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quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

A SANHA ASSASSINA DE PUTIN

Como é triste constatar que em nome do marxismo se fez uma revolução contra a tirania czarista e que, ao invés de caminharmos para aquilo que foi preconizado pelo próprio Marx, ou seja, uma sociedade comunista, sem estado, sem dinheiro, sem partidos políticos, e com igualdade de oportunidades e direitos, ocorreu uma decomposição de propósitos a ponto de termos oligarcas riquíssimos e um estado governado politicamente por um plutocrata assassino.  

Já se contam às dezenas o número de pessoas mortas misteriosamente na Rússia, e sempre, coincidentemente, são aquelas que de alguma forma ameaçam o poder político de um homem que quer se perpetuar nesse mesmo poder de modo ditatorial perseguindo, prendendo e matando seus opositores, em um país que mantém vivas e atuantes todas as categorias capitalistas.

Não se justifica a invasão da Ucrânia e as mortes de civis por misseis aleatórios - crianças e velhos aí incluídos - apenas por não querer ser membro da tirania russa, e que acena para o ocidente com relações amistosas com a Otan, não menos capitalista e belicista, agrupamento de países sob a forma política da democracia burguesa, uma aparente liberdade política na qual o absolutismo do capital predomina. 

Nessa guerra absurda, à qual Putin denominou de Operação Especial, eufemismo que somente denuncia a sua falta de escrúpulos e tergiversação em dar o nome correto a uma agressão imperialista, já há dissenções entre o povo russo quanto à sua necessidade e que ameaçam o seu poder quase ditatorial. 

É neste cenário que vemos acontecer a morte de Alexei Navaldy, um opositor de peso - apesar das restrições que se façam a alguns dos seus posicionamentos xenófobos e suas ligações com a extrema-direita -, que já havia sido alvo de tentativa de assassinato, mas que voltou à Rússia para lutar e que fora preso, condenado e mandado para uma prisão no ártico, para lá por fim ser assassinado. 

Outras mortes sem explicações convincentes vêm ocorrendo, de magnatas, políticos, mercenários e executivos de estatais, além de perseguições a jornalistas e pessoas influentes, todos mais ou menos dissidentes dos caminhos da guerra: 

- o empresário russo Ivan Pechorin, principal gerente da Corporação para o Desenvolvimento do Extremo Oriente e do Ártico, foi encontrado morto em Vladivostok, no dia 10 de setembro de 2023; 

-  o presidente da Lukoil, segunda maior petrolífera do mundo, empresa de capital aberto, Ravil Maganov, morreu no final de agosto de 2022, após cair da janela de um hospital de Moscou; 

- outro alto dirigente da Lukoil, Alexander Subbotin, morreu em maio de 2022; 

- o chefe da estatal de energia Gazprom, Leonid Schuylman, foi encontrado morto em sua casa de campo, perto de São Petersburgo;  

- Gennadi Lopirev, general russo que chefiou a construção de um palácio para Putin avaliado em R$ 6,3 bilhões, foi encontrado morto na prisão; 

-  o magnata russo Pavel Antov, dono de uma empresa do ramo de suínos, foi encontrado morto em viagem à índia, e dois dias depois de um amigo de viagem morrer sob as mesmas condições; 

- Andrei krukovski, diretor da estação de esqui Krasnaia Poliana, morreu após uma misteriosa queda de um penhasco; 

- Serguei Protosenias, ex-vice presidente da empresa de gás natural Novatek, morreu em abril 2022, em missão na Espanha, juntamente com sua mulher e filha; 

- Vladislav Avaiev, um multimilionário russo, foi encontrado morto juntamente com sua mulher e sua filha, em Moscou; 

- Vasili Melnikov, bilionário da empresa de medicamentos MedStom, foi encontrado morto juntamente com sua mulher e dois filhos, na cidade russa de Ninzhni Novgorod; 

- Yevgeny Prigozin, miliciano chefe do Grupo Wagner, mercenário a soldo do governo de Putin, antigo amigo de Putin, morreu em acidente de avião junto com outros assessores dele após ter contrariado e até ameaçado o Kremlin; 

- Mikhail Watford, um bilionário russo, nascido na Ucrania, foi encontrado morto em Surrey, na Inglaterra, em fevereiro de 2022;    

  Em todas essas mortes misteriosas, por acidentes inexplicáveis ou envenenamentos, há um ponto em comum: a não adesão completa, ou até mesmo discordância com o antigo membro da temida KGB - agora sob a sigla FSB -, Vladimir Putin, que há 23 anos está no poder - contando o tempo como Primeiro Ministro de Boris Yeltsin -, e que quer continuar até 2031 ou enquanto viver.  

Dissemos em artigo publicado no início da invasão à Ucrania que Putin já havia perdido a guerra naquele momento, mesmo considerando a enorme diferença de forças bélicas e contingentes de militares da Rússia em relação à Ucrânia.  O resultado bélico previsível não se confirmou totalmente e a guerra se prolonga por dois anos. 

Mesmo que Putin consiga ganhar a guerra ou apenas manter sob suas garras a parte leste da Ucrânia invadida por ele, isto não será positivo no balanço de perdas e ganhos, do ponto de vista econômico e geopolítico. 

