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terça-feira, 26 de abril de 2011

UM IRMÃO E COMPANHEIRO NO BOM COMBATE: LUÍS ALBERTO DE ABREU

Luís Alberto de Abreu é como um irmão para mim.

Conhecemo-nos lá por 1971, quando, ainda traumatizado pela prisão, tortura e adiamento  sine die  das minhas perspectivas de ver concretizada uma sociedade igualitária e justa, eu tentava me reencontrar com a vida, de repente tornada tão cinzenta.

Nem me lembro mais como se deu o primeiro contato, provavelmente graças a nosso amigo comum Douglas Salgado. Mas, logo estávamos nos falando e visitando. Ele morava em São Bernardo do Campo e ainda não decolara.

Assisti à última peça do grupo de que o Luís participava, Doces e Salgados, encenada no belo teatro daquele município: Tempo dos Inocentes, Tempo dos Culpados. Era um timaço: ele, a Rosi Campos, o Ednaldo Freire, o Calixto de Inhamuns. Não me lembro se também a Jussara Freire, a atraente esposa do Ednaldo, que acabaria se destacando na TV e nas pornochanchadas  soft  paulistas .

Era uma peça (creio que criação coletiva) na linha do Arena, de Brecht, do teatro engajado na luta contra a tirania -- com as metáforas que a dita (tão dura!) e o bom senso aconselhavam.

Já lá se vão uns 40 anos. Ficou-me a lembrança de que, logo no início da encenação, o Calixto feriu a mão num fio do cenário, mas atuou até o fim, com o sangue a escorrer.

Depois houve uma reviravolta na vida do Luís e, por uns tempos, ele morou na minha kitchenette e desperdiçou seu talento trabalhando comigo em assessoria de imprensa -- foi o ganha-pão que lhe consegui.

Logo encontrou atividades mais gratificantes e morada menos exígua.

Em 1980 estreou como autor ligado ao Grupo Mambembe, com a comédia Foi bom, meu bem?. O Calixto e a Rosi atuavam, o diretor era o Ewerton de Castro.

Tratou-se quase de uma criação coletiva com o texto sendo consolidado pelo Luís, que o submetia ao coletivo e refazia de acordo com as sugestões e discussões.

Cala boca já morreu, no ano seguinte, também tinha essas características difusas, de entretenimento com algumas agulhadas críticas e presença marcante da personalidade do grupo.

A consagração veio com a
empolgante "Bella Ciao". De arrepiar!
Mas, a boa acolhida dos seus dois primeiros trabalhos era tudo de que o Luís precisava para tentar a grande cartada: uma peça que tivesse exatamente a sua cara. Este  tour de force  se chamou Bella Ciao.

A saga de uma família de anarquistas italianos -- como muitas existiam em São Bernardo -- foi sucesso de público e de crítica. A partir daí, o Luís passou a ser respeitado como um talento maior da nossa dramaturgia.

[Minha humilde contribuição foi fornecer-lhe uma cópia da gravação que eu tinha da música Bella Ciao, hino dos partisans italianos, interpretada pelo Quilapayún. Deu para o gasto -- quer dizer, para os ensaios.]

Seguiu-se sua vitoriosa carreira de mais de 40 peças (inclusive infantis), três roteiros para cinema e minisséries escritas para a Globo, como Hoje é dia de Maria. Além de lecionar teatro, muito mais por idealismo do que em função da (parca) remuneração.

E o principal: conservou a integridade. Esteve a um passo de se tornar autor de produções majestosas e polpudas bilheterias, mas preferiu manter sua linha de propor reflexões, sem panfletarismo mas com aguçado espírito crítico, sobre diversos aspectos da desumanidade capitalista. Não aderiu ao  teatrão. Não se vendeu.

Quando atravessei o segundo pior momento da minha vida, quase indo à miséria em 2004/2005, talvez não tivesse conseguido driblar a adversidade sem o apoio do Luís, um daqueles raros amigos das horas difíceis..

