Quem é que pára a máquina de fazer dinheiro da Fórmula-1?
O desabafo foi de Roberto Cabrini, jornalista que, cobrindo o circo da F-1, se tornou amigo de Ayrton Senna.
Em off, Senna revelou a Cabrini que o GP de Imola, no domingo, não deveria ser realizado, pois no sábado um corredor tinha morrido na pista e o óbito fora encoberto. A lei italiana determina que, quando tal ocorre no treino classificatório, a corrida tem de ser imediatamente suspensa.
Prevaleceu a versão de que o austríaco Roland Ratzenberger tinha expirado no hospital e não na pista, mas isto não passava de uma falsidade decorrente da ganância.
Eis o relato do jornalista:
O Senna chegou para mim e falou: "Não posso dar entrevista, estou muito impactado, mas eu preciso contar para você: o cara morreu na pista, não pode divulgar porque, se isso é comprovado, não tem corrida".
A Itália investigou o sucedido por mais de uma década, mas se restringindo aos aspectos mecânicos. Seis pessoas foram indiciadas e, em 2007, a Suprema Corte italiana considerou Patrick Head, ex-sócio e cofundador da Williams, culpado por omissão de controle no projeto da coluna de direção. No entanto, o crime já prescrevera e ninguém foi preso.
Neste dia em que se completam 32 anos desde a morte de Senna, vou reproduzir o único texto que eu escrevi sobre automobilismo ao longo da minha carreira.
De resto, naquele funesto primeiro de maio de 1994 não havia essa informação que Roberto Cabrini só divulgaria em 2024.
Hoje, eu jamais teria escrito que Senna "não fora "assassinado pela incúria dos dirigentes do automobilismo mundial".
Acredite quem quiser(CL)
RÉQUIEM PARA UM GLADIADOR
São indignas de Senna as lágrimas de crocodilo que jorram aos borbotões da mídia, reduzindo uma morte épica à banalidade das telenovelas.
Não foi vítima de um destino traiçoeiro nem assassinado pela incúria dos dirigentes do automobilismo mundial.
O muro que se agigantou à sua frente o perseguia desde os primórdios da carreira: está nos pesadelos de todos os pilotos. Não existe segurança a 300 quilômetros por hora.
O fascínio da Fórmula 1 tem tudo a ver com o instinto de morte, que Freud detectou como sendo um dos componentes essenciais de nossa psique e de nossa cultura.
O herói do volante desafia o perigo a cada curva e o público junto com ele, numa identificação tão mágica quanto cômoda.
São os gladiadores do século 20, correndo riscos em nosso lugar, para que tenhamos uma boa catarse (aliás, até seus trajes e os autódromos –principalmente os circulares da Fórmula Indy– lembram o visual das arenas romanas).
Mas, na era da propaganda, tudo isso deve ficar implícito. Galvões e Lucianos se limitam a dissecar pequenos detalhes técnicos que reduziriam ou aumentariam as probabilidades de sobrevivência dos pilotos.
Já os próprios, em rasgos de sinceridade, admitem que a linha separando acidentes superficiais dos fatais é tão tênue quanto um fio de cabelo.
Muitos poderiam ter morrido nos oito anos em que a F-1 não registrou óbitos, mas aqueles ínfimos milímetros que decidem a sina do acidentado foram favoráveis. Em Ímola, os deuses não estavam complacentes e tudo saiu da pior maneira possível.
Como Christian Fittipaldi ressaltou, descartando uma maior periculosidade em função da retirada do controle de tração e suspensão ativa: Ano passado tinha tudo que vimos aqui mas, graças a Deus, ninguém se machucou. (...) O Berger, no GP de Portugal da última temporada, não se matou por milagre. (...) É relativo dizer que hoje o risco é maior.
Roland Ratzenberger
Eles, os pilotos, sabem. Mesmo assim, entram naquelas estranhas máquinas e, em posições cujo desconforto beira a tortura, percorrem o fio da navalha em velocidades estonteantes, conscientes de que a mínima falha –sua, dos outros ou do equipamento– poderá ser fatal.
Pior: sua condição de ídolos depende não apenas de receberem a bandeirada na frente, mas de guiarem com arrojo e agressividade. Os fãs cobram esta atitude temerária. Ai dos Prosts que pensam antes na autopreservação, colocando a vitória em segundo plano! São tidos como covardes.
Senna era um típico gladiador. Assumia todos os riscos e jamais refugava nas ultrapassagens difíceis, nos duelos insensatos. Os mesmos que denunciam a insegurança de Ímola eram os que aclamavam Senna quando ele realizava brilhantes –e perigosíssimas– corridas em pista molhada. O muro esteve sempre muito perto dele, até que o alcançou.
Tímido, pouco à vontade no papel de celebridade, jamais aparentando satisfação maior com as coisas simples da vida, Senna atingia a plenitude na arena de suas conquistas e no pódio triunfal. É difícil imaginá-lo aposentado, remoendo o passado e amaldiçoando o presente.
Parafraseando os roqueiros Pete Townshend e Neil Young, talvez no caso de Senna fosse mesmo preferível morrer antes de envelhecer, consumir-se em chamas do que definhar aos poucos. Foi até o fim no rumo que escolheu: gladiador altaneiro, merece respeito e não lamúrias.(por Celso Lungaretti)
Artigo que escrevi para o Jornal da Tarde (SP) após a tragédia de Ímola, sobre um esporte que não me empolgava, mas conhecia um pouco devido à devoção dos meus pais pelo Senna. Foi minha reação à cobertura piegas e choramingas da imprensa brasileira.
RÉQUIEM PARA UM GLADIADOR
São indignas de Senna as lágrimas de crocodilo que jorram aos borbotões da mídia, reduzindo uma morte épica à banalidade das telenovelas.
Não foi vítima de um destino traiçoeiro nem assassinado pela incúria dos dirigentes do automobilismo mundial.
O muro que se agigantou à sua frente o perseguia desde os primórdios da carreira: está nos pesadelos de todos os pilotos. Não existe segurança a 300 quilômetros por hora.
O fascínio da Fórmula 1 tem tudo a ver com o instinto de morte, que Freud detectou como sendo um dos componentes essenciais de nossa psique e de nossa cultura. O herói do volante desafia o perigo a cada curva e o público junto com ele, numa identificação tão mágica quanto cômoda.
São os gladiadores do século 20, correndo riscos em nosso lugar, para que tenhamos uma boa catarse (aliás, até seus trajes e os autódromos –principalmente os circulares da Fórmula Indy– lembram o visual das arenas romanas).
Mas, na era da propaganda, tudo isso deve ficar implícito. Galvões e Lucianos se limitam a dissecar pequenos detalhes técnicos que reduziriam ou aumentariam as probabilidades de sobrevivência dos pilotos. Já os próprios, em rasgos de sinceridade, admitem que a linha separando acidentes superficiais dos fatais é tão tênue quanto um fio de cabelo.
Muitos poderiam ter morrido nos oito anos em que a F-1 não registrou óbitos, mas aqueles ínfimos milímetros que decidem a sina do acidentado foram favoráveis. Em Ímola, os deuses não estavam complacentes e tudo saiu da pior maneira possível.
Como Christian Fittipaldi ressaltou, descartando uma maior periculosidade em função da retirada do controle de tração e suspensão ativa: "Ano passado tinha tudo que vimos aqui mas, graças a Deus, ninguém se machucou. (...) O Berger, no GP de Portugal da última temporada, não se matou por milagre. (...) É relativo dizer que hoje o risco é maior".
Eles, os pilotos, sabem. Mesmo assim, entram naquelas estranhas máquinas e, em posições cujo desconforto beira a tortura, percorrem o fio da navalha em velocidades estonteantes, conscientes de que a mínima falha –sua, dos outros ou do equipamento– poderá ser fatal.
Pior: sua condição de ídolos depende não apenas de receberem a bandeirada na frente, mas de guiarem com arrojo e agressividade. Os fãs cobram esta atitude temerária. Ai dos Prosts que pensam antes na autopreservação, colocando a vitória em segundo plano! São tidos como covardes.
Senna era um típico gladiador. Assumia todos os riscos e jamais refugava nas ultrapassagens difíceis, nos duelos insensatos. Os mesmos que denunciam a insegurança de Ímola eram os que aclamavam Senna quando ele realizava brilhantes –e perigosíssimas– corridas em pista molhada. O muro esteve sempre muito perto dele, até que o alcançou.
Tímido, pouco à vontade no papel de celebridade, jamais aparentando satisfação maior com as coisas simples da vida, Senna atingia a plenitude na arena de suas conquistas e no pódio triunfal. É difícil imaginá-lo aposentado, remoendo o passado e amaldiçoando o presente.
Parafraseando os roqueiros Pete Townshend e Neil Young, talvez no caso de Senna fosse mesmo preferível morrer antes de envelhecer, consumir-se em chamas do que definhar aos poucos. Foi até o fim no rumo que escolheu: gladiador altaneiro, merece respeito e não lamúrias.(por Celso Lungaretti)
Entrevista de 102 min. com Senna no programa Roda Viva, da TV Cultura (SP)
Este pequeno festival de filmes anticolonialistas trouxe até agora somente visões simpáticas às vítimas da dominação europeia, as duas mais sofisticadas de Gillo Pontecorvo (A batalha de Argel e Queimada) e outras duas mais ingênuas e ardentes, nas quais os países libertados reverenciaram seus heróis (O Leão do deserto e O tempo dos leopardos).
Deixei para o final um filmaço que até hoje provoca muitas discussões, não sendo exatamente nem a favor nem contra o colonialismo, mas, acima de tudo, uma exaltação do heroísmo de um punhado de homens que resistiram a um inimigo cuja superioridade numérica era imensa.
Trata-se de Zulu (1964), que nos entrega sequências de batalha poderosas, evidenciando o horror de todas as guerras, e que parece ter tentado escapar de rótulos simplistas omitindo informações desfavoráveis a ambos os lados.
Foi realizado por um competente diretor nascido nos EUA, Cy Endfield, que, tanto quanto Charlie Chaplin, teve de trocar seu país pelo Reino Unido para colocar-se a salvo das perseguições macartistas. Ele fez o roteiro a partir de um artigo do jornalista John Prebble que o impressionou muito.
Assim como seu personagem, o bom ator Stanley Baker tinha integrado o Corpo de Serviços do Exército Real; sua carreira foi abreviada pela morte aos 48 anos, de câncer.
Suponho que tenham sido a desigualdade de forças e a capacidade de superação dos sitiados que o tenham empolgado na chamada Batalha de Rorke's Drift, travada em 1879. E o mérito do filme é exatamente a reconstrução exemplar do cerco a um entreposto comercial e pequeno hospital britânico no qual uns 150 combatentes resistiram a cerca de 4 mil zulus.
Então, é destacada a performance do tenente John Chard (Stanley Baker), do Corpo Real de Engenheiros, que lá estava para cuidar da construção de uma obra de melhoria, mas, por ter ascendido antes ao oficialato, teve o direito de assumir o comando quando surgiu a emergência, embora o outro tenente, Gonville Bromhead (Michael Caine), fosse teoricamente mais apto para uma situação de confronto, pois se tratava de um cavalariano.
Chard é quem decide que deveriam entrincheirar-se e orienta a fortificação do entreposto, contrariamente à vontade de Bromhead, que preferia enfrentar o inimigo em campo aberto (o que, claro, seria suicídio). E acaba dando conta do recado, apesar das circunstâncias totalmente adversas em que transcorre o seu batismo de fogo.
Zulu alçou Michael Caine ao estrelato, após 18 anos fazendo pontas na TV e cinema
Que informações ficaram faltando no filme?
— a de que, embora o Reino Zulu estivesse efetivamente iniciando uma ofensiva contra as tropas coloniais britânicas, a decisão de atacar o que não se constituía propriamente num alvo militar foi tomada intempestivamente por Dabulamanzi kaMpande, meio-irmão do rei zulu Cetshwayo kaMpande;
— a de que foi este o real motivo de Dabulamanzi desistir de continuar atacando, pois estava sendo questionado sobre se a tomada daquele entreposto justificava o número elevado de baixas que os zulus estavam tendo; e
— a de que, com a chegada de reforços, os britânicos, a pretexto de se vingarem do assassinato de pacientes do hospital, retaliaram bestialmente sobre zulus capturados ou deixados para trás por estarem feridos (além dos 385 mortos em batalha, estima-se que uns 500 tenham sido depois executados).
É possível, contudo, que Endfield jamais tenha pretendido defender o colonialismo, mas somente construir um épico empolgante.
Jack Hawkins interpretou um pastor beberrão
Então, talvez devamos conceder-lhe o benefício da dúvida: não terá ele agido assim para que os zulus fossem mostrados como guerreiros nobres que, respeitando a coragem de um inimigo que lutara bravamente, não quiseram destruí-lo quando estava fragilizado demais?
E também para que o mérito dos heróis de Rorker's Drift não fosse empanado pela brutal revanche posterior, levada a cabo pelos reforços que chegaram depois da batalha, lado a lado com alguns dos combatentes que a haviam travado?
Enfim, eu recomendo que Zulu seja assistido sem o detestável maniqueísmo que transformou a vida brasileira num inferno nos últimos anos. Colocar obras artísticas num index é coisa da Santa Madre Igreja na idade das trevas...
Afinal, como cantou Neil Young, quase sempre há mais no quadro do que os olhos podem ver. Principalmente quando os olhares são direcionados pelos antolhos ideológicos. (por Celso Lungaretti)
Obs: para acessar os vídeos do PEQUENO FESTIVAL DE
FILMES ANTICOLONIALISTAS, clique nos seus títulos:
Foi uma grata surpresa encontrareste postna vitrine do UOL: fiquei sabendo da existência do Combate Rock, um instigante blog dedicado ao rock e webradio, com apuro jornalístico e que se coloca corajosamente na trincheira da civilização nestes tempos sombrios em que os bárbaros rondam seus muros, à espreita de uma oportunidade para destruí-la.
