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sexta-feira, 18 de maio de 2012

CONFIRMADO: A CPI DO CACHOEIRA É CASCATA

Notícia do dia: "Após acordo entre governo e oposição, a CPI do Cachoeira engavetou pedidos para investigar tanto a empreiteira Delta como governadores e parlamentares acusados de envolvimento com Carlinhos Cachoeira."

O teatrólogo Luís Alberto de Abreu, meu amigo há quatro décadas, diz que os participantes da política oficial fazem pôse de direitistas, centristas ou esquerdistas, mas isto é meramente para consumo externo. Entre eles, estão sempre unidos na defesa dos seus privilégios imorais e maracutaias escandalosas. Sua verdadeira prioridade é manterem-se no lugar. Seus verdadeiros inimigos são os que tentam tomar-lhes o lugar.

Foi o que pensei num dia destes, quando ocorreu-me de estar esperando a chegada de um companheiro à Assembléia Legislativa; sem coisa melhor para fazer, fui matar tempo assistindo à sessão.

Meia dúzia de deputados presentes, numa tarde de dia útil.

Vem um direitista qualquer e pede ao presidente que inclua nas atas uma relação de vítimas da esquerda. Acaba o pronunciamento e some.

Vem um esquerdista e pede ao presidente que inclua nas atas uma relação de vítimas da direita. Depois fala sobre outras coisas. 

Ninguém pede aparte, ninguém mostra desagrado, ninguém liga. Nada além de um ritual burocraticamente cumprido, sem a mínima emoção. Já vi enterros mais animados.

Ambos terão serviço para mostrar a seus eleitores, na próxima temporada de caça ao voto: "Olha as verdades que atirei na cara do inimigo!".

Como a coisa se avacalhou tanto, com os Poderes da Nação sendo reduzidos ao espetáculo grotesco que hoje nos oferecem o Executivo, Legislativo e Judiciário?

Marcuse explica: com a imposição avassaladora do poder econômico sobre os três. Estão satelizados. Foram domesticados.

Daí minha irrisão cada vez que se fala em CPI para apurar algum dos infinitos esquemas de corrupção existentes.

Num bom filme que pouca gente notou, Proezas de Satanás na Vila do Leva-e-Traz (d. Paulo Gil Soares, 1967) a prosperidade fajuta que a descoberta do petróleo trouxe a um vilarejo longínquo não ilude a um menino. Em pleno banquete, ele não consegue mastigar a comida, vistosa mas falsa. E grita: "É tudo mentira! É tudo mentira!". Num átimo, toda a riqueza recente desaparece e os cidadãos se descobrem vestidos com as roupas velhas, tão miseráveis como antes.

Único espectador da sessão do Legislativo paulista --havia uns dez alunos do ensino médio que estavam pagando mico e abriram largos  sorrisos quando puderam ir embora--, também tive vontade de gritar: "É tudo mentira! É tudo mentira!".

Seria inútil, pois vaias e protestos não mais chegam a seus ouvidos. A platéia foi isolada do palco por um enorme vidro, deixando a trupe mambembe totalmente a salvo da insatisfação do público.

E, como peixes num aquário, eles continuam executando movimentos totalmente vãos para todos, exceto para eles mesmos.

quinta-feira, 22 de março de 2012

JORGE BEN FAZ 70 ANOS. ESTARÁ CURADO DA SÍNDROME DE PETER PAN?

Disfarçando a idade para manter as namoradas
Jorge Ben se tornou septuagenário nesta 5ª feira, 22.

[Não vou usar aqui o nome artítico que ele adotou por causa do engana-trouxas chamado numerologia. Sempre detestei essas tolices. Nunca me referi, p. ex., àquele encenador de desfiles carnavalescos como Joãosinho. O diminutivo tem regras e o ridículo tem limite.]

