubro de 2019

DOS DELÍRIOS DO JANOT DO CAIXÃO À CRIAÇÃO DO MP DE FRANKENSTEIN, A POLÍTICA BRASILEIRA É UM HORROR!

demétrio magnoli
O MINISTÉRIO POLÍTICO
Quanto vale a palavra de Rodrigo Janot? O então procurador-geral entrou armado no STF com a finalidade de matar Gilmar Mendes e, na sequência, tirar sua própria vida. Verdade? Mentira? Delírio de um mitômano? No fundo, pouco importa. 

O conto deve ser lido alegoricamente, como parábola de uma colisão engendrada há três décadas, na hora em que os constituintes esculpiram o atual Ministério Público.

Nos artigos 127, 128 e 129, a Constituição criou um poder sem controle externo e sem limites jurisdicionais. O MP paira sobre o Estado, não respondendo a nenhum dos três Poderes. 

Nas suas próprias palavras, opera como “uma espécie de Ouvidoria da sociedade brasileira”, exercendo a “tutela dos interesses públicos, coletivos, sociais e difusos”. 

Dito de outro modo, o MP não seria uma Ouvidoria da aplicação das leis, mas um tradutor do “interesse geral”.

Ninguém percebeu à época, mas dava-se à luz um Partido, com “P” maiúsculo —isto é, uma entidade política singular, que supostamente representa toda a sociedade e não precisa passar pelo filtro das urnas. O MP tornou-se um recipiente perfeito para gerações de jovens promotores e procuradores engajados na reforma social por meio do sistema de justiça.

Política é a arte de explicitar e solucionar as divergências por vias pacíficas. As divergências que atravessam as sociedades coagulam-se em partidos. Nos sistemas totalitários, elas não desaparecem, emergindo sob a forma pervertida de facções clandestinas no interior do partido único.

O MP, concebido como Partido, fragmenta-se necessariamente em diferentes partidos, que refletem traduções conflitantes do interesse geral

O Ministério Político não é um, mas vários. Pela esquerda, em 1991, surgiu o chamado Ministério Público Democrático, hoje com mais de 300 associados. 

Pela direita, em 2018, nasceu o chamado Ministério Público Pró-Sociedade, que organiza seu 2º Congresso Nacional. 

“Nós dois lemos a Bíblia noite e dia, mas tu lês preto onde eu leio branco” (William Blake). Os dois leem as mesmas leis, mas cada um as interpreta segundo seu programa político particular. 

O Janot do conto, pistoleiro suicida, encontra seu lugar no Janot da História. O momento de seu propalado gesto de loucura inscreve-se numa sequência de atos políticos:
— no 8 de maio de 2017, o procurador-geral pediu a suspeição de Gilmar no caso Eike Batista;
— no dia 17, vazou o áudio do diálogo explosivo entre Joesley Batista e Michel Temer; e
— no 23, publicou um artigo de denúncia do “estado de putrefação de nosso sistema de representação política”.

Numa “estranha aliança do sublime com o obsceno” (Octavio Paz), o cavaleiro andante da limpeza pública faria a justiça verdadeira com o projétil de uma pistola, eliminando a justiça monstruosa, corrompida, inventada pela Constituição.

A vocação dos partidos é perseguir a conquista do poder. Naquele maio, Janot construía o trampolim de sua candidatura presidencial, fincando-o sobre um pacto profano com Joesley Batista.

A politização do MP atingia um clímax, empurrando seu chefe à guerra aberta com o Executivo e à uma tentativa, no fim frustrada, de submeter a seus desígnios o Congresso e o STF.

Quatro meses depois do pedido de suspeição de Gilmar, um desmoralizado Janot ergueu a bandeira branca e, em gesto de rendição, solicitou a revogação da imunidade de Joesley.

A colisão do Ministério Político com as instituições não desaparece junto com a desgraça do ex-procurador-geral. Hoje, a candidatura presidencial de Sergio Moro concentra o projeto de poder do Partido dos Procuradores

A nossa Operação Mãos Limpas, tão necessária, dissolve-se numa lagoa viscosa de ilegalidades, um pesque-pague para as defesas de corruptos e corruptores.

O conto de Janot, mais que roteiro potencial de um filme, é uma lição política. Vamos estudá-la? 

                  (por Demétrio Magnoli)
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