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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A BOA NOTÍCIA É QUE GUERRAS, RADIAÇÃO, ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS E FOME NÃO NOS DIZIMARÃO. A MÁ: MORREREMOS DE SEDE.

O
mundo já não vive apenas uma crise pontual ou mera escassez de água, mas sim uma falência hídrica global.

O alerta consta de um relatório da Universidade das Nações Unidas, apresentado como subsídio à Conferência da ONU sobre a Água de 2026.

Segundo o estudo, em vastas regiões do planeta os sistemas hídricos foram tão degradados que já não conseguem se recompor nos marcos tradicionais de gestão.

Muitos problemas se tornaram estruturalmente irreversíveis: aquíferos superexplorados, rios artificializados, zonas úmidas destruídas, poluição crônica e uso predatório do solo corroeram os mecanismos naturais de armazenamento e renovação da água. 

O resultado é um déficit permanente entre oferta e demanda, com impactos crescentes sobre alimentos, energia, saúde pública, estabilidade política e desenvolvimento econômico.

Parece que voltamos ao século passado, quando a seca era um tema recorrente nas canção nordestinas.

A diferença é que naquele tempo ainda havia como corrigir tais situações. Agora, não mais.
Isto é o capitalismo: a prevalência da ganância sobre as necessidades humanas.

Uma expressão que usávamos antigamente era quem viver, verá.

Agora faz mais sentido dizermos 
se alguém sobrar, verá. (por Celso Lungaretti)
Clique aqui para assistir ao teipe de "Asa 
Branca".
Cantam Luiz Gonzaga, Fagner,  Sivuca e Guadalupe.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

O ERRO DO KEYNESIANO DE GARANHUNS É CRER NUM CAPITALISMO BONZINHO – 2

(continuação deste post)
S
e os Estados Unidos pagassem juros de 10,7% ao ano como o nosso país, estaria irremediavelmente falido. 

Motivo: tal custo representaria um ônus anual insuportável de R$ 48 mil para cada pessoa dos EUA (incluindo todos os velhos, inválidos e crianças que não trabalham e nem geram riqueza). A queda na renda média dos estadunidenses seria brutal.

O déficit global do orçamento da seguridade social brasileira foi de R$ 218,3 bilhões, ou seja, pagamos de juros um valor três vezes maior que aquilo que o orçamento da União despendeu com o déficit da previdência social. É por estas e por outras que se cortam gastos com os, e direitos dos velhinhos e inválidos do Brasil.

Os juros da dívida pública do Brasil fazem a alegria dos rentistas e é o nosso povo quem os paga.

Para os Estados Unidos o endividamento colossal não representa problema, porque os investidores estão dispostos a aplicar seus recursos em dólares estadunidenses a juros irrisórios ou até negativos.

Devemos bem menos, mas pagamos maior valor de juros que os EUA; isto dá bem a dimensão do que significa ser periferia do capitalismo.

Afinal, quando se deve sem obrigação de quitar a dívida no vencimento e se pode aumentá-la sem pagar juros, como ocorre com os países do G7, esta prática pode ir longe (mas somente até o dia do juízo final capitalista, que está próximo.

O Brasil recebe tratamento diferenciado: este nos é dado pelo mercado, a megera que baliza a vida social a partir de critérios altamente negativos e que ora estremece diante da perspectiva do descontrole fiscal pelo governo entrante.

Henrique Meireles afirma que Lula dilmou. Isto, partido de um seu tradicional apoiador, significa que a desobediência aos conselhos do executivo-mor do Banco Boston tem preço. 

Quando Armínio Fraga e Elena Laudau, entre muitos outros economistas que apoiam Lula, criticam as propostas de priorização das demandas sociais sem respeito ao teto de gastos e à responsabilidade fiscal, também tem preço.

Como conciliar, portanto, um Guilherme Boulos e o pessoal da Fiesp que apoiou Lula por medo do fascismo (mesmo com o dedo no nariz alguns e outros nem tanto, estando na última categoria os maiorais da Febraban)???

