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quinta-feira, 13 de julho de 2023

VOCÊ NUNCA É VELHO DEMAIS PARA O ROCK SE É JOVEM DEMAIS PARA MORRER

O
Dia Mundial do Rock, que hoje (13) se comemora, tem ainda algo a ver comigo? 

Ou, aos 72 anos, estou mais para os veteranos caricatos que o conjunto britânico Jethro Tull satirizou em sua canção Too old to rock'n roll, too young to die?

Com esta dúvida cruel me atormentando, fui assistir a um vídeo daquela música  sarcástica de 1976, depois de décadas sem escutá-la. 

E fui recompensado: o último verso, do qual me esquecera, pareceu até uma resposta à minha inquietação: você nunca é velho demais para o rock'n roll se é jovem demais para morrer

A morte não nos chega no momento mais apropriado, evidentemente. Mas desistir da vida, lá isso eu não fiz nem vou fazer. Continuo tentando, com todas as minhas forças, contribuir para a gestação de uma nova esquerda, que volte a colocar a superação do capitalismo como objetivo supremo em teoria e missão a ser cumprida dia após dia na prática, sempre levando em conta os limites impostos pela correlação de forças em cada momento, mas nunca desistindo de ampliá-los.

Nem deixarei de procurar o amor pleno com uma companheira tão inconformista quanto eu, que acredite na concretização dos melhores anseios da humanidade e também esteja disposta a correr os enormes riscos que acompanham tal opção. 

Sabiamente o Raulzito advertia, não pense que a cabeça aguenta se você parar. Para quem, como eu, nunca deixou de ter no inesquecível ano  de 1968 o referencial maior de sua existência (ou quem, como o companheiro David Emanuel de Souza,  atribui relevância similar as jornadas de 2013), a luta não termina nem com a morte, pois deixaremos, servindo de inspiração para os pósteros, os exemplos que demos e as lições que aprendemos ao travarmos o bom combate.  
Mas, esta trajetória singular começou um ano antes, quando, com a idade de 16, comecei a me entrosar com o movimento estudantil, primeiramente no meu colégio da Mooca. Em 1968 já estava entre os líderes da arregimentação secundarista em toda a enorme zona Leste paulistana. E em 1969, aos 18 anos, me tornei comandante estadual de uma das principais organizações guerrilheira que confrontavam a ditadura militar, a VPR do capitão Carlos Lamarca. 

Depois de aprisionado; torturado; sofrer lesão permanente; quase morrer em várias ocasiões; amargar a perda (assassinados) de uns 20 companheiros que conheci, inclusive alguns muito próximos a mim, as portas do inferno se abriram para minha saída em 1972. Voltei às ruas para tentar juntar os cacos, depois de haver optado por vencer ou morrer e não ter acontecido nem uma coisa, nem outra.

Foi quando colegas da antiga escola me convidaram para participar de uma comunidade alternativa e, sem nada mais a perder, aceitei de pronto. 
A seção Rock Stars nasceu assim

Nela lambi as feridas, superei traumas e me reconstruí. Conheci as drogas do meu tempo, abri as portas da percepção com o LSD e me fascinei pelo heavy metal de Alice Cooper e Black Sabbath. De certa forma, o rock macabro serviu para exorcizar meus pesadelos dos porões da repressão.

Passara batido pelo rock dos anos 50 porque era muito criança quando Elvis Presley escandalizava os EUA; e pelo dos '60 porque o mundinho encantado dos Beatles não tinha nada a ver comigo.

A fase de me ligar nos circos de horrores da tia Alice e do canastrão de reality show durou pouco. Logo descobri roqueiros bem mais afins comigo: Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Joe Cocker, Alvin Lee, Eric Burdon, Eric Clapton, Rolling Stones, praticamente toda a linhagem dos que haviam bebido nas fontes do blues e descartavam a herança do country and western.

A nossa comunidade no Jardim Bonfiglioli se estilhaçou em 1973 e eu juntei os trapos com uma menina, fomos viver em quitinete e fiquei reduzido à rotina de trabalhar em comunicação empresarial durante o dia, transar e escutar meus discos à noite. Repouso do guerreiro, depois de tanto alvoroço.

Em 1979 dei um bico na hibernação e fui buscar outras coisas na vida, partindo para o jornalismo de verdade, principalmente nas áreas de música e cinema. Em pouco tempo me tornei o homem do rock na Editora Imprima, que fazia as revistas MúsicaViolão & Guitarra e dezenas de títulos menores. 

