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sexta-feira, 1 de maio de 2026

SENNA, VÍTIMA DA GANÂNCIA CAPITALISTA

Quem é que pára a máquina de fazer dinheiro da Fórmula-1?

O desabafo foi de Roberto Cabrini, jornalista que, cobrindo o circo da F-1, se tornou amigo de Ayrton Senna. 

Em off, Senna revelou a Cabrini que o GP de Imola, no domingo, não deveria ser realizado, pois no sábado um corredor tinha morrido na pista e o óbito fora encoberto. A lei italiana determina que, quando tal ocorre no treino classificatório, a corrida tem de ser imediatamente suspensa.

Prevaleceu a versão de que o austríaco Roland Ratzenberger tinha expirado no hospital e não na pista, mas isto não passava de uma falsidade decorrente da ganância. 

Eis o relato do jornalista:
O Senna chegou para mim e falou: "Não posso dar entrevista, estou muito impactado, mas eu preciso contar para você: o cara morreu na pista, não pode divulgar porque, se isso é comprovado, não tem corrida".
A Itália investigou o sucedido por mais de uma década, mas se restringindo aos aspectos mecânicos. Seis pessoas foram indiciadas e, em 2007, a Suprema Corte italiana considerou Patrick Head, ex-sócio e cofundador da Williams, culpado por omissão de controle no projeto da coluna de direção. No entanto, o crime já prescrevera e ninguém foi preso. 

Neste dia em que se completam 32 anos desde a morte de Senna, vou reproduzir o único texto que eu escrevi sobre automobilismo ao longo da minha carreira.

De resto, naquele funesto primeiro de maio de 1994 não havia essa informação que Roberto Cabrini só divulgaria em 2024. 

Hoje, eu jamais teria escrito que Senna "não fora "assassinado pela incúria dos dirigentes do automobilismo mundial".  

Acredite quem quiser (CL)

RÉQUIEM PARA UM GLADIADOR
São indignas de Senna as lágrimas de crocodilo que jorram aos borbotões da mídia, reduzindo uma morte épica à banalidade das telenovelas. 

Não foi vítima de um destino traiçoeiro nem assassinado pela incúria dos dirigentes do automobilismo mundial. 

O muro que se agigantou à sua frente o perseguia desde os primórdios da carreira: está nos pesadelos de todos os pilotos. Não existe segurança a 300 quilômetros por hora.

O fascínio da Fórmula 1 tem tudo a ver com o instinto de morte, que Freud detectou como sendo um dos componentes essenciais de nossa psique e de nossa cultura.   

O herói do volante desafia o perigo a cada curva e o público junto com ele, numa identificação tão mágica quanto cômoda.   
São os gladiadores do século 20, correndo riscos em nosso lugar, para que tenhamos uma boa catarse (aliás, até seus trajes e os autódromos –principalmente os circulares da Fórmula Indy– lembram o visual das arenas romanas).

Mas, na era da propaganda, tudo isso deve ficar implícito. Galvões e Lucianos se limitam a dissecar pequenos detalhes técnicos que reduziriam ou aumentariam as probabilidades de sobrevivência dos pilotos. 

Já os próprios, em rasgos de sinceridade, admitem que a linha separando acidentes superficiais dos fatais é tão tênue quanto um fio de cabelo.

Muitos poderiam ter morrido nos oito anos em que a F-1 não registrou óbitos, mas aqueles ínfimos milímetros que decidem a sina do acidentado foram favoráveis. Em Ímola, os deuses não estavam complacentes e tudo saiu da pior maneira possível.

Como Christian Fittipaldi ressaltou, descartando uma maior periculosidade em função da retirada do controle de tração e suspensão ativa: Ano passado tinha tudo que vimos aqui mas, graças a Deus, ninguém se machucou. (...) O Berger, no GP de Portugal da última temporada, não se matou por milagre. (...) É relativo dizer que hoje o risco é maior.
Roland Ratzenberger

Eles, os pilotos, sabem. Mesmo assim, entram naquelas estranhas máquinas e, em posições cujo desconforto beira a tortura, percorrem o fio da navalha em velocidades estonteantes, conscientes de que a mínima falha –sua, dos outros ou do equipamento– poderá ser fatal.

Pior: sua condição de ídolos depende não apenas de receberem a bandeirada na frente, mas de guiarem com arrojo e agressividade. Os fãs cobram esta atitude temerária. Ai dos Prosts que pensam antes na autopreservação, colocando a vitória em segundo plano! São tidos como covardes.

