Mostrando postagens com marcador Guantánamo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Guantánamo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de maio de 2017

AINDA SOBRE O LINCHAMENTO JUDICIAL DOS 'TERRORISTAS DE GOGÓ'

Indo além da indignação causada pela sentença aberrante que os oito terroristas de gogó acabam de receber (vide aqui), temos de fazer uma profunda reflexão sobre o tipo de sociedade em que queremos viver: uma na qual aceitemos os riscos inerentes à opção de procedermos com justiça ou uma com as facilidades de um estado policial.

Depois do atentado ao WTC, os Estados Unidos adotaram a segunda opção, coerentemente com suas tradições históricas, afinal haviam eletrocutado Sacco e Vanzetti em meio a uma exacerbada histeria anti-anarquista e só meio século depois o governador do Massachussetts reconheceu oficialmente a inocência de ambos; tinham caçado bruxas em pleno século 20 (macartismo), etc. 

Durante a nefanda guerra ao terror de George W. Bush, os EUA prenderam suspeitos aos montes, submeteram-nos a sevícias em centros clandestinos de tortura espalhados pelo mundo e os mantiveram encarcerados sob tratamento cruel e degradante em Guantánamo, chegando ao cúmulo de conservá-los prisioneiros mesmo depois de serem absolvidos pela Justiça estadunidense (caso nenhuma nação os aceitasse receber).

A opção correta será esta, combatermos a brutalidade tornando-nos, nós mesmos, brutais, injustos e insensíveis?

A coisa se complica face à prática agora adotada pelos terroristas islâmicos de, utilizando as redes sociais, incentivarem fanáticos a agirem por conta própria contra infiéis no mundo inteiro. Ministram-lhes conhecimentos básicos de terrorismo e exortam-nos a escolherem e golpearem duramente seus alvos, para, assim, adquirirem o direito de deflorarem 72 virgens no paraíso dos mártires muçulmanos...

Um thriller literário que focaliza esta nova tendência é A lista (The kill list, 2013), de Frederick Forsyth. Mostra a operação montada pelo serviço secreto estadunidense para localizar e executar um propagandista do terrorismo islâmico cujo proselitismo virtual causara grande número de óbitos.

Algo semelhante foi testado pelo grande revolucionário brasileiro Carlos Marighella, em fins de 1968. Frustrado com a pouca combatividade dos partidos comunistas tradicionais, que no seu entender estavam burocratizados demais para atuarem com eficiência na luta armada, ele resolveu dissolver a organização que liderava, mantendo apenas um pequeno núcleo ao redor de si e exortando os demais efetivos e os aspirantes a recrutas a provarem seu valor na prática (mais tarde, os que tivessem passado na prova seriam chamados de volta)

Depois que esses soldados sem oficiais cometeram várias ações disparatadas, Marighella recuou horrorizado, reagrupando-os de imediato e restaurando a cadeia de comando. O que parecia ser uma boa solução para dificultar o trabalho da repressão política se revelara desastroso quanto ao objetivo da luta: o que se queria era conquistar o povo, não assustá-lo com violência inútil (p. ex., tentativas canhestras de tomarem a arma de vigilantes de quarteirão, que acabavam redundando em tiroteios).

Os aloprados de Alá não têm os mesmos melindres: nenhuma matança parece ser suficiente para fazê-los desistir do incitamento a debiloides despreparados. 
Maratona de Boston, 2013: com bombas caseiras, dois irmãos mataram três pessoas e feriram 264.
Ao sancionar a lei antiterrorismo, Dilma Rousseff confirmou que abriu mão dos seus valores ideológicos de outrora e hoje não passa de uma mera utilitarista: o receio de atentados durante a Rio-2016 prevaleceu sobre qualquer outra consideração, mandando às urtigas os direitos civis e os direitos humanos . 

Para desestimular ações que empanassem o brilho do megaevento valia tudo, inclusive repetir os excessos da guerra ao terror. E nem lhe parece ter ocorrido que as Olimpíadas passariam, mas a lei draconiana ficaria.

