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domingo, 30 de agosto de 2020

O MELHOR FUTEBOLISTA DA NOSSA ÉPOCA MERECE UM CANTO DO CISNE FULGURANTE

TOSTÃO
O RELACIONAMENTO ENTRE BARCELONA
E MESSI PARECE TER CHEGADO AO FIM
Parafraseando uma das mais belas crônicas, poemas, do poeta e escritor Paulo Mendes Campos, o amor acaba, por dezenas de motivos. Parece certo que terminou o profundo e longo relacionamento afetivo entre Messi e Barcelona.

A gota d’água foi a derrota de 8 a 2 para o Bayern, pelas quartas de final da Liga dos Campeões. Messi se sentiu humilhado e já tinha avisado, após a perda do título espanhol para o Real Madrid, que a equipe, se não melhorasse, passaria por muitas vergonhas. Ele não sabia que seria tão grande.

O amor acabou muito antes, por causa das condutas da diretoria, como as de criticar os jogadores por algumas derrotas, pelas negociatas relatadas na imprensa e por não se empenhar na contratação de Neymar, a pedido de Messi, que queria fazê-lo seu herdeiro.

O fascínio terminou quando Messi viu também que a bola que saía de seus pés não voltava como ele queria e que tinha de fazer muito mais esforço para marcar seus gols. Viu que o Barcelona estava desajustado, ultrapassado. Constatou ainda o óbvio, que o tempo passa e que ele não é eterno.

O Barcelona implodiu. Não quer ficar mais com vários de seus principais jogadores, como Suárez, Rakitic, Busquets, Piqué e Jordi Alba, muitos deles da geração de Messi, formados em La Masia, centro de formação de jogadores do clube.

Iniesta, Messi e Xavi faziam do Barça o melhor time da História
O clube catalão se iludiu que a grande geração de Messi, que teve também Xavi, Iniesta e Fàbregas, poderia ser replicada em laboratório e que haveria uma fórmula mágica de produção de craques. 

Da geração seguinte ainda não surgiu nenhum fora de série, embora haja algumas promessas. A maioria já foi testada, não apresentou qualidades para jogar no Barcelona e foi cedida para times médios da Europa.

A estrutura física e técnica na formação de atletas é importantíssima, essencial, mas não é garantia que sempre surgirão craques. Algumas vezes, os fenômenos nascem do nada, sem explicação. Muitas grandes equipes da história foram formadas assim, por acaso.

Por causa da pouca qualidade da geração seguinte à de Messi, o clube gastou fortunas para contratação de jogadores, sem sucesso, como Coutinho, Arthur, Dembélé, Griezmann e outros. Todos são muito bons, mas criaram uma expectativa acima da realidade. O time atual possui várias deficiências coletivas e individuais.

O amor acaba, mas pode renascer noutro clube, país, com novos companheiros. Há sempre alguém à espera, com muito carinho. A carreira magistral de Messi ainda não terminou. Precisamos vê-lo por mais tempo. Será um vazio sem ele. 

Ou Messi está cansado de tanta pressão, de tanta responsabilidade, de ser, em todos os jogos, o genial atleta que é?
Messi pode estar com vontade de voltar a Rosário (onde jogou na infância) e encerrar a carreira no Newell’s Old Boys; ou de sentar-se na praça e sonhar com outros prazeres, antes que a sociedade do espetáculo, sedenta por novos ídolos, se canse dele. (Tostão, tri mundial em 1970 e nosso melhor comentarista  esportivo atual)
.
TOQUE DO EDITOR — Nos esportes torço, acima de tudo, pela arte. Então, antecipadamente lamento o vazio que a aposentadoria do (indiscutivelmente) melhor futebolista do século 21 e (provavelmente)  maior de todos os tempos deixará. 

Os idiotas da objetividade (como Nelson Rodrigues qualificava os incapazes de captar a beleza em estado puro que a vida às vezes nos proporciona, limitados ao perde/ganha que lhes dá uma ilusão de serem vitoriosos e não os  eternos perdedores que são na injusta sociedade atual) exibirão números, eu prefiro o êxtase. A cada um, o seu.