Senna era um típico gladiador. Assumia todos os riscos e jamais refugava nas ultrapassagens difíceis, nos duelos insensatos. Os mesmos que denunciam a insegurança de Ímola eram os que aclamavam Senna quando ele realizava brilhantes –
e perigosíssimas– corridas em pista molhada. O muro esteve sempre muito perto dele, até que o alcançou.

Tímido, pouco à vontade no papel de celebridade, jamais aparentando satisfação maior com as coisas simples da vida, Senna atingia a plenitude na arena de suas conquistas e no pódio triunfal. É difícil imaginá-lo aposentado, remoendo o passado e amaldiçoando o presente.

Parafraseando os roqueiros Pete Townshend e Neil Young, talvez no caso de Senna fosse mesmo preferível morrer antes de envelhecer, consumir-se em chamas do que definhar aos poucos. Foi até o fim no rumo que escolheu: gladiador altaneiro, merece respeito e não lamúrias. (por Celso Lungaretti)

sábado, 12 de abril de 2025

COMUNICADORES ÉTICOS DEVERIAM RECUSAR A GRANA IMUNDA DAS BETS?

Logo ao abrir o UOL meu tema de hoje me encontrou: a ética das celebridades x a grana imunda dos anunciantes.

A figura simpática do locutor esportivo Galvão Bueno, num anúncio enorme da Bet Nacional, despertou-me, em primeiro lugar, ojeriza, depois uma reflexão: por que um homem tão estimado pelo grande público se presta a estimular um negócio tão condenável e nocivo quanto o vício na jogatina?

Tal ambiguidade moral é tida como perfeitamente aceitável no Brasil. Ganhar dinheiro justifica tudo, mesmo quando se trata de um cidadão que já está podre de rico. 

Que necessidade tinha o Galvão. na etapa final de sua existência, de associar sua imagem à de crianças famintas porque o pai torrou toda a grana do mês, incapaz de desencanar da ilusão de que poderia ganhar uma fortuna facilmente? 

Afora o fato de que parte das empresas que exploram tal filão tem como principal objetivo a lavagem do dinheiro sujo de atividades criminosas. Não sei nem quero saber se é o caso daquela que tem o Galvão como seu idoso propaganda, mas cada um desses anúncios é chamariz para mesmerizar todos os apostadores em potencial. 

A Bet Nacional, bem como as contratantes anteriores do Galvão, pode ser angelical e estar totalmente isenta dos pecados cometidos por congêneres, mas, nem assim, um comunicador ético deveria colocar-se a seu serviço, salvo, talvez, no caso de estar em bancarrota.

Chocou-me, sobretudo,  o fato de que o Galvão, tendo quase a minha idade, entrou numa roubada na qual eu jamais entraria. 

Nunca nadei em dinheiro e já passei por crises financeiras extremadas para cumprir as obrigações que tinha ou acreditava ter para com meus entes queridos (eu mesmo jamais fui consumista e/ou perdulário, privando-me facilmente de quase todos os objetos do desejo dos homens da minha idade e condição social). 

No entanto,  nem mesmo nas minhas piores pindaíbas, ajudaria a entoar o canto de sereia que está levando muitos pais de família a pedir adiantamentos salariais no emprego para cobrir perdas de jogo de azar. 

Isto já foi confirmado por pesquisas sérias. Bem como que grana do Bolsa Família está sendo desviado para algo que só serve para fazer a desgraça das famílias. 

O capitalismo, em sua fase agônica, é totalmente imoral. Topa qualquer negócio e difunde ao máximo, expressa ou veladamente, a mentalidade oportunista de que tudo é válido para engordar nossas contas bancárias, pouco importando se carecemos de centavos ou dispomos de bilhões sobrando.

Eu sempre vou considerar que a notoriedade nos obriga a ser mais zelosos dos exemplos que damos à coletividade. Bem mais zelosos do que seria lícito exigir dos cidadãos comuns. 

Lembro-me do meu avô, que tinha uma média marcenaria e trabalhava tanto ou mais do que seus empregados. Ao final de um dia exaustivo, ele ainda ia fazer a entrega dos itens que produzira. Certa vez, depois de acomodar toda a carga em sua kombi, alguém notou um pequeno risco num dos carrinhos de chá já embalados.
Meu tio, que trabalhava com ele, tentou argumentar que ninguém notaria, portanto não havia motivo para se perder tempo com algo tão insignificante. Vovô respondeu:

"A firma tem meu nome, e o meu nome não pode circular riscado por aí. Vamos envernizar de novo e dar uma verificada em todo o resto, para termos certeza de que não há qualquer outra peça desse jeito".

