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sexta-feira, 15 de agosto de 2025

O CORDÃO DOS PUXA-SACO (DO DONALD TRUMP) CADA VEZ AUMENTA MAIS...

Pôster do símbolo da vergonha
francesa que foi o governo de Vichy
rui martins
SOBERANIA NACIONAL É
PARA SER RESPEITADA
Um grupo de nove governadores se reuniu na casa do governador do Distrito federal, Ibaneis Rocha, para discutir o tarifaço. Até aí, tudo bem.

Mas, o fizeram sem sequer mencionarem as ações desenvolvidas junto ao governo estadunidense pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro e às ameaças, chantagem e ingerências na soberania brasileira feitas pelo presidente Donald Trump com o objetivo de forçar o Supremo Tribunal Federal a anular o processo por golpismo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e lhe conceder uma ampla anistia para poder disputar as eleições presidenciais no próximo ano.

Ignorando o aspecto político do tarifaço aplicado ao Brasil, os governadores, representados junto à imprensa pelo governador Tarcísio de Freitas, se limitaram a criticar o presidente Lula por não ter ido a Washington negociar com Trump, como se não soubessem das tratativas feitas pelo vice-presidente Geraldo Alkmin. 

Essa abordagem, também utilizada numa entrevista pelo governador mineiro Romeu Zema, foi considerada como discurso de palanque com objetivo eleitoral pelo comentarista da Jovem Pan Cristiano Vilela, dado o resultado colhido por quem procedeu de tal maneira: a presidenta suíça Karin Keller-Sutter voou para Washington assim que seu país foi taxado em 39%, mas nem sequer foi recebida por Trump e voltou com as mãos abanando.

No caso do Brasil a situação se complica, pois as ameaças de Trump repercutidas pela própria embaixada dos EUA em Brasília e a ingerência ditando o que deve fazer o Judiciário brasileiro, consideradas pelo presidente Lula como atentatórias à soberania nacional, impedem uma negociação direta. Muitos comentários na imprensa são pela defesa da soberania brasileira e contra uma interferência estadunidense  no Judiciário brsileiro.

A posição assumida pelos governadores avestruzes, que devem estar com a cabeça enterrada na areia para não enxergarem a afronta na qual se constituem os ultimatos de Trump, nos fez lembrar de um episódio de 85 anos atrás. Mesmo depois da invasão da França pelas tropas nazistas havia políticos complacentes com Hitler, a ponto de constituírem um governo colaboracionista, comandado pelo marechal Philippe Pétain e Pierre Laval, o chamado regime de Vichy (1940-1944). 
Caiado, 1989, líder de jagunços na guerra do Pontal

Tal regime de sujeição voluntária aos invasores alemães transformou em leis francesas as exigências de Hitler. Foi o caso do envio dos judeus aos campos de concentração e extermínio nazistas, num plano antissemita de genocídio. 

O lema Deutsche Uber Alles (Alemanha Acima de Tudo) foi copiado no Brasil Acima de Tudo, da extrema direita evangélico-bolsonarista e não difere em muito do Make America Greater Again  (Faça a América Grande de Novo).

Trump não é Hitler, mas está evidentemente assumindo atitudes despóticas, inclusive dentro dos EUA. Interfere no funcionamento da Justiça e na rotina das universidades., Atropela os direitos humanos no tratamento e expulsão  dos imigrantes, convocando um reforço da Guarda Nacional em Washington como quem se prepara para aumentar seu poder discricionário e impedir resistências. 