A idade do Jorge Ben foi pivô de um episódio engraçado em 1983, quando eu editava revistas de música e a Rosi Campos era assessora de imprensa na gravadora Som Livre.

Conhecêramo-nos 12 anos atrás, quando me tornei amigo do Luís Alberto de Abreu e este me convidou para assistir a Tempo dos inocentes, tempo dos culpados, peça de estréia do seu grupo teatral, o  Doces e Salgados: .

Era uma turminha boa de São Bernardo do Campo, dando os primeiros passos na carreira. Eles se reuniam no Centro Cultural Guimarães Rosa: o Luís, o Calixto de Inhamuns, o Ednaldo Freire e sua esposa Jussara, a Rosi e mais alguns.

A peça me tocou principalmente pelo idealismo e entusiasmo da moçada. Tanto que o Calixto feriu a mão com um arame logo no início da representação e seguiu até o fim gotejando sangue.

Depois, o Luís assumiu a função de escritor das peças do grupo e a Rosi começou a sobressair-se como a atriz mais espontânea nas cenas de humor.

Mesmo notada pelo público e elogiada pela imprensa, em 1983 ela ainda não conseguia sobreviver só de sua atuação em teatro e TV.

A Rosi, o Calixto e a Maria do Carmo em 1979
Nem eu ganhava o suficiente na Editora Imprima, mas continuava lá por ser gratificante editar todas aquelas revistas a meu bel-prazer. Tinha até algum prestígio como crítico de rock, com o pseudônimo de André Mauro.

Então, a Rosi começou a me arrumar  frilas  na Som Livre: escrevi os press-releases de uma coletânea da Jovem Guarda, de outra dos Beatles, de um lançamento da Marília Gabriela (apresentadora de TV fazendo as vezes de cantora, ela se achava a própria Elis Regina: detestei sua empáfia), de um disco ao vivo do Jorge Ben.

No último caso, fiquei numa saia justa: não tinha como falar com ele, porque estava excursionando. E não achei, à primeira vista, nada de interessante para escrever sobre a enésima vez em que Jorge Ben aparecia cantando as músicas de sempre.

Ou haveria? Ocorreu-me que as faixas mapeavam todas as fases de sua trajetória. E me indaguei se ele não estaria completando 20 anos de carreira. Pesquisei e... bingo! O compacto de estréia ("Mas, que nada"/"Por causa de você, menina") era de 1963.

Redigi, então, um longo release, na linha de que era o disco comemorativo dos 20 anos e não mero acaso. Relembrei sua história, introduzindo cada faixa como peça de um painel musical.

Funcionou. A imprensa embarcou na minha canoa e deu a um LP corriqueiro destaque muito maior do que merecia. Nas coletivas, era sobre "os 20 anos" que lhe faziam mais perguntas.

Ficou agradecido? Não, queixou-se à Rosi que entregáramos a idade dele. Até então, vinha conseguindo passar-se por mais jovem. As matérias publicadas tinham feito suas  namoradas  perceberem que já era quarentão...

Nunca conversei com ele, de forma que a má impressão me ficou até hoje.

O que não me impede de apreciar muito e ouvir de vez em quando as canções de suas fases bossanovista e tropicalista. Acho excelentes as letras, espontâneas, ingênuas, singelas. E considero "Charles Anjo 45" um clássico absoluto da MPB.

Só me resta uma dúvida: será que ele conserva, aos 70 anos, a síndrome de Peter Pan? Conseguirá ainda iludir as  namoradas?

terça-feira, 26 de abril de 2011

UM IRMÃO E COMPANHEIRO NO BOM COMBATE: LUÍS ALBERTO DE ABREU

Luís Alberto de Abreu é como um irmão para mim.

Conhecemo-nos lá por 1971, quando, ainda traumatizado pela prisão, tortura e adiamento  sine die  das minhas perspectivas de ver concretizada uma sociedade igualitária e justa, eu tentava me reencontrar com a vida, de repente tornada tão cinzenta.

