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sexta-feira, 24 de maio de 2019

BATTISTI MORRERÁ NUMA PRISÃO ITALIANA

Battisti curvou-se à vontade dos inquisidores...
A (in)Justiça Italiana acaba de confirmar a medonha pena de prisão perpétua para Cesare Battisti, baseada tão somente na palavra nada confiável de delatores premiados e numa confissão nada confiável do escritor que, colocado ante a alternativa de cumprir pena em masmorras fedorentas com as piores características medievais ou fazê-lo em condições mais amenas e civilizadas, cedeu. 

Com isto, limpou a barra dos que atropelaram as mais sagradas  normas do Direito em sua obsessão de destruírem um símbolo libertário, deixando bem claro que não hesitariam em destruir o homem que o encarnava caso não se vergasse aos seus odiosos propósitos.

O que eu tinha para dizer sobre um dos presos políticos mais famosos da atualidade (o outro é Julian Assange), já disse no artigo Battisti merece respeito,  do qual não mudo uma vírgula sequer. 
...para não acabar num buraco destes!
Quanto à confirmação de que a Itália definitivamente abdicou de seu legado humanista e se tornou um paisinho fascistizado a mais, também nada tenho a acrescentar ao artigo no qual, oito anos atrás, expressei todo meu desencanto com a terra dos meus ancestrais. 

Infelizmente, pode-se trocar de nome mas não de sobrenome, caso contrário eu o faria, pois hoje a Itália só me inspira repulsa. Como diziam os versos inesquecíveis de Paulo César Pinheiro numa canção dos anos 70, tudo o que mais nos uniu, separou

Eis, logo abaixo, a íntegra do artigo Reflexões sobre o ato de logo mais, diante do consulado italiano, de 28/01/2011, do qual também não mudo uma única vírgula (se o reescrevesse hoje, seria para torná-lo ainda mais contundente!):
.
Como meu sobrenome deixa evidente, sou de ascendência italiana (por parte do avô paterno e do bisavô materno).

Mas, os dois ramos já haviam se dissociado desse passado quando eu começava a entender as coisas.

Uma lembrança remota da minha meninice foi a do meu pai e meu tio comentando a morte de um ancestral famoso: Angelo Longaretti (1). Circulava de mão em mão a notícia publicada no jornal italiano Corrieri della Sera.
Desembarque de imigrantes italianos em Santos (1907)

Atraído pelas promessas dos fazendeiros brasileiros, que mandavam recrutadores à Itália oferecendo viagem gratuita, Angelo veio trabalhar na lavoura cafeeira.

Raul Salles, filho do fazendeiro Diogo Eugênio Salles, assediou a irmã de Angelo. Este tentou transferir-se com a família para outra fazenda, mas Raul fez com que fossem rejeitados. E ainda persuadiu o delegado de Analândia a prender Angelo por embriaguez.

Quando o soltaram, no dia 3 de outubro de 1900, Diogo e Raul tentaram expulsar os Longaretti da fazenda, sem pagar-lhes os 2.000 réis a que faziam jus por seu trabalho. O velho Francisco, pai de Angelo, disse que não sairiam. Diogo agarrou-o, sacudiu-o e atirou-o no chão.

Angelo, vendo o pai desmaiado, supôs que estivesse morto. Foi buscar uma velha e enferrujada garrucha (2) e disparou contra Diogo, ferindo-o mortalmente.

Seguiu-se uma série de descalabros, como as intimidações policiais a habitantes de Analândia para que depusessem contra Angelo.
Outros italianos que vieram trabalhar na lavoura
Este evadira-se, mas acabou sendo detido em 18 de maio de 1901, delatado por um compatriota ávido pela recompensa por sua prisão.

No processo, não foi levada em conta a minoridade do réu (Angelo ainda não completara 21 anos) nem o juiz providenciou tradutor para ele e as testemunhas da defesa que não falavam bem o português. E foram relevadas várias contradições dos acusadores.

O falecido era irmão do presidente Campos Sales, que cogitou até a instauração da pena de morte, com efeito retroativo, para que pudesse ser aplicada nesse caso; mas, foi dissuadido pela Inglaterra.