Entrei em contato com a equipe para expressar minha admiração de velho roqueiro e velho guerrilheiro; acabei convidado para escrever algo sobre minha trajetória e sobre os motivos de a contestação ao sistema ter sido quase uma unanimidade na geração 68 e agora não sê-lo mais.
Na hora de enviar o artigo, ocorreu-me que será provavelmente a última oportunidade de me dirigir ao público roqueiro, matando as saudades do período de 1979/1984, quando o fazia o tempo todo e gostava imensamente do que fazia. Então, resolvi assinar-me com o pseudônimo que então utilizava para manter a censura longe de mim.
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andré mauro
A PROLE MALDITA DOS HELLS ANGELS
Para quem participou intensamente das jornadas de 1968 e foi fundo nos caminhos que elas descortinaram, é chocante constatar que hoje há roqueiros apoiando o fascismo tosco dos ignaros empoderados. Mas, um pouquinho de reflexão ajudará a entender o fenômeno.
Comecemos parafraseando o Mick Jagger: please allow me to introduce myself, I'm a man of (no) wealth and (some) taste.
Tinha 16 anos quando comecei a me entrosar com o movimento estudantil, primeiramente no meu colégio da Mooca. Em 1968 já estava entre os líderes da arregimentação secundarista em toda a enorme zona Leste paulistana. E em 1969, aos 18 anos, me tornei comandante estadual de uma das principais organizações guerrilheira que confrontavam a ditadura militar, a VPR do capitão Carlos Lamarca.
Aprisionado; torturado; sofrendo lesão permanente; quase morrendo em várias ocasiões; amargando a perda (assassinados) de uns 20 companheiros que conheci, inclusive alguns muito próximos a mim, as portas do inferno finalmente se abriram em 1972 e voltei às ruas para tentar juntar os cacos, depois de haver optado por vencer ou morrer e não ter acontecido nem uma coisa, nem outra.
A seção Rock Stars nasceu assim
Foi quando colegas da antiga escola me convidaram para participar de uma comunidade alternativa e, sem nada mais a perder, aceitei de pronto. Nela lambi as feridas, superei traumas e me reconstruí. Conheci as drogas do meu tempo, abri as portas da percepção com o LSD e me fascinei pelo heavy metal de Alice Cooper e Black Sabbath. De certa forma, o rock macabro serviu para exorcizar meus pesadelos dos porões da repressão.
Passara batido pelo rock dos anos 50 porque era muito criança quando Elvis Presley escandalizava os EUA; e pelo dos '60 porque o mundinho encantado dos Beatles não tinha nada a ver comigo, aqueles filmecos ingênuos do quarteto eram um tédio só.
A fase de me ligar nos circos de horrores da tia Alice e do canastrão de reality show durou pouco. Logo descobri roqueiros bem mais afins comigo: Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Joe Cocker, Alvin Lee, Eric Burdon, Eric Clapton, Rolling Stones, praticamente toda a linhagem dos que haviam bebido nas fontes do blues e descartavam a herança do country and western.
A nossa comunidade no Jardim Bonfiglioli se estilhaçou em 1973 e eu juntei os trapos com uma menina, fomos viver em quitinete e fiquei reduzido à rotina de trabalhar em comunicação empresarial durante o dia, transar e escutar meus discos à noite. Repouso do guerreiro, depois de tanto alvoroço.
Em 1979 dei um bico na hibernação e fui buscar outras coisas na vida, partindo para o jornalismo de verdade, principalmente nas áreas de música e cinema. Em pouco tempo me tornei o homem do rock na Editora Imprima, que fazia as revistas Música, Violão & Guitarra e outros títulos menores.
Minha seção na Música, Rock Stars, de duas páginas logo pulou para quatro. Aí criei uma revista também chamada de Rock Stars. Outra, a Internacional Extra, caiu nas minhas mãos e passou a abordar exclusivamente a trajetória de roqueiros. E pari a Rock Show, a Rock Passion.
Assinava André Mauro, porque continuava na lista negra da ditadura e meu nome real atrairia atenções indesejadas. Basicamente, mantive a abordagem do rock como contestação ao sistema capitalista num período em que ele começava a se transformar em máquina de fazer dinheiro a partir de altos investimentos promocionais e de mega-espetáculos (estava no gramado do Morumbi quando o Queen inaugurou no Brasil a era dos shows em estádios de futebol e captei a mudança dos ventos).
