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sexta-feira, 17 de outubro de 2025

EM JULHO O "NÁUFRAGO DA UTOPIA" JÁ ANTECIPOU O MALOGRO DA CHANTAGEM TARIFÁRIA DO "TIGRE DE PAPEL" TRUMP

"Ou (o Brasil) se avacalha de vez com uma rendição não só vergonhosa como desnecessária, ou se une contra o vilão pândego que, diria o Jards Macalé,  range, ruge, morde, mas não passa de um tigre de papel. 

Sabe de antemão que, caso mantenha a firmeza, inevitavelmente será o vencedor da pendenga."

Tal análise, feita  neste meu post do último dia 12 de julho, está sendo inteiramente confirmada agora, mais de três meses depois: o Brasil manteve a firmeza, pagou para ver e fez Trump recuar do seu blefe arrogante. 

Assim, preparando o terreno para as negociações diretas que Trump e Lula manterão, o secretário de Estado dos EUA Marco Rubio e o ministro das Relações Exteriores brasileiro Mauro Vieira só relacionaram como temas a serem discutidos aqueles. eminentemente técnicos, que dizem respeito aos verdadeiros interesses dos dois países.
O bananinha sai da pendenga como grande perdedor 

Nenhuma palavra a respeito de assuntos políticos como a condenação de Jair Bolsonaro a uma merecida pena de prisão; trata-se do reconhecimento tácito de que Trump errava ao tentar interferir nas decisões da Justiça brasileira. 

Minha recomendação de 12 de julho acabou sendo mesmo a linha de ação adotada com êxito pelo governo brasileiro: 
"O melhor, portanto, é deixarmos o golpista e genocida Jair Bolsonaro, o traidor da pátria Eduardo Bolsonaro, o errático Tarcísio de Freitas e outros personagens tão medíocres quanto estes fazendo o papel de palhaços na farsa trumpiana. É para isto, e só para isto, que todos eles servem".
De resto, mesmo não tendo conseguido seu intento, o bananinha precisa ser punido pela Justiça e perder seu mandato de deputado por ter intrigado contra o Brasil nos EUA, comportando-se como um reles quinta-coluna. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

O CORDÃO DOS PUXA-SACO (DO DONALD TRUMP) CADA VEZ AUMENTA MAIS...

Pôster do símbolo da vergonha
francesa que foi o governo de Vichy
rui martins
SOBERANIA NACIONAL É
PARA SER RESPEITADA
Um grupo de nove governadores se reuniu na casa do governador do Distrito federal, Ibaneis Rocha, para discutir o tarifaço. Até aí, tudo bem.

Mas, o fizeram sem sequer mencionarem as ações desenvolvidas junto ao governo estadunidense pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro e às ameaças, chantagem e ingerências na soberania brasileira feitas pelo presidente Donald Trump com o objetivo de forçar o Supremo Tribunal Federal a anular o processo por golpismo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e lhe conceder uma ampla anistia para poder disputar as eleições presidenciais no próximo ano.

Ignorando o aspecto político do tarifaço aplicado ao Brasil, os governadores, representados junto à imprensa pelo governador Tarcísio de Freitas, se limitaram a criticar o presidente Lula por não ter ido a Washington negociar com Trump, como se não soubessem das tratativas feitas pelo vice-presidente Geraldo Alkmin. 

Essa abordagem, também utilizada numa entrevista pelo governador mineiro Romeu Zema, foi considerada como discurso de palanque com objetivo eleitoral pelo comentarista da Jovem Pan Cristiano Vilela, dado o resultado colhido por quem procedeu de tal maneira: a presidenta suíça Karin Keller-Sutter voou para Washington assim que seu país foi taxado em 39%, mas nem sequer foi recebida por Trump e voltou com as mãos abanando.