O governo italiano, supondo tratar-se de mais um anarquista, não deu a mínima. Angelo foi, entretanto, fortemente apoiado pela colônia, que até se cotizou para pagar-lhe um advogado famoso. 

Isto não impediu sua condenação a 21 anos de reclusão. Depois, num segundo julgamento, a pena diminuiu para 10 anos.
Entrevista de Angelo Longaretti a um jornal italiano

Acabou cumprindo sete anos e meio da pena e sendo libertado por decisão do Supremo Tribunal Federal. Voltou à Itália, onde levou vida tranquila até a morte, em 1960.

Mas, esta história familiar não me interessou muito na época. Só fui lhe dar valor muito tempo depois, em função do rumo que minha própria vida tomou.

O que me predispôs mesmo a valorizar meu sangue latino foram os livros do primeiro autor que me fez a cabeça: Monteiro Lobato, com sua veneração pelo legado greco-romano.

Graças a ele, passei a identificar a Itália com o humanismo, o equilíbrio, a sensatez. Não com o fascismo que só a derrota na II Guerra Mundial conseguiu afastar do poder.

E foi ainda a arte que reforçou minha admiração pela Itália: desde os fundamentais escritores Dante Alighieri, Alberto Moravia e Italo Calvino até os maravilhosos filmes de Federico Fellini, Ettore Scola, Mario Monicelli e tantos outros.
Mastroianni e Sofia Loren eram como eu idealizava os italianos...
O AFETO QUE SE ENCERRA — Sem nunca ter podido conhecer a pátria dos meus antepassados, eu supunha que fosse um contraponto ao  american way of life, tão sôfrego e calculista. Idealizava cada italiano como um Marcello Mastroianni e cada italiana como uma Sofia Loren.

E, embora estivesse ciente dos excessos com que foram combatidos os militantes da ultraesquerda na década de 1980, não os imputava ao povo italiano. 

Para mim, a culpa toda era do PCI, que aliara-se ao partido da burguesia facinorosa (a Democracia Cristã) contra os verdadeiros revolucionários, tangendo-os ao desespero e a atitudes insensatas como a execução de Aldo Moro. 

Aí, pensava eu, aproveitando o emocionalismo do momento, os herdeiros de Mussolini e os traidores de Gramsci lançaram aquela extemporânea caça às bruxas.
...mas hoje os vejo com as carrancas de Mussolini, Berlusconi... 

O Caso Battisti desfez rudemente minhas ilusões: percebi que existem italianos comuns, a exemplo do que ocorria durante o fascismo, submetendo-se docilmente a lideranças demagógicas e rancorosas.

Assim como os brasileiros foram levados pela mídia a quase trucidarem os donos da escola-base, houve italianos que aderiram grotescamente à  vendetta  pregada por Berlusconi. Que decepção!

O aspirante a  Duce  me fez lembrar uma frase que andou em voga no final do patético governo do  arenoso   que herdou a primeira Presidência da Nova República, embora fosse um dos brasileiros que menos a merecesse: De hora em hora, Sarney piora.

Berlusconi também tem piorado de hora em hora: recorre a um estoque infinito de casuísmos, abusando do seu poder e contando com a cumplicidade de parlamentares ignóbeis, para driblar processos por crimes financeiros e corrupção, em que fatalmente seria condenado, persegue os imigrantes com furor e arbitrariedades que fazem lembrar o pesadelo hitlerista, protagoniza escândalos e deboches dignos  de um Calígula, etc.
...e Matteo Salvini, outro neofascista obcecado com armas.
Os companheiros que participarem da manifestação de protesto marcada para esta 6ª feira, diante do consulado italiano em São Paulo, deverão ter em mente, entretanto, que a imprensa golpista brasileira transmite uma visão distorcida, exageradíssima, da amplitude da rejeição a Cesare Battisti.

Da mesma forma como uma Veja cria a ilusão de insatisfação generalizada com nosso governo anterior e o atual, também o noticiário a respeito de Battisti dá erroneamente a entender que ele seja, ao menos, um personagem importante para a opinião pública italiana.

