domingo, 31 de julho de 2016

CRÔNICA DA CRIMINALIDADE HEGEMÔNICA E DA CIVILIZAÇÃO AGÔNICA

MUITAS CAUSAS...

"Se disserem que o crime 
não compensa, você tem 
de lembrar que é porque 
quando compensa não é 
crime." (Millôr Fernandes)
As sociedades mercantis, capitalistas, são fábricas de ricos bandidos de colarinho branco, e cada vez mais, do crime organizado por bandidos que querem ficar ricos e de delinquentes juvenis pobres atraídos pela busca do dinheiro farto que lhes falta. 

O dinheiro é o móvel primário do crime e a crescente decrepitude moral social decorre da descriminalização da apropriação indébita de parte do trabalho abstrato pelo capital, que assim oficializa e valida a lei de Gerson (expressão inspirada nos comerciais de cigarro em que o futebolista campeão de 1970 aparecia dizendo que gostava de sempre levar vantagem)

O problema se agrava porque à tradicional desigualdade social agora se acresce o desemprego estrutural. E como, enquanto houver dinheiro, ele não será suficiente para todos – principalmente agora, na sua fase de impossível reprodução no nível de exigência da expansão monetária válida advinda da chamada economia real –, o crime campeia solto.    

Primeiramente, devemos reafirmar o nosso repúdio ao crime generalizado em todas as esferas sociais. Ele tem como exemplos midiáticos: 
  • a corrupção política; 
  • a cooptação de jovens para a prática de barbáries pseudo-religiosas como a dos fundamentalistas islâmicos, que se constituem no estágio mais visível do atual retrocesso civilizatório da humanidade; 
  • e os recorrentes latrocínios no Brasil (assaltos à mão armada com mortes, e mais de três assaltos a bancos por dia), que pontuam como evidências de uma patologia social profunda. 
Destarte, devemos nos debruçar sobre as razões do terreno fértil sobre o qual o crime planta as suas sementes de barbárie e ódio cego. Não podemos fugir da análise das causas estruturais, como se elas não existissem e a criminalidade derivasse de uma patologia mental criminosa coletiva, desvinculada de nossa ação ou omissão, como se fora mero caso de polícia. 

O aumento da criminalidade tem causas e razões sociais indesculpáveis, das quais somos parte, por via da nossa servidão voluntária ao sistema; fugir de sua discussão é omissão covarde ou resultante de uma inconsciência social. Devemos encará-la, até porque ela está batendo à nossa porta.

Entre outros fatores, as matérias-primas dessa indústria da criminalidade e da decadência moral são o desemprego estrutural e o subemprego; a falência dos serviços públicos essenciais (educação, saúde e segurança pública); e a precariedade da previdência social, que, com sua anunciada futura falência, angustia os velhos aposentados já empobrecidos. 

Vejamos alguns das condicionantes do aumento da criminalidade:
  • o desemprego, numa família, que somente pode manter sua subsistência com o dinheiro do salário, significa desespero. E o desespero, sem consciência das formas de superação do problema (que consiste na superação do próprio emprego), é um significativo  fator de indução ao crime;
  • o despreparo intelectual, numa sociedade de produção tecnológica de mercadorias e serviços, inviabiliza o acesso dos analfabetos funcionais à inclusão social; 
  • a perda da capacidade do Estado de prender, processar e condenar (o uso recorrente das tornozeleiras eletrônicas é exemplo disso), pois um preso é mais caro do que um professor denuncia a falência sistêmica de modo ilustrativo e irrefutável;
  • lei de Gerson, como norma de conduta moral, é referência comportamental criminosa.
A resultante disso tudo é a barbárie generalizada que vemos pela televisão ou ao abrirmos a janela, e que não é apenas culpa de um ou outro governo (embora o agrave quando incompetente e corrupto), mas de um modelo social que se tornou anacrônico. 

E, se assim é, a questão central não nos remete à escolha eleitoral dos nossos dirigentes, numa transferência de responsabilidade cômoda e inócua, mas sim à compreensão da nossa responsabilidade com a natureza e essência do nosso modo de ser social, bem como da necessidade de sua superação por algo que seja consentâneo com o conceito atual de modernidade, apenas existente nos ganhos admiráveis em ciência e tecnologia, mas que nunca chegam ao campo social. 
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... E UM EFEITO.
(ou: O TRISTE FIM DO ROSENILDO)

Rosenildo era filho de Rosa Maria e José Nildo, que se casaram no final dos anos 70, quando os dois vieram do interior para Fortaleza em busca de melhores dias. Nasceu em Fortaleza, em 1983, e desde então a família morava na favela Cidade Aflita, num barraco de alvenaria, sem reboco externo, com piso de cimento e três pequenos cômodos, juntamente com seus três irmãos. 

Agora no ano de 2016, José Nildo, semialfabetizado, que contava 63 anos e havia trabalhado a vida inteira como ajudante de pedreiro, jardineiro, vigia e zelador, vinha tendo problemas de saúde que lhe foram causados pelo diabetes e pressão alta. Estava sendo (des)tratado pelo SUS – Sistema Único de Saúde quando soube da sentença em uma ação de reintegração de posse promovida pelo proprietário do terreno, que ordenava a desocupação de todos os moradores da favela em 90 dias. A família passou a viver um pesadelo.

Rosenildo era bom de bola, o que havia gerado na família dele a esperança de que se tornasse um Neymar, para ganhar muito dinheiro. Mas, aos 33 anos, era apenas titular do time da Sociedade Esportiva Cidade da Esperança; o sonho dourado de virar celebridade esportiva havia se frustrado. 

A situação pessoal e familiar de Rosenildo, que queria casar com Maria Rita, com quem já namorava há oito anos, colocara-o num impasse: repetir a vida do seu pai, que após anos de trabalho, já velho e doente, teve como resultado um despejo e um atendimento médico público como o que conhecemos, ou procurar uma saída do tipo se vira nos trinta

Revoltado e perplexo, Rosenildo aceitou a proposta de entrregar drogas para os clientes de um conhecido traficante local, apelidado Cara de Cavalo. Inicialmente ganhou um dinheiro fácil e até comprou uma moto. Já se preparava para o casório quando foi instado, sob ameaça, a fazer uma parada para seu chefe. 

Tratava-se do recebimento de cocaína que chegria de um país da América do Sul, com a promessa de ganhar grana suficiente para resolver o problema do despejo da família, cuidar melhor da saúde do seu pai e, ainda, casar. 

O sonho se desfez quando a polícia, avisada por traficantes concorrentes que mantinham conluio com os hôme, fez uma batida e prendeu os envolvidos. Rosenildo, tentando fugir, foi atingido por um tiro e morreu no local.
[Esta é mais uma desesperada e repetida notícia da nossa decadente sociedade mercantil. Diante de tantos fatos e evidências, qual a eficácia do voto na escolha dos prefeitos e vereadores nas próximas eleições que se aproximam, independentemente de pessoas e partidos?] Por Dalton Rosado
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De frente pro crime ('Tá lá um corpo estendido no chão")

sábado, 30 de julho de 2016

TUDO COMO DANTES NO QUARTEL DE ABRANTES

Alguém adivinha quem seja o autor e qual contexto histórico terá inspirado o parágrafo abaixo? Leiam e reflitam:
"Os teus príncipes são companheiros dos ladrões. São companheiros dos ladrões porque os dissimulam; são companheiros dos ladrões porque os consentem; são companheiros dos ladrões porque lhes dão os postos e poderes; são companheiros dos ladrões porque talvez os defendam; e são, finalmente, seus companheiros porque os acompanham e hão de acompanhar ao inferno, onde os mesmos ladrões os levam consigo".
Não, não se trata de um discurso rebuscado de jurista que estivesse acusando os presidentes da República dos períodos do mensalão e do petrolão; ou da catilinária de algum crítico dos métodos utilizados pelo PT para garantir a malfadada governabilidade.

Trata-se de um trecho do Sermão do bom ladrão, que o padre Antônio Vieira proferiu diante do rei D. João VI e sua corte há 361 anos, numa igreja de Lisboa. Vergonhosamente, de 1655 até hoje não perdeu nem um tiquinho da sua atualidade.

Cá na patriamada, para evitar despesas legais, conviria incluir a ressalva de que "qualquer semelhança com fatos e pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência". 

E, para não entediar os leitores, poderiam ser suprimidas as passagens referentes a bons ladrões, pois na corte da politicalha brasileira eles inexistem. Só há os dissimulados e os ostensivos, igualmente péssimos. 

Quanto a todos irem para o inferno, certamente é o que lhes deseja a imensa maioria dos brasileiros.

RECADO AO LULA: NÃO ADIANTA UTILIZAR INSTRUMENTOS DE REVOLUCIONÁRIOS QUANDO NÃO SE É REVOLUCIONÁRIO.

Lula sendo libertado do Dops em 1980
Diziam os antigos que, se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia. E uma zombeteira canção do Chico Buarque (vide a janelinha lá embaixo) trata de desconstruir essas pérolas do senso comum.

Mesmo assim, darei um conselho ao Lula, na esperança de contribuir para que ele tenha uma velhice tranquila: não adianta utilizar instrumentos de revolucionários quando não se é revolucionário.

Em 1980, quando estava confortavelmente preso no Dops de SP, com direito a bater bola com outros sindicalistas e a assistir jogo do Corinthians na TV, caiu na besteira de iniciar uma greve de fome e a encerrou logo depois, com o rabo entre as pernas. Deu esta justificativa:
"Sempre fui contra greve de fome, judiar do meu próprio corpo não é comigo, mas o pessoal decidiu".
Agora, está se queixando à ONU de perseguição judicial, o que só faria sentido sob uma ditadura e apenas no caso de ser um contestador da ordem vigente e estar sendo acusado de subversão, como acontecia nos anos de chumbo

Todos sabemos que as três hipóteses são inverídicas, embora a tentativa de evitar que volte ao poder deva ser a motivação subjacente de tanto empenho em provarem que Lula cometeu os mesmos delitos dos políticos convencionais. 

Mas, infelizmente para o Lula, hoje ele também não passa de um político convencional e, se tirar do baú a camiseta que utilizava nas portas de fábricas e vesti-la de novo, só evidenciará o quanto ela destoa do seu look atual, começando pela barba cuidadosamente modelada em cabelereiros chiques.

Não dá para ir à ONU e se dizer injustiçado por pretenderem puni-lo em função de práticas nas quais tantos outros incorrem impunemente. O único erro é não haver punição nos demais casos, e isto independe da ONU.

Então, ele deveria mirar-se no exemplo do Paulo Maluf, por quem tem tanto apreço e consideração, a ponto de haver posado numa alegre promiscuidade com o dito sujo (ôps, quer dizer, cujo) em fotos que horrorizaram a militância petista.

Enquanto Maluf insistia em disputar eleições para o Executivo, a polícia sempre rondava e até o prendia. Quando se resignou a ser deputado federal, deixaram-no em paz.

Não tenho nenhuma ilusão sobre a inflexibilidade do combate à corrupção sob o capitalismo – ainda mais no Brasil! Seria capaz de apostar que, anunciando sua definitiva desistência de voltar à Presidência da República, Lula conseguiria manter-se fora das grades.

Na verdade, creio que sua exclusão do rol dos presidenciáveis acontecerá de qualquer maneira. Estão com a faca e o queijo na mão, prontinhos para abortarem uma eventual candidatura em 2016 pelas vias legais. 
A Erundina arretada desistiria mesmo de ser vice do Haddad!
Com toda sinceridade, detestaria ver o Lula preso aos 70 anos, assim como detesto ver o Zé Dirceu preso aos 69. Pertencem a outra etapa da História brasileira e é hora de saírem de cena, desobstruindo os trilhos para que as novas gerações tentem fazer o que o Zé Dirceu fracassou em fazer e o Lula nunca quis fazer: darem um fim à exploração do homem pelo homem, substituindo a ganância compulsiva e a competição insana do capitalismo pela colaboração solidária dos seres humanos para a consecução do bem comum.

Parafraseando Fado tropical, outra bela canção do Chico Buarque de outrora, no fundo, eu sou um sentimental. Vejo o Lula, a Dilma e o Zé como personagens hoje perniciosos para a revolução brasileira e ficaria muito contente com o definitivo ostracismo político dos três. 

Mas, nunca desejarei suas desgraças pessoais. Se dependesse de mim, passariam o resto de suas existências no aconchego dos lares, curtindo a família e extraindo a máxima felicidade possível dos anos que lhes restam.

Muito antes de me tornar também um idoso, já considerava a prescrição dos crimes e delitos como um preceito fundamental da civilização. Até no caso extremo do torturador-mor Brilhante Ustra, eu defendi que o Estado o condenasse inequivocamente pelos crimes que cometeu, deixando bem claro o quão hediondos haviam sido, a fim de que isto servisse de exemplo para os pósteros e precedente jurídico a nortear decisões futuras; e, em seguida, que lhe permitisse, em função da idade e do fato de não apresentar mais periculosidade, esperar a morte em casa.

Pena de encarceramento não deve servir como uma vingança da sociedade. Jamais!
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P.S.: Hoje, 02/08, já não resta dúvida nenhuma de que o recurso à ONU terminou sendo uma das iniciativas mais desastradas da carreira do Lula. Como juristas, articulistas e editorialistas esclareceram nas páginas da grande imprensa, foi uma jogada pífia em termos de trazer a opinião pública para seu lado e inócua sob o aspecto legal (ele poderia, na melhor das hipóteses, ter obtido uma mera recomendação da ONU em seu favor, sem força para obrigar Sérgio Moro a tratá-lo de forma diferente nos trâmites judiciais).

E é forte a suspeita de que haja caído na antipatia dos juízes em geral, por haver batido de frente com um deles. Então, aventa-se a hipótese de que exista algo de reação corporativa na decisão de um juiz de Brasília que logo em seguida o tornou réu, sob a acusação de obstruir a Operação Lava-Jato. Ou seja, o maior estrago até agora não lhe foi infligido por Moro, como ele tanto temia.

Muitos costumam descarregar sua bílis no mensageiro que traz más notícias. Neste caso, ficou bem evidenciado que eu estava certo ao recriminar a linha de ação adotada por Lula, numa altura em que ele ainda poderia retirar a queixa à ONU. Agora o mal está feito, não há mais como remediar. (Celso Lungaretti)

DEPOIS DO "FANTÁSTICO"

Há mais de dez anos, este foi o título de um texto que escrevi, no qual apontava que as medidas dos governos para combater algum problema só vinham após denúncias no famoso programa da TV Globo. Isso se aplicaria ao governo federal, aos estaduais e aos municipais, bem como para quaisquer instituições, mesmo as organizações não governamentais, ligadas direta ou indiretamente à administração pública. 

Pois, após dez anos, tudo continua na mesma: não há problema que seja detectado antes pelas autoridades; as medidas só vêm depois de denúncias na imprensa. O caso de um menino baleado, já há algum tempo, por policiais em Manaus o exemplifica. As autoridades só tomam alguma medida, sempre tímida, sempre recheada de desculpas, depois de os erros e desmandos se tornarem públicos.

Logo após as denúncias pela imprensa, as primeiras negativas são dos envolvidos. Eles negam afirmações gravadas há poucos dias, ou até há algumas horas. Depois, vêm as explicações das autoridades, tentando justificar por que nada fizeram antes. A população encaminha inúmeras cartas às seções dos jornais e revistas, telefonemas indignados às emissoras de rádio e de televisão; nada mais. As famosas sindicâncias são abertas e os resultados todos já conhecem.

Anteriormente, as denúncias costumavam recair apenas sobre os funcionários do baixo clero. Mas a corrupção foi galgando postos e já chegou a derrubar dois ministros da Casa Civil. Os casos são tantos que talvez ninguém mais se lembre de Waldomiro Diniz, José Roberto Arruda e de Maurício Marinho, que desencadeou o escândalo do mensalão, assim como tantos outros, cujos superiores nunca sabiam de nada.

