sexta-feira, 29 de abril de 2011

CAÇANDO LAMARCA, OS MILITARES BOMBARDEARAM ÁREAS CIVIS A ESMO

FAB jogou bomba em SP durante cerco a Lamarca é o título da reportagem publicada pela Folha de S. Paulo nesta 6ª feira (29).

Serve para novamente comprovar que as Forças Armadas extrapolaram todos os limites na repressão aos resistentes -- neste episódio específico, caçando fugitivos da VPR.

Que lhes importava se atingissem caçadores furtivos ou crianças catando palmito, com seus explosivos lançados a esmo?

Fui dos primeiros contatados pelo repórter Rubens Valente quando encontrou tal informação num arquivo secreto militar, agora tornado público.

Não pude ser de grande valia, já que não estava onde as bombas poderiam ser percebidas nem escutara qualquer referência a elas. [Para quem quiser conhecer em pormenores o que me aconteceu naqueles dias, recomendo a leitura do Náufrago da Utopia.]

Mas, acabei dando as dicas que lhe permitiram localizar seus dois entrevistados, o Darcy Rodrigues e o Joaquim dos Santos.

Eis a matéria assinada por Rubens Valente e João Carlos Magalhães:
"Documento das Forças Armadas liberado após 41 anos de sigilo revela que, em 1970, aviões da FAB despejaram bombas em áreas civis na região do Vale do Ribeira, em São Paulo, durante cerco ao grupo do guerrilheiro Carlos Lamarca, da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária).

O papel confirma o que poderia antes parecer exagero dos relatos feitos pelos militantes de esquerda que participaram do conflito: 'Aviões B-26, da FAB, bombardearam regiões suspeitas'.
O ex-guerrilheiro Darcy Rodrigues, 69, hoje capitão da reserva do Exército e na época braço direito do ex-capitão do Exército Lamarca, confirmou ontem à Folha que durante dez dias viu aviões sobrevoando a região e ouviu explosões que ele julgou serem de bombas caindo na região de Jacupiranga, a cerca de 30 km de Registro.
'Eles escolhiam para bombardear as reentrâncias da serra do Mar, onde achavam que estávamos escondidos. Jogavam as bombas no início da manhã e à tarde.'
'Para eles, não era só nos caçar, era também fazer exercício de guerra diferente.'
Em fuga, Rodrigues, o 'Leo', se escondeu na mata até ser preso, agredido e levado a São Paulo, onde foi submetido a torturas diárias.

Ele era um aliado de Lamarca desde os anos 60, quando deixou o Exército para seguir o capitão. Depois, exilou-se em Cuba até 1980.

A Folha também localizou o motorista de Lamarca, Joaquim dos Santos, o 'Monteiro'. Ele escapou da região e avisou outros membros da VPR, mas acabou preso pela Oban (Operação Bandeirante). Lá ouviu de policiais relatos sobre o bombardeio. 'Eles falavam que tinha é que jogar bomba mesmo.'

O relatório que cita o bombardeio foi produzido pelo CIE (Centro de Informações do Exército), redistribuído pela Aeronáutica e integra o lote de 50 mil documentos entregues recentemente ao Arquivo Nacional de Brasília.
O texto descreve a 'Operação Registro', desencadeada pelo Exército, pela Aeronáutica e pela Polícia Militar de São Paulo entre 27 de abril de 5 de maio de 1970.
A partir das primeiras informações fornecidas sob tortura, por presos no Rio, o Exército chegou à região do grupo de 19 guerrilheiros liderados por Lamarca.

Ele, contudo, conseguiu romper o cerco militar e conseguiu chegar ao sertão da Bahia, onde foi cercado e morto no ano seguinte".

quinta-feira, 28 de abril de 2011

LAERTE BRAGA ACUSA CHÁVEZ DE COVARDIA E CAPITULAÇÃO. SUBESCREVO.

Laerte: "o tráfico de drogas na
Colômbia é monopólio do governo".
Eu e o Laerte Braga já travamos rudes polêmicas, exagerando nas críticas que fizemos um ao outro, como às vezes acontece quando os contendores são eloquentes por natureza.

Mas, afora tais excessos episódicos, sempre nos respeitamos, até porque em diversos assuntos nossas avaliações são praticamente idênticas, indicando que há muitas afinidades entre ambos.

Caso, p. ex., da extrema indignação com a atitude do presidente Hugo Chávez, de despachar para a Colômbia o jornalista Joaquin Pérez Becerra, preso no aeroporto de Maiquetía pela polícia venezuelana.

Então, quero expressar minha concordância, em gênero, número e grau, com o artigo do Laerte, Chávez derrapa e capota, cujos principais trechos reproduzo.
"Trata-se de um caso de seqüestro puro e simples e Chávez atendeu a um 'pedido pessoal' do presidente da Colômbia. Becerra estava refugiado na Suécia, tem nacionalidade sueca e, noutra atitude arbitrária, o governo venezuelano impediu o cônsul sueco de visitar o jornalista seqüestrado enquanto esteve preso naquele país.

A informação de que o governo colombiano teria enviado 'documentos oficiais' ao presidente da Venezuela 'comprovando' as ligações de Becerra com as Farc's-EP é ridícula.

É só lembrar o episódio do bombardeio feito por forças colombianas contra um acampamento no Equador onde se encontrava e foi morto o chanceler rebelde Raúl Reyes – 2008 . À época Álvaro Uribe era o presidente da Colômbia e exibiu um notebook pertencente a Reyes contendo informações que 'atestariam' a ligação das Farc's-EP com o narcotráfico.

Uribe recusou-se a permitir uma perícia internacional no referido computador, mas semanas depois peritos de todo o mundo afirmaram que o governo colombiano havia colocado informações falsas ali.
 O Departamento anti-drogas dos EUA, ainda no governo do terrorista internacional George Bush, acusou o presidente colombiano Álvaro Uribe de ligações profundas com o narcotráfico em seu país e apontou suas ligações com o mega traficante Pablo Escobar (já falecido). Santos, atual presidente da Colômbia, era o ministro da Defesa do governo Uribe.
Prisão do jornalista Becerra
foi "seqüestro puro e simples"
Num julgamento de paramilitares – organização de extrema direita e controladora do tráfico de drogas na Colômbia – no final do ano passado, desmentiu-se outra versão fantasiosa sobre as ligações das Farc's-EP com o narcotráfico. O traficante brasileiro Fernandinho Beira-mar  foi preso junto a paramilitares. O fato acabou vazando no Brasil numa escorregada do jornal O Globo...
O tráfico de drogas na Colômbia é monopólio do governo, das forças armadas e das instituições policiais.

Milhares de pessoas inocentes morrem todos os anos na Colômbia vítima desses grupos e o pretexto é sempre 'ação da guerrilha'.
É incompreensível a decisão do presidente Hugo Chávez. Joga por terra toda a credibilidade em sua revolução bolivariana. Neste momento os ideais de Simon Bolivar foram esquecidos.
Becerra é um jornalista que pertencia à União Patriótica, partido de esquerda e que foi exterminado pelos governos colombianos na política terrorista implantada ao longo dos últimos anos. Para evitar ser assassinado pelo governo obteve asilo na Suécia, recebeu cidadania sueca e de forma surpreendente foi entregue ao terrorismo de Estado, o do governo colombiano, por um governo que se afirma popular.
Becerra cumpria um papel importante o de divulgar através de seus trabalhos jornalísticos os crimes cometidos pelo governo da Colômbia (Uribe e Juan Santos) em toda a Europa e esse trabalho criou problemas para o terrorismo de Estado da colônia norte-americana na América do Sul. Várias organizações internacionais de direitos humanos passaram a denunciar a situação e as práticas assassinas dos governos, militares e policiais colombianos contra opositores, a real situação da Colômbia – imersa numa guerra civil – e quem de fato controla o tráfico de drogas.
Laerte considera a decisão de Chávez
"inaceitável para a luta popular"
A situação de Becerra é a mesma de vários jornalistas que vivem e trabalham no país. O governo Chávez repete todo o discurso terrorista oficial da Colômbia e os dados para que fossem forjados os tais 'documentos oficiais' estavam, segundo os colombianos, no computador de Raúl Reyes.