Enfim, pelos méritos da obra e do autor, recomendo entusiasticamente a compilação de sua obra teatral, organizada por Adélia Nicolete: Luís Alberto de Abreu - um teatro de pesquisa (ed. Perspectiva, 2011, 696 p.)

Reúne 14 peças e três textos teóricos do Luís, além de avaliações críticas do seu trabalho e de sua importância para a dramaturgia brasileira.

Eu não me julgo isento (nem um pouco!) para analisar-lhe a produção, até porque o teatro nunca foi minha praia. Mas, concordo inteiramente com o que Ilka Marinho Zanotto destacou no prefácio:
"É extremamente importante a inserção do 'bom combate' (...) na literatura teatral hodierna, muitas vezes tão carente de ideal, aparentemente enredada no mais pragmático dos niilismos".
Luís está há quatro décadas travando o bom combate. É mais do que motivo para merecer o respeito e reconhecimento dos melhores brasileiros.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

VENDIDO COMO LEBRE, O NOVO 'KARATE KID' MIA...

Para a indústria cultural, do boi só se perde o berro.

Então, qualquer música pode ser regravada, qualquer filme refeito, qualquer peça remontada, mesmo que o resultado seja desastroso.

Quando eu escutei pela primeira vez "Don't Le Me Be Misunderstood" interpretada por uma bandinha discothèque chamada Santa Esmeralda, não acreditei: além de medíocres, esses caras não tinham o menor simancol?!

Por que evidenciarem sua insignificância, expondo-se a um confronto com Eric Burdon e Joe Cocker, que lhes eram estratosfericamente superiores? O punhado de dólares terá compensado o ridículo artístico?

E que dizer dos patéticos remakes de fitas como Matar ou Morrer, Jesus Christ Superstar e Psicose?! Não se davam conta, os perpetradores dessas bobagens, que se tratava de obras emblemáticas dos períodos históricos correspondentes e deles inseparáveis?

P. ex., afora ser um filmaço, o High Noon de 1952 se constituiu num ato de coragem de Fred Zinneman, equipe e atores, irmanados num altaneiro repúdio ao macartismo.

Quando a caça às bruxas grassava nos EUA, eles ousaram responder com uma história de simbolismo transparente: a cidade que amava seu xerife Will Kane, abandona-o covardemente quando ele está prestes a ser desafiado pela gangue de Frank Miller, assim como Hollywood estava covardemente abandonando seus ídolos à sanha do bando de Joseph McCarthy e Richard Nixon.

Hair, vira e mexe, volta aos palcos. Mas, depois da  geração das flores, é só mais uma peça.

Quando da primeira encenação, muito mais do que uma peça, era o manifesto de um novo tempo: daquela arrebatadora primavera que, infelizmente, não se consolidaria, pois o sistema tudo fez para trazer de volta o inverno de nossa desesperança.

Estas elocubrações me ocorreram ao ler uma entrevista do cineasta Harald Zwart, tentando convencer o distinto público de que o novo Karate Kid seja algo além de um caça-níqueis.

Em vão. E até caça-níqueis há melhores.

Zwart conseguiu o prodígio de, com a tecnologia moderna e orçamento muito superior, nem chegar perto do  simpático  divertissement de 1984.

Porque, como diretor, ele é mesmo muito inferior a John G. Avildsen (nada além de um artesão, mas com aquele bom gosto e bom senso básicos que hoje andam tão em falta).

Porque havia química entre Ralph Macchio e Pat Morita, inexistente na dupla Jaden Smith-Jackie Chan.

Porque Ralph Macchio tinha carisma e o o filho de Will Smith, previsivelmente, nenhum.

Porque Pat Morita era mesmo idoso como o papel exigia, enquanto Jackie Chan, além de não sê-lo, jamais consegue disfarçar sua inadequação ao personagem.

Porque ambientar a história no Japão foi idéia de jerico; melhor ficaria em Hong Kong, como outras muambas de lojas de 1 real.

