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quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

ESTÁ SE FORMANDO UMA TEMPESTADE PERFEITA. VAMOS SOBREVIVER A ELA?

ian bremmer
MUNDO TERÁ ANOS DIFÍCEIS PELA FRENTE
 COM CRISE ECONÔMICA E GEOPOLÍTICA
Irá a humanidade pique como o barco pesqueiro do filme The perfect storm?
Menos pessoas vivem na pobreza extrema hoje do que viviam em qualquer outro momento da história. 

As pessoas estão tendo vida mais longa do que nunca, são mais instruídas e têm acesso melhor à tecnologia. 

Segundo muitos critérios objetivos, a vida neste planeta nunca esteve melhor do que agora.

O problema é que não é essa a sensação que temos. E, em vista do que vem por aí, essa impressão tem suas razões de ser.

Ao longo de boa parte do século passado, a livre circulação internacional de pessoas, mercadorias, ideias e serviços –ou seja, a globalização– possibilitou eficiências de escala e avanços tecnológicos que ajudaram a melhorar a vida diária de bilhões de pessoas. Muitas pessoas que estão vivendo hoje nunca conheceram um mundo em que a globalização não fosse sinônimo da palavra progresso.

Mas não é mais assim. Como deixaram claro os últimos três anos de caos geopolítico e ascensão do populismo, muitos foram deixados para trás pela globalização –ou, pelo menos, sentem que foram, coisa que tem grande importância quando falamos em democracias. 

Esse tem sido o caso especialmente das classes médias e trabalhadoras dos países industrializados avançados, que enxergam a ascensão de uma nova classe média global na Ásia e América Latina como algo que ocorre à custa de seu próprio bem-estar. 

Pela primeira vez em quase um século o ímpeto por trás da globalização está começando a se enfraquecer.

E isso não poderia estar ocorrendo em um momento pior. O crescimento econômico global está perdendo força, e, após quase uma década de crescimento econômico ininterrupto que se seguiu à Grande Recessão, a economia global parece estar se encaminhando para uma retração.

Visto isoladamente, isso não seria motivo de preocupação especial: as economias tendem a descrever ciclos de sete ou oito anos de boom and bust (expansão e crise), crescendo e se retraindo segundo padrões relativamente bem previstos.

Ao longo do século passado, cada vez que o mundo se dirigiu para um período econômico difícil, o ímpeto da globalização foi afetado. Ele geralmente se recupera –mas não há garantia de que isso ocorra desta vez. Boa parte disso tem a ver com o fato de esta retração econômica particular estar sendo acompanhada por dois fenômenos novos.

O primeiro é a geopolítica atual. As pessoas tendem a falar que a economia se move em ciclos, mas o mesmo ocorre com a geopolítica. Só que os ciclos geopolíticos têm vida muito mais longa –eles se estendem em média por 70 a 80 anos.

Quando a geopolítica está na fase de boom do ciclo, os governos e as instituições internacionais estão bem coordenados e eficazes para resolver as questões globais; os conflitos internacionais diminuem e a cooperação econômica aumenta.

Quando a geopolítica está na fase de bust, a cooperação internacional diminui, acompanhada pela eficácia das instituições, e os conflitos globais crescem.

Não enfrentamos um ciclo de bust geopolítico real desde o final da 2ª Guerra Mundial, e isso ajuda a explicar por que tantas pessoas hoje estão assustadas, mesmo que não consigam necessariamente articular o porquê.

E há a mudança climática. Ela vem chegando há décadas, mas apenas recentemente começou a tornar-se uma questão política genuína, na medida em que os eventos climáticos extremos vêm aumentando de frequência e intensidade, pouco a pouco impelindo a questão das margens para o centro da preocupação política.
E ao mesmo tempo em que o aquecimento global vai ocupando o centro do palco, tornando-se uma das grandes questões existenciais de nosso tempo, os políticos terão menos espaço político e menos recursos para dedicar à questão, à medida que a globalização estaca e que tanto a economia quanto a geopolítica mergulham na fase descendente de seus respectivos ciclos.

Isso tudo significa que neste final de 2019 o mundo moderno se encontra em uma situação em que não esteve até hoje –globalização, geopolítica e economia todas entrando em fase negativa simultaneamente, ao mesmo tempo em que o ambiente físico do mundo se torna cada vez mais inóspito, exigindo uma ação conjunta e coordenada dos políticos do mundo em um momento em que não lhes faltam outras crises com as quais lidar.

