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terça-feira, 14 de abril de 2020

NÃO PODEMOS MAIS ESQUIVAR-NOS DESTA AMARGA VERDADE: A ESQUERDA AJUDOU A CHOCAR O OVO DO BOLSONARISMO

Vivemos numa sociedade que:
— desperdiça o potencial já existente para se proporcionar uma existência digna a cada habitante do planeta;
 que faz as pessoas trabalharem muito mais do que seria necessário para a produção do necessário e útil;
 que condena parcela substancial da população economicamente ativa ao desemprego, à informalidade e à mendicância;
 que estimula ao máximo a compulsão consumista sem dar à maioria a condição de adquirir seus objetos de desejo;
 que retirou do trabalho qualquer atrativo como realização individual, tornando-o apenas um meio para obtenção do vil metal (ou seja, uma nova forma de escravidão).

Então, os que ainda têm emprego e os empreendedores continuarão irrealizados, esforçando-se demais para nunca obterem as gratificações almejadas, pois a lógica do capitalismo é perpetuar a insatisfação e mitigá-la com o consumo (a cenoura colocada à frente do asno para que ele continue puxando a carroça). Um círculo vicioso perverso que faz a fortuna dos analistas, dos farsantes religiosos e dos picaretas da auto-ajuda.
É paradoxal que, em nossa época, formidáveis avanços científicos e tecnológicos coexistam com uma regressão ao ambiente medieval, com os nobres entrincheirados em condomínios de alto padrão, circulando em veículos brindados e só podendo levar vida social em shopping centers, não ousando mais exporem-se fora de suas fortalezas. No exterior desses espaços fortificados e vigiados, os bárbaros estão sempre à espreita, prontos para desferir seus golpes.

Uma previsão terrível de Friedrich Engels, um dos pais do marxismo: quando uma sociedade consegue aniquilar as forças progressistas que poderiam levá-la a um estágio superior de civilização, acaba sendo destruída pela barbárie. O paralelo é com Roma, que venceu os gladiadores de Spartacus mas sucumbiu aos povos atrasados, condenando o mundo a séculos de trevas.
                                               .
TROCANDO EM MIÚDOS
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Na ótica marxista, o capitalismo representou um estágio superior de civilização em relação ao feudalismo. No entanto, às vezes o sistema que já esgotou sua contribuição positiva é bem-sucedido em bloquear as forças de mudança. Foi o caso de Roma e está sendo o do capitalismo hoje.

Quanto a Roma, o que pegava era a escravidão. O passo seguinte seria reestruturar o Império a partir do trabalho de homens livres. E era a isso que levaria uma eventual vitória de Spartacus e seus gladiadores. Quando Spartacus foi derrotado, Roma e a escravidão entraram em lenta decadência, até que os bárbaros derrotaram o Império e o retalharam.

Então, voltou-se a um modo de produção bem primitivo: uma economia de base rural, um patamar há muito superado. Só a partir do mercantilismo se alcançou o estágio de desenvolvimento que a urbana Roma atingira. E a História passou a caminhar de novo para a frente.

Tanto o escravagismo quanto o capitalismo foram pujantes durante seus primórdios, para depois esgotarem sua contribuição e passarem a travar o desenvolvimento das forças produtivas. E atualmente é o capitalismo que cumpre esse papel de deter o progresso.

P. ex., se hoje o aparato produtivo se voltasse para o atendimento das necessidades sociais, ganharia um impulso formidável. Já pensaram em tudo que teríamos de fazer para compatibilizar nossas atividades econômicas com o meio-ambiente? 

No direcionamento das pesquisas médicas para a cura das moléstias e a descoberta de vacinas eficazes, em vez de investir-se prioritariamente em medicamentos que apenas prolongam a vida dos pacientes e amenizam seu sofrimento? 

No monumental esforço de educação em massa que teria de ser empreendido para que todos os cidadãos, sem exceção, se tornassem realmente civilizados?

Bem vistas as coisas, a história da humanidade foi até agora a história da luta contra a necessidade. Só no século 20 passaram a existir condições científicas e tecnológicas de se produzir o suficiente para garantir uma sobrevivência digna a cada habitante do planeta. A possibilidade de atingirmos um estágio superior de civilização atualmente, é enorme. O problema deixou de ser a escassez, mas sim a adoção de prioridades erradas.