No caso do Brasil a situação se complica, pois as ameaças de Trump repercutidas pela própria embaixada dos EUA em Brasília e a ingerência ditando o que deve fazer o Judiciário brasileiro, consideradas pelo presidente Lula como atentatórias à soberania nacional, impedem uma negociação direta. Muitos comentários na imprensa são pela defesa da soberania brasileira e contra uma interferência estadunidense  no Judiciário brsileiro.

A posição assumida pelos governadores avestruzes, que devem estar com a cabeça enterrada na areia para não enxergarem a afronta na qual se constituem os ultimatos de Trump, nos fez lembrar de um episódio de 85 anos atrás. Mesmo depois da invasão da França pelas tropas nazistas havia políticos complacentes com Hitler, a ponto de constituírem um governo colaboracionista, comandado pelo marechal Philippe Pétain e Pierre Laval, o chamado regime de Vichy (1940-1944). 
Caiado, 1989, líder de jagunços na guerra do Pontal

Tal regime de sujeição voluntária aos invasores alemães transformou em leis francesas as exigências de Hitler. Foi o caso do envio dos judeus aos campos de concentração e extermínio nazistas, num plano antissemita de genocídio. 

O lema Deutsche Uber Alles (Alemanha Acima de Tudo) foi copiado no Brasil Acima de Tudo, da extrema direita evangélico-bolsonarista e não difere em muito do Make America Greater Again  (Faça a América Grande de Novo).

Trump não é Hitler, mas está evidentemente assumindo atitudes despóticas, inclusive dentro dos EUA. Interfere no funcionamento da Justiça e na rotina das universidades., Atropela os direitos humanos no tratamento e expulsão  dos imigrantes, convocando um reforço da Guarda Nacional em Washington como quem se prepara para aumentar seu poder discricionário e impedir resistências. 

Não se falava, na época, em Hitler ungido por Deus, mas uma grande parte da igreja luterana alemã apoiava Hitler e -- ao contrário da teologia do domínio criada nos EUA pelos pentecostais, baseada no Deus guerreiro do Velho Testamento -- a extrema-direita religiosa hitlerista queria se desfazer da herança judaica do cristianismo por um Jesus ariano. A igreja luterana anti-Hitler teve dois mártires, executados pelo governo nazista: Martin Niemoller e Dietrich Bonhoeffer

Por que essa equiparação ao regime colaboracionista de Vichy? Porque numa entrevista ao UOL, apesar da insistência de três entrevistadores, o governador Ronaldo Caiado  minimizou, ignorou, descartou hipocritamente a evidência de que o tarifaço de Trump contra o Brasil é político. 
Tarcísio e Zema: volta à aliança café com leite? 

Caiado, que presidia a União Democrática Ruralista quando esta trocava tiros com o MST no Pontal do Paranapanema (SP), mostra que três décadas e meia depois ele em nada mudou, complacente com Trump mas criticando a reação altaneira do presidente Lula, como se o Brasil fosse obrigado a se sujeitar aos desmandos arrogantes dos EUA. 

Lula deveria ter ido a Washington negociar com Trump sobre até onde vai a soberania brasileira e até onde podem legislar os ministros do Supremo Tribunal Federal?

Caiado, assim como Romeu Zema (MG) e Tarcísio de Freitas (SP), aceita que o Brasil seja submetido a um tratamento de colônia ou de país sujeito às leis e pressões autocráticas de um presidente estrangeiro, desvinculadas das normas internacionais de regulação do comércio exterior e taxas aduaneiras? 

Em caso afirmativo, esses três líderes presidenciáveis estariam abrindo mão da soberania e independência brasileiras, em favor de uma relação de sujeição e colaboração com os EUA, inspirada na França de Vichy.

Há também algo estranho nas últimas críticas do governo Trump ao Brasil, focadas no desrespeito aos direitos humanos e violências policiais. Não passaram despercebidas as denúncias às violências cometidas pela polícia de Guilherme Derrite, secretário de confiança do governador Tarcísio de Freitas.
O bananinha diz que aceita a missão de ser presidente.
Resta saber de qual país, Brasil ou Estados Unidos?