Mas nem toda a esperança está perdida. As pessoas podem se consolar com o fato de que mais de 75 anos de globalização sólida tornaram o mundo mais rico e aumentaram seus conhecimentos, algo que sem dúvida ajudará sua resiliência em fazer frente às crises que vêm por aí. 

As pessoas também podem se consolar com o fato de que a geopolítica e a economia se movem em ciclos e que em algum momento futuro vão voltar a ascender. Mas isso vai levar tempo, e enquanto isso, políticos, mercados e eleitores precisam preparar-se para alguns anos difíceis pela frente. (por Ian Bremmer,colunista da revista Time e presidente do Eurasia Group, consultoria de risco político dos EUA)

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A QUASE DESCONHECIDA MINISSÉRIE "HELENA DE TROIA" DÁ DE GOLEADA NA SUPERPRODUÇÃO "TROIA" COM BRAD PITT

Guerra de irmãos: os príncipes troianos Heitor (Daniel Lapaine) e Paris (Matthew Marsden)...
A guerra de Troia até hoje inspira discussões acaloradas entre os historiadores, primeiramente sobre ter ou não ocorrido; e depois, quanto ao que seria reminiscência histórica e o que seria mera fantasia nos textos de Homero, a Ilíada e a Odisseia, os únicos que nos chegaram intactos às mãos. Ela é também citada em seis poemas épicos de outros autores, dos quais só restaram fragmentos.

A evidência mais forte em favor de Homero foi a descoberta das ruínas de várias cidades, construídas e destruídas no sítio por ele indicado. Troia seria uma dessas cidades.

O certo é ele ter nos legado relatos tão apaixonantes que inspiraram um sem-número de películas, algumas dando uma visão global do que teria sido o conflito, outras enfocando-o sob o ponto de vista de um (ou destacando tal ou qual) personagem.

Sobre Ulisses há muitos e o melhor deles é A Odisseia (d. Andrey Konchalovskiy, 1997), minissérie que foi editada como filme para comercialização em VHS e DVD. 
...contra os reis gregos Agamemnon (Rufus Sewell) e Menelau (James Callis).
Troia (d. Wolfgang Petersen, 2004) foi fiel a Homero ao mostrar um Aquiles (Brad Pitt) que tinha mesmo pés ligeiros, mas alterou muitos outros detalhes da trama homérica, enraivecendo os puristas.

Helena, a mulher mais bela de sua época, vem excitando a imaginação dos cineastas desde o cinema silencioso (há um registro de 1927, de um filme chamado The Private Life of Helen of Troy), passando pelos épicos macarrônicos da Cinecittà. 

E até a jovem filha que Agamenon sacrificou aos deuses em troca de bons ventos para sua frota teve direito a um (ótimo) tributo cinematográfico: Ifigênia (d. Michael Cacoyannis, 1977).

Helena de Tróia (d. John Kent Harrison, 2003), cuja íntegra vocês podem ver na janela abaixo, é também um telefilme e tem também uma surpreendente qualidade (a telinha parece destinada a satisfazer os públicos mais exigentes, aqueles que hoje a telona negligencia).
Sienna não convence como a mulher mais desejada de sua época

Centra-se no casal Paris/Helena, que tem sido quase sempre mostrado de forma negativa. 

Desta vez, contudo, Paris é corajoso e digno, um irmão à altura de Heitor; e Helena, uma mulher que atrai o infortúnio e para a qual os desejos que desperta só trazem infelicidade. 

Quando encontra o verdadeiro amor, ela pensa ter finalmente quebrado a maldição, mas vai é provocar a destruição de um país. 

Mesmo Menelau, o próprio símbolo do esposo traído, aparece sob outras luzes. Só Agamemnon continua sendo um vilão, como sempre é mostrado.

Vale por um enredo imaginativo e muito bem costurado, que prende a atenção dos espectadores a ponto de nem sentirmos passar as quase 3 horas de duração; por um tom desencantado e antibelicista quase sempre ausente das obras deste tipo; e pelas atuações corretas dos atores, em sua maioria desconhecidos mas bem escolhidos para seus papéis –com exceção do bombado Joe Montana (Aquiles), que parece ter vindo diretamente do Ultimate Fighting.

Quanto à Helena, seria mesmo difícil os produtores encontrarem alguma atriz que conseguisse convencer como a expressão máxima da beleza e da sensualidade; vai daí que, tanto vestida quanto nua, Sienna Guillory ficou devendo.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

FILME NOS CONVIDA À REFLEXÃO HISTÓRICA: A QUEDA DE ROMA E O MILÊNIO DE TREVAS ERAM MESMO INEVITÁVEIS?

