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sábado, 8 de junho de 2019

CAOS MENTAL ACIMA DE TUDO

hélio schwartsman
EM BUSCA DO MÉTODO
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“Apesar de isso ser loucura, há método nela”, escreveu Shakespeare. Quando se trata de Jair Bolsonaro, não temos muita dificuldade em identificar as loucuras, mas encontrar um método nelas é tarefa das mais desafiadoras.

O presidente atira para todos os lados. Ele representa a direita nacionalista, dirão alguns. Não duvido. Bolsonaro inscreveu o Brasil acima de tudo em seu dístico de campanha, ameaçou tirar o país de tratados internacionais, desconfia dos chineses e tem fixação pelo nióbio. 

Mas ele agora está falando em adotar uma moeda comum para o Mercosul, ideia das mais internacionalistas, que deveria causar arrepios em qualquer nacionalista legítimo.

Ele é um punitivista reacionário, proclamarão outros. De novo, a observação faz sentido. Bolsonaro acaba de vetar a única parte decente da nova lei sobre drogas, que permitiria a redução de até dois terços da pena para pequenos traficantes. 

Mas, quando tratou de trânsito, o presidente revelou-se um verdadeiro anarcolibertário, disposto a apagar qualquer traço de autoritarismo da lei.

Bolsonaro não está só. Gostamos de nos imaginar como seres coerentes que agem segundo princípios, mas não é o que se vê na prática. Até os blocos ideológicos, que deveriam guiar-se por ideias unificadoras, parecem ser incapazes de fazê-lo.
"as posições de Bolsonaro podem ser descritas como a resultante do caos"
São bandeiras caras à esquerda, p. ex., a liberação do aborto e das drogas e a condenação à pena de morte e ao porte de armas. Já a direita sustenta exatamente o contrário. Conciliar ambos os conjuntos de posições com uma narrativa linear exige ginástica mental. 

Se é o princípio da sacralidade da vida que prepondera, deveríamos ser contra os quatro pontos. Já a defesa intransigente da autonomia individual recomendaria a aprovação de todos.

O que torna Bolsonaro um caso único é que ele não parece obedecer nem a princípios, nem a alinhamentos históricos e nem ao oportunismo. Suas posições podem ser descritas como a resultante do caos. (por Hélio Schwartsman)
"Que é que tem nessa cabeça? Saiba que ela pode explodir, irmão"

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

EM MEIO A TANTOS RETROCESSOS, UMA NOTÍCIA AUSPICIOSA: A ABOMINