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sábado, 13 de maio de 2023

DE VOLTA AO PASSADO: LULA QUER AINDA MAIS CARROS NAS RUAS DO BRASIL

 


A
nova ideia de Jerico do governo Lula é dar subsídios bilionários para o setor automobilístico voltar a fabricar carros populares. Nova em termos, pois, como tudo em Lula 3, trata-se apenas da reprodução do que já é velho e ultrapassado. 

A ideia de carro popular foi lançada no começo do século XX por Henry Ford e visava alimentar o desenvolvimento industrial 2.0 dos EUA. O modelo produtivo associado acabou levando o nome de fordismo justamente em homenagem ao capitalista, representando uma evolução ao sistema industrial herdado da indústria 1.0 de origem inglesa. Ao invés de trabalhadores produzindo isoladamente toda a mercadoria, essa passaria a viajar ao longo de uma esteira, com cada trabalhador assumindo uma etapa produtiva. No caso, o carro, recém inventando à época, foi a mercadoria perfeita para o processo dada sua complexidade produtiva, com centenas de peças. 

Ford possuía a ambição de que cada estadunidense possuísse seu próprio automóvel, alimentando a indústria e fazendo explodir o consumo de tal produto. Daí aparecer verdadeiro culto ao carro, passando esse a ser associado ao American Way of Life, símbolo de independência pessoal e de prosperidade. No entanto, tal processo só foi possível às custas da ruína do transporte público, de despejar toneladas de poluição na atmosfera, de entupir ruas com milhões de veículos e de destruir o solo e as florestas. 

No Brasil, nas décadas de 1960-70, o mesmo fenômeno ocorreu na esteira da instalação no país da indústria automotiva estrangeira. O carrocentrismo se espraiou país afora com o governo construindo rodovias e expandindo malhas viárias nas cidades. Novamente, tais ações só foram possíveis ao custo da destruição ambiental - florestas inteiras eram destruídas para dar passagem às rodovias, cujas margens eram logo ocupadas por fazendeiros - e do transporte ferroviário, com a ruína de trens e bondes. 

O carro não está no congestionamento, ele é o
congestionamento!
 

O resultado de toda essa política de incentivo ao automóvel são congestionamentos monstruosos nas metrópoles brasileiras, deficiência crônica do sistema de transporte público e a asfixiante poluição atmosférica e sonora. Além do paradoxo de existirem pessoas com carro, mas sem garagem para coloca-los, pois não possuem moradia digna, tão pouco rede de esgoto. 

Por óbvio, dada a situação de calamidade do transporte coletivo brasileiro, o carro acaba se tornando uma necessidade. Contudo, tal calamidade de modo algum é fruto do acaso, mas um processo bem pensado pelos capitalistas brasileiros para induzir a compra dos automóveis e, assim, alimentar a coluna dorsal da indústria.

Em sua primeira passagem pelo governo, Lula fez explodir a frota de carros no Brasil, justamente com subsídios para a compra e para a produção, além de contar com o baixo custo produtivo à época, graças à valorização cambial. Sem a ajuda do câmbio, e com o setor automobilístico mudando sua matriz para os carros elétricos, Lula pretende apostar apenas no subsídio da indústria e em linha de crédito. Existe mesmo a proposta do FGTS ser dado como garantia para a compra do veículo, um absurdo incomensurável. 

Tal governo dito ambientalista vai na contramão do mundo ao incentivar a produção de carros, movidos a combustível fóssil, em detrimento do transporte público. Enquanto na Europa a malha ferroviária e o uso de meios alternativos de transporte é impulsionado, aqui aposta-se no passado. 

O transporte ferroviário foi sacrificado em prol
do automóvel. 

Por que não investir tais valores na ampliação do transporte público e mesmo na criação da Tarifa Zero? É aceitável um país com educação pública arruinada, com saúde deficitária, sem saneamento básico, sem moradia e com desemprego crônico ser um país de milhões de condutores?

Ao fim e ao cabo, a ação de Lula serve apenas para atender aos interesses da indústria automobilística e um setor muito pequeno do operariado industrial. Mais uma vez, o lulismo vai favorecendo soluções individuais, egoístas, para os problemas sociais, só não poderá depois se espantar quando os políticos do cada um por si novamente tomarem à frente da preferência popular. (por David Emanuel Coelho) 


sábado, 7 de setembro de 2019

GOVERNO OU MOSTRENGO IDEOLÓGICO? O PRESIDENTE TEM VIÉS DITATORIAL E O GURU ECONÔMICO É UM LIBERAL ANACRÔNICO – 10

continuação deste post)
Sobre as consequências sociais e institucionais da redução mundial da massa global de salário e mais-valia – Há uma relação econômica que grande parte dos empresários não entende e cuja resultante os economistas (os mais abalizados) não abordam, embora a conheçam.