Na verdade, não o é.  Faz muito barulho a banda de música neofascista – e também a dos comunistas que outrora abdicaram de seus ideais para participar do governo, e hoje movem céus e terras para silenciar os que lhes cobram tal infâmia. 

Mas, falam por si, e não pelas grandes massas.. Estas têm outros interesses, preocupações e prioridades, bem mais prosaicas. Os direitistas assumidos e empedernidos não constituem, nem de longe, a maioria, melhor definida pelo título de uma obra-prima de Moravia: Os Indiferentes.
"a repetição da História como buffonata"

Ou, mais precisamente: os omissos. Não devemos isentar os demais italianos da culpa por tudo que faz em seu nome o inacreditável Berlusconi.  A sabedoria popular continua valendo: quem cala, consente.

Ainda assim, a nada nos levará antagonizar os trabalhadores e cidadãos comuns de outros países.

Devemos, isto sim, incentivá-los a reencontrarem a humanidade perdida, distanciando-se da herança mussolinesca e reassumindo os nobres valores dos quais seu passado também é pródigo. Como os da Renascença.

Nossa luta, em última análise, é contra o capitalismo -- e suas manifestações extremadas, como o fascismo que Berlusconi tenta pateticamente reviver, numa repetição da História como  buffonata

Enfim, não são um país e um povo nossos verdadeiros alvos -- mas sim o sistema que inspira os  pogroms contra imigrantes e a  vendetta  contra Battisti, entre tantas formas de intimidação a que o capital recorre para,  pelo arbítrio e o terror, perpetuar sua dominação.
Por Celso Lungaretti
1. o sobrenome familiar correto é Longaretti, mas Papai foi registrado equivocadamente como Lungaretti, já que o escrivão não entendeu direito o sotaque italiano do meu avô. E eu também acabei ficando Lungaretti. 
2. curiosamente, a arma lhe fora há tempos entregue pelo próprio Raul, como pagamento por um serviço prestado.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

MEU TIO PATINHAS MORREU

"A fortuna favorece os fortes"... condenando-os ao amargor?
Somente ontem (5ª feira, 23) fiquei sabendo que meu tio rico morreu no dia 13 de dezembro do ano passado. 

Isto porque ninguém se deu ao trabalho de informar a parte da família que ele excluiu de sua vida. Então, a ilustração ao lado é só uma ilustração. A coisa provavelmente terá sido mais melancólica ainda.

Meu avô paterno era técnico italiano de alto nível e foi contratado para comandar uma fábrica têxtil no Rio de Janeiro. Num sábado de 1930, quando caminhava numa feira livre, foi baleado pelas costas por um operário que demitira.

Minha avó e os três filhos vieram para São Paulo, onde havia parentes que a poderiam ajudar em sua viuvez. Um deles, bem colocado no Cotonifício Crespi, conseguiu empregar lá meu pai, burlando a lei que vedava a contratação de menores de 14 anos. 

Meu pai estava com 11 e teve de sacrificar-se por ser o primogênito. Meu tio, portanto, fez carreira sem a obrigação de botar comida na mesa familiar, até porque a minha avó casara de novo, também com um viúvo. Mesmo assim, meu pai não parou de trabalhar. 46 anos seguidos.

Dos meus primeiros anos lembro-me desse tio morando a três quarteirões de distância de nós, já bem de vida. Era na casa dele que festejávamos o Natal. Empanturrava-me de chantilly, que naquele tempo se comprava em docerias, um gasto que meus pais não podiam bancar.

Eu deveria ter uns sete ou oito anos quando o lado paterno da minha família se estilhaçou: meu tio se descobriu traído e expulsou a esposa de casa. A maioria considerou-o severo em demasia e ele cortou relações para sempre. Meu pai ficou ao lado dele, mas a efusividade deixou de existir. O tio rico decidiu que família não lhe fazia falta.

Quando eu participava do movimento estudantil de 1968, aos 17 anos, comecei a passar de vez em quando pela pequena joalheria do meu tio rico no centro financeiro de São Paulo. Por força de suas atividades, ele podia transmitir muita informação útil sobre como funcionava o capitalismo e já então eu queria conhecer bem o inimigo.