Minha seção na MúsicaRock Stars, de duas páginas logo pulou para quatro. Aí criei uma revista também chamada de Rock Stars. Outra, a Internacional Extra, caiu nas minhas mãos e passou a abordar exclusivamente a trajetória de roqueiros. E dei à luz a Rock Show e a Rock Passion.
Assinava André Mauro, porque continuava na lista negra da ditadura e meu nome real atrairia atenções indesejadas. Basicamente, mantive a abordagem do rock como contestação ao sistema capitalista num período em que ele começava a se transformar em máquina de fazer dinheiro a partir de altos investimentos promocionais e de mega-espetáculos (estando no gramado do Morumbi quando o Queen inaugurou no Brasil a era dos shows em estádios de futebol, pressenti a mudança dos ventos). 

Mas, o público-alvo da minha editora eram exatamente os roqueiros de raiz, que detestavam Peter Frampton, Abba, Wings, etc. Então, carreguei a bandeira do verdadeiro rock até o final de 1984; cheguei a ter uma breve amizade e a manter muitos papos etílicos com o Raul Seixas; e nunca fui tão feliz como jornalista, mesmo tendo de vender,  para complementar o orçamento, boa parte dos discos que recebia das gravadoras. Nada iguala o prazer de amarmos o que fazemos.

Até que meu castelo de cartas desabou mais uma vez, a crise do papel levou a editora a extinguir metade dos seus títulos e não havia mais jeito de eu sobreviver com os que sobraram. Tive de ir ganhar muito mais fazendo um jornalismo do qual gostava muito menos.
No ano 2000, novamente troquei uma posição consolidada pela tentativa de realizar um sonho, o de ser pai biológico, o que não conseguira até então por força de uma existência tumultuada. Essa opção geraria tantas consequências que passei 2004 e 2005 numa penúria quase total, tendo de fazer das tripas, coração para obter logo a anistia de ex-preso político a que tinha pleno direito, mas certas panelinhas que privilegiavam os seus integrantes estavam passando os lobos solitários como eu para trás.

Acabei vencendo a duras penas essa batalha e ela projetou meu nome na web, abrindo caminho para um livro de memórias meu e de minha geração, a partir do qual fui me tornando conhecido principalmente como o principal jornalista que defendia Cesare Battisti e outros perseguidos políticos, como cronista da luta armada e dos combatentes que a travaram e, enfim, como um velho guerreiro que não trocou seus ideais pelas regalias do poder.

[Existem muitos e muitos outros que também não venderam a alma, mas a imprensa canalha prefere direcionar todos os seus holofotes para os maus exemplos.]
E, enfim, nunca deixo de lembrar que o ex-guerrilheiro Celso Lungaretti é também o ex-crítico de rock André Mauro. Não nego faceta nenhuma do meu passado.
.
OS ROQUEIROS E O BOM COMBATE: O QUE MUDOU DESDE A GERAÇÃO 68? — O rock do final da década de 1960 identificou-se fortemente com a contestação política e a contracultura porque era o momento em que os jovens se chocavam com as barreiras de sociedades conservadoras e puritanas, nas quais a autoridade dos adultos é que deveria sempre prevalecer, sufocando-lhes a esperança de reciclarem o poder com a força da imaginação (além de, nos EUA, estarem sob ameaça de morrerem na tão execrada Guerra do Vietnã). 

Era o fim do patriarcalismo e da hegemonia do capitalismo industrial, em processo de transição para a sociedade de consumo e para a ascendência dos setores financeiros e de serviços. 

Entre uma forma de sociedade que caducava e outra que engatinhava, a rebeldia dos jovens foi uma espécie de cunha: o que eles quiseram naquele instante foi avançar não para outra etapa capitalista, mas  para além do capitalismo.
As melhores cabeças dentre eles perceberam que já existiam plenas condições econômicas de, sem agressões suicidas ao nosso habitat natural, assegurar-se uma sobrevivência digna a cada habitante do planeta, desde que os frutos do trabalho humano fossem distribuídos de acordo com o critério do bem comum e não usurpados por minorias de privilegiados.

E mais: que isto poderia ser conseguido com uma carga muito menor de trabalho e de estresse para cada um de nós, dando-nos a oportunidade de desfrutar plenamente a existência, não mais como inimigos na luta pela sobrevivência, mas como companheiros fraternos na edificação da harmonia e da liberdade.

Os ventos de mudança sopraram intensamente na Europa e nas Américas, contudo não foram suficientes. A transição para a sociedade de consumo acabou se concluindo e consolidando. Fim da História?