Disse isso porque a Rússia, apesar de ser um país de dimensões territoriais gigantescas - a maior do mundo, com cerca de 17 milhões de km², o dobro do Brasil -, e com baixa densidade demográfica - 143 milhões de habitantes enquanto o Brasil tem 210 milhões -, considerando o seu tamanho, e capacidade de se fechar intramuros para sobreviver, o seu povo deveria sentir profundamente o isolamento que viria a seguir, e que já está ocorrendo, especialmente num país que tem relações capitalistas externas e internas que necessitam de conexões com a economia capitalista globalizada.  

Mesmo que a China venha em seu socorro, por interesses geopolíticos do capital, e faça uma conexão com o restante da Ásia populosa, incluindo-se a Índia, que hoje é o país mais populoso do mundo, a Rússia de Putin deixará de ter algum protagonismo no cenário mundial para se submeter a uma nova ordem de blocos hegemônicos capitalistas que está a querer se consolidar num estágio de falência global.  

O capitalismo é canibalesco, e a disputa de mercado induzida por sua lógica, não permite solidariedade sem troco, e a pobreza de quem fica para trás logo aparece vitimando a maioria dos trabalhadores abstratos.  

Isso se o país de Putin, que tem a bomba atômica e está a ameaçar a humanidade, sentindo-se acuado, não acione a seu poderio bélico nuclear, e a humanidade seja destruída, ou ainda, se o aquecimento global não ocorra de modo a inviabilizar a vida animal e vegetal do nosso planeta. 

Ou superamos o capital e construímos uma nova ordem de convivência pacífica e solidária, ou vamos terminar despencando no abismo para o qual estamos sendo conduzidos pela insanidade de uma lógica de produção e organização sociais belicista e letal. (por Dalton Rosado) 

domingo, 17 de dezembro de 2023

OS PRINCÍPIOS HUMANISTAS NÃO SÃO NEGOCIÁVEIS!

 

que diferencia um revolucionário emancipacionista e suas proposições de um comportamento conservador de direita é que colocamos o ser humano acima da lógica escravista e segregacionista do capital.  

Para nós, o respeito e a solidariedade ao ser humano devem se expressar na preservação da sua integridade e dignidade física e moral sob um código ético consentâneo com o senso de realização do ideal de justiça.  

Afinal, como disse Thomas Mann, “o humanismo nada mais é do que o amor pelos seres humanos, apenas isso”, e Karl Marx disse que “ser radical é tomar as coisas pela raiz e a raiz é o homem”. É neste sentido que somos radicais.  

Por acaso o povo da República da Guiana, cuja etnia é formada por 81% de índios e afro-americanos, majoritariamente pobres, merece ser atacado por uma pretensa decisão do povo venezuelano - questionável por conta de uma votação de baixo quórum e controlada por um aparelho militar ostensivo -, que teria autorizado o seu governo a invadir um país vizinho por ocupação militar territorial e político-administrativa?  

Seria razoável do ponto de vista humano uma guerra com suas costumeiras mortes e destruições numa tentativa de ocupação de cerca de 75% do território vizinho, cujas terras recentemente se teve conhecimento de que passaram a ser ricas em recursos minerais de alta qualidade cuja extração barata é alvo da cobiça pelo capital cujos correspondentes usos são poluidores da atmosfera e hoje são questionados por aqueles que ali em Essequibo os exploram, mas que discutem hipocritamente sua substituição e a inclusão da energia limpa na COP28 em Dubai, Emirados Árabes?   

Por acaso ao invés de atacar esse país guianense e seu povo, com o fito de explorar petróleo, gás e ouro, reeditando o que faz a Exxonmobil estadunidense e empresas chinesas que ali estão instaladas buscando lucros sem pejo de promover o aquecimento do Planeta, não deveria um governo que se diz de esquerda ter uma postura de preservação da dignidade humana de todos, dos seus nacionais e vizinhos, suas integridades físicas e morais e propor a solidariedade entre os povos contribuindo para o seus engrandecimentos físicos e intelectuais num contexto de produção de bens e serviços ecologicamente sustentáveis e sem a intermediação negativa e escravista do capital e sua repugnante e limitativa regra da viabilidade econômica para cada ato social, ao invés de se armar e propor a guerra?  

Será que ser racional e humano é otimismo de um pensar ingênuo e impraticável?   

Infelizmente, deste os tempos da pós-revolução bolchevique de 1917, questionar desvios comportamentais da esquerda, quando negadores de princípios humanistas, tem sido considerado como uma doença infantil que disfarçaria um espírito burguês pouco consistente perante a contrarrevolução burguesa, que sempre existe. Stalin, Putin, Mao Tse Tung, Deng Xiao Ping, Hugo Chavez, Daniel Ortega e tantos outros que o digam.  

O imediatismo de interesses governamentais verticais do Estado dito proletário, que tudo desculpa em nome da preservação de uma revolução que nada revoluciona, ao invés de aglutinar um sentimento de resistência à lógica do capital, e em nome de uma governabilidade ameaçada pelas forças do capital, tem sido considerada como a desculpa para a preservação das categorias capitalistas fundantes.  

Em todos os países que fizeram a chamada revolução proletária estiveram sempre presentes as categorias capitalistas que dão sustentação ao modo de relação social negativo do capital, quais sejam: valor abstrato e sua representação numérica pela mercadoria dinheiro, a única sem valor de uso; trabalho abstrato; mercadorias sensíveis e serviços; mercado; acumulação de capital e sistema bancário; direito de propriedade; estado e suas instituições elitistas, partido político e político.  