A depressão mundial do capitalismo não é uma marolinha. Quando os países do COP27, que se realiza no Egito, defendem recursos para os países situados próximos e abaixo da linha do equador que estão sofrendo mais com o aquecimento global e a queda na produção de alimentos, é sintoma do que o estrago vem sendo muito sério.

É neste cenário que Lula vai governar o Brasil, um país fraturado (mais do que dividido entre Norte e Nordeste de um lado e Sudeste, Centro-Oeste e Sul do outro) e com péssimos indicadores econômicos com relação ao cenário mundial, mesmo neste período depressivo do dito cujo. Estamos péssimos entre os que estão ruins.
Conforme se depreende, não vai mesmo demorar para aparecerem as contradições próprias de um governo que terá de escolher o que cobrir no corpo social brasileiro com o lençol curto da debilidade financeira estatal decorrente dos pesados custos de sua máquina cara e opressora.

Mas as viúvas da ditadura militar (acometidas de amnésia histórica) e a elite conservadora do Brasil já vociferam seu ódio paranoico e delirante diante dos quarteis das Forças Armadas. 

Acabarão se cansando por ora, mas logo estarão colocando nas costas do novo governo as agruras próprias de um capitalismo decadente e agravadas pelo desgoverno derrotado.

As tais manifestações, em grande parte financiadas por empresários insensíveis e megalomaníacos, juntos com uma classe média desesperada porque vem perdendo renda, têm também atraído trabalhadores que, embora oprimidos, não percebem estarem conspirando contra seus próprios interesses.

Será Lula capaz de mobilizar o povo trabalhador em defesa da vida e em contraponto aos ditames da economia capitalista autofágica e insensível que nos quer arrastar a todos para o cadafalso de sua decadência?

Quem viver verá. (por Dalton Rosado)

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

ATENÇÃO, MORALISTAS RANÇOSOS E RANCOROSOS: É PROIBIDO PROIBIR A IRREVERÊNCIA MUSICAL BRASILEIRA!

rui martins
DEUS QUER GOSPEL 
E NÃO MPB
A música brasileira é pagã, imoral, idólatra, esquerdista, degenerada ou coisa parecida? 

Imagino como reagiria o ministro da Educação Milton Ribeiro, um presbiteriano dos bons, da linha reacionária, acusado de homofóbico, se escutasse ou visse pelo Youtube o Johnny Hooker interpretando Flutua ou, na mesma linha, A Gente Junto com Ana Vitória.

Se pudesse, no mínimo tiraria do ar, do som, da imagem e do mercado.

Agora, qual seria a reação dos líderes evangélicos Silas Malafaia (que berrava querer um ministro tremendamente de direita, ou seja, de extrema-direita ou neo-nazifascista) e do Edir Macedo diante das sem-vergonhices, quando não esquerdices, cantadas e mostradas nos clips de música brasileira dos novos compositores da safra em formação?

Por estas e outras, a direção dos evangélicos tem um objetivo — transformar a música popular brasileira, MPB, pagã e pecadora, em GLD, ou gospel de louvores a Deus.

Composições para serem cantadas em festinhas de aniversários, noivados e casamentos, sem agarrações e beijações, como mandam a Bíblia e as atuais autoridades sanitárias para nos proteger do coronavírus.
Só se… Só se a reconversão do presidente Bolsonaro ao Centrão repercutir mal na expansão do evangelismo que, há alguns meses, se previa como capaz de ultrapassar, os 50% da população brasileira.

Porém, na hipótese de prosseguir a evangelização brasileira, nos moldes estadunidenses, não serão mais possíveis, por ofenderem a Deus, os grandes sucessos carnavalescos populares irreverentes como o capcioso Mamãe eu quero mamar, cantado por Carmen Miranda, em 1950, e o irreverente Eva me leva pro paraíso agora, de Haroldo Lobo, desrespeitoso com a história bíblica de Eva no Paraíso. 

Esses dois sucessos seriam colocados no index, e ficaríamos com aquela dúvida — se Deus existisse seria um cara sério demais, sem jogo de cintura?
Seria assim, tipo tristeza não tem fim? Como dizia Vinicius de Moraes, a felicidade do pobre parece a grande ilusão do Carnaval. Mesmo assim, A Felicidade, esse grande poema seria condenado ao ostracismo por não falar no amor de Deus e pecar por citar o Carnaval.