Não, pois o capitalismo estagnaria no presente século, incapaz de retomar o crescimento, além de impotente face à escalada do aquecimento global e das alterações climáticas, uma lâmina de guilhotina pendente sobre o futuro de nossa espécie.
Incapazes de entender o que realmente está acontecendo e manipuladas o tempo todo pela indústria cultural, as pessoas se agarram a fiapos de esperança: desde o populismo neofascista dos salvadores da pátria até o autoritarismo embutido no combate à corrupção política, passando pela fé mercantilizada dos novos vendilhões do templo.

Chega a ser paradoxal a comemoração do seu Dia Mundial quando o que o rock tinha de visceral e espontâneo já se esvaiu, com o sistema retomando o controle que lhe escapou das mãos nos anos 50, 60 e parte dos 70.

Mas, como dizia o Gilberto Gil, quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou. E os filhos da rebeldia que sobrevivemos física e mentalmente à onda conservadora das últimas décadas continuaremos gritando que, embora a indústria cultural tente fazer todos crerem que somos uma espécie em extinção, continuaremos o máximo que pudermos lembrando que o paraíso é possível hoje e agora.

Há que tentarmos outra vez e tantas vezes quantas forem necessárias para garantirmos aos que virão depois de nós uma vida digna de ser vivida. (por Celso Lungaretti/André Mauro)    

domingo, 19 de janeiro de 2020

O ÚLTIMO (?) ADEUS DE ANDRÉ MAURO

Toque do editor
Foi uma grata surpresa encontrar este post na vitrine do UOL: fiquei sabendo da existência do Combate Rock, um instigante blog dedicado ao rock e webradio, com apuro jornalístico e que se coloca corajosamente na trincheira da civilização nestes tempos sombrios em que os bárbaros rondam seus muros, à espreita de uma oportunidade para destruí-la.

Entrei em contato com a equipe para expressar minha admiração de velho roqueiro e velho guerrilheiro; acabei convidado para escrever algo sobre minha trajetória e sobre os motivos de a contestação ao sistema ter sido quase uma unanimidade na geração 68 e agora não sê-lo mais.

Na hora de enviar o artigo, ocorreu-me que será provavelmente a última oportunidade de me dirigir ao público roqueiro, matando as saudades do período de 1979/1984, quando o fazia o tempo todo e gostava imensamente do que fazia. Então, resolvi assinar-me com o pseudônimo que então utilizava para manter a censura longe de mim. 
 .
andré mauro
A PROLE MALDITA DOS HELLS ANGELS
Para quem participou intensamente das jornadas de 1968 e foi fundo nos caminhos que elas descortinaram, é chocante constatar que hoje há roqueiros apoiando o fascismo tosco dos ignaros empoderados. Mas, um pouquinho de reflexão ajudará a entender o fenômeno.

Comecemos parafraseando o Mick Jagger: please allow me to introduce myself, I'm a man of (no) wealth and (some) taste. 

Tinha 16 anos quando comecei a me entrosar com o movimento estudantil, primeiramente no meu colégio da Mooca. Em 1968 já estava entre os líderes da arregimentação secundarista em toda a enorme zona Leste paulistana. E em 1969, aos 18 anos, me tornei comandante estadual de uma das principais organizações guerrilheira que confrontavam a ditadura militar, a VPR do capitão Carlos Lamarca. 

Aprisionado; torturado; sofrendo lesão permanente; quase morrendo em várias ocasiões; amargando a perda (assassinados) de uns 20 companheiros que conheci, inclusive alguns muito próximos a mim, as portas do inferno finalmente se abriram em 1972 e voltei às ruas para tentar juntar os cacos, depois de haver optado por vencer ou morrer e não ter acontecido nem uma coisa, nem outra.
A seção Rock Stars nasceu assim
Foi quando colegas da antiga escola me convidaram para participar de uma comunidade alternativa e, sem nada mais a perder, aceitei de pronto. Nela lambi as feridas, superei traumas e me reconstruí. Conheci as drogas do meu tempo, abri as portas da percepção com o LSD e me fascinei pelo heavy metal de Alice Cooper e Black Sabbath. De certa forma, o rock macabro serviu para exorcizar meus pesadelos dos porões da repressão.

Passara batido pelo rock dos anos 50 porque era muito criança quando Elvis Presley escandalizava os EUA; e pelo dos '60 porque o mundinho encantado dos Beatles não tinha nada a ver comigo, aqueles filmecos ingênuos do quarteto eram um tédio só.

A fase de me ligar nos circos de horrores da tia Alice e do canastrão de reality show durou pouco. Logo descobri roqueiros bem mais afins comigo: Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Joe Cocker, Alvin Lee, Eric Burdon, Eric Clapton, Rolling Stones, praticamente toda a linhagem dos que haviam bebido nas fontes do blues e descartavam a herança do country and western.

