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terça-feira, 28 de maio de 2019

"BOLSONARO É EFEITO. O CAPITÃO APENAS ECOA UMA AGENDA DO PEDAÇO DO BRASIL QUE DECIDIU VIVER NA IDADE MÉDIA"

josias de souza
CRITICAR MASSACRE DE PRESOS VIROU CHATICE NO BRASIL
Há uma mutação ética nas cadeias e no Brasil. Dentro dos presídios, o sangue jorra sem culpa. Fora, o incômodo com a matança é condenado por chatice. 

Dentro, ouve-se o barulho dos membros das facções matando-se uns aos outros. Fora, escuta-se o silêncio da sociedade, grata à bandidagem pelo autoextermínio. 

Em menos de 24 horas —entre o domingo e a 2ª feira— foram executados pelo menos 55 presos nas cadeias do Amazonas. Alguns foram asfixiados. Outros foram mortos a golpes de cabos de escovas de dente. Dizer que isso é um horror soa ridículo. Por duas razões. 

Primeiro porque meia centena de cadáveres parece pouco para os padrões nacionais. Há dois anos rebeliões em cadeias do Amazonas, de Roraima e do Rio Grande do Norte produziram 126 cadáveres. Muitos foram decapitados. Alguns, esquartejados.  

A segunda razão é que o horror adquiriu entre nós uma naturalidade hedionda. É cada vez menor o número de brasileiros dispostos a esboçar reação. É matança de bandidos? Pois que se matem! De preferência, com requintes de crueldade. 

Seria injusto atribuir a falência do humanismo ao capitão. Em 2017, bem antes da disputa presidencial, o Datafolha informara que 57% dos brasileiros concordavam com a máxima segundo a qual "bandido bom é bandido morto." 

Ou seja, ao eliminar desafetos, as facções criminosas não fazem senão satisfazer a vontade da maioria. Produzem seus carandirus sem a participação da Polícia Militar. Unem útil ao agradável. Defendem seus territórios e seus negócios. E ainda atendem à demanda social por sangue. 

Num cenário assim, o discurso encrespado de Jair Bolsonaro virou sentimento médio. O capitão apenas ecoa uma agenda pertencente ao pedaço do Brasil que decidiu viver na Idade Média. Bolsonaro é o efeito. A causa é a perpetuação de um sistema político que não aprendeu a produzir soluções.

Na campanha presidencial, em meio a críticas ao Supremo e ao Congresso, Bolsonaro trazia na ponta da língua um plano de governo para lidar com as facções criminosas. Revelava-se adepto do modelo da Indonésia, onde traficantes e consumidores de drogas são condenados à morte. 

Bolsonaro dizia apreciar também a fórmula das Filipinas, onde os bandidos são passados nas armas sem a necessidade de uma sentença formal. "Tinha dia de morrer 400 vagabundos lá. Resolveu a questão da violência", afirmava.

Como não há pena de morte no Brasil, o capitão distribui portes de armas para civis e providencia o excludente de ilicitude —um outro nome para a licença concedida aos policiais que quiserem contribuir para a consolidação da máxima segundo a qual bandido bom é bandido morto

De resto, Bolsonaro cultiva um amor maternal pela superlotação carcerária. "Cadeia é como coração de mãe, sempre cabe mais um." Contra esse pano de fundo, não dá mais para analisar fenômenos como os massacres carcerários em termos de justiça e de moral.

A justiça agora se faz também nas celas, onde o crime e a sentença de morte moram perto um do outro. Dentro da cadeia, a fixação dos limites da moral dispensa régua, compasso e marcos civilizatórios. Tudo se resolve com um cabo de escova de dentes enfiado na jugular. Do lado de fora, a moral virou uma abstração imensurável. 