Existem fatos mais amplos que causam prejuízos e mortes sem nunca haver punição alguma. Em 2007, um pedaço do estádio da Fonte Nova voou e 8 vidas se foram. Na final do Campeonato Brasileiro de 1992 outros tantos morreram em voos filmados no Maracanã. Assassinatos de torcedores viraram rotina e por muito tempo só se ouviram desculpas. Depois de muitas mortes, algumas medidas óbvias foram tomadas, mas praticamente não resolveram o problema.

Somente um jeito brasileiro de administrar explica por que as providências só são encaminhadas após quando a ocorrência está sob holofotes.

Deveriam servir de parâmetro os exemplos caseiros. Quando os filhos mudam de comportamento em casa, seus pais ou responsáveis percebem. Quando um funcionário de empresa privada muda de comportamento, seu chefe percebe. Quando um departamento vai mal, os diretores da empresa logo desconfiam. Apenas nos serviços públicos a percepção vem de fora, quase sempre da mídia.
Charge de jornal local ironizando reportagem do Fantástico

Não pode ser razoável que haja necessidade de a imprensa mostrar as condições das estradas ou a qualidade do ensino público fundamental e médio; de mostrar o atendimento médico em postos e hospitais públicos, os ônibus lotados, a sujeira das cidades. Bastaria que as autoridades superiores exigissem dos seus subalternos que cumprissem suas funções a contento. Bastaria que os órgãos fiscalizadores tomassem medidas preventivas, bem como que a Justiça punisse imediatamente.

Efetivamente criou-se a cultura de que tudo pode, desde que não venha a público. Dela decorre a constância com que punições, em tais casos, só ocorrem sob vara da opinião pública. Afora o fato de que muitas vezes as vítimas é que acabam sendo punidas, com o objetivo de alimentar a cultura do medo e para não denunciarem as investidas dos transgressores.

Ainda não é fácil ter acesso a dados estatísticos sobre as diversas atividades dos governos, como também é complicado saber o andamento de procedimentos e de processos relativos a desvios ocorridos na administração pública.

Já a Rede Globo precisaria ser mais consciente de seu papel de órgão fiscalizador e aumentar a vigilância, ampliando a exposição de deslizes públicos mal resolvidos.

Resta, pois, esperar a próxima denúncia no Fantástico e as explicações nada convincentes das nossas autoridades. (por Pedro Cardoso da Costa)

Exemplo de denúncia importante e necessária

DILMA COME CRU E ACRESCENTA OUTRA GAFE À COLEÇÃO

Eis como a presidente afastada Dilma Rousseff se posicionou no Facebook a respeito dos acontecimentos da Turquia, tão ansiosa estava para utilizá-los na sua pregação anti-impeachment que nem sequer esperou o suficiente para saber direito qual era o terreno em que estava pisando:
"A tentativa de golpe na Turquia é preocupante. Um governo eleito não pode ser derrubado. Nem pela violência, nem pelas artimanhas jurídicas. Recep Tayyip Erdogan foi eleito democraticamente pelo povo turco, assim como eu o fui pelos brasileiros. O processo de impeachment no Brasil tem que ser repudiado. Democracia é preservar a vontade popular".
Era um campo minado, como constatou o filósofo Hélio Schwartsman: 
"Não acho que Recep Tayyip Erdogan, o presidente da Turquia, tenha simulado um golpe militar contra seu governo com o objetivo de desferir a reação e endurecer o regime. Dirigentes paranoicos evitam jogadas arriscadas. 
Não há dúvida, porém, de que a destrambelhada tentativa de golpe foi um presente para Erdogan e o seu AKP, o partido islamita com o qual governa desde 2003. O presidente, que já vinha nos últimos anos adotando uma linha mais despótica, encontrou o pretexto de que precisava para deslanchar sua ofensiva autoritária. Nas últimas semanas, Erdogan já fechou 131 veículos de comunicação e mandou prender ou suspender 60 mil pessoas, a maioria militares, juízes, policiais e professores".
Quando acreditou que o Brasil estivesse a caminho de ganhar o Mundial Fifa de 2014, ela afirmou que o seu governo era padrão Felipão. Acertou na mosca, mas suponho que sua intenção não fosse exatamente a de igualar-se ao responsável pelo maior vexame do futebol brasileiro em todos os tempos.

Quando pensou que o quadro turco fosse tão somente o de uma civilizada democracia resistindo a bárbaros golpistas, ela se comparou ao Erdogan. Nem quero imaginar o que ela diria a respeito do Mussolini enquanto  o futuro duce ainda parecia ser de esquerda.

Quando vai aprender que o afobado come cru? 

E que quem é burro, pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue?
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sexta-feira, 29 de julho de 2016

JÁ ESTAMOS NA 3ª GUERRA MUNDIAL!

"Não sei com que armas a 3ª guerra mundial será lutada, 
mas a 4ª guerra mundial o será com paus pedras." 
(Albert Einstein)
As estatísticas mais confiáveis demonstram que durante a 2ª guerra mundial, num período de cerca de seis anos (1939/1945), morreram diretamente na guerra e nas cidades bombardeadas cerca de 50 milhões de pessoas, entre militares e civis; milhões de outras ficaram mutiladas para sempre; e incontáveis seres humanos foram levados à loucura e ao suicídio por traumas de guerra. 

A população mundial era de pouco mais de 2 bilhões de habitantes, o que significa que o genocídio da guerra suprimiu 2,5% dos habitantes do planeta, correspondendo a um morticínio médio de 8,3 milhões de pessoas para cada ano do conflito. 

