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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

QUE MECANISMOS INCONSCIENTES LEVAM ALGUÉM A SE RESIGNAR AO INACEITÁVEL E A CONDESCENDER COM O ABOMINÁVEL?

Toque do editor
Quando vejo a facilidade com que cidadãos supostamente racionais começam a relativizar a desumanidade e a barbárie, flertando com a ideia de votarem num presidenciável que corporifica a distopia de deletarmos os avanços civilizatórios do últimos séculos, voltando às trevas do pré-iluminismo, vem-me logo a percepção de que tal aberração só pode ser explicada por mecanismos inconscientes.

Daí o interesse que me despertou um artigo desta semana de Claudia Hammond, da BBC Future, sobre a surpreendente razão pela qual as pessoas mudam de ideia.

É demasiadamente longo para um blog, então selecionei os trechos principais (quem preferir sua íntegra, tem a opção de acessá-lo aqui):                                                    .
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Somos mais inconstantes do que pensamos.

A pesquisadora Kristin Laurin, da Universidade de Colúmbia Britânica, no Canadá, analisou a conduta das pessoas antes da venda de garrafas plásticas de água ser proibida em San Francisco, nos EUA. A medida não contava com amplo apoio da população, mas entrou em vigor mesmo assim.

No dia seguinte à implementação, sua equipe voltou a avaliar a postura dos moradores. E a percepção já tinha mudado: as pessoas estavam menos contrárias à ideia. Não tinha dado tempo para que ajustassem seu comportamento aos aspectos práticos da proibição. Então, parecia que a opinião delas havia mudado por si só.

Em outras palavras, racionalizamos tudo aquilo que nos faz sentir de mãos atadas. É como se liberássemos espaço do cérebro para continuar com nossas vidas, ponderando que, no fim das contas, não é tão ruim assim. Laurin compara esse mecanismo a um sistema imunológico psicológico.

Hoje, é consenso que o fumo deve ser proibido dentro de hospitais – mas, antes algumas pessoas eram contra a proibição

Na sequência, a pesquisadora analisou a opinião da população sobre a proibição de fumar em parques e pátios de restaurantes de Ontário, no Canadá, em 2015. Ela descobriu que as pessoas não mudaram apenas de posição após o veto – como também apresentaram outra versão sobre seu próprio comportamento.

Inicialmente, os fumantes disseram à equipe de Laurin que fumavam cerca de 15% das vezes em espaços públicos. Posteriormente, estimaram que a frequência era de apenas 8%. Ou seja, ajustaram as próprias memórias, alterando suas perspectivas, para se convencerem de que o efeito da proibição não era, afinal, tão desfavorável.
Em seguida, veio o maior teste: a avaliação do presidente americano Donald Trump antes e depois da posse.

Trump tem atualmente a taxa de aprovação mais baixa de qualquer presidente dos EUA desde a 2ª Guerra Mundial. Era de se esperar que quem não votou no candidato republicano tenha antipatizado ainda mais com ele quando assumiu a Casa Branca.

Mas não foi isso que aconteceu. A equipe de Laurin descobriu que, alguns dias após a posse, essas mesmas pessoas estavam se sentindo mais otimistas em relação ao novo presidente.

Uma possível explicação seria que a confiança em Trump foi alavancada por seu discurso de posse. Mas, segundo Laurin, não foi o caso.

'Na verdade, verificamos que mesmo as pessoas da nossa amostra que disseram que ele foi muito mal na posse e odiaram a forma como ele tinha se comportado, passaram a ter uma visão mais positiva', disse a pesquisadora..

'Isso sugere, mais uma vez, que não é algo que você aprenda quando uma nova política entra em vigor ou um novo líder assume.' Em vez disso, 'seu cérebro está lutando para fazer você se sentir bem e permitir que siga adiante com sua vida', esclarece.
Berlusconi, Trump e Bolsonaro: bota pesadelo nisso!
É importante ter em mente, no entanto, que não é que os indivíduos que não suportavam Trump decidiram amá-lo quando ele assumiu o governo – mas, sim, começaram a antipatizar um pouco menos com a figura dele.