O que um dia foi execrável, hoje é rotina. Na época do Carandiru, há 27 anos, massacre de presos era coisa abominável. Hoje, criticar o extermínio de presidiários virou uma chatice impatriótica. 
(por Josias de Souza)
"Veio pra cidade em busca de conforto / Mas só vai ter descanso depois de morto"
 (para quem não sabe, Erasmo Carlos já compôs versos contundentes como estes)

sábado, 30 de junho de 2018

PERSONIFICAÇÃO DO ATRASO NACIONAL, BOLSONARO DESPERTOU O PEDAÇO PRIMITIVO DO BRASIL

BOLSONARO É PORTA-VOZ DE UMA AGENDA PROTEROZOICA 
A maneira mais cômoda de tratar Jair Bolsonaro é atribuir o seu sucesso à alienação dos brasileiros que o colocam no topo das pesquisas. Isso desobriga as pessoas da necessidade de pensar. Evitando-se o raciocínio, adia-se uma conclusão desoladora: o capitão apenas ecoa na campanha de 2018 uma agenda pertencente ao pedaço do Brasil que mantém os pés no século 21 e a cabeça na era proterozoica, anterior ao aparecimento dos animais na Terra.

Bolsonaro é o efeito. A causa é a perpetuação de um sistema político em que o Estado não tem homens públicos. Os homens públicos é que têm o Estado. Ao perceber que paga mais impostos para receber menos serviços, o pedaço Bolsonaro do eleitorado acha que o futuro era muito melhor antigamente, quando os presidentes vestiam farda. Ao notar que o Supremo começou a soltar larápios condenados, o lado Bolsonaro da sociedade passa a sonhar com um país em que os tribunais não sejam a única maneira de se conseguir justiça.

Porta-voz do desalento, Bolsonaro capta no ar o sentimento que seu eleitorado deseja expressar. Na última 5ª feira, dois dias depois de a 2ª Turma do Supremo ter libertado José Dirceu da penitenciária da Papuda, o capitão declarou em Fortaleza que, eleito, vai propor a ampliação dos quadros da Suprema Corte —21 magistrados, em vez dos 11 atuais. 

Ele fala em "colocar lá dez [ministros] do nível do Sergio Moro, para poder termos a maioria lá dentro". A ideia é tola e irrealizável. Mas hipnotiza o naco Bolsonaro da plateia, já de saco cheio com a saliência de Gilmar Mendes e dos seus colegas da 2ª Turma, Éden supremo dos encrencados.

Na entrevista que concedeu na capital cearense, como em todas as outras, Bolsonaro agarrou as perguntas pelo colarinho como se enxergasse nelas a oportunidade de reproduzir as respostas iradas que sua plateia espera ouvir. Questionado sobre seus planos para deter o avanço das facções criminosas no país, o candidato declarou-se adepto do modelo da Indonésia. Bolsonaro disse coisas definitivas sem se dar conta de que não definia bem as coisas.

Na Indonésia, traficantes e consumidores de drogas são enviados para o corredor da morte. Mas Bolsonaro, tomado pelas palavras, referia-se às Filipinas, onde a bandidagem é passada nas armas sem a necessidade de uma sentença de morte formal. "Tinha de morrer 400 vagabundos lá. Resolveu a questão da violência", celebrou o entrevistado.

Sem mencionar o nome de Rodrigo Duterte, o presidente das Filipinas, Bolsonaro descreveu um fato protagonizado pelo personagem, em 2016: “No meio do caminho, o senhor Barack Obama quis adverti-lo em nome da política de direitos humanos. E ele deu uma resposta deselegante. E continuou fazendo todo o trabalho. Hoje, é um país seguro”.
Sob Rodrigo Duterte, as Filipinas travam uma guerra sangrenta contra as drogas. A polícia é estimulada a executar vendedores e consumidores. O próprio presidente prometeu, diante das câmeras, matar dezenas de milhares de criminosos. Sua gestão adotou a prática de estimular usuários de drogas a assassinar os traficantes, queimando-lhes as casas.

Quando Barack Obama, ainda hospedado na Casa Branca, esboçou uma defesa dos direitos humanos nas Filipinas, Duterte chamou-o de “filho da puta.” Declarou que, se o presidente americano ousasse admoestá-lo num encontro bilateral, responderia de forma primitiva: ''Vamos chafurdar na lama como porcos se fizer isso comigo.'' É esse o personagem que inspira Bolsonaro na elaboração do seu programa de combate ao crime organizado no Brasil.