Mas, o público-alvo da minha editora eram exatamente os roqueiros de raiz, que detestavam Peter Frampton, Abba, Wings, etc. Então, carreguei a bandeira do verdadeiro rock até o final de 1984; cheguei a ter uma breve amizade e a manter muitos papos etílicos com o Raul Seixas; e nunca fui tão feliz como jornalista, mesmo tendo de vender boa parte dos discos que recebia das gravadoras para completar o orçamento. Nada iguala o prazer de amar o que se faz.
Até que meu castelo de cartas desabou mais uma vez, a crise do papel levou a editora a extinguir metade dos seus títulos e não havia mais jeito de eu sobreviver com o que sobrara. Tive de ir ganhar muito mais fazendo um jornalismo do qual gostava muito menos.
No ano 2000, novamente troquei uma posição consolidada pela tentativa de realizar um sonho, o de ser pai biológico, o que não conseguira até então por força de uma existência tumultuada. Essa opção geraria tantas consequências que passei 2004 e 2005 numa penúria quase total, tendo de fazer das tripas, coração para obter logo a anistia de ex-preso político a que tinha pleno direito, mas certas panelinhas privilegiavam os seus integrantes e estavam passando os lobos solitários como eu para trás.
Acabei vencendo a duras penas essa batalha e ela projetou meu nome na web, abrindo caminho para um livro de memórias meu e de minha geração, a partir do qual fui me tornando conhecido principalmente como o principal jornalista que defendia Cesare Battisti e outros perseguidos políticos, como cronista da luta armada e dos combatentes que a travaram e, enfim, como um velho guerreiro que não trocou seus ideais pelas regalias do poder.
[Existem muitos e muitos outros que também não venderam a alma, mas a imprensa canalha prefere direcionar todos os seus holofotes para os maus exemplos.]
E, enfim, nunca deixo de lembrar que o ex-guerrilheiro Celso Lungaretti é também o ex-crítico roqueiro André Mauro. Tenho idêntico orgulho dessas duas facetas do meu passado.
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OS ROQUEIROS E O BOM COMBATE: O QUE MUDOU DESDE A GERAÇÃO 68?— Voltando à questão inicial, o rock do final da década de 1960 identificou-se fortemente com a contestação política e a contracultura porque era o momento em que os jovens se chocavam com as barreiras de sociedades conservadoras e puritanas, nas quais a autoridade dos adultos é que deveria sempre prevalecer, sufocando seus sonhos e seus anseios (além de, nos EUA, estarem sob ameaça de morte na tão repudiada Guerra do Vietnã).
Era o fim do patriarcalismo e da hegemonia do capitalismo industrial, em processo de transição para a sociedade de consumo e para a ascendência dos setores financeiros e de serviços. Entre uma forma de sociedade que caducava e outra que se instalava, a rebeldia dos jovens foi uma espécie de cunha: o que eles quiseram naquele instante foi avançarem não para outra etapa capitalista, mas para além do capitalismo.
As melhores cabeças dentre eles perceberam que já existiam plenas condições econômicas de, sem agressões suicidas ao nosso habitat natural, assegurar-se uma sobrevivência digna a cada habitante do planeta, desde que os frutos do trabalho humano fossem distribuídos de acordo com o critério do bem comum, e não usurpados por minorias de privilegiados.
E mais: que isto poderia ser conseguido com uma carga muito menor de trabalho e de estresse para cada um de nós, dando-nos a oportunidade de desfrutar plenamente a existência, não mais como inimigos na luta pela sobrevivência, mas como companheiros fraternos na edificação da harmonia e da liberdade.
Os ventos de mudança sopraram intensamente na Europa e nas Américas, mas não o suficiente. A transição para a sociedade de consumo acabou se completando, mas o capitalismo estagnaria no presente século, incapaz de retomar o crescimento, além de impotente face à escalada do aquecimento global e das alterações climáticas, uma lâmina de guilhotina pendente sobre o futuro de nossa espécie.
Incapazes de entender o que realmente está acontecendo e manipuladas o tempo todo pela indústria cultural, as pessoas se agarram ao populismo dos salvadores da pátria, ao autoritarismo embutido no combate à corrupção, à fé mercantilizada dos novos vendilhões do templo e até à barbárie de milicianos e incendiários.
Mesmo nos idos da juventude paz & amor, existiam os Hells Angels, barbarizando, estuprando e matando. Sua prole maldita nunca foi extinta e hoje se faz mais visível sob o bolsonarismo, que obviamente a estimula e protege.
Mas por aí só se chegará à entropia, daí ser fundamental que as novas gerações de roqueiros se mirem nos Lennons ("Imagine") e Raulzitos ("Sociedade Alternativa"), jamais nesses rebeldes sem cabeça que pensam estar combatendo o sistema quando apenas favorecem o afloramento do que há de mais bestial e nefasto no sistema.(por André Mauro)
Abaixo reproduzo meu Réquiem para um gladiador, publicado no Jornal da Tarde (SP), logo após o 01/05/1994 do acidente fatal em Ímola.
