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segunda-feira, 2 de setembro de 2019

VEJAM O QUE RESTOU DE UMA GRANDE MARACUTAIA CONTRA A QUAL NOS POSICIONAMOS EM 2007 – 1

Por Celso Lungaretti
Durante o segundo mandato de Lula, eu não enxergava qualquer possibilidade de uma Presidência da República sob o capitalismo servir verdadeiramente aos explorados, pois o Poder que decide, numa democracia burguesa, é o econômico. 

Então, apesar da repulsa que sentia pelo reformismo e o assistencialismo praticados pelo governo federal, eu considerava ocioso criticar as administrações petistas, já que meu foco não era o de melhorar o gerenciamento do capitalismo, mas sim o de fazer avançarem as lutas pela sua superação. 

Não transigia, contudo, no tocante à defesa dos valores mais caros aos revolucionários. Quando tais valores eram atingidos por aquele governo de esquerda que tão pouca afinidade mostrava ter com eles (vinha desprezando-os desde os expurgos que o PT efetuou em suas fileiras na década de 1980), aí sim eu ia à luta. E com toda contundência de que era capaz. 

Foi o que aconteceu durante a greve de fome de D. Luiz Flávio Cappio contra o projeto da transposição das águas do rio São Francisco, porque, sendo as mesmas um recurso que revolucionários sempre utilizaram em situações extremas, eu temia que ficassem definitivamente desmoralizadas. 
Protagonistas de greves de fome fracassadas

Já bastavam os vexames do Lula e do Garotinho para dar-lhes má fama! 

Isto porque em 1980, no vigor de seus 34 anos, Lula desistira após os míseros 6 dias durante os quais recusou alimentação no Dops/SP.

E o robusto Anthony Garotinho em 2006, aos 46 anos, aguentara 11 dias. Ou seja, exatamente um sexto da duração daquela em que morreu o mártir Bobby Sands, do IRA.

Já uma greve de fome vitoriosa que teve lugar no Brasil, a dos quatro de Salvador em 1986 (vide aqui), tanto a imprensa burguesa quanto a esquerda domesticada optaram por ignorar olimpicamente, pois tal êxito não lhes convinha...   

Naquela de 2007, o bispo acabaria entregando os pontos no 23º dia, mas era um sexagenário e sua vontade só fraquejou ao sofrer um desmaio e ser hospitalizado. Aproveitando que ele estava fragilizado, médicos e sacerdotes fizeram sua cabeça.

Antes desse desfecho pífio, eu escrevi o libelo abaixo, postando-o no meu blog principal de então (Celso Lungaretti – O Rebate). E estou trazendo-o para cá porque uma reportagem desta 2ª feira (2) sobre a realidade atual do projeto de transposição lança novas luzes sobre a questão, conforme os leitores verão adiante. 
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LULA VAI MIRAR-SE EM CRISTO OU PILATOS?
Qualquer semelhança entre as frases abaixo NÃO é mera coincidência:
"Então Pilatos, vendo que nada aproveitava, antes o tumulto crescia, tomando água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: Estou inocente do sangue deste justo. Considerai isso." (Mateus 27:24)  
"Eu tenho de escolher entre ele, que está fazendo uma greve de fome premeditada, e 12 milhões de nordestinos (...) que precisam da água para sobreviver. E não tenha dúvida que eu ficarei com os pobres." (presidente Luiz Inácio Lula da Silva, lavando as mãos diante do novo protesto de D. Luiz Flávio Cappio contra o projeto da transposição das águas do rio São Francisco, iniciado no último dia 27)
Resta sempre a esperança de que Lula ponha a mão na consciência e faça a opção correta: não a de repetir Pilatos, que, mesmo não vendo culpa nenhuma em Cristo, foi responsável por seu açoitamento e crucificação; mas sim a de repetir Cristo, que expulsou os vendilhões do templo para evitar que continuasse servindo de covil a ladrões.

O bravo bispo de Barra (BA), que já ficara 11 dias sem alimentar-se em 2005, sustenta que “essa água não é para 12 milhões de pessoas, é para pequenos grupos do capital”, acusando o Governo Federal de difundir “propaganda falsa” e Lula, de desrespeitar o acordo que pôs fim à greve de fome anterior: 
D. Flávio Cappio sendo levado para o hospital

— Nós só suspendemos o jejum lá em Cabrobó porque houve um compromisso para que fossem paralisadas as obras e houvesse negociações. Nós confiamos na palavra do governo. O diálogo teve início, mas logo se acabou. Nós acreditávamos que fosse devido ao ano eleitoral. Quando Lula foi reeleito, nós o procuramos, pedindo a reabertura do diálogo. A resposta do presidente foi o início das obras de transposição, usando o Exército. O governo manteve-se surdo. As coisas ficaram piores. Este é o motivo pelo qual retomei o jejum.

Segundo os opositores, a transposição vai ter impacto extremamente negativo sobre o rio São Francisco (que já está fragilizado e necessitando de urgente revitalização) ao levar suas águas para os grandes açudes do Nordeste, com a principal finalidade de favorecer empreendimentos privados. 

Alegam que, pela metade do custo, poderia ser implementados projetos como o da Agência Nacional de Águas, para beneficiar os 32 milhões de habitantes de mais de mil municípios; e as obras da Articulação do Semi-árido Brasileiro, voltadas para outros 10 milhões. 