Porque o duelo final faz lembrar aqueles bangue-bangues em que os colts disparam 50 tiros sem serem recarregados: como um lutador com a perna seriamente lesionada conseguiria tomar impulso para a execução de um salto acrobático?

De resto, sabem por que me dei ao trabalho de detonar esse filmeco?

Porque não há mais críticos de cinema com conhecimentos e independência para o fazerem.

Os que passam por sê-lo, estão quase todos acumpliciados com a indústria cultural, ajudando a impingir gato por lebre.

Que falta faz um Rubem Biáfora!!!

sexta-feira, 4 de junho de 2010

BALADA DE UM MALDITO

Desde Carta a Meu Pai, do Kafka, eu não lia algo nessa linha que me emocionasse tanto como Meu Pai Morreu, o tributo prestado a Plínio Marcos por seu filho Léo Lama. Recomendo com entusiasmo.

Vi as primeiras peças do Plínio quando começava a dar meus primeiros passos na política revolucionária:
Dois Perdidos Numa Noite Suja (1966) e Navalha na Carne (1967).

Ele colocava no palco os derrotados, os miseráveis, os marginais, os excluídos da época.

E, naquele tempo de encenações bem comportadas, ousava mostrar esse universo em toda sua crueza e com todas suas gírias e palavrões, escandalizando Deus e o mundo.

Tinha impacto, mas não fazia muito meu gênero.

Eu preferia os épicos do Teatro de Arena, as peças de Brecht, a criatividade do Oficina e do Tuca, dramas cabeça como
Marat/Sade, etc.

Talvez porque, ao contrário dos típicos rebentos da classe média, eu não me surpreendesse tanto com os tipos retratados pelo Plínio.

Cresci ao lado de uma favela, jogando bola com os favelados, participando de batalhas campais contra eles.

Assisti a muitos episódios chocantes, como a de um malandro baixinho e sua mulher grandona, ambos bêbados, ambos se xingando e agredindo, ambos sangrando, enquanto umas 50 pessoas olhavam, riam, incitavam e aplaudiam.

Depois, ao longo da vida, nunca fiquei tão distante desse universo a ponto de precisar do teatro para o conhecer (embora também nunca tenha feito parte dele, ao contrário do Sérgio Ricardo, p. ex., que chegou a morar no morro carioca quando sua carreira artística foi minada pela ditadura).

O certo é que o Plínio tinha estilo, dominava as ferramentas do ofício e cumpria o papel importante de dar voz àqueles que a sociedade tratava como não-pessoas.

Também era ótimo cronista, sempre flagrando a realidade sofrida das quebradas do mundaréu. Na década de 1970, todo domingo eu lia seus textos no Folhetim.

Foi uma grande perda, quando a ditadura impôs mudanças na Folha de S. Paulo e a degola atingiu o Plínio e também o editor desse suplemento, Tarso de Castro. O tal do Mais+ nunca chegou aos pés do Folhetim.


Cansei de ver o Plínio, em épocas de vacas magras, vendendo seus textos mimeografados na porta de teatros que exibiam peças infinitamente piores que as dele. Uma figuraça.


[Lembrar-me de como ele tirava de letra suas agruras me dava forças quando, na pior crise financeira da minha vida, sobrevivi durante dois meses empurrando meu livro para amigos, conhecidos, colegas -- até do primário!-- e quem mais conseguisse laçar. Fui mascate da própria obra, como o Plínio. E, como ele, sem constrangimento nenhum, pois padecer em decorrência de virtudes não humilha ninguém.]


Acabei, finalmente, identificando-me muito com uma de suas obras, tanto que a vi umas 4 ou 5 vezes: Balada de um Palhaço (1993).


Na minha opinião, tem o que faltava nas anteriores, um pouco de poesia e esperança, pois o realismo áspero, sem contrapontos, é sufocante e claustrofóbico demais.



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