Era apaixonado pelo futebol da socrática democracia corinthiana, ia em todas as suas  partidas no Morumbi ou Pacaembu; enquanto reinou, Muhammad Ali me ver boxe como nunca  antes nem depois; após Federer pendurar a raquete, provavelmente passarei anos sem interessar-me pelo tênis; até no xadrez me viciei quando o destemido Kasparov desafiava os burocráticos e cautelosos Karpovs que tinham, todos, a cara da revolução traída.  
Está chegando a hora de me deixar órfão futebolístico por uns tempos o cracaço Messi, maior símbolo da revolução catalã da década passada, quando voltei a me deliciar com um futebol brilhante, alegre e ofensivo que pensava ter deixado para trás.

Torço para que, seja ao lado de Guardiola e De Bruyne, ou de Neymar e Mbappé, ele tenha um fim de carreira à altura de sua genialidade e de toda beleza que nos entregou. 

Gostaria que houvesse sido na heroica e rebelde Catalunha, pela qual tanto apreço tenho. Mas, um atleta com a idade dele não tem mais tempo útil pela frente que lhe permita esperar o Barcelona renascer das cinzas. 

Paciência. Mesmo que seja num time da pérfida Albion, mas ao lado do melhor técnico da nossa época, que tenha um canto de carreira capaz de calar até o mais obtuso e empedernido idiota da objetividade! (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 13 de junho de 2018

TRIBUTO ÀS CHUTEIRAS IMORTAIS – 6: É A ÚLTIMA CHANCE DE COLOCARMOS ÁGUA NO CHOPP EUROPEU! (final)

Em 20 Copas do Mundo até hoje disputadas, durante 19 prevaleceu o equilíbrio entre o continente europeu e o subcontinente sul-americano: sempre que a Europa se colocava à frente, o campeão seguinte era um selecionado da América do Sul, e vice-versa. Foram oito décadas seguidas sem que alguma impusesse sua hegemonia sobre a outra.

Em 2014, contudo, a balança se desequilibrou: pela primeira vez uma delas emplacou três conquistas consecutivas, estabelecendo o placar de 11x9. Então, o Mundial da Rússia será também o primeiro em que uma vitória do lado em desvantagem não bastará para restabelecer a igualdade. 

A Europa ameaça, portanto, tornar-se o continente do futebol, relegando-nos a condição subalterna até mesmo no esporte em que mais nos destacávamos. Como as coisas chegaram a este ponto?

2006 – Na Copa da Alemanha, o Brasil deu a Carlos Alberto Parreira a chance de bisar seu feito. Bom preparador físico que se tornou um técnico mediano, ele vencera na bacia das almas o Mundial de 1994, com um esquema de nove atrás e dois na frente (Romário e Bebeto), que só poderia mesmo levar a decisão contra a Itália para a loteria dos pênaltis, após 120 insuportáveis minutos de 0x0.

Parreira até dispunha de jogadores talentosos em número suficiente para montar uma grande seleção (Dida, Cafu, Roberto Carlos, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Ronaldo Fenômeno, Robinho), mas ficou faltando, exatamente... o dedo do técnico. Ou, pelo menos, que algum desses superstars chamasse para si a responsabilidade e resolvesse quase tudo, como Romário fizera em 1994, carregando o Brasil nas costas, pelo menos até aquela soporífera final na qual ninguém jogou nada.

Então, mesmo com o magro 1x0 e as dificuldades encontradas diante da Croácia na estréia, não caiu para Parreira a ficha de que a seleção estava lenta e desarrumada, dependendo exclusivamente de lampejos individuais.
Zidane expulso: reagiu mal à provocação de um italiano

Infelizmente para nós, isto ficaria encoberto pela mínima competitividade dos adversários seguintes, derrotados por 2x0 (Austrália), 4x1 (Japão) e 3x0 (Gama).

Aí, quando tivemos outro escrete de verdade pela frente, fracassamos melancolicamente. Para piorar, nossa asa negra foi de novo a França, que depois da goleada que lhe aplicamos na semifinal de 1958 (5x2), já nos havia dado o troco duas vezes, em 1986 e 1998. 