Ultrapassamos a barreira da necessidade e estamos prontos para ingressarmos no reino da liberdade. Só falta direcionarmos o potencial produtivo para o que é realmente necessário e útil: habitação, alimentação, vestuário, saúde, cultura, esporte, lazer.

Os homens poderiam trabalhar muito menos, viver muito bem e desenvolverem plenamente suas potencialidades. É tudo questão de mudarmos o foco. Para que precisamos de bancos, afinal? Das várias burocracias? Da propaganda que exacerba o consumo?
Escravidão e feudalismo não surgiram por mandamentos divinos. Resultaram de circunstâncias históricas e foram descartados quando as circunstâncias mudaram. O capitalismo também pode ser substituído por uma organização diferente da vida econômica e social.

É ultrajante que ainda exista tanta gente passando fome, tantos desempregados e subempregados. Quanta sordidez e quanto sofrimento inútil!
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TOQUE DO EDITOR — Caso os leitores não tenham notado,  o texto acima nada tem de novo. Todas as suas frases foram extraídas do meu artigo A barbárie nos ronda (confiram aqui), que coloquei no ar há mais de 13 anos, em 22/02/2007, ainda no blog O Rebate, pois o Náufrago da Utopia surgiria apenas em agosto de 2008. 

Só acrescentei o intertítulo, nenhuma palavra mais. E deletei algumas passagens menos relevantes e outras que evidenciariam ser ele originário da década passada, além de melhorar a diagramação.  

Perguntarão os leitores se isto não passa de um exercício de narcisismo ou tenho algo mais sério em mente? Tenho.
É que A barbárie nos ronda foi meu artigo daquela época no qual mais me alonguei sobre um posicionamento que perpassava muitos dos meus textos de então: o de que o compromisso dos revolucionários é conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização.

Isto porque o populismo de esquerda (leia-se PT)  considerava irrelevante esta proposição marxista. Passara a nortear-se pela estreiteza dos critérios geopolíticos e pela amoralidade da realpolitik, adotando a postura utilitarista de que, para desgastar as nações capitalistas avançadas, valia tudo (mesmo apoiarmos as mais retrógradas tiranias fundamentalistas dos países árabes, que ainda estavam espiritualmente estacionadas na Idade Média!) e tratar os direitos humanos como perfumarias (já que algumas nações pseudo-socialistas não davam a mínima para eles).

Preguei no deserto, pois havia bem poucos ouvidos de esquerda abertos para escutarem críticas ao partido que estava no poder e era dono de todas as boquinhas a serem distribuídas aos que fechavam os olhos à sua descaracterização. Aliás, também nisto não havia novidade, pois acontecera exatamente o mesmo, em escala bem maior, durante o stalinismo.

Os resultados estão aí: arrogantes e impermeáveis às críticas que poderiam revitalizá-los e melhorá-los, tanto o stalinismo quanto o PT ruíram fragorosamente.

E, no terreno semeado pelo populismo de esquerda, de desprezo pelo pensamento, pela ciência e pelos valores humanistas, com um líder cheio de limitações intelectuais, políticas e ideológicas sendo idolatrado como um messias, brotou o populismo de direita, que não passa de uma versão mais tosca e exacerbada dos mesmos defeitos. 

As boçalidades que hoje tanto nos repugnam  encontraram terreno fértil entre o povão porque ele passara anos e anos sendo doutrinado com base em meia-dúzia de slogans simplistas (pois o que dele se queria eram apenas os votos, não uma participação em pé de igualdade), até ficar acreditando piamente que, como diziam os versos sarcásticos da canção Cambalache¡Todo es igual!/ ¡Nada es mejor!/ Lo mismo un burro/ Que un gran profesor...

Eis que hoje, ao invés de um grande professor como o FHC, temos na presidência da República um burro chamado Bolsonaro. Alguém está gostando? 

Mais: alguém já se deu conta de que a forma chocante como o populismo de esquerda ultrapassou todos os limites da civilidade para assassinar a reputação de FHC tem muito a ver com a perda de respeito dos incultos pelo conhecimento arduamente adquirido? 

