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domingo, 19 de abril de 2020

JÂNIO DE FREITAS BATE PESADO: TROCA DE MINISTRO EM MEIO À PANDEMIA FOI HOMICIDA E POTENCIALMENTE GENOCIDA

FESTA NO HOSPÍCIO
A substituição, em meio a uma pandemia, de um ministro que segue a Organização Mundial da Saúde e as práticas bem-sucedidas em numerosos países é, em qualquer caso, jogar a vida alheia numa aposta cega e cruel. 

Homicida ou genocida, potencialmente. 

No caso brasileiro, o ato é ainda mais grave no desprezo egoísta por todos os demais, todo um povo.

O ministro que chega traz muita incerteza e confiança rala. Está há muito afastado da prática médica (“fui médico”, disse na posse), nem teve, jamais, alguma experiência com serviços de medicina pública. Como pessoa, sua fala de escolhido foi uma enrolação ininteligível.

Afundou na dupla má intenção: pôr-se tanto como adepto do isolamento recomendado pelas melhores competências médicas —e também por ele defendido em texto de 13 dias antes— como anunciar-se “em alinhamento completo” com Bolsonaro, ou contra aquelas recomendações.

Essas credenciais inversas foram as aprovadas pelo trio de autoridades no assunto que, escolhidas por Bolsonaro, submeteram Nelson Teich a avaliação: um dono de construtura, Meyer Nigri; o publicitário Fabio Wajngarten, tido como distribuidor do coronavírus na Casa Branca e no Planalto, e um dos três vice-presidentes informais-efetivos, Flávio Bolsonaro.

As afirmações de que Bolsonaro retirou Mandetta por interesse eleitoreiro mereceram, por parte de Sergio Moro, uma confirmação traidora: não há, diz ele, “ninguém em sã consciência preocupado com popularidade”.

Sendo notório que Bolsonaro não tem consciência sã, Moro o acusa de eleitoralismo. E o faz, não esqueçamos, como íntimo conhecedor de tal consciência.

Apesar do cuidado na escolha de um companheiro para Damares, Weintraub, Ernesto Araújo, Augusto Heleno, Ricardo Salles, Wajngarten e cia., uma possibilidade ficou sem resposta: por que não um general, mais um? 

Na reunião ministerial que antecedeu por horas a demissão de Mandetta, Bolsonaro quis lembrar aos presentes que foi eleito presidente, algo esquecido no próprio governo.

E daí partiu para o apelo patético de que os ministros ouçam suas opiniões. Pois então, ninguém mais do que os generais do governo, e parece que também de fora, ouve, aceita, concorda, apoia e defende o que Bolsonaro diz e faz.

Com um ou com outro, importa é o que Bolsonaro diz à multidão dos inquietos com o isolamento protetor: “Está começando a ir embora essa questão dos vírus”. Por isso, “tem que abrir o comércio, voltar à normalidade”, “tem que enfrentar o vírus, não adianta ficar dentro de casa”. Com mais ênfase, “tem que voltar à escola”.

A exigência de Bolsonaro contrasta com a situação calamitosa da mistura de mortos e doentes em Manaus, por explosão das contaminações e óbitos. 

Na constatação da Folha de S. Paulo, seis dias atrás, 178 prefeituras de São Paulo já somavam mais de 1.000 casos de contaminação e 100 mortes além do total apresentado pelo governo paulista. 
O mesmo, por certo, se dá em vários estados, se não em todos. O Brasil não tem preparo nem para contabilizar seus mortos e doentes.

A incitação ao risco maior e à desobediência às recomendações preventivas tem, é óbvio, fácil penetração nos segmentos menos instruídos. Sem dúvida, é causa de parte do aumento de aglomerações pelo país afora, com avanço das contaminações.

Bolsonaro e seu incentivo mortífero estão configurados com clareza na legislação criminal. Inaplicável porque a carência de caráter se impõe à legislação. Mas daí não resulta que crime deixe de ser crime e criminoso deixe de ser criminoso.