São indignas de Senna as lágrimas de crocodilo que jorram da mídia, reduzindo uma morte épica à banalidade das telenovelas. Não foi vítima de um destino traiçoeiro nem assassinado pela incúria dos dirigentes do automobilismo mundial. O muro que se agigantou à sua frente o perseguia desde os primórdios da carreira: está nos pesadelos de todos os pilotos. Não existe segurança a 300 quilômetros por hora.
O fascínio da Fórmula 1 tem tudo a ver com o instinto de morte, que Freud detectou como sendo um dos componentes essenciais de nossa psique e de nossa cultura. O herói do volante desafia o perigo a cada curva e o público junto com ele, numa identificação tão mágica quanto cômoda.
São os gladiadores do século XX, correndo riscos em nosso lugar, para que tenhamos uma boa catarse (aliás, até seus trajes e os autódromos – principalmente os circulares da Fórmula Indy –lembram o visual das arenas romanas).
Mas, na era da propaganda, tudo isso deve ficar implícito. Galvões e Lucianos se limitam a dissecar pequenos detalhes técnicos que reduziriam ou aumentariam as probabilidades de sobrevivência dos pilotos. Já os próprios, em rasgos de sinceridade, admitem que a linha separando acidentes superficiais dos fatais é tão tênue quanto um fio de cabelo.
Muitos poderiam ter morrido nos oito anos em que a F-1 não registrou óbitos, mas aqueles ínfimos milímetros que decidem a sina do acidentado foram favoráveis. Em Ímola, os deuses não estavam complacentes e tudo saiu da pior maneira possível.
Como Christian Fittipaldi ressaltou, descartando uma maior periculosidade em função da retirada do controle de tração e suspensão ativa: "Ano passado tinha tudo que vimos aqui mas, graças a Deus, ninguém se machucou. (...) O Berger, no GP de Portugal da última temporada, não se matou por milagre. (...) É relativo dizer que hoje o risco é maior".
Eles, os pilotos, sabem. Mesmo assim, entram naquelas estranhas máquinas e, em posições cujo desconforto beira a tortura, percorrem o fio da navalha em velocidades estonteantes, conscientes de que a mínima falha – sua, dos outros ou do equipamento – poderá ser fatal. Pior: sua condição de ídolos depende não apenas de receberem a bandeirada na frente, mas de guiarem com arrojo e agressividade. Os fãs cobram esta atitude temerária. Ai dos Prosts que pensam antes na autopreservação, colocando a vitória em segundo plano! São tidos como covardes.
Senna era um típico gladiador. Assumia todos os riscos e jamais refugava nas ultrapassagens difíceis, nos duelos insensatos. Os mesmos que denunciam a insegurança de Ímola eram os que aclamavam Senna quando ele realizava brilhantes – e perigosíssimas –corridas em pista molhada. O muro esteve sempre muito perto dele, até que o alcançou.
Tímido, pouco à vontade no papel de celebridade, jamais aparentando satisfação maior com as coisas simples da vida, Senna atingia a plenitude na arena de suas conquistas e no pódio triunfal. É difícil imaginá-lo aposentado, remoendo o passado e amaldiçoando o presente.
Parafraseando os roqueiros Pete Townshend e Neil Young, talvez no caso de Senna fosse mesmo preferível morrer antes de envelhecer, consumir-se em chamas do que definhar aos poucos. Foi até o fim no rumo que escolheu: gladiador altaneiro, merece respeito e não lamúrias. (por Celso Lungaretti)
Entrevista de 102 min. com Senna no programa Roda Viva, da TV Cultura (SP)
Recebi muitas cobranças de um posicionamento sobre a "confissão" de Cesare Battisti, então vou dar uma primeira visão do assunto, incompleta, pois por enquanto só conhecemos o que a parte mais poderosa afirma.
Faço questão de colocar "confissão" entre aspas porque há, evidentemente, algo de errado com ela: só convém aos ultradireitistas italianos e brasileiros, além de incluir trechos extremamente constrangedores, como o de que ele teria mentido aos esquerdistas daqui para que o apoiassem.
Leva todo jeito de ser uma forma de os inquisidores italianos retaliarem os que denunciamos a atuação deles como extremamente autoritária e arbitrária. Por que um prisioneiro beijaria as mãos dos que lhe moveram uma perseguição tão rancorosa e obsessiva, ao mesmo tempo agredindo aqueles a quem deveria ser grato? Não faz o menor sentido.