Eu ia lá para papear e também para fazer hora antes do início de passeatas marcadas para o centrão (não valia a pena ficar me expondo pela rua, com o visual inconfundível dos estudantes rebeldes, antes de soar o chamamento (O povo na passeata!, O povo na passeata!), quando todos nós parávamos de disfarçar nos arredores e íamos de peito aberto desafiar a repressão.

Foi nesta fase que passei a conhecê-lo melhor. Sua joalheria era um bom negócio, mas não o principal: por baixo do pano, fazia empréstimos. Como todo agiota, chegava a viajar atrás dos caloteiros. Não conseguia imaginá-lo naquele papel. Levaria um capanga consigo?

Seu grande sonho até então fora o de abrir um pequeno banco. Mas, a política econômica dos golpistas de 1964 foi na direção exatamente oposta, a de favorecer a monopolização do setor financeiro. Então, por motivos bem diferentes, tínhamos em comum o ódio à ditadura...

Mas, fiquei decepcionado ao ver um livro interessante exposto na estante da joalheria e, puxando papo sobre ele, ficar sabendo que meu tio tinha um acordo com a livraria do outro lado da rua, que lhe alugava os títulos em maior evidência, substituindo-os periodicamente. 
"A trajetória dele lembra bem a do Cidadão Kane...

Ele mesmo não lia nenhum. E eu, que naquele tempo lia tanto, fiquei chocado ao saber que livros, para meu tio, faziam parte da decoração.

Depois de minha passagem pela luta armada, pouco o vi. Mas, certamente era com os contatos e a grana dele que meu pai contava quando, tão logo meu nome e minha foto saíram nos cartazes de terroristas assassinos procurados, mandou-me recado de que poderia me fazer chegar são e salvo a outro país. 

[Os pais às vezes não conhecem os filhos que têm. Mesmo quando a luta tomava rumos cada vez mais adversos para nosso lado, eu não considerei a hipótese de salvar-me sozinho, preferindo afundar junto com o navio.]

Enquanto isto, meu tio descobriu afinal uma maneira de se dar bem durante a ditadura: foi ser corretor na Bolsa de Valores de São Paulo. Ganhou muita grana e quase morreu do coração. Lembro-me de ter ido no hospital mas ele não estar recebendo visitas. Era incerto se, safenado, sobreviveria. Acabou durando mais uns 45 anos e morrendo nonagenário.

Quem morreu de imediato foi o corretor. Alertado de que não seria mais capaz de suportar o estresse da Bovespa, meu tio mudou de atividade, investindo seu polpudo pé de meia na construção de edifícios residenciais para vender ou alugar os apartamentos. Até que se cansou e, já suficientemente rico, pendurou a carteira.
...que foi vitorioso nos embates econômicos, mas perdedor na busca da felicidade"
Mudou para o último prédio que construiu, ocupando-se, a partir de então, apenas das tarefas de síndico e administrador in loco

Teve um filho do primeiro casamento e um de um segundo (que aparentemente foi feliz até a esposa morrer jovem). Fez muito por ambos mas quis controlar a vida deles; quando discordavam, jogava-lhes na cara tudo que com eles gastara. Dignos, cada qual por sua vez se distanciou, pois não precisavam de esmolas. Os meio-irmãos se voltaram contra o pai e se dão bem até hoje.

Isolou-se de uma vez por todas. Chegou a ter uma ou outra mulher morando com ele e acompanhando-o nas viagens pelo mundo que gostava de fazer. 

Quando meu pai morreu, há 15 anos, sumiu definitivamente da minha vida. Nem minha mãe visitava mais. 

Agora, uma pesquisadora brasileira que mora na França e faz tese na Sorbonne me contatou por e-mail a respeito do Caso Longaretti (ela desenvolve um alentado trabalho sobre os sangrentos conflitos entre os fazendeiros brasileiros e os colonos italianos atraídos para nosso pais após o fim da escravidão).

Orientei-a a procurar o meu tio, que estaria bem mais a par do assunto. E foi assim que fiquei sabendo da sua morte.

A trajetória dele lembra bem a do Cidadão Kane: desumanizou-se pouco a pouco, até morrer na ilha na qual se refugiou, vitorioso nos embates econômicos, mas perdedor no que realmente importa: a busca da felicidade. 