Trata-se da consequência social-institucional da redução dos custos com capital variável, dos salários, decorrentes do uso da maquinaria, principalmente da racionalidade de procedimentos e robótica cibernéticas aplicadas, que promove o aumento ou permanência do lucro de cada empresário particular que a usa na produção de mercadorias, reduzindo a quantidade per capita da mercadoria força de trabalho para cada unidade de valor produzida, mas que, concomitantemente, reduz a massa global de valor e de extração de mais-valia.

Este é o nó górdio da crise irremediável das sociedades mercantis, cujas evoluções atingiram todos os quadrantes do mundo (não há nenhuma nação no planeta que não seja mediada pela forma-mercadoria), e que vivem os impasses próprios às contradições inconciliáveis entre a forma e o conteúdo.
Tornou-se possível um operário tecnológico, no comando de uma máquina computadorizada ou de grande porte (que elimina vários postos de trabalho abstrato), obter um ganho bem superior ao de um operário menos instruído, e isto pode causar a falsa impressão de que os salários estão subindo. Mas a soma da massa de salários estará decrescendo.

Gasta-se, neste caso, mais com um único trabalhador na produção de mercadorias, e menos com o que antes se gastava com vários trabalhadores, e isto ainda com o aumento da produtividade per capita. 

Vale, contudo, ressaltar que, mesmo no universo de tais trabalhadores profissionalmente mais instruídos, com o passar do tempo e com a concorrência pelo emprego permanece uma tendência de redução dos seus salários (o salário de um piloto de avião de carreira, é hoje menor do que o era há 50 anos).

Trata-se da constatação prática do vaticínio marxiano segundo o qual há uma tendência irremediável, irreversível e impositiva de redução salarial dos trabalhadores. Tese que se coaduna com outra de Marx relativa à tendência de redução da taxa de lucro do capital empresarial objetivando a manutenção do valor da massa de lucros. 

É a inevitável autofagia da concentração de capitais nas mãos dos vitoriosos da guerra da concorrência de mercado, que implica a crescente pauperização do proletariado, dificultando-lhe cada vez mais a obtenção do emprego que representa a sua ruína. 

Tal como um toxicômano busca no entorpecente o ilusório prazer que o escraviza, o trabalhador que foi levado ao desemprego (agora, principalmente por causa da obsolescência do trabalho abstrato, a qual vem crescendo incessantemente desde a expansão capitalista) disputa com seus companheiros de infortúnio a batalha para todos inglória pela sobrevivência familiar, na busca pelo emprego que o escraviza.   

Ora, se a massa global de valor é reduzida pela obsolescência do trabalho abstrato (causa do desemprego estrutural pela defasagem entre a dispensa de trabalhadores e surgimento de nosso nichos de trabalho, que representa o ápice do limite de expansão capitalista, momento único da história do capital), obviamente o Estado, cujos impostos incidem sobre essa mesma base cada vez mais acanhada, tende a se fragilizar economicamente. 

Surge dessas contradições inevitáveis a debilidade financeira do Estado, razão de ser de um dos conceitos básicos do liberalismo, que quer o Estado mínimo (por ele considerado indispensável para o capital) para cumprimento eficaz das funções de regulação e manutenção da ordem de exploração capitalista a rédeas soltas. 
As guerras constituem-se, pois, numa forma genocida de eliminação de vidas consideradas supérfluas para o funcionamento social capitalista, razão pela qual, após a depressão econômica mundial iniciada a partir da segunda revolução industrial da maquinaria aliada aos procedimentos de produção em série (taylorismo fordista) no início do século 20, resultaram em dois conflitos mundiais com extermínio em massa de seres humanos. 

Mas a persistência, e até crescimento, de um contingente expressivo da população faminto e sem meios de subsistência graças ao desemprego estrutural, é fator de ebulição social incontrolável, razão de ser dos descréditos cíclicos de quantos governos assumem o poder político (seja sob bandeiras social-democratas, liberais democratas ou de uma esquerda que se diz proletária mas prática o capitalismo de estado, chegando inclusive a manter seus governos pela força das armas).  