Percebe-se claramente que, haja ele falado isso num depoimento ou até manuscrito num papel, teve algum motivo que desconhecemos o impelindo, talvez aquele que o Tarso Genro aventou (e foi a primeira coisa que me passou pela cabeça, tão logo que eu tomei conhecimento da notícia da Agência Ansa): a possibilidade de ser uma farsa à qual ele teria se prestado em troca de algum favor dos que o mantêm prisioneiro em função de uma sentença que já estaria prescrita em países menos draconianos e de crimes políticos que deveriam ter sido objeto de anistia há décadas.
Não irei mais longe antes de saber algo além da versão oficial, sempre inconfiável em se tratando das autoridades que hoje temos na sociedade em que hoje vivemos.
Mas não hesito em desde já afirmar que, parafraseando uma canção seminal de Neil Young, "há mais no quadro/ do que os olhos estão vendo". (Celso Lungaretti)
Na próxima 5ª feira se terá passado meio século desde que o Brasil saiu não do azul, mas de um cinza já bem escuro, para entrar nas trevas absolutas do Ato Institucional nº 5. O 13 de dezembro de 1968 caiu numa 6ª feira –a mais funesta da História brasileira. Foi quando 17 sinistros personagens, com uma simples canetada, deram sinal verde para torturas, assassinatos, estupros, ocultação de cadáveres e todo o festival de horrores dos anos subsequentes.
Eram eles o ditador Costa e Silva e 16 de seus ministros: Albuquerque Lima (Interior); Augusto Rademaker (Marinha); Carlos Simas (Comunicações); Costa Cavalcanti (Minas e Energia); Delfim Netto (Fazenda); Gama e Silva (Justiça); Hélio Beltrão (Planejamento); Ivo Arzua (Agricultura); Jarbas Passarinho (Trabalho); Leonel Miranda (Saúde); Lyra Tavares (Exército); Macedo Soares (Indústria e Comércio); Magalhães Pinto (Relações Exteriores); Mário Andreazza (Transportes); Souza e Mello (Aeronáutica); e Tarso Dutra (Educação).
Só um permanece vivo até hoje, Delfim Netto, que está com 90 anos e não se arrepende da autoria de uma assinatura da qual tanto sangue jorrou: continua afirmando que, apresentando-se as mesmas circunstâncias, voltaria a proceder da mesmíssima maneira.
O 16º a falecer foi (em junho de 2016) o igualmente empedernido Jarbas Passarinho, de origem militar, que ao proferir seu voto, disse a frase mais emblemática daquela infame reunião ministerial:
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"Às favas, sr. presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência".
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Ele continuou, pelas décadas adentro, enturmado com as aves de mau agouro, sempre defendendo o regime de exceção ao qual serviu nas equipes ministeriais de Costa e Silva, Médici e Figueiredo.
Um mês depois chegou a vez de Rondon Pacheco, cuja assinatura não consta do documento, embora chefiasse o Gabinete Civil. Talvez a lacuna se deva a haver sido um personagem reticente naquele momento, tendo inclusive tentado fixar um prazo para a vigência do AI-5: um ano apenas. Também se atribui a ele e ao ministro da Justiça Gama e Silva o mérito de, numa reunião prévia, terem excluído do documento alguns pontos mais duros, como o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal.
Outra voz dissonante foi a do vice-presidente Pedro Aleixo, que inclusive empenhou-se adiante em restabelecer a legalidade. Chegou a convencer Costa e Silva, mas este morreu antes de concretizar o intento (coincidência?). O golpe dentro do golpe, que levou ao paroxismo o fechamento ditatorial do País, foi o lance decisivo da disputa interna entre a linha dura militar (que queria radicalizar o arbítrio) e os conspiradores originais (oficiais veteranos da participação brasileira na 2ª Guerra Mundial).
Os últimos, encabeçados por Castello Branco, pretendiam usurpar o poder por pouco tempo. Falavam numa intervenção cirúrgica, durante a qual imporiam medidas que modernizassem o Estado e enfraquecessem a esquerda (prisões, perseguições, cassações, extinção de entidades legais, etc.). Aprenderam, contudo, que implantar uma ditadura é bem mais fácil que dar-lhe fim.
As duas posições competiram acirradamente pela hegemonia na caserna ao longo de 1968, mas o crescimento dos movimentos contestatórios fez a balança pender para o lado dos ferrabrases. Estes iam ao encontro da cultura de intolerância que grassava nos quartéis, pois se propunham a dotar o regime de meios para reagir com maior contundência às manifestações de rua e ao desafio das organizações armadas, passando por cima dos direitos humanos e das garantias constitucionais.