Detalhe: os articuladores e fornecedores de informações ao secretário de Estado dos EUA Marco Rubio e ao presidente Trump, contrárias ao governo e ao Judiciário brasileiros, são o neto do ditador João Figueiredo, Paulo Figueiredo, e o filho do ex-presidente, Eduardo Bolsonaro, auto-candidato à sucessão de Lula e preferido pelo pai. 

Cabe, portanto, a suspeita de que tais denúncias sejam destinadas a inviabilizar junto a Trump uma candidatura, nas próximas eleições, do nome de Tarcísio de Freitas. Uma espécie de fogo amigo. (por Rui Martins)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

NOS EUA COMO CÁ, OS ULTRADIREITISTAS QUEREM QUE AS PESSOAS MORRAM PARA SUAS CHANCES ELEITORAIS SOBREVIVEREM

paul krugman
AS MENTIRAS VIRAIS QUE SEGUEM MATANDO
U
m ano atrás, parecia razoável esperar que, já no início de 2022, estaríamos falando na covid usando o pretérito, ao menos enquanto grande problema de saúde e qualidade de vida. 

Vacinas eficazes foram desenvolvidas com velocidade milagrosa; certamente, um país sofisticado como os Estados Unidos encontraria uma maneira de distribuir essas vacinas amplamente e  rapidamente.

Então, por que não superamos a pandemia? Parte do problema tem sido a criatividade da evolução do vírus. A variante Delta nos chocou com sua letalidade; agora, a Ômicron nos choca com sua facilidade de transmissão. 

Ainda assim, poderíamos e deveríamos ter nos saído melhor. E a principal razão de não termos conseguido isso foi o poder das mentiras de motivação política.

Antes de entrar nos detalhes dessas mentiras e do estrago provocado por elas, quero deixar algo bem claro: sim, esta é uma questão política.

Sei que não sou o único comentarista a enfrentar reações negativas por enfatizar a natureza partidária da resistência às vacinas. 

Somos constantemente lembrados que muitos estadunidenses não vacinados não são fanáticos do Partido Republicano, que há diferentes motivos pelos quais as pessoas recusam as vacinas ou ainda não as procuraram. Tudo isso é verdadeiro, mas a política desempenhou um papel crucial e crescente.
Observemos, p. ex., um levantamento da KFF realizado em outubro, revelando que 60% das pessoas não vacinadas se declaravam republicanas, em comparação a apenas 17% que se identificavam como democratas. 

Ou a valiosa análise de Charles Gaba dos dados no nível dos condados, mostrando que em média cada ponto porcentual extra de apoio a Trump nas eleições de 2020 corresponde a uma redução de aproximadamente meio ponto na taxa de vacinação de um condado.

Mas como a política conseguiu enfraquecer tanto aquilo que deveria ter sido um milagre da medicina? Identifico três importantes mentiras que continuam sendo repetidas pelos políticos republicanos e pela mídia de direita.

Primeiro, temos a alegação segundo a qual o coronavírus não seria nada de mais. Seria de se esperar que tal alegação já tivesse sido esquecida, levando em consideração que mais de 800 mil estadunidenses morreram de covid desde o dia em que Rush Limbaugh comparou este vírus a uma gripe comum.

Mas tal ideia continua circulando. Figuras políticas como Marco Rubio fazem pouco da resposta à variante Ômicron, descrevendo-a como histeria irracional, porque a nova cepa parece provocar um número relativamente baixo de hospitalizações entre a população totalmente vacinada. 
Em 1876 (febre amarela no carnaval) era assim.
O Bozo e seus cúmplices querem ver a reprise.

Ele logo deixa de lado esta qualificação, algo que o levantamento da KFF indica ter iludido milhões de republicanos não vacinados, que se dizem pouco preocupados com uma doença que deveria preocupá-los, e muito.