Então, tanto em termos ambientais quanto econômicos, seria uma péssima destinação dos recursos públicos. "O governo se tornou a voz de um pequeno grupo da elite e, infelizmente, o presidente Lula se tornou refém do capital internacional", afirma D. Cappio, que desta vez se diz disposto a levar seu protesto até a morte, se não for retirado o Exército e arquivado o projeto. “O rio e o povo merecem.”
Não deveriam envolver Antônio Conselheiro com mamatas!
Ele também rebateu as críticas dos que o acusam de suicida, como o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, para quem “essa postura fundamentalista do bispo vai contra ensinamentos da igreja, como saber que é pecado atentar contra a vida”:

— Eu recomendaria que conhecessem um pouquinho mais a pessoa de Jesus Cristo e a sua doutrina. Que lessem o Evangelho de João 10:10, onde Jesus diz que ele é o bom pastor, que veio pra doar a vida às suas ovelhas. A história da Igreja é uma história de mártires, de homens e mulheres que deram a vida por amor à sua fé, por amor a seus irmãos. 

Finalmente, vale lembrar que personagens históricos da grandeza do Mahatma Gandhi também consideraram válida uma “greve de fome premeditada”, como recurso extremo para tentarem fazer com que a justiça prevalecesse, quando todos os outros caminhos estavam bloqueados. (por Celso Lungaretti, em 05/12/2007)
(continua neste post)

terça-feira, 3 de abril de 2018

DALLAGNOL DIZ QUE JEJUARÁ PARA O LULA SER PRESO. POR QUE NÃO PENDURA UMA MELANCIA NO PESCOÇO?!

Está no vibrante Congresso em Foco:
"O procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato no Paraná, escreveu no Twitter que fará 'jejum, oração' e estará 'torcendo pelo país' nesta 4ª feira (4), data que ele chamou de 'dia D da luta contra a corrupção na #LavaJato', referência ao julgamento do habeas corpus preventivo do ex-presidente Lula no Supremo Tribunal Federal".
O excesso de holofotes fez o coitado perder o senso do ridículo. Lá fazer jejum de um dia só é coisa para se comunicar aos repórteres?! Devemos aplaudir? Erguer-lhe uma estátua?

O Bobby Sands, do IRA, morreu após manter-se em greve de fome por 66 dias.

Até o Lula fez melhor que o Dallagnol, aguentando 6 dias. E ficou muito aquém do bispo Flávio Cappio, que desistiu de seu protesto após sofrer um desmaio no 24º dia. 

E se o STF interromper de novo o julgamento? O Dallagnol jejuará até a retomada? Deveria...

Antigamente, recomendava-se a quem queria causar de qualquer jeito: Pendura uma melancia no pescoço! Desta vez o Dallagnol pendurou a melancia errada.

domingo, 17 de julho de 2016

PARA EMPRESÁRIOS E BANQUEIROS, AS DOAÇÕES DO BNDES; PARA O AGRONEGÓCIO, A MARACUTAIA DA TRANSPOSIÇÃO...

Um dos aspectos mais chocantes do período em que o Partido dos Trabalhadores impôs sua hegemonia sobre a esquerda brasileira foi a passividade com a qual esta aceitou o entrelaçamento de interesses com os mais predatórios segmentos da burguesia e com os mais repulsivos inimigos da liberdade. 

Práticas que, quando adotadas pelos adversários de direita, eram denunciadas como emblemáticas de sua condição de inimigos do povo, passaram a ser copiadas descaradamente pelos mandatários do PT e toleradas pela companheirada como um preço a ser pago pela governabilidade.

Duas delas foram esmiuçadas pelos jornalões paulistas neste final de semana. O Estado de S. Paulo, em editorial do sábado (16), constatou que vultosos recursos públicos foram generosamente doados pelos governos petistas não apenas para os companheiros empresários, mas também para os camaradas banqueiros:
"Sabia-se que as centenas de bilhões de reais que, entre 2009 e 2015, o Tesouro repassou ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiar investimentos não estimularam o crescimento, mas beneficiaram muitas empresas escolhidas pelo governo do PT, daí o programa ter sido chamado de bolsa-empresário, uma ajuda financeira do poder público para grupos empresariais preferidos do Palácio do Planalto. 
O que pesquisas recentes demonstram é que não foram apenas as empresas selecionadas pela administração petista que ganharam com esse imenso desperdício de dinheiro público. Mesmo dispondo de condições bastante favoráveis para administrar os recursos do Tesouro (que assumiu os subsídios implícitos nas operações), o BNDES ficou com uma parcela reduzida dos resultados desses financiamentos. Os bancos comerciais que realizaram as operações em seu nome se apropriaram de mais de 80% dos rendimentos. O programa transformou-se, também, numa espécie de bolsa-banqueiro.  
...o Tesouro emitiu títulos de dívida pública para transferir R$ 520 bilhões ao BNDES. Esses recursos deveriam ser utilizados no financiamento de máquinas e equipamentos, de modo a estimular a produção e, assim, reativar a economia. O PSI [Programa de Sustentação do Investimento] deveria durar um ano, mas foi sendo renovado seguidamente até o fim do ano passado, quando o governo petista resolveu enterrá-lo.
Foi de grande valia para um grupo de empresas, mas, apesar de sua longa duração, de sete anos, e, sobretudo, do montante que envolveu, não teve resultados expressivos para o País. A economia não se recuperou e, desde meados de 2014, está em recessão...
...Levantamento feito pelo economista José Roberto Afonso, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, mostra que os bancos comerciais (...) se apropriaram de mais de R$ 8 bilhões dos R$ 10 bilhões de spreads que as operações geraram. O BNDES, assim, ficou com menos de R$ 2 bilhões".
E, na Folha de S. Paulo dominical, ficamos sabendo que o malfadado projeto de transposição do rio São Francisco, uma descarada maracutaia em benefício do progressista agronegócio, continua detonando orçamentos e prazos:
"Sérias dúvidas sobre a capacidade do rio São Francisco de gerar água suficiente para a bilionária obra da transposição fizeram o governo lançar um novo programa de revitalização do rio.
Batizado de Novo Chico, (...) o programa visa terminar obras de saneamento nas cidades na bacia do rio, desassorear o leito e recuperar mananciais, entre outras intervenções. Estão acertados gastos de, no mínimo, R$ 10 bilhões até 2026. 
Mas o valor vai aumentar porque o governo ainda trabalha no orçamento de algumas intervenções, como dragagem, e também pedirá aos Estados da região que invistam mais recursos no projeto...
...quase dez anos depois [do lançamento do programa], o governo já gastou R$ 10 bilhões na obra dos canais e R$ 2,2 bilhões na revitalização, e nenhuma delas está pronta. Além disso, em ambas há suspeitas de desvio de recursos, corrupção e ineficiência. A construção dos canais é alvo da Lava Jato".
Admito, humildemente, que passei batido pela bolsa-empresário e pela bolsa-banqueiro no momento em que deveriam ter sido contundentemente denunciadas e combatidas. Mea maxima culpa.