A preservação de tais categorias nos países do chamado socialismo real é de tal forma predominante em relação à vontade política, que viciam o mecanismo político governamental, submetendo-o e o distanciando dos princípios humanistas em nome dos quais foram feitas as revoluções pretensamente anticapitalistas. Uma contradição no objeto, como diria Karl Marx a estes marxistas.  

A lógica do capital é uma abstração numérica de produção e reprodução necessariamente aumentada de valor que tende ao infinito, mas que esbarra na finitude da capacidade de consumo predeterminada por vários fatores, e que transforma os objetos e atividades de serviços necessários à vida social em mercadorias que nada mais são do que meros instrumentos utilitários de sua existência negativa e segregacionista, ou seja, a produção e o consumo de mercadorias num processo social desequilibrado se constitui como uma equação matemática sem solução.  

É por isso que se destrói alimentos produzidos de forma excedente que possam afetar o mercado, mesmo que haja fome entre a população incapaz de aquisição da mercadoria alimento, o que bem demonstra o que dizemos.  

A sua irresolubilidade decorre do limite da capacidade de consumo humano natural ou forçada pela perda do poder de compra de mercadorias, ainda que estas estejam sempre reduzindo seu valor e preço, o que resulta, inevitavelmente da autodestruição da própria forma de relação social, mas não sem antes nos levar à destruição da própria vida humana pelas muitas formas nas quais isto pode ser tornar possível, como pela guerra, aquecimento global, poluição do solo, subsolo, rios, lagoas e oceano.   

A obediência de governantes despostas à lógica do capital, sejam eles capitalistas estatistas e privatistas, é o que está na base de comportamentos quais sejam:  

- invasão genocida da faixa de Gaza pelo governo desgastado de Israel apoiado pelos Estados Unidos;  

- apoio logístico e financeiro dos Estados Unidos aos golpes militares na América do Sul;  

- tentativa de anexação da Ucrânia pela Rússia imperialista e seus magnatas donos das antigas empresas estatais;   

- as permanentes tentativas chinesas de anexação de Taiwan;  

- tentativa de anexação da República da Guiana pelo governo totalitário bolivariano da Venezuela -Simon Bolívar deve estremecer do túmulo ao ouvir o uso do seu nome para procedimentos antilbertários;   

- exploração de petróleo pela Exxonmobil na República Goiana e correspondente aviso estadunidense sob um conflito bélico com recentíssima movimentação de tropas e equipamentos militares no interior da República da Guiana.   

A tensão na região do Essequibo da República da Guiana pode ter dimensões maiores do que originalmente se supunha.   

Não apenas Estados Unidos e Reino Unido de um lado, mas a Venezuela e a Rússia, que tem sido uma aliada dos governos venezuelanos desde Hugo Chavez e que para ele vendeu aviões de caças que estão nas mãos do corrupto exército bolivariano, estão à espreita dos próximos movimentos de peças, mas também a China, que têm interesses econômicos já instalados na região.  

Para se ter uma ideia da ligação do governo da República da Guiana com a China, por lá circula um jornal de notícias internacionais que somente fala das virtudes e crescimento econômico chinês. Como se vê, a riqueza mineral do Essequibo despertou o interesse do capital internacional como abutres que farejam uma carcaça a ser devorada.  

Nesse sentido, pergunta-se: esse teatro de prenúncio de guerra por riquezas materiais aptas a se transformarem em riquezas abstratas poluidoras, é alguma coisa compatível com o sentimento anticapitalista de solidariedade humanista, preservacionista da ecologia sustentável e emancipacionista que devemos defender?  

A esquerda verdadeiramente anticapitalista somente consolidará uma reputação humanista capaz de lhe conferir credibilidade, mesmo que no longo prazo, a partir da tomada de posições contra as causas da barbárie em curso e em defesa da vida humana nos mais diferentes momentos de sua existência e se posicionando corretamente diante dos aspectos cotidianos da atual realidade social caótica.  

Três itens programáticos.  

  01. São causas primárias a serem negadas:  

- a relação social sob a forma valor;  

- a mercadoria - dinheiro e valor de troca;  

- o estado, governantes, seus impostos, suas instituições, partidos e segmento político;  

- a democracia burguesa e seus instrumentos de manipulação da vontade popular;  

- o totalitarismo eletivo ou militar;  

- o mercado;  

- o sistema financeiro;   

02. São decorrências sociais das causas acima elencadas a serem denunciadas:  

- o aumento da fome no mundo;   

- a barbárie da violência urbana coletiva e rural na qual um celular ou uma vaca vale mais do que uma vida;   

- as guerras quaisquer que sejam as suas motivações confessadas ou inconfessáveis;  

- a predação ecológica em seus vários níveis.  

- a desassistência médico-hospitalar da população;  

- a falta de habitação digna;  

- o desamparo à velhice e à invalidez;  

- a deficiente ou inexistente educação escolar e seu conteúdo que positiva aas categorias capitalistas - principalmente trabalho e dinheiro;  

- o deficiente abastecimento de energia e água - caros e de pouco acesso;  

- a decomposição da arte e dos esportes como mercadorias;  

- a dissociação de gênero;  

- todas as formas de segregação social e crimes contra a pessoa;  

- a xenofobia, o racismo e supremacismo racial, a homofobia e a misoginia;   

- a desesperança.  