Nessa destruição iconoclasta da nossa cultura musical, não escapariam nem aqueles versos poéticos pungentes do Humberto Teixeira quando a lama virou pedra e mandacaru secou, contando o drama dos retirantes da seca nordestina, na voz do Luiz Gonzaga. Assim como Asa branca.

Muito menos as canções da boemia, como a do apaixonado pela mulher do cabaré, Quem há de dizer, cantada pelo rei da voz, como era conhecido Chico Alves.
Mas a música popular brasileira, tem sido de resistência — Chico Buarque com Construção, Geraldo Vandré com Caminhando, Gilberto Gil com Procissão, Caetano Veloso cantando É proibido proibir. Com uma pausa romântica de Roberto Carlos, da jovem guarda, buzinando seu Calhambeque em plena ditadura militar.

E há as músicas da bossa nova, como Chega de saudade, de João Gilberto, e Garota de Ipanema, de Tom Jobim. 

Existem ainda as canções bregas, a música sertaneja, Tom Jobim, Jair Rodrigues, Nara Leão, Elis Regina, Raul Seixas, Marisa Monte, a Legião Urbana (com Que país é este) e Cazuza e tantos outros cantores, compositores, condenados ao ostracismo musical para dar lugar aos gospels.

Será mesmo? Não acredito! A inspiração brasileira é mais forte e mais livre. (por Rui Martins)

domingo, 3 de maio de 2020

OS 15 MELHORES CANTORES DE MPB E SUAS INTERPRETAÇÕES MAIS MARCANTES, NA AVALIAÇÃO DO DALTON ROSADO

A escolha de 15 vozes representativas da música popular brasileira, feita por qualquer indivíduo, advém de um critério particular que, obviamente, diferencia-se de pessoa para pessoa. 

Assim, qualquer listagem pessoal terá sempre grande possibilidade de discrepância com relação às oficiais. É com tal ressalva que arrisco fazer a minha reduzidíssima, própria e difícil listagem, que certamente provocará discordâncias. 

Se há um setor das artes nos quais o Brasil sempre se destacou é a música. Apesar do boicote sistemático do mercado fonográfico mundial (a música é uma mercadoria, infelizmente), dominado pelos Estados Unidos, nossa música conseguiu impor-se internacionalmente graças ao samba e à bossa nova, sua vertente mais sofisticada e jazzística. 
Carmen Miranda contracenando com Groucho Marx em 1947

Sempre tivemos grandes intérpretes, músicos e compositores que se destacaram no cenário mundial. 

O exemplo mais eloquente foi Carmem Miranda que, no início dos anos 40, se tornou a maior cantora dos Estados Unidos. E composições como “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso) e “Garota de Ipanema” (Tom & Vinicius) são verdadeiros clássicos da música internacional, cantadas e conhecidas em todo o mundo.  

Apontamos aqui os melhores intérpretes masculinos apenas no quesito voz, embora num grande intérprete se destaquem outros elementos igualmente importantes, como a presença de palco, o talento para a dança, a capacidade de tocar um instrumento musical e de compor melodias, a escolha de repertório, etc. 