E os comentaristas conservadores explodiram de raiva quando o presidente Biden destacou, com razão, que o coronavírus ainda é extremamente perigoso para quem não tomou a vacina; Tucker Carlson acusou Biden de tratar os não vacinados como sub-humanos.

Em seguida: a alegação segundo a qual as vacinas são ineficazes. Se a dose de reforço funciona, por que ela não funciona? – publicaram no twitter os republicanos da comissão judiciária da Câmara.

O que eles querem apontar, supostamente, é o fato de a variante Ômicron produzir um imenso número de novas infecções, ao mesmo tempo ignorando cuidadosamente as evidências maciças de que mesmo quando os estadunidenses vacinados são infectados, sua probabilidade de hospitalização (ou morte) é muito inferior à dos não vacinados.

Finalmente, temos a alegação segundo a qual tudo não passa de uma questão de liberdade, e a decisão de tomar a vacina ou não deveria ser tratada como qualquer escolha individual. P. ex., o governo de Greg Abbott, no Texas, usou este argumento como base de um processo que busca impedir o governo federal de obrigar o uso de máscaras entre a população. 

O governo Abbott também pediu por mais ajuda federal para o Texas, onde a taxa de vacinação é muito baixa em parte porque Abbott impediu o setor privado de exigir comprovantes de vacinação para enfrentar uma alta nos casos de covid e decorrentes hospitalizações. Falta dizer alguma coisa?
Leitores atentos terão notado que, além de falsas, essas alegações republicanas se contradizem de muitas maneiras. Podemos ignorar a covid graças às vacinas, que, aliás,
não funcionam. 

Vacinar-se é uma decisão individual, mas sonegar às pessoas as informações necessárias para que tomem tal decisão com sabedoria é um vil ataque à sua dignidade. 

É tudo uma questão de liberdade e livre mercado, mas essa liberdade não incluiria o direito das empresas privadas de protegerem seus próprios funcionários e clientes.

Então, vemos que nada disso faz sentido, a não ser se percebermos que a obstrução dos republicanos à vacina não é fruto de uma ideologia coerente e sim da busca pelo poder. Uma campanha de vacinação bem-sucedida seria uma vitória para o governo Biden, e por isso teve de ser enfraquecida com o uso de qualquer retórica disponível.

É claro que a estratégia antivacinação funcionou politicamente. A persistência da covid ajudou a manter o clima sombrio nos EUA, o que sem dúvida prejudica o partido que está na Casa Branca. Daí os republicanos que fizeram tudo ao seu alcance para impedir uma resposta eficaz à covid não terem hesitado nem por um segundo em responsabilizar Biden pelo fracasso em acabar com a pandemia.

E o sucesso da destrutiva politização da vacina é, em si, profundamente horripilante. Parece que o cinismo completo compensa, mesmo se promovido ao custo das vidas de seus apoiadores. 
(por Paul Krugman, economista estadunidense agraciado em 2008 com o Prêmio Nobel de Economia, escritor e colunista do New York Times)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

NOS EUA DE HOJE, QUALQUER POLÍTICO QUE TENHA PRINCÍPIOS É EXPULSO DO PARTIDO REPUBLICANO, DIZ NOBEL DE ECONOMIA

paul krugman
COMO ZUMBIS COMERAM A ALMA DO PARTIDO REPUBLICANO
É nesta semana que a democracia americana vai morrer? É muito possível que sim.

Afinal, todo mundo em Washington entende perfeitamente bem que Donald Trump abusou dos poderes de seu cargo na tentativa de manipular a eleição presidencial deste ano. Mas os senadores republicanos estão de qualquer modo dispostos a absolvê-lo sem sequer fingir que examinaram as provas, assim encorajando novos abusos de poder.

Mas como chegamos a esse ponto? Parte da resposta é radicalismo partidário e incorreção política da extrema direita (muito mais virulenta que qualquer coisa à esquerda). Mas eu também culpo os zumbis.