Eu tinha apenas uns dez anos de idade, mas admirei tanto esse exemplo de conduta que jamais o esqueci e procurei agir de forma semelhante pelo resto da vida.    (por Celso Lungaretti)  

quarta-feira, 1 de maio de 2024

ESTE TRIBUTO A AYRTON SENNA É, ATÉ HOJE, MEU ÚNICO ARTIGO SOBRE AUTOMOBILISMO

Artigo que escrevi para o Jornal da Tarde (SP) após a tragédia
de Ímola, sobre um esporte que não me empolgava, mas conhecia
um pouco devido à devoção dos meus pais pelo Senna. Foi minha
reação 
à cobertura piegas e choramingas da imprensa brasileira.
 
RÉQUIEM PARA UM GLADIADOR
São indignas de Senna as lágrimas de crocodilo que jorram aos borbotões da mídia, reduzindo uma morte épica à banalidade das telenovelas. 

Não foi vítima de um destino traiçoeiro nem assassinado pela incúria dos dirigentes do automobilismo mundial. 

O muro que se agigantou à sua frente o perseguia desde os primórdios da carreira: está nos pesadelos de todos os pilotos. Não existe segurança a 300 quilômetros por hora.

O fascínio da Fórmula 1 tem tudo a ver com o instinto de morte, que Freud detectou como sendo um dos componentes essenciais de nossa psique e de nossa cultura. O herói do volante desafia o perigo a cada curva e o público junto com ele, numa identificação tão mágica quanto cômoda.

São os gladiadores do século 20, correndo riscos em nosso lugar, para que tenhamos uma boa catarse (aliás, até seus trajes e os autódromos –principalmente os circulares da Fórmula Indy– lembram o visual das arenas romanas).

Mas, na era da propaganda, tudo isso deve ficar implícito. Galvões e Lucianos se limitam a dissecar pequenos detalhes técnicos que reduziriam ou aumentariam as probabilidades de sobrevivência dos pilotos. Já os próprios, em rasgos de sinceridade, admitem que a linha separando acidentes superficiais dos fatais é tão tênue quanto um fio de cabelo.

Muitos poderiam ter morrido nos oito anos em que a F-1 não registrou óbitos, mas aqueles ínfimos milímetros que decidem a sina do acidentado foram favoráveis. Em Ímola, os deuses não estavam complacentes e tudo saiu da pior maneira possível.

Como Christian Fittipaldi ressaltou, descartando uma maior periculosidade em função da retirada do controle de tração e suspensão ativa: "Ano passado tinha tudo que vimos aqui mas, graças a Deus, ninguém se machucou. (...) O Berger, no GP de Portugal da última temporada, não se matou por milagre. (...) É relativo dizer que hoje o risco é maior".

Eles, os pilotos, sabem. Mesmo assim, entram naquelas estranhas máquinas e, em posições cujo desconforto beira a tortura, percorrem o fio da navalha em velocidades estonteantes, conscientes de que a mínima falha –sua, dos outros ou do equipamento– poderá ser fatal.

Pior: sua condição de ídolos depende não apenas de receberem a bandeirada na frente, mas de guiarem com arrojo e agressividade. Os fãs cobram esta atitude temerária. Ai dos Prosts que pensam antes na autopreservação, colocando a vitória em segundo plano! São tidos como covardes.

Senna era um típico gladiador. Assumia todos os riscos e jamais refugava nas ultrapassagens difíceis, nos duelos insensatos. Os mesmos que denunciam a insegurança de Ímola eram os que aclamavam Senna quando ele realizava brilhantes –
e perigosíssimas– corridas em pista molhada. O muro esteve sempre muito perto dele, até que o alcançou.

Tímido, pouco à vontade no papel de celebridade, jamais aparentando satisfação maior com as coisas simples da vida, Senna atingia a plenitude na arena de suas conquistas e no pódio triunfal. É difícil imaginá-lo aposentado, remoendo o passado e amaldiçoando o presente.

Parafraseando os roqueiros Pete Townshend e Neil Young, talvez no caso de Senna fosse mesmo preferível morrer antes de envelhecer, consumir-se em chamas do que definhar aos poucos. Foi até o fim no rumo que escolheu: gladiador altaneiro, merece respeito e não lamúrias. (por Celso Lungaretti)
Entrevista de 102 min. com Senna no programa Roda Viva, da TV Cultura (SP)

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

YO SOY UN HOMBRE SINCERO. E, DE VEZ EM QUANDO, ENCONTRO OUTRO...