Com melhor esquema tático, mais atitude e o veterano Zidane em estado da graça, a França sobrou em campo: criou várias oportunidades, marcou com Thierry Henry aparecendo sozinho às costas da defesa brasileira e ainda foi prejudicada pela arbitragem, que assinalou fora da área um toque que havia sido cometido dentro dela. O único arremate brasileiro que foi na direção da meta francesa, exigindo defesa do goleiro Barthez, aconteceu aos 44 minutos do 2º tempo!

Na final contra a Itália, a França foi mais ofensiva; a defesa adversária, contudo, soube evitar outros gols depois do sofrido logo aos 7 minutos de jogo (Zidane, de pênalti). Os italianos acharam o empate em escanteio alçado para a área na esperança de que um deles ganhasse a disputa de cabeça com a zaga (foi o Materazzi) e conseguiram mantê-lo até o final do jogo e também da prorrogação.
Na famigerada decisão por pênaltis deu Itália, comprovando que nessas loterias tanto pode prevalecer o melhor (o Brasil foi ligeiramente superior em 1994) quanto o pior. Merecimento real só se definiria se fosse disputada nova partida alguns dias depois, mas os interesses comerciais hoje pesam mais do que os valores esportivos.

2010 – Aí veio a revolução tática do Barcelona, que o técnico Pep Guardiola iniciou em 2009, entronizando o jogo coletivo de posse de bola, movimentação constante e objetividade ofensiva. Foi um resgate e aperfeiçoamento daquele futebol total do técnico Rinus Michels e do maestro Johan Cruyjff,  o chamado carrossel holandês (ou laranja mecânica) da Copa de 1974.

O selecionado espanhol, obviamente o mais afinado com tais conceitos, venceu o Mundial da África do Sul com inegável eficiência, mas ficou devendo brilhantismo. 
Lenda do futebol, Andrés Iniesta fez o gol do título

Depois da fase de grupos, limitou-se a vitórias por 1x0 (sobre Portugal, Paraguai, Alemanha e Holanda, sendo esta última na prorrogação da finalíssima, com um golaço de Iniesta). Nas quatro partidas a Espanha foi superior, mostrando-se, contudo, incapaz de construir placares mais categóricos.

O Brasil permaneceu alheio à modernidade futebolística sob o autoritário Dunga, que a CBF tentou transformar em técnico da noite para o dia. 

Como jogador ele sempre fora um carregador de piano, provavelmente ressentido com a obrigação de ralar para os mais talentosos brilharem. Mas, pelo menos compensava suas evidentes limitações com muita entrega e capacidade de liderança. 

Como treinador ele continuou limitado e nem um bom líder conseguia mais ser, pois o elenco, quase todo atuando no futebol internacional, se desacostumara ao simplismo, rispidez e rabugices dos treineiros da velha escola.  
Assim, o Brasil de Dunga só venceu galinhas mortas (2x1 em cima da Coréia do Norte e 3x1 na Costa do Marfim, durante a fase de grupos; e 3x0 sobre o Chile nas oitavas de final), empatou em 0x0 com Portugal e foi derrotado pela Holanda por 2x1 nas quartas de final. 

Robinho marcou no 1º tempo, Schneidjer fez os dois gols da virada no 2º, Robben jogou muito e Felipe Melo foi o de sempre: cavalar, causando a própria expulsão quando nossa seleção mais precisava dele.

2014 – Finalmente, a CBF (abreviação de Casa Bandida do Futebol, segundo Juca Kfouri) parece ter concluído que o fracasso de 2010 se deveu a ter como técnico um sub-Felipão. Então, para dar a volta por cima na Copa seguinte, recorreu ao Felipão-ele-mesmo, técnico que já estava totalmente ultrapassado e vinha de passagem desastrosa pelo Palmeiras.
Até o Brasil vencer a Copa das Confederações, Dilma gelou Marin. Depois deu pra trás
Como homem de esquerda, não desculparei jamais que em março de 2012, quando o corrupto Ricardo Teixeira teve de renunciar à presidência da CBF sob vara, a presidente Dilma Rousseff e o ministro do Esporte Aldo Rebelo tenham aceitado passivamente sua substituição pelo filhote da ditadura José Maria Marin, um deputado que, em 1975, discursara na Assembléia Legislativa de São Paulo exigindo que fosse apurada a infiltração subversiva na TV Cultura.