Uma ideia zumbi é a crença ou doutrina que já foi comprovada falsa diversas vezes, mas se recusa a morrer; em vez disso, ela continua se arrastando por aí, comendo o cérebro das pessoas.

O zumbi máximo na política americana é a afirmação de que os cortes de impostos se pagam por si mesmos —afirmação que se mostrou errada diversas vezes nos últimos 40 anos. Mas há outros zumbis, como a negação da mudança climática, que têm um papel quase tão grande em nosso discurso político.
E todos os zumbis realmente importantes hoje em dia estão na direita. De fato, eles dominaram o Partido Republicano.

Nem sempre foi assim. Em 1980, George Bush pai chamou as afirmações extravagantes de Ronald Reagan sobre a eficácia dos cortes fiscais de política econômica vodu. Tudo o que aconteceu desde então confirmou sua avaliação original.

Os déficits incharam depois dos cortes fiscais de Reagan; eles encolheram e afinal se transformaram em superavits depois que Bill Clinton aumentou os impostos, e incharam de novo após os cortes de George Bush filho.

O vodu também caiu e queimou no nível estadual: a experiência do Kansas em cortes de impostos radicais foi um terrível fracasso, enquanto o aumento de impostos na Califórnia sob Jerry Brown, que os conservadores declararam um caso de suicídio econômico, foi seguido de um sucesso de receitas e econômico.

Mas a economia do vodu se tornou uma doutrina incontestável no Partido Republicano. Até falsos moderados como Susan Collins justificaram seu apoio ao corte fiscal de Trump em 2017 afirmando que ele reduziria o deficit orçamentário. Previsivelmente, o deficit de fato explodiu e hoje supera US$ 1 trilhão (R$ 4,2 trilhões) por ano.

A política sobre a mudança climática seguiu uma trajetória semelhante. A temperatura global continua batendo recordes, enquanto proliferam catástrofes relacionadas ao clima, como os incêndios na Austrália.

Mas a maioria dos congressistas republicanos são negadores do clima —muitos deles aprovam a ideia de que a mudança climática é uma fraude cometida por uma vasta conspiração científica internacional— e até esses, como Marco Rubio, que admite a contragosto que o aquecimento global é real, se opõem a qualquer ação significativa para limitar as emissões de gases.

É importante perceber que a zumbificação do Partido Republicano não é um fenômeno recente, algo que aconteceu só com a eleição de Trump. Ao contrário, os zumbis vêm comendo o cérebro dos republicanos há décadas.

A economia do vodu dominou completamente o partido no início dos anos 2000, quando o então líder da maioria na Câmara, Tom DeLay, declarou: "Nada é mais importante diante da guerra do que cortar impostos". 

Os negadores do clima governaram desde pelo menos 2009, quando só oito deputados republicanos apoiaram um projeto de lei para limitar as emissões de gases do efeito estufa.

O que os acontecimentos recentes deixam claro, entretanto, é que as ideias zumbi não comeram só o cérebro dos republicanos. Elas também comeram a alma do partido.

Pense no que se exige hoje para um político republicano ser considerado um bom membro do partido. Ele ou ela deve prometer fidelidade a doutrinas políticas que são demonstravelmente falsas; ele ou ela deve, na verdade, rejeitar a própria ideia de dar atenção às evidências.

É preciso ser um certo tipo de pessoa para fazer esse tipo de jogo —qual seja, um carreirista cínico. Costumava haver políticos republicanos que eram mais que isso, mas eram principalmente restos de outra era, e nesta altura todos deixaram a cena, de um modo ou de outro. John McCain talvez tenha sido o último desse tipo.
O que resta hoje é um partido que, até onde posso ver, não contém políticos de princípio; qualquer um que tenha princípios é expulso.