Por tudo o que disse até agora, o recém-ministro Nelson Teich subscreve, com repetição sobre repetição, estar “em alinhamento completo” com Bolsonaro. Torna-se de repente convicto da “gripezinha”, portanto, e do que a leva até o Código Penal. Disposto a acabar com o isolamento preventivo, mas não com a falácia: nada vai “mudar de forma brusca”. Logo, vai mudar. Mudança brusca basta-lhe a sua.

A OMS e a ciência médica contrariam a “vingança de satanás”, a “gripezinha”, a economia, o interesse eleitoral de Bolsonaro e incontáveis coronavírus. A turma do Planalto e as cúpulas dos ministérios mostram-se aliviadas, sem exceção incômoda, na terra sempre e toda plana. (por Jânio de Freitas)
.
Toque do editor — Com o escolhido por Bolsonaro para impor suas maluquices sanitárias ao nosso sofrido povo começando a botar as manguinhas de fora, não tenho a mais remota dúvida de que já esteja selado o destino do pior presidente da História deste país. 

Sua remoção do cargo não tardará, simplesmente porque países não se suicidam (com a única exceção da Alemanha, conduzida ao abismo por um ascendente político deste que ora nos destrói).

Infelizmente, por causa da pusilanimidade e tibieza daqueles que há muito deveriam ter agido para evitar que o povo brasileiro fosse imolado nessa tragédia anunciada, a contagem de cadáveres será enorme. 
(por Celso Lungaretti)

terça-feira, 29 de outubro de 2019

CPI SOBRE CRIME DA GANÂNCIA CAPITALISTA EM BRUMADINHO APONTA 22 RESPONSÁVEIS PELO EXTERMÍNIO DE 270 SERES HUMANOS

É uma peça exemplar o relatório final da CPI da Câmara Federal pedindo o indiciamento por homicídio doloso e lesão corporal dolosa de 22 diretores, engenheiros e terceirizados da mineradora Vale, pelo crime de ganância capitalista desmedida, que resultou no rompimento da barragem de Brumadinho (MG).

Graças à repulsiva incúria da Vale, que optou por economizar centavos brincando com a vida de seres humanos, 270 pessoas foram exterminadas (de 252 encontraram algo para enterrar, de outras 18 nem isto). 

Entre os criminosos o documento inclui o ex-presidente da mineradora, Fabio Schvartsman, que deixou o cargo em meio ao escândalo, pois ele “tinha plena ciência da necessidade de se adotar medidas urgentes para o aumento da segurança nas barragens situadas na zona de atenção” e, claro, não o fez.

Protocolado no último final de semana, o relatório deverá ser analisado e votado em sessão da CPI marcada para esta 3ª feira (29). Mas, para produzir consequências penais, depende de providências a serem ou não tomadas pelo Ministério Público e pelo Judiciário.

Eis algumas das constatações:
— o refeitório e a área administrativa, entre outras estruturas, estavam localizados a pouco mais de 1 km da barragem que se rompeu, daí ter sido em tais dependências que morreu a maioria dos funcionários vitimados;
— nos 17 anos seguintes à aquisição da nuba, a Vale, simplesmente, não se preocupou em transferir tais estruturas para sítio mais seguro;
—  desde 2017, pelo menos, já se sabia que o fator de segurança da barragem estava abaixo de 1,3, o valor recomendado internacionalmente;
— as sirenes localizadas na região da Pousada Nova Estância e do Parque da Cachoeira não foram afetadas pela avalanche de lama e poderiam ter salvado muitas vidas, caso houvessem sido acionadas;
— durante o longo processo até o rompimento da barragem, em vários momentos a Vale soube ou foi informada sobre problemas que deveriam tê-la feito acender a luz vermelha;
— embora fosse uma barragem dotada de uma quantidade significativa de instrumentos de auscultação, estes não estavam adequadamente posicionados e nem cobriam as multicamadas do rejeito.
O presidente da Vale evitando homenagear suas vítimas
"É verdadeiramente alarmante que, diante de tamanhas incertezas relativas à barragem B1, a estabilidade da estrutura tenha sido declarada”, diz o documento. 