O Brasil vive situação quase semelhante com o refugiado italiano Cesare Battisti. Manobra do então presidente do Supremo Tribunal Federal – Gilmar Mendes (ligado ao banqueiro Daniel Dantas e a FHC, comprovadamente corrupto) criou condições para que a concessão de refugio a Battisti, ato do ministro da Justiça de então Tarso Genro e depois confirmado pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva, seja objeto de novo exame da corte, com riscos de quebra da ordem constitucional.

Sabe que a atual presidente, cada vez mais distante do seu criador, Lula, não vai pôr a mão nas castanhas quentes e silenciará sobre o assunto.

A atitude de Chávez além de incompreensível, significa capitulação pura e simples. Foi um ato covarde, pois o presidente venezuelano sabe o que espera Becerra na Colômbia. Toda a barbárie do regime de Juan Manoel Santos, o principal traficante de drogas no momento em toda a Colômbia.

A revolução bolivariana de Chávez derrapou e capotou numa manobra inconseqüente e inaceitável para a luta popular para a integração dos povos latino-americanos e para a liberdade em seu sentido pleno".

OS TEMPOS ESTÃO MUDANDO

Leio que dezenas de opositores chineses -- advogados, escritores, jornalistas, artistas e blogueiros -- foram detidos, submetidos a prisão domiciliar ou afastados de suas casas nas últimas semanas, em escalada repressiva cujo objetivo óbvio é resguardar mais esta ditadura do  contágio  das revoltas libertárias.

As pedras voltaram a rolar e a única certeza é a de que os verdadeiros revolucionários devem posicionar-se ao lado de todos aqueles que se revoltam contra tiranias.

Não importa que as nações ocidentais façam com a Líbia o que deveriam fazer também com a Síria, mas adotem dois pesos e duas medidas.

Não importa a posição que algumas dessas ditaduras obscurantistas, retrógradas e assassinas assumam no tabuleiro político internacional.

Importa apenas que oprimem seus povos e os seus povos estão se levantando contra elas, pouco a pouco, com o temor da repressão brutal cedendo lugar à esperança.

E o farão cada vez mais, pois o mundo se tornou um péssimo lugar para se viver nestas últimas quatro décadas de refluxo revolucionário. 

É a hora da maré crescente. E a nova onda começa a vir do Oriente, mas -- afirmo sem medo de errar --, acabará se espalhando por todo o planeta.

O mundo está prenhe de revoluções; quem viver, verá.

E quem for revolucionário, lutará.

Estamos exatamente como no final de 1963, quando Bob Dylan compôs The times they're a-changin', antecipando tudo que viria a seguir. O melhor ainda está por acontecer.

Para reacender a chama dos velhos guerreiros e tentar inflamar algum jovens que têm a retórica mas não o instinto dos revolucionários, eis uma bela tradução da canção de Dylan, agora mais atual do que nunca:

OS TEMPOS ESTÃO MUDANDO

Venham, pessoas,
por onde quer que andem
e admitam que as ondas
á sua volta cresceram.
E aceitem que logo
estarão cobertas até os ossos.
Se seu tempo para você
vale a pena ser salvo,
então é melhor começar a nadar
ou vai afundar como uma pedra,
pois os tempos estão mudando!

Venham, escritores e críticos,
aqueles que profetizam com a caneta.
E mantenham seus olhos abertos,
a chance não virá novamente.
E não falem tão cedo,
pois a roda ainda está girando
e não há como prever
quem prevalecerá,
pois o perdedor de agora
mais tarde vencerá,
pois os tempos estão mudando!

Venham, senadores, congressistas,
por favor, escutem o chamado.
Não fiquem parados no vão da porta,
não congestionem o corredor,
pois aquele que pára
será um obstáculo no caminho.
Há uma batalha lá fora,
está rugindo
e logo vai balançar suas janelas
e fazer ruir suas paredes,
pois os tempos estão mudando!

Venham, mães e pais
de toda a Terra
e não critiquem
o que não podem entender.
Seus filhos e filhas
estão além de seu comando.
Sua velha estrada
está rapidamente virando pó.
Por favor, saiam da nova
se não puderem dar uma mãozinha,
Pois os tempos estão mudando!

A linha foi traçada,
a maldição foi lançada
e o lento agora
será o rápido logo mais,
assim como o presente agora
será em breve passado.
A ordem está
rapidamente se esvaindo
e o primeiro agora
será o último depois,
pois os tempos estão mudando!

quarta-feira, 27 de abril de 2011

OS ARAPONGAS DO PATRULHAMENTO CRICRI

A opção é entre a obra de Monteiro Lobato...
Depois de escorraçados pelos cultos, libertários e (consequentemente) antípodas da censura no final de 2010, os patrulheiros cricris contra-atacaram da forma mais sórdida possível, desencavando cartas em que Monteiro Lobato  expressou conceitos racistas.

Ora, em nenhum momento estiveram em questão as opiniões que o grande escritor, o grande defensor dos interesses nacionais e o grande adversário da ditadura getulista remoía na intimidade. 

Além de inquisidores, os patrulheiros cricris são bisbilhoteiros, comportando-se como repulsivos arapongas.

Igualmente, a grandeza da obra de Jorge Luis Borges não foi destruída pelo seu apoio a uma ditadura argentina -- embora isso nos tenha levado a perder o respeito por ele como homem.

No caso de Lobato, a coisa fede: ele nunca fez proselitismo contra os negros, mas, pelo contrário, compôs sua inesquecível Tia Nastácia como uma personagem extremamente humana, simpática, generosa e sábia em sua ingenuidade de mulher simples do povo.

...a de Torquemada...
O fato é que os patrulheiros cricris fracassaram rotundamente ao tentarem imputar racismo a Lobato a partir das pirraças da Emília, pois qualquer leitor isento percebe que as frases desaforadas da boneca falante não são endossadas, mas sim implicitamente criticadas, como exemplo de mau comportamento, pelo escritor.

Isto é o que importa, e é só o que importa

Se Lobato foi hipócrita e escondeu suas verdadeiras opiniões, por saber que desagradariam aos leitores e o deixariam malvisto nos círculos intelectualizados, é algo que o desmerece como homem. Mas, não há racismo nenhum em Caçadas de Pedrinho, nem em nenhuma obra de literatura infantil do nosso maior escritor do gênero em todos os tempos.

Ninguém aguenta mais o patrulhamento e a má fé dos macartistas de esquerda, que pensam ser tão diferentes, mas são tão iguais aos McCarthys e Nixons -- salvo por nunca haverem tido poder suficiente para mandar seus perseguidos para a cadeia ou condená-los ao ostracismo.

E, em termos mais amplos, tudo o que eu tinha a dizer sobre o episódio em si, antes de os patrulheiros cricris descerem ao nível do esgoto, eu já dissera no meu artigo O Waterloo do patrulhamento cricri, de 09/11/2010 -- que colocou a discussão num nível inalcaçável para esses aprendizes de Torquemada.

Vale a pena ler de novo:

O bizarro episódio em que uma integrante do Conselho Nacional de Educação afirmou existir racismo na obra de Monteiro Lobato, não se esgota na rejeição do seu parecer por parte do ministro Fernando Haddad. É hora de nos defrontarmos com o monstro, e não apenas com a mais chocante de suas monstruosidades.

...a de Joseph McCarthy...
O que havia para se dizer sobre o  politicamente correto, Karl Marx já disse, em 1845, nas Teses sobre Feuerbach:
"A doutrina materialista de que os seres humanos são produtos das circunstâncias e da educação, de que seres humanos transformados são, portanto, produtos de outras circunstâncias e de uma educação mudada, esquece que as circunstâncias são transformadas precisamente pelos seres humanos e que o educador tem ele próprio de ser educado. Ela acaba, por isso, necessariamente, por separar a sociedade em duas partes, uma das quais fica elevada acima da sociedade.