Ademais, cada intérprete, com seu forma própria de expressar o espírito de cada época, sempre tem uma música como seu carro-chefe, indispensável em qualquer show musical.
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*  *  *
A música mais marcante de Milton Nascimento é a bela “Travessia”, dele mesmo com Fernando Brant, que traduz a gostosa brasileirice do povo mineiro, as montanhas aconchegantes das Gerais e o gosto de café fresco com pão de queijo novo e quentinho.
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*  *  *
A de Nelson Gonçalves é “A volta do boêmio”, de Adelino Moreira, que todos sabem cantar (principalmente os que afogam as mágoas ou celebram a vida nos copos de um bar). Trata-se do timbre de voz mais claro dentre todos os cantores brasileiros.
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*  *  *
A de Francisco Alves (o Chico Viola, também chamado de rei da voz) é “A voz do violão”, que ele compôs em parceria com Horácio Mendes Campos.
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*  *  *
A de Orlando Silva, o cantor das multidões (expressão cunhada pelo radialista Oduvaldo Cozzi a partir da legião de fãs conquistada por este excepcional intérprete, o primeiro grande beneficiado pela difusão do rádio como veículo de comunicação social abrangente) é a belíssima valsa “Lábios que beijei”,  de J. Cascata e Leonel Azevedo.
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*  *  *
A de João Gilberto (o pioneiro da bossa-nova, um revolucionário que, em plena era do vozeirão, provou ser possível cantar também num sussurro quase coloquial, desde que com voz afinada e bem colocada) é “Chega de saudade”, um apelo e uma exaltação à mulher, quebrando o paradigma usual do drama de amores não correspondidos.
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*  *  *
A de Jorge Ben Jor pode ser "Chove chuva" ou alguma outra escolhida entre os muitos destaques do seu inesquecível disco de estréia, Samba esquema novo (1963), quando ainda era um rapazola chegando com muita força no cenário musical. Trazia uma bossa-nova temperada com muito suingue, inaugurando o chamado sambalanço, uma amostra do quanto o samba podia ser versátil e agradável.
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*  *  *
A de Roberto Carlos (conhecido como o rei, com seu estilo mais moderno, indo do rock’n’roll brasileiro às canções românticas, que o tornou o mais duradouro detentor de popularidade no Brasil) é “Emoções”, dele com Erasmo Carlos.
   
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*  *  *
A de Cauby Peixoto (apelidado pelos demais intérpretes de professor, pelo perfeito domínio de sua técnica e beleza de voz) é, claro, sua marca registrada: “Conceição”, de Dunga e Jair Amorim. Cauby era também respeitado por sua cordialidade e solidariedade aos companheiros de profissão.
   
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*  *  *
É difícil destacar uma música só de Caetano Veloso, o guru do movimento tropicalista e um dos mais versáteis intérpretes brasileiros (canta, dança, toca instrumento, compõe letra e música, dirige espetáculos musicais, é ator, faz cinema, escreve livro, planta árvore e tem filhos). Com licença de Adoniran Barbosa, o melhor cronista musical paulistano, fiquemos com a canção “Sampa”, um exemplo de capacidade de descrever musicalmente a primeira impressão daquilo que não conheço.
    
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A de Agostinho dos Santos (a quem os anjos levaram prematuramente para cantar lá no alto, com a sua voz celestial) é “Manhã de carnaval”, de Luiz Bonfá, cuja interpretação deve ser ouvida com o respeito de quem faz uma oração.
                                                                                                                                 .
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Wilson Simonal, o rei da pilantragem, passou por um calvário por não ser engajado politicamente e por não ter uma cabeça consentânea com seu talento musical num momento de posturas maniqueístas exacerbadas e reprováveis (acabando vítima de um boicote que o levou à depressão, num exemplo do que é capaz o preconceito). Mas, apresentou o melhor suingue brasileiro e ouvi-lo cantar “Sá Marina”, de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, dava irresistível vontade de dançarmos e cantarmos juntos.
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*  *  *
A de Luiz Gonzaga é "Asa branca", um dos hinos nacionais. Conhecido como o rei do baião, ele apresentou ao Sul maravilha a riqueza da música nordestina, o forró com suas variações rítmicas (baião, xote, xaxado, maracatu, côco e outros), tão autenticamente brasileiro como o samba, afirmando-se como um dos monstros sagrados da originalidade musical nascida nos grotões do Brasil profundo. 
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*  *  *
A de Tim Maia é "Azul da cor do mar". Chamado de síndico, ele era capaz de tudo consertar num concerto e até de dar um toque brasileiro melhorado ao funk americano; o seu talento como intérprete se somava à incrível capacidade de compor e tocar instrumentos musicais.

