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sábado, 6 de novembro de 2021

UM DIA DE MORTE PARA AS MENTIRAS DO CANDIDATO JAIR BOLSONARO

O
liberalismo de Paulo Guedes sempre foi caricatura. Na noite de 4ª feira (3), essa fantasia grotesca estrebuchava sob as ruínas do teto de gastos, a grande obra da coalizão liberal que depôs Dilma Rousseff. 

Na mesma noite, Jair Bolsonaro dizia à Polícia Federal que Sérgio Moro é um tipo negocista, que troca um pedido presidencial por uma nomeação para o Supremo.

No Congresso, a derrubada do teto era conduzida pelo centrão, com auxílio de ministros, com votos sendo cabalados por meio da promessa de emendas parlamentares. A velha política sapateava e pedalava sobre a responsabilidade fiscal agonizante.

O centrão marombado pelo bolsonarismo contribuiu para o enterro da Lava Jato e ajuda Bolsonaro a rasgar os trapos da sua fantasia liberal, lavajatismo e liberalismo que serviram de desculpa para elites várias subirem na barca do inferno (em última instância, os motivos eram mesmo o antipetismo, a recusa de pagar mais impostos e a acomodação habitual com a incivilidade).

De certo modo, foi uma noite de glória para o capitão das fake news e outras patranhas. As maiores promessas da campanha de 2018 brilhavam como mentiras peladas no palco da farsa bolsonarista.

Coadjuvante menor, lá também estava o PSDB, que fazia o papel de cuspir na responsabilidade fiscal enquanto Bolsonaro, Guedes e o centrão esfaqueavam esse unicórnio do liberalismo fantástico brasileiro. 
Faz um quarto de século, o PSDB foi um partido de quadros da elite. Em 2014/15, deu o pontapé inicial em Dilma Rousseff 
vinha com uma conversa moralizante a fim de abafar o que era de fato a raiva de perder tanta eleição. Agora, é uma espécie de PP do centro-sul do Brasil. 

Não ficou nada no lugar. Por mal falar nisso, seu compadre, o DEM, ex-PFL, um dia Arena, volta às origens como ajudante de ordens da extrema direita, a tal União Brasil.

As mudanças mais relevantes para que o país venha a ter uma economia de mercado funcional eram conversa mole do bolsonarismo e da maioria das corporações empresariais que o apoiaram. Sem também reforma tributária e abertura comercial não haverá concorrência e aumento bastante de produtividade, outro nome de crescimento econômico. 

Mas a pimenta da reforma é boa nos olhos dos outros, não na fuça do capitalismo de compadres e de favor. A zorra macroeconômica acaba com o resto de perspectiva de aumento de renda. O liberalismo à brasileira ataca outra vez.

Esse vexame sórdido faz lembrar de Jânio Quadros e de Fernando Collor, outras
mulas de Troia com que a direita chegou ao poder. Sim, eram outros Brasis, mas esses tipos surfaram também o mesmo moralismo santarrão e autoritário que ajudou a levar Bolsonaro ao poder.

A direita pode dizer que preferia um Carlos Lacerda ou, vá lá, um Geraldo Alckmin. Na prática e na hipótese mais benevolente, não faz mais do que aderir a picaretagens como a vassoura janista, o caçador de marajás ou o capitão da reação, quando não os financia ou propagandeia com gosto.

As consequências de Bolsonaro são piores. Além de normalizar o autoritarismo, o reacionarismo, a cafajestagem e a tolerância a crimes de responsabilidade, soltou a cordinha do partido militar (agora também fisiológico) e o fantasma da religião como assunto de Estado, que mal e muito mal estavam presos na casinha.

A fraude imensa ficou muito evidente no espetáculo de desnudamento de mentiras desta semana, mas não se trata de um show pontual numa noite escura da alma deste país. No Brasil, é uma história muito velha que o liberalismo realmente existente, o liberex, encarne na prática em monstruosidades. 