Mas, quanto à bolsa-agronegócio, esta foi objeto de uma infinidade de artigos, principalmente durante a greve de fome do bispo Flávio Cappio, com a qual me solidarizei. Em dezembro de 2007, cobrei incisivamente uma postura mais digna e combativa por parte da esquerda:
"Passamos a vida recriminando a sordidez da política oficial e as negociatas que colocam recursos públicos a serviço de interesses privados. Como procedemos, no entanto, quando um bispo sexagenário ousa confrontar os abutres que saqueiam uma das regiões mais miseráveis do País e arrisca a vida em defesa do seu rebanho? O que estamos fazendo para apoiar esse altaneiro desafio às práticas viciadas e viciosas de nossa democracia? Pouco, quase nada".
E, em carta aberta a Lula, botei o dedo na ferida:
"A relutância extrema do seu governo em discutir a interligação das águas do rio São Francisco é evidência gritante de que tal projeto não sobreviveria a um debate franco. E reforça as suspeitas de que haja interesses escusos envolvidos. 
Cidadãos de reconhecida competência e credibilidade apontam falhas de todo tipo: concepção equivocada, relação custo/benefício muitíssimo pior que a de projetos alternativos, danos ecológicos que podem se tornar catastróficos. Por que tanta insistência, a ponto de tocar a obra com soldados, evocando os tempos sinistros da ditadura militar?"
Hoje salta aos olhos que os opositores do faraônico projeto sempre estiveram certos. E que as suspeitas por eles levantadas tinham tudo a ver, pois tal elefante branco, inicialmente orçado em R$ 4,6 bilhões, já consumiu R$ 12,2 bilhões e agora somos informados de que vai exigir, pelo menos, outros R$ 10 bilhões. Ou seja, o estouro se encaminha para a casa de 400% e nada nos garante que ficará por aí...

Esta fase do amoralismo petista no poder será lembrada pela verdadeira esquerda como motivo de terrível vergonha e como anos totalmente perdidos para a revolução brasileira.
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Antônio Conselheiro não viu realizada sua profecia de 
que o sertão viraria mar, destacada na obra-prima de 
Glauber Rocha (clique acima e assista-a na íntegra). 
Lula também dificilmente a verá... 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

EU E DILMA: UM CASO DE DESAMOR À PRIMEIRA VISTA (2ª parte)

Saudei a vitória da Dilma, abrindo-lhe um crédito de confiança. Manifestei a esperança de que, na Presidência, ela continuasse sendo a militante de outrora, que "como Chaplin, queria chutar o traseiro dos ociosos" e "como Marx, pretendia proporcionar a cada trabalhador o necessário para sua realização plena como ser humano".

Mantive-me, contudo, cautelosamente reticente, pois ela me inspirava mais dúvidas do que certezas:
"Dilma (...) terá de provar que é algo mais do que uma estátua de esculpida com tamanha perfeição pelo artista Michelangelo da Silva que acabou ocupando o melhor pedestal no panteão do Planalto. 
...O lulismo no poder já provou sua competência no gerenciamento do estado em conformidade com os interesses dominantes, mas garantindo uma fatia um pouco maior do bolo para aqueles que produzem todas as fatias. 
A dívida social, entretanto, está muito longe de ser zerada, como o foi o débito com o FMI. 
Torço para que a Dilma saiba aproveitar seu grande momento..."
E, aliviado, voltei a me distanciar da política oficial, pois a linha que definira para minha atuação na web era a de ignorar as escaramuças e pendengas da Corte, defendendo apenas os personagens e valores revolucionários.

P. ex., projetos governamentais e as críticas que opositores lhes faziam não estavam na minha mira, mas o da transposição do rio São Francisco passou a estar quando o bispo Luís Flávio Cappio contra ela utilizou um recurso frequente nas lutas revolucionárias, o da greve de fome. Fiquei indignado com a decisão do Lula, de pagar para ver, tão insensível como qualquer Margaret Thatcher, ajudando a esvaziar uma forma extrema de protesto a que já recorremos muitas vezes no passado e poderemos ter de voltar a recorrer.

Então, até hoje sou implacável com essa maracutaia do agronegócio, sempre destacando as notícias negativas que pipocam: não cumprimento de metas, estouros do orçamento, evidências de inutilidade ou insuficiência de algumas iniciativas do programa e, claro, corrupção. Tudo aquilo que D. Cappio tentou evitar.

Mas, é uma exceção. Como regra, considero que os governos, sob o capitalismo, jamais levarão os explorados aonde eles precisam chegar, daí não merecerem a atenção obsessiva que a grande imprensa e a esquerda chapa branca lhes dedica. Fixo-me nas perspectivas de transformação da sociedade, não no dia a dia do gerenciamento da dominação burguesa.