Pesaram também os interesses mesquinhos dos oficiais das três Armas, seduzidos pelas perspectivas que o prolongamento do regime de exceção e a ampliação dos poderes ditatoriais abriam para seu enriquecimento pessoal:
os da ativa, como gestores de um setor estatal que estava sendo cada vez mais inflado, ou como beneficiários de suas boquinhas; e
os da reserva como facilitadores dos favores oficiais (quase todos os grandes grupos privados contrataram militares reformados para integrarem seus conselhos de administração, como forma de terem seus interesses contemplados nos altos escalões governamentais).
O pretexto para a nova virada de mesa foi um discurso exaltado do deputado Márcio Moreira Alves numa sessão esvaziada (o chamado pequeno expediente) da Câmara Federal, no início de setembro de 1968.
Discurso errado, hora errada
Tratava-se de uma lengalenga sem verdadeira importância (incluía até uma sugestão às moças, de que não namorassem alunos das academias militares –vide aqui), proferida apenas para constar dos anais e poder ser exibida depois aos eleitores, quando ele lhes fosse pedir votos no pleito seguinte. Mas, um jornalista favorável ao arbítrio vislumbrou a oportunidade de uma provocação e trombeteou-a; em seguida, os partidários do enrijecimento a divulgaram amplamente, mimeografada, entre os fardados, insuflando a indignação. As Forças Armadas se declararam atingidas e o governo pediu ao Congresso Nacional a abertura de um processo visando à cassação de Moreira Alves. Os parlamentares, depois de em tantas ocasiões, tão vergonhosamente, se prostrarem aos ultimatos da caserna, daquela vez rechaçaram o pedido, temendo que outras cabeças fossem exigidas na sequência e a caça às bruxas acabasse extinguindo o mandato de muitos deles. Pateticamente, encerraram a sessão cantando o Hino Nacional, sem perceberem que tinham é escancarado as portas do inferno.
A resposta da ditadura foi imediata e a mais tirânica possível: colocou os Legislativos federal e estaduais em recesso e impôs à Nação, na marra, novas e terríveis regras do jogo.
Revista tida como outro pivô do AI-5
O presidente da República (escolhido por um Congresso Nacional expurgado e intimidado) passou a ter plenos poderes para cassar mandatos eletivos, suspender direitos políticos, demitir ou aposentar juízes e outros funcionários públicos, suspender o habeas-corpus em crimes contra a segurança nacional, legislar por decreto e julgar crimes políticos em tribunais militares, dentre outras medidas totalitárias.
Principal ferramenta do terrorismo de estado, o AI-5 só seria atirado na lixeira dez anos depois. Nesse meio tempo, centenas de resistentes foram executados, dezenas de milhares torturados, mais de uma centena de parlamentares cassados, um sem-número de funcionários públicos no olho da rua, a arte amordaçada (mais de 500 filmes, 450 peças teatrais, 200 livros e umas 500 canções sofreram os rigores da censura), etc.
Quando os gorilas saíram do armário, o Brasil entrou no período mais bestial e vergonhoso de sua História.
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UM DEPOIMENTO PESSOAL – Para jovens estudantes que, como eu, ingressaram na luta a partir do novo ascenso do movimento de massas, aquele agourento 13 de dezembro de 1968 marcou o fim da aventura e o início da tragédia. Passáramos o melhor ano de nossas vidas descobrindo a luta e descobrindo-nos na luta. Aí veio aquele pacote de medidas draconianas ao extremo, cujas implicações captamos de imediato: haviam declarado guerra contra nós e os riscos dali em diante seriam imensos. Mesmo assim, diante da alternativa desistir x perseverar, fizemos a opção digna... que se revelaria das mais sofridas. Então, o AI-5 foi o divisor de águas entre o 1968 exuberante e o 1969 soturno.
Entre o enfrentamento a céu aberto e o martírio nos porões. Entre a luta travada ao lado das massas despertadas e a luta que travamos sozinhos em nome das massas amedrontadas.
Meu avô morreu quando meu pai tinha 11 anos. Como era o primogênito, minha avó fez com que começasse imediatamente a trabalhar numa fábrica escura, barulhenta e empoeirada, burlando a legislação que exigia idade mínima de 14 anos.
Passou o resto da vida lamentando a responsabilidade que desabou cedo demais sobre seus ombros. Num dia, estava despreocupadamente jogando bola no campinho ao lado de sua casa. No outro, esfalfando-se oito horas seguidas para colocar o pão na mesa familiar.
O AI-5 teve o mesmo efeito sobre mim. Até então, a militância era puro deleite. De um momento para outro, tornou-se um pesadelo que me deixou em frangalhos, além de tragar alguns dos meus melhores amigos e tantos companheiros estimados.
Parafraseando a bela canção de Neil Young, foi a saída do azul e entrada nas trevas. (por Celso Lungaretti)