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*  *  *
A Gilberto Gil só podemos agradecer e lhe dar “Aquele abraço”. Trata-se do mais musical dos intérpretes segundo avaliação dos músicos, o gênio baiano que faz a mescla dos sons advindos da musicalidade forrozeira nordestina com o berço do samba africano de São Salvador.
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*  *  *
O excelência de Emílio Santiago, a voz aveludada com que nos brindou o seu talento musical, está muito bem representada na música “Saigon”. Trata-se de mais um excepcional representante do imensurável legado cultural musical da matriz africana ao Brasil.  
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É evidente que haveria muitos outros grandes intérpretes brasileiros a serem lembrados, por terem, com a sua arte, contribuído para a formatação do imenso patrimônio imaterial musical brasileiro. Mas os nomes aqui citados apenas os representam.

A escolha destes 15 nomes se constituiu numa tarefa ainda mais difícil do que seria escalar um selecionado brasileiro de futebol integrado pelo melhor dentre os melhores de cada posição, como se todos estivessem disponíveis com a mesma idade e a um só tempo. Ou seja, a escolha se daria entre os campeões mundiais de 1958, 1962, 1970, 1994, 2002; os gênios do escrete dos sonhos de 1982; e craques da majestade de Domingos da Guia, Leônidas da Silva, Zizinho, Neymar, etc. 
Por fim, devemos infelizmente concluir que, concordando com a afirmação do maestro Tom Jobim de que a música reflete a época na qual foi composta, o panorama musical de hoje só vem confirmar que vivemos mesmo tempos sombrios.
(por Dalton Rosado)  

quarta-feira, 10 de julho de 2019

A MARAVILHOSA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA – 1 (antes de João Gilberto)

Se há algo de cuja qualidade o Brasil pode jactar-se é a sua música. 

A profunda miscigenação brasileira entre índios, africanos e europeus (estes últimos com predominância portuguesa e italiana) gerou um caldo de cultura do qual resultaram os mais variados e belos ritmos.

O samba é filho direto das batidas rítmicas dos tambores africanos, que foram adquirindo sonoridades as mais variadas até deixarem de ser a música proibida pelas elites racistas brasileiras, transformando-se na nossa identidade cultural maior.

O xote e o baião nordestinos, trazidos para o sudeste brasileiro pela voz de Luiz Gonzaga, tem um pé no vira português, ainda que se assemelhem também à batida rock’n’roll (que é do sul-estadunidense negro segregado), como dizia Raul Seixas, o mais autêntico representante da rebeldia brasileira do gênero. 

O rei do baião cantou a saga nordestina com força, brio e um balanço típico da região do semi-árido, tendo suas composições valorizadas pelas letras de Humberto Teixeira, Zé Dantas e outros conhecedores da realidade sertaneja. 
O chorinho é a simbiose da suavidade melódica da polca europeia com o ritmo apressado da batida dos tambores africanos, tão bem expressado por Joaquim Callado, Ernesto Nazareth e Zequinha de Abreu. 

O samba-canção é a mistura dos ritmos americanos e europeus com a malemolência do samba, capaz de embalar de modo melodicamente gracioso a mais profunda dor de corno, ao mesmo tempo fazendo o elogio à mulher como merecedora do amor mais profundo e visceral.

Este ritmo bem brasileiro teve em Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto e Ângela Maria os seus mais expressivos intérpretes.
A música sertaneja, nos seus mais variados andamentos, é a expressão do Brasil profundo, com identidade própria, que vai do caipira Jeca de Mazzaropi até os atuais e sofisticados cowboys urbanos tupiniquins do centro-oeste brasileiro, que arrastam multidões aos palcos, sem qualquer complexo de inferioridade imitativa do country estadunidense.  

As nossas marchas carnavalescas, desde o século 19 (com Chiquinha Gonzaga e o seu “Ô abre alas”, e Zequinha de Abreu com seu famoso choro “Tico-tico no fubá”, até do repetidíssimo choro “Brasileirinho”, de Waldir Azevedo, já em 1947), se acrescem às marchinhas maravilhosas de Francisco Alves (o Chico Viola) e Orlando Silva (o cantor das multidões), que embalaram nossos carnavais como uma das maiores festas populares mundo afora, e correspondem a um fio melódico característico da nosso deboche momístico e à nossa alegria de viver, apesar de tudo... 
Que essa nossa capacidade de transcender a dor pela música e de fazer piada sobre o próprio sofrimento não sejam um dia apenas um forma de catarse, tornada desnecessária quando o Brasil proporcionar um viver confortável e digno para a maioria de sua população sofrida! 