Então, mesmo percebendo que Dilma se tornara uma pessoa bem diferente daquela que conhecera, evitei comentar sua atuação presidencial, salvo no que esta se chocasse frontalmente com o ideário da esquerda.

Em 1969, ela seguia fielmente a linha da VAR-Palmares, que acreditava ser imprescindível algum enraizamento nas massas para a organização não se tornar apenas um exército combatendo outro.

Já para nós, os egressos e depois refundadores da VPR, bastava estarmos imbuídos da ideologia do proletariado, sendo dispensável o contato orgânico com  o mesmo, que nos acarretaria riscos terríveis de segurança. O perfil de nosso pessoal seria mais apropriado para o cumprimento das tarefas militares da revolução, propaganda armada inclusive, deixando para outros grupos os laços com a população. 

Paradoxalmente, aquela que em 1969 nos acusava de vanguardistas não mais procurava, quatro décadas depois, estar junto das massas e interagir com elas.

Integrando governos desde 1986, adquirira os jeitos e trejeitos dos tecnoburocratas, passando a se ver como a mulher sapiens a quem competiria detectar o que fosse melhor para o povo e, gerindo pedaços do Estado, impulsionar as transformações que via como necessárias, independentemente de as massas compreenderem tais intentos e com eles concordarem. 

Para ela, implicitamente, os humildes explorados deixaram de ser os sujeitos da História, tornando-se apenas os beneficiários da ação estatal. Sua nova postura era um amálgama do velho nacional-desenvolvimentismo na economia com um bolivarismo light na política (uma tendência a avassalar outros Poderes e entes estatais, mas de forma gradual e sutil, sem incorrer num autoritarismo chocante).

Não deixo de compreender o que levou Dilma e muitos outros esquerdistas a abdicarem dos projetos de transformação em profundidade da nossa sociedade, contentando-se com mudanças bem mais tímidas. O desencanto da terrível derrota da geração que pegou em armas contra a ditadura os fez procurar atalhos para obterem, pelo menos, alguns resultados.

Se tivessem lido com mais atenção Marx, Rosa Luxemburgo e outros clássicos, saberiam que o reformismo convém muito mais à burguesia do que aos explorados; e que a mera infiltração no Estado não equivale a uma revolução, pois aquilo que o povo verdadeiramente não conquista, dificilmente conseguirá manter depois.

Até porque acaba não reconhecendo como seu o governo de seus presumidos benfeitores, muitas vezes interessados mais em se perpetuarem indefinidamente no poder do que em fazerem avançar o processo revolucionário.

Não me dispus, contudo, a fazer críticas mais contundentes ao primeiro governo da Dilma, pois sabia que, com tais premissas, ela não iria longe --ou seja, dificilmente conseguiria consolidar o reformismo e fechar, por longo período, as portas à revolução. Sua esperança de fazer deslanchar a economia brasileira a partir da ação estatal era um anacronismo, o pré-sal o sonho de uma noite de verão. Isso tudo jamais daria certo.

E, claro, a fetichização dos governos por parte da esquerda (além da gana de parte dela pelas boquinhas) ainda é tão forte que, sensatamente, avaliei como contraproducente abrir o jogo: eu ficaria isolado.

Algo que para mim é questão de princípio me fez, no entanto, deixar de lado o cálculo político e assumir uma postura mais incisiva com relação ao Governo Dilma: a criação de uma Comissão da Verdade como contraponto propagandístico a algo muitíssimo mais sério, a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre a guerrilha do Araguaia, responsabilizando o Brasil pelo extermínio de 70 militantes (em sua grande maioria, capturados com vida) e exigindo apuração rigorosa dos massacres, localização dos restos mortais e punição dos carrascos. (continua)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A "TRANSPOSIÇÃO" ATINGIU SUA META: AS VERBAS FORAM TRANSPOSTAS PARA AS CONTAS BANCÁRIAS DE PILANTRAS.

Lá se vão mais de seis anos desde que este blogue passou a tratar a transposição do rio São Francisco como uma maracutaia, alinhando-se com as denúncias do bispo Flávio Cappio --que fez duas greves de fome contra o malfadado projeto-- e da Comissão Pastoral da Terra.

Vale dizer que já então o Tribunal de Contas da União apontava "indícios de corrupção" nas obras. E a Pastoral questionava o custo astronômico da transposição em comparação com outras soluções menos espalhafatosas e provavelmente mais eficazes, além do seu impacto ambiental preocupante ao extremo.

Então, a única novidade da notícia que o site da Folha de S. Paulo colocou no ar nesta manhã foi a eternidade que demorou para qualquer Operação Lava-Jato da vida ir atrás de roubalheira tão manjada:
"A Polícia Federal deflagrou nesta 6ª feira uma operação para investigar superfaturamento em obras da transposição do rio São Francisco. Os desvios teriam ocorrido em 2 dos 14 lotes da transposição.
De acordo com os investigadores, empresários de um consórcio responsável pelas obras com superfaturamento utilizaram empresas de fachada para desviar cerca de R$ 200 milhões no trecho que vai do agreste pernambucano até a Paraíba. Os contratos investigados, até o momento, são de R$ 680 milhões".

sexta-feira, 8 de junho de 2012

DE HORA EM HORA A MARACUTAIA DA TRANSPOSIÇÃO PIORA

Em 2007 eu lancei o artigo Lula vai mirar-se em Cristo ou Pilatos?, exortando nosso então presidente da República a refletir melhor sobre o projeto de transposição do rio São Francisco e a greve de fome de D. Luiz Flávio Cappio.