Bastaria o governo federal ter levado ao conhecimento dos presidentes de clubes e federações que Marin, um dos responsáveis morais pelo assassinato de Vladimir Herzog, era um nome inaceitável para ocupar o posto de dirigente máximo do futebol brasileiro às vésperas do Mundial marcado para nosso país. Pusilânimes, endividados e dependentes de favores da União como eram e são, jamais ousariam passar por cima desse veto informal.
O craque Romário e o filho de Herzog pediram saída de Marin

Mas, a ex-presa política torturada e o ex-militante do partido cujos combatentes foram executados em massa no Araguaia não se deram a tal trabalho. E Marin, como era de esperar-se, escolheu o igualmente autoritário Felipão como técnico, desprezando as sondagens de Pep Guardiola, interessado em acrescentar outra enorme proeza ao seu currículo brilhante. [Terá a decisão de Marin sido por afinidade ideológica? É difícil imaginarmos outro motivo...]

A campanha começou com o Brasil sofrendo para derrotar a Croácia por 3x1: saiu em desvantagem e virou graças a um pênalti mandrake (o terceiro gol, marcado no último minuto, resultou num placar enganador). Seguiu-se um empate em 0x0 com o México e a previsível sova nos camaronenses por 4x1. 

Nas oitavas de final, o pífio empate com o Chile por 1x1 no tempo normal e 0x0 na prorrogação levou a decisão para os pênaltis (ruim até neste quesito, nosso selecionado venceu por míseros 3x2, desperdiçando duas cobranças).    

Contra a Colômbia, complicamos um jogo que estava fácil (2x0), sofrendo um gol aos 35' do 2º tempo e passando sufoco nos minutos derradeiros. Para piorar, Neymar sofreu entrada criminosa e ficou fora da Copa.
Espectador privilegiado: viu bem de perto o show alemão
E veio o catastrófico 7x1 do Mineirão, a pior e mais humilhante derrota sofrida pela seleção principal do Brasil em mais de mil partidas disputadas desde julho de 1914. Embora não estivéssemos mesmo à altura da Alemanha, o escore jamais teria sido tão acachapante se Felipão:

— não houvesse enfraquecido nosso meio de campo ao optar pela escalação de mais um atacante, Bernard, ao invés de tentar anular o ponto forte do adversário (diz-se que tal insensatez se deveu a ele ter sonhado, na véspera, que o jogador atleticano nos conduziria à vitória); e

— não tivesse ficado atônito e impotente no momento da adversidade, assistindo sem nenhuma reação à Alemanha marcar quatro gols consecutivos em apenas sete minutos, entre os 23' e 29' do 1º tempo, quando a derrota por 1x0 se transformou num chocolate de 5x0, inviabilizando qualquer possibilidade de virada. 

Enquanto isto, Messi, Mascherano e Dí Maria conseguiram, aos trancos e barrancos, conduzir a Argentina a uma improvável final. Na fase de grupos Leonel foi decisivo com seus quatro gols, Javier tapava os buracos de toda a defesa e Ángel decidiu a partida de oitavas de final contra a Suíça marcando o tento único no antepenúltimo minuto da prorrogação.
Contra a Bélgica (1x0) Di María se contundiu e a tarefa de criar oportunidades para os companheiros ficou inteiramente entregue a Messi que, sobrecarregado, não fez mais gols (para o que também contribuiu a possibilidade que os adversários passaram a ter de colocarem vários zagueiros em cima dele, o único jogador perigoso que sobrara na linha de frente dos hermanos).

Foi demais. A Argentina não conseguiu fazer um mísero gol na Holanda (venceu nos pênaltis) nem contra a Alemanha (perdeu por 1x0, tendo jogado melhor nos 45 minutos iniciais e depois caído de rendimento). Contudo, resistiu bravamente até o reserva Götze marcar, quando faltavam apenas sete minutos para o final da prorrogação.