A música brasileira é forte também nos ritmos internacionais consagrados. Tivemos, p. ex., um Carlos Gomes, paulista nascido em Campinas no ano de 1836, grande maestro e compositor reconhecido por obras como o seu espetacular “O Guarani”, que encantou o mundo e levou o italiano Giuseppe Verdi, seu mestre, a dizer questo Giovanni comencia dove finisco io (este jovem começa de onde eu termino).
Até Joan Baez gravou a ária da "Bachiana Brasileira nº 5", de Villa-Lobos
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Que dizer de Heitor Villa-Lobos, o compositor brasileiro mundialmente reconhecido e capaz de fazer a ligação perfeita entre o chamado bel canto da música erudita com temas regionais, uma vez que pesquisou pessoalmente os ritmos do Brasil profundo para tematizá-los em sua magnifica e imortal obra?

Que dizer do maestro cearense Eleazar de Carvalho, que dividiu os palcos europeus com o lendário Leonard Bernstein? O Ceará, além de Everton Cebolinha no futebol, também engrandeceu o nome do Brasil musical mundo afora.
Chico Buarque reverenciando Noel, uma de suas maiores influências
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Que dizer de Noel Rosa, o poeta da Vila Isabel, que, em poucos anos de vida, nos deixou um legado imortal de músicas que podem ser consideradas como a melhor crônica da brasilidade moldada nesse ritmo herdado da nossa ancestralidade afro-brasileira, o samba? 

Que dizer do carinhoso Pixinguinha, capaz de compor melodias inesquecíveis e de tocar vários instrumentos (flauta, saxofone, piano, etc.), que um dia foi obrigado a entrar pela porta dos fundos de um hotel luxuoso onde iria se apresentar e respondeu com sua “Lamento”, hoje reconhecida como um clássico da nossa música?
O samba tem precursores remontam à era do disco de cera e do rádio. Sua velha guarda é formada por Donga, João da Baiana, Sinhô, Heitor dos Prazeres, Ismael Silva, Elton Medeiros, Cartola, Nelson Cavaquinho, Mansueto e João de Barro, vindo depois outros compositores de ritmos variados como, Herivelto Martins, Jair Amorim, Evaldo Gouveia e tantos outros cujas músicas estão perpetuadas na nossa melhor memória afetiva e musical. 

Araci de Almeida, Emilinha Borba, Marlene, Dalva de Oliveira e Ademilde Fonseca compõem a galeria das grandes cantoras brasileiras que gravaram desde chorinhos, passando por sambas-canções e outros ritmos que hoje são clássicos da melhor música popular brasileira. 
Mas foi Carmem Miranda, nascida em Portugal em 1909 e chegada ao Brasil com meses de idade, quem se encarregou de mostrar ao Tio Sam, em primeira mão a qualidade da música popular brasileira, interpretando os sambas de Dorival Caymmi, Assis Valente, Aloisio de Oliveira, Ari Barroso e sua “Aquarela do Brasil” (gravada inicialmente por Francisco Alves em 1939, mas que correu mundo na voz da pequena notável). 

Coube a Carmem Miranda, interpretando “Taí”, de Joubert de Carvalho, obter o primeiro grande sucesso nacional radiofônico que projetou essa excepcional cantora-atriz no nosso cenário artístico. Essa brasileiríssima intérprete, com sua voz, trejeitos e requebros aliados a um mise-en-scene tropicalista, conseguiu o feito de colocar a MPB no topo do mundo.  
A "Aquarela do Brasil" apareceu até nos filmes de Walt Disney
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Entre os anos de 1940 e 1950, Carmem Miranda foi a cantora-atriz a pagar a maior soma de imposto de renda entre todos os artistas estadunidenses, fato que por si só dá bem a dimensão da popularidade dessa artista de alma brasileiríssima, e especialmente carioca, já que toda a sua formação artístico-cultural se desenvolveu no Rio de Janeiro. (por Dalton Rosado)
(continua neste post)
Observação: complementarmente, os leitores podem acessar uma retrospectiva da grande música brasileira da 2ª metade dos anos
60 (e do pouco que dela restou nos '70), A época de ouro da
MPB, série de Celso Lungaretti que começa neste post. 