E que, graças a isto, essas hordas de primatas já não se envergonham (pelo contrário se orgulham), de desfilarem em carreata pela avenida Paulista, bloqueando ambulâncias e ecoando o mais grotesco besteirol da extrema-direita?   

Tomara que as amargas lições que estamos recebendo há 15 meses nos façam perceber que, findo esse show de aberrações extemporâneo e que já está nos estertores, teremos de reconstruir a esquerda de forma bem diferente, reatando o compromisso com a civilização, com os interesses superiores da humanidade, com a plena liberdade, com a solidariedade, com a compaixão e com o pensamento crítico, pois estes são componentes indissociáveis da revolução com que Marx, Proudhon e outros titãs sonharam. 

A igualdade econômica que, enquanto depreciam o restante, os reducionistas valorizam em sua retórica (sem, contudo, conseguirem viabilizá-la na prática), não basta.

Certa vez constatei que os 12 mandamentos de Cristo eram reverenciados durante os feriados religiosos, mas em todos os outros dias do ano os cristãos se norteavam, isto sim, pelo 11º mandamento: Mateus, primeiro os teus.

É desolador percebermos que se pode afirmar quase o mesmo sobre os ensinamentos dos grandes pensadores do marxismo e do anarquismo... (por Celso Lungaretti)  

domingo, 12 de maio de 2019

FREUD EXPLICOU MUITA COISA. MAS, SERÁ QUE CONSEGUIRIA EXPLICAR BOLSONARO?

jânio de freitas
VIDA PÚBLICA DE BOLSONARO É 
DEMARCADA POR IDEIA DE MORTE
A violência não basta a Jair Bolsonaro. Esse ir além é o traço só seu na conturbação que, por genética maldosa e incorreção educativa, assemelha o pai e os três filhos maiores.

Os desvios de dinheiro público verificados nos gabinetes parlamentares de Jair, Flávio e agora Carlos (as verbas de Eduardo ainda não foram examinadas) expõem sua íntima interação, p. ex., na improbidade que em outros casos deu, e voltaria a dar, grandes escândalos de imprensa. Jair tem algo particular, porém, e apenas seu —que se saiba.

A vida pública de Jair Bolsonaro é demarcada por uma ideia persistente: a morte. Alheia. Provocada. Não importa de quem. 

Iniciante na carreira militar, sua estreia no noticiário se deu pela maneira como pensou em elevar os vencimentos dos tenentes. Não com um manifesto, greve, um movimento de solidariedade civil. Sua atitude foi ameaçar de explosão o abastecimento de água do Rio e de explodir quartéis, caso não saísse o aumento.

Os danos à vida dos cariocas, com inestimáveis vítimas, e as mortes de oficiais e soldados eram indiferentes ao seu estado muito mais do que reivindicatório. A mesma ideia de vitimação de inocentes que ocorre a terroristas da Al Qaeda, do Estado Islâmico, do Boko Haram.

Afastado do Exército, em acordo de cúpula que o preservou da punição, e eleito por militares e suas famílias, na política Bolsonaro acompanhou a corrente integrada por policiais questionados e por ligados às milícias no Rio.

Sempre apoiado pelo mesmo segmento eleitoral, em Brasília ligou-se à bancada da bala e aos ruralistas. 

E deu continuidade ao uso da tribuna para a apologia dos crimes de morte da ditadura, torturadores, policiais degenerados e operações de extermínio. A relação dos Bolsonaros com milicianos estava aí anunciada.

Questões como saúde e educação nunca lhe interessaram. Já a tomada de terras indígenas, o morticínio de tribos por grileiros, madeireiros e policiais, a expulsão de favelados não deixaram de o animar: contra as vítimas, sempre na defesa da violência. A letal, sobretudo. Trinta anos de vida mansa, egocêntrica, desumana em muitos sentidos.

A campanha à Presidência é de memória recente, impossível esquecer um candidato cujo simbolismo era a pose de mocinho ou de bandido com a mímica de pistoleiro. Por escolha sua, de prazer aberto no rosto, sem distinguir lugares e ocasiões. 

Nas palavras, de variação muito limitada, sempre a difusão das armas letais, a validade da morte alheia a pretexto de defesa, a promessa prioritária de armar os civis. 

Programa para saúde, educação, retomada do crescimento, emprego —nada, isso seria programa para vida.