Defendendo minha causa sozinho neste colegiado, dei mais uma volta por cima em 1985 
M
eu último emprego fixo como jornalista profissional terminou juntamente com o ano de 2003. 

E não foi por desejo meu que, quando acabava de completar 53 anos, tive de ir me virar com bicos malpagos e acabar me salvando da ruína graças à anistia de ex-preso político que fui buscar na bacia das almas. 

[Motivo: uma ação entre amigos estava em curso para se atenderem primeiramente os bons companheiros da esquerda institucional, deixando para as calendas gregas os encrenqueiros da esquerda independente. 

Só consegui virar aquele jogo porque li atentamente as regras do programa e constatei que os critérios de priorização de casos para a marcação de julgamentos estavam sendo desobedecidos.] 

Tudo era mais difícil para mim naquele tempo porque estava nas listas negras da direita (tanto da selvagem quanto da civilizada) e também das da esquerda domesticada, aquela que deixara inclusive de utilizar a palavra revolução 

Pelos motivos certos, vale dizer; hoje agiria da mesmíssima maneira.

Tendo as viúvas de Hitler e Mussolini, os devotos do Deus Mercado e os discípulos de Eduard Bernstein contra mim, não sobrava quase ninguém influente ao meu lado. 

Mas, já passara por situações terríveis em 1970 e, se então sobrevivera, não seria por aquele muito menos que eu entregaria os pontos.

E lembrei a lição do Bob Dylan: when you ain't got nothing, you got nothing to lose. Então, dali em diante levei meu compromisso com a verdade às últimas consequências, não passando pano para mais ninguém. 

Malquisto por malquisto, preferi sê-lo por não me curvar a convencionalismos e hipocrisias. Mesmo porque, não pertencendo a nenhuma elite, nada me obrigava a aceitar as regras de bom tom de qualquer uma delas.

A minha mais recente verdade inconveniente está neste post do último domingo.

E hoje tive a satisfação de encontrar outro jornalista que não rasga seda para famosos: o comentarista esportivo Luís Augusto Simon, conhecido como Menon

É um arraso o seu texto de três horas atrás. (por Celso Lungaretti)
.
NÃO SENTIREI FALTA DE GALVÃO BUENO
A
Argentina ganhou seu terceiro título. 

Messi ganhou o seu primeiro.

O Brasil, uma vez mais, caiu para um europeu nas quartas. 

Marrocos levou a África pela primeira vez à semifinal da Copa do Mundo. 

E, por aqui, há um movimento para se transformar a despedida de Galvão Bueno da Globo num dos fatos predominantes da Copa. E ele também faz parte do movimento. 

Como eu não vejo a Globo, por motivos óbvios, desde 2016, não sentirei falta alguma. Nada. 

Há tempos não me irrito com aquela lenga-lenga incentivando rivalidade com a Argentina. Eu, que gosto da América do Sul e gosto do futebol argentino, vou ficar escutando aquele blablablá? 

Não é um narrador. É a voz amplificada do Brasileiro médio. No me gusta

Galvão não se comporta como um narrador, Ele é o dono da seleção. É a Voz do Brasil

Quando leva o treinador ao seu programa, é só bola levantada, nenhum questionamento. Depois, quando perde, fica dando indiretas e fazendo críticas. 

Como alguém que perdeu o seu brinquedo. Como um namorado que não aceita a separação. 

Não vou analisar a voz de Galvão Bueno. Não sou capacitado. Quem o é garante que sua técnica é perfeita. Para mim, tanto faz. 

E de quem eu gosto? De poucos narradores.

Na Olimpíada, cansado de pachequismo, via as competições nos canais sem áudio. Mesmo assim, foi surpreendido por repórter chorando ao fazer pergunta para o surfista. 

Realmente, não gosto do jornalismo tomado pelo entretenimento. Se não é assim na política, na saúde etc., por que precisa ser no esporte? 

A Voz do Brasil não é a minha voz. (por Menon)

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

RICHARLISON É O ÍDOLO QUE O BRASILEIRO MERECE APÓS TANTO SOFRIMENTO

R
icharlison é o cara, disse Galvão. Repetiu uma, duas vezes. O elogio do narrador veio firme no primeiro gol do camisa nove da seleção brasileira na estreia do grupo na Copa do Mundo, quinta (24), contra a Sérvia. 

Mas quando Richarlison marcou, de voleio, o segundo, Galvão perdeu até a voz. 