terça-feira, 14 de março de 2017

DALTON ROSADO INDICA OS 15 MELHORES CANTORES DA MPB E SUAS CANÇÕES MAIS MARCANTES.

A escolha de 15 vozes representativas da música popular brasileira, feita por qualquer indivíduo, advém de um critério particular que, obviamente, diferencia-se de pessoa para pessoa. 

Assim, qualquer listagem pessoal terá sempre grande possibilidade de discrepância com relação às oficiais. É com tal ressalva que arrisco fazer a minha reduzidíssima, própria e difícil listagem, que certamente provocará discordâncias. 

Se há um setor das artes nos quais o Brasil sempre se destacou é a música. Apesar do boicote sistemático do mercado fonográfico mundial (a música é uma mercadoria, infelizmente), dominado pelos Estados Unidos, nossa música conseguiu impor-se internacionalmente graças ao samba e à bossa nova, sua vertente mais sofisticada e jazzística. 
Carmen Miranda contracenando com Groucho Marx em 1947

Sempre tivemos grandes intérpretes, músicos e compositores que se destacaram no cenário mundial. 

O exemplo mais eloquente foi Carmem Miranda que, no início dos anos 40, se tornou a maior cantora dos Estados Unidos. E composições como “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso) e “Garota de Ipanema” (Tom & Vinicius) são verdadeiros clássicos da música internacional, cantadas e conhecidas em todo o mundo.  

Apontamos aqui os melhores intérpretes masculinos apenas no quesito voz, embora num grande intérprete se destaquem outros elementos igualmente importantes, como a presença de palco, o talento para a dança, a capacidade de tocar um instrumento musical e de compor melodias, a escolha de repertório, etc. 

Ademais, cada intérprete, com seu forma própria de expressar o espírito de cada época, sempre tem uma música como seu carro-chefe, indispensável em qualquer show musical.
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A música mais marcante de Milton Nascimento é a bela “Travessia”, dele mesmo com Fernando Brant, que traduz a gostosa brasileirice do povo mineiro, as montanhas aconchegantes das Gerais e o gosto de café fresco com pão de queijo novo e quentinho.
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A de Nelson Gonçalves é “A volta do boêmio”, de Adelino Moreira, que todos sabem cantar (principalmente os que afogam as mágoas ou celebram a vida nos copos de um bar). Trata-se do timbre de voz mais claro dentre todos os cantores brasileiros.
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A de Francisco Alves (o Chico Viola, também chamado de rei da voz) é “A voz do violão”, que ele compôs em parceria com Horácio Mendes Campos.
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A de Orlando Silva, o cantor das multidões (expressão cunhada pelo radialista Oduvaldo Cozzi a partir da legião de fãs conquistada por este excepcional intérprete, o primeiro grande beneficiado pela difusão do rádio como veículo de comunicação social abrangente) é a belíssima valsa “Lábios que beijei”,  de J. Cascata e Leonel Azevedo.
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A de João Gilberto (o pioneiro da bossa-nova, um revolucionário que, em plena era do vozeirão, provou ser possível cantar também num sussurro quase coloquial, desde que com voz afinada e bem colocada) é “Chega de saudade”, um apelo e uma exaltação à mulher, quebrando o paradigma usual do drama de amores não correspondidos.
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A de Jorge Ben Jor pode ser "Chove chuva" ou alguma outra escolhida entre os muitos destaques do seu inesquecível disco de estréia, Samba esquema novo (1963), quando ainda era um rapazola chegando com muita força no cenário musical. Trazia uma bossa-nova temperada com muito suingue, inaugurando o chamado sambalanço, uma amostra do quanto o samba podia ser versátil e agradável.
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A de Roberto Carlos (conhecido como o rei, com seu estilo mais moderno, indo do rock’n’roll brasileiro às canções românticas, que o tornou o mais duradouro detentor de popularidade no Brasil) é “Emoções”, dele com Erasmo Carlos.
   