Aconteceu de novo. (por Vinícius Torres Freire)
Este clássico realizado precariamente pelo estudante de cinema George 
Romero relançou em 1968 os filmes de zumbis, filão que era dado
como esgotado. Já os zumbis da vida real deveriam ter
ficado onde estavam: na lixeira da História.​

sexta-feira, 28 de maio de 2021

O CINEASTA QUE REINVENTOU OS FILMES DE ZUMBI TAMBÉM SACOU QUE GOVERNANTES EXTERMINARIAM SEUS POVOS EM EPIDEMIAS

Nos rebeldes anos 60, Gorge A. Romero (1940-2017) era jovem e antenado, então sabia identificar as tendências do seu tempo antes da maioria dos que com ele disputavam um lugar ao sol em Hollywood. 

Foi assim que colocou um ovo de Colombo em pé, ao perceber que os filmes de zumbi nos quais os ditos cujos eram frutos do vodu haitiano, que sempre haviam sido um filão secundário no gênero terror, estavam superados, mas havia outra possibilidade a ser explorada.

Assim, criou uma história diferente, na qual eram vazamentos radiativos e contaminação do solo que levavam os defuntos a sair de suas tumbas e assombrar multidões nas grandes cidades.

Com muita precariedade, usando sobras de celuloide virgem das fitas em preto-e-branco que haviam saído de moda e laçando atores improvisados entre seus colegas do curso de cinema, realizou em 1968 A noite dos mortos-vivos (assista-o aqui), gerando um dos filões mais rentáveis do cinema de entretenimento nas últimas décadas.

Seu quarto filme, O exército do extermínio (1973), também resultou de uma boa percepção do futuro próximo: a de que, face a uma epidemia devastadora, os governantes não vacilariam em exterminar parte dos seus governados. 

Ainda é um filme de baixo orçamento, porque A noite dos mortos-vivos foi mais um cult do que um estouro de bilheteria. A novidade só decolou mesmo quando imitadores foram seguindo as pegadas de Romero. Mas, apesar das limitações, ele novamente soube criar um thriller competente, além de propor um novo enfoque, bem mais amargo, sobre os poderosos.

Talvez haja sido exatamente este o motivo de não ter obtido maior receptividade: é que nos EUA de então predominava a chamada
maioria silenciosa, para a qual ainda não tinha caído a ficha de que o sistema estava podre até o âmago e dos mandatários quase sempre se deveria esperar o pior. 

Quem já tinha visão corrosiva dos poderosos, pessoas sofisticadas de Nova York, San Francisco e mais uma ou outra cidade onde a contracultura vicejava, eram exceções, não a regra.  

Enfim, Romero de certa forma anteviu que genocidas malucos como Bolsonaro matariam o próprio povo durante uma grande epidemia, abatendo seres humanos como moscas. Aliás, o próprio título original do filme parece, mas não é, uma alusão ao Bozo: The crazies (os loucos).

E os que dão ordem de extermínio são desalmados mas não assassinos seriais: pretendem salvar a maioria sacrificando uma minoria com aquela matança, cujo objetivo é tentar impedir que a epidemia rompa as barreiras de isolamento e se propague por todo o país.

Já nosso genocida só queria mesmo é salvar sua candidatura presidencial, ao apostar em que drogas milagrosas e imunização de rebanho tornariam desnecessárias medidas prejudiciais às atividades econômicas, como os lockdowns

Fez sua aposta insensata e insensível usando-nos como fichas, perdeu até as calças, matou coitadezas a torto e direito; merece, como consequência, ser punido não só com a perda do mandato e dos direitos políticos, mas também com a da liberdade. E ainda será pouco! (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 22 de maio de 2020

FILMES SOBRE EPIDEMIAS EXISTEM AOS MONTES. NENHUM É TÃO PERTURBADOR QUANTO "O EXÉRCITO DO EXTERMÍNIO"

George A. Romero é sempre lembrado como o relançador dos filmes sobre zumbis em 1968, quando estavam quase esquecidos, após terem sido sempre uma vertente secundária da cinema de terror, bem atrás dos vampiros, dos lobisomens, dos monstros criados por cientistas loucos, das múmias, etc.