O primeiro resultado está aí: a tal Operação Hashtag localizou facilmente um grupelho que espalhava aos quatro ventos virtuais sua intenção de arrombar a festa. A Polícia Federal tinha todos os recursos para, com idêntica facilidade e absoluta segurança, monitorar esses ingênuos amadores, para saber se seriam mesmo capazes de agir, ou não. 
A lei é vaga, permite enquadrar quem se quiser.

Poderia detê-los quando quisesse. Por que não deixar para fazê-lo quando já estivessem com a mão na massa?  Mas não, a lei fascistoide poupou-lhe o trabalho de fazer direito a lição de casa. Então, restará para sempre a dúvida: eram apenas fantasistas devaneando ou se constituíam numa verdadeira ameaça?

Isto parece não ter preocupado o juiz que os sentenciou com rigor extremado.

A mim incomoda –e muito!– a possibilidade de amargarem entre 5 e 15 anos de prisão cada um por conta de algo que jamais conseguiriam levar à prática. Espero que eu não seja o único. 

sábado, 10 de outubro de 2015

ARTIGO MAGISTRAL DE DEMÉTRIO MAGNOLI: "239 VOLTA PARA CASA".

Autor: Demétrio Magnoli.
Algum dia, nas próximas três semanas, a cela será aberta e 239 caminhará, como um homem livre, até o avião que o conduzirá do Caribe à Grã-Bretanha. Lá, reencontrará sua família e ouvirá um filho chamá-lo de "pai", algo que o atemoriza, pois há 13 anos só é identificado pelo seu número de prisioneiro em Guantánamo. A história de 239 é uma prova do fracasso da "guerra ao terror" de George W. Bush e de um fiasco moral de Barack Obama, além de uma impugnação do argumento clássico de defesa da tortura.

Shaker Aamer nasceu na Arábia Saudita, mudou-se para os EUA, trabalhou como tradutor junto às forças americanas na Guerra do Golfo e estabeleceu-se em Londres, onde casou-se com uma britânica muçulmana. Eles tiveram quatro filhos, o último dos quais Aamer nunca viu, pois o menino nasceu quando ele já era 239. Meses antes do 11 de setembro de 2001, transferiu-se com a família para o Afeganistão –em busca, segundo alegou, de "uma atmosfera islâmica". Na sequência do atentado, foi capturado por uma guerrilha afegã que combatia o Taleban e entregue aos americanos.

Bush criou um tribunal militar para processar extraterritorialmente os "combatentes inimigos ilegais", enquanto seu governo autorizava o uso da tortura nos interrogatórios. As violações de direitos humanos produziram resultado nulo. Dos 779 prisioneiros que passaram por Guantánamo, apenas sete foram condenados pela corte de exceção. Aamer, como tantos, não foi nem processado. 

Shaker Aamer: um calvário de 13 anos!!!
Obama declarou que "Guantánamo fere nossa reputação internacional" e "provavelmente criou mais terroristas no mundo do que aqueles que manteve detidos". Porém, diante das resistências do Congresso, recuou em sua decisão de fechar o complexo prisional.

As acusações contra Aamer foram anuladas em 2007 e ofereceram-lhe a deportação para a Arábia Saudita, que ele rejeitou temendo o encarceramento pelo crime de casar com uma estrangeira ou, pior, um programa de "desradicalização" num calabouço do reino. Mesmo diante de uma solicitação oficial do governo britânico, Washington recusou-se, por mais de 3.000 dias, a retorná-lo ao país onde tem residência legal. Na versão americana, Aamer representaria um perigo público potencial. De acordo com seu advogado, a extensão do encarceramento destinava-se a evitar a divulgação das torturas que experimentou e testemunhou.

No dossiê sobre o prisioneiro 239, consta que ele participava do alto círculo da Al Qaeda e operou como tradutor para Osama bin Laden. Sob tortura, 239 confessou tudo o que lhe perguntaram. Mas, depois, negou ter combatido ao lado dos jihadistas e atribuiu a narrativa do dossiê às lendas contadas pelos guerrilheiros afegãos que o entregaram em troca de recompensa monetária. O tribunal militar desistiu de processá-lo pois nada tinha, exceto a confissão contaminada.