A vice-campeã Argentina, com puro-sangues de menos e pangarés demais, fez campanha heroica, sobrevivendo a duas prorrogações e só entregando os pontos no finalzinho da terceira.
Do que o Brasil fez, nem é bom falar. Às vezes me belisco para ter certeza de que não foi um pesadelo e o 7x1 aconteceu mesmo.

2018 – Deste 21º Mundial, o que mais quero é uma vitória sul-americana, para impedir que os abastados europeus acrescentem definitivamente a superioridade futebolística às tantas outras que já detêm sobre os abestados (nós), entregando-nos mais um certificado de vira-latas.

A grande chance de fazermos ao menos justiça poética (já que a social é, por enquanto, quase impossível) está na ponta das chuteiras brasileiras: contamos com nosso melhor grupo de jogadores desde 2002 e um técnico acentuadamente superior aos cinco que já nos trouxeram títulos. Depois que Tite conquistou a Libertadores  e o Mundial de Clubes com o modesto Corinthians de 2012, não existe missão impossível para ele.
Depois do Mundial de Clubes, o de seleções?

O Uruguai de Suarez e Cavani também pode surpreender. E até no caso da convulsionada Argentina não convém descartarmos uma volta por cima, pois conta com o maior futebolista deste século, o que não é pouca coisa. 

Já Peru e Colômbia estão lá com a esperança de darem bons espetáculos, jogando como nunca; e a certeza de que, mesmo assim, perderão como sempre. O máximo que podem alcançar são as quartas de final.
O PENTA DA 'FAMÍLIA SCOLARI' (2002)

sábado, 28 de abril de 2018

ANDRÉS INIESTA: UM FUTEBOLISTA GENIAL E UM DOS MELHORES SERES HUMANOS QUE JÁ ATUARAM NO ESPORTE PROFISSIONAL

o que faz de Iniesta o maior jogador espanhol de todos os tempos? Oras, entre outras coisas, os feitos com a seleção espanhola, é óbvio. Um gol de título de Copa do Mundo é coisa para poucos. 

Mas vamos além disso. Depois de fazer aquele gol em Johanesburgo, Andrés Iniesta sacou a camisa em êxtase e, por baixo da roja, mostrou uma camiseta em que homenageava Dani Jarque – morto um ano antes, aos 26, após um ataque do coração. 

Jarque era capitão do Espanyol, rival local do Barcelona. Gente. Vamos ser sinceros. Ninguém mais lembrava de Dani Jarque. Não é que passaram o mês da Copa inteiro falando dele?! Foi uma homenagem inesperada. Maravilhosa. Humana. Sincera. 

Só os verdadeiros humildes conseguem voltar tantas casinhas no tempo justo no momento em que estão vivendo seu ápice. 

Iniesta, o autor do gol do título espanhol, passou a ser aplaudido por todos os campos da Espanha. Sempre, em qualquer jogo do Barcelona. E isso é assim há quase oito anos. 

Só porque ele fez o gol? Só por causa da homenagem a Jarque? Não, não só. Pela atitude em campo, por ter sido sempre um exemplo de cavalheirismo e fair play no gramado, por nunca ter dado pernada nem cotovelada em ninguém, por jogar muita, mas muita, mas muita, mas muita bola – o jeito de jogar que o espanhol venera e ama. 

E, claro, por não ter sido um divisor em anos de divisão e tensão. Iniesta sempre foi uma voz apaziguadora ou silenciosa no auge da rivalidade Barça-Madrid e também neste momento de independentismo catalão à flor da pele. Ao contrário do que muitos pensam, Iniesta é de Castilla La Mancha, uma região bem espanhola, e foi cedo para as bases do Barça. Mas nunca insuflou e nem menosprezou o separatismo catalão. 

Olhando de fora, eu percebo que a admiração por Iniesta é nacional e unânime. Junte tudo isso ao gol na final da Copa, aos títulos, à classe, etc, e temos o maior jogador da história da Espanha.  