Empossado, Bolsonaro orgulhou-se de fazer a primeira amputação do Estatuto do Desarmamento como ato inicial de governo. Mais armas, mais assassinatos. 

O segundo ato da política de mortes visou à impunidade do proprietário de terra que mate ou mande matar invasores. É o inovador direito de ser assassino.

A nova amputação, já quase extinção, do Estatuto do Desarmamento veio, agora, acrescentando à função liberatória aberrações não esperáveis nem de Bolsonaro. Porte de arma para repórter de assuntos policiais é atrair tiros sobre jornalistas, o que poderia dar aos Bolsonaros alguma sensação de justiça à sua maneira, mas demonstra ignorar também o que são jornalismo, repórter e imprensa.
Liberar para menores de idade o uso de armas em clubes de tiro, pendente só de autorização paterna ou do responsável, é um incentivo combinado à criminalidade e à deseducação. 

É perto do inacreditável. Uma indústria de vocacionados para a violência, de recorrentes a armas, de maníacos da morte. Tudo isso em uma só pessoa —do que temos exemplo.

Cá em minha vida longa, desconfio muito dessa liberação de posse e porte de armas, e estoque de munição, para dar direito à defesa pessoal. (por Janio de Freitas)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

VENEZUELA, UMA REVOLUÇÃO ESGOTADA – 2

Raúl Castro e Chávez em reunião da Alba. E os países-chaves?
(continuação deste post)
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Estas, por sua vez, alimentariam e supririam o povo venezuelano, criando um regime virtuoso de transações econômicas. A Alba – Alternativa  Bolivariana para as Américas, criada em 2004, seria uma espécie de União Européia com cores de esquerda.

O projeto foi parcialmente sucedido, mas Chávez nunca conseguiu englobar os países-chaves do processo: Brasil e Argentina. Estes dois, ciosos de sua liderança regional, preferiram trilhar outros caminhos, passando ao largo do movimento bolivariano. Deste modo, a Venezuela continuou isolada, com seus petrodólares respondendo pelo bom desempenho do regime em época de valorização do barril da commodity

Em termos gerais, a revolução bolivariana foi bem-sucedida em melhorar os níveis de vida da vasta maioria da população, mas a base de seu triunfo foi também o motivo de sua ruína. 

Os EUA nunca aceitaram as reformas nacionalistas do regime bolivariano. Além de terem sido a mão que balança o berço no golpe de estado de 2002, sempre agiram para bloquear comercialmente o país. Contudo, por dependerem do petróleo venezuelano e estarem num momento de isolamento político no continente, optaram por agir inicialmente de modo sutil.
A deterioração econômica exacerbou a luta política

Após a queda do regime líbio e o consequente controle do petróleo daquele país, além da estabilização do Iraque, o governo de Washington começou a agir de modo mais audacioso, impondo sanções econômicas mais duras. 

O declínio do preço do petróleo e mudanças políticas na América Latina começaram a piorar a situação de vida da população venezuelana, subitamente confrontada com o aumento do preço dos bens importados. A escassez de alimentos e produtos de necessidade básica tornou-se prática corrente, fazendo disparar a inflação e piorar a situação do povo. 

A deterioração econômica do país levou à exacerbação da luta política e a instabilidade tornou-se norma. Em resposta, Maduro, herdeiro do falecido Chávez, partiu para o reforço de aspectos autoritários do regime, tentando salvar o poder político do movimento bolivarianista. 

Assim chegamos à situação atual, quando inúmeros países, capitaneados pelos EUA, não reconhecem a legitimidade presidencial de Maduro, optando, ao inverso, por apoiarem um obscuro líder da oposição para o comando da nação. Ao mesmo tempo, promove-se escancaradamente uma tentativa de invasão ao país, sob pretexto de ação humanitária.
Maniqueísmo à parte, não existe solução óbvia para a Venezuela

Lembrando o exemplo do Haiti, acima citado, a marcha da história está sempre aberta, sem sabermos ao certo como algo terminará. 

Fato é que a revolução bolivariana começou e transcorreu como um avanço ao povo venezuelano, mas é mais fato ainda que se deu dentro dos marcos sociais extremamente limitados de um país periférico e dependente da venda de petróleo. 