03. São proposições básicas que formatam uma relação social capaz de dar início ao combate às causas e consequências nefastas do capitalismo:     

- produzir bens de consumo e serviços sem o entrave da viabilização econômica, mas apenas para satisfazer necessidades de consumo, ou seja, produzir coletivamente para consumir coletivamente e sem ônus sob a forma valor - dinheiro e mercadorias;  

- organizar a sociedade sob um critério jurídico-constitucional de base comunitária que incorpore os conceitos humanitários de apropriação da riqueza material sob cânones civis, penais e administrativos que reflitam o direito como realização da justiça social e individual.  

Qualquer que seja a luta contra a negação dos princípios humanistas, aí estará evidenciada a postura emancipatória da humanidade de uma esquerda digna desse nome.  (por Dalton Rosado) 

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

SE LULA FOR COMUNISTA, HITLER É DEMOCRATA! – 2

(continuação deste post)
A
s experiências iniciais sob o receituário marxista-leninista em países originalmente rurícolas como a Rússia e a China, optaram por uma acelerada industrialização sob os moldes capitalistas e conseguiram recuperar no tempo o atraso de suas relações sociais, feudais ou semifeudais, em relação ao republicanismo capitalista.

Como esses dois países têm dimensões continentais, foram capazes de suprir internamente as suas carências materiais e avançar na recuperação do atraso das suas relações econômico-industriais com o ocidente capitalista, branco e masculino tecnologicamente desenvolvido socialmente, mas cindido em classes sociais distintas.

No entanto, como o uso do cachimbo entorta a boca, os revolucionários sucumbiram frente aos burocratas do partido comunista que se assenhorearam do poder político.

Deu-se então uma intensificação das relações capitalistas de Estado até a abertura ao capitalismo de mercado mundial. Isto porque o capital é viciante e os que caem nas suas garras, como os jogadores num cassino, ficam ávidos por acumular ganhos que só são garantidos para os banqueiros da jogatina (estes sempre lucram e o conjunto dos apostadores sempre perde, embora um ou outro deles se saia bem, até para que o restante mantenha sua ilusão de que um dia quebrará a banca). 

Como se considerar comunista um país como a China, que oferece ao mundo mercadorias baratas a partir de uma produção empresarial capitalista de extração brutal de mais-valia? Na verdade, o que a China faz é solapar os fundamentos capitalistas atuais adotando a desumanidade extrema de uma fase anterior, a do capitalismo selvagem.

Mao Tsé-Tung provavelmente jamais terá imaginado que sua vitoriosa revolução armada de 1949 contra os nacionalistas de Chiang Kai-shek iria debilitar o capitalismo mundial usando as regras de mercado do próprio capitalismo como fatores desestabilizadores do dito cujo (além de semear a confusão ao intitular-se falaciosamente como comunista).

O que dizer da Rússia, atualmente governada por um ditador plutocrata que, incapaz de vencer a guerra contra o país menor e menos populoso por ele invadido injustificadamente, torna-se um covarde franco atirador de mísseis de longa distância que matam civis a esmo?

A confusão semântica sobre o conteúdo do receituário marxiano de comunismo, identificado nos maus exemplos da Rússia e da China num mundo de economia capitalista globalizada, é largamente fomentada pelos capitalistas em geral.

Capitalismo ocidental é hoje a mesma coisa que capitalismo eurasiano, com diferenças cosméticas apenas no campo da forma política de governo.

Não, senhores, o capitalismo de Estado não é comunista e opera sobre as mesmas bases categoriais do capitalismo de mercado liberal clássico ou keynesiano social-democrata.

Estas três formas de capitalismo representam o oposto ao preconizado no ideário comunista. Este, pelo contrário, seria capaz de promover prosperidade linear, paz e elevação do intelecto humano, ao invés da atual miséria material de fome e pobreza eco/suicida capitalista.

Um provérbio chinês diz que a palavra ensina, o exemplo arrasta; realmente, os exemplos do que seria um caminhar para o comunismo idealizado foram péssimos e deseducativos.

No meu entender, Rússia e China poderiam haver tomado rumos diferentes dos adotados, já que dispunham de trunfos consideráveis, tais como suas dimensões continentais e capacidade de suprimento das próprias necessidades de consumo. 

É possível que isso contrabalançasse sua manutenção sob isolamento econômico por parte das grandes nações capitalistas (que, ademais, enviaram tropas para combater a nascente república soviética e insuflaram/financiaram ações contra-revolucionárias).

No entanto, ao invés de negarem as categorias capitalistas, tais nações estimularam e incentivaram a existência das ditas cujas sob um monopólio estatal de mercado interno que é o pior modelo de concorrência de produção e comercialização. Paulatinamente, ambas acabaram se direcionando para um capitalismo liberal, acolhendo o capital externo e passando a com ele concorrer sob uma mesma lógica.

Ora, para manter as rédeas de um regime de exploração sob o qual os trabalhadores produtores de valor jamais se beneficiaram com a riqueza abstrata por eles produzida, vieram regras de contenção política em nome de um comunismo que jamais existiu e que nega todo o primado de socialização comunista de fraternas relações humanas.

Assim, a propaganda ideológica capitalista passou a rotular como comunistas exemplos históricos que, mais do que semelhantes, são idênticos aos dos opressores: excludentes e exploradores. Ou seja, os mesmos pecados originais do capitalismo liberal ocidental clássico, mas com o defeito adicional de serem politicamente fechados e opressores.

Ao longo da história, as mutações semânticas são frequentes e intencionais. Exemplo disto é a palavra democracia, hoje tida como critério inquestionável de participação popular saudável.

Tal termo, na Grécia antiga, significava uma opção ao poder centralizado num monarca, contrapondo-lhe uma diluição que propiciasse aumento da participação social. Mas tal participação excluía os escravos que existiam em grande número. 