A nossa comunidade no Jardim Bonfiglioli se estilhaçou em 1973 e eu juntei os trapos com uma menina, fomos viver em quitinete e fiquei reduzido à rotina de trabalhar em comunicação empresarial durante o dia, transar e escutar meus discos à noite. Repouso do guerreiro, depois de tanto alvoroço.

Em 1979 dei um bico na hibernação e fui buscar outras coisas na vida, partindo para o jornalismo de verdade, principalmente nas áreas de música e cinema. Em pouco tempo me tornei o homem do rock na Editora Imprima, que fazia as revistas Música, Violão & Guitarra e outros títulos menores. 
Minha seção na Música, Rock Stars, de duas páginas logo pulou para quatro. Aí criei uma revista também chamada de Rock Stars. Outra, a Internacional Extra, caiu nas minhas mãos e passou a abordar exclusivamente a trajetória de roqueiros. E pari a Rock Show, a Rock Passion.

Assinava André Mauro, porque continuava na lista negra da ditadura e meu nome real atrairia atenções indesejadas. Basicamente, mantive a abordagem do rock como contestação ao sistema capitalista num período em que ele começava a se transformar em máquina de fazer dinheiro a partir de altos investimentos promocionais e de mega-espetáculos (estava no gramado do Morumbi quando o Queen inaugurou no Brasil a era dos shows em estádios de futebol e captei a mudança dos ventos). 

Mas, o público-alvo da minha editora eram exatamente os roqueiros de raiz, que detestavam Peter Frampton, Abba, Wings, etc. Então, carreguei a bandeira do verdadeiro rock até o final de 1984; cheguei a ter uma breve amizade e a manter muitos papos etílicos com o Raul Seixas; e nunca fui tão feliz como jornalista, mesmo tendo de vender boa parte dos discos que recebia das gravadoras para completar o orçamento. Nada iguala o prazer de amar o que se faz.
Até que meu castelo de cartas desabou mais uma vez, a crise do papel levou a editora a extinguir metade dos seus títulos e não havia mais jeito de eu sobreviver com o que sobrara. Tive de ir ganhar muito mais fazendo um jornalismo do qual gostava muito menos.

No ano 2000, novamente troquei uma posição consolidada pela tentativa de realizar um sonho, o de ser pai biológico, o que não conseguira até então por força de uma existência tumultuada. Essa opção geraria tantas consequências que passei 2004 e 2005 numa penúria quase total, tendo de fazer das tripas, coração para obter logo a anistia de ex-preso político a que tinha pleno direito, mas certas panelinhas privilegiavam os seus integrantes e estavam passando os lobos solitários como eu para trás.

Acabei vencendo a duras penas essa batalha e ela projetou meu nome na web, abrindo caminho para um livro de memórias meu e de minha geração, a partir do qual fui me tornando conhecido principalmente como o principal jornalista que defendia Cesare Battisti e outros perseguidos políticos, como cronista da luta armada e dos combatentes que a travaram e, enfim, como um velho guerreiro que não trocou seus ideais pelas regalias do poder. 
[Existem muitos e muitos outros que também não venderam a alma, mas a imprensa canalha prefere direcionar todos os seus holofotes para os maus exemplos.]

E, enfim, nunca deixo de lembrar que o ex-guerrilheiro Celso Lungaretti é também o ex-crítico roqueiro André Mauro. Tenho idêntico orgulho dessas duas facetas do meu passado.
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OS ROQUEIROS E O BOM COMBATE: O QUE MUDOU DESDE A GERAÇÃO 68? Voltando à questão inicial, o rock do final da década de 1960 identificou-se fortemente com a contestação política e a contracultura porque era o momento em que os jovens se chocavam com as barreiras de sociedades conservadoras e puritanas, nas quais a autoridade dos adultos é que deveria sempre prevalecer, sufocando seus sonhos e seus anseios (além de, nos EUA, estarem sob ameaça de morte na tão repudiada Guerra do Vietnã). 
Era o fim do patriarcalismo e da hegemonia do capitalismo industrial, em processo de transição para a sociedade de consumo e para a ascendência dos setores financeiros e de serviços. Entre uma forma de sociedade que caducava e outra que se instalava, a rebeldia dos jovens foi uma espécie de cunha: o que eles quiseram naquele instante foi avançarem não para outra etapa capitalista, mas  para além do capitalismo.

As melhores cabeças dentre eles perceberam que já existiam plenas condições econômicas de, sem agressões suicidas ao nosso habitat natural, assegurar-se uma sobrevivência digna a cada habitante do planeta, desde que os frutos do trabalho humano fossem distribuídos de acordo com o critério do bem comum, e não usurpados por minorias de privilegiados.