A justificação "moral" da tortura assenta no dilema da bomba-relógio. Se é capturado um terrorista que guarda informação sobre um atentado iminente, não seria a tortura uma ferramenta aceitável, até compulsória, para salvar as vidas de incontáveis inocentes? O problema insolúvel do argumento é que ele supõe um cenário ideal, no qual sabe-se de antemão que o prisioneiro é um terrorista e, ainda, que dispõe de um segredo específico. 

Alusão a Obama ter sido impedido de fazer o que era certo. 
A história de Aamer, entre tantas outras, revela que tal cenário é uma construção puramente teórica, destinada a flexibilizar um interdito moral. Na neblina da vida real, seria preciso torturar pencas de inocentes e terroristas ignorantes até chegar, casualmente, ao detentor da informação crucial.

Nunca saberemos o que Aamer foi fazer no Afeganistão em 2001. Não sabemos o que ele fará depois de beijar o filho que não conhece. Se desaparecer no mundo cotidiano, provará que a tortura não funciona. Se explodir-se, matando inocentes em nome de um califado mítico, provará exatamente a mesma coisa.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

TERRA DOS INTIMIDADOS E LAR DE UM SÓ VALENTE

Hoje USA deve ser lido United Shit of America
O último e único herói dos EUA, Bradley Manning, permanecerá sequestrado por, pelo menos, 11 anos e 8 meses, 1/3 da privação da liberdade que lhe será imposta, como covarde retaliação, por seus captores.

Motivo: ter agido como cidadão exemplar, ao denunciar a seu povo as aberrantes ilegalidades cometidas na surdina pelos governantes do país. O justo é exemplarmente martirizado, para que os demais temam expor as arbitrariedades e injustiças.


O rei nunca esteve tão nu. E nunca foi tão fácil constatarmos sua nudez.

Torturas deixaram Manning em frangalhos
Minha total solidariedade à vítima de mais este linchamento com verniz legal  made in USA

Meu absoluto desprezo por seus sequestradores e pelo presidente negro que se mostra uma completa decepção, descumprindo promessas solenes como as de garantir a transparência  das atividades governamentais e desmontar o centro de torturas de Guantánamo.

Barack Obama não passa de um  pai Tomás  com visual moderninho.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

DEPOIS DA 'GUERRA DA LAGOSTA', TEREMOS A 'GUERRA DA CAMISINHA'?

Eis a principal lição a tirarmos do Caso WikiLeaks (pois é disto que se trata): as forças reacionárias perderam o último resquício de compostura e estão utilizando desavergonhadamente sua indústria cultural para impingir aos cidadãos as lorotas mais inverossímeis.

Querem retaliar Julian Assange por ter divulgado cerca de 250 mil documentos secretos estadunidenses, comprovando irrefutavelmente que os EUA cometem atos ilegais e abomináveis em suas intervenções para mudar governos de nações soberanas e nas caçadas a supostos terroristas.

O responsável pelo vazamento de tais evidências de crimes --que, estes sim, deveriam estar sendo apurados para efeitos penais--, um heróico soldado e analista de inteligência do exército dos EUA chamado Bradley Manning, é submetido a rigores extremos em prisões militares.

Graças a ele, a Assange e ao WikiLeaks, o mundo ficou sabendo, p. ex., que cerca de 150 pessoas inocentes ficaram presas durante períodos variáveis (até por vários anos) no centro de torturas de Guantánamo, sem julgamento nem nada, apenas por terem a ascendência errada ou haverem sido encontradas perto do lugar errado e na hora errada, sem nenhuma evidência concreta respaldando as suspeitas de envolvimento com ações terroristas.

Numa covarde demonstração do seu poder de esmagar os desafetos, os EUA há mais de dois anos estão destruindo Manning psicologicamente.

E foi para submeter Assange ao mesmo suplício que armaram uma farsa simplesmente ridícula na Suécia, no sentido de que o porta-voz do WikiLeaks ficasse detido naquele país --o qual, cumprindo seu papel no script, aceitaria em seguida entregá-lo aos Estados Unidos, para responder a acusações bem mais graves (espionagem e que tais).