A coincidência do mudar das circunstâncias e da atividade humana só pode ser tomada e racionalmente entendida como praxis revolucionária." (3ª tese)

"Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo." (11ª tese)
Ou seja, os educadores que se arrogam o direito de decidir o que crianças (ou a sociedade como um todo) podem ou não ler, e com que ressalvas lhes devem ser apresentadas tais leituras, têm, eles próprios, de ser educados.

As mudanças das circunstâncias e da atividade humana só se dão por meio da prática revolucionária, não de uma educação mudada (ou expurgada, censurada, castrada, mutilada, maquilada, engessada, etc.).

...e a de Richard Nixon.
Pois não basta a adoção de outras palavras para eliminar-se a carga de preconceitos com que as pessoas as impregnaram, nem fazer triagem de obras artísticas para extirparem-se os comportamentos condenáveis nela retratados.

Somente livrando a humanidade do pesadelo capitalista conseguiremos dar um fim a todas as formas de discriminação, pois uma das molas-mestras da sociedade atual é exatamente a busca da diferenciação, do privilégio, do status, da superioridade.

Enquanto os seres humanos forem compelidos a lutarem com todas as suas forças para se colocarem acima de outros seres humanos, será ilusório pretendermos tangê-los ao respeito mútuo por meio de besteirinhas cosméticas.

É desprezando os iguais que eles adquirem forças para a luta insana que travam, pisando até no pescoço da mãe para alçarem-se a outro patamar da hierarquia social.

Então, a verdadeira tarefa continua sendo a transformação do mundo, para que não haja mais hierarquia e sim a priorização do bem comum, com cada um contribuindo no limite de suas possibilidades para que sejam atendidas as necessidades de todos.

Enquanto nos iludirmos com esses pequenos retoques na fachada do edifício capitalista, estaremos perdendo tempo: seus alicerces estão podres, para além de qualquer restauração.

Ou o demolimos e tratamos de erguer novo edifício em bases sólidas, ou ele ruirá sobre nós.

É simples assim.

terça-feira, 26 de abril de 2011

UM IRMÃO E COMPANHEIRO NO BOM COMBATE: LUÍS ALBERTO DE ABREU

Luís Alberto de Abreu é como um irmão para mim.

Conhecemo-nos lá por 1971, quando, ainda traumatizado pela prisão, tortura e adiamento  sine die  das minhas perspectivas de ver concretizada uma sociedade igualitária e justa, eu tentava me reencontrar com a vida, de repente tornada tão cinzenta.

Nem me lembro mais como se deu o primeiro contato, provavelmente graças a nosso amigo comum Douglas Salgado. Mas, logo estávamos nos falando e visitando. Ele morava em São Bernardo do Campo e ainda não decolara.

Assisti à última peça do grupo de que o Luís participava, Doces e Salgados, encenada no belo teatro daquele município: Tempo dos Inocentes, Tempo dos Culpados. Era um timaço: ele, a Rosi Campos, o Ednaldo Freire, o Calixto de Inhamuns. Não me lembro se também a Jussara Freire, a atraente esposa do Ednaldo, que acabaria se destacando na TV e nas pornochanchadas  soft  paulistas .

Era uma peça (creio que criação coletiva) na linha do Arena, de Brecht, do teatro engajado na luta contra a tirania -- com as metáforas que a dita (tão dura!) e o bom senso aconselhavam.

Já lá se vão uns 40 anos. Ficou-me a lembrança de que, logo no início da encenação, o Calixto feriu a mão num fio do cenário, mas atuou até o fim, com o sangue a escorrer.

Depois houve uma reviravolta na vida do Luís e, por uns tempos, ele morou na minha kitchenette e desperdiçou seu talento trabalhando comigo em assessoria de imprensa -- foi o ganha-pão que lhe consegui.

Logo encontrou atividades mais gratificantes e morada menos exígua.

Em 1980 estreou como autor ligado ao Grupo Mambembe, com a comédia Foi bom, meu bem?. O Calixto e a Rosi atuavam, o diretor era o Ewerton de Castro.

Tratou-se quase de uma criação coletiva com o texto sendo consolidado pelo Luís, que o submetia ao coletivo e refazia de acordo com as sugestões e discussões.

Cala boca já morreu, no ano seguinte, também tinha essas características difusas, de entretenimento com algumas agulhadas críticas e presença marcante da personalidade do grupo.

A consagração veio com a
empolgante "Bella Ciao". De arrepiar!
Mas, a boa acolhida dos seus dois primeiros trabalhos era tudo de que o Luís precisava para tentar a grande cartada: uma peça que tivesse exatamente a sua cara. Este  tour de force  se chamou Bella Ciao.

A saga de uma família de anarquistas italianos -- como muitas existiam em São Bernardo -- foi sucesso de público e de crítica. A partir daí, o Luís passou a ser respeitado como um talento maior da nossa dramaturgia.

[Minha humilde contribuição foi fornecer-lhe uma cópia da gravação que eu tinha da música Bella Ciao, hino dos partisans italianos, interpretada pelo Quilapayún. Deu para o gasto -- quer dizer, para os ensaios.]

Seguiu-se sua vitoriosa carreira de mais de 40 peças (inclusive infantis), três roteiros para cinema e minisséries escritas para a Globo, como Hoje é dia de Maria. Além de lecionar teatro, muito mais por idealismo do que em função da (parca) remuneração.

E o principal: conservou a integridade. Esteve a um passo de se tornar autor de produções majestosas e polpudas bilheterias, mas preferiu manter sua linha de propor reflexões, sem panfletarismo mas com aguçado espírito crítico, sobre diversos aspectos da desumanidade capitalista. Não aderiu ao  teatrão. Não se vendeu.

Quando atravessei o segundo pior momento da minha vida, quase indo à miséria em 2004/2005, talvez não tivesse conseguido driblar a adversidade sem o apoio do Luís, um daqueles raros amigos das horas difíceis..

Enfim, pelos méritos da obra e do autor, recomendo entusiasticamente a compilação de sua obra teatral, organizada por Adélia Nicolete: Luís Alberto de Abreu - um teatro de pesquisa (ed. Perspectiva, 2011, 696 p.)

Reúne 14 peças e três textos teóricos do Luís, além de avaliações críticas do seu trabalho e de sua importância para a dramaturgia brasileira.

Eu não me julgo isento (nem um pouco!) para analisar-lhe a produção, até porque o teatro nunca foi minha praia. Mas, concordo inteiramente com o que Ilka Marinho Zanotto destacou no prefácio:
"É extremamente importante a inserção do 'bom combate' (...) na literatura teatral hodierna, muitas vezes tão carente de ideal, aparentemente enredada no mais pragmático dos niilismos".
Luís está há quatro décadas travando o bom combate. É mais do que motivo para merecer o respeito e reconhecimento dos melhores brasileiros.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

"BELA PORQUE TEM DO NOVO A SURPRESA E A ALEGRIA"

De sua formosura
deixai-me que diga:
é bela como o coqueiro
que vence a areia marinha.

De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão bela como um sim
numa sala negativa.

Bela porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.

Bela como a última onda
que o fim do mar sempre adia.

Bela porque tem do novo
a surpresa e a alegria.

Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.

Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

E bela porque o novo
todo o velho contagia.

Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.





(versos de João Cabral de Melo Neto que o pai coruja tomou 
emprestados para homenagear sua Laurinha, no dia do 3º aniversário)

NA CAÇA ÀS BRUXAS DE 11 DE SETEMBRO, AO MENOS 150 FORAM INJUSTIÇADOS

Documentos secretos do Pentágono que o site Wikileaks divulgou na noite de domingo revelam: pelo menos 150 dos presos em Guantánamo eram afegãos e paquistaneses inocentes, detidos durante operações de inteligência em zonas de guerra.