E mais: que isto poderia ser conseguido com uma carga muito menor de trabalho e de estresse para cada um de nós, dando-nos a oportunidade de desfrutar plenamente a existência, não mais como inimigos na luta pela sobrevivência, mas como companheiros fraternos na edificação da harmonia e da liberdade.
Os ventos de mudança sopraram intensamente na Europa e nas Américas, mas não o suficiente. A transição para a sociedade de consumo acabou se completando, mas o capitalismo estagnaria no presente século, incapaz de retomar o crescimento, além de impotente face à escalada do aquecimento global e das alterações climáticas, uma lâmina de guilhotina pendente sobre o futuro de nossa espécie.

Incapazes de entender o que realmente está acontecendo e manipuladas o tempo todo pela indústria cultural, as pessoas se agarram ao populismo dos salvadores da pátria, ao autoritarismo embutido no combate à corrupção, à fé mercantilizada dos novos vendilhões do templo e até à barbárie de milicianos e incendiários.

Mesmo nos idos da juventude paz & amor, existiam os Hells Angels, barbarizando, estuprando e matando. Sua prole maldita nunca foi extinta e hoje se faz mais visível sob o bolsonarismo, que obviamente a estimula e protege. 
Mas por aí só se chegará à entropia, daí ser fundamental que as novas gerações de roqueiros se mirem nos Lennons ("Imagine") e Raulzitos ("Sociedade Alternativa"), jamais nesses rebeldes sem cabeça que pensam estar combatendo o sistema quando apenas favorecem o afloramento do que há de mais bestial e nefasto no sistema. (por André Mauro)   

terça-feira, 21 de agosto de 2018

29 ANOS SEM O RAULZITO: PEQUENO TRIBUTO QUE VIROU POST.

Hoje (21/08) se completam 29 anos desde a morte do Raulzito, nosso compositor e intérprete mais afinado com a contestação jovem de 1968, trailer da única revolução possível no século 21.

Sim, enquanto todos os modelos autoritários e reformistas caducaram ao longo deste meio século, continua viva a possibilidade de uma maré revolucionária, iniciada por mero protesto estudantil (como a Primavera de Paris) ou por mero inconformismo com as tarifas dos transportes (como os protestos brasileiros de junho de 2013) servir como estopim para todas as insatisfações, gerando uma revolta que se alastre pelo mundo.

Quando penso no Raul, logo me vêm à mente canções fundamentais como Sociedade Alternativa, Cachorro Urubu, Tente Outra Vez e Ouro de Tolo. São as que mais fundo calaram em mim, embora haja uma vintena de outras que me agradam muito e continuo escutando até hoje.

O que não me vêm à mente é a lembrança dos nossos papos etílicos numas três ou quatro ocasiões em que estive na casa dele e também quando o Raul me convidou para uma boca-livre da CBS. Invariavelmente  bebemos muito, pois ele não parava de entornar e eu não queria ficar atrás de quantas ele tomava, seria indelicado... 

Uma peculiaridade minha é a de continuar raciocinando bem, sendo capaz de não jogar meu carro contra os postes, dizendo coisa com coisa e até vencendo partidas de xadrez quando embriagado mas, no dia seguinte, já terei esquecido tudo.

Enfim, no espírito da comemoração de hoje, vou reproduzir o que consegui a muito custo rememorar dos papos etílicos, quando fiz certa vez um texto-balanço da minha fase de editor, redator e crítico de revistas de música. 

E, no pé do post, disponibilizar o vídeo completo do documentário musical Raul: o início, o fim e o meio (d. Walter Carvalho e Leonardo Gudel, 2012).
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Houve uma vez um André Mauro – Minha lembrança mais grata dessa fase [1979/1984, quando trabalhava em revistas de música e cinema, e sempre sob o pseudônimo de André Mauro para não atrair a atenção dos censores] é a breve amizade com o Raul Seixas. Tudo começou quando cobri a coletiva que ele deu ao lançar seu primeiro disco pela CBS, Abre-te Sésamo.
Talvez por causa do horário matinal, amaldiçoado pelos boêmios, o maluco não estava brilhante, só disse o previsível. Mas, circo desmontado, o assessor de imprensa da gravadora armou um almoço de nós três mais a Kika (também funcionária da CBS), que acabaria sendo a última namorada da vida do Raul.

Fomos num restaurante chinês da rua Theodoro Sampaio e aí, sim, o  Raulzito  aflorou, turbinado pelo saquê que chamou e pela garrafinha metálica de uísque que carregava no bolso. Caprichou nos gracejos, non-sense e brincadeiras. Disse grandes frases e pequenas amenidades (tipo, tal artista não canta nada, mas que coxas ela tem!). 