Agora, a mídia noticiosa, com sua constante necessidade de parecer equilibrada, tem dificuldade para enfrentar essa realidade; está sempre procurando maneiras de retratar pelo menos alguns republicanos como figuras admiráveis. Isso o tornou presa fácil para charlatães como Paul Ryan, que fingiu ser sério sobre seus princípios fiscais. Mas ele sempre foi uma fraude evidente.

De qualquer forma, um resultado de décadas de zumbificação é um caucus republicano que consiste totalmente em oportunistas desalmados (e não, o fato de que alguns deles gostam de citar as Escrituras não modifica isso).

Acho que você talvez esperasse que houvesse algum limite para o que esses apparatchicks aceitariam, que até eles traçariam uma linha para os feios abusos de poder e conivência com autocratas estrangeiros.

O que vimos, porém —e, talvez mais importante, o que Trump viu— é que não há uma linha. Se Trump quiser desmantelar a democracia e o Estado de direito (o que ele faz), seu partido o apoiará completamente. (por Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia e colunista do New York Times)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

SE MADURO SEGUISSE O CONSELHO DE MUJICA, EVITARIA O PIOR: A VOLTA DO INTERVENCIONISMO DO 1º MUNDO.

Toque do editor
Há internautas de esquerda que preferem ler apenas textos que reiteram e reforçam suas convicções; ou seja, pessoas em busca de espelhos e não de aprofundar seu conhecimento daquilo  que está ocorrendo.

Este blog sempre seguiu outra linha, a de publicar escritos que tragam informações novas, para que seus leitores possam, eles mesmos, refletir e chegar às suas conclusões.

É o caso do artigo abaixo, do cientista político Ian Bremmer, colunista da revista Time. Ele tem um óbvio viés anti-Maduro, mas seria primarismo rejeitá-lo in totum, enfiando a cabeça na areia como avestruz.

Temos, p. ex., de olhar com muita atenção essa frente de nações poderosas que se formou sob a batuta de Trump para defenestrar Maduro. Será que, no caso de um presidente menos detestado, a coisa iria pelo mesmo caminho? Ou foi algo excepcional, por tratar-se de um dos governos mais malvistos do planeta?

Recomendo que também leiam atentamente o que Brenner escreve sobre Marco Rubio, tendo em mente o pacote no qual tal senador estaria pretendendo enfiar o Brasil, segundo este artigo aqui publicado três dias atrás.

O mundo está mudando e, se continuarmos sendo tão lerdos para captar as mudanças, ficaremos cada vez mais para trás. 

Então, deixemos de lado os preconceitos e vamos priorizar o que nos ajuda a interpretar as novidades, ao invés de perdermos tempo com aquele mais do mesmo habitual nos espaços da esquerda populista-eleitoreira (muitas vezes apenas tentativas retóricas de se justificarem erros crassos cometidos em passado recente).

As lutas que realmente importam são sempre as que travaremos adiante. E, para quem vem de derrotas tão acachapantes como as que sofremos nos últimos anos, conhecer melhor o inimigo é condição essencial para que não sejam repetidas as lambanças que nos conduziram à atual correlação de forças, extremamente desfavorável ao nosso lado.

Por último, eis minha posição: considero praticamente inevitável a queda de Maduro e deplorável ao extremo que ela possa ressuscitar um intervencionismo do 1º mundo nos países do 3º que parecia ter ficado lá para trás. 

Infelizmente, não há na Venezuela um líder com discernimento para perceber quão certo está José Mujica ao pregar, como alternativa à inevitável intervenção estrangeira, a convocação de eleições gerais sob a supervisão da ONU. O tacanho Maduro irá para o tudo ou nada e vai sofrer derrota total, além de dar pretexto à abertura de um precedente que poderá ser péssimo para outras nações! (por Celso Lungaretti) 
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 ian bremmer
ALINHAMENTO INTERNACIONAL É A MAIOR
 SURPRESA NA CRISE VENEZUELANA
Quase 90% dos venezuelanos hoje vivem na pobreza. 