Somente os demos (uma casta de cidadãos privilegiados) podiam ter voz nas audiências públicas de deliberação. Ou seja, a democracia grega não era tão democrática assim.

Do mesmo modo a democracia burguesa moderna, regida pelo poder econômico dominante e dentro das regras preestabelecidas pela ordem jurídico-constitucional capitalista, não representa a livre manifestação consciente do eleitorado manipulado e vigiado (principalmente nas regiões mais afastadas do interior, onde reside a maioria dos eleitores).

Isto não significa que o oposto irrecusável da democracia burguesa seja a ditadura, como pedem os fanáticos seguidores do Boçalnaro, o ignaro. Se a democracia burguesa não passa de uma arapuca de representação popular, a ditadura é a prisão dentro da arapuca.

Como vimos, a repetição exaustiva de um conceito deturpado de comunismo, baseado em exemplos negativos de socialização sob valores comunistas deturpados e descaracterizados, consolidou uma noção de que ser comunista é querer conquistar governos para apropriar-se da riqueza socialmente produzida e agir de modo despótico, mazelas frequentes no capitalismo.

Daí eu utilizar a palavra
emancipacionismo (que não é criação minha, mas da turma da crítica radical social marxiana do valor) como
 ideal de realização da justiça social a partir de critérios de produção social:
— fora da lógica capitalista da forma-valor; 
— sob novos cânones do direito; e 
— sob critérios de organização jurídico-constitucionais de base popular.

A direita derrotada qualifica Lula de comunista, mas é uma pecha tão obtusa quanto seria intitular Hitler de democrata. (por Dalton Rosado)

sábado, 5 de março de 2022

A ECONOMIA RUSSA IRÁ DE FATO AO COLPASO COM AS SANÇÕES?

Desde a imposição de sanções financeiras à Rússia por parte dos países da Otan, como contra-ataque à guerra na Ucrânia, muito se diz na mídia e entre as pessoas do possível impacto gerado na economia daquele país. 

De fato, a maioria das sanções dificulta imensamente a vida russa. O cerne delas está na capacidade do país de fazer comércio internacional de modo desembaraçado e de receber investimentos estrangeiros. 

A retirada, p. ex., de vários bancos  não de todos, vale lembrar  do sistema de pagamentos mundial transformou em inferno a entrada e saída de divisas. 

Este fato, somado ao confisco dos dólares de Moscou investidos na dívida estadunidense, diminuíram sensivelmente a capacidade de pagamentos externos, praticamente inviabilizando o comércio exterior. 

Ao mesmo tempo, a saída massiva de investidores do país também provoca uma queda imediata do fluxo de recursos, reforçando a queda de divisas. O resultado é o choque no valor do rublo, o que, em se tratando de um país com forte importação de produtos manufaturados e serviços, gera imediata pressão inflacionária.

A arma adotada pelos países da Otan, portanto, foi a guerra financeira contra a Rússia, usando o dólar e o euro, as moedas dominantes do sistema financeiro mundial. 

A população russa sentirá no bolso o resultado deste choque. No entanto quem sentirá mais será justamente a classe dominantecomposta pelos magnatas bilionários, pois vai ser forçada a converter suas fortunas, hoje em dólar e euro, para o rublo enfraquecido, perdendo bilhões no processo.
Um dos pomos da discórdia: o gasoduto Rússia-Alemanha.
Com seu contorno marítimo, ele tira royalties das
empresas estadunidenses na Ucrânia. 
[E, o que é mais doloroso para ela, ficará incapacitada de usufruir na Europa Ocidental de toda sua riqueza.]

No entanto, isto colocará a Rússia de joelhos a ponto de ser um calo no pé de Putin? Minha hipótese é que não.
 
Para entender isso, é necessário ter um panorama da economia russa e de seu comércio exterior. A terra de Tolstói possui uma capacidade produtiva imensa, sendo atestado por alguns dados: 
— é a terceira maior produtora de ouro;
 — é uma das maiores produtoras de tecnologia aeroespacial;
— possui um dos maiores parques de indústria pesada; 
 é uma das maiores produtoras de trigo e a maior exportadora do produto;
— é uma das maiores produtoras de tecnologia, tendo, em dez anos, aumentado em mais de 10 vezes o PIB no segmento; 
— possui o seu próprio sistema de buscas, o Yandex, usado por cerca de 60% da população.Só estes fatos já mostram não ser a economia russa uma Venezuela ou um Irã, países também pressionados por sanções estrangeiras. 

Só estes fatos já mostram não ser a economia russa uma Venezuela ou um Irã, países também pressionados por sanções estrangeiras. 

É verdade que muito disso poderá sofrer com a asfixia de investimentos externos, mas a produção de recursos, sobretudo de produtos industriais, minerais e agrícolas, também tem o objetivo de atender o mercado externo, principalmente europeu. 

Neste particular, o comércio com a União Europeia é intenso, sendo atestado por estes números:
—5% de todo o comércio do bloco é com a Rússia; 
Biden repete a tática de sancionar usada com Venezuela
e Irã. Ela funcionará com um país do porte da Rússia?
 
— 37% das importações russas provêm da UE;
—38% das exportações da UE vão para a Rússia;
— o total das transações entre UE e Rússia foi de 174,3 bilhões de Euros em 2020 (cerca de 1 trilhão de reais); 
— a Europa compra cerca de 67 bilhões de Euros da Rússia (cerca de 420 bilhões de reais) só em petróleo;
— 26% do óleo e 40% do gás usados pela Europa provêm da Rússia. 