Portanto, não se trata simplesmente de se acostumar a uma nova situação. As pessoas realmente mudam de ideia. É como se não fossem capazes de suportar continuar sentindo raiva e, subconscientemente, procurassem maneiras de se convencer de que tudo vai ficar bem.

Laurin não acredita que isso seja feito intencionalmente. Segundo ela, é uma maneira de liberar recursos cognitivos para tocar a vida. Simplesmente não há tempo para ficar com raiva de tudo.

É claro que, em alguns momentos da história, esse mecanismo psicológico pode ter tido um lado obscuro: talvez tenha encorajado as pessoas a tolerar regimes dos quais discordam veementemente.
O adágio predileto dos amorais e dos omissos

Esperamos que um acontecimento futuro, seja positivo ou negativo, nos faça sentir diferentes – mas isso não acontece

Em situações menos extremas, essas mudanças de ideia se enquadram em pesquisas anteriores sobre o viés de impacto: o viés cognitivo que nos deixa mal ao prever como vamos nos sentir emocionalmente em relação a determinados eventos que podem acontecer no futuro.

Uma equipe da Universidade Harvard, nos EUA, realizou dezenas de experimentos mostrando que, quando imaginamos acontecimentos futuros, esperamos o pior dos eventos ruins e o melhor dos bons. Na realidade, os eventos negativos não nos fazem sentir tão mal, e os positivos não nos fazem sentir tão bem.

A dificuldade é que, quando simulamos um acontecimento futuro na cabeça, temos a tendência de considerar apenas as características mais importantes. 

Para um evento negativo, isso quer dizer as piores partes. Ir ao médico para um exame clínico pode não ser muito agradável, mas nem todas as etapas da consulta são inconvenientes. Algumas são neutras: ler uma revista na sala de espera ou pendurar o casaco no cabide, p. ex.

Quando imaginamos um evento futuro, tendemos a esquecer as partes neutras, como ler uma revista na sala de espera de um consultório médico.
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E enquanto especulamos que, se algo grave acontecer, não vamos conseguir resolver, ou se algo positivo ocorrer, nossas vidas serão transformadas, em ambos os casos seremos as mesmas pessoas que somos hoje. Após o impacto inicial, nossas emoções vão retroceder e nos sentiremos um pouco melhor ou pior do que agora.

O mesmo acontece quando somos afetados por uma política ou situação com a qual não simpatizamos. Se for possível, fazemos as pazes com o que acreditávamos ser mudanças negativas.

Por um lado, o cenário é bastante otimista: tentamos encontrar o lado bom em todas as situações. Mas será que os formuladores de políticas públicas podem fazer o que bem entenderem e vamos todos achar que está tudo bem? Não exatamente. Se fosse assim, os governos nunca seriam depostos ou derrubados por revoluções.

Embora estejamos preparados para nos sentir confortáveis com situações das quais discordamos, uma massa crítica de oposição pode fazer a diferença

Podemos racionalizar aquilo que é difícil de mudar, mas uma vez que uma massa crítica apoia uma causa, as pessoas param de racionalizar o status quo, sentem que podem fazer a diferença porque não estão sozinhas e começam a fazer campanhas por mudanças.

Mas, quando a gente não consegue mudar algo, fazer as pazes com o mundo pode ser uma parte importante para o nosso bem-estar."
Outra explicação possível: estaríamos vivendo numa fase de
predomínio de pessoas de matéria plástica. Zappa explica.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

QUEM SE SUBMETE PASSIVAMENTE À ESCALADA DE ABUSOS ACABA ASSISTINDO IMPOTENTE À PRÓPRIA DESTRUIÇÃO

Por Dalton Rosado
Na fábula da rã do escritor suíço Olivier Clerc, o batráquio, ao cair num caldeirão de água fria e limpa, instantaneamente fica feliz com seu destino.

Logo mais alguém acende o fogo para aquecer o caldeirão e a água começa a atingir temperatura mais agradável para a rã. Melhor ainda!

Gradativamente a água fica mais quente e ela vai tentando se acomodar à nova temperatura até que, atingido o ponto de ebulição, morre cozida. 