Também  questiona a forma fraudulenta (é o que afirma com todas as letras) pela qual a Vale conseguiu a licença ambiental para operar o aproveitamento de rejeito da barragem. (por Celso Lungaretti, utilizando informações da notícia do repórter Rubens Valente, publicada na Folha de S. Paulo)
Que diferença há entre o funeral de um lavrador e o de um mineiro?
Nenhuma. Aos olhos dos donos do PIB, ambos valem... nada!

segunda-feira, 2 de julho de 2012

OS PIROMANÍACOS DA CASERNA PASSARAM RECIBO DA QUEIMA DE ARQUIVOS

Quando se aproximava o fim da ditadura, os criminosos fardados agiram como quaisquer outros criminosos: eliminaram as provas dos seus crimes.

Mas,  caxias  como eles só, fizeram a besteira de relacionar os documentos, à medida que os iam incinerando.

Ainda não sabiam que isto deve ser feito na calada da noite, sem testemunhas nem registros, para não acabar virando reportagem do Fantástico --como aconteceu  no final de 2004, quando foi escancarada uma queima de arquivos na base aérea de Salvador...

Seu  know-how, aliás, continua meio amadoresco. No começo do mês passado, quando montaram um  mutirão de reclassificação de documentos secretos,  não escolheram subalternos 100% confiáveis: um deles  deu o serviço  para a imprensa. Se aqui não fosse o país dos  panos quentes, estariam presos por sabotarem descaradamente a Lei de Acesso à Informação, desacatando a comandante suprema das Forças Armadas (a presidente Dilma Rousseff) e o ministro da Defesa (Celso Amorim), além de transformarem em motivo de galhofa as leis aprovadas pelo Congresso.

Enfim, é devido à falta de know-how dos  incendiários acidentais que podemos agora dimensionar a obra desses piromaníacos da caserna: no segundo semestre de 1981, quando o ditador da vez era João Baptista Figueiredo, foram reduzidos a cinzas aproximadamente 19,4 mil documentos secretos produzidos após o nefando 1º de abril de 1964. 

Sobre o teor de cada um deles resta apenas um resumo de uma ou duas linhas, em 40 relatórios encadernados aos quais a Folha de S. Paulo teve acesso --o suficiente, contudo, para dar uma boa idéia do que se tentou esconder dos brasileiros.

Segundo a reportagem publicada nesta 2ª feira (2) pelo jornal da ditabranda, "boa parte dos documentos eliminados trata de pessoas mortas até 1981". 

Havia também "relatórios sobre personalidades famosas, como o ex-governador do Rio Leonel Brizola (1922-2004), o arcebispo católico dom Helder Câmara (1909-1999), o poeta e compositor Vinicius de Moraes (1913-1980) e o poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999)", levantamento das "contas bancárias no exterior" do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros, investigação sobre a "infiltração de subversivos no Banco do Brasil", etc.

Verifica-se, ainda, que o tão criticado acobertamento de delitos cometidos por  protegidos da corte  também vicejava no regime militar: nunca foi levado à Justiça, como deveria ter sido, o personagem de que tratou o relatório intitulado "Tráfico de Influência de Parente do Presidente da República". Enquanto Emílio Garrastazu Médici autorizava carnificinas e ia fingir de torcedor do  Mengo  no Maracanã, a família faturava algum por fora...

Um dos mandantes dos piromaníacos, o general Newton Cruz, sai pela tangente de sempre, ao afirmar ter "cumprido a lei da época". Da mesma forma, os que executaram prisioneiros indefesos e deram sumiço nos seus restos mortais utilizam uma lei da época, a anistia de 1979, para escaparem até hoje da responsabilização por seus atos.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

"BELA PORQUE TEM DO NOVO A SURPRESA E A ALEGRIA"

De sua formosura
deixai-me que diga:
é bela como o coqueiro
que vence a areia marinha.

De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão bela como um sim
numa sala negativa.

Bela porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.

Bela como a última onda
que o fim do mar sempre adia.

Bela porque tem do novo
a surpresa e a alegria.

Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.

Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

E bela porque o novo
todo o velho contagia.

Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.





(versos de João Cabral de Melo Neto que o pai coruja tomou 
emprestados para homenagear sua Laurinha, no dia do 3º aniversário)
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