Mas, o bispo abandonou o jejum precipitadamente e o Governo Federal ganhou a aposta que fazia contra a vida dele, ficando com as mãos livres para tocar adiante a transposição dos recursos públicos para os bolsos de grandes capitalistas, de forma a que se confirmassem as piores previsões e advertências dos críticos do projeto.

Passados quatro anos e meio, o custo total saltou dos orçados R$ 4,7 bilhões para 8,2 bilhões, o que já representa um acréscimo de 74,5%. Pior: o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, em recente audiência na Câmara Federal, reconheceu que não sabe quanto mais será necessário para o término das obras, pois apenas 36% dos projetos ligados à transposição foram concluídos.

Quanto ao prazo de entrega, a melhor das hipóteses agora é 2015.

Ou seja, a verdadeira dúvida é quanto à denominação mais apropriada para tal mostrengo: maracutaia da transposição  ou  elefante branco do São Francisco?

Só para reavivar a memória dos leitores, reproduzo alguns trechos daquele primeiro (da dezena de) artigo(s) que escrevi sobre o assunto:
"...[D. Cappio] que já ficara 11 dias sem alimentar-se em 2005, sustenta que 'essa água não é para 12 milhões de pessoas, é para pequenos grupos do capital', acusando o Governo Federal de difundir 'propaganda falsa' e Lula, de desrespeitar o acordo que pôs fim à greve de fome anterior.

...Segundo os opositores, a transposição vai ter impacto extremamente negativo sobre o rio São Francisco (que já está fragilizado e necessitando de urgente revitalização) ao levar suas águas para os grandes açudes do Nordeste, com a principal finalidade de favorecer empreendimentos privados.
Alegam que, pela metade do custo, poderiam ser implementados projetos como o da Agência Nacional de Águas, para beneficiar os 32 milhões de habitantes de mais de mil municípios; e as obras da Articulação do Semi-árido Brasileiro, voltadas para outros 10 milhões.
Então, tanto em termos ambientais quanto econômicos, seria uma péssima destinação dos recursos públicos. 'O governo se tornou a voz de um pequeno grupo da elite e, infelizmente, o presidente Lula se tornou refém do capital internacional', afirma dom Cappio..."

sábado, 10 de março de 2012

MARACUTAIA DA TRANSPOSIÇÃO JÁ ESTOUROU O ORÇAMENTO EM 78%

"...o custo da obra de transposição do rio São Francisco teve mais um aumento bilionário.

O projeto, que inicialmente era orçado em R$ 4,6 bilhões, agora custa 77,8% mais caro: R$ 8,18 bilhões, de acordo com o relatório do Ministério do Planejamento. Diante da estimativa anterior de R$ 6,85 bilhões, feita em 2011, o reajuste é de 19,4%.

Desde 2007, quando as obras começaram, o preço da transposição foi alterado uma vez durante o governo Lula e duas durante a gestão de Dilma Rousseff..." (notícia deste sábado, 10, da Folha de S. Paulo)

"O risco final é que, atravessando acidentes geográficos consideráveis, como a elevação da escarpa sul da Chapada do Araripe -- com grande gasto de energia! --, a transposição acabe por significar apenas um canal tímido de água, de duvidosa validade econômica e interesse social, de grande custo, e que acabaria, sobretudo, por movimentar o mercado especulativo, da terra e da política" (geógrafo Aziz Ab'Sáber, em abril de 2011)

"Essa água não é para 12 milhões de pessoas, é para pequenos grupos do capital... O governo se tornou a voz de um pequeno grupo da elite e, infelizmente, o presidente Lula se tornou refém do capital internacional" (D. Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra (BA), em 2007)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

É "MARACUTAIA DA TRANSPOSIÇÃO" OU "ELEFANTE BRANCO DO SÃO FRANCISCO"?

Notícia desta 5ª feira (29) do jornal O Estado de S. Paulo:
"Para tentar terminar as obras da transposição do Rio São Francisco em mais quatro anos, o governo Dilma Rousseff recorrerá a uma nova licitação bilionária de obras já entregues à iniciativa privada. O custo estimado do negócio é de R$ 1,2 bilhão, informou ao Estado o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, responsável pela obra mais cara do Programa de Aceleração do Crescimento bancada com dinheiro dos impostos.

A obra começou em 2007 como um dos grandes projetos do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A transposição desviará parte das águas do São Francisco por meio de mais de 600 quilômetros de canais de concreto para quatro Estados: Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco.

Depois de R$ 2,8 bilhões gastos, a transposição registra atualmente obras paralisadas, em ritmo lento e até trechos onde os canais terão de ser refeitos, como é o caso de 214 metros em que as placas de concreto se soltaram por entupimento num bueiro de drenagem.

O custo inicial da transposição, estimado em R$ 5 bilhões, já saltou para R$ 6,9 bilhões, calcula Fernando Bezerra, incluindo a nova licitação...

Relicitar parte dos trechos entregues a grupos de empreiteiras foi a forma que a equipe de Bezerra encontrou para concluir as obras e evitar que a transposição do São Francisco se transforme em um  elefante branco".
Há exatos quatro anos, depois da segunda greve de fome do bispo Luiz Flávio Cappio contra este projeto faraônico e suspeitíssimo, eu já escrevia:
"Salta aos olhos que a interligação não é a opção ideal para saciar a sede dos nordestinos, nem a de melhor relação custo/benefício e muito menos a recomendável em termos ecológicos, devendo os motivos de sua adoção ser buscado alhures.

Ou seja, ficaram fortíssimas as suspeitas de que novamente os interesses privados estão sendo priorizados na destinação de recursos públicos. É a chamada  crônica da CPI anunciada".
A única dúvida é quanto à melhor denominação para o empreendimento.