Nem me lembro mais como se deu o primeiro contato, provavelmente graças a nosso amigo comum Douglas Salgado. Mas, logo estávamos nos falando e visitando. Ele morava em São Bernardo do Campo e ainda não decolara.

Assisti à última peça do grupo de que o Luís participava, Doces e Salgados, encenada no belo teatro daquele município: Tempo dos Inocentes, Tempo dos Culpados. Era um timaço: ele, a Rosi Campos, o Ednaldo Freire, o Calixto de Inhamuns. Não me lembro se também a Jussara Freire, a atraente esposa do Ednaldo, que acabaria se destacando na TV e nas pornochanchadas  soft  paulistas .

Era uma peça (creio que criação coletiva) na linha do Arena, de Brecht, do teatro engajado na luta contra a tirania -- com as metáforas que a dita (tão dura!) e o bom senso aconselhavam.

Já lá se vão uns 40 anos. Ficou-me a lembrança de que, logo no início da encenação, o Calixto feriu a mão num fio do cenário, mas atuou até o fim, com o sangue a escorrer.

Depois houve uma reviravolta na vida do Luís e, por uns tempos, ele morou na minha kitchenette e desperdiçou seu talento trabalhando comigo em assessoria de imprensa -- foi o ganha-pão que lhe consegui.

Logo encontrou atividades mais gratificantes e morada menos exígua.

Em 1980 estreou como autor ligado ao Grupo Mambembe, com a comédia Foi bom, meu bem?. O Calixto e a Rosi atuavam, o diretor era o Ewerton de Castro.

Tratou-se quase de uma criação coletiva com o texto sendo consolidado pelo Luís, que o submetia ao coletivo e refazia de acordo com as sugestões e discussões.

Cala boca já morreu, no ano seguinte, também tinha essas características difusas, de entretenimento com algumas agulhadas críticas e presença marcante da personalidade do grupo.

A consagração veio com a
empolgante "Bella Ciao". De arrepiar!
Mas, a boa acolhida dos seus dois primeiros trabalhos era tudo de que o Luís precisava para tentar a grande cartada: uma peça que tivesse exatamente a sua cara. Este  tour de force  se chamou Bella Ciao.

A saga de uma família de anarquistas italianos -- como muitas existiam em São Bernardo -- foi sucesso de público e de crítica. A partir daí, o Luís passou a ser respeitado como um talento maior da nossa dramaturgia.

[Minha humilde contribuição foi fornecer-lhe uma cópia da gravação que eu tinha da música Bella Ciao, hino dos partisans italianos, interpretada pelo Quilapayún. Deu para o gasto -- quer dizer, para os ensaios.]

Seguiu-se sua vitoriosa carreira de mais de 40 peças (inclusive infantis), três roteiros para cinema e minisséries escritas para a Globo, como Hoje é dia de Maria. Além de lecionar teatro, muito mais por idealismo do que em função da (parca) remuneração.

E o principal: conservou a integridade. Esteve a um passo de se tornar autor de produções majestosas e polpudas bilheterias, mas preferiu manter sua linha de propor reflexões, sem panfletarismo mas com aguçado espírito crítico, sobre diversos aspectos da desumanidade capitalista. Não aderiu ao  teatrão. Não se vendeu.

Quando atravessei o segundo pior momento da minha vida, quase indo à miséria em 2004/2005, talvez não tivesse conseguido driblar a adversidade sem o apoio do Luís, um daqueles raros amigos das horas difíceis..

Enfim, pelos méritos da obra e do autor, recomendo entusiasticamente a compilação de sua obra teatral, organizada por Adélia Nicolete: Luís Alberto de Abreu - um teatro de pesquisa (ed. Perspectiva, 2011, 696 p.)

Reúne 14 peças e três textos teóricos do Luís, além de avaliações críticas do seu trabalho e de sua importância para a dramaturgia brasileira.