Que dinheiro nenhum proporciona. Pelas trilhas da ganância, só conseguimos arrastar-nos pela vida confortavelmente... amargurados!  

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

TENHO UM ANTEPASSADO ILUSTRE: ANGELO LONGARETTI, QUE MATOU O TRUCULENTO IRMÃO DO PRESIDENTE CAMPOS SALLES.

Italianos posando no pátio central da Hospedaria dos Imigrantes, por volta de 1890.
Minha família é a mais prosaica possível, gente com ambições meramente materiais, cujo ramo italiano jamais saiu do anonimato e cujo ramo brasileiro nunca almejou voos mais altos, tendendo a passar despercebido se duas moedas não houvessem caído em pé: 
  • um jovem de 20 anos matou em 1900 o truculento irmão de um presidente da República; e
  • um jovem de 18 anos participou em 1969/70 da luta armada contra a ditadura militar.
Como continuo vivo e ativo, a parte que me cabe nesse latifúndio é mais conhecida. Falemos, portanto, da outra, até porque encontrei na internet uma ótima dissertação de mestrado sobre o episódio de 1900 e anos seguintes, um dos mais marcantes dos abusos cometidos na patriamada contra os imigrantes italianos, cuja íntegra pode ser acessada aqui. Trata-se de O caso Longaretti: crime, cotidiano e imigração no interior paulista, de autoria de Christiano Eduardo Ferreira.

Uma lembrança remota da minha meninice é a do meu pai e meu tio comentando a morte deste antepassado ilustre, Angelo Longaretti (1). Circulava de mão em mão a notícia publicada no jornal italiano Corrieri della Sera.

Atraído pelas promessas dos fazendeiros brasileiros, que mandavam recrutadores à Itália oferecendo viagem gratuita, Angelo veio trabalhar na lavoura cafeeira.

Raul Salles, filho do fazendeiro Diogo Eugênio Salles, assediou a irmã de Angelo. Este tentou transferir-se com a família para outra fazenda, mas Raul fez com que fossem rejeitados. E ainda persuadiu o delegado de Analândia a prender Angelo por embriaguez.

Quando o soltaram, no dia 3 de outubro de 1900, Diogo e Raul vieram com seus capangas para expulsarem os Longaretti da fazenda, deixando de pagar-lhes os 2 mil réis a que tinham direito por seu trabalho. O idoso Francisco, pai de Angelo, disse que não sairiam. Diogo o agarrou e  sacudiu, atirando-o no chão.

Angelo, vendo o velho desmaiado, supôs que estivesse morto. Ficou transtornado; foi buscar uma garrucha enferrujada (2) e baleou Diogo. Por um capricho do destino, o disparo, apesar de impreciso, acabou sendo letal.

Seguiu-se uma série de descalabros, como as intimidações policiais a habitantes de Analândia para que depusessem contra Angelo.

Este evadira-se, mas acabou sendo detido em 18 de maio de 1901, delatado por um compatriota de olho na recompensa oferecida por sua prisão.

No processo não foi levada em conta a minoridade do réu (Angelo ainda não completara 21 anos) nem o juiz providenciou tradutor para ele e as testemunhas da defesa que não falavam bem o português. E foram relevadas várias contradições dos acusadores.

O falecido era irmão do quarto presidente da República do Brasil, Campos Sales, que cogitou até efetuar uma tentativa de instauração da pena de morte, com efeito retroativo (!), para que pudesse ser aplicada nesse caso; mas, foi dissuadido pela Inglaterra, que lhe fez ver quão aberrante seria a iniciativa, em termos jurídicos.

O governo italiano, supondo tratar-se de mais um anarquista, não deu a mínima. Angelo foi, entretanto, fortemente apoiado pela colônia, que até se cotizou para pagar-lhe um advogado famoso. Isto não impediu sua condenação a 21 anos de reclusão.