O governo do presidente Boçalnaro, o ignaro, no qual coexistem em caótica desarmonia liberalismo ortodoxo, ranços totalitários, fundamentalismo religioso, idiossincrasias astrológicas (cada vez mais ridicularizadas), visão ecológica predatória e declarações misóginas aberrantes, constitui-se na receita certa para o isolacionismo brasileiro no concerto das nações e o aprofundamento das nossas mazelas sociais. 
Considero, entretanto, que a solução dos problemas fundamentais do povo brasileiro não será dada pela mera substituição de um governo cujas anomalias ideológicas saltam aos olhos por um governo minimamente articulado e civilizado, mas também obediente às atuais regras do jogo da produção mercantil. No máximo, poderá amenizar tais problemas. 

A solução que está a impor-se é uma nova ordem de organização social de base e a adoção da produção tecnológica ecologicamente sustentável, racional, voltada para a satisfação das necessidades de consumo, com o abandono completo da forma-mercadoria. 

Tais proposições podem a muitos parecer utópicas e inexequíveis no curto prazo. Mas o que é a utopia, quando a realidade nos impõe uma aproximação com a racionalidade, obviedade e firmeza da teoria científica mais abalizada e coadunada com o sentimento humanista mais fraterno?! 

É hora de nos alçarmos, de náufragos da utopia, a sobreviventes lúcidos da derrocada capitalista, forjando a emancipação humana. 

Por Dalton Rosado
Vivemos a era da revolução emancipacionista, cujos conceitos, métodos e comportamentos individuais e coletivos devem ser depurados da imensa carga de preconceitos, mesquinharias e irracionalidades que nos foram impostas e aculturadas por séculos de escravismo.

Isso significa superarmo-nos a nós mesmos. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

A ECONOMIA MUNDIAL EM RITMO DE CONSTANTE BLACK FRIDAY

"A teoria revolucionária é, agora, inimiga de toda ideologia
revolucionária, e sabe que o é (...). No mundo realmente
invertido, o verdadeiro é o momento do falso"
(Guy Debord, A sociedade do espetáculo)
.
A chamada Black Friday, evento com o qual o comércio tenta se livrar dos estoques encalhados, pode ter, em termos mais amplos, um significado (e leitura) oposto: a dessubstancialização do valor das mercadorias, ou seja, a deflação mundial do valor e dos preços.

Isto porque, conforme explicou Marx, o capital é uma contradição em processo. Então, a mecânica da mediação social pela forma-valor (relação social indutora do capitalismo) não pode ter vida perene e seu desfecho será catastrófico, o que já se faz sentir pelos sintomas que ora nos afligem, com intensidade cada vez maior.

A dessubstancialização do valor das mercadorias é o fenômeno da economia política que mais evidencia o seu aspecto contraditório e, portanto, prenunciador de uma situação falimentar futura e do colapso social sob suas bases, caso não seja superada em tempo. Daí a crítica à sua perenidade se comprovar como consistente ao longo do tempo.   

Tudo se resume à compreensão de que máquina não produz valor, embora aumente circunstancial e episodicamente o lucro localizado do capital industrial que a introduz na produção industrial de mercadorias.

Quando um único operador é suficiente para controlar a produção de grandes máquinas (ou do conjunto de grandes máquinas de uma seção ou linha de montagem), há uma exacerbação da extração de mais-valia.  

O dito cujo pode receber um salário bem maior que a média individual de sua profissão no passado, mas foi substancialmente reduzido o número dos explorados a fornecerem mais-valia para o capitalista. Portanto, isto provoca uma queda da massa global de valor e de mais-valia.

Os leigos (e os economistas burgueses também) geralmente consideram que a redução do preço das mercadorias no mercado, decorrente da queda do valor das mesmas na produção, proporciona aos trabalhadores assalariados um maior poder de compra e consequente melhora das suas condições de vida. Henry Ford, há 110 anos, via nisto uma grande virtude do capitalismo. Mas quem sempre esteve certo é o velho Marx, ao afirmar o contrário nos Grundrisse, quase meio século antes.  

Trocando em miúdos: a queda do valor na produção de mercadorias proporcionado pela introdução da tecnologia que dispensa esforço humano (leia-se trabalha abstrato, assalariado), quando atinge uma proporção maior do que a criação de novos empregos, esbarra no limite de sua indispensável expansão e entra em colapso. É o que ocorre hoje, em escala mundial.