Marx disse que a revolução teria de acontecer dentro de um contexto no qual já estivessem dadas as condições materiais de produção capazes de universalizar a riqueza, pois, do contrário, teríamos apenas a universalização da pobreza e a sociedade retornaria à situação de grave conflito interno. 

Mas também foi o filósofo alemão quem alertou sobre o ser humano não fazer a história nas condições desejadas por ele, mas sim nas condições dadas pela realidade. 

É a dura realidade da história concreta e contraditória. 

Não deveriam os escravos haitianos se rebelarem em 1791, pois sua revolução acabaria por engendrar o país mais pobre das Américas? 
"A Guerra do Iraque gerou o Estado Islâmico, o que geraria uma Guerra da Venezuela?"
Não deveria o povo venezuelano ter apoiado Chávez e sua revolução bolivariana, pois ela acabaria no regime capenga de Maduro?

A história não é feita de modo frio e analítico; por mais que retrospectivamente possamos lamentar o desfecho, as pressões concretas do momento sempre serão o fator determinante para ação coletiva. 

Nem mesmo os seres humanos individuais são obra apenas de suas escolhas individuais. Maduro não é apenas um sujeito alçado ao governo da Venezuela, ele é produto da decomposição do regime bolivariano através da exacerbação de sua razão de estado militarista.

Diante da pressão de uma estrutura social vacilante, de uma oposição fascistoide e do cerco de uma potência imperialista, o caminho do regime de Maduro foi institucionalizar um regime com cores ditatoriais.
"Na prática, então, não há saída imediata"

E qual a saída para a Venezuela? 

Entregar o poder à oposição é trocar uma ditadura por outra e abrir caminho para novas lutas futuras, talvez até com novos Caracaços

Invadir a Venezuela é um ato alucinado que poderá gerar uma nova Síria encravada no coração da América Latina, com consequências terríveis inclusive para o Brasil. A Guerra do Iraque gerou o Estado Islâmico, o que geraria uma Guerra da Venezuela?

Apoiar Maduro é simplesmente fechar os olhos aos limites do movimento bolivariano e, ainda, chancelar ações ilegais e ditatoriais daquele governo. 

Na prática, então, não há saída imediata. Óbvio, a história vai seguir seu curso e uma hora ou outra as contradições explodirão. 

Caso me fosse permitido uma especulação, diria que – caso não haja guerra – a tendência é Maduro institucionalizar seu regime e a Venezuela congelar durante anos, mais ou menos como Cuba congelou. 
A Venezuela congelará como Cuba?
O Haiti também congelou e se tornou uma ilha do século 18 fincada no 21. 

Mas, a cada falha e beco sem saída, nós, revolucionários, aprendemos algo a mais e calibramos nossa ação. 

Que a sina da Venezuela agora nos dê mais uma lição. 
(por David Emanuel
de Souza Coelho)

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

O SONHO DO FANÁTICO É TER UM MUNDO QUE SEJA O ESPELHO DE SUA CABEÇA

joão pereira coutinho
APRENDER A CONTAR ATÉ DOIS
A morte de Amós Oz é uma pequena tragédia para a civilização. Não é apenas uma tragédia para a literatura, o que já seria compreensível: saber que não teremos mais nenhuma obra como De Amor e Trevas ou Entre Amigos é privação que baste.

Não. É de civilização que falo: aquela película fina, e muito facilmente destruída, onde habitam a inteligência, o ceticismo e a ironia. E que é possível encontrar também nos seus ensaios.

Por mera coincidência, recebi a morte do escritor israelense poucos dias depois de ler o seu Dear Zealots, que na edição portuguesa ficou como Caros Fanáticos. É um título razoável, mas Caros Zelotes seria mais autêntico, histórica e filosoficamente falando.
A seita dos zelotes não se esgotou no século 1º depois da missão literalmente suicida contra a presença do Império Romano na Palestina.

Nesse quesito, os zelotes são como os antissemitas —criaturas de todas as épocas que partilham o mesmo código: um espírito de fanatismo em nome da causa sagrada. Mas como reconhecer esse espírito?

No primeiro ensaio, que dá título ao livro, Amós Oz tem duas observações luminosas que fazem uma vênia a Jean-Jacques Rousseau: o fanático é um sentimental; o fanático só sabe contar até um.