Bolsonaro não desceu anteontem de Marte. Faz pose de novidade, mas exerce seu sétimo mandato como deputado federal. Com 464 mil votos, foi o deputado mais votado do Rio de Janeiro na eleição de 2014. 
Sempre cavalgou a mesma agenda conservadora. Condena o casamento de homossexuais, deplora a ideologia de gênero nas escolas, prega o direito dos policiais de matar bandidos e chama presídios superlotados de “coração de mãe”, onde sempre cabe mais um bandido.

No governo tucano de Fernando Henrique Cardoso, Bolsonaro pegou em lanças contra a política de privatizações e a abertura do mercado para a exploração de petróleo. 

Nessa época defendeu diante das câmeras o fuzilamento do presidente da República. Uma, duas, três vezes. A única novidade da atual temporada é a constatação de que Bolsonaro mudou de patamar. Emprestava sua voz ao nicho proterozoico do eleitorado fluminense. Tornou-se um porta-voz do atraso nacional.

Com menos de 10 segundos de propaganda no rádio e na TV, Bolsonaro tenta celebrar um acordo com o PR do ex-presidiário do mensalão Valdemar Costa Neto. O cruzamento do discurso anticorrupção do capitão com a biografia suja do dono do PR resultará num monumento ao cinismo. Mas Bolsonaro dá de ombros. Ele manda Costa Neto para escanteio, diz que seu contato é com o senador Magno Malta (PR-ES), seu potencial candidato a vice, e assegura que o acordo, se vier, virá “de graça, por amor”.

Só um amador acreditaria em relações políticas baseadas no amor. Mas o eleitor de Bolsonaro, mal-amado por representantes de outrora, olha ao redor, constata a generalização da vigarice e venera o seu candidato por contraste. 

O capitão assegurou em Fortaleza que prevalecerá no 1º turno. Exagero de candidato. Talvez fique pelo caminho. Mas sua passagem pela campanha, seja qual for o resultado, já serviu para demonstrar que o pedaço primitivo do Brasil acordou.

Não fica bem pensar mal de Bolsonaro e usar luvas de renda para falar dos seus eleitores. A agenda pertence a eles. Vivo, Darwin diria que o brasileiro é mais uma prova do acerto da sua teoria evolucionária. Evoluiu tanto que já está fazendo o caminho de volta. (por Josias de Souza, no seu blog)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

DALTON ROSADO: "O CENÁRIO DE 'TEMPESTADE PERFEITA' PARA O CAPITALISMO ESTÁ MONTADO".

A CHINA CAPITALISTA E A NOVA
CONJUNTURA ECONÔMICA MUNDIAL
.
"Uma por uma, as fábricas fecharam e deixaram nosso solo 
sem nem pensar nos milhões e milhões de trabalhadores 
americanos que foram deixados para trás. A riqueza da 
nossa classe média foi arrancada de suas casas e 
depois redistribuída ao redor do mundo." 
(Donald Trump, em seu discurso de posse)  
As sociedades mercantis têm a economia como astro-rei e a política gira na sua órbita. Assim, as mudanças de mãos na vitória da guerra de concorrência de mercado, decorrentes do desenvolvimento das forças produtivas numa determinada região, alteram o comando geopolítico que é o instrumento serviçal de regulação da economia.

Quando a vontade política, ditada por questões de interesses eleitorais, interfere no curso natural da lógica capitalista, contrariando as suas rígidas leis de funcionamento, ocorre um conflito inconciliável dentro de um mesmo modo de relação social e os resultados econômicos são desastrosos.  

Nestes tempos de globalização dos mercados, a transferência dos meios de produção de mercadorias de uma região para outra, com alteração profunda dos custos de produção e encurtamento do tempo de circulação que vai da produção das mercadorias até o retorno aumentado do capital (ciclo de reprodução do capital — D=M=D’) altera a hegemonia política anteriormente estabelecida, daí decorrendo um conflito de graves proporções. Leitmotiv das guerras mundiais do séc. 20, tal fenômeno volta a suceder.