Estes números mostram o quanto a Europa depende de Moscou, seja para importar recursos minerais, seja para exportar produtos. É, portanto, sintomático que as sanções não tenham atingido o nível de um bloqueio comercial, mas apenas financeiro. 

Avançar para um bloqueio total contra a Rússia seria trágico para a Europa, pois faria disparar os preços de insumos básicos e desabasteceria a indústria e a própria alimentação europeias. Por isto, é pouco provável que tal aconteça. 

As sanções financeiras poderão surtir efeito no curto prazo, mas no médio e longo a tendência é perderem eficiência. O motivo para isso é a pujança econômica da Rússia, autossustentável em produtos industriais de base, minerais e agrícolas, e a necessidade que outros países têm de comprar dela. 

O mais provável é que ocorra um rearranjo da organização da economia do país, com uma centralização ainda maior no Estado e a nacionalização de setores hoje parcialmente sob controle estrangeiro. 

Mesmo o choque de divisas poderá ser solucionado mediante a adoção de outras formas de pagamento e mesmo por meio do rearranjo do fluxo com países não alinhados à Otan. 

O fato de as ditaduras árabes terem permanecido ao lado de Putin é um indicativo de que o país não está totalmente isolado, o mesmo sendo dito a respeito da América Latina e de várias nações da África. 
O que podemos estar assistindo é o aprofundamento da divisão da ordem capitalista em blocos cada vez mais antagônicos, ou seja, à uma globalização estilhaçada. 

Hoje, a única forma de colocar de fato a Rússia de joelhos seria o bloqueio comercial completo, mas isto, como disse, é algo distante. Então, acredito que a Rússia poderá até mesmo sair mais fortalecida no médio e longo prazo desta crise, num fantástico efeito-rebote. (por David Emanuel Coelho

domingo, 2 de junho de 2019

REFORMA DA PREVIDÊNCIA DESLANCHARÁ RECUPERAÇÃO ECONÔMICA? PAULO GUEDES ESTÁ NOS IMPINGINDO GATO POR LEBRE...

Já o mercador de ilusões Guedes nem tenta ser simpático...
elio gaspari
A FÁBULA DO INVESTIDOR ESTRANGEIRO
O governo, o mercado e os bumbos da orquestra garantem que, uma vez aprovadas as reformas do Posto Ipiranga, a economia brasileira entrará num ciclo virtuoso. Tomara. Em tese, há bilhões de dólares esperando o sol nascer para jogar dinheiro no Brasil.

Imagine-se um investidor belga que já pôs milhões no Chile, reunido em Bruxelas para decidir um investimento.

Seu consultor informa:
— O novo presidente do Brasil quer abrir a economia, está afrouxando as leis do meio ambiente, fez uma faxina no marxismo cultural e combate os movimentos LGBT.
— E como são suas relações com os políticos?
— Ele diz que não negocia no varejo.
— Ele manda no Congresso?
— Ainda não, mas promete apertar os parafusos.
— Manda no Judiciário?
— Não, tudo depende das turmas do Supremo, mas o presidente do tribunal tem a sua simpatia.
— Manda na imprensa?
— Ele tem apoio nas redes sociais e em algumas redes de televisão.
— Tem apoio popular?
— Ele prometeu acabar com o ativismo, mas há manifestações de rua de estudantes contra o governo.
— Sua política econômica nos favorece?
— Ele tem um passado estatista, mas é um liberal converso. Nos primeiros três meses de governo a economia encolheu 0,2%.
— Como anda a economia do Chile?
— No último trimestre ela cresceu 1,6%. O presidente Sebastián Piñera é um conservador que sabe operar pelas regras do jogo.
— E a da Rússia?
— Cresceu 2,3% no ano passado.
— Então vamos continuar no Chile e botar esse investimento na Rússia. Lá o Vladimir Putin já fez o serviço que esse brasileiro promete. (por Elio Gaspari)

quinta-feira, 25 de abril de 2019

O MUNDO ESTÁ PRENHE DE REVOLUÇÕES – 3

(continuação deste post)
Índia: "bomba-relógio com data marcada para explodir".
A Índia, com seus 1,3 bilhão de habitantes (outros 20% da população mundial), segue os passos da China: tanto quanto o seu populoso vizinho, está fadada a contribuir para o colapso das relações comerciais mundiais e de crédito. 

São dois gigantes populacionais com renda per capita baixa (e concentração de riqueza abstrata alta) a concorrerem no previamente delimitado mercado mundial, que é cada vez mais recessivo por força da perda de poder aquisitivo coletivo causada pelo desemprego estrutural.  

A perspectiva de um colapso no sistema creditício mundial, que vive de créditos baseados nas adimplências futuras (hoje altamente duvidosas) e dos juros da dívida pública mundial impagável, corresponde a uma bomba-relógio com data marcada para explodir. 

A maior parte do mundo árabe-asiático experimenta os dissabores da miséria e da opressão político-religiosa-monárquica; é nesse caldo de cultura que surgiram diversos grupamentos fundamentalistas político-religiosos (Estado Islâmico, Al Queda, etc.) que leem o alcorão sem a devida interpretação metafórica e temporal, adaptando os seus ensinamentos de um modo rigidamente ultrapassado e cruel. 