Sobre o primeiro axioma, a minha experiência o confirma. Os fanáticos que conheci na vida partiam sempre do pressuposto de que os seus sentimentos eram a fonte da verdade.
Como Rousseau diria, os sentimentos não estão poluídos pelos artifícios da civilização, muito menos por esse demônio ilusório que dá pelo nome de racionalidade.

De igual forma, as causas que defendiam eram sempre articuladas de forma emotiva, o que concedia às suas palavras uma alegada superioridade moral. Ele, o fanático, sente genuinamente; os outros, que não sentem como ele, são seres indignos ou coisa pior.

É por isso que o fanático só sabe contar até um. O sonho dele é ter um mundo que seja o espelho da sua cabeça. 

Não admira que o fanático abrace com tanto entusiasmo a unanimidade da multidão. Como escreve Amós Oz, ressoando o doutor Sigmund, a vontade geral permite ao fanático regredir e reviver os confortos do útero materno.

A falta de sentido de humor, e sobretudo de humor sobre ele próprio, é apenas a conclusão lógica de uma personalidade na qual não existe qualquer personalidade. 

O humor só pode nascer quando se aceitam as dissonâncias trágicas da vida. O fanático não aceita dissonâncias. Pelo contrário: ele as esmaga, como o perigo que (não) são.

O judaísmo não esteve nem está a salvo dos zelotes. E é especialmente contra eles que Amós Oz dedica o segundo ensaio do livro.

Na minha qualidade de gentio, embora com Pereira no nome e vários nomes bíblicos na família (Ester, Ismael etc.), não sei avaliar com rigor se a essência do ethos judaico está na cultura de discussão permanente entre os homens, e até entre os homens e o patrão lá de cima.

Mas sei que é esse pluralismo textual e existencial que mais me interessa na tribo. É dessa confluência de vozes; é desse gene rebelde, como lhe chama Oz, que nasceu o meu panteão de artistas, músicos ou escritores, judeus quase todos.

Por último, se não existe uma luz, mas várias luzes; se não existe uma interpretação única e uniforme, mas várias interpretações possíveis, como escapar à negociação e ao compromisso entre visões distintas?
Para Amós Oz, não é possível escapar sem cair no fanatismo. Isso é particularmente válido para o conflito israelo-palestino, tema do terceiro e último ensaio do livro.

Nos últimos anos, tem crescido entre os especialistas a peregrina ideia de que o conflito só pode ser resolvido pela opção de um Estado binacional, onde judeus e árabes possam viver harmoniosamente como irmãos.

Essa fantasia, que ignora o destino de outras experiências multinacionais (Iugoslávia, Líbano, Chipre etc.) e que tornaria os judeus em grupo minoritário dentro do seu próprio Estado, é uma negação da realidade sangrenta que dura um século.

Até ver, não há alternativa aos dois Estados. O que significa que não há alternativa a sacrifícios das duas partes.

Do lado israelense, o sacrifício da ideia de um Grande Israel. Do lado palestino, o sacrifício da totalidade da Palestina, do Mediterrâneo ao rio Jordão. Mas como ensinar os zelotes a contar até dois?

Se a prosa não serviu, talvez a poesia —de Yehuda Amichai, que teve seu primeiro livro publicado no Brasil e que serve de epígrafe ao livro de Amós Oz. Traduzo livremente:

Do lugar onde temos razão
flores jamais crescerão
na primavera.

O lugar onde temos razão
é duro e pisoteado
como um pátio.

Mas dúvidas e amores
escavam o mundo
como uma toupeira, um arado.

E um sussurro será escutado no lugar
onde a casa arruinada
existia.

sexta-feira, 9 de março de 2018

AS CAUSAS DO MEDO SOCIOFÓBICO (consequências e enfrentamentos) – 2

(continuação deste post)
O medo social é o medo denominado pela ciência psiquiátrica e sociológica como fobia social ou sociofobia, sendo caracterizado por manifestações generalizadas, as mais diversas e conflitantes entre si, tais como:

— apatia, desilusão e depressão;

— práticas de atos de barbárie e violência gratuita;

— práticas criminosas como revolta (até inconsciente) contra o roubo oficializado, que se corporifica na acumulação de riqueza por parte de uns poucos (natureza criminosa patológica à parte);

— tensão nervosa permanente;

— desconforto perante a avaliação social numa sociedade em que se mede o valor das pessoas por suas contas bancárias ou poder aquisitivo (quem não produz valor e não consome valor é considerado como pária social pela sociedade do capital);

— sentimento de culpa pessoal pelo pretenso fracasso social por não conseguir riqueza pessoal e o provimento mínimo das necessidades pessoais e familiares.