Finalmente, foi embora quase arrastado pelo pessoal da CBS, pois estava atrasado para a entrevista que daria à Folha de S. Paulo. Não adiantou. No trajeto caiu em sono profundo e, quando finalmente conseguiram acordá-lo, preferiu ir pra casa descansar...

Ao escrever minha matéria, matei a coletiva com cinco linhas e dediquei umas 40 ao que rolou no almoço, num estilo apropriadamente etílico. Qualifiquei Raul de admirável guerreiro que insiste em manter a loucura dos anos 60 em meio ao marasmo e calculismo dos 80 e incluí uma confissão: escutar Cachorro Urubu, com seus versos alusivos à rebelião jovem de Paris (“E todo jornal que eu leio/ Me diz que a gente já era/ Que já não é mais primavera/ Oh, baby, a gente ainda nem começou”), lavava minha alma naqueles tempos depressivos em que todos repudiavam a anarquia e a porra-louquice de 1968.

Mal leu a revista, o Raul ligou para a redação, convidando-me para um happy-hour da CBS, que queria mostrar o novo vídeo promocional do Police. A boca-livre era numa casa noturna chiquérrima, mas não incluía os itens do cardápio, só o serviço padronizado. Quem queria mais, pedia por sua própria conta e a despesa era lançada numa comanda.

Batemos bons papos até ele ficar  alto. Quando eu estava saindo de fininho, o Fred Jorge (letrista do Roberto Carlos no tempo da Jovem Guarda e diretor da CBS por exigência do rei), disse:
— Oh, Celso, o Raul bebeu demais e vai acabar dando vexame. Você não mora no Centro? Então, leva ele até o hotel, você não vai sair muito do seu caminho...
Não adiantou, o vexame acabou mesmo acontecendo. O Raul perdera a comanda, que poderia ter sido utilizada por outro convidado para pedir uísque importado de montão. Então, os funcionários  não queriam deixá-lo ir embora. E ele gritava, furioso:
— Quer dizer que estou preso? Eu estou preso?!
O Fred Jorge acabou se responsabilizando, em nome da CBS, por qualquer gasto mandrake que aparecesse. E eu levei o Raul desacordado até um hotel na avenida Duque de Caxias, defronte a antiga Rodoviária. Precisei da ajuda do porteiro para tirá-lo do carro.
Crowley, ídolo do Raulzito e do Paulo Coelho

Depois, ainda o visitei algumas vezes na casa onde passou a morar, em Pinheiros, se bem me lembro. Uma delas, provavelmente a última, foi quando acabara de trocar a CBS pelo Estúdio Eldorado. 

Conversávamos e bebíamos muito. Fiquei sabendo que ele e o Paulo Coelho interessavam-se por ocultismo, traduzindo livros obscuros, não lançados no Brasil, para próprio uso. Os do Aleister Crowley em primeiro lugar, evidentemente.


[Ou seja, Paulo Coelho, que de mago não tem nada, apenas montou um personagem em cima do que ele e o Raul andaram lendo e pesquisando na década de 1970...]

Até que não pintou mais nenhuma oportunidade e deixamos de nos ver

Depois, em dezembro de 1984, fui obrigado a deixar a Editora Imprima, encerrando a fase de crítico roqueiro. É que a crise do papel encarecera muito as revistas, de forma que os donos decidiram cortar metade dos títulos sob minha responsabilidade. Com o que sobrava, eu não conseguiria sobreviver.

Saí para fazer o que detestava: trabalhar por dinheiro, sem prazer. Foi o que fiz, como jornalista, durante as quase duas décadas seguintes.

quarta-feira, 1 de março de 2017

1981: O QUEEN INAUGURA A ERA DOS MEGA-ESPETÁCULOS ROQUEIROS NO BRASIL. ADEUS, INCONFORMISMO!

O Pink Floyd destacou a semelhança de mega-espetáculos de rock com celebrações nazistas 
Quando foi que, no Brasil, o rock começou a deixar de lado o inconformismo para se tornar mega-espetáculo inofensivo (com um quê das imponentes festividades nazistas da década de 1930)?

O melhor divisor de águas talvez seja a apresentação do Queen no estádio do Morumbi, em março de 1981. Foi a primeira vez que cá vimos um conjunto exibir-se em campo de futebol, com telão, fumaças, luzes e toda a parafernália infernal.

Na década anterior, os ideais e posturas da contracultura ainda inspiravam alguns roqueiros viscerais, como Neil Young, Eric Burdon e Joe Cocker. E os produtos típicos da indústria cultural eram pop stars como Peter Frampton e Paul McCartney.