Aí, ao contrário da compreensão equivocada, o aumento do lucro localizado não provoca mais riqueza abstrata global e correspondente aumento da massa global de valor e de mais valia. Isto porque a queda dos custos de produção reduz o valor global das mercadorias e, consequentemente, trava uma expansão da produção que compensasse tal queda. Assim, definha todo o organismo econômico por falta de renovação aumentada e vital do seu sangue: o valor. 
Por outro lado, o aumento da capacidade de compra dos poucos trabalhadores agora incumbidos da referida manipulação das máquinas na produção não compensa a massa de salários dispensada (quanto mais qualificada é a mão-de-obra, mais se agrava o problema, diferentemente do que se ouve diariamente da boca dos políticos demagogos).

Tal fenômeno acarreta o desemprego estrutural que atinge hoje grande parte da população e reduz a zero a capacidade de compra desse contingente, provocando um fenômeno inverso àquele afirmado por Henry Ford e seus adeptos.

Ademais, definha a necessária irrigação de outros setores da economia em razão da falta do tal sangue monetário (valor válido, advindo da produção de mercadorias) graças à redução da massa global de valor, prenunciando:
a) a falência do Estado, que vê reduzida a arrecadação dos impostos extraídos da própria economia; e
b) a falência do sistema financeiro, que aufere juros da venda da mercadoria dinheiro (
capital fictício, Marx) para a chamada economia real em depressão, e vê o capital emprestado virar fumaça graças ao aumento insuportável do nível geral de inadimplência. 
A redução do valor e do preço das mercadorias, duas coisas distintas que se correlacionam, não beneficia os assalariados de baixa renda, posto que a concorrência de mercado exige permanentemente uma diminuição dos salários reais, que se dá: 
  • por meio da inflação (nos últimos 50 anos o dólar estadunidense, moeda internacional, desvalorizou 600%);
  • pela demissão e admissão de novos trabalhadores para as mesmas funções, com salários menores; ou 
  • pela transferência da produção para regiões de baixos salários substitutivos, como a China, Índia, Indonésia, Brasil, etc.
É, portanto, ilusória a ideia de que a queda dos preços melhora a vida da maioria dos trabalhadores. Em Detroit, berço da indústria automobilística estadunidense, os bisnetos dos fundadores da Ford Co. estão desempregados, desesperados e votando no Trump, desejosos da volta a um passado que o vento levou. Querem apagar o fogo com gasolina.  

O motivo, claro, é que o capital necessita de constante margem de diferença entre o trabalho necessário (pago ao trabalhador) e o trabalho excedente (não pago ao trabalhador na sua faina diária); daí retira o lucro necessário à sua acumulação permanente, sem a qual ele morre. Como há uma redução do valor e preço das mercadorias, opera-se uma forçosa redução dos salários como forma de manutenção da atividade produtiva. Um jogo matemático corrupto cuja lógica aponta para o colapso.

Este é um dos entraves que está ocorrendo na produção de mercadorias, de vez que nem sempre tal equação (redução de salários necessários e manutenção do trabalho excedente) se viabiliza no mercado. 

A produção trava quando não há viabilidade econômica da produção, fato que é cada vez mais constante e que causa depressão econômica. Somente se produz o que tem viabilidade econômica de mercado, não interessando ao patronato se isto provoca fome e desespero social. Assim é o capitalismo.

Tudo conspira contra a estabilidade das relações mercantis.    

O limite interno de expansão do capital foi previsto por Marx, quando vaticinou que a redução do trabalho abstrato a uma base miserável em quantidade (desemprego estrutural) e qualidade (capacidade do poder de compra em valor), devido à sua substituição preponderante pela máquina, faria voar pelos ares todo o sistema produtor de mercadorias. E tal limite foi atingido agora.
Por Dalton Rosado

Vivemos o momento de uma Sexta-feira Negra mundial diária, a qual, longe de auspiciosa, é sintoma de deflação sistêmica do valor e sinal dos últimos suspiros da sociedade mercantil capitalista, apesar desse moribundo demandar tempo para descer à sepultura (e de querer nos arrastar juntos para a tumba!).

