O desabafo foi de Roberto Cabrini, jornalista que, cobrindo o circo da F-1, se tornou amigo de Ayrton Senna.
Em off, Senna revelou a Cabrini que o GP de Imola, no domingo, não deveria ser realizado, pois no sábado um corredor tinha morrido na pista e o óbito fora encoberto. A lei italiana determina que, quando tal ocorre no treino classificatório, a corrida tem de ser imediatamente suspensa.
Prevaleceu a versão de que o austríaco Roland Ratzenberger tinha expirado no hospital e não na pista, mas isto não passava de uma falsidade decorrente da ganância.
Eis o relato do jornalista:
O Senna chegou para mim e falou: "Não posso dar entrevista, estou muito impactado, mas eu preciso contar para você: o cara morreu na pista, não pode divulgar porque, se isso é comprovado, não tem corrida".
A Itália investigou o sucedido por mais de uma década, mas se restringindo ao aspecto mecânico. Seis pessoas foram indiciadas e, em 2007, a Suprema Corte italiana considerou Patrick Head, ex-sócio e cofundador da Williams, culpado por omissão de controle no projeto da coluna de direção. No entanto, o crime já prescrevera e ninguém foi preso.
RÉQUIEM PARA UM GLADIADOR
São indignas de Senna as lágrimas de crocodilo que jorram aos borbotões da mídia, reduzindo uma morte épica à banalidade das telenovelas.
Não foi vítima de um destino traiçoeiro nem assassinado pela incúria dos dirigentes do automobilismo mundial.
O muro que se agigantou à sua frente o perseguia desde os primórdios da carreira: está nos pesadelos de todos os pilotos. Não existe segurança a 300 quilômetros por hora.
O fascínio da Fórmula 1 tem tudo a ver com o instinto de morte, que Freud detectou como sendo um dos componentes essenciais de nossa psique e de nossa cultura. O herói do volante desafia o perigo a cada curva e o público junto com ele, numa identificação tão mágica quanto cômoda.
São os gladiadores do século 20, correndo riscos em nosso lugar, para que tenhamos uma boa catarse (aliás, até seus trajes e os autódromos –principalmente os circulares da Fórmula Indy– lembram o visual das arenas romanas).
Mas, na era da propaganda, tudo isso deve ficar implícito. Galvões e Lucianos se limitam a dissecar pequenos detalhes técnicos que reduziriam ou aumentariam as probabilidades de sobrevivência dos pilotos.
Já os próprios, em rasgos de sinceridade, admitem que a linha separando acidentes superficiais dos fatais é tão tênue quanto um fio de cabelo.
Como Christian Fittipaldi ressaltou, descartando uma maior periculosidade em função da retirada do controle de tração e suspensão ativa: "Ano passado tinha tudo que vimos aqui mas, graças a Deus, ninguém se machucou. (...) O Berger, no GP de Portugal da última temporada, não se matou por milagre. (...) É relativo dizer que hoje o risco é maior".
Eles, os pilotos, sabem. Mesmo assim, entram naquelas estranhas máquinas e, em posições cujo desconforto beira a tortura, percorrem o fio da navalha em velocidades estonteantes, conscientes de que a mínima falha –sua, dos outros ou do equipamento– poderá ser fatal.
Pior: sua condição de ídolos depende não apenas de receberem a bandeirada na frente, mas de guiarem com arrojo e agressividade. Os fãs cobram esta atitude temerária. Ai dos Prosts que pensam antes na autopreservação, colocando a vitória em segundo plano! São tidos como covardes.
Tímido, pouco à vontade no papel de celebridade, jamais aparentando satisfação maior com as coisas simples da vida, Senna atingia a plenitude na arena de suas conquistas e no pódio triunfal. É difícil imaginá-lo aposentado, remoendo o passado e amaldiçoando o presente.
Parafraseando os roqueiros Pete Townshend e Neil Young, talvez no caso de Senna fosse mesmo preferível morrer antes de envelhecer, consumir-se em chamas do que definhar aos poucos. Foi até o fim no rumo que escolheu: gladiador altaneiro, merece respeito e não lamúrias. (por Celso Lungaretti)


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