Com sobras de celuloide em preto-e-branco que os grandes estúdios já não utilizavam porque as fitas coloridas monopolizavam o mercado e um elenco amador, de colegas de curso de cinema, ele criou A noite dos mortos-vivos, cuja grande sacada foi desvincular os zumbis da macumba haitiana e colocar contaminações ambientais como sua causa (vazamentos radiativos em primeiro lugar). 

Aí o medo distante se tornou próximo das plateias estadunidenses, entrelaçando-se com receios que elas já sentiam graças a episódios como a crise dos mísseis cubanos.

Mas, se hipóteses inverossímeis lhe trouxeram grana e fama, Romero (1940-2017) nunca foi um mero fornecedor de catarses e sustos baratos, como quase todos os cineastas que seguiram suas pegadas no filão dos zumbis. 

Tivera a cabeça feita pela geração das flores, daí ecos da contracultura serem claramente perceptíveis em alguns dos seus filmes menos famosos (os melhores em termos artísticos!), como Cavaleiros de aço (1981) e este O exército do extermínio (1973, seu quarto longa-metragem). 
Cidadãos reagem à ocupação militar de sua cidade

Trata-se de uma produção de baixo orçamento, com elenco de ilustres desconhecidos, que vale sobretudo pela história, extremamente perturbadora, pois coloca em questão os abusos cometidos pelas autoridades quando ocorre uma emergência dessas, passando por cima de uma infinidade de dispositivos constitucionais. Os ingredientes políticos colocam esta pequena pérola de Romero a anos-luz de distância dos sci-fi banais.

Avião transportando uma arma bacteriológica cai e libera um vírus que faz os contaminados se tornarem loucos furiosos. A cidade atingida é imediatamente submetida a total bloqueio militar, tanto pela necessidade de circunscrever a epidemia, como de esconder dos EUA e do mundo o tipo de experiências que os fardados daquele país andavam realizando.

Algo semelhante à atitude do governo chinês quando o coronavírus surgiu em Wuhan: não existe nenhuma prova real de que tenha sido um vírus criado intencionalmente pela China, mas sobram as evidências de que o governo esforçou-se ao máximo para esconder a notícia, o que acabou facilitando sua disseminação pelo resto do país.

É exatamente o dilema que os militares do filme enfrentam quando percebem que não conseguirão evitar que o vírus transponha as barreiras por eles erguidas, apesar de toda a truculência que empregam. O que fazer? (por Celso Lungaretti)

domingo, 26 de abril de 2020

NO ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO, NINGUÉM DESTRUÍA UM PAÍS SÓ PARA SE VINGAR DOS QUE O HAVIAM ESNOBADO

O post deste sábado sobre o Zé do Caixão foi um pequeno gracejo que virou artigo. 

Minha intenção inicial era, basicamente, a de disponibilizar o filme Delírios de um anormal para poder zoar o Bozo, pois desconheço título que definisse melhor o móvel de suas maluquices presidenciais.

Mas, o saudosismo acabou me levando a falar mais sobre o Zé, até porque deixara de fazê-lo quando de sua morte, há dois meses. Estava devendo.

E percebo que ainda ficou faltando algo, então tentarei completar o serviço agora.

Na história do cinema, eu colocaria o Zé na prateleira dos realizadores intuitivos que oscilam entre a ruindade e a genialidade, ao lado do Edward D. Wood Jr. (tido como o pior cineasta do mundo), do Jess Franco, do Jean Rollin e outros que tais.

Simplesmente grotesco, p. ex., foi o inferno de papelão que o Zé exibiu em Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967), o segundo da saga do coveiro em busca da mulher apropriada para gerar seu filho perfeito (com todo jeitão de ser o anticristo, mas ele não podia deixar isto explícito no Brasil de então). 