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

'SALVADORES DA PÁTRIA' DE ONTEM E HOJE

Por Dalton Rosado
A história nos mostra que os salvadores da pátria nada mais são do que personalidades criadas e cultuadas a partir de uma determinada conjuntura desfavorável, na qual se estabelece o mito da capacidade individual e personalíssima de reversão das dificuldades existentes; uma espécie de guia iluminado. A emancipação humana é conceito de horizontalidade, de coletivismo, de conjunto, e deve prescindir dos guias iluminados. 

A esperança do surgimento do Messias salvador (não confundir com o Bessias assessor...) está assentada no início do surgimento da segunda natureza humana, também conhecida como era da razão, na qual os seres humanos passaram à elaboração do pensar para comandar o seu agir, ainda que estse pensar primitivo, em formação, comumente pudesse levá-lo à negação da própria racionalidade. Estamos ainda no estágio de uma racionalidade inferior, como decorrência da fusão entre os resquícios de uma primeira natureza humana (irracional), e uma segunda natureza humana (racional, mas ainda em evolução).

Os sintomas do estágio inferior desta segunda natureza humana se manifestam na crença de que a solução dos nossos problemas dependa da ação externa de alguém, e daí transferirmos para o Estado e o seu segmento político a condução dos nossos destinos, numa transferência das responsabilidades que são nossas. A aceitação do engodo da democracia representativa como algo bom é a explicitação desse fenômeno.

Após a 1ª guerra mundial veio a depressão capitalista de 1929/30, uma decorrência das ebulições causadas pela segunda revolução industrial (também conhecida como revolução fordista), com seus modernos critérios de produtividade de mercadorias), e o mundo se viu face à disputa de hegemonia econômica entre estados nacionais.
Pintura mostrando Hitler no início de sua trajetória

A Alemanha, humilhada após a guerra de 1914/1918 e amargando as condições draconianas que os vencedores lhe impuseram, com a agravante de que estava em curso a primeira crise econômica mundial, deu azo à criação do nazismo, doutrina político-militar que tinha como bandeira a restauração da supremacia ariana sob o disfarce da restauração da dignidade nacional alemã. 

A melhora das condições econômicas da Alemanha, graças à sua reconhecida capacidade de produção tecnológica, caiu como luva nos conceitos capitalistas prevalecentes da segunda revolução industrial e um oportunista salvador da pátria, Hitler, foi alçado ao comando supremo da nação, com a ajuda do capital industrial (não devemos esquecer que o próprio Ford e muitos outros industriais tinham admirações pelo führer e seus métodos). Deu no que deu. 

Do outro lado, o marxismo-leninismo revolucionário vitorioso inaugurou na Rússia czarista atrasada e devastada pela 1ª guerra mundial a entronização do capitalismo de estado sob o disfarce de uma pátria com isonomia de direitos ao seu povo, mas que nada mais foi do que o fechamento de suas fronteiras para fazer frente ao capitalismo liberal burguês internacional, somente possível graças às suas dimensões continentais. 

Tal hibrido do marxismo posteriormente negou o pensamento marxiano mais consequente e, embora tenha colhido êxitos iniciais importantes (tirando a Rússia do atraso czarista e tornando possível o enfrentamento eficaz da invasão nazista do leste europeu na 2ª guerra mundial), gerou também, no seu bojo, Josef Stalin, outro tirano salvador da pátria, idolatrado como guia genial dos povos por seus áulicos e responsável pela morte de milhões de verdadeiros revolucionários russos (bolcheviques e mencheviques), vitimas de perseguições políticas. 
Idolatria a Stalin, o exterminador da velha guarda bolchevique

O resultado final foi o estuário natural da negação aos postulados marxianos e a capitulação à economia de mercado internacional, dando sequência ao capitalismo de estado intramuros.    

Fiquemos apenas com esses dois exemplos mais recentes: Hitler e Stalin, como prenúncio do que pode vir a seguir. 

A crise atual do capitalismo não é coisa de pouca monta; tem uma natureza diferenciada das anteriores e é muito mais complexa e abrangente. Os números negativos da economia mundial estão deixando perplexos os grandes gestores das finanças planetárias, que conhecem muito bem o significado dos impasses intransponíveis que se avolumam sob a lógica capitalista. 