Foi em 1979 que comecei a escrever sobre rock na editora Imprima. Os sócios-proprietários surpreenderam-se com a receptividade dos meus textos: o gênero estava em baixa era pouco executado nas rádios, mas demonstrou possuir insuspeitados contingentes de fãs.

Eu sabia disto, via-os sempre na Galeria do Rock, centro velho de São Paulo, cujos sebos  frequentava. Neles ainda subsistia o espírito de antagonismo com relação aos caretas  do sistema, a mentalidade de tribo minoritária e discriminada.

Passei a ter duas páginas fixas, depois quatro, no carro-chefe da editora, a revista Música. E se lançaram novas publicações, que eu criei e editava: Internacional ExtraRock StarsRock ShowRock Passion.

Quando soube da vinda do Queen, escrevi a obrigatória matéria de apresentação. Lá pelas tantas, informei o óbvio: que o nome do conjunto se devia a queen ser uma gíria para bicha. Sem preconceito, apenas um dado informativo a mais.

O fã-clube ignorava e escreveu cartas raivosas à editora, acusando-me de difamador (!). Pediu que visitasse sua sede para discutir o assunto.

Como não era bobo nem nada, impus a condição de que a meninada viesse à editora. Aí, claro, o papo transcorreu civilizadamente, na sala de reuniões.

Depois, ao lado de dezenas de convidados da Emi-Odeon, assisti à apresentação de Fred Mercury & cia. no gramado do Morumbi. As novidades me surpreenderam, mas a descaracterização não me escapou. Percebi que a emoção cedia lugar à coreografia bem ensaiada. 

Deduzi que não haveria mais interação entre palco e platéia, mas sim veneração dos astros.

Que nunca se repetiriam temporadas como aquela lendária do Cream no Fillmore West, em 1967, quando Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker, dia após dia, apresentaram de forma diferente as mesmas músicas, de forma que a duração nunca era idêntica. Que improvisos magníficos!
Tony Osanah na fase roqueira, acompanhando Raul Seixas. 

Também me lembrei dos idos de 1973, quando o rock estava tão por baixo que só tinha espaço num dia morto como 2ª feira, no Teatro Oficina. Eu ia quase sempre.

Certa noite choveu, o público era pequeno e a aparelhagem de som estava dando defeito. Um fim de feira.

Então, enquanto os artistas se apresentavam, havia um montão de bicões dando palpites no fundo do palco, enquanto os técnicos tentavam consertar o equipamento; a falação atrapalhava os números. o espetáculo parava 10 minutos, continuava, parava de novo. Algumas atrações desistiam e se mandavam, outras cumpria a obrigação mas só batendo ponto, com o enfado estampado no rosto.

Aí entrou o argentino Tony Osanah (que integrara os Beat Boys ao acompanharem Caetano Veloso em "Alegria, alegria", mas  depois acabaria redescobrindo suas raíces de america), só com a guitarra e o pedal para controlar sintetizadores.

A performance foi furiosa, no melhor estilo Jimi Hendrix. Ao final, trovejou: 
"Eu poderia estar ganhando mais grana nas boates, mas vim aqui atrás de um bom astral. E o que encontrei? A mesma merda. Som, a gente tira na raça, basta ter tesão!". 
Típico texto meu daqueles tempos
Atirou a guitarra no chão e foi embora batendo portas.
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DOMESTICAÇÃO
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O certo é que, naquela noite de 35 anos atrás no Morumbi, ficou claro para mim que o sistema voltaria a apropriar-se do rock. 

[Isto já acontecera nos anos 50, quando a indústria cultural tirou espaço dos pioneiros rebeldes e passou a apostar alto em músicos bem comportados, que não assustassem as famílias conservadoras atrapalhando os negócios, como Pat Boone, Neil Sedaka, Paul Anka e Connie Francis.] 

E eu, que mantivera a chama roqueira acesa em anos de vacas magras, passei a me sentir cada vez mais um estranho no ninho, cada vez mais entediado com as matérias cada vez mais consumistas que era obrigado a escrever e/ou editar.