Um período deplorável da humanidade, no qual os horrores foram presenciados de perto por tantas e tantas pessoas, impactando também nas que os acompanhavam à distância, por meio da mídia de comunicação já existente (jornais, revistas, rádio, cinema e a incipiente televisão)! 

Acreditava-se que seria o último da história. Mas, como os seus pressupostos permaneceram intocados, cedo se viu que tudo permanecia na mesma, fato evidenciado na guerra fria que se sucedeu e que desembocou nas guerras da Coréia (1950/1953) e do Vietnã (1959/1970), com outros milhões de mortos entre militares e civis. Afora termos chegado em 1962 às portas extermínio da espécie humana, pois pouco faltou para a crise dos mísseis cubanos ser o estopim  de uma guerra nuclear entre EUA e URSS.  

E o que se observa, hoje, mundo afora? Vivemos outro tipo de guerra mundial, cujas características são mais abrangentes que as das duas grandes do século XX. É uma guerra não oficialmente declarada, sem o embate direto de exércitos em blocos, mas não menos letal. 
1945: Hiroshima depois da explosão da bomba.

É que a capacidade destrutiva nuclear de muitos países impede a declaração de guerra convencional de blocos, embora as motivações ainda sejam as mesmas do passado. 

Disse Caetano Veloso, na sua música Fora de ordem, que “Alguma coisa está fora da ordem/ fora da nova ordem mundial”; é que a nova ordem mundial está acentuando os genocídios e mortes da velha ordem mundial. Se não vejamos:
  • guerras civis nas quais exércitos convencionais nacionais e estrangeiros se digladiam (caso na Ucrânia, Síria, Somália, Afeganistão, Chechênia, etc.);
  • por golpes ou tentavas de golpes estados militares (como o do Egito e o que acaba de ocorrer na Turquia, para citar apenas dois);
  • violência urbana generalizada (crime organizado, conflitos entre policiais e bandidos ou entre bandidos policiais e concorrentes bandidos, milícias, traficantes, torcidas organizadas, adversários políticos, etc.);
  • aumento da fome e da volta de doenças que se consideravam praticamente erradicadas;
  • emigração desesperada de enormes contingentes populacionais por terra e por mar;
  • guerras do fundamentalismo religioso ou pela hegemonia econômica;
  • atentados terroristas indiscriminados em massa nas grandes cidades por racismo, homofobia, misoginia, e por aí vai. 
Não há estatísticas sobre o morticínio derivado desses fatores comuns à grande maioria dos países no mundo; mas, se existissem, o total certamente seria superior a dos óbitos causados pela 2ª guerra mundial. 
Um pesadelo do século 21: o terrorismo islâmico.

Isto significa que estamos numa guerra mundial muito mais perniciosa do que as do século passado; ou, se quisermos, que ainda estamos nelas, por extensão de tempo e ocorrências, na medida em que as suas causas permanecem motivando a barbárie genocida mundial, embora de forma diferenciada quanto ao seu modus faciendi.        

Diz-se que o pior cego é o que não quer ver; as sociedades mercantis, capitalistas todas, sejam elas neoliberais (defensoras do capitalismo liberal), keynesianas ou marxistas-leninistas (ambas adeptas do capitalismo de estado), padecem deste mal, pois preferem conservar suas cegueiras ideológicas. 

Ninguém quer enxergar que o mecanismo de transformação de um objeto de consumo em mercadoria implica toda uma estruturação social que vai desde a concepção da produção destinada ao mercado até a sua estrutura estatal, num mecanismo de mediação social irracional e segregacionista; uma lógica ilógica. 

E não é que todos ignorem a natureza desse mecanismo (apesar de sua essência ser desconhecida pela quase totalidade dos indivíduos sociais), mas porque admiti-lo significaria terem de sair das suas precárias zonas de conforto, das posições já consolidadas, partindo para o confronto com o novo. 

O novo representa o desconhecido, que pode ser um mal maior na mente de quem prefere a natureza do mesquinho mecanismo de mediação social do sistema produtor de mercadorias, ainda que, agora ele esteja chegando ao limite interno de expansão, o que prenuncia sua autofalência (e esta poderá nos arrastar a todos!). 
"Miséria social se transforma em guerras e mais guerras"

A guerra da barbárie em curso é o resultado do alheamento inconsciente coletivo medroso sobre a essência do que está posto. Considera-se que é melhor enfrentar os males conhecidos (o  assaltante armado da esquina; a bomba de um terrorista; a corrupção do político que lhe representa; as filas nos corredores dos hospitais, etc.) do que discutir formas alternativas de mediação social que prescinda mdo modelo anacrônico mercantil atual.   

Ninguém vai à raiz do problema, reconhecendo no capitalismo a causa primária das guerras ora em curso sob as mais variadas formas. É mais cômodo atribui-las à forma política da administração pública, à ganância do sistema financeiro e dos monopólios da economia real, à corrupção com o dinheiro (pretensamente) público estatal, à falta de solidariedade, à concentração de riqueza e muitas outras ocorrências e mazelas sociais que existem, mas que são questões que se situam como efeitos e não como causa, embora eles sejam a face explícita do cao, e como se nenhuma delas resultasse da natureza endógena do próprio capitalismo. 