Hasta pronto, Andrés. Y muchas gracias. (trechos do post de Júlio Gomes, comentarista de futebol internacional, homenageando Iniesta, que anunciou sua saída do Barcelona após defendê-lo por quase 22 anos. Ele tinha contrato vitalício com o clube, mas preferiu não continuar recebendo uma fortuna agora que a idade de 33 anos começa a pesar-lhe e suas contusões são cada vez mais frequentes)

terça-feira, 24 de abril de 2018

A LUTA PELO TRONO DO FUTEBOL ESTÁ ABERTA: MESSI CONTRA O FARAÓ.

semifinal desta 3ª feira (24) da Liga dos Campeões da Europa comprovou definitivamente que o atacante egípcio Mohamed Salah é o único jogador em atividade capaz de disputar com o argentino Lionel Messi a posição de melhor do mundo. 

Na vitória do Liverpool sobre a Roma por 5x2 no estádio de Anfield, na terra dos Beatles, ele assinalou dois gols (o primeiro foi de arrepiar!) e deu assistências para Sadio Mané e Roberto Firmino marcarem outros dois. Foi o nome do jogo.

E já vinha sendo o nome da temporada, com (agora) 43 gols em 47 partidas, além de 15 assistências (ou seja, ele garante para o seu time 1,23 gol a cada jogo). Astro do Liverpool, ele compareceu às redes nas três vitórias sobre o badalado Manchester City de Pep Guardiola. 

A série começou em janeiro, com os 4x3 em Liverpool, encerrando a sequência de 22 jogos invictos do City no campeonato inglês. Mas o melhor viria na Champions, com os 3x0 em casa e os 2x1 como visitante, com Salah marcando o primeiro gol do Liverpool nas duas partidas. Até chegarmos, hoje, à queda do Império Romano, que desabou a seus pés.

O comentarista esportivo Júlio Gomes, especializado em futebol internacional, assim resumiu a trajetória do faraó, hoje com 25 anos:
"Foi contratado pelo Chelsea quatro anos atrás, não deu certo, foi emprestado para a Fiorentina, vendido para a Roma. Na Itália, eu costumava chamá-lo de uma espécie de Mirandinha. Velocista, ciscador, mas péssimo na tomada de decisões. Meio burro, falando o português claro (ou corro ou penso, professor). Eu, como muitos, achei um absurdo o Liverpool pagar mais de 200 milhões de reais por ele.
Eu, como muitos, estávamos errados. Ele não só provou seu valor na Premier League como passou a tomar todas as decisões corretas. Passa quando tem de passar. Finaliza quando tem de finalizar. E faz gols. Um caminhão deles.
O cara virou o Messi de um ano para o outro. É gol de canhota no ângulo, de cavadinha… é só golaço. Sem contar a função tática pela esquerda, fechando espaços e criando muitos problemas com tanta velocidade".
Quanto a ser reconhecido numa das principais premiações do futebol, a Bola de Ouro, é evidente que, caso seja o Liverpool ou o Real Madrid quem vença a Liga dos Campeões, o agraciado será Salah ou Cristiano Ronaldo, respectivamente. Se der Bayern, a disputa tende a ficar entre Salah, Messi e algum craque do time alemão que se destaque nas partidas decisivas.

Já a escolha da Fifa levará em conta também a Copa do Mundo, na qual Portugal e Egito vão entrar como meros figurantes e a Argentina só conquistará o tri se o seu único fora-de-série carregar o escrete nas costas como fez na última partida das eliminatórias (Equador 1x3 Messi).

Mas, tais prêmios são apenas promocionais, impulsionam o marketing do futebol e não se destinam a identificar o melhor futebolista. Agraciam o maior destaque do time que conquistou os títulos mais importantes. 

E, às vezes, nem isto.  Em 2013, na fase em que a Bola de Ouro e o troféu da Fifa eram atribuídos conjuntamente, o placar estava Messi 4x1 Cristiano Ronaldo e o português nada conquistara na Champions nem na Espanha, só brilhando na repescagem (!) da Copa do Mundo, quando foi decisivo contra a Suécia. 

Muito se falou na época que a escolha foi manipulada para não desfazer a (aliás falsa) impressão de que havia competição entre ambos, boa para alavancar os negócios que giram em torno do futebol.

Mera forçação de barra dos movidos pela ganância, enfim. Messi é um gênio finalizando, driblando, lançando, pensando, comandando o ataque. Disparado, o melhor futebolista do século 21, assim como Pelé foi o do século 20.