Antes, só se falava em  maracutaia da transposição.

Agora surge uma alternativa:  elefante branco do São Francisco.

De resto, qualquer jogador perspicaz apostaria todas as suas fichas em que, mais dia, menos dia, uma CPI das mais  cabeludas  será o desfecho da opereta.

Quem viver, verá.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

MARACUTAIA DA TRANSPOSIÇÃO: JÁ ESTOURARAM O ORÇAMENTO EM 36%

Há quatro meses, o geógrafo, professor e escritor Aziz Ab´Sáber alertou:
"A afoiteza com que se está pressionando o governo a conceder grandes verbas para início das obras de transposição das águas do São Francisco terá conseqüências imediatas para os especuladores de todos os naipes.

O risco final é que, atravessando acidentes geográficos consideráveis, como a elevação da escarpa sul da Chapada do Araripe -- com grande gasto de energia! --, a transposição acabe por significar apenas um canal tímido de água, de duvidosa validade econômica e interesse social, de grande custo, e que acabaria, sobretudo, por movimentar o mercado especulativo, da terra e da política".
O "grande custo" (além de um enorme atraso na entrega da obra) evidencia-se nesta notícia de ontem da Folha.com:
"O Ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, anunciou nesta terça-feira que as obras de transposição do rio São Francisco vão ficar mais caras e a água só vai começar a chegar aos nordestinos a partir de 2014.
 Segundo ele, a previsão inicial atualizada do custo do projeto era de R$ 5 bilhões, mas o valor foi aumentado para R$ 6,8 bilhões.
...a conclusão real dos trabalhos ficará para 2014 e 2015 nos dois eixos da obra, segundo Bezerra.
A previsão inicial do governo era que as obras chegassem ao fim em 2010 e 2012".
Resumo da opereta: o empreendimento faraônico não cumprirá suas alegadas finalidades e desrespeitou em muito o cronograma e o orçamento -- cujo estouro, por enquanto, é de 36%, mas ainda crescerá, com certeza! Afora a existência de  fortes suspeitas (para não dizer  absoluta certeza) de corrupção...
Ou seja, tudo transcorre exatamente como antecipou o bispo Luiz Flávio Cappio, quando de sua segunda greve de fome contra a  maracutaia da transposição, em dezembro de 2007

“Essa água não é para 12 milhões de pessoas, é para pequenos grupos do capital”, resumia ele.

Sábias palavras.

terça-feira, 19 de abril de 2011

CONVOQUEMOS O PLEBISCITO CERTO. PARA QUE ANGRA NÃO VIRE FUKUSHIMA

Como escritor e jornalista, Carlos Heitor Cony é dos melhores que temos.

Algumas atitudes do homem foram decepcionantes, mas ninguém é perfeito. Suas avaliações de assuntos que não o envolvem pessoalmente continuam sendo das mais consistentes. Portanto, devem ser lidas e consideradas.

Como a da coluna desta 3ª feira (19), Os plebiscitos, na qual faz restrições à proposta de um referendum sobre o uso e a venda de armas, contrapondo-lhe um problema em que a consulta aos cidadãos se faz realmente necessária e premente:
"O governo promete ampliar a energia nuclear concluindo Angra 3 e construindo mais quatro usinas, isso numa época em que países mais industrializados, como a Suécia e a Itália, estão desativando seus programas nucleares. O governo da Alemanha também estuda a possibilidade de reduzir ou acabar com suas usinas.

O investimento é vultoso (pelo menos R$ 8 bilhões cada uma) e os riscos de um acidente como o de Three Mile Island (1979), de Chernobil (1986) e, agora, o de Fukushima, cujos efeitos ainda estão se manifestando, exigem uma consulta popular justamente num país que tem numerosos recursos naturais para gerar energia, como as hidrelétricas, além de opções que a tecnologia vai criando sem cessar, como a eólica, a solar etc.

Tamanha verba poderia ser em parte aplicada num programa para tornar mais seguras as usinas que temos em Angra dos Reis (RJ), onde ainda não há condições de retirada imediata da população.

Um acidente de grande proporção no litoral fluminense colocaria em risco as duas maiores cidades brasileiras, além de causar devastação em várias cidades próximas.

Um plebiscito daria ao governo e à sociedade uma orientação mais democrática sobre o programa de energia nuclear, importante demais para ser da agenda exclusiva de técnicos e funcionários" [o grifo é meu].
A mesma preocupação, aliás, já havia sido manifestada pelo maior jurista brasileiro vivo, Dalmo de Abreu Dallari:
"A tragédia sofrida pelo povo japonês deve servir de alerta, estimulando a busca de outras fontes de energia, para atendimento das necessidades básicas das populações do mundo, mas também influindo para que se faça ampla divulgação dos aspectos básicos das opções existentes, informando o povo e dando-lhe a possibilidade de acompanhar as discussões e, mesmo, de participar das decisões sobre o assunto".
O plebiscito sugerido por Cony daria, exatamente, ao povo "a possibilidade de acompanhar as discussões e, mesmo, de participar das decisões sobre o assunto".

Nem preciso dizer que concordo em gênero, número e grau com ambos, Cony e Dallari.

Também não preciso dizer que tal proposta  encontrará resistência imensamente maior que a do plebiscito sensacionalista sobre as armas,  por colocar em xeque um programa que pode ser dos mais perigosos para o povo brasileiro mas propicia vultosos ganhos para grandes empresas, as quais o defenderão com unhas, dentes e  o$  argumento$ de $empre.

Nem mesmo as greves de fome de D. Flávio Cappio conseguiram impedir que se desperdiçassem recursos públicos e atentasse contra a natureza para atender aos interesses do agronegócio na região do rio Sâo Francisco.