O Twitter também. Colegas de escola ressurgiram da casa do chapéu pra falar dele. Minha mãe ligou. Filha, conta pra sua avó que você foi até a casa da família dele

Mas a reação mais bonita foi a da tia de Richarlison, Audiceia. É o nosso menino, do meio do mato, remelento, brilhando na seleção, gritou ela numa mensagem de voz. Essa pegou. Porque Richarlison –que em casa é Charlinho– é um menino muito bom. 

Ter escarafunchado a vida dele me fez conhecer um cara especial, querido por todo mundo, amado pela tia, pelos primos, pelo pai, pela mãe, pelos vizinhos que não o veem há anos, pelos molequinhos que jogam bola no campinho de futebol da cidade e sequer o conhecem. Richarlison é unânime. 

Ele aparece em Nova Venécia [cidade natal dE Richarlison no ES, com cerca de 50 mil habitantes, distante 80 km da capital Vitória] de vez em quando. Passa pela mesma rua em que morou quando criança e repete o gesto gentil que costumava fazer quando via alguma senhorinha abarrotada de sacolas de supermercado.  
Richarlison com a família durante rápida
passagem por Nova Venécia, 5 anos atrás
Criou um time de futebol na cidade, financiou pesquisas para a vacina contra a covid-19 e usou da própria imagem para incentivar as pessoas a se vacinarem.

Richarlison faz questão de reiterar que, pelo muito que já passou na vida, não pode fechar os olhos quando a coisa pega pra quem é pobre. E geralmente é pra quem é pobre que a coisa pega. 

Ele já foi pobre. Quando morou com a tia Audiceia, numa casa em ruínas que alagava a cada chuva, dormia amontoado com os primos e tios num quarto e vendia picolé pra completar a renda. 

Richarlison é politizado. Se manifestou sobre o apagão que afetou o Amapá, sobre as queimadas no Pantanal, protestou contra a morte de George Floyd; levanta tópicos sobre racismo e cuida de pessoas em situação de vulnerabilidade social. 

Pede comida na mesa do povo e educação de verdade para as crianças que menos têm. Richarlison e suas ações beneficentes ganharam o prêmio Community Champion, da Associação de Jogadores Profissionais da Inglaterra.

É hora de o brasileiro respirar um pouco depois de tanta angústia: uma pandemia que levou mais de 600 mil pessoas, que enclausurou gente em casa e desestabilizou mais um monte, devastou até o ânimo pelo que viria depois. Ainda não era clima de Copa, até Richarlison arrebentar ontem e escancarar que o clima de Copa está dentro da gente. 

Talvez o respiro possa ser no acolhimento de um ídolo que luta com o povo contra o que agride valores e vivências de quem é brasileiro. 

Por que não adotar Richarlison como ídolo da redenção que o Brasil merece? Que, nacionalmente, Richarlison também vire
Charlinho
.
(por Talyta Vespaque é repórter de Esporte
no UOL, após ter passado pelo Portal R7
e pelo site da revista Veja)

domingo, 11 de agosto de 2013

GALVÃO BUENO É PACHECÃO, MERCENÁRIO OU AMBOS?

Tostão, de atuações inesquecíveis na campanha do tri, foi craque com  a bola e é craque com o teclado. Trata-se de um dos poucos comentaristas esportivos que compensa lermos, depois da morte do também ex-jogador Sócrates. 

Sua coluna deste domingo, 11 (vide íntegra aqui), é simplesmente brilhante. Vale a pena destacarmos dois parágrafos, nos quais, discorrendo sobre as fulgurantes atuações de veteranos como Seedorf, Alex, Zé Roberto e Juninho, Tostão vem ao encontro de uma das minhas afirmações mais reiteradas a de que existe um verdadeiro abismo separando nosso decadente futebol do hoje praticado na Europa:
"O baixo nível técnico do Brasileirão facilita para os que sabem jogar, veteranos ou não. Muitos discordam. Uns, por convicções técnicas, usam de argumentos, mesmo quando não existem, para dizer que está tudo bem. Há ainda os  pachecões, os Policarpos Quaresmas, que acham antipatriota criticar o que é nosso. Existem também os interesses econômicos, de que não se deve desvalorizar o produto futebol.
Durante e após os 8 a 0 [sapecados pelo Barcelona no Santos], muitos --não digo quem porque são inúmeros-- se concentraram nas críticas na falta de empenho dos jogadores e de planejamento da diretoria do Santos. Esqueceram do mais importante, a absurda diferença técnica entre os dois clubes. Mas isso é proibido falar, para não desvalorizar nosso futebol".
Só não sei se ele coloca Galvão Bueno na categoria dos  pachecões, dos intere$$ado$ em preservar o produto futebol, ou em ambas.. 
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