Quando, ademais, tal mudança implica uma redução da massa global de mais-valia e de valor, ocorre um somatório de problemas. Verifica-se uma guerra mercadológica dentro de espaços cada vez mais reduzidos e se inviabilizam as administrações financeiras estatais e privadas, o que corresponde a um conflito inconciliável dentro da lógica econômica mercantil.      
Fábrica fechada em Michigan, EUA.

A China, e agora a Índia, com suas mercadorias de baixo custo de produção industrial, estão fazendo um enorme estrago nas relações mercantis mundiais e alterando profundamente as relações de poder econômico mundial (e, como consequência, de poder político). 

Após a terceira revolução industrial ditada pela difusão do saber tecnológico aplicado à produção de mercadorias, graças à livre e imediata possibilidade de comunicação e à conveniência da transferência de unidades fabris em face da concorrência de mercado para regiões antes meramente agrícolas (como são os casos da China e da Índia), promoveu-se um êxodo rural para as áreas urbanas em ritmo acelerado como jamais tinha sido visto na história da humanidade. 
Os resultados de tais fenômenos estão sendo decisivos para a nova configuração mundial de poder e é isto que agora se coloca com a desintegração da União Europeia e o ressurgimento das posições nacionalistas e populistas que tanto encantam os eleitores, muitos deles saudosos do tempo do wellfare state dos países ricos. Pari passu, grassa a desintegração política e econômica nos países pobres que estão fora do processo.  

O mundo entra em ebulição política e econômica.
.
CHINA PASSA AGORA A CONVIVER COM OS 
FANTASMAS DO MODELO QUE ESCOLHEU
.
Mas, nem tudo são flores para os chamados países emergentes no mundo capitalista; os sintomas colaterais deletérios da entrada destas nações no contexto econômico mundial já denunciam que o buraco é mais embaixo.  

Como sabemos, o capitalismo necessita de crescimento incessante do consumo de mercadorias para manter a sustentação da relação social pela forma-valor, representada pelo dinheiro, como modo minimamente viável. 

Mas, para seu infortúnio, a capacidade de consumo das mercadorias tem limite e a redução de renda per capita global e do poder de compra diminui ainda mais tal limite. Esta é uma contradição básica e irresolúvel entre a necessidade imperiosa do aumento da produção ad infinitum e o limite de consumo humano, que determina a capacidade de absorção pelo mercado das mercadorias produzidas. 

A China, país de 1,5 bilhão de habitantes, outrora com 80% da população rural extremamente pobre, ofereceu ao mundo capitalista mão-de-obra barata, isenção de impostos, manipulação cambial e quebra de qualquer respeito à lei de patentes. 

Estavam, assim, formadas as condições para a tempestade perfeita no processo de crise capitalista atual com a globalização da produção de mercadorias e o deslocamento desta dos centros tradicionalmente produtores para a China (e também para a Índia e a Indonésia, esta última com mais de 260 milhões de habitantes). 

Nos últimos 30 anos a China cresceu vertiginosamente sob os fundamentos capitalistas, com o PIB aumentando de US$ 309 bilhões em 1985 para USS 10,4 trilhões em 2014 (crescimento de 3.300%).