Num segundo julgamento a pena diminuiu para 10 anos. Acabou cumprindo sete anos e meio e sendo libertado por decisão do Supremo Tribunal Federal; com Campos Salles fora do poder, a justiça pôde, finalmente, prevalecer. Voltou à Itália, onde levou vida tranquila até a morte, em 1960.
  1. o sobrenome familiar correto é Longaretti, mas meu pai foi registrado equivocadamente como Lungaretti (o escrivão não entendeu a pronúncia italianada) e eu herdei o erro;
  2. a qual, curiosamente, lhe fora entregue há tempos pelo próprio Raul, em substituição a um pagamento.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

ANTEPASSADO ILUSTRE: ANGELO LONGARETTI MATOU O TRUCULENTO IRMÃO DO PRESIDENTE CAMPOS SALLES.

Italianos posando no pátio central da Hospedaria dos Imigrantes, por volta de 1890.
Minha família é a mais prosaica possível, gente com ambições meramente materiais, cujo ramo italiano jamais saiu do anonimato e cujo ramo brasileiro nunca almejou voos mais altos, tendendo a passar despercebido caso um jovem de 20 anos não houvesse matado em 1900 o truculento irmão de um presidente da República e um jovem de 18 anos não houvesse ingressado em 1969 na luta armada contra a ditadura militar.

Como continuo vivo e ativo, a parte que me cabe nesse latifúndio é mais conhecida. E acabo de descobrir na internet uma ótima dissertação de mestrado sobre o episódio de 1900 e anos seguintes, um dos mais marcantes dos abusos cometidos na patriamada contra os imigrantes italianos, cuja íntegra pode ser acessada aqui. Trata-se de O caso Longaretti: crime, cotidiano e imigração no interior paulista, de autoria de Christiano Eduardo Ferreira.

Uma lembrança remota da minha meninice é a do meu pai e meu tio comentando a morte deste antepassado ilustre, Angelo Longaretti (1). Circulava de mão em mão a notícia publicada no jornal italiano Corrieri della Sera.

Atraído pelas promessas dos fazendeiros brasileiros, que mandavam recrutadores à Itália oferecendo viagem gratuita, Angelo veio trabalhar na lavoura cafeeira.

Raul Salles, filho do fazendeiro Diogo Eugênio Salles, assediou a irmã de Angelo. Este tentou transferir-se com a família para outra fazenda, mas Raul fez com que fossem rejeitados. E ainda persuadiu o delegado de Analândia a prender Angelo por embriaguez.

Quando o soltaram, no dia 3 de outubro de 1900, Diogo e Raul vieram com seus capangas para expulsarem os Longaretti da fazenda, deixando de pagar-lhes os 2 mil réis a que tinham direito por seu trabalho. O idoso Francisco, pai de Angelo, disse que não sairiam. Diogo agarrou-o, sacudiu-o e atirou-o no chão.

Angelo, vendo o velho desmaiado, supôs que estivesse morto. Foi buscar uma garrucha enferrujada (2) e baleou Diogo. Por um capricho do destino, o disparo, apesar de impreciso, seria letal.

Seguiu-se uma série de descalabros, como as intimidações policiais a habitantes de Analândia para que depusessem contra Angelo.

Este evadira-se, mas acabou sendo detido em 18 de maio de 1901, delatado por um compatriota de olho na recompensa oferecida por sua prisão.

No processo, não foi levada em conta a minoridade do réu (Angelo ainda não completara 21 anos) nem o juiz providenciou tradutor para ele e as testemunhas da defesa que não falavam bem o português. E foram relevadas várias contradições dos acusadores.

O falecido era irmão do quarto presidente da República do Brasil, Campos Sales, que cogitou até efetuar uma tentativa de instauração da pena de morte, com efeito retroativo (!), para que pudesse ser aplicada nesse caso; mas, foi dissuadido pela Inglaterra, que lhe fez ver quão aberrante seria a iniciativa, em termos jurídicos.

O governo italiano, supondo tratar-se de mais um anarquista, não deu a mínima. Angelo foi, entretanto, fortemente apoiado pela colônia, que até se cotizou para pagar-lhe um advogado famoso. Isto não impediu sua condenação a 21 anos de reclusão.