Não se falava, na época, em Hitler ungido por Deus, mas uma grande parte da igreja luterana alemã apoiava Hitler e -- ao contrário da teologia do domínio criada nos EUA pelos pentecostais, baseada no Deus guerreiro do Velho Testamento -- a extrema-direita religiosa hitlerista queria se desfazer da herança judaica do cristianismo por um Jesus ariano. A igreja luterana anti-Hitler teve dois mártires, executados pelo governo nazista: Martin Niemoller e Dietrich Bonhoeffer

Por que essa equiparação ao regime colaboracionista de Vichy? Porque numa entrevista ao UOL, apesar da insistência de três entrevistadores, o governador Ronaldo Caiado  minimizou, ignorou, descartou hipocritamente a evidência de que o tarifaço de Trump contra o Brasil é político. 
Tarcísio e Zema: volta à aliança café com leite

Caiado, que presidia a União Democrática Ruralista quando esta trocava tiros com o MST no Pontal do Paranapanema (SP), mostra que três décadas e meia depois ele em nada mudou, complacente com Trump mas criticando a reação altaneira do presidente Lula, como se o Brasil fosse obrigado a se sujeitar aos desmandos arrogantes dos EUA. 

Lula deveria ter ido a Washington negociar com Trump sobre até onde vai a soberania brasileira e até onde podem legislar os ministros do Supremo Tribunal Federal?

Caiado, assim como Romeu Zema (MG) e Tarcísio de Freitas (SP), aceita que o Brasil seja submetido a um tratamento de colônia ou de país sujeito às leis e pressões autocráticas de um presidente estrangeiro, desvinculadas das normas internacionais de regulação do comércio exterior e taxas aduaneiras? 

Em caso afirmativo, esses três líderes presidenciáveis estariam abrindo mão da soberania e independência brasileiras, em favor de uma relação de sujeição e colaboração com os EUA, inspirada na França de Vichy.

Há também algo estranho nas últimas críticas do governo Trump ao Brasil, focadas no desrespeito aos direitos humanos e violências policiais. Não passaram despercebidas as denúncias às violências cometidas pela polícia de Guilherme Derrite, secretário de confiança do governador Tarcísio de Freitas.
O bananinha diz que aceita a missão de ser presidente.
Resta saber de qual país, Brasil ou Estados Unidos?

Detalhe: os articuladores e fornecedores de informações ao secretário de Estado dos EUA Marco Rubio e ao presidente Trump, contrárias ao governo e ao Judiciário brasileiros, são o neto do ditador João Figueiredo, Paulo Figueiredo, e o filho do ex-presidente, Eduardo Bolsonaro, auto-candidato à sucessão de Lula e preferido pelo pai. 

Cabe, portanto, a suspeita de que tais denúncias sejam destinadas a inviabilizar junto a Trump uma candidatura, nas próximas eleições, do nome de Tarcísio de Freitas. Uma espécie de fogo amigo. (por Rui Martins)

terça-feira, 9 de março de 2021

QUEM VOLTOU A SER ELEGÍVEL: O LULA-LÁ QUE TANTAS ESPERANÇAS NOS TROUXE OU O GRANDE AUSENTE DOS ÚLTIMOS 16 MESES?

S
ó ingênuos não percebem que há muitos planos e tramas rolando nos bastidores e, sem os conhecermos, qualquer análise que façamos sobre a decisão do ministro do STF Edson Fachin, de cancelar condenações e tornar novamente elegível o ex-presidente Lula, será falível.

A meu ver, Mario Sergio Conti (vide aqui) foi quem melhor definiu quais eram, partindo da constatação de que o governo de Jair Bolsonaro se tornava a cada dia mais insustentável, os possíveis cenários futuros antes de Fachin anunciar sua polêmica decisão:
1. uma explosão social, "algo entre a campanha das Diretas e o levante de 2013", "uma revolta que sacuda a nação e o poder" (tendo como provável desfecho a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte);
2. a conciliação, "um costume nacional, que serve de recurso para as autoridades civis, militares e eclesiásticas de todos os séculos", sendo que, "nesse cenário, governadores, Congresso e o Supremo, mancomunados com o empresariado e o Exército, mandariam Bolsonaro passear" (tendo como provável desfecho a formação de um Governo de Salvação Nacional, que "organizaria a vacinação coletiva e daria um primeiro trato na debacle econômica"); e
3. ficar tudo como está, com a continuidade da pasmaceira e, portanto, "o aprofundamento da degradação e do apodrecimento" (tendo como provável desfecho "um golpe ou uma saraivada de golpes").
Em 1984 a conciliação das elites nos entregou... Sarney. Vem aí outro passa-moleque? 
Embora a perspectiva aberta para uma vitória de Lula na eleição presidencial de 2022 possa eventualmente gerar "um golpe ou uma saraivada de golpes", a hipótese se choca com o estado calamitoso da economia brasileira e as consequências (há mais ainda por virem) da longa pandemia. 