Dispor de orçamento mais elevado parece ter-lhe feito mal, pois botou cor, tornou-se mais pretensioso e... viajou na maionese. O charme dos primitivos é exatamente o de parecerem mesmo primitivos. Foi um erro ele ter tentado enfeitar o pavão.
O coveiro das telas não conseguiu gerar o anticristo...

Filmes de baixíssimo orçamento não precisam necessariamente deixar sua precariedade tão evidenciada que até despertam a compaixão dos espectadores. 

George A. Romero, recém-formado na Universidade de Pittsburg, trabalhava no depósito de uma grande produtora dos EUA e encontrou uma enorme quantidade de fitas virgens em preto-e-branco, não utilizadas porque os filmes coloridos haviam monopolizado o mercado.

Veio-lhe a ideia de aproveitá-las para fazer um filme de zumbis. Os mortos-vivos haviam desaparecido das telas após a primeira metade do século 20, quando a Universal Pictures os invocava vez por outra (predominavam os vampiros, lobisomens, múmias e cientistas loucos com seus respectivos monstros). 

Romero só introduziu duas novidades: seus zumbis eram resultantes de contaminação ambiental e não da macumba haitiana; e passam quase que o filme inteiro tentando matar seres humanos entrincheirados numa casa, assim como os índios dos westerns sitiavam os fortes apaches. 

Seu filme ressuscitou e revigorou um filão praticamente extinto, foi um dos que mais inspiraram derivações em todos os tempos e, apesar do orçamento precário e dos atores terem sido laçados por Romero entre seus amigos e ex-colegas de faculdade, permanece suportável até hoje; já os do Zé, sinceramente, assisti a todos os de seu personagem emblemático, mas jamais revi nenhum. 
...e o da vida real também não, mas Carluxo não ficou tão longe.

Só para comparar: meus cults de estimação, como Quando explode a vingança e O dia da desforra, seguramente já assisti mais de 20 vezes cada.

Não posso, contudo, deixar de mencionar um grande momento do Zé, ainda nos anos 60, quando o sucesso retumbante de À meia-noite levarei a sua alma indignou a caretíssima classe média de 1964 (o ano entra aqui como referência tanto de época quanto de mentalidade...).  

Lembrando as teorias de Freud sobre o retorno do reprimido, os cidadãos respeitáveis não suportaram ver, no espelho do Zé, impulsos inconscientes ou nem tanto que infestavam suas mentes e eles tudo faziam para impedir de se tornarem evidentes, pois escandalizariam seus pares (os quais decerto enrustiam os mesmíssimos impulsos). Então, o que ela fez foi, simbolicamente, quebrar o espelho. Caliban explica...

Muitos programas de rádio e TV davam vazão aos chiliques de tal classe média, malhando o Zé como se fosse um Judas em sábado de aleluia. Criticavam-no pela carga erótica não muito dissimulada dos seus filmes, pela violência de certos trechos, por submeter suas toscas atrizes a contracenarem com aranhas e cobras, etc. Qualificavam-no de doentio.

Como bobo ele nunca foi, até surfou nessa onda, pois não lhe passou despercebido que estavam lhe proporcionando publicidade gratuita como o Zé jamais teria dinheiro para pagar. Mas, evidentemente, isto também o incomodava.
"qualificavam-no de doentio"

Só que não resolveu destruir um país inteiro apenas para retaliar os rebentos das classes superiores que o esnobaram a vida inteira, como está fazendo o Bozo. Usou uma ferramenta mais inofensiva para se vingar, com a vantagem de tornar sua catarse pessoal lucrativa.

Trata-se do terceiro episódio do filme abaixo disponibilizado, O estranho mundo de Zé do Caixão (1968), no qual seu ersatz  Oãxiac Odez (o nome é um anagrama), depois de ser humilhado por um debatedor arrogante num programa de TV, faz com ele o que o Zé gostaria de ter feito com essa raça na vida real. 

Mas, como ele próprio não era nenhum demente, deu-se por satisfeito em apenas ficar matutando sobre isso com seus botões, até que acabou desabafando nas telas. (por Celso Lungaretti)
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