Mesmo os países árabes que se tornaram ricos em reservas de petróleo, veem-se hoje às voltas com: 
Fundamentalistas religiosos: "ultrapassados e cruéis".
— as restrições ao consumo do combustível fóssil (por seu alto poder poluente da atmosfera), com o consequente aumento das exigências sociais de uso cada vez mais expressivo de fontes energéticas alternativas e limpas; e
— o acirramento da competição no mercado internacional em função de outras descobertas de reservas petrolíferas em várias regiões do planeta

Após a desintegração da União Soviética, os povos eslavos da Eurásia (tal como a Rússia) adotaram o modelo mercantilista liberal, numa transição política imposta pelas exigências de mercado, uma vez que o capitalismo de Estado neles praticado os tangia para a estagnação econômica. 

Tudo se deu sem que fosse disparado um tiro sequer e de modo que a natureza básica das relações sociais mercantis ali vigentes permanecessem intactas, adaptando-se politicamente às novas exigências de mercado.    

Podemos concluir que o populoso e extenso continente asiático, com suas imensas variações de climas e topografias, é o retrato do mundo nesse início de século 21: envolto em guerras, miséria e graves conflitos político-econômicos, tudo como consequência da saturação do modelo capitalista que media as relações sociais em todo o seu território
Isto também é Europa. Mais precisamente, Portugal.
A cena da União Européia – a Europa é o berço da civilização capitalista na qual predomina o (dito civilizado) patriarcalismo branco ocidental. 

Lá ocorreu a primeira revolução industrial burguesa (na Inglaterra, por volta da metade do século 19) e foi justamente lá o epicentro das duas grandes guerras mundiais, com seus cerca de 60 a 70 milhões de mortes para uma população mundial de pouco mais de 2,0 bilhões de habitantes (3% da população mundial). Isto é o capitalismo: um modelo genocida.

A Europa, certamente ressabiada com os conflitos históricos entre os países que a compõem, vem promovendo a ideia de criação de bloco continental no qual se opere o livre comércio e uso de moeda unificada como forma de se evitar os conflitos bélicos do passado e fortalecer economicamente os países que se situam no seu território. 

O dístico da União Europeia, sob a expressão latina In varietate concordia (unidos na diversidade) aponta na direção do futuro, quando os continentes, fortalecidos por regiões unificadas em blocos e conectados por interesses transnacionais comuns, superarão os sentimentos nacionalistas xenófobos e exclusivistas. 
O contraste entre os pobretões da Europa e a prosperidade alemã chega a ser chocante
O complicador da boa intenção europeia é a unificação em bloco ser mediada por relações de produção capitalista díspares (ou seja, com níveis de produtividade diferenciados), o que desequilibra a balança da livre concorrência de mercado entre os membros da UE. 

Os níveis de desemprego nos 28 países que a compõem dão bem a dimensão do problema. Enquanto a desocupação da mão-de-obra atinge 18,5% na Grécia, 14,45% na Espanha, 10,7% na Itália e 8,0 na França, há nações prósperas nadando de braçada, como a Alemanha (3,1%) e a Inglaterra (3,9%). Alguns países europeus menos desenvolvidos apresentam taxas de desemprego ainda maiores.  

A disparidade de renda per capita entre os membros da UE é abismal, daí a inviabilidade das pretensões, mesmo quando sinceras, de humanizar-se o capitalismo, pois tais boas intenções sempre se chocam com sua dinâmica autotélica. 
O que restará desta pompa após o desastroso Brexit? 

A União Europeia se constitui como um continente de países ricos e exportadores de manufaturas e tecnologia de ponta, nos quais estão sediadas grandes empresas (das 500 maiores companhias do mundo, cerca de 161 têm suas sedes na UE).

Entretanto, a dívida pública e privada da UE é de cerca de 81,6% do PIB, o que representaria uma receita de caos, não fossem as baixas taxas de juros cobradas por essa dívida impagável no curto prazo.

A população da União Europeia é pequena se comparada à população mundial, pois seus cerca de 500 milhões de habitantes correspondem a apenas 7,3% da dita cuja; mas tem um PIB de cerca de 15,7 trilhões de euros (20% do PIB mundial). 

Entretanto, apesar dos seus bons indicadores econômicos, o crescimento do PIB na zona do euro se situa entre 1,8% a 1,9%, com tendência de queda para o ano de 2019.  

E problemas como a previdência social e a perda de poder aquisitivo para uma população culta e com senso crítico acurado costuma ser fator de ebulições sociais, tais quais as que vêm ocorrendo na França com os manifestantes de coletes amarelos.

São os desníveis de competitividade econômica e de desemprego que estão na base de sentimentos separatistas como o Brexit inglês e outros graves problemas de sustentabilidade político-econômica europeia. O capitalismo separa o que o bom senso procura unir. (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

segunda-feira, 11 de março de 2019

BRASIL, ARGENTINA E VENEZUELA: O QUE OS TRÊS TÊM EM COMUM?

Antonio Gramsci
A população dos três países que formam a maior parte da costa leste da América do Sul soma cerca de 285 milhões de habitantes que corresponde a cerca de pouco mais de 60% da população de todo o continente.

São países ricos em riquezas materiais:
— a Argentina tem solo fértil e regime de chuvas regulares, além de riquezas minerais consideráveis;
— o Brasil continental é materialmente rico sob qualquer aspecto que se queira analisar; e
— a Venezuela detém uma das maiores reservas petrolíferas do mundo, gás natural e importantes recursos minerais.

Entretanto, padecem sob o critério socialmente opressor da riqueza abstrata. 