Morte do general romano e do conquistador huno precipitou a barbárie?
Tendo a TV aberta se tornado cada vez mais medíocre e irrelevante, os canais por assinatura passaram a desempenhar a função de respiradouros para os espectadores minimamente dotados de espírito crítico e sensibilidade estética. 

Produções por eles bancadas e comercializadas também no circuíto de DVD e blu-ray são as que hoje melhor atendem às expectativas sofisticadas, mantendo um elo com a vida inteligente que foi banida das Globos da vida. 

Um bom exemplar destes novos tempos é Átila, o huno (2001), disponibilizado na janelinha abaixo. Exibido como uma mini-série de dois episódios, foi depois lançado nas locadoras com sua duração integral de quase 3 horas.

Mesmo sem grandes destaques na direção (Dick Lowry), no roteiro (Roberto Cochran) e no elenco (só o eterno coadjuvante Powers Boothe impressiona), consegue mesclar bem o entretenimento, a reconstituição de época e a reflexão histórica.

Sugere que a única personalidade apta a salvar o Império Romano era o general Flavius Aetius (Boothe); que só o conquistador Átila (Gerard Butler) poderia ter mantido a centralização política e econômica após o colapso de Roma; e que a morte quase simultânea de ambos condenou o mundo civilizado à fragmentação, ruralização e retrocesso, ensejando um milênio de trevas. 

É uma tese fascinante, embora me pareça exagerar o papel do indivíduo na História. Creio que a decadência de Roma já se tornara irreversível e, no máximo, Aetius a retardaria um pouco; e que o Império Huno, mesmo que substituísse o romano, não sobreviveria ao seu criador, acabando por estilhaçar-se da mesma forma. 

Mas, pelo menos Átila, o Huno nos convida a pensarmos a História, ao invés de permanecermos espectadores do passado como o somos do presente. Neste sentido, cumpre muito mais a função da arte do que superproduções majestosas como Tróia, do Wolfgang Petersen (aquele cineasta que, quando foi para Hollywood, deixou todo seu talento na Alemanha...). 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

ESTÁ CHEGANDO UMA TEMPESTADE PERFEITA. SOBREVIVERÁ DILMA A ELA?

Tempestade perfeita foi como os serviços de meteorologia dos EUA designaram um fenômeno ocorrido em outubro de 1991, quando condições de tempo incomuns maximizaram a contundência de uma grande tempestade vinda do Atlântico Leste; os ventos superaram a força de furacão, as ondas foram além dos 9 metros de altura. 

O título original do filme que aqui se chamou Mar em Fúria (dirigido por  Wolfgang Petersen e estrelado por George Clooney), The perfect storm, popularizou mundialmente a expressão, significando um evento desastroso resultante da sinergia de uma série de fatores adversos.

Segundo o cientista social Marcus André Melo, PhD pela Universidade britânica de Sussex (cuja entrevista ao repórter Fernando Canzian, da Folha de S. Paulo, pode ser acessada aqui), é algo assim que se desenha para o Brasil em 2015:
"...há três elementos fundamentais em curso: políticas de austeridade, as pessoas indignadas com escândalos e um possível desdobramento disso nas ruas, como nas manifestações pró impeachment marcadas para o próximo dia 15 pelo país.
No caso de Dilma, isso deve se manifestar de forma muito intensa. Vai haver um descontentamento difuso colossal, mas sem um espaço institucional, as eleições, para a demonstração desse descontentamento. Mas existem as ruas. 
Haverá manifestações, e se elas podem ou não levar ao impeachment, isso vai depender de surgirem evidências mais duras de implicação pessoal da presidente nos escândalos... 
...o governo perdeu o controle político das duas casas no Congresso, na Câmara e no Senado. O partido de sustentação do governo, o PMDB, agora é quase um adversário".
Resumindo: "É um cenário de tempestade política perfeita, com políticas de austeridade ceifando empregos, escândalos enormes e gente na rua".

Com exceção da nova postura adotada pelo PMDB a partir da eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara, tudo isso era facilmente previsível durante a campanha presidencial do ano passado, daí eu ter vislumbrado uma oportunidade interessante quando Marina Silva despontou com força na corrida eleitoral. 

Era a chance de atravessarmos um período muito difícil com uma cara nova (também pertencente ao campo da esquerda) no Palácio do Planalto, ao invés de uma Dilma Rousseff desgastada pela longa permanência do PT no poder, pelo mau primeiro governo e sem grandes metas  para propor, capazes de incutir esperança nos brasileiros. 