A inflação está projetada para chegar a 10.000.000%  em 2020, segundo o FMI; para comprar produtos de primeira necessidade como leite e pão, quando têm a sorte de encontrá-los nos supermercados, os cidadãos já precisam levar dinheiro literalmente em carrinhos de mão. 

Mais de 3 milhões de pessoas abandonaram o país desde 2015.

O mundo assiste com consternação à queda da Venezuela –uma economia no passado reforçada pelas maiores reservas petrolíferas comprovadas do mundo–, que de nação antes próspera tornou-se uma catástrofe humanitária em menos de uma década.

No entanto, pela primeira vez desde que o presidente Nicolás Maduro chegou ao poder, em 2013, a situação política no país parece finalmente ter começado a mudar... (e) parece que também estamos testemunhando algo inesperado e afortunado. É algo que vai muito além de pessoas se rebelando contra condições de vida miseráveis ou um regime repressor.

Essa história já se desenrolou muitas outras vezes e em muitos outros lugares. O que é excepcional na situação atual da Venezuela é que a oposição no país hoje tem o respaldo de um alinhamento genuíno de potências estrangeiras unidas em torno de uma questão que não representa um interesse nacional fundamental de nenhuma delas.

Um movimento oposicionista dominado e fragmentado pelos inúmeros problemas do país e pelo resoluto apoio militar a um governo inepto uniu-se em torno de Juan Guaidó, engenheiro de 35 anos e presidente da Assembleia Nacional. (...) Seu esforço para revitalizar o sistema político rompido do país também é respaldado pelo apoio amplo e profundo de boa parte da comunidade internacional.

No momento em que este artigo foi escrito, mais de 20 países já haviam reconhecido Guaidó como o líder venezuelano de direito, entre eles os EUA, Canadá, Reino Unido, França, Alemanha e os principais países latino-americanos, exceto o México.

Já houve outros líderes opositores antes de Guaidó, mas Maduro se impôs sobre eles. Não será igualmente fácil empurrar Guaidó de lado, agora que tantos outros países se comprometeram a apoiá-lo. E, num mundo onde tantos países vêm cada vez mais adotando uma política externa baseada na premissa de cada país por si, isso é no mínimo espantoso.

Ainda mais surpreendente é o fato de que foi uma administração americana liderada por Donald Trump que liderou o esforço por uma resposta internacional ao impasse político da Venezuela. 

A decisão inesperada de Trump de adotar uma linha dura contra o regime de Maduro (com sanções contra a estatal petrolífera PDVSA e a entrega direta a Guaidó do controle de alguns dos bens da Venezuela nos EUA) parece contradizer sua política externa de a América em primeiro lugar.
"Antes eleições gerais do que intervenção estrangeira". Mas...
Mas o novo engajamento de Trump com a democracia na Venezuela é fruto do engajamento do senador Marco Rubio (aliado republicano chave, para quem o que acontece na Venezuela é crucial para sua base eleitoral na Flórida) e a linha dura dos assessores de Trump na Casa Branca, incluindo o assessor de Segurança Nacional John Bolton.

Não está claro que Trump esteja preocupado com a situação desesperadora dos venezuelanos, assim como não está preocupado com a situação desesperadora dos sírios ou dos muçulmanos rohingyas no sudeste asiático, mas ele quer ser visto como figura poderosa e que impulsiona mudanças geopolíticas, e as medidas sobre a Venezuela tomadas até agora por sua administração encerram risco mínimo para os interesses dos EUA.

Um fato que ajuda, com certeza, é que o petróleo venezuelano hoje é muito menos importante para o misto energético dos EUA do que foi no passado, deixando a Washington mais margem para agir agressivamente no front diplomático. 

Igualmente importante sãos os fatos de Maduro ser muito menos importante para as maquinações geopolíticas de potências estrangeiras do que é Bashar al Assad, na Síria, para países como a Rússia e o Irã –e de que seu país ganhou a fama de não saldar suas dívidas no exterior.