Não passavam de prosaicos motoristas, agricultores, cozinheiros, etc. Muitos permaneceram presos durante anos devido a confusões de identidade ou simplesmente por estarem no lugar errado, na hora errada.

É o modelo estadunidense de justiça, em que a razão de estado estupra direitos humanos e direitos civis. Joseph McCarthy está morto, mas o macartismo não.

Isto os filmecos com que Hollywood fetichiza a justiça dos EUA nunca mostram.

ONU EXORTA GOVERNO SÍRIO A NÃO "MATAR O PRÓPRIO POVO"

Bashar al-Assad: outro assassino
com farda e óculos escuros.
"As forças de segurança devem deter imediatamente os disparos com balas reais contra os manifestantes

O governo tem a obrigação internacional legal de proteger os manifestantes pacíficos e o direito de manifestar-se pacificamente.

A comunidade internacional tem reiterado o pedido urgente ao governo sírio de que pare de matar o próprio povo, mas as demandas caíram em letra morta.

Ao invés disso, a resposta do governo tem sido errática, com promessas de reforma seguidas de atos de repressão violentos contra os manifestantes... Os assassinatos devem cessar imediatamente."

Trechos de uma nota dramática que a alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay, acaba de lançar, destacando que possui uma lista de 76 pessoas assassinadas nos últimos três dias por haverem participado de manifestações pacíficas, mas o número pode ser "consideravelmente mais elevado".

Vale para a autocracia de Bashar al-Assad o mesmo que para as de todos os tiranos dos países árabes: só derrubados cessarão de massacrar seus povos.

Não se trata de questionar o currículo e os motivos de quem esteja ajudando a remover o lixo. A tarefa mais urgente é salvar pessoas que estão morrendo e muitas outras que serão assassinadas se os déspotas conservarem o poder. [Aqui cabe como uma luva a frase de Mao Tsé-Tung sobre não importar a cor dos gatos, desde que eles cacem ratos -- ainda mais ratos tão pestilentos e letais...]

Caso a libertação cause problemas no futuro, eles serão enfrentados adiante.

Mas, salta aos olhos, clama aos céus e é o óbvio ululante que o primeiro passo tem de ser o fim das tiranias agônicas que, no desespero para escaparem ao veredicto implacável da História, estão perpetrando tais banhos de sangue.

domingo, 24 de abril de 2011

MEMÓRIA E PROFISSÃO DE FÉ

Hoje é domingo de Páscoa. Dois motivos para sair um pouco do ramerrão deste blogue e apresentar uma divagação, digamos, mais íntima. Sei lá por quê, foi o que me apeteceu fazer.

É que me lembrei da velha constatação de Freud e de muitos artistas, de que aquilo que nos acontece nos verdes anos define nossos padrões de comportamento para sempre.

Eu fui criança enfermiça até os sete anos, costantemente gripado e febril, muito magro. Tuberculose era um fantasma que assombrava o sono dos meus pais, mais ou menos exorcizado com as antigas vacinas BCG, que não dissipavam todos os seus temores. 

E um tio farmacêutico, numa época em que os controles de seu ofício quase inexistiam, aplicava-me penicilina sempre que necessário, por conta própria e sem me causar nenhum dano. 

Aliás, para a clientela pobre do bairro, ele substituía com vantagem os médicos que os coitadezas não tinham como bancar (os serviços públicos eram dantescos e a maioria fugia deles, salvo nos casos realmente graves).

Só entrei na escola com sete anos, em 1958. Comecei a cursar o 1º ano do Primário com tais limitações. Nas férias, fui operado das amigdalas... e meus problemas mudaram quase instantaneamente.

Passei a ser saudável... demais. Com enorme apetite, que meus pais correram a satisfazer, aliviados por se verem livres dos receios que a minha magreza antes lhes causava.

Fiquei obeso até lá pelos 12, 13 anos, quando meu crescimento me colocou no peso normal.

Mas, o fato é que, primeiramente por ter saúde frágil, depois por ter ficado gordo, não me enturmei bem com os colegas do Primário. E adquiri o perfil de lobo solitário, que acabou me ficando para sempre.

Excluído da panelinha dos mais destacados e brilhantes, reagi, no Primário, ficando na moita e não me esforçando até o exame final, quando surpreendia a todos obtendo o melhor resultado da classe.

No ginásio começaram os trabalhos em grupo e eu desenvolvi outra estratégia: formei minha própria panelinha, agrupando os patinhos feios e liderando-os de tal forma que o conjunto acabasse competitivo em relação à panelinha dos brilhantes e até a superasse.

Percebendo que meus protegidos jamais exporiam os trabalhos tão bem quanto os desembaraçados, mesmo que eu lhes preparasse ótimos scripts, introduzi a apresentação em forma de jogral. Imprimia o texto, distribuía as cópias com as falas de cada um sublinhadas, ensaiávamos, destácavamos os trechos mais importantes recitando-os em coro, etc. Funcionava.

De resto, tinha um ou outro amigo isolado, para conversar, ir ao futebol e ao cinema, jogar sinuca, remar no Lago do Ibirapuera, sair atrás de garotas (quase sempre quebrando a cara) e das prostitutas do centro da cidade (barra que não era sensato encarar sozinho).

Um episódio marcante: certo sábado, eu e um colega da escola, não propriamente amigo, fomos ao  centrão  e ele gostou de uma prostituta. Tinha dinheiro para pagar e eu, não. Mesquinhamente, não se propôs a me emprestar o necessário, então abandonei-o lá. Na 2ª feira, estava com ferimentos feios no braço. Houve uma desavença e ela o feriu com gilete...

Só no movimento estudantil me vi como parte de um conjunto de iguais -- e foi um tempo inesquecível. De uma ou outra forma, éramos todos diferentes dos jovens da nossa idade; e, irmanados pelo ideal comum, não competíamos entre nós, respeitando e prestigiando o talento de cada um. O meu era a redação. O grupo assumiu que eu deveria escrever os textos de panfletos, manifestos, etc., e ponto final.

Com a radicalização da luta, acabei separado dos meus caros amigos. E, mais uma vez, enfrentando rejeições em função da precocidade que, de um lado, me tornou, provavelmente, o mais jovem comandante da guerrilha, aos 18 anos, como integrante do Comando Estadual da VPR em São Paulo (abaixo apenas do Comando Nacional).

De outro, valendo-me invejas e rejeições que afloraram quando o José Raimundo da Costa e eu iniciamos o processo que acabaria levando ao racha dos 7 e à recriação da VPR (inicialmente, fomos combatidos com distorções e calúnias, acabando isolados e só não perdendo a parada porque, em função dos rumos do Congresso de Teresópolis, o Lamarca encamparia nossa visão); e, mais ainda, quando foi tão facilmente aceita uma grave acusação contra mim que, alguns pelo menos, sabiam ser falsa (e eu, preso, não tinha como me defender).

Passei o resto da vida fora das panelinhas e tendo uma relação conflitante com elas. É claro que tudo se tornou bem mais difícil, pessoalmente, para mim.

Por outro lado, escapei da tendência bem brasileira de se relevar os erros dos amigos e transigir em relação a princípios. Pouco importando se sozinho ou com muitos ao meu lado, defendo sempre o que julgo ser certo. E desenvolvi uma couraça que me tornou imune à ação de rolos compressores.

Para mim, a política não se reduz a um jogo de futebol, em que tudo é visto pelo prisma do time pelo qual se torce e o gol impedido no finzinho do jogo merece aplausos.

Então, por piores que sejam as práticas em que o inimigo incorra, defenderei até o fim os valores originais do marxismo, segundo os quais devemos contribuir para o advento de um estágio superior de civilização e sermos, cada um de nós, o exemplo de pelo menos algumas das virtudes dos homens novos que, numa sociedade nova, todos se tornarão.

No fluxo revolucionário dos anos 60, era mais fácil defender tais posições (depois taxadas de  utópicas  pelos nimigos de 1968).