Por Dalton Rosado
O capitalismo, sistema desenvolvido com maior celeridade do século XIX até os dias atuais e que tem como marcos três grandes revoluções industriais (inglesa, de 1860 a 1910; fordista, de 1910 a 1970; e da microeletrônica de 1970), com sua lógica de imposição reificada, segregacionista e predatória da vida, não poderia gerar outra coisa se não miséria social que se transforma em guerras, guerras e mais guerras. 

As quais agora se intensificam, pois estamos no momento mesmo da inviabilidade existencial do capitalismo, como consequência da incoerência e contradição dos seus próprios fundamentos. Será que a humanidade conseguirá superá-lo a tempo? 
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Filme marcante sobre o pós-apocalípse: O dia seguinte.


Incrível canção de Arnaldo Dias Baptista, eterno Mutante.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

MARTA SUPLICY ACUSA O PT DE CORRUPÇÃO ORGANIZADA E DESTRUIÇÃO DE UM SONHO

Calçou as sandálias da humildade ou é loba em pele de ovelha?
Assim como o Jose Marti, yo soy un hombre sincero. Então, não escondo minha antipatia pela Marta Suplicy (vide este post), cujos principais motivos são três:
  1. Em 2000, quando fazia campanha para prefeita de São Paulo, sua separação do Eduardo Suplicy e a união com o Luis Favre já tinham sido decididas, mas ela escondeu tal informação dos eleitores até a proclamação do resultado das urnas. Coisa feia!
  2. Criou taxas (pecado venial) que eram iguais para pobres e ricos (pecado mortal).
  3. Tratou com inacreditável rispidez uma comerciante que estava desesperada com a inundação de sua loja. Deveria é pedir-lhe humildes desculpas, já que as enchentes sempre ocorriam naquele bairro e cabia a ela, como prefeita, ter tomado providências.
Para equilibrar os pratos da balança, publico também suas posições atuais, expressas na sabatina a que a Folha de S. Paulo acaba de submetê-la como candidata à prefeitura de São Paulo.

Bota improviso nisso...
Pretende criar um cartão municipal de Saúde, para melhorar a gestão, "que não tem". Talvez da próxima vez ela explique qual a necessidade de um novo se já existe o cartão do Sistema Único de Saúde.

Critica o projeto de ciclovias do prefeito Fernando Haddad por falta de planejamento. Diz que as ciclovias foram implantadas de forma improvisada, gerando muita beligerância entre os ciclistas e os demais (motoristas e pedestres). Aliás, um óbvio ululante é que as ciclovias nem de longe são suficientemente utilizadas para justificarem sua existência nos dias úteis; deveriam ficar restritas aos sábados, domingos e feriados.

Diz que a queda do número de acidentes nas marginais pode não se dever à velocidade ridiculamente baixa que Haddad impôs, mas sim à indústria de multas que passou a funcionar a todo vapor, assustando os motoristas. Concordo. E vou além: sugiro aos colegas das grandes redações que, com o poder de fogo que têm em termos investigativos (e eu não), deem uma conferida em tais pesquisas, pois não é bem o que notamos quando vemos a realidade in loco, ao volante. 

São Paulo não podia parar. Aí veio o Haddad...
Marta garante ter-se arrependido de haver criado a taxa do lixo e promete que, numa eventual volta à Prefeitura, não vai aumentar impostos e taxas. Cobraremos.

Diz que vai fazer "uma revolução na educação para qualificar o professor". Duas décadas atrás, o governador Luiz Antonio Fleury Filho tinha proposta semelhante e deu com os burros n'água: os sindicalistas exigiram aumentos puros e simples, sem nenhuma contrapartida dos professores em termos de fazerem cursos de aperfeiçoamento e se capacitarem melhor para o exercício de suas funções. 

Houve greves intermináveis e Fleury Filho trocou rapidinho o cartão de visitas de sua gestão, que passou a ser projeto de despoluição do rio Tietê. Os professores ficaram sem aumento e os alunos sem as melhoras prometidas.

Escândalo do mensalão é de 2005. A ficha demorou para cair...
Finalmente, ela refutou a crítica de que teria traído o PT ao trocá-lo pelo PMDB, bem como  a de que seu partido atual é tão corrupto quanto ela alegou ser o anterior:
"O PT tem três tesoureiros presos e decepcionou muitos dos seus eleitores. Saí por vários motivos, não foi só a corrupção, mas a destruição de um sonho. O PMDB tem gente sendo investigada, mas não tem um sistema de corrupção organizado [como o PT]."

CADÊ O TERRORISTA ISLÂMICO QUE ESTAVA AQUI? O GATO COMEU...

O pior lugar para alguém estar neste momento é o Rio de Janeiro, assistindo aos Jogos Olímpicos: corre risco de virar peneira ou pó de traque instantâneo. 

Pois, enquanto agências internacionais de combate ao terrorismo advertem que é grande a possibilidade de os psicopatas do Estado Islâmico fazerem das suas (eles adoram holofotes!), a competência das autoridades brasileiras é a que se constata nesta notícia do repórter Marco Antônio Martins, da Folha de S. Paulo
"Agentes da Polícia Federal e da Abin tentam descobrir se um iraniano que vinha sendo monitorado desde o dia 15 deste mês, sob suspeita de cometer 'atos preparatórios para o terrorismo', ainda está no Brasil.  
Pouria Paykani, 27, foi visto pela última vez (...) na 4ª feira, 20... 
Paykani vinha sendo seguido pela PF e pela Abin, mas os agentes perderam seu paradeiro....  
Ele entrou no Brasil em março, vindo do Uruguai, com um passaporte iraniano. Chamou a atenção da PF pela primeira vez em junho, ao ser visto fotografando o saguão de embarque do aeroporto de Guarulhos 
Por duas vezes, Paykani voltou ao local e fez novas fotos. Na última, foi interpelado por dois policiais e discutiu com um deles. Preso por desacato, foi logo liberado".
Nem o Agente 86 conseguiria fazer pior.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

MAIS UM MATARAZZO NA VIDA DA MARTA SUPLICY; ESTE VEIO DO NINHO TUCANO.