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A de Cauby Peixoto (apelidado pelos demais intérpretes de professor, pelo perfeito domínio de sua técnica e beleza de voz) é, claro, sua marca registrada: “Conceição”, de Dunga e Jair Amorim. Cauby era também respeitado por sua cordialidade e solidariedade aos companheiros de profissão.
   
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É difícil destacar uma música só de Caetano Veloso, o guru do movimento tropicalista e um dos mais versáteis intérpretes brasileiros (canta, dança, toca instrumento, compõe letra e música, dirige espetáculos musicais, é ator, faz cinema, escreve livro, planta árvore e tem filhos). Com licença de Adoniran Barbosa, o melhor cronista musical paulistano, fiquemos com a canção “Sampa”, um exemplo de capacidade de descrever musicalmente a primeira impressão daquilo que não conheço.
    
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A de Agostinho dos Santos (a quem os anjos levaram prematuramente para cantar lá no alto, com a sua voz celestial) é “Manhã de carnaval”, de Luiz Bonfá, cuja interpretação deve ser ouvida com o respeito de quem faz uma oração.
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Wilson Simonal, o rei da pilantragem, passou por um calvário por não ser engajado politicamente e por não ter uma cabeça consentânea com seu talento musical num momento de posturas maniqueístas exacerbadas e reprováveis (acabando vítima de um boicote que o levou à depressão, num exemplo do que é capaz o preconceito). Mas, apresentou o melhor suingue brasileiro e ouvi-lo cantar “Sá Marina”, de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, dava irresistível vontade de dançarmos e cantarmos juntos.
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A de Luiz Gonzaga é "Asa branca", um dos hinos nacionais. Conhecido como o rei do baião, ele apresentou ao Sul maravilha a riqueza da música nordestina, o forró com suas variações rítmicas (baião, xote, xaxado, maracatu, côco e outros), tão autenticamente brasileiro como o samba, afirmando-se como um dos monstros sagrados da originalidade musical nascida nos grotões do Brasil profundo. 
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A de Tim Maia é "Azul da cor do mar". Chamado de síndico, ele era capaz de tudo consertar num concerto e até de dar um toque brasileiro melhorado ao funk americano; o seu talento como intérprete se somava à incrível capacidade de compor e tocar instrumentos musicais.

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A Gilberto Gil só podemos agradecer e lhe dar “Aquele abraço”. Trata-se do mais musical dos intérpretes segundo avaliação dos músicos, o gênio baiano que faz a mescla dos sons advindos da musicalidade forrozeira nordestina com o berço do samba africano de São Salvador.
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O excelência de Emílio Santiago, a voz aveludada com que nos brindou o seu talento musical, está muito bem representada na música “Saigon”. Trata-se de mais um excepcional representante do imensurável legado cultural musical da matriz africana ao Brasil.  
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É evidente que haveria muitos outros grandes intérpretes brasileiros a serem lembrados, por terem, com a sua arte, contribuído para a formatação do imenso patrimônio imaterial musical brasileiro. Mas os nomes aqui citados apenas os representam.

A escolha destes 15 nomes se constituiu numa tarefa ainda mais difícil do que seria escalar um selecionado brasileiro de futebol integrado pelo melhor dentre os melhores de cada posição, como se todos estivessem disponíveis com a mesma idade e a um só tempo. Ou seja, a escolha se daria entre os campeões mundiais de 1958, 1962, 1970, 1994, 2002; os gênios do escrete dos sonhos de 1982; e craques da majestade de Domingos da Guia, Leônidas da Silva, Zizinho, Neymar, etc. 

Por fim, devemos infelizmente concluir que, se o maestro Tom Jobim tiver razão ao dizer que a música reflete a época na qual foi composta, vivemos tempos sombrios.
(por Dalton Rosado)  
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