A prevalecerem os critérios da lógica econômica do capital, a humanidade poderá ser tragada por salvadores da pátria do tipo Donald Trump, nos EUA; da jovem direitista Frankie Petry, do Partido Alternativa para a Alemanha, para quem os refugiados merecem ser tratados a tiros; do ultradireitista inglês Nigel Farage, do Partido da Independência do Reino Unido; do ultranacionalista francês Le Pen, (que considera o Holocausto apenas um detalhe na 2ª guerra mundial; e por aí vai. 
Muitos preveem um governo fascistoide caso Trump vença

A instabilidade se alastra. A Síria, a Turquia, a Ucrânia e nações atingidas pela chamada primavera árabe, além de vários países asiáticos, mostram vieses ditatoriais como consequência da a ebulição da crise econômica mundial.  E crescem as revoltas do fundamentalismo religioso do tipo Estado Islâmico, Al Qaeda e Boko Haram. 

O mundo ferve em conflitos nacionalistas e barbárie urbana (vide a escalada das mortes por assassinatos no Brasil).

Aos revolucionários emancipacionistas, cabe o alerta contra a passividade diante do crescimento disso tudo e das posturas conservadoras dos salvadores da pátria que, com o discurso demagógico da retomada do estado do bem-estar social perdido, conseguem cooptar as vítimas da degringola em curso.

Estas continuam sendo iludidas, pois estão desesperadas e têm saudades do período de expansão do sistema produtor de mercadorias (que sempre foi gerido por esses mesmos títeres, verdadeiros lobos em peles de cordeiros). Ao invés de apontar o caminho do futuro, eles pregam a volta a um passado que deve e merece ser sepultado.

Não é por menos que, no Brasil, figuras como Jair Bolsonaro, Ronaldo Caiado e cientistas políticos ultradireitistas ocupam cada vez mais espaços, enquanto vários comentaristas agora sentem-se confortáveis ao fazerem a defesa pública dos inclementes postulados conservadores, os quais, aliás, nunca foram eliminados da estrutura econômica e fundiária do Brasil.
Bolsonaro dialogando com o franzino senador Randolfe

O medo e a passividade, aliada à aceitação do discurso agressivo dos salvadores da pátria (sempre hábeis em encobrir suas pretensões inconfessáveis com o manto do nacionalismo intolerante, xenófobo e racista), permitiram o avanço de ideologias segregacionistas como a que levou ao extermínio nos campos de concentração milhões de judeus, ciganos, socialistas, homossexuais e prisioneiros de guerra de várias nacionalidades, vítimas dos genocídios da ultradireita. 

Como antídoto artístico, termino este artigo citando um longo trecho da conhecida poesia de Eduardo Alves da Costa, mais atual do que nunca, intitulada No caminho, com Maiakóvski, por alguns atribuída erroneamente a Brecht. Diz:
"Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história. Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. 
Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão e não dizemos nada. 
Até que, um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm, a ninguém é dado repousar a cabeça, alheia ao terror. Os humildes baixam a cerviz: e nós, que não temos pacto algum com os senhores do mundo, por temor nos calamos".

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A BATALHA DO RIO DE JANEIRO

Canso de repetir: a criminalidade é intrínseca ao capitalismo.

Porque as molas mestras do capitalismo são a ganância, a busca do privilégio e da diferenciação, e o consumismo.

Ter cada vez mais posses e recursos materiais.

Competir zoologicamente com os semelhantes, no afã de se colocar em situação superior à deles.

Mitigar todas as suas insatisfações adquirindo e desfrutando coisas.

E se relacionando com os outros seres humanos como se eles fossem também coisas a serem desfrutadas; coisificando-os, enfim.

Com isto, nunca é preenchido por completo o vazio da irrealização, sempre falta algo e sempre o que falta é mais importante do que o já conquistado. O homem moderno é um Cidadão Kane que nunca encontra o  rosebud.

Pois os seres humanos só se realizam plenamente na coexistência cooperativa, solidária, harmoniosa e amorosa com outros seres humanos.

O capitalismo é um sistema perverso, que se alimenta do desequilíbrio e da desarmonia.

Que não garante a todos o necessário para todos, embora meios haja para tanto.

Que gera sempre, como uma secreção, seu exército industrial de reserva, seus excluídos, seus miseráveis.

Eles são o resultado da mais-valia, que continua firme, forte e toda poderosa.

Apenas sofisticou-se, ocultando-se atrás dos hologramas projetados pela indústria cultural; o grande truque do diabo é fingir que não existe.

A mais valia continua dividindo a humanidade em exploradores e explorados.

Continua estabelecendo graduações entre os explorados, de forma que eles mirem apenas o degrau superior e não a sociedade sem graduações nem classes; que nunca vejam a floresta por trás das primeiras árvores.