As bombásticas acusações de estupro e crime sexual se reduzem ao fato de ele ter mantido relações consentidas com duas mulheres, a camisinha haver-se rompido e Assange (segundo elas) insistido em completar o ato sem preservativo. Nem sequer utilizou a violência para impor sua vontade, já que a fulana não foi agredida.

Se episódios deste tipo fossem levados a ferro e fogo, boa parte da população masculina mundial estaria encarcerada.

E é pra lá de sintomático o fato de uma das denunciantes ter todo o perfil de tarefeira da espionagem estadunidense: Ana Ardin é cubana, anticastrista e trabalhou para ONGs financiadas pela CIA. 

Basta somarmos dois e dois para encontrarmos quatro, ou seja, concluirmos que tudo não passou de uma  armação ilimitada  envolvendo uma potência (EUA), dois países lacaios (Suécia e Reino Unido) e uma nação vergonhosamente omissa (a Austrália, que não moveu uma palha por um australiano perseguido e injustiçado).

Mais: se Assange fosse apenas um cavalheiro que prefere transar sem camisinha o Reino Unido e a Suécia fariam tamanho reboliço e se empenhariam tanto em obter sua cabeça? Nem a pau, Juvenal.

Os britânicos, simplesmente, ameaçaram cometer um ato de guerra contra o Equador, ao comunicar-lhe que cogitavam invadir a embaixada equatoriana para sequestrar Assange. Como as embaixadas são extensões do território do país, isto equivaleria  a uma invasão do Equador. É crível que fossem tão longe por uma besteirinha de alcova?

Fez-me lembrar de uma desavença entre o Brasil e a França, meio século atrás, sobre a pesca em larga escala de lagostas na plataforma continental brasileira (mais detalhes aqui). 

Um pesqueiro francês foi apresado por uma corveta brasileira e houve até mobilização militar: o presidente Charles De Gaulle enviou um navio de guerra para proteger os pesqueiros e o Brasil deslocou esquadrões de aeronaves para o litoral nordestino. Os dois lados escoravam-se em interpretações diferentes dos direitos de pesca de peixes e de crustáceos.

deixa disso! acabou prevalecendo, mas o patético da chamada  guerra da lagosta  municiou fartamente os humoristas. A melhor gozação foi esta paródia, de autoria desconhecida, da marchinha carnavalesca "Cachaça não é água":
"Você pensa que lagosta é peixe?
Lagosta não é peixe, não!
Peixe é bicho que nada,
crustáceo não nada, não!
Pode faltar tudo ao brasileiro:
arroz, feijão e pão.
Mas, a lagosta é nossa,
De Gaulle não bota a mão!

Pode mandar vaso de guerra,
disto até acho graça:
por causa da lagosta,
até eu vou sentar praça!"
 Agora, o leão desdentado ameaça travar com o Equador a  guerra da camisinha. Falta um humorista que escancare tudo que há de hilário e grotesco nas atitude britânicas.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

OS LOUCOS ASSUMIRAM A DIREÇÃO DO HOSPÍCIO

A Veja obteve (por que será?) o privilégio, concedido a poucos veículos do mundo inteiro, de fazer uma reportagem em Guantánamo, a prisão de estilo nazista que os EUA mantêm arrogantemente em Cuba, a despeito da promessa de Barack Obama de desativar tal monstruosidade.

A ilha caribenha é onde os estadunidenses costumam fazer, na moita, o que pegaria mal fazerem em casa.

Antes da revolução, a jogatina e as orgias dos ricaços.

Depois, os atentados contra um país livre e seus líderes, cujo ponto culminante foi a frustrada invasão da baía dos Porcos, em 1961.

Finalmente, as torturas a que submete cidadãos de outras nações, sequestrados alhures sob suspeita de terrorismo.

E, mais uma aberração (que até a Veja foi obrigada a reconhecer): os julgamentos farsescos, inquisitoriais, de cidadãos que deveriam ser considerados prisioneiros de guerra.