A Argentina encara uma inflação de 50% ao ano; taxa de desemprego de 10%; sua moeda, desvalorizada, vale cerca de 10% do dólar estadunidense; e o Produto Interno Bruto apresenta queda renitente. 

O País vive crise cíclicas cada vez mais próximas. Sucedem-se governos e mais governos e a trajetória falimentar é a mesma.

O atual é encabeçado por Maurício Macri, democraticamente eleito e de inclinação conservadora, alinhado a tudo que representa o interesse da economia mundial. Ele recorre ao Fundo Monetário Internacional para pedir socorro financeiro, aceitando a imposição da ortodoxia do ajuste fiscal como forma de extirpar aquilo que considera como nexo causal do cancro econômico capaz de tudo corroer.

São remédios amargos, incapazes de debelar a infecção orgânica gerada pela própria natureza funcional de um sistema de produção social e de mediação social contraditório na sua essência e que caminha para o colapso, queiram ou não os seus beneficiários.  

Brasil, por seu turno, padece sob uma taxa de desemprego renitente, situada em torno de 11% (que corresponde a um total de 12 milhões de trabalhadores aptos ao trabalho, mas submetidos ao desespero de não poderem vender a única coisa que têm, a força de trabalho).  

Pagamos juros altos, que correspondem ao dobro de todos os custos referentes à previdência social (suprimi-los, portanto, tornaria desnecessária a reforma previdenciária!).

E ainda temos um agravante: elegemos um presidente primário. que parece usar aquelas viseiras laterais que impedem a visão periférica, além de influenciado por filhos desequilibrados e deslumbrados com as perspectivas do poder. O resultado é um governo desconexo. 

Enquanto isto se clama por mais emprego, quando, na verdade, ao invés de procurá-lo, deveríamos superá-lo e substitui-lo por um modo de participação coletiva na produção, voltando-a para o interesse social e não para o lucro. Assim:
— diante da falta de emprego, deveríamos abolir o emprego; 
— diante da impossibilidade irreversível da retomada do crescimento, deveríamos abandonar a miríade do crescimento econômico (sempre excludente); 
— diante da queda do nível de empregabilidade, os sindicatos deveriam se voltar para o chamamento à produção sem valor, objetivando a satisfação das necessidades de consumo coletivos. 

Que tal, p. ex, ocuparmos a fábrica da Ford Caminhões no ABC paulista, que informa o fechamento de sua unidade fabril-automotiva, e, ao invés de aceitarmos a paralisia, mantermos, dentro do possível, os metalúrgicos em atividade produtiva (sem vender caminhões, mas produzindo-os para transportarem aquilo de que nosso povo realmente precisa, sem o tacão deletério abstrato da forma-mercadoria)?  

Venezuela dispensa comentários. É garroteada por uma ditadura militarista que, embora se diga anticapitalista e anti-imperialista, busca apoio capitalista na Rússia e na China, como pretenso contraponto seus (também capitalistas) inimigos. Ou seja, está perdida em meio aos próprios equívocos sócio-conceituais.

Nota bene: a Venezuela recorre, assim, aos participantes da guerra pela hegemonia de um capitalismo em fim de feira, que tenta restaurar a guerra fria dos pós guerra. 

Nada mais é do que uma figura caricata de um marxismo tradicional que se esgotou historicamente justamente por ser a antítese do pensamento do Marx esotérico, aquele que prega o fim do trabalho, do Estado, da forma-mercadoria, do dinheiro, e de toda a entourage à sua volta.  

Enquanto isto, o povo venezuelano, atônito, amarga a fome e a morte face a um espetáculo ridículo perpetrado por tiranos de um lado e do outro, todos falando em nome da verdadeira democracia.  

De um lado estão os que lhe opõem embargos econômicos; são os mesmos que pretenderam oferecer ajuda humanitária como um cavalo de Troia moderno.  

Do outro lado está um ditador tirano ignaro cuja compreensão sobre o que está na base da debacle social do seu país é a mesma que um analfabeto funcional tem da teoria da relatividade do Einstein.     

A moeda venezuelana já não existe. O seu colapso demonstra bem o que é o dinheiro, substância abstrata, representação numérica materializada do valor, e que somente sobrevive a partir da validade da forma-mercadoria em circulação.

Como há baixa circulação mercantil na Venezuela, o valor monetário, como abstração que é, deixa de existir tal qual fumaça após a decomposição material de um objeto num incêndio.

O mais grave é que, ao invés de abolir o valor como medida de riqueza, a Venezuela se agarra ao valor como forma de sobrevivência, circunstância que a está conduzindo a um caos absoluto, com consequências imprevisíveis. É que o Estado não pode abolir o valor do qual é dependente.   

Brasil, Argentina e Venezuela, com suas importâncias geográficas e populacionais perante o mundo, são países governados por formas políticas que se afirmam democráticas.

Mas, o que é a democracia sob a égide do capital, senão uma arapuca por meio da qual o povo é sub-repticiamente induzido ao auto-sacrifício (tal qual um camicaze inconsciente que defendesse com a própria vida a permanência da opressão social da qual é vítima)? 

Por Dalton Rosado
Os regimes políticos dos Estados sob a égide do capital podem se diferenciar na forma de organização do exercício do poder, mas sempre estarão a serviço daquilo que lhes dá substância existencial: a forma-valor.

Brasil, Argentina e Venezuela têm mais em comum do que possa supor a nossa vã filosofia. 
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