O dado novo é que alguns dos que estavam bem embaixo perceberam a inutilidade de tentarem realizar seus sonhos consumistas subindo a escada, degrau por degrau.

Descobriram atalhos para passar ao lado dos degraus e chegar logo ao topo.

Ironia da História: o capitalismo passou à fase das corporações, da liderança compartilhada, tornando quase impossível que grandes empreendedores ergam impérios do nada (Bill Gates é uma exceção que confirma a regra), mas a criminalidade forneceu uma válvula de escape para tais indivíduos.

Pablo Escobar foi o Henry Ford dos novos tempos. E outros não conhecemos porque os néo-Escobares perceberam que não lhes convinha alardear seu poderio.

Mas, a brecha que existiu era provisória e começa a ser fechada: também nesta modalidade de negócios o capitalismo selvagem está sendo substituído por práticas criminosas mais eficientes, com melhor relação custo-benefício.

Vale reproduzir a ótima avaliação de Luiz Eduardo Soares, ex-secretário nacional de Segurança Pública (2003) e ex-coordenador de Segurança, Justiça e Cidadania do RJ (1999/2000), no seu artigo A crise no Rio e o pastiche midiático:
"O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção.

"Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios – as bandas podres das polícias - prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.

"Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção?
"O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania. A estrutura organizacional de ambas as polícias [a civil e a PM] impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável".
No fundo, os traficantes dos morros sempre foram complementares ao capitalismo e dele indissociáveis, fornecendo aquilo de que muitos explorados necessitam para continuar suportando sua existência insatisfatória.

Mas, o seu  modelo de gestão  caducou e outros  empreendedores, que já eram seus sócios, estão prontos a substitui-los com mais discrição e eficiência empresarial: os policiais-bandidos.

Desesperados por perceberem que perdiam terreno dia a dia, partiram para um desafio insensato, atingindo um dos valores mais sagrados da classe média: o automóvel.

Foi o suficiente para desencadear uma bestial demonstração de força do Estado, com seu poder de fogo infinitamente superior.

Morreram muitos inocentes no fogo cruzado, o cidadão comum sofreu prejuízos e enfrentou transtornos, a indústria cultural faturou em cima das manchetes empolgantes, traficantes foram presos ou mortos -- e a única certeza é de que empresários mais aptos herdarão os negócios dos que estão sendo excluídos do mercado.

De quebra, a mentalidade policialesca ganha reforço e penetra mais fundo na cabeça dos videotas: a repressão é o que nos salva de termos nossos carros queimados!

E dá-lhe mais repressão, mais tropas de elite! A fascistização da sociedade vai avançando imperceptivelmente, naturalmente.

Antes, gatos escaldados por 1964, os mais sensatos queriam as Forças Armadas longe das questões sociais, defendendo apenas o Brasil dos seus inimigos externos.

Agora, já se aplaudem os blindados da Marinha subindo o morro.

Como tantos aplaudiram a defesa da tortura e das truculências policiais num filmeco repulsivo.

De toda essa tempestade de som e fúria, o que restará?

O Estado venceu, como era de se prever, a  Batalha do Rio de Janeiro.

Que só não foi de Itararé porque houve mortos e feridos. Mas, não decidiu guerra nenhuma.

Decidiria se os traficantes vencessem. Mas, eles nunca venceriam. Nem aqui, nem na Colômbia que os pariu. Pelo contrário, para eles significou o canto do cisne.

O Estado não quer, verdadeiramente, acabar com o tráfico. Consentirá que, aos poucos, reassuma a antiga magnitude, sob nova direção e com outra metodologia operacional.

Só teremos solução real quando: 
  • identificarmos o capitalismo como o verdadeiro inimigo, oculto por trás dos espantalhos que ele, em cada instante, tenta fazer crer que sejam responsáveis por todos os males. Escobar, Castro, Bin-Laden, Saddam, Chávez, Ahmadenijad, há sempre um na berlinda, sem que nada melhore quando sai de cena, pois a indústria cultural imediatamente o substitui por outro, para que as ilusões e a alienação sejam mantidas;
  • e, consequentemente, quando nos mobilizarmos para dar um fim ao capitalismo, antes que -- condenado pela História e cada vez mais devastador em sua agonia -- seja ele a nos levar juntos para a destruição, ao aniquilar as bases naturais que sustentam a vida humana no planeta.
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