Hoje, no refluxo, parece até lógico o retorno ao velho maniqueísmo stalinista e à  realpolitik  do tempo da guerra fria, aceitando-se como  males menores  déspotas maiores do tipo de Gaddafi, Ahmadinejad e Saddam Hussein, apenas porque seus interesses não se alinham com os de EUA, Israel e países europeus. Esquece-se até que de revolucionários eles não tinham ou têm absolutamente nada...

Só que tais  males menores, por sua truculência, despotismo e barbárie, produzem, na verdade, o pior de todos os males: a descaracterização da esquerda. Deixamos de corporificar, aos olhos dos injustiçados e dos oprimidos, a alternativa à desumanidade do capitalismo putrefato e à liquidação dos valores mais nobres sob o primado dos cálculos mesquinhos.

Quando encaminhamo-nos para cenários propícios à retomada das lutas pela revolução mundial, é hora de voltarmos a pensar grande. E com ética. E com humanidade.

E com, no mínimo, senso comum: quem quer mudar o mundo, não pode estar associado ao que de pior o mundo já produziu.

Se minha sofrida trajetória teve algum sentido, foi o de me preparar para o desempenho do atual papel, de trincheira contra a descaracterização da esquerda, mantendo viva a lembrança das premissas libertárias do marxismo, que os  pragmáticos  de hoje tudo fazem para relegar ao olvido.

sábado, 23 de abril de 2011

REVOLTA ÁRABE: LIBERDADE, AINDA QUE TARDIA

Ao ler que outro tirano bestial dos países árabes promoveu, na 6ª feira que para nós foi santa, outro massacre bestial, veio-me à lembrança a frase com que Edgar Allan Pöe iniciou seu soturno conto Metzengerstein:
"O horror e a fatalidade têm tido livre curso em todos os tempos. Por que então datar esta história que vou contar?"
Só que há, sim, um motivo para termos bem presente a data em que os Gaddafis e al-Assads tentam perpetuar-se no poder por meio das mais repulsivas carnificinas.

É que as lutas pela liberdade, em nações que não perderam o trem da História, aconteceram no final do século 18 e ao longo do século 19.

A sensação é de déjà vu. Parece que embarcamos num túnel do tempo, de volta a um passado autocrático que não deixou nenhuma saudade, para assistirmos à tomada de Bastilhas que há muito deveriam ter virado pó.

E pensar que  ainda existem alguns tacanhos ditos de esquerda, capazes de, em nome de uma racionália tortuosa e também ancorada num passado execrável (o do stalinismo e da guerra fria), negarem a povos oprimidos esse mínimo sem o qual a existência humana se torna um exercício diário de aviltamento e humilhação.

Para os que amargamos a experiência de padecer sob as botas de tiranos fardados e não a esquecemos, faz todo sentido outra frase marcante, esta da peça Arena Conta Tiradentes: "Mais vale morrer com uma espada na mão do que viver como carrapato na lama!".

Que a liberdade continue guiando os povos árabes na sua heróica luta para saírem do lodaçal que os déspotas  lhes impõem, tomando todas as Bastilhas e derrubando todos os tiranos.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

LIÇÃO DE REALPOLITIK

"...por que não?
por que não?...
"
"Nós nunca misturamos negócios com política. Venderíamos até para o Irã, por que não?"

É o que acaba de dizer Yair Shamir, presidente do conselho da empresa estatal Israel Aerospace Industries, fabricante de material bélico.

Nenhuma novidade. Afinal, em 1975, Israel também se dispôs a fornecer mísseis nucleares ao regime do apartheid da África do Sul.

"São só negócios", dizem os gangstêres dos filmes de Hollywood.

E alguns gangstêres da vida real também...

JUSTIÇA DIVINA?

Como todo militante revolucionário que aprendeu o bê-a-bá do marxismo, eu já tentei encarar as religões como projeção para outro plano de nossas dores, angústias e aspirações.

Ópio do povo, como disse Marx, mas num sentido diferente do que a maioria atribui: o ópio então era usado para aliviar as dores, assim como os homens recorreriam às promessas de justiça no além para melhor suportar as injustiças e sofrimentos que marcavam seu cotidiano.

No entanto, ao longo da minha vida, vi muita coisa que me fez colocar um grande ponto de interrogação sobre este assunto.

Como, p. ex., o episódio da velha raposa da política que tudo fez para se tornar presidente da República, embora não tivesse nem de longe carisma para chegar ao Planalto nos braços dos eleitores.

Ele conspirou para que fosse negado ao povo o direito de eleger o presidente pela via direta e para que um bando de parlamentares depois desertasse das hostes governamentais e lhe fornecesse os votos necessários para ganhar a eleição pela imunda via indireta.

Com todo seu maquiavelismo, ganhou mas não levou. A morte frustrou seus planos perfeitos.

De quebra, devemos à sua arquitetura política oportunista um dos piores presidentes da nossa História, o coronelão nordestino que lambia as botas dos militares e fez a Nova República nascer velha e condescendente com os crimes que haviam sido perpetrados em duas décadas de arbítrio.

Justiça divina? Sei lá. Mas que parece, parece...

Assim como o caso de Wellington Manezes, a besta humana que executou sem motivo 12 crianças, por desequilíbrio mental e também em função de sua mais do que evidente compulsão por holofotes.

Uma das repulsivas mensagens que deixou definia os procedimentos a serem adotados no seu enterro. Sonhava em receber atenções fúnebres dignas de um santo.

Foi, pelo contrário, sepultado nesta sexta-feira (22), num cemitério da zona norte do Rio de Janeiro, como corpo não-reclamado, já que nenhum parente quis saber dele e das lembranças do seu ato bestial.  O enterro foi feito pela Santa Casa.

Wellington agora está ao lado de indigentes não identificados, tão insignificante na morte como o foi em vida, de nada tendo adiantado o repulsivo massacre com que tentou mudar este destino.

Ponto a favor da existência da justiça divina.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

FOTÓGRAFO BRASILEIRO CONFIRMA USO DE ESCUDOS HUMANOS POR GADDAFI

Aos companheiros que continuam utilizando retórica pseudo-esquerdista para defender uma tirania pessoal das mais truculentas, recomendo a leitura de Gaddafi usa escudos humanos, diz fotógrafo brasileiro na Líbia.

Trata-se de uma ótima matéria do correspondente de guerra Marcelo Ninio sobre André Liohn -- que anda em evidência por ter sido o primeiro a comunicar a morte do documentarista britânico Tim Hetherington e do fotógrafo estadunidense Chris Hondros, atingidos por morteiros das tropas governistas.

Eis o trecho mais interessante:
"Veterano em coberturas de guerra, Liohn, 36, chegou há duas semanas a Misrata, pelo mar. Para driblar o bloqueio terrestre de Gaddafi, embarcou num pequeno pesqueiro, onde fez a travessia de 40 horas de Benghazi, no leste, até Misrata.

Encontrou uma situação bem diferente da que presenciara no leste do país, região sob controle dos insurgentes.

Em Misrata os rebeldes tem menos armas e estão totalmente cercados. 'É uma guerra urbana, e isso neutralizou a ação da Otan, que não pode bombardear as forças do Gaddafi sem atingir civis', diz Liohn.

Ele conta que acompanhou um grupo de rebeldes no resgate de duas famílias que eram mantidas há dois meses como escudos humanos por soldados líbios em Misrata, num local onde tanques estavam posicionados.

'Felizmente a Otan não bombardeou, porque as famílias teriam sido massacradas', afirma o brasileiro.

Além de escudos humanos, as forças de Gaddafi também tem usado bombas de fragmentação, banidas pela lei internacional, diz Liohn. Ele fotografou cartuchos do armamento proibido lançados pelo Exército".
Resumo da opereta: não se pode acender uma vela para o libertário Marx e outra para Átila, o Fragelo de Deus. Nem usar uma argumentação de Allende para livrar a cara de um Pinochet.