Vivemos um momento social no qual se nos estão sendo impostas as perdas das poucas conquistas anteriores em nome da tentativa de manutenção do sistema.

Os aposentados do INSS têm uma pensão miserável depois de trabalharem por toda uma vida e agora lhes é proposto um aumento do tempo de contribuições para a aposentadoria como forma de sobrevivência financeira da dita cuja (se estivéssemos no poder, como nós comportaríamos diante da imposição da lógica financeira?).

Muitos coitadezas dependentes do SUS morrem nos corredores dos hospitais sem que lhes seja prestado atendimento minimamente decente.

Os que precisam acionar a justiça comum e, principalmente, os juizados de pequenas causas não têm os seus reclamos apreciados em tempo hábil, porque não há estrutura funcional que garanta a fluidez dos processos.
A íntegra desta reportagem pode ser acessada aqui

A violência urbana faz com que vivamos cercados por grades de ferro e eletrônicas, aparelhos de filmagens, guardas armados, como se estivéssemos em prisões domiciliares; enquanto isto, a polícia faz greve.

Ainda chocados com o massacre bestial de 56 presidiários em Manaus, ficamos sabendo que outros 33 presidiários foram mortos em Roraima, numa prova inconteste de que há uma situação generalizada de descontrole. O presidente Temerário e a ministra do STF se reúnem, perplexos, diante da explicitação da barbárie. 

Os professores fazem greves em todos os estados da Federação, reivindicando salários dignos e condições de trabalho adequadas para a função fundamental de educar a grande maioria da população.

A corrupção política é escancarada no noticiário televisivo, envolvendo todos os partidos políticos, sem exceção (e sem que daí decorra um questionamento institucional!). 

De um modo infelizmente majoritário, as pessoas continuam achando que o capitalismo é ontológico, natural.

Há também os que, mesmo sabendo tratar-se de uma etapa histórica, não se colocam a possibilidade de advento de outra etapa, pois ainda veem a atual como um ganho civilizacional.  

Existe, por último, uma porção bem menor de pessoas que, cientes da natureza destrutiva e autodestrutiva do capitalismo, o querem superar.

O capital, como as famosas pirâmides financeiras, promove inicialmente uma sensação de crescimento eterno, até a hora da verdade, quando a falência se torna evidente, com prejuízos generalizados. 

Daí tantas pessoas, por inconsciência ou comodismo, quererem apenas reformar o capitalismo e torná-lo menos desumano. O caminho ideal, na visão elas, seriam mudanças (que equivalem a meros paliativos) sem uma ruptura com a lógica vigente. 

A suposição de que o capitalismo tenha jeito não passa de um rotundo engano, mas é compreensível que as pessoas não se deem conta da sua negatividade, uma vez que nem na mídia, nem nas escolas e universidades (com raras exceções) se aprofunda essa questão. O sistema capitalista é intrinsecamente totalitário, ainda que se apresente sob o manto de uma bandeira democrática; esta nada mais é do que a expressão da negação da liberdade.

A passividade decorre da percepção incorreta da realidade em que vivemos e sob a qual padecemos.. 

Se a chamada esquerda estivesse no poder burguês, como administraria os problemas acima citados, cuja realidade e dramaticidade saltam aos olhos, diante da impositiva lógica econômico-financeira? 

Estaríamos traindo nossos principais valores e bandeiras caso deixássemos de negar o poder e de nos insurgirmos contra ele. Mas, depois que se jura a Constituição e se conhecem as mordomias dos palácios, é muito difícil voltar à austeridade revolucionária; o reformismo oferece todo tipo de paga e de mimo para quem tem vontade fraca.

São tantas as mazelas sociais do capitalismo que não caberia enumerá-las neste espaço. Mesmo assim, a propaganda oficial do Tribunal Superior Eleitoral ainda nos incentiva (e obriga) a votar como exercício da cidadania democrática! 

A passividade de ação é tão negativa como a ação inconsciente na qual não se saiba para onde ir, como ir e pra que ir. A revolta contra as perdas que nos impõem não podem vir acompanhadas de reivindicações que se constituem em causa dos problemas (mais empregos, p. ex.). 