Cristiano não passa de um jogador razoável nos demais fundamentos, só se destacando:
  • pelas excelentes finalizações com os pés e com a cabeça; 
  • pelo físico (é alto e vigoroso);
  • pela impulsão (sobe muito para cabecear); e
  • pelo senso de colocação (tem a intuição de para onde a bola acabará indo).
Mas, precisa que a redonda chegue até ele em condições favoráveis para suas conclusões. Caso contrário, nada renderá.

Os grandes craques conseguem ser decisivos de várias outras maneiras. Ronaldo não é nem tem mais idade e aptidão para tornar-se um deles. 

Ao passo que Messi, p. ex., poderá deixar a definição das jogadas para os mais jovens e, recuando um pouco, desempenhar em seu final de carreira a função de meio-campista no Barcelona (ainda mais com a provável ida do magistral Iniesta para a China). 

domingo, 20 de dezembro de 2015

A MÚSICA DO DIA EM YOKOHAMA: "DON'T CRY FOR ME ARGENTINA".

Foi mais um passeio do Barcelona. A conquista do Mundial de Clubes da Fifa, neste domingo (20) em Yokohama, não esteve ameaçada em momento algum. 3x0 foi pouco.

O River Plate caiu na besteira habitual de times que enfrentam o Barça: armou uma retranca brava e ficou rezando para que um lance salvador caísse do céu. 

O Barcelona, como sempre, buscou o jogo, pois quem procura tem muito mais chance de achar. Foi trocando bolas no ataque até encontrar uma brecha para seus cracaços fazerem a diferença.

Aconteceu aos 35' do 1º tempo. Daniel Alves levantou para Neymar disputar com um zagueiro, o brasileiro subiu muito e espanou a bola para Messi matá-la e dar um toque mágico, acrobático, fazendo-a a passar por um espaço mínimo entre os três defensores. Se ainda havia alguma dúvida sobre quem receberá a Bola de Ouro da Fifa, Messi a dissipou de vez.

O pobre River foi obrigado a correr o risco que tentava evitar. Voltou do intervalo com uma postura ofensiva e o melhor time do mundo não perdoou: logo aos 4' Busquets lançou Suárez em profundidade, este chegou na cara de Barovero e arrematou entre as pernas do goleiro argentino.

Daí até o final a equipe catalã fez o River de gato e sapato, desperdiçando uma meia-dúzia de gols, pois Neymar e Messi andaram algo dispersivos nos momentos agudos.

Suárez queria mais: aos 22' recebeu um passe perfeito de Neymar pelo alto e cabeceou colocado.

Vi muita coisa no futebol, mas nunca uma concentração tão exuberante de talentos ofensivos como a do tridente sul-americano do Barça, ainda mais tendo a apoiá-lo o extraordinário Andrés Iniesta.

Decidem mesmo quando estão não estão num dia dos mais inspirados. Suárez fez os dois gols que liquidaram o River, mas perdeu outros dois. Messi tirou coelho da cartola quando era mais necessário, depois vacilou em situações até melhores. Neymar às vezes foi fominha, mas compensou com as duas assistências que acabaram nas redes. 

A coisa anda tão desequilibrada que, mesmo impedido de reforçar-se nesta temporada por uma decisão esdrúxula da Fifa, o Barcelona termina 2015 como vencedor das três principais competições que disputou (o Mundial de Clubes, a Liga dos Campeões e o campeonato espanhol) e de duas menores (a Copa do Rei e a Supercopa da Uefa). Só ficou faltando a Supercopa da Espanha, na qual, voltando das férias, foi surpreendido pelo Athletic Bilbao.

O melhor de tudo é que o predomínio do Barça de 2005 para cá vem sendo o carro-chefe de um novo apogeu do futebol-arte, quando pensávamos estar condenados ao defensivismo, à truculência e excesso de faltas, às ligações diretas, aos chutões pra todo lado e aos gols resultantes de bolas paradas. 