Com a agravante de que, além de eternizar-se no poder à custa da repressão, assassinatos e torturas, Gaddafi luta como o mais abjeto covarde. Agora a denúncia do uso de escudos humanos não parte dos rebeldes, da França ou da Otan, mas de um compatriota nosso, tido e havido como profissional íntegro. Merece crédito. Merece respeito.

Revolucionários sacrificam a vida, de preferência a causar a morte dos civis. Gaddafi, pelo contrário, esconde-se atrás dos civis, como um coelho assustado.

CHICO ANYSIO VOLTOU!!!

Uma das melhores notícias da semana é o restabelecimento do grande humorista Chico Anysio, depois de haver superado graves problemas de saúde (teve de fazer uma angioplastia e, em seguida, contraiu uma pneumonia). Ele acaba de completar 80 anos.

Foram quase quatro meses de internação hospitalar, mas Anysio agora está firme e forte, tanto que gravou  suas primeiras cenas em 2011 do humorístico Zorra Total, da Globo, revivendo a personagem Salomé, numa conversa  de mulher para mulher  com Dilma Rousseff. O quadro irá ao ar neste sábado (23).

TÚNEL DO TEMPO

Quando eu tinha nove anos, fiquei fascinado por uma grande novidade na programação da TV: o Chico Anysio Show.

Estava anos-luz à frente do humorismo convencional.

Tratava-se do primeiro programa semanal gravado em videoteipe (pela TV Rio) e enviado a outros Estados. Em São Paulo, a TV Record o exibia nas noites de domingo.

A utilização inicial do VT se dera em 1958, com a apresentação de um teleteatro previamente gravado ("O Duelo", inspirado em Guimarães Rosa) no TV de Vanguarda da velha TV Tupi  - Canal 3 de São Paulo, pertencente a Assis Chateaubriand.

Nem edição havia. Foi tudo registrado de uma tacada só, com a única vantagem de poder ser reprisado ou exibido também nas outras Emissoras Associadas.

Em 1960, entretanto, o diretor Carlos Manga e Chico Anysio já contavam com esse recurso.

E o aproveitaram magnificamente, para criar um show dividido em quadros, com Anysio mostrando toda sua versatilidade na composição dos vários personagens.

Era humor inteligente, em muitos casos direcionando-se para a sátira  ferina da qual a TV comercial depois fugiria, para não desagradar anunciantes e audiências.

Assim, além de tipos meramente engraçados, como o barman fanho "Quem-Quem" e o torcedor de futebol "Urubolino", havia abordagens mais críticas, como a dos industriais paulistas italianados ("Comendador Vittorio") e dos latifundiários nordestinos ("Coronel João Pessoa do Limoeiro").

Na concepção desses tipos e situações, Anysio interagia com uma excelente equipe de redatores: Antonio Maria, Aloísio Silva Araujo e Max Nunes.

E o show incluía algo inimaginável num programa humorístico de hoje: uma crônica, às vezes  nostálgica, sempre de muito bom gosto, que Anysio apresentava como ele próprio (ou seja, vestido normalmente), em algum ambiente carioca.

Seguramente, o Chico Anysio Show sofisticou o humor da TV brasileira, até então voltado para o povão. Algo como um Jacques Tati chegando onde só havia Três Patetas...

Infelizmente, ele foi cada vez mais se banalizando, sob o  toque de Sadim  da Rede Globo. É um daqueles talentos que o sistema engoliu, como Arnaldo Jabor, Pedro Bial, William Waack e tantos outros. A  vênus platinada é, na verdade, uma   górgona...

Então, a grande maioria dos telespectadores acabará lembrando mesmo de Chico Anysio como o  Professor Raimundo  da   escolinha, um de seus personagens menos brilhantes, tanto que nem original era: tratava-se de uma variação de  Professor Lourenço, seus bons alunos e sua aluna boa  (*), quadro de um programa humorístico do final da década de 1950, da então TV Paulista - Canal 5 (SP), da Organizações Victor Costa.

* Borges de Barros intepretava o professor que tudo fazia para agradar à aluna  gostosa  e burrinha, inclusive elogiando suas asneiras e rejeitando as respostas corretas dos três alunos mais sabidos.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

EM SAMPA, 45% DAS MORTES NO TRÂNSITO ENVOLVEM MOTOS

O número de pedestres atropelados e mortos por motocicletas na capital paulista aumentou 9,8% em 2010, de 123 para 135 vítimas.

Os óbitos de motoqueiros saltaram de 428 para 478 (mais 11,7%).

Ou seja, de 1.357 falecidos no trânsito, nada menos que 613 levaram a breca em ocorrências envolvendo motos.

Trata-se de um percentual elevadíssimo: 45,2%! Ainda mais levando-se em conta que a quantidade de vítimas fatais vem diminuindo -- a participação de automóveis, ônibus e caminhões em acidentes letais decresce e a das motos aumenta.

O total de motos na capital paulista se aproxima de 890 mil, representando apenas 12,6% dos 7 milhões de veículos que trafegam pelas vias paulistanas.

Vale repetir: as motos são 12,6% e estão presentes em 45,2% dos óbitos.

Para piorar, a frota de motos é a que mais se expande: 6,6% no último ano, enquanto a de carros, p. ex., só cresceu 2,3%.

Os dados foram divulgados pela Companhia de Engenharia de Tráfego e pelo Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo.

Providências deveriam ser tomadas para desestimular essa expansão desenfreada das máquinas mortíferas, perigosas por suas próprias características e mais ainda no trânsito violento das grandes cidades -- até porque aqueles que geralmente as pilotam estão mais para kamikazes do que para condutores conscientes dos riscos que correm e causam.

Mas, sob o capitalismo, só podemos esperar paliativos, não soluções. O lucro é sagrado; a vida humana, não.

CAMARGO CORRÊA INOVA: PRIMEIRO ASSOPRA, DEPOIS MORDE

"Há um mês, os peões do PAC fizeram na Amazônia o maior movimento de trabalhadores das últimas décadas. Parados, mais de 30 mil operários das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio conseguiram um acordo emergencial que lhes deu 5% de aumento real e pagamento regular de horas extras. 

Poucos dias depois, receberam a maior demissão em massa ocorrida desde o massacre da Embraer, em 2009 [o passaralho, desta vez, atingirá 4 mil].

É direito da Camargo Corrêa dispensar quantos funcionários queira. Não é razoável, contudo, que o Ministério do Trabalho e a nobiliarquia sindical façam de conta que nada aconteceu." (Élio Gaspari, em sua coluna)

terça-feira, 19 de abril de 2011

CONVOQUEMOS O PLEBISCITO CERTO. PARA QUE ANGRA NÃO VIRE FUKUSHIMA

Como escritor e jornalista, Carlos Heitor Cony é dos melhores que temos.

Algumas atitudes do homem foram decepcionantes, mas ninguém é perfeito. Suas avaliações de assuntos que não o envolvem pessoalmente continuam sendo das mais consistentes. Portanto, devem ser lidas e consideradas.

Como a da coluna desta 3ª feira (19), Os plebiscitos, na qual faz restrições à proposta de um referendum sobre o uso e a venda de armas, contrapondo-lhe um problema em que a consulta aos cidadãos se faz realmente necessária e premente:
"O governo promete ampliar a energia nuclear concluindo Angra 3 e construindo mais quatro usinas, isso numa época em que países mais industrializados, como a Suécia e a Itália, estão desativando seus programas nucleares. O governo da Alemanha também estuda a possibilidade de reduzir ou acabar com suas usinas.

O investimento é vultoso (pelo menos R$ 8 bilhões cada uma) e os riscos de um acidente como o de Three Mile Island (1979), de Chernobil (1986) e, agora, o de Fukushima, cujos efeitos ainda estão se manifestando, exigem uma consulta popular justamente num país que tem numerosos recursos naturais para gerar energia, como as hidrelétricas, além de opções que a tecnologia vai criando sem cessar, como a eólica, a solar etc.

Tamanha verba poderia ser em parte aplicada num programa para tornar mais seguras as usinas que temos em Angra dos Reis (RJ), onde ainda não há condições de retirada imediata da população.