Aí, em dezembro de 1984, deixei a editora Imprima e parti pra outra, sem alegria e sem fantasia, aposentando definitivamente o crítico de rock André Mauro, o último dos independentes, que permaneceu alinhado com a contracultura quando ninguém mais o era, de saudosa memória para uns poucos e envelhecidos fãs que até hoje o citam nas redes sociais.
Os novos e maus tempos chegaram com este show do Queen no Morumbi 

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

ROCK'N ROLL CAN NEVER DIE

Minha primeira seção fixa na Música (1)
Rolou um papo saudosista no Facebook, com o Adalto Alves divulgando um artigo que escreveu para o site da rádio Interativa FM (ele produz o programa Doa a quem doer, uma das atrações da emissora), no qual relembrou o jornalismo musical dos anos '70 (eu incluso):
"Antes da revista Bizz, Maurício Kubrusly editava a SomTrês. Não guardei nenhum exemplar. Saudade. Bem feito. Quem mandou? Li minhas primeiras críticas de música na SomTrês. E pulava toda aquela parte sobre equipamentos de som.
A revista Música também tinha uma parte, que eu pulava, sobre equipamentos de som (...). Cresci ouvindo LPs. Não perdi o tato pelo disco. Adoro ouvir música em disco. 
E ler sobre música em revista. Na SomTrês, conheci Ezequiel Neves. Na Música, conheci André Mauro (ele e Celso Lungaretti são os mesmos). Ezequiel assinava ora Zeca’n’Roll ora Zeca Jagger ora Zeca Rotten. O Celso era o André.
Ezequiel delirava com o rock. Era puro Dionísio. André teorizava sobre o rock. Era Apolo. O primeiro me divertia. O segundo me fazia pensar. Conheci obras maravilhosas por meio do trabalho dos dois. Tenho uma dívida de gratidão impagável.
Mas foi o texto do André que me deu vontade de ser, não jornalista, mas crítico de música. Foi lendo o André que eu pensei: 'é isso o que eu quero fazer'. Bom, hoje eu faço. Nem como o André nem como o Zeca. Mais ou menos como eu mesmo. 
A molecada da Bizz fez o papel de soterrar os coroas. A Bizz era moderna. Surgiu com a new wave. Zeca e André eram dos anos 70. Mais hard rock, heavy metal, punk, progressivo, blues. Mas todas as revistas acabaram. Tudo migrou para a rede.
Com tanta gente na rede, nunca achei quem me deleitasse tanto quanto as extravagâncias do Zeca na SomTrês e as reflexões políticas do André na Música. Talvez eu não esteja procurando direito. Acho que eu sofro de nostalgia".
Uma ousadia, repudiando a autocensura (2)
Um comentarista lhe passou o link deste blogue, mas o Adalto respondeu que não curte a linha atual do meu trabalho:
"Agora ele fala só de política (...).  Não de política através do rock. Eu gostava mais do André.
Acho que eu tenho que avisar o Celso Lungaretti que eu estou falando dele aqui. Ezequiel Neves morreu em 2010".
Não precisou ele avisar, fui avisado pelas notificações do Facebook. E eu entrei na conversa:
"Adalto, o rock que eu curtia se foi, assim como seus grandes expoentes estão indo: Joe Cocker, Leonard Cohen e agora o Leon Russell, que teve uma grande fase no início dos '70, depois voltou ao mero country. 
Há 25 posts com a tag rock no meu blogue, inclusive três que coloco entre os melhores da minha carreira: 2 sobre o Raulzito e o outro, uma panorâmica do festival de Woodstock. Também há outros posts musicais e muitos de cinema (talvez vc ignore, mas também fui crítico de cinema durante anos). 
E, ao contrário dos Pepes Escobares da vida, aos 66 anos continuo acreditando nos ideais da Geração 68 e tentando torná-los realidade. Não virei nenhum rabugento da velha esquerda, fazendo chatíssimas análises geopolíticas e justificando quaisquer ditaduras desde que adversárias dos EUA. Continuo sendo, acima de tudo, um libertário. Abs.".
O Adalto respondeu de forma simpática: 
"Jamais seria capaz de imaginá-lo rabugento, da velha esquerda, defendendo o indefensável, Celso Lungaretti. Vou dar uma olhada, sim, no seu blog, com atenção. 
Abraço fraterno".
Retribui. E me senti mais animado, por ter nova comprovação de que nunca são inteiramente esquecidos os textos nos quais colocamos a alma. Por mais que o mundo pareça marchar em direção contrária aos nossos sonhos, outros momentos históricos haverá, bem como leitores que recordarão nossas bem traçadas linhas e, talvez, inspirem-se nelas para transformar a sociedade. Temos de acreditar, sempre. E continuar lutando, enquanto não nos faltarem forças e lucidez. 
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1) A seção Rock Stars começou com duas páginas, depois passou a quatro e acabou se tornando uma revista independente, em formato menor.
2) Na edição inaugural da Rock Show, uni o útil (pegar no pé da gravadora, que não ousara lançar no Brasil a capa do LP do Scorpions com a menina nua, criando outra, especial para países preconceituosos) ao agradável (os diretores da editora viram na imagem impactante uma oportunidade comercial e bancaram a ideia, apesar dos riscos).
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