Os EUA os capturam como tais, mas, depois, não os julgam como tais. Chegam ao cúmulo de, mesmo que seu tribunal de exceção seja obrigado a declará-los inocentes --por pesarem conta eles unicamente as confissões arrancadas nas torturas, inaceitáveis em termos legais--, AINDA ASSIM NÃO OS LIBERTAREM!!!

Imaginem a cena, um juiz encerrando desta forma o julgamento:
"Declaro o réu inocente. Reconduzam-no à cela!"
Infelizmente, Cuba abdica da superioridade moral que colocaria cada homem justo do planeta ao lado de suas exigências de fim do embargo econômico e desativação de Guantánamo, ao agir de forma também indefensável e inaceitável.

A blogueira cubana Yoani Sánchez teve negado pela 19ª vez seu pedido de vista de saída, agora para participar de um evento cultural no Brasil.

Não é acusada de nada. Não está sendo submetida a processo nenhum. Mesmo assim, não lhe permitem ir para onde quiser e voltar quando quiser. Está confinada em seu país, como se fosse súdita de um reizinho nos tempos longínquos do absolutismo.

E ainda debocham, como fez a funcionária que lhe transmitiu a decisão absurda: "Tente quantas vezes você quiser".

Então, ao serem criticados pelo arremedo de justiça que encenam em Guantánamo, os estadunidenses poderão sempre responder: "É uma prática característica de Cuba".

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

SOBRE OS DIREITOS HUMANOS EM CUBA E NO BRASIL

"Nós vamos falar de direitos humanos em todo o mundo? Vamos ter de falar de direitos humanos no Brasil, nos EUA, a respeito de uma base aqui que se chama Guantánamo."

Esta aí uma afirmação da antiga companheira e atual presidente da República, Dilma Rousseff, com a qual concordo plenamente. Sempre considerei mais importante falarmos sobre direitos humanos no Brasil, que é onde temos obrigação de os defender, do que em outros países, a respeito dos quais nossas opiniões dificilmente exercerão a mínima influência (*). Aqui podemos fazer a diferença; alhures, quase nunca.

E a discussão dos direitos humanos no Brasil é fundamental hoje: não só nossa tíbia redemocratização permitiu que presos comuns continuassem até agora, 27 anos depois que o Brasil saiu das trevas ditatoriais, submetidos a torturas semelhantes às que os presos políticos sofríamos nos DOI-Codis dos carrascos militares, como está em curso um processo de fascistização que já registra terríveis violações dos DH na USP, na cracolândia e no Pinheirinho.

Percebe-se claramente que a truculência autorizada por Geraldo Alckmin na capital paulista é um balão de ensaio para, se engolida, nortear a atuação policial em muitas outras cidades brasileiras.

Então, nossa presidente precisa mesmo acordar de sua letargia e começar a agir consistentemente para proteger os direitos humanos no Brasil, antes de ter lições a dar a outros países.

* O senador Suplicy, o Carlos Lungarzo da Anistia Internacional, eu e tantos outros brasileiros com espírito de justiça protestamos infinitas vezes contra as torturas infringidas a cidadãos sequestrados em seus países e arrastados para o inferno de Guantánamo. Fizemos o que tínhamos de fazer, mas sem ilusões: sabemos muito bem que de nossos protestos não adveio resultado concreto.

domingo, 1 de maio de 2011

O HERÓICO BRADLEY MANNING ESTÁ SOFRENDO TERRÍVEIS RETALIAÇÕES

A ISTO ficou reduzido...
Os filmecos de tribunal com que Hollywood fetichiza a justiça estadunidense são uma comprovação da frase de Joseph Goebbels, de que, de tanto se martelar uma mentira, ela acaba passando por verdade.

É claro que, em meio a centenas (quiçá milhares, incluindo os seriados de TV) de fitas medíocres e enganadoras, podemos pinçar  alguns clássicos, a cumprirem o papel de exceções que só servem para confirmar a regra. 

De pronto, lembrei-me de 12 homens e uma sentença (1957) e O Veredicto (1982), do grande Sidney Lumet; O sol é para todos (1962), de Robert Mulligan; Testemunha de Acusação (1957), de Billy Wilder; Anatomia de um crime (1959), de Otto Preminger; Julgamento em Nuremberg (1961), de Stanley Kramer; e Justiça para todos (1979), de Norman Jewison.