Um acidente de grande proporção no litoral fluminense colocaria em risco as duas maiores cidades brasileiras, além de causar devastação em várias cidades próximas.

Um plebiscito daria ao governo e à sociedade uma orientação mais democrática sobre o programa de energia nuclear, importante demais para ser da agenda exclusiva de técnicos e funcionários" [o grifo é meu].
A mesma preocupação, aliás, já havia sido manifestada pelo maior jurista brasileiro vivo, Dalmo de Abreu Dallari:
"A tragédia sofrida pelo povo japonês deve servir de alerta, estimulando a busca de outras fontes de energia, para atendimento das necessidades básicas das populações do mundo, mas também influindo para que se faça ampla divulgação dos aspectos básicos das opções existentes, informando o povo e dando-lhe a possibilidade de acompanhar as discussões e, mesmo, de participar das decisões sobre o assunto".
O plebiscito sugerido por Cony daria, exatamente, ao povo "a possibilidade de acompanhar as discussões e, mesmo, de participar das decisões sobre o assunto".

Nem preciso dizer que concordo em gênero, número e grau com ambos, Cony e Dallari.

Também não preciso dizer que tal proposta  encontrará resistência imensamente maior que a do plebiscito sensacionalista sobre as armas,  por colocar em xeque um programa que pode ser dos mais perigosos para o povo brasileiro mas propicia vultosos ganhos para grandes empresas, as quais o defenderão com unhas, dentes e  o$  argumento$ de $empre.

Nem mesmo as greves de fome de D. Flávio Cappio conseguiram impedir que se desperdiçassem recursos públicos e atentasse contra a natureza para atender aos interesses do agronegócio na região do rio Sâo Francisco.

As cartas de Angra, também embaralhadas a gosto dos interessados, valem R$ 8 bilhões cada. Será necessária uma enorme pressão para desfazer tal jogo.

Com a palavra os parlamentares que honram o seu mandato, as ONG's, a imprensa e as redes sociais.

O PIOR BAFO É O DO ESTADO POLICIAL

O fato de o motorista que desta vez não se submeteu à humilhação do bafômetro ser um grão tucano em nada altera a minha convicção de que se trata de uma prática odiosa, característica de estado policial.

É lícito imporem-se testes desse tipo a protagonistas de acidentes. Mas aporrinhar, aleatoriamente, qualquer pessoa que esteja passando em tal hora por tal local é um gritante abuso de autoridade. Blitzes são nazistóides.

Se um dia tentarem me impor algo assim, recusarei, mesmo que não haja ingerido uma gota de álcool no mês inteiro. Prezo meus direitos e brigo por eles.

Aconselho a todos que façam o mesmo.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O JORNALISTA, O ASSASSINO E A MÍDIA ABUTRE

Não é por ele ter um dia comparado Mino Carta a Odorico Paraguaçu que eu aprecio o trabalho de Fernando de Barros e Silva. Até porque eu escolheria outro personagem, este histórico, como o mais afim do arrogante  imperador: o capitão William Lynch, cujo sobrenome deu origem ao substantivo linchador. Advinhem por quê.

O certo é que, nestes tempos tão carentes de vida inteligente no jornalismo, Barros e Silva constitui honrosa exceção, como se constata em sua coluna desta 2ª feira, O jornalista e o assassino, cujos principais trechos reproduzo:
"Há notícias que são de interesse público e há notícias que são de interesse do público...

O jornalismo transita entre essas duas exigências, desafiado a atender as demandas de uma sociedade ao mesmo tempo massificada e segmentada, de um leitor que gravita cada vez mais apenas em torno de seus interesses particulares.

Um caso como a tragédia de Realengo reúne interesse público e interesse do público em grau máximo...

Como fazer sua cobertura? Até onde saciar a curiosidade (mórbida) das pessoas? Até onde devassar o sofrimento das famílias? Deve-se expor sem limites os vídeos 'preparatórios' do assassino?
Não há respostas conclusivas a essas perguntas. Mas não fazê-las, sob pretexto de que seriam ingênuas numa época de informação instantânea, equivaleria a deixar o jornalismo e suas opções fora do debate público. É preciso refletir melhor sobre os nossos critérios.
Sobretudo quando o jornalismo se converte em 'infotainment' e parece inclinado a se guiar quase exclusivamente pelos interesses 'do público'. A superexposição midiática, apelativa e, afinal, monótona do assassino serve bem de exemplo. Nunca um vídeo foi tão visto e comentado. É contra esse espetáculo que deveríamos nos opor".

VALE A PENA LER DE NOVO: "A FRASE DE FIDEL E O BESTEIROL DO PIG"

Que moral os defensores do capitalismo
têm para tripudiarem sobre Cuba?
A grande imprensa brasileira saudou efusivamente a afirmação de Fidel Castro, de que o modelo econômico cubano não funcionaria (mais tarde relativizada por ele, sob a alegação de não era exatamente isto que queria dizer).

troféu PIG  coube a Suely Caldas que, em O Estado de S. Paulo, deitou falação sobre o que está muito além dos seus conhecimentos:
"A esperança de um mundo igual e justo, lançada por Karl Marx e Friedrich Engels no século 19, não logrou sucesso em nenhuma das experiências socialistas vividas ao longo do século 20. Entre outras razões de ordem econômica, também porque nunca conseguiram se sustentar sem a imposição de uma ditadura a subjugar uma população que ansiava por liberdade".
Para Marx, a construção do socialismo
começaria pelos países desenvolvidos
Até quando será invocado o santo nome de Marx em vão?

Ele jamais pregou a construção do socialismo em países isolados e atrasados.

Acreditava que, como consequência de suas próprias contradições (principalmente a apropriação individual do produto do trabalho coletivo), o capitalismo passaria a frear o desenvolvimento das forças produtivas, ao invés de o alavancar.

Então, em sua marcha para o progresso, a humanidade seria obrigada a evoluir para uma forma de organização econômica, política e social que libertasse as forças produtivas do jugo do lucro.

Ou seja, em termos simplificados, o contínuo crescimento da produção era limitado pelo fato de que os produtores, ao serem espoliados de uma parcela do resultado do seu labor, não tinham meios para adquirir tantos produtos quanto geravam.

Então, essa produção que excedia o poder aquisitivo dos consumidores era destruída (queimas de café para evitar a queda do preço no mercado, p. ex.) ou, por mecanismos indiretos,  remanejada: a economia se voltava para atividades parasitárias ou para a indústria de guerra.

Maneira capitalista de criar um "mercado" para os
produtos que os consumidores não conseguem adquirir
Ou seja, o peso descomunal que o setor financeiro adquiriu no capitalismo do século 20 foi uma forma de manter pessoas trabalhando para nada produzirem de útil, necessário ou válido. É a condenação mais gritante de um sistema putrefato, que mantém os homens a labutarem em vão, quando poderiam estar trabalhando muito menos e vivendo muito melhor, livres do tacão da necessidade e do estresse da competição encarniçada.

As duas guerras mundiais e os muitos conflitos localizados, idem. Em vez de se direcionar o esforço dos seres humanos para melhorar a existência dos seres humanos, passou-se a empregá-lo no seu extermínio.

Como alternativa, as grandes recessões periódicas que assolam o capitalismo até hoje.

1929: a pior crise cíclica do capitalismo
Antes, a superprodução desembocava automaticamente na crise.

Depois, para permitir que os consumidores adquirissem aquilo que não podiam pagar, criaram-se mecanismos de crédito que resolvem o problema imediato, mas, como bola de neve, acabam gerando dívidas impagáveis à frente.

Até que essa economia artificial, fictícia, estoura como bolha de sabão.

Exatamente como Marx dizia, a contradição insolúvel do capitalismo engendrará crises cíclicas até que ele seja superado pela racionalidade econômica.

Elas podem não ocorrer mais a cada dez anos, mas continuam tão inevitáveis quanto antes.