Num segundo julgamento a pena diminuiu para 10 anos. Acabou cumprindo sete anos e meio e sendo libertado por decisão do Supremo Tribunal Federal; com Campos Salles fora do poder, a justiça pôde, finalmente, prevalecer. Voltou à Itália, onde levou vida tranquila até a morte, em 1960.
  1. o sobrenome familiar correto é Longaretti, mas meu pai foi registrado equivocadamente como Lungaretti (o escrivão não entendeu a pronúncia italianada) e eu herdei o erro;
  2. a qual, curiosamente, lhe fora entregue há tempos pelo próprio Raul, em substituição a um pagamento.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

REFLEXÕES SOBRE O ATO DE LOGO MAIS, DIANTE DO CONSULADO ITALIANO

Como meu sobrenome deixa evidente, sou de ascendência italiana (por parte do avô paterno e do bisavô materno).

Mas, os dois ramos já haviam se dissociado desse passado quando eu começava a entender as coisas.

Uma lembrança remota da minha meninice foi a do meu pai e meu tio comentando a morte de um ancestral famoso: Angelo Longaretti (1). Circulava de mão em mão a notícia publicada no jornal italiano Corrieri della Sera.

Atraído pelas promessas dos fazendeiros brasileiros, que mandavam recrutadores à Itália oferecendo viagem gratuita, Angelo veio trabalhar na lavoura cafeeira.

Raul Salles, filho do fazendeiro Diogo Eugênio Salles, assediou a irmã de Angelo. Este tentou transferir-se com a família para outra fazenda, mas Raul fez com que fossem rejeitados. E ainda persuadiu o delegado de Analândia a prender Angelo por embriaguez.

Quando o soltaram, no dia 3 de outubro de 1900, Diogo e Raul tentaram expulsar os Longaretti da fazenda, sem pagar-lhes os 2.000 réis a que faziam jus por seu trabalho. O velho Francisco, pai de Angelo, disse que não sairiam. Diogo agarrou-o, sacudiu-o e atirou-o no chão.

Angelo, vendo o pai desmaiado, supôs que estivesse morto. Foi buscar uma velha e enferrujada garrucha (2) e disparou contra Diogo, ferindo-o mortalmente.

Seguiu-se uma série de descalabros, como as intimidações policiais a habitantes de Analândia para que depusessem contra Angelo.

Este evadira-se, mas acabou sendo detido em 18 de maio de 1901, delatado por um compatriota ávido pela recompensa por sua prisão.

No processo, não foi levada em conta a minoridade do réu (Angelo ainda não completara 21 anos) nem o juiz providenciou tradutor para ele e as testemunhas da defesa que não falavam bem o português. E foram relevadas várias contradições dos acusadores.

O falecido era irmão do presidente Campos Sales, que cogitou até a instauração da pena de morte, com efeito retroativo, para que pudesse ser aplicada nesse caso; mas, foi dissuadido pela Inglaterra.

O governo italiano, supondo tratar-se de mais um anarquista, não deu a mínima. Angelo foi, entretanto, fortemente apoiado pela colônia, que até se cotizou para pagar-lhe um advogado famoso. Isto não impediu sua condenação a 21 anos de reclusão.

Num segundo julgamento a pena diminuiu para 10 anos. Acabou cumprindo sete anos e meio da pena e sendo libertado por decisão do Supremo Tribunal Federal. Voltou à Itália, onde levou vida tranqüila até a morte, em 1960.

Mas, esta história familiar não me interessou muito na época. Só fui lhe dar valor muito tempo depois, em função do rumo que minha própria vida tomou.

O que me predispôs mesmo a valorizar meu sangue latino foram os livros do primeiro autor que me fez a cabeça: Monteiro Lobato, com sua veneração pelo legado greco-romano.

Graças a ele, passei a identificar a Itália com o humanismo, o equilíbrio, a sensatez. Não com o fascismo que só a derrota na II Guerra Mundial conseguiu afastar do poder.

E foi ainda a arte que reforçou minha admiração pela Itália: desde os fundamentais escritores Dante Alighieri, Alberto Moravia e Italo Calvino até os maravilhosos filmes de Federico Fellini, Ettore Scola, Mario Monicelli e tantos outros.

O AFETO QUE SE ENCERRA

Sem nunca ter podido conhecer a pátria dos meus antepassados, eu supunha que fosse um contraponto ao  american way of life, tão sôfrego e calculista. Idealizava cada italiano como um Marcello Mastroianni e cada italiana como uma Sofia Loren.