Para que o morticínio não se torne apocalíptico, nosso país vai precisar desesperadamente fazer as pazes com o resto do mundo, que hoje o vê como um pária e "um laboratório de mutações [do vírus] a céu aberto", como apropriadamente o definiu Ruy Castro. Golpes e outros governos de extrema-direita só nos afundariam de vez.

A primeira hipótese também pode ser descartada, pois tudo indica que os poderosos já estejam se movimentando para evitar, exatamente, que cheguemos à explosão social.
Pétain: herói francês numa guerra, vilão na outra.

Resta a conciliação, e não há ninguém melhor para encabeçá-la do que esse Lula que, libertado em novembro de 2019 da sua prisão em Curitiba, vem há 16 meses desestimulando as iniciativas para o afastamento imediato do presidente indiscutivelmente genocida e possivelmente destituído de sanidade mental para o exercício do cargo. 

[Afora haver-se oposto à iniciativa dos jovens manifestantes que, em maio/junho de 2020, conseguiram reconquistar as ruas em São Paulo, expulsando as turbas ultradireitistas e fazendo Bolsonaro desistir do autogolpe.]  

Como não acredito em duendes nem considero plausível que alguns ministros do Supremo, tão pusilânimes quando tomaram aquela famosa decisão tremendo de paúra por causa de um blefe da caserna, tenham se tornado valentes da noite para o dia, só posso atribuir a bomba arrasa-quarteirão do Fachin ao fato de o sistema (ou, pelo menos, parte dele) ter-lhe garantido respaldo e segurança. 

Seria, exatamente, a cartada da conciliação, que convém acima de tudo ao poder econômico, o dominante, cujos prejuízos são grandes e crescentes sob a absoluta imprevisibilidade em que vive o Brasil sob Bolsonaro, com bilhões de dólares sendo perdidos em função das linhas de ação disparatadas que fanáticos ditam, principalmente nas relações exteriores e na preservação ambiental.
Hora de refletirmos sobre os erros que temos cometido

Com isto, tudo que sofremos sob o pior presidente brasileiro de todos os tempos terá sido inútil e praticamente voltaremos aonde estávamos em 2016, para mais um recomeço em bases falsas, já que a agonia do capitalismo, mesmo sem a exacerbação da barbárie que marcou a exaurida onda ultradireitista, seguirá seu curso.

Mas, como a vida é o valor mais sagrado e o trem fantasma do Bolsonaro já produziu o maior extermínio de brasileiros em toda a nossa história, devendo a contagem de cadáveres aumentar cada vez mais enquanto ele estiver na presidência da República, só nos restará apoiar a conciliação com Lula, mesmo que ele, como o marechal Pétain, volte personificando o oposto do que foi no passado, colocado agora a serviço das elites que tanto vituperava outrora. Paciência.

Só não podemos errar de novo, deixando de cumprir o nosso dever de reerguer a esquerda, resgatando a combatividade perdida e preparando-a para travar as lutas sociais que são sua razão de ser. 

O reformismo, a conciliação de classe e a fixação obsessiva na via eleitoral quase fez a esquerda brasileira desaparecer. Tão logo o bode seja retirado o bode, temos de repensá-la, depurá-la e reconstruí-la, mas agora cuidando de evitar os erros que tantas vezes frustraram nossos esforços. (por Celso Lungaretti)
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