Aliás, ultimamente se evidenciou bem, por aqui, a diferença entre o presente e o passado: o Corinthians conquistou o Campeonato Brasileiro com um futebol tão bonito quanto eficiente, superior em todos os quesitos, enquanto o Palmeiras foi buscar uma Copa do Brasil na bacia das almas dos pênaltis, aos trancos e barrancos, sem jamais convencer de que era mesmo a melhor equipe que sobrara (o Corinthians e o Atlético Mineiro, visivelmente, deram um jeito de ser eliminados depressa para se dedicarem apenas ao Brasileirão).

Há quem torça o nariz para as competições que premiam a constância e a qualidade, preferindo as emoções baratas dos mata-matas, que nivelam os competidores por baixo e dão chance para que equipes guerreiras em jornadas afortunadas surpreendam os melhores.

Mas, pelo visto nos últimos Mundiais de seleções e de clubes, não é por aí que voltaremos aos nossos anos de ouro, reconquistando a hegemonia perdida.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

OS IMPROVÁVEIS 'CHOCOLATES' DE BARCELONA E CORINTHIANS SOBRE SEUS GRANDES RIVAIS

Sou corinthiano desde criancinha e culé desde que o Barcelona atualizou o carrossel holandês, tornando-se o carro-chefe de um novo apogeu do futebol-arte. Então, o último fim de semana foi o melhor de toda a minha vida de torcedor: meus dois times simplesmente massacraram os maiores rivais.

Goleadas tão acachapantes em clássicos são muito raras, quase sempre resultando da conjugação da excelência de uma equipe com erros terríveis da outra.

O 4x0 do Barcelona sobre o Real Madrid, em pleno estádio Santiago Bernabeu, se deveu: 
  • à qualidade do jogo coletivo dos catalães, muito superiores aos merengues neste quesito;
  • a atuações brilhantes de Iniesta, Neymar, Suarez e Bravo, enquanto os craques adversários, principalmente Cristiano Ronaldo, estiveram muito mal; 
  • à imprevidência do técnico Rafael Benitez, que sacou do time o volante defensivo Casimiro pensando em aumentar o volume de jogo do ataque madrilenho, mas acabou apenas desguarnecendo sua retaguarda, exatamente como Felipão fez no malfadado 7x1 do último Mundial. 
Com os espaços de que necessitava para desfilar sua imensa categoria, Iniesta ditou o ritmo do ataque, ministrou uma aula de futebol inteligente, marcou um golaço e deu outro de bandeja para o Neymar fazer.


Se, tendo um Messi meia-boca (vinha de contusão e só entrou no 2º tempo, com evidente falta de ritmo), era improvável que o Barça, fora de casa, triturasse o Real, mais surpreendente ainda foi a impiedosa sova que o misto do Corinthians, em casa, aplicou no pobre São Paulo: 6x1!

Para a partida em que festejaria a conquista do título, Tite escalou oito jogadores que não vinham atuando, embora três (Fagner, Uendel e Bruno Henrique) fossem titulares antes de se contundirem. Temia-se que o São Paulo, precisando da vitória para melhorar suas chances de chegar à Libertadores, botasse água no chopp, carimbando a faixa dos campeões. 

Mas, a defesa tricolor mostrou vulnerabilidade extrema ao jogo aéreo, permitindo que o Corinthians praticamente liquidasse a fatura no 1º tempo. Três cabeçadas de dentro da área terminaram em gols, outra obrigou o goleiro Denis a esticar-se todo para salvar. E foi simplesmente ultrajante a vantagem que Romero levou sobre o confuso Lucão, um Zé Grandão Bobo que nem sequer saltou para atrapalhar o atacante baixinho.

No segundo tempo, uma linha de passe alvinegra terminou em golaço de Lucca, depois de Bruno Henrique girar sobre um zagueiro ingênuo e o veterano Danilo dar um milimétrico passe de calcanhar. Finalmente, o esforçado paraguaio Romero teve sua jornada de Cinderela, abrindo caminho para mais dois gols.

No apagar das luzes, o árbitro arrumou um pênalti de consolação para o São Paulo, mas o gigante Cássio confirmou sua escrita de algoz dos cobradores, repetindo com Alan Kardec o que já fizera duas vezes com o Rogério Ceni.

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