Neste contexto, as virtudes humanas, se não produzirem valor, são consideradas como artefatos de segunda categoria, quando não devaneios de gente fora da realidade. A inversão dos valores verdadeiramente humanistas é cada vez mais presente.  
Observa-se, hoje, no semblante da maioria das pessoas, uma tensão de medo que é a mãe das catarses sociais de alegria, como no carnaval, com seu deboche coletivo da opressão (o lado bom da catarse); ou de selvageria, como as constantes agressões gratuitas e criminosas das torcidas organizadas do futebol (o forma de catarse animal irracional que nos remete à primeira natureza humana).. 
  
A CORAGEM É UMA REAÇÃO DIANTE DO MEDO
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A coragem é a resistência ao medo, pois, como bem disse Nelson Mandela: 
"Não é a ausência do medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas aquele que conquista por cima do medo"
Coragem é, portanto, o domínio do medo pela ação, e não a sua ausência.

Mas a coragem, do ponto de vista da ação social, tem de ser consciente para ser eficaz; a coragem como mera valentia agressiva, autoafirmativa, é inconsequente e denota o desejo de encobrimento de uma fraqueza que vive latente no interior da consciência do valentão. 

Até no reino animal, irracional, a coragem pode advir do medo e com ele permanecer concomitantemente. Uma fera acuada costuma ser mais feroz do que quando sente-se segura e alimentada.  


Mesmo o suicida, que tem a coragem de acabar com a própria vida, age como um contraponto desesperado por medo do enfrentamento dessa mesma vida; age por uma coragem medrosa, extremada. 

Se não nos tornarmos conscientes de que caminhamos celeremente para o abismo caso continuemos com a irracionalidade do nosso modo de produção, será o medo do abismo (que se aproxima de modo célere e temerário) aquilo que nos fará lutar coletivamente contra o genocídio, sem saber como, onde e por que nos rebelamos? É pouco provável que reajamos de modo consistente por mera defesa da vida. 

A coragem derivada da luta pela mera sobrevivência bárbara, sem consciência social, nunca é boa conselheira, porque não atua contra as circunstâncias causais; o genocídio apenas impele à reação natural em defesa da vida, o que não é suficiente para a emancipação social sustentável.

Quando advém da consciência sobre o modo de produção social que inviabiliza a vida, a coragem ganha contornos de humanismo e sensibilidade heroicos.

Os perigosos e atuais movimentos de direita, nacionalistas, próprios de um capitalismo excludente que volta a prevalecer (como ocorreu nos anos de depressão econômica mundial, quando levou às duas grandes guerras), decorrem do medo da perda de alguns poucos privilégios sociais tanto por parte dos pobres, principalmente, como por parte dos ricos; estes últimos tentam colocar as suas barbas de molho, sabendo que, no longo prazo, é insustentável a concentração de suas riquezas, cada vez mais acentuada.     

Mas, tal medo da perda de alguns poucos privilégios pelos pobres (que agora infelizmente estão votando na ultradireita) decorre da inconsciência sobre a possibilidade de um modo de produção que possa proporcionar a todos maior comodidade de vida social.


Neste sentido, só a consciência sobre as opções existentes pode provocar a coragem do abandono do medo parasitário e conformista, que é absolutamente diferente da coragem bárbara dos desesperados que querem resolver os seus problemas pela via da criação de grupamentos criminosos (caso do crime organizado) ou por grupos nacionais-teocráticos (caso do terror político do tipo Al Queda, Estado Islâmico, Boko Haram, etc.). 

Só a coragem coletiva consciente é verdadeiramente libertária. Numa palavra definitiva, podemos afirmar que sem consciência social sobre a natureza do mal que nos aflige e sem justiça natural comportamental de base, a emancipação humana se torna inatingível e o medo sociofóbico tende a aumentar.

Vivemos atualmente sob a égide do medo e da regressão civilizacional.

(por Dalton Rosado)
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