Entretanto, como no capitalismo tudo tem efeito colateral negativo, a China esbarrou no limite interno da expansão dentro de tal sistema, passando agora a conviver com os fantasmas do modelo capitalista que escolheu. São eles: 
a) acúmulo de reservas cambiais em dólares estadunidenses, fruto da exportação one way, sem que possa desovar tais recursos, pois isto evidenciaria a insustentabilidade da moeda internacional; 
b) endividamento do setor privado com montante de dívida privada de 251% acima do PIB em desaceleração (Estados Unidos, 260% do PIB; Japão, 415% do PIB); 
c) mercado interno incapaz de compensar a queda nas exportações, principalmente em meio à crise no setor imobiliário, com encalhe de verdadeiras cidades fantasmas sem possibilidade de venda, provocando a queda no preço das habitações (5,0% em janeiro e 5,7% em fevereiro de 2016) e redução na venda de cimento, importante segmento industrial; 
d) deslocamento da produção para países vizinhos onde a mão-de-obra é ainda mais barata, como o Camboja, com salários de U$$ 80 mensais, aliado ao uso crescente da robotização, modo de produção que elimina valor e postos de trabalho; e) bolha de valorização artificial no mercado de ações, fruto da migração especulativa financeira; etc. 
A diminuição acentuada do crescimento do PIB chinês, que era prevista para 6,8% em 2015, “aumenta a pressão para baixo”, segundo disse no ano passado o vice-ministro-presidente Zhiang Gaol. Agora, a previsão é de crescimento do PIB é de 6,7% para 2016, numa demonstração de renitente pressão de queda. Tudo isso prenuncia um terremoto interno e mundial.

Assim, a China necessita desesperadamente do livre comércio internacional para poder se manter sustentável industrial e economicamente, sob pena da insatisfação social provocar uma guerra civil ou um movimento belicista mundial, uma vez que a volta para uma vida rural é impossível nesta altura dos acontecimentos. Um colapso da China implicará um efeito dominó, afetando todo o sistema financeiro planetário. 

Os países afetados pelo fenômeno da industrialização dos países emergentes da Ásia, por sua vez, sairão prejudicados caso adotem medidas protecionistas de mercado, porque verão minguar o comércio internacional e a produção de mercadorias; além disto,  a crise do sistema financeiro será danosa para as suas finanças públicas.

O cenário de tempestade perfeita para o capitalismo, repito, está montado. E só há uma saída para que a paz mundial seja mantida: a viabilização da vida social sob outros parâmetros, com a superação do capitalismo. (por Dalton Rosado)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

RODRIGO GULARTE, 42 ANOS, ASSASSINADO POR UM GOVERNO BESTIAL, UM GOVERNO DE MERDA!

Há quem considere que o estupro dos direitos humanos por parte de nações atrasadíssimas deva ser relevado, "cada povo com suas leis e seus costumes".

Eu não. Jamais! Para mim, qualquer governo que tira a vida de um ser humano por dá lá aquela palha é um GOVERNO BESTIAL, UM GOVERNO DE MERDA.

A pena capital para quem matou é uma regressão à barbárie.

A pena capital para quem não matou é simplesmente inqualificável. Assassinato com tintura de legalidade.

A INDONÉSIA TEM UM GOVERNO BESTIAL, UM GOVERNO DE MERDA. Ponto final.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

BOBBIO: PENA DE MORTE É "HOMICÍDIO LEGALIZADO, PERPETRADO A SANGUE FRIO, PREMEDITADO".

"...o indivíduo tem o direito de matar em legítima defesa, enquanto a coletividade não o tem? Responde-se: a coletividade não tem esse direito porque a legítima defesa nasce e se justifica somente como resposta imediata numa situação na qual seja impossível agir de outro modo; a resposta da coletividade é mediatizada através de um processo, por vezes até mesmo longo, no qual se conflitam argumentos pró e contra. 

Em outras palavras, a condenação à morte depois de um processo não é mais um homicídio em legítima defesa, mas um homicídio legalizado, perpetrado a sangue frio, premeditado. Um homicídio que requer executores, ou seja, pessoas autorizadas a matar. 

...o Estado não pode colocar-se no mesmo plano do indivíduo singular. O indivíduo age por raiva, por paixão, por interesse, em defesa própria. O Estado responde de modo mediato, reflexivo, racional. Também ele tem o dever de se defender. Mas é muito mais forte do que o indivíduo singular e, por isso, não tem necessidade de tirar a vida desse indivíduo para se defender. O Estado tem o privilégio e o benefício do monopólio da força. Deve sentir toda a responsabilidade desse privilégio e desse beneficio. 