A preocupação humanitária nunca é o bastante, por si só, para levar a intervenções externas, mas a crise venezuelana e o profundo cinismo do governo de Maduro fizeram exatamente isso. Não há garantias de que transformações reais sejam iminentes.
...perceberá Maduro a gravidade da situação?

Maduro já mostrou muitas vezes que consegue se manter no poder, principalmente porque as forças armadas do país ainda não decidiram que conservá-lo terá custo mais alto e encerrará mais riscos do que enviá-lo ao exílio.

Além disso, quando a Venezuela finalmente tiver uma nova liderança, o país enfrentará problemas incontáveis, sendo alguns dos principais sua dívida gigantesca e as consequências da fuga de profissionais qualificados, que ocorre há uma década. Mas o alinhamento de tantos governos estrangeiros agora traz a esperança de que a população venezuelana finalmente tenha dias melhores pela frente. (por Ian Bremmer)

domingo, 3 de fevereiro de 2019

EUA SONHAM COM O BRASIL LHES SERVINDO DE JAGUNÇO NA DERRUBADA DE MADURO

matias spektor
SENADOR AMERICANO PROPÕE BARGANHA INÉDITA A BOLSONARO
Marco Rubio é chefe de facto da política externa dos Estados Unidos para a América Latina. Como senador do Partido Republicano pelo estado da Flórida, ele tem ascendência sobre a Casa Branca por força do voto latino, capaz de virar resultados numa eleição presidencial. 

Rubio não dá ponto sem nó e apostou todas as fichas em virar líder da oposição à ditadura venezuelana. Com persistência ímpar, ele vem conseguindo empurrar o presidente Trump na direção que deseja. 

As duas últimas vitórias foram acachapantes. Primeiro, conseguiu fazer com que os EUA liderassem uma coalizão internacional para negar reconhecimento a Nicolás Maduro. Segundo, transformou Juan Guaidó, jovem político desconhecido e sem experiência relevante, em rosto da oposição. 

Agora, Rubio está concentrando seu esforço no Brasil, país que quer ver como aliado. O processo começou durante a viagem de Eduardo Bolsonaro a Washington, mas chegou a seu ponto de inflexão na terça (29). 

Em artigo de opinião publicado pela CNN, Rubio fez a proposta mais audaciosa já apresentada por um líder político americano em décadas. Se vingar, afetará em cheio a posição do Brasil no mundo. 

Rubio argumenta que os Estados Unidos deveriam fazer uma grande barganha diplomática com o Brasil. 

O esquema funcionaria assim: os americanos ofereceriam um pacote de concessões ao governo Bolsonaro em troca de ajuda brasileira em temas de interesse geopolítico para Trump.

Na prática, o governo americano jogaria todo o seu peso para garantir a ascensão do Brasil à Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, um pleito que, se efetivado, produziria enorme impacto positivo nas políticas públicas brasileiras e elevaria o status de Bolsonaro. 

Na proposta do senador, a Casa Branca também se empenharia em fazer decolar os planos brasileiros para a base aérea de Alcântara. Com ela, viria uma enxurrada de oportunidades de negócios na área militar. 

Em troca, o Brasil assumiria um papel maior na gestão da crise da Venezuela, que deve piorar muito durante os próximos meses e poderá criar instabilidade e insegurança na região. Rubio quer apoio brasileiro para atravessar a turbulência, que já está contratada. 

O senador também pede ao Brasil um papel central no afastamento de China, Irã e Rússia, inimigos da democracia, da América Latina. A medida forçaria a diplomacia brasileira a dar uma guinada em relação aos Brics.
É impossível saber se a proposta do republicano vai vingar. O processo decisório do governo Trump é caprichoso e avança por sobressaltos, não pela avaliação cuidadosa de cenários alternativos. 

Mas o argumento está feito e a bola, em campo brasileiro. (por Matias Spektor, professor de relações internacionais na FGV)
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