Depois da foto do Lula com o Maluf, nada mais nos choca...
Marta Teresa Smith de Vasconcellos dificilmente se tornaria personagem notória da política se não tivesse casado com um Matarazzo, o Eduardo Suplicy. Alguém já ouviu falar nos barões de Vasconcellos, rebentos menores da velha nobreza lusitana? Quase ninguém...

O sobrenome Suplicy lhe facilitou a carreira de sexóloga de TV e, mais ainda, o primeiro passo verdadeiramente importante na trajetória política, dado em 2000, quando se elegeu prefeita de São Paulo. 

Mal acabava de ser proclamada sua vitória nas urnas, comunicou ao eleitorado que já não era esposa de quem, estoica e abnegadamente, fora seu maior cabo eleitoral. Os que votaram na senhora Suplicy haviam eleito a senhora Favre. Estelionato eleitoral não é exclusividade da Dilma...
Senadora insignificante, uma nova derrota a tornará invisível.

Sua gestão teve como cartão de visitas os CEU's, plagiados dos CIEP's do Brizola. E como principal foco de impopularidade as taxas por ela introduzidas (como a de lixo e a de iluminação pública), enfurecendo tanto os contribuintes que eles a apelidaram de Martaxa.

Até hoje tal rótulo é lembrado, assim como o episódio do "relaxa e goza" (conselho que ela deu aos indignados passageiros de voos que atrasavam quando de sua gestão como ministra do Turismo); e seu destempero arrogante, como prefeita, quando uma pobre comerciante se queixava de que tivera sua loja inundada pelas enchentes.

Não conseguiu eleger-se governadora, nem mesmo voltar à Prefeitura, mas fará nova tentativa em outubro. E terá desta vez como talismã outro Matarazzo, o vice Andrea, de quem era inimiga fidagal quando ele fazia carreira nas hostes tucanas (filiou-se no século passado e se desligou em março último, pois sonhava com a prefeitura e sabia que o PSDB não o escolheria como candidato).
Foi gafe comparável ao "estupra mas não mata" do Maluf

Disparidades ideológicas à parte –quem liga para elas na política oficial?– é, no mínimo, pitoresco ter aparecido na vida dela outro herdeiro da família que iniciou a industrialização de São Paulo.

É de supor-se que, alertado pelos antecedentes, o tal Andrea saberá evitar desditas como a do nosso bom Eduardo e a do vice anterior, Hélio Bicudo (que Marta e seus cupinchas no PT tanto hostilizaram porque, assumindo a prefeitura quando ela se desincompatibilizou para disputar o governo do Estado, provou ser um prefeito infinitamente melhor). 

terça-feira, 26 de julho de 2016

E POR FALAR EM PT x CONCILIAÇÃO DE CLASSES...

"São os donos do dinheiro que decidem em quem se pode votar. Só os partidos e candidatos que se comprometem com eles recebem doações. 

Foi esse o compromisso que Lula assumiu com sua Carta aos Brasileiros. Os pobres votaram nele e em Dilma –para gáudio das empreiteiras, e dos bancos que emprestaram a elas– e tornaram inexpugnável a muralha que os aprisiona." (colunista Mário Sérgio Conti, referindo-se ao conto Na construção da muralha da China, de Franz Kafka)

ESQUERDA COMEÇA A ROMPER COM A CONCILIAÇÃO DE CLASSES

"Treze anos de governos do PT demonstraram de forma irrefutável que a estratégia de regulação do capitalismo através de minúsculas reformas social-liberais conduziu o país a um verdadeiro desastre. 

A direção do PT é a primeira responsável pela tragédia que se abate hoje sobre a classe trabalhadora brasileira. Lula e Dilma traíram o sonho dos trabalhadores, enterraram-se a si próprios e abriram o caminho para Michel Temer e Henrique Meirelles. 

A verdadeira libertação dos explorados e oprimidos passa, portanto, pelo combate à conciliação de classes promovida pelo PT e pela retomada de uma estratégia de ruptura revolucionária da ordem."  

.(trecho de É preciso arrancar alegria ao futuro, o manifesto de fundação do recém-lançado Mais - Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista, dissidência do PSTU que defende o legado trotskista e a volta às posturas anticapitalistas abandonadas pelo PT em 2002, quando aceitou emascular-se e domesticar-se em troca do consentimento do poder econômico para assumir a Presidência da República)
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segunda-feira, 25 de julho de 2016

APOLLO NATALI: "MEUS 80 ANOS DE VILA RÉ".

"Ah, vó, ainda quero pão amolecido com água, tomate, sal e vinagre!"
Vila Ré é o nome do bairro de subúrbio onde moro, na zona Leste paulistana. A palavra  é o sobrenome dos fundadores do bairro. Em latim, quando o termo re é usado em poesia, significa rei. Quando usado em sentido comum quer dizer coisa. República = coisa pública.