A desconstrução de Marina com jogo sujo e propaganda enganosa, erro crasso do PT que poderá ter consequências terríveis adiante, nos colocou na direção da tempestade perfeita. E, como não adianta chorar sobre o eleito derramado, temos agora é de refletir sobre como sairmos da enrascada.

Até agora não caiu para Dilma e os grãos petistas a ficha de que a política de conciliação de classes, estabelecida por Lula na década passada, só teve sucesso devido a circunstâncias que não existem mais. 

A conjuntura econômica internacional favorável permitiu que se aumentasse um tantinho o quinhão do bolo destinado aos mais pobres, sem que, com isto, fossem reduzidos os lucros do grande capital (o caso dos modernos agiotas é emblemático: nunca antes neste país os bancos ganharam tanto como entre 2002 e 2008!).

Agora é a fase das vacas magras, e só não vê quem não quer: por mais agrados e concessões que o governo do PT faça ao poder econômico, nunca serão suficientes para tê-lo como sustentáculo nos instantes dramáticos que se avizinham. Tudo leva a crer que, pelo contrário, verá com bons olhos o impedimento de Dilma, desde que não seja traumático a ponto de prejudicar os negócios.

Daí eu ter proposto, no meu artigo dominical, que o PT reassuma as abandonadas (para dizer o mínimo...) bandeiras de esquerda, pois os que as seguem são os únicos contingentes com os quais poderá contar no momento da decisão. 

Os magnatas que o toleravam em troca da capitulação macroeconômica, os políticos que comprou para "garantir a governabilidade" embora fossem antípodas ideológicos e os coitadezas que nele votavam por causa do Bolsa-Família de nada lhe servirão na hora H. Quem viver, verá.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O RETROCESSO HISTÓRICO PODERIA TER SIDO EVITADO?

Para quem conheceu o cinema comercial de outrora, o panorama atual sugere terra arrasada. 

Épicos como os de David Lean (principalmente A ponte do rio Kwai e Lawrence da Arábia), os grandes westerns de Sergio Leone e Sam Peckinpah, os policiais de Jean-Pierre Melville e Jose Giovanni (tanto os que ele próprio roteirizou e dirigiu, quanto os que se baseiam em suas excelentes novelas), as comédias de Dino Risi e Mario Monicelli não eram sequer considerados filmes de arte; destinavam-se a públicos mais amplos e geralmente os atingiam. 

No entanto, nem de longe eram desprezíveis em termos artísticos. Muito pelo contrário. Tanto que vários deles estão sendo redescobertos e aclamados, merecidamente.

Enquanto isto, a lista das maiores receitas da indústria cinematográfica na atualidade praticamente coincide com a dos abacaxis mais execráveis. Dificilmente ultrapassam a idade mental de 12 anos.

Um respiradouro acaba sendo a TV por assinatura. Produções bancadas pelos canais pagos e comercializadas também no circuíto de DVD e blu-ray tentam atender às expectativas mais sofisticadas, enquanto a TV aberta vai se distanciando vez mais da vida inteligente. 

Um bom exemplar dos novos tempos é Átila, o huno (2001), disponibilizado na janelinha abaixo. Mesmo sem grandes destaques na direção (Dick Lowry), no roteiro (Roberto Cochran) e no elenco (só o eterno coadjuvante Powers Boothe impressiona), consegue mesclar bem o entretenimento, a reconstituição de época e a reflexão histórica.

Sugere que a única personalidade apta a salvar o Império Romano era o general Flavius Aetius (Boothe); que só o conquistador Átila (Gerard Butler) poderia ter mantido a centralização política e econômica após o colapso de Roma; e que a morte quase simultânea de ambos condenou o mundo civilizado à fragmentação, ruralização e retrocesso, ensejando um milênio de trevas. 

É uma tese fascinante, embora me pareça exagerar o papel do indivíduo na História. Creio que a decadência de Roma já se tornara irreversível e, no máximo, Aetius a retardaria um pouco; e que o Império Huno, mesmo que substituísse o romano, não sobreviveria ao seu criador, acabando por estilhaçar-se da mesma forma. 

Mas, pelo menos Átila, o Huno nos convida a pensarmos a História, ao invés de permanecermos espectadores do passado como o somos do presente. Neste sentido, cumpre muito mais a função da arte do que superproduções ambiciosas como Tróia, do Wolfgang Petersen (aquele cineasta que, quando foi para Hollywood, deixou todo seu talento na Alemanha...). 

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