Os exemplos históricos estão aí para nos provar. Os heroicos ideais da revolução bolchevique, que neste ano completa um século, resultaram num capitalismo liberal com governo totalitário, gerido pelo ex-chefe da KGB Vladimir Putin, amigo de um apresentador de reality shows chamado Donald Trump. É mole?

Tal qual a rã na fábula acima citada, devemos aguentar o aquecimento da água numa passividade acomodada até sermos cozidos? 
Os versos célebres ao lado, que Eduardo Alves da Costa dedicou a Maiakovski (e cuja autoria costuma ser erroneamente atribuída ao grande poeta russo), deram a resposta: quem se submete passivamente à escalada de abusos acaba assistindo impotente à própria destruição!

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

'SALVADORES DA PÁTRIA' DE ONTEM E HOJE

Por Dalton Rosado
A história nos mostra que os salvadores da pátria nada mais são do que personalidades criadas e cultuadas a partir de uma determinada conjuntura desfavorável, na qual se estabelece o mito da capacidade individual e personalíssima de reversão das dificuldades existentes; uma espécie de guia iluminado. A emancipação humana é conceito de horizontalidade, de coletivismo, de conjunto, e deve prescindir dos guias iluminados. 

A esperança do surgimento do Messias salvador (não confundir com o Bessias assessor...) está assentada no início do surgimento da segunda natureza humana, também conhecida como era da razão, na qual os seres humanos passaram à elaboração do pensar para comandar o seu agir, ainda que estse pensar primitivo, em formação, comumente pudesse levá-lo à negação da própria racionalidade. Estamos ainda no estágio de uma racionalidade inferior, como decorrência da fusão entre os resquícios de uma primeira natureza humana (irracional), e uma segunda natureza humana (racional, mas ainda em evolução).

Os sintomas do estágio inferior desta segunda natureza humana se manifestam na crença de que a solução dos nossos problemas dependa da ação externa de alguém, e daí transferirmos para o Estado e o seu segmento político a condução dos nossos destinos, numa transferência das responsabilidades que são nossas. A aceitação do engodo da democracia representativa como algo bom é a explicitação desse fenômeno.

Após a 1ª guerra mundial veio a depressão capitalista de 1929/30, uma decorrência das ebulições causadas pela segunda revolução industrial (também conhecida como revolução fordista), com seus modernos critérios de produtividade de mercadorias), e o mundo se viu face à disputa de hegemonia econômica entre estados nacionais.
Pintura mostrando Hitler no início de sua trajetória

A Alemanha, humilhada após a guerra de 1914/1918 e amargando as condições draconianas que os vencedores lhe impuseram, com a agravante de que estava em curso a primeira crise econômica mundial, deu azo à criação do nazismo, doutrina político-militar que tinha como bandeira a restauração da supremacia ariana sob o disfarce da restauração da dignidade nacional alemã. 

A melhora das condições econômicas da Alemanha, graças à sua reconhecida capacidade de produção tecnológica, caiu como luva nos conceitos capitalistas prevalecentes da segunda revolução industrial e um oportunista salvador da pátria, Hitler, foi alçado ao comando supremo da nação, com a ajuda do capital industrial (não devemos esquecer que o próprio Ford e muitos outros industriais tinham admirações pelo führer e seus métodos). Deu no que deu. 

Do outro lado, o marxismo-leninismo revolucionário vitorioso inaugurou na Rússia czarista atrasada e devastada pela 1ª guerra mundial a entronização do capitalismo de estado sob o disfarce de uma pátria com isonomia de direitos ao seu povo, mas que nada mais foi do que o fechamento de suas fronteiras para fazer frente ao capitalismo liberal burguês internacional, somente possível graças às suas dimensões continentais. 