...busquemos dar uma razão para nossa repugnância frente à pena de morte. A razão é uma só: o mandamento de não matar. (...) Dostoiévski o disse magnificamente, quando pôs na boca do Príncipe Michkin as seguintes palavras: 'Foi dito: Não matarás. E, então, se alguém matou, por que se tem de matá-lo também? Matar quem matou é um castigo incomparavelmente maior do que o próprio crime. O assassinato legal é incomparavelmente mais horrendo do que o assassinato criminoso'.

...acreditamos firmemente que o desaparecimento total da pena de morte do teatro da história estará destinada a representar um sinal indiscutível do progresso civil. Esse conceito foi muito bem expresso por John Stuart Mill (...): 'Toda a história do progresso humano foi uma série de transições por meio das quais costumes e instituições, umas após outras, foram deixando de ser consideradas necessárias à existência social e passaram para a categoria de injustiças universalmente condenadas'.

Estou convencido de que esse será também o destino da pena de morte. Se me perguntarem quando se cumprirá esse destino, direi que não sei. Sei apenas que o seu cumprimento será um sinal indiscutível do progresso moral." (Norberto Bobbio, um dos maiores pensadores do século 20)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

ALGUNS LEMBRETES À EXMA. MARIA DO ROSÁRIO

Prezada deputada,

sou da geração 68 e comecei minha trajetória nos duros embates da política estudantil de então. Foi quando aprendi lições valiosíssimas para a minha militância revolucionária, que sigo até hoje.

Uma delas: a rua é sempre de mão dupla. Os adversários ou inimigos não esquecem o que dissemos em episódios passados e, quando mudamos nosso posicionamento ao sabor das circunstâncias, atiram isto triunfalmente na nossa cara.

O jeito é mantermo-nos fiéis a nossos princípios, por mais que isto desagrade aos companheiros mais simplistas ou simplórios.

Então, quando os pugilistas cubanos foram despachados a toque de caixa para Cuba, sem se levarem em conta os procedimentos que deveriam ter sido adotado num caso daqueles, protestei antes mesmo do Suplicy. Não tinha simpatia nenhuma por tais boxeadores que consideravam os euros mais importantes do que o país de nascença, mas, ainda assim, era um péssimo precedente que estava sendo aberto. Poderia mais tarde ser usado por um presidente de direita para entregar um companheiro valoroso a seus algozes. a rua é sempre de mão dupla

Houve quem me apedrejasse, claro, mas recebi meu prêmio adiante. Defendendo Cesare Battisti em textos e em eventos vários, frequentemente os antagonistas, desinformados, me acusavam de não haver agido da mesma maneira no caso dos cubanos. Tomavam-me pelo esquerdista atual típico. 

Quando eu informava que havia sido o primeiro a me posicionar contra a repatriação forçada, quebrava a perna deles. Alguns até perderam o rebolado e se tornaram presas fáceis no resto do debate.

Então, nunca se esqueça, minha cara Rosário: a rua é sempre de mão dupla.

Também não escreva bobagens como a de que pouco importam para onde vão as cinzas do brasileiro executado pelo abominável governo da Indonésia, pois as viúvas da ditadura retrucarão que, então, pouco importam igualmente as cinzas dos resistentes exterminados no Araguaia e em outros palcos das chacinas dos anos Médici

Reinaldo Azevedo já o fez. E é constrangedor ter de admitir que, desta vez, ele está com a razão.

Afora o fato de que uma ex-ministra dos Direitos Humanos jamais poderia ter enfatizado, de forma tão antipática quanto inoportuna, que Marco Archer era um traficante e não um herói. Antigamente éramos os primeiros a proclamar que traficantes deveriam ter julgamentos justos, ao invés de serem executados na calada da noite pelo Esquadrão da Morte.

Aliás, cá entre nós, as autoridades da Indonésia lembram muito a turminha do delegado Sérgio Fleury. E ainda querem ser respeitados! Pena de morte e barbaridades afins não merecem o respeito de homem civilizado nenhum! 

Com meus protestos de respeito e consideração,

Celso lungaretti
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