Acrescentados os que não me tenham ocorrido, os salvos do incêndio deverão totalizar uma dezena, no máximo duas. O resto não passa de tralha cinematográfica mesmerizante.

Eu era muito jovem quando, lendo A tragédia de Sacco e Vanzetti (1953), de Howard Fast, cai na real: o grotesco linchamento com tinturas legais dos dois anarquistas italianos era a realidade; e a infabilidade das sentenças estadunidenses, na qual seriados como Perry Mason tanto nos queriam fazer crer, não passava de  piada de mau gosto.

...este saudável soldado de 23 anos.
Depois, ao longo da minha vida adulta, fui tomando conhecimento de muitos outros exemplos, com destaque para as aberrações jurídicas do macartismo e para o premeditado assassinato de dois pobres  laranjas  (o casal Rosenberg) como bodes expiatórios de um delito cujos principais responsáveis só poderiam ser cientistas.

A partir do atentado contra o WTC, multiplicaram-se as arbitrariedades contra os acusados que os EUA despejaram no centro de torturas de Guantánamo, para tratá-los como animais longe das vistas de seus respeitáveis cidadãos.

Graças ao heróico soldado Bradley Manning, que forneceu ao Wikileaks as provas dos podres, o mundo ficou sabendo, p. ex., que cerca de 150 pessoas inocentes ficaram presas durante períodos variáveis (até por vários anos) em Guantánamo, sem julgamento nem nada, apenas por terem a ascendência errada ou haverem sido encontradas perto do lugar errado e na hora errada, sem nenhum motivo concreto respaldando as suspeitas de envolvimento com ações terroristas.

É a razão de estado falando mais alto do que a justiça e os direitos humanos -- exatamente a acusação que os EUA sempre fizeram aos países do chamado  socialismo real. Nada como um dia depois do outro.

O CALVÁRIO DE MANNING 
COMPLETARÁ UM ANO NESTE MÊS

E, por haver escancarado a nudez do rei, o próprio Manning está sofrendo terríveis retaliações -- como, aliás, sempre aconteceu nas ditaduras apoiadas pelos EUA no mundo inteiro. O serviço sujo volta a ser feito também em casa.

É esta a face que o império mostra para os que ousam confrontá-lo ou atingir seus interesses; o dr. Jekyll não precisa de poção nenhuma para virar mr. Hyde.

Porque, na verdade, é monstruoso em sua essência e benigno apenas na aparência forjada e impingida pela indústria cultural.

Estes trechos de uma notícia deste domingo (1º), que Andrea Murta enviou de Washington, dão uma boa idéia da malignidade do monstro:
Sim, agora que a eleição passou, ele pode...
dar uma banana para os direitos humanos
"Durante o tempo encarcerado, Manning, 23, foi submetido ao que seus defensores classificam como punição extrema pré-julgamento.
O soldado ainda não teve sua primeira audiência, agendada para ocorrer em junho e ficou confinado em solitárias, sem exposição à interação humana, a exercícios e à luz do sol.

Na semana passada, ele finalmente foi transferido para uma prisão no Kansas, onde poderá conviver com outras pessoas.

...segundo o 'Free Bradley Manning', uma rede de apoio que paga a defesa do soldado, há várias razões para maus-tratos.

A primeira seria que os militares sabem que o caso contra Bradley não é tão forte quanto anunciam e, caso ele seja inocentado, querem garantir alguma punição que sirva de  alerta  a outros no futuro', disse (...) Jeff Paterson, porta-voz do grupo.

O ex-porta-voz do Departamento de Estado PJ Crowley (...) disse que o tratamento dado a Manning é 'ridículo, contraproducente e estúpido'. Ele renunciou pouco depois.

O presidente [Obama] também sofreu o constrangimento de ver um ex-professor assinar um manifesto de juristas criticando as condições da detenção. Um representante da ONU foi outro a protestar.