E, embora estivesse ciente dos excessos com que foram combatidos os militantes da ultraesquerda na década de 1980, não os imputava ao povo italiano. 

Para mim, a culpa toda era do PCI, que aliara-se ao partido da burguesia facinorosa (a Democracia Cristã) contra os verdadeiros revolucionários, tangendo-os ao desespero e a atitudes insensatas como a execução de Aldo Moro. 

Aí, pensava eu, aproveitando o emocionalismo do momento, os herdeiros de Mussolini e os traidores de Gramsci lançaram aquela extemporânea caça às bruxas.

O Caso Battisti desfez rudemente minhas ilusões: percebi que existem italianos comuns, a exemplo do que ocorria durante o fascismo, submetendo-se docilmente a lideranças demagógicas e rancorosas.

Assim como os brasileiros foram levados pela mídia a quase trucidarem os donos da escola-base, houve italianos que aderiram grotescamente à  vendetta  pregada por Berlusconi. Que decepção!

O aspirante a  Duce  me fez lembrar uma frase que andou em voga no final do patético governo do  arenoso   que herdou a primeira Presidência da Nova República, embora fosse um dos brasileiros que menos a merecesse: "De hora em hora, Sarney piora".

Berlusconi também tem piorado de hora em hora: recorre a um estoque infinito de casuísmos, abusando do seu poder e contando com a cumplicidade de parlamentares ignóbeis, para driblar processos por crimes financeiros e corrupção, em que fatalmente seria condenado, persegue os imigrantes com furor e arbitrariedades que fazem lembrar o pesadelo hitlerista, protagoniza escândalos e deboches dignos  de um Calígula, etc.

Os companheiros que participarem da manifestação de protesto marcada para esta 6ª feira, diante do consulado italiano em São Paulo, deverão ter em mente, entretanto, que a imprensa golpista brasileira transmite uma visão distorcida, exageradíssima, da amplitude da rejeição a Cesare Battisti.

Da mesma forma como uma Veja cria a ilusão de insatisfação generalizada com nosso governo anterior e o atual, também o noticiário a respeito de Battisti dá erroneamente a entender que ele seja, ao menos, um personagem importante para a opinião pública italiana.

Na verdade, não o é.  Faz muito barulho a banda de música neofascista -- e também a dos comunistas que outrora abdicaram de seus ideais para participar do governo, e hoje movem céus e terras para silenciar os que lhes cobram tal infâmia. 

Mas, falam por si, e não pelas grandes massas.. Estas têm outros interesses, preocupações e prioridades, bem mais prosaicas. Os direitistas assumidos e empedernidos não constituem, nem de longe, a maioria, melhor definida pelo título de uma obra-prima de Moravia: Os Indiferentes.

Ou, mais precisamente: os omissos. Não devemos isentar os demais italianos da culpa por tudo que faz em seu nome o inacreditável Berlusconi.  A sabedoria antiga continua valendo: quem cala, consente.

Ainda assim, a nada nos levará antagonizar os trabalhadores e cidadãos comuns de outros países.

Devemos, isto sim, incentivá-los a reencontrarem a humanidade perdida, distanciando-se da herança mussolinesca e reassumindo os nobres valores dos quais seu passado também é pródigo. Como os da Renascença.

Nossa luta, em última análise, é contra o capitalismo -- e suas manifestações extremadas, como o fascismo que Berlusconi tenta pateticamente reviver, numa repetição da História como  buffonata

Enfim, não são um país e um povo nossos verdadeiros alvos -- mas sim o sistema que inspira os  pogroms contra imigrantes e a  vendetta  contra Battisti, entre tantas formas de intimidação a que o capital recorre para,  pelo arbítrio e o terror, perpetuar sua dominação.
  1. o sobrenome familiar correto é Longaretti, mas Papai foi registrado equivocadamente como Lungaretti, já que o escrivão confundiu-se com o sotaque italiano do meu avô. E eu também acabei ficando Lungaretti.
  2. curiosamente, a arma lhe fora há tempos entregue pelo próprio Raul, como pagamento por um serviço prestado
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