As cartas de Angra, também embaralhadas a gosto dos interessados, valem R$ 8 bilhões cada. Será necessária uma enorme pressão para desfazer tal jogo.

Com a palavra os parlamentares que honram o seu mandato, as ONG's, a imprensa e as redes sociais.

terça-feira, 20 de julho de 2010

ESTA GREVE DE FOME FOI VITORIOSA -- E TODOS PREFEREM ESQUECER!

Atendendo a pedido do poeta, jornalista e
militante revolucionário Rubens Lemos
(foto), fui porta-voz da greve de fome
do seu filho Marcos Wilson, em 1986.


A nós, brasileiros, as greves de fome pareciam ser um instrumento ultrapassado na luta política, depois do abandono, por diferentes motivos, das mais conhecidas que aqui tiveram lugar nas últimas décadas: as iniciadas por Lula e outros sindicalistas do ABC, D. Flávio Cappio, Anthony Garotinho e Cesare Battisti.

A experiência cubana de 2010 mostrou que não é bem assim: o sacrifício de Orlando Zapata e a obstinação de Guilherme Fariñas comprovam que ainda existe quem morra por seus ideais e também quem saia vencedor desse desafio extremo.

Há exatos 24 anos tive a oportunidade de contribuir para outra vitória -- e aqui no Brasil! --, quando militantes nordestinos adotaram tal forma de luta e tive de fazer esforços desesperados para conseguir repercussão na imprensa. Só que, por ser inconveniente para a direita derrotada e a esquerda omissa, foi convenientemente relegada ao esquecimento.

Daquela vez muitos se furtaram ao dever da solidariedade: houve quem se distanciasse completamente e quem não fizesse tudo que podia/deveria.

Mesmo assim, os esforços bem-intencionados frutificaram -- ainda que de forma dramática, a duríssimas penas.

Para reconstituir o episódio, aproveitarei a narrativa que fiz em Náufrago da Utopia (Geração Editorial, 2005), único livro que parece ter registrado tal acontecimento.

Como escrevi boa parte do Náufrago na 3ª pessoa, refiro-me a mim mesmo pelo pseudônimo que então utilizava para driblar a censura do regime militar: André Mauro.

Sem mais delongas, vamos ao que interessa:
"Final de 1986. André chega atrasado para a reunião da Cacimba, numa tarde de sábado. O grupo literário se distribui por cadeiras e pelo chão do quarto. A palavra está com um visitante ilustre: Rubens Lemos, jornalista, poeta e velho militante comunista. André cumprimenta a todos, pede desculpa pelo atraso e se acomoda. Rubens continua expondo o problema que o trouxe a São Paulo.

"Seu filho e três outros companheiros foram presos ao assaltarem um banco na capital baiana, alguns meses atrás. Dinheiro para a revolução, uma prática que já parecia extinta. Por serem todos petistas, a imprensa fez estardalhaço. E o partido, temendo que esse fato fosse explorado na campanha eleitoral, voltou as costas aos chamados quatro de Salvador.

"O PT está obsessivamente empenhado em livrar-se da imagem de reduto dos antigos terroristas.

"Na primeira eleição de que participou, em 1982, a lei eleitoral só permitia a exibição, no horário gratuito da TV, do currículo e foto de cada candidato. Os aspirantes petistas a deputados eram quase todos originários da resistência à ditadura — e orgulhavam-se disso, fazendo questão de destacar a condição de ex-presos políticos.

"A direita, por sua vez, aproveitou ao máximo para insuflar preconceitos. Colocava em circulação piadas tipo “os candidatos do PT não estão mostrando currículos, mas sim folhas corridas e boletins de ocorrência”...

"Então, na eleição de 1986, o que o partido mais queria era dar a volta por cima, projetando uma imagem de respeitabilidade. Quando a prisão dos quatro de Salvador ameaçou relacionar o PT com as expropriações outrora praticadas pela vanguarda armada, foi um deus-nos-acuda!

"Além de negar qualquer apoio a esses militantes, a tendência majoritária começou a reprimir e expurgar as correntes radicais abrigadas em suas fileiras. Pertencer simultaneamente à Articulação e ao PT continuou in, mas ser da Convergência Socialista e do PT virou out. Porta da rua é serventia da casa.

"Os quatro párias ficaram numa situação extremamente vulnerável — e os policiais, contrários à redemocratização do País, não desperdiçaram a chance. Agentes da Polícia Federal começaram a levá-los a outros Estados, sem mandado judicial nem comunicação a seus advogados, para serem mostrados a testemunhas de todos os assaltos a bancos ocorridos em passado recente.

"Nem mesmo a Ordem dos Advogados do Brasil obtinha permissão para dar assistência aos prisioneiros nessas praças e acompanhar os reconhecimentos. Havia uma intenção óbvia de inculpá-los de tantos delitos quanto fosse possível.

"A gota d’água foi o telefonema recebido por Rubens Lemos na rádio de Natal em que comanda um programa esportivo, alertando-o de que os explosivos recentemente roubados de uma pedreira se destinariam à simulação de uma revolta no presídio de Salvador; no meio da confusão, os quatro seriam assassinados.

"Lemos fez essa denúncia no ar, abortando — se havia — tal plano. Os quatro decidiram entrar em greve de fome a partir de segunda-feira. Dois dias antes, não há nenhum esquema de imprensa estruturado para fazer com que seu protesto repercuta nas principais capitais do País.

"O comitê de solidariedade paulista é imediatamente formado. E André aceita ficar com a missão mais difícil: colocar a greve de fome no noticiário...

"Começa enviando um comunicado à imprensa para cientificá-la da greve. Ninguém publica.