Quando eu era menino, tinha trem de verdade, puxado pela Maria Fumaça. Ia gente no telhado e em cima da lenha da locomotiva. Tempos livres aqueles. Viajava-se de janelas abertas nos vagões de madeira e muitos iam no trem sem pagar. O preço da passagem não aumentava nunca. Meu avô, um italiano nascido em Valelung, na Sicília, batalhador, um dia me fez um carinho no vagão lotado. A barba dura me machucou o rosto.

Era tudo mato. Às cinco horas da tarde todo mundo se recolhia. Dava medo o escurecer sem ninguém.
"Tinha trem de verdade, puxado pela Maria Fumaça"
O nome Vila Ré se consolidou mesmo devido à chácara de João Ré, um dos pioneiros. Ele era filho de Giácomo Ré, o primeiro a pôr os pés naquelas terras ainda sem ninguém. 

Era 1895. Giácomo, que tinha um restaurante no Largo do Tesouro, em São Paulo, comprou 90 hectares para engorda de gado entre a ferrovia da antiga Central do Brasil e o córrego Tanquinho, no Burgo Paulista. Depois a área foi dividida em chácaras e, mais para a frente, em lotes pequenos. 

Ruas marcadas com os nomes dos pioneiros foram a Balbina Ré, Augusto Ré, Laura Ré. Pioneiros também foram Galileu Menon, José Cirillo, meu avô. Depois mudaram tudo sem consultarem o povo e rebatizaram as ruas com nomes que ninguém conhece.

Havia o riozinho de águas transparentes cheias de lambari, onde meu pai me ensinou a nadar. Ainda o vejo, de calção comprido mergulhando na pontinha, nas margens do poção, onde era mais largo e mais fundo. As árvores precisavam de seis homens para abraçar. O clima era de montanha.

A Vila Ré não tem praças, nem jardins, nem árvores. Conhecem algum bairro assim? Mudaram também o nome da rua Bijou, onde meu avô tinha a chácara. Agora é o nome de um árabe. Pode ter sido um grande homem, mas não tem nada a ver com a história do bairro.
Na rua Itinguçu ficava o cine Saturno, que o vento levou...

Não tenho fotos da chácara do meu avô. A única que guardo está na minha lembrança: a porteira com o coqueiro alto, a casa rústica, o caramanchão, o galinheiro no fundo e árvores balançando com o vento forte, goiaba, pera, pêssego, caqui, romã, maçã, uva, abacate.

E tinha minha avó. Cozinhava no fogão à lenha, rodeada pela criação, galinhas, porcos, cachorros, gatos.

"Posso pegar uma pera, vó?" "Sim, filho, pode." Enrosquei-me naqueles galhos muito juntos e colhi, ainda criança, para sempre, a pera e a mansidão da minha vó. 

Meu avô era carregador de malas do norte,  ou seja, da estação do Norte, que é a atual Estação Roosevelt, no Brás. 

Era ainda a Estrada de Ferro Central do Brasil. Meu avô era conhecido como o 26, o leão do Norte, com sua voz de trovão. Era também o número da chácara, rua Bijou, 26. O endereço da minha infância.
Hoje a Vila Ré demole o seu passado...

Em sonhos, hoje, colho grandes frutos maduros da chácara, que não me saciam. Lá está o caramanchão, sob a videira, o garrafão de vinho ao pé direito do meu avô nos ruidosos almoços com a parentada toda.  O poço, com sarilho de ferro. O forno, no qual às vezes, no lugar do pão, tinha bichos e até cobras. Uma vez um vespeiro me perseguiu.

A casa, que foi vendida, ainda está lá. Conta minha mãe que eu ia cambaleando, gordinho, um ano e alguns meses de vida, pinto de fora, atravessava a rua de terra, enfiava pelo portão da chácara e subia no colo da minha avó. Ela ria e me dava pão amolecido com água, tomate, óleo, sal e vinagre.

Os enterros iam a pé até a Penha. A avenida asfaltada de hoje, a rua Itinguçu, era de cascalho, com fileiras de árvores dos lados. Cheguei a ver isso, na adolescência. Agora tem trânsito, oficinas, lojas, motéis.

Sonho com o meu riozinho de água fria no Burgo Paulista, o córrego Tanquinho, encostado à Vila Ré. Chego na chácara no meu sonho e me atiro nos braços da minha avó. E choro, um choro sentido, fundo, que vem do estômago. Ah, vó, ainda quero pão amolecido com água, tomate, sal e vinagre!

...e assume o visual de modernidade.
Minha avó foi levada morta pelo corredor da chácara, caixão roxo. Tzi Terê, velha amiga desde a Itália, choramingava"Está orgulhosa, não é? Vai com Jesus, não é?". O assunto da minha avó era Jesus.

O colchão era de palha e a gente fazia barulho se mexendo na cama. O armário tinha cheiro de pão. Na mesa tosca, o despertador, o lampião e a Bíblia. Minha avó lia para mim com pince nez. Noite após noite, a cavalaria do povo de Deus marchava por aquela mesa. Os anjos tocavam trombeta em cima da fumaça do lampião, enquanto os pecadores eram destruídos em meio a cenários de fim do mundo.

Eu sabia, eu sabia, que aquele despertador barulhento estava marcando o tempo muito depressa. Minha avó morreu, meu avô se foi depois, a chácara acabou loteada –  todos precisam viver e morar – e eu deixei de ser menino.
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