Face a tal mostrengo, como ousa e jornalista empertigada criticar o socialismo real? Quem tem algo a dizer sobre ele somos nós, não ela.

REVOLUÇÃO MUNDIAL x SOCIALISMO NUM SÓ PAÍS

No princípio, os  profetas  apregoavam uma maré revolucionária que uniria e imantaria os proletários de todos os países, varrendo o planeta. É o que lemos no mais inspirado panfleto político que a humanidade já produziu, o Manifesto do Partido Comunista de 1848.

Levando em conta não só que os trabalhadores do mundo inteiro estavam irmanados pela sina de terem uma substancial parcela da riqueza que geravam (a mais-valia) expropriada pelo patronato, como também que a exploração capitalista havia subjugado países e culturas, submetendo proletários de todos os quadrantes a uma mesma lógica de dominação, os papas do marxismo profetizaram que o socialismo seria igualmente implantado em escala global, começando pelas nações de economias mais avançadas e se estendendo a todas as outras.

A Comuna de Paris, esmagada pelos reacionários
franceses e invasores estrangeiros
O movimento revolucionário foi, pouco a pouco, conquistado pela premissa teórica do internacionalismo, ainda mais depois que a heróica Comuna de Paris foi esmagada em 1871 pela ação conjunta de tropas reacionárias francesas com o invasor alemão.

Se as nações capitalistas conjugariam suas forças para sufocar qualquer governo operário que fosse instalado, então os movimentos revolucionários precisariam também transpor fronteiras, para terem alguma chance de êxito – foi a conclusão que se impôs.

Outra, de consequências trágicas: a tese de que, como era desigual o ritmo com que as nações amadureciam para a experiência socialista, poderia se recorrer a uma ditadura momentânea do proletariado (já que a Comuna de Paris parecera ter sido derrotada por excesso de brandura) naquelas que se libertassem primeiramente, para resistirem ao capitalismo agonizante até que a revolução vencesse no mundo inteiro.

1917: o poder estava à mão, mas caberia uma 
revolução marxista em país tão atrasado?
No entanto, a ditadura do proletariado deveria se tornar cada vez menos ditadura, tendo a função de preparar as condições para seu desaparecimento, por obsolescência.

Em 1917, surgiu a primeira oportunidade de tomada de poder pelos revolucionários desde a Comuna de Paris. E os bolcheviques discutiram apaixonadamente se seria válida uma revolução em país tão atrasado como a Rússia – uma verdadeira heresia à luz dos ensinamentos marxistas.

Para Marx, o socialismo viria distribuir de forma equânime as riquezas geradas sob o capitalismo, de forma que beneficiassem o conjunto da população e não apenas uma minoria privilegiada. Então, ele sempre augurara que a revolução mundial começaria nos países capitalistas mais avançados, como a Inglaterra, a França e a Alemanha.

A "grande fome" de 1932/33, na Ucrania: o
stalinismo surgiu em circunstâncias dramáticas
Um governo revolucionário na Rússia seria obrigado a cumprir tarefas características da fase da acumulação primitiva do capital, como a criação de infra-estrutura básica e a industrialização do país. O justificado temor de alguns dirigentes bolcheviques era de que, assumindo tais encargos, a revolução acabasse se desvirtuando irremediavelmente.

Prevaleceu, entretanto, a posição de que a revolução russa seria o estopim da revolução mundial, começando pela tomada de poder na Alemanha. Então, alavancada e apoiada pelos países socialistas mais prósperos, a construção do socialismo na Rússia se tornaria viável.

Os bolcheviques venceram, mas seus congêneres alemães foram derrotados em 1918. A maré revolucionária acabou sendo contida e, como se previa, várias nações capitalistas se coligaram para combater pelas armas o nascente governo revolucionário. Mesmo assim, o gênio militar de Trotsky acabou garantindo, apesar da enorme disparidade de forças, a sobrevivência da URSS.

O gênio militar de Trotsky e a falta de
coordenação dos reacionários salvou a URSS
Quando ficou evidente que a revolução mundial não ocorreria tão cedo, a União Soviética tratou de sair sozinha da armadilha em que se colocara. Devastada e isolada, precisou criar uma economia moderna a partir do nada.

Nenhum ardor revolucionário seria capaz de levar as massas a empreenderem esforços titânicos e a suportarem privações dia após dia, indefinidamente. Só mesmo a força bruta garantiria essa mobilização permanente, sobre-humana, de energias para o desenvolvimento econômico. A tirania stalinista cumpriu esse papel.

A revolução nunca mais voltou aos trilhos marxistas. Como único país dito socialista, a URSS passou a projetar mundialmente seu modelo despótico, que encontrou viva rejeição nas nações avançadas. Nestas, as únicas adesões não se deveram à atuação política dos trabalhadores, mas sim às baionetas do Exército Vermelho, quando da vitória sobre o nazismo.

Tomada autêntica de poder houve em outros países pobres e atrasados, como a China, Cuba, Vietnã e Camboja. E todos repetiram a trajetória para o modelo autoritário do socialismo num só país stalinista.

AVANÇO TECNOLÓGICO x LETARGIA ECONÔMICA

Um divisor de águas: a queda do muro de Berlim. O
capitalismo vitorioso logo exibiria sua face odiosa.
Mas, a arregimentação autoritária da mão-de-obra só funcionou a contento na etapa da industrialização pesada.

Na segunda metade do século 20, a economia capitalista avançou noutra direção, a da sofisticação tecnológica, da miniaturização, da gestação sôfrega de novas manias consumistas. Informática, biotecnologia, novos materiais, novos processos.

O avanço movido a ganância, com base no talento individual, na pesquisa e na tecnologia, derrotou a economia letárgica da URSS, tornada jurássica da noite para o dia, e sua  nomenklatura  arrogante que se reservava todos os privilégios.

Comprovava-se a máxima marxista segundo a qual são os países com forças produtivas mais desenvolvidas que determinam os rumos da humanidade.

O bloco soviético desabou como uma fruta apodrecida. Seus países voltaram ao capitalismo e à democracia burguesa.

A China conseguiu manter o sistema político autoritário, à custa de mesclar a economia estatizada com a iniciativa privada. Criou o pior dos mundos possíveis: algo assim como o milagre brasileiro, com a falta de liberdade sendo aceita em função das melhoras materiais proporcionadas pelo regime (e do espírito tradicionalmente submisso dos asiáticos).

Sobrou para os idealistas do século 21 a missão de recolocar a revolução nos trilhos, para que ainda seja cumprindo o sonho original de Marx: não apenas regimes híbridos em países isolados, mas sim o planeta inteiro transformado no “reino da liberdade, para além da necessidade”, em que:
  • cada cidadão contribua no limite de suas possibilidades para que todos os cidadãos tenham o suficiente para suprirem as suas necessidades e desenvolverem plenamente as suas potencialidades; e
  • o estado desapareça, com os cidadãos assumindo a administração das coisas como parte de sua rotina e a ninguém ocorra administrar os homens, já que eles serão, para sempre, sujeitos da sua própria História.
Engendrarmos uma onda revolucionária capaz de varrer o planeta é tarefa gigantesca? É.

Mas, em relação ao século 19, há uma mudança importante: ela se tornou muito mais necessária, como alternativa à regressão -- talvez, até, à própria aniquilação -- da humanidade.

Pois, salta aos olhos que, mantida a prioridade dos interesses individuais sobre os coletivos, a exaustão de recursos naturais e as catástrofes ecológicas reduzirão drasticamente os contingentes humanos, ou os exterminarão de vez.

A opção a fazermos, como disse Norman O. Brown, agora é entre a vida numa sociedade solidária e harmoniosa, ou a morte sob o capitalismo excludente e predatório.

Mas, para que a última palavra seja otimista, prefiro os sonhos dos artistas, antenas da raça.

Assim, encerrarei com  a bela antevisão do Geraldo Vandré, de um futuro que podemos, sim, construir:, apesar de todos os percalços:  "Quem sabe o canto da gente, seguindo na frente, prepare o dia da alegria".
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