Paterson diz que o soldado já não é o mesmo. 'Quando recebe visitas, leva um tempo até que a parte do cérebro ligada à interação social volte ao normal e ele se lembre de como conversar. Isso não faz mais parte de sua rotina.'"
O martírio do último herói estadunidense está prestes a completar um ano. Para quem quiser saber o que ele sofreu durante os (felizmente findos!) 11 meses de detenção no DOI-Codi... quer dizer, numa base dos fuzileiros navais na Virgínia, recomendo a leitura de A prisão infernal de Bradley Manning.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

NA CAÇA ÀS BRUXAS DE 11 DE SETEMBRO, AO MENOS 150 FORAM INJUSTIÇADOS

Documentos secretos do Pentágono que o site Wikileaks divulgou na noite de domingo revelam: pelo menos 150 dos presos em Guantánamo eram afegãos e paquistaneses inocentes, detidos durante operações de inteligência em zonas de guerra.

Não passavam de prosaicos motoristas, agricultores, cozinheiros, etc. Muitos permaneceram presos durante anos devido a confusões de identidade ou simplesmente por estarem no lugar errado, na hora errada.

É o modelo estadunidense de justiça, em que a razão de estado estupra direitos humanos e direitos civis. Joseph McCarthy está morto, mas o macartismo não.

Isto os filmecos com que Hollywood fetichiza a justiça dos EUA nunca mostram.

sábado, 9 de abril de 2011

MACACO, OLHA O TEU RABO!

Os EUA produzem um relatório anual sobre direitos humanos em outros países. O de 2010, que foi divulgado nesta 6ª feira (8), cita casos de violência policial no Brasil, qualifica nossa situação carcerária de crítica e constata o óbvio ululante, a extrema ineficiência da Justiça tupiniquim, lerda como lesma e cheia de jeitinhos para ricos, famosos e influentes escaparem das sentenças que deveriam receber e cumprir.

Fico esperando o relatório que o Brasil fará sobre os direitos humanos no EUA, apontando abominações como o  linchamento  a que serão submetidos alguns suspeitos de envolvimento no atentado contra o WTC, num tribunal militar que vai funcionar bem ao lado das câmaras de tortura de Guantánamo. 

As execuções, decerto, também ocorrerão lá. È mais prático concentrar tudo num lugar só.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

É ESTA A DEMOCRACIA QUE OS EUA TROMBETEIAM?

Campo de concentração nazista?
Não, mas é quase igual: Guantánamo.
Foi anunciada nesta 2ª feira (04/04) a decisão de realizar na base naval  dos EUA e centro de torturas da CIA em Guantánamo (Cuba) o julgamento de cinco suspeitos de envolvimento com o atentado contra o WTC.

Digo  suspeitos  porque processos montados com base em sevícias  valem, juridicamente, tanto quanto os IPM's da ditadura brasileira de 1964/85: nada. Não passam de lixo. A investigação teria de recomeçar do zero.

Os cinco vão ser, claro, condenados à morte pelo tribunal militar, depois de lhes negarem, arbitrariamente, o direito a todas as garantias processuais oferecidas a réus nas cortes dos EUA.

Vale repetir, mais uma vez, a comparação com a malfadada  Redentora  daqui:
  • cortes civis às vezes ousavam confrontar o arbítrio dos militares, tanto que estes, com o AI-5, proibiram-nas de conceder  habeas corpus  nos casos qualificados como de  segurança nacional;
  • já nas auditorias militares, as sentenças eram predefinidas pelos serviços de Inteligência das Forças Armadas, reduzindo os julgamentos a inócuas encenações para justificarem o veredicto pronto.
O recado dos EUA para o mundo: ignorarão
os direitos humanos de quem os desafiar.
Da mesma forma, os cinco receberão a pena máxima porque é esta a mensagem que os EUA querem enviar ao resto do mundo: a de que esmagarão quem quer que os desafie, e se não apanharem os verdadeiros responsáveis (Bin Laden continua livre como um passarinho...),  qualquer um serve.

Como serviram Sacco e Vanzetti e o Casal Rosenberg, flagrantemente injustiçados (*), vítimas de repulsivas demonstrações de força que nada tiveram a ver com o nobre ideal da justiça.