"Convence Lemos a escrever uma carta emocionada à população brasileira, afirmando que, em face de seus (reais) problemas cardíacos, delega ao povo a missão de assegurar a sobrevivência do filho Cícero, caso não possa fazê-lo pessoalmente. Ninguém publica.

"Visita deputados, redações, agências noticiosas. Na do Governo Federal, a Empresa Brasileira de Notícias, quem o atende é um agente do Serviço Nacional de Informações travestido de jornalista. Fazendo-lhe uma ameaça velada:
— O tempo não está bom para os presos políticos e muito menos para quem já esteve preso. Se for pra jaula de novo, é bem provável que nunca mais saia. Ou ir direto pra baixo da terra...

"Tem melhor sorte nos contatos com os correspondentes estrangeiros, que enviam algumas linhas a seus veículos. Mas é pouco para incomodar o governo brasileiro.

"A cada dia, aumenta a apreensão no comitê de solidariedade. André atua em tempo integral, atirando em todas as direções.

"Procura o promotor Hélio Bicudo, que já entrevistara para uma revista, e pede ajuda. Bicudo lhe dá uma apresentação para a Cúria Metropolitana de São Paulo. Acaba conseguindo uma carta anódina na Igreja, na linha por piores que hajam sido seus crimes, esses presos devem ter seus direitos respeitados. Ninguém publica.

"Faz idêntica gestão na OAB, obtém uma carta igualmente cautelosa e também a distribui inutilmente aos jornalistas.

"Manda um fax pessoal a todos os diretores-proprietários de veículos da grande imprensa, alertando-os de que, caso persista o boicote às notícias sobre a greve de fome, frustrando quaisquer chances de atendimento das reivindicações, caberá a eles a responsabilidade por qualquer tragédia que venha a ocorrer.

"Quando já não sabe mais o que fazer ou a quem recorrer, o colunista que escreve sobre o Rio de Janeiro na página de Opinião da Folha de S.Paulo, Newton Rodrigues, dedica todo seu espaço daquele dia ao assunto. Diz que recebeu do jornalista Lungaretti uma denúncia consistente sobre violação dos direitos humanos dos quatro de Salvador, tendo repassado-a ao ministro da Justiça, Fernando Lyra.

"André, que enviara o dossiê a Newton Rodrigues apenas por causa das posições libertárias que este assumia na coluna diária e do seu passado de resistência ao golpe de 1964, fica então sabendo que o veterano jornalista faz parte do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (...). Um golpe de sorte, no momento exato! Os quatro, segundo os médicos, começam a correr riscos mais graves!

"No dia seguinte, Rodrigues relata a seqüência do caso: o ministro determinou ao governador da Bahia, Waldir Pires, que tome as providências cabíveis para que a greve de fome tenha um desfecho humanitário.

"André e o comitê de solidariedade são informados de que o governador baiano oferece aos presos a garantia de não serem mais seqüestrados pela Polícia Federal para reconhecimentos arbitrários, além de estar disposto a permitir que estudem ou trabalhem durante o dia, somente pernoitando na prisão.

"Mas os quatro, empolgados com a mobilização de estudantes de Salvador em seu favor, pretendem prolongar a greve de fome por mais dois dias. Querem arriscar ainda mais a vida para desfrutar seu momento de glória, depois de terem sido vilipendiados pela própria esquerda!

"André compreende seus sentimentos, mas considera o êxito político mais importante do que o desagravo pessoal. Então, na reunião do comitê, ele é incisivo:
— Estávamos sem perspectiva nenhuma e a vitória praticamente caiu do céu. Não podemos permitir, de jeito nenhum, que ela se transforme em derrota.

"Decide-se mandar um ultimato a Salvador: ou os quatro saem imediatamente da greve, ou o comitê de apoio paulista vai mandar um comunicado a todos os jornais expressando sua discordância dessa postura.

"É um blefe pois, a julgar pelos precedentes, ninguém publicaria. Mas, surte efeito. Depois de mais de uma semana sem alimentar-se, os quatro são socorridos e se restabelecem plenamente.

"Como recompensa por ter agido enquanto o PT se omitia, André recebe um insulto insólito do dirigente petista Rui Falcão:
— O Lungaretti e os quatro de Salvador são todos cachorros loucos!"
ÚNICA ATITUDE DO PT: EXPULSAR TODOS ELES

Por último, vale acrescentar que, ao relatar este episódio no meu livro, ainda não havia registros na Internet a que eu pudesse recorrer para checar/complementar o que retinha na lembrança, quase duas décadas depois.

Agora há, embora seja uma notícia bem tendenciosa, refletindo a visão repressiva que se mantinha inalterada nos órgãos de segurança em 1986 (vide aqui). Ainda assim, serviu para eu colher alguns dados.

P. ex., a tentativa frustrada de assalto a uma agência bancária de Salvador ocorreu no dia 11 de abril de 1986 e o filho do meu falecido companheiro de coletâneas poéticas Rubens Lemos (1941/1999), que estava entre os militantes presos, era o Marcos Wilson, então com 22 anos.

Embora ficasse conhecido no noticiário como os quatro de Salvador, aparentemente o grupo tinha seis integrantes, dos quais foram identificados cinco: o próprio Marcos, José Wellington Diógenes, Cícero Araújo, Jari José Evangelista e Antonio Prestes de Paula. Talvez algum deles não tenha sido preso, pois a greve de fome, lembro-me bem, foi só de quatro.

Mas, acabaram todos cinco expulsos do PT, que não lhes deu chance de apresentar sua defesa e só se preocupou com os danos à sua imagem pública, não movendo uma palha para evitar que sofressem arbitrariedades na prisão.
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