Eu não me julgo isento (nem um pouco!) para analisar-lhe a produção, até porque o teatro nunca foi minha praia. Mas, concordo inteiramente com o que Ilka Marinho Zanotto destacou no prefácio:
"É extremamente importante a inserção do 'bom combate' (...) na literatura teatral hodierna, muitas vezes tão carente de ideal, aparentemente enredada no mais pragmático dos niilismos".
Luís está há quatro décadas travando o bom combate. É mais do que motivo para merecer o respeito e reconhecimento dos melhores brasileiros.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

EX-MINISTRO DA AGRICULTURA É FLAGRADO ESCRAVIZANDO TRABALHADORES

Nome: Antonio Cabrera.

Antecedentes: ministro da Agricultura em 1990/92 (Governo Collor); secretário da Agricultura de São Paulo em 1995/2001 (Governo Mário Covas).

Ocupação atual: proprietário do Grupo Cabrera, cuja usina de cana em Limeira do Oeste (MG) foi autuada por manter 184 trabalhadores em situação análoga à de escravos.

Divulgada somente nesta 4ª feira (6), a fiscalização foi realizada no mês passado pelo Ministério do Trabalho e Emprego e por promotores do Ministério Público, com o apoio da Polícia Federal.

Constatou que a jornada de trabalho era excessiva; os equipamentos de proteção, inadequados; e os alojamentos, irregulares.

Segundo o procurador do Trabalho Eliaquim Queiroz, operadores do plantio mecanizado, técnicos agrícolas e auxiliares chegavam a trabalhar QUASE 18 HORAS DIÁRIAS (!!!) em finais de semana, incluído o tempo gasto no transporte.

Vieram-me à mente os relatos chocantes de Marx sobre a rotina nas minas de carvão do início do capitalismo.

Cabrera fez constar em ata sua "sua discordância quanto à existência de condições de trabalho degradantes ou análogas".

O que não o impediu de firmar um acordo judicial pelo qual se comprometeu a pagar entre R$ 500 e R$ 1.800 de indenização a cada trabalhador, por danos morais; além de R$ 120 mil por danos morais coletivos.

Ou seja, negou a culpa em termos retóricos e admitiu-a para efeitos práticos.

Que cada um julgue:
  1. se isto é aceitável num ex-ministro e ex-secretário da Agricultura;
  2. se este comportamento é uma exceção ou uma regra entre nossas autoridades governamentais;
  3. se podemos esperar dessa gente algo mais do que isto.
ESTATUTO DA GAFIEIRA - A sequência de episódios desmoralizantes envolvendo expoentes do Executivo, Legislativo e Judiciário ao longo desta década, sem poupar sequer aqueles em quem mais acreditávamos, nos faz responder "não" ao terceiro quesito

Meu grande amigo Luís Alberto de Abreu, teatrólogo consagrado, é um cético de esquerda.

Seguindo os passos do inesquecível Augusto Boal, dedica o melhor do seu tempo a escrever e ajudar a encenarem peças que levem as vítimas do capitalismo a tomarem consciência de sua condição; e a formar novos quadros para o teatro popular.

Mas, de Brasília quer distância.

Avalia que quem tem assento na corte, quer se apresente como de esquerda, de centro ou de direita, é solidário mesmo aos demais cortesãos; à casta a que pertence, enfim.

E tudo faz para bloquear o acesso de intrusos aos privilégios de que desfruta: quer mesmo é conservá-los para si e para os que já participam da farra. "Quem está fora, não entra; quem está dentro, não sai", como rezava o estatuto da gafieira...

Eu ainda não desisti da ação política propriamente dita. Mas, de Brasília, sim. Há muito tempo.

Só acredito no que logremos organizar fora do Estado; na alternativa ao capitalismo que consigamos engendrar "nas escolas, nas ruas, campos e construções", como dizia o Vandré dos bons tempos.
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