Tal hibrido do marxismo posteriormente negou o pensamento marxiano mais consequente e, embora tenha colhido êxitos iniciais importantes (tirando a Rússia do atraso czarista e tornando possível o enfrentamento eficaz da invasão nazista do leste europeu na 2ª guerra mundial), gerou também, no seu bojo, Josef Stalin, outro tirano salvador da pátria, idolatrado como guia genial dos povos por seus áulicos e responsável pela morte de milhões de verdadeiros revolucionários russos (bolcheviques e mencheviques), vitimas de perseguições políticas. 
Idolatria a Stalin, o exterminador da velha guarda bolchevique

O resultado final foi o estuário natural da negação aos postulados marxianos e a capitulação à economia de mercado internacional, dando sequência ao capitalismo de estado intramuros.    

Fiquemos apenas com esses dois exemplos mais recentes: Hitler e Stalin, como prenúncio do que pode vir a seguir. 

A crise atual do capitalismo não é coisa de pouca monta; tem uma natureza diferenciada das anteriores e é muito mais complexa e abrangente. Os números negativos da economia mundial estão deixando perplexos os grandes gestores das finanças planetárias, que conhecem muito bem o significado dos impasses intransponíveis que se avolumam sob a lógica capitalista. 

A prevalecerem os critérios da lógica econômica do capital, a humanidade poderá ser tragada por salvadores da pátria do tipo Donald Trump, nos EUA; da jovem direitista Frankie Petry, do Partido Alternativa para a Alemanha, para quem os refugiados merecem ser tratados a tiros; do ultradireitista inglês Nigel Farage, do Partido da Independência do Reino Unido; do ultranacionalista francês Le Pen, (que considera o Holocausto apenas um detalhe na 2ª guerra mundial; e por aí vai. 
Muitos preveem um governo fascistoide caso Trump vença

A instabilidade se alastra. A Síria, a Turquia, a Ucrânia e nações atingidas pela chamada primavera árabe, além de vários países asiáticos, mostram vieses ditatoriais como consequência da a ebulição da crise econômica mundial.  E crescem as revoltas do fundamentalismo religioso do tipo Estado Islâmico, Al Qaeda e Boko Haram. 

O mundo ferve em conflitos nacionalistas e barbárie urbana (vide a escalada das mortes por assassinatos no Brasil).

Aos revolucionários emancipacionistas, cabe o alerta contra a passividade diante do crescimento disso tudo e das posturas conservadoras dos salvadores da pátria que, com o discurso demagógico da retomada do estado do bem-estar social perdido, conseguem cooptar as vítimas da degringola em curso.

Estas continuam sendo iludidas, pois estão desesperadas e têm saudades do período de expansão do sistema produtor de mercadorias (que sempre foi gerido por esses mesmos títeres, verdadeiros lobos em peles de cordeiros). Ao invés de apontar o caminho do futuro, eles pregam a volta a um passado que deve e merece ser sepultado.

Não é por menos que, no Brasil, figuras como Jair Bolsonaro, Ronaldo Caiado e cientistas políticos ultradireitistas ocupam cada vez mais espaços, enquanto vários comentaristas agora sentem-se confortáveis ao fazerem a defesa pública dos inclementes postulados conservadores, os quais, aliás, nunca foram eliminados da estrutura econômica e fundiária do Brasil.
Bolsonaro dialogando com o franzino senador Randolfe

O medo e a passividade, aliada à aceitação do discurso agressivo dos salvadores da pátria (sempre hábeis em encobrir suas pretensões inconfessáveis com o manto do nacionalismo intolerante, xenófobo e racista), permitiram o avanço de ideologias segregacionistas como a que levou ao extermínio nos campos de concentração milhões de judeus, ciganos, socialistas, homossexuais e prisioneiros de guerra de várias nacionalidades, vítimas dos genocídios da ultradireita. 

Como antídoto artístico, termino este artigo citando um longo trecho da conhecida poesia de Eduardo Alves da Costa, mais atual do que nunca, intitulada No caminho, com Maiakóvski, por alguns atribuída erroneamente a Brecht. Diz:
"Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história. Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. 
Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão e não dizemos nada. 
Até que, um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm, a ninguém é dado repousar a cabeça, alheia ao terror. Os humildes baixam a cerviz: e nós, que não temos pacto algum com os senhores do mundo, por temor nos calamos".
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