Não tenho, nem ninguém tem, como saber se os cinco de agora são mesmo terroristas ou meros bodes expiatórios.

Esta "lição de democracia" certamente
não aparecerá nos filmes de Hollywood...
Considero o atentado de 11 de setembro uma abominação, já que atingiu indiscriminadamente civis, o que combatentes do povo não devem fazer em hipótese nenhuma.

Carnificinas hediondas como as que Israel perpetra na faixa de Gaza são-nos vedadas, porque constituem a negação total do nosso solene compromisso de contribuirmos para o advento de um estágio superior de civilização.

Mas, culpados ou não, salta aos olhos que estes acusados serão linchados, e não julgados.

O presidente Barack Obama, que tentou impedir tais farsas inquisitoriais encenadas em Guantánamo, acabou humilhantemente derrotado pela direita mais boçal e troglodita do seu país.

É outro que entrou rugindo e sairá miando.

* Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti nada tinham a ver com o assalto e assassinatos pelos quais foram condenados -- cometidos, na verdade, por criminosos sem nenhum envolvimento político. A polícia sabia disto e acobertou os bandidos, deixando que os dois anarquistas italianos fossem executados para amedrontar o movimento operário. 

Ethel Rosenberg não participava das atividades do marido Julius. E este não passou de um laranja, comunista manjado que enviou aos soviéticos informações coletadas de forma amadoresca, sem valor real nenhum, sobre a bomba atômica estadunidense. 


Quem realmente revelou segredos foi (foram) cientista(s) do projeto nuclear. Julius pode até ter sido o pombo-correio, mas isto é só especulação. Também há quem defenda a tese de que o casal foi deixado exposto pelos verdadeiros espiões, exatamente para desviar as atenções do esquema principal. O certo é que a pena foi exageradíssima e a execução de ambos, um crime inominável.
 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

OBAMA FECHA OS DOI-CODI'S DOS EUA

As primeiras medidas anunciadas por Barack Obama como presidente dos Estados Unidos vêm ao encontro do que já se previa: começa marcando pontos fáceis, propiciados pelos descalabros do seu antecessor George W. Bush.

Como diria um locutor de futebol, a bola está na cara do gol, pedindo “me chuta!”, “me chuta!”. Obama chutou.

Assim, ele determinou o desmantelamento da rede de torturas que os EUA criaram após o atentado ao WTC e uma mudança drástica dos métodos na luta contra o terrorismo islâmico, compreendendo três medidas:

* o fechamento da base de Guantánamo, espécie de DOI-Codi encravado em Cuba, na qual era feito o serviço sujo que Bush queria esconder de seus conterrâneos;
* o fim das prisões secretas da CIA; e
* a proibição do uso de torturas.

"Eu posso dizer sem hesitação ou equívoco que os Estados Unidos não vão torturar", garantiu Obama. Ficamos sem saber se devemos elogiar sua postura digna ou lamentar que, em pleno século XXI, uma grande potência tenha incidido em práticas tão infames e aviltantes para quem as pratica.

E ainda há Torquemadas extemporâneos que ousam vir a público para fazer questionamentos como este: "O que ele vai fazer quando o próximo líder sênior da Al Qaeda for capturado e se recusar a falar? Vai permitir que a CIA use as técnicas reforçadas de interrogatório? Se se recusar e o país for atacado, Obama vai ser responsabilizado".

Não, não se trata de uma mensagem mediúnica de Augusto Pinochet, nem de um trecho do site do Brilhante Ustra. O brucutu em questão é Marc Thiessen, autor de discursos de Bush. Deveria, como o historiador inglês que negou a existência do Holocausto, ser condenado à prisão – no caso, por fazer apologia do crime e da desumanidade.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem é o que separa os civilizados dos selvagens (no pior sentido). A obediência a seus preceitos jamais deve ser equacionada em termos de pragmatismo. Situações-limite haverá sempre, para justificar quaisquer atrocidades e genocídios. Seres humanos dignos deste nome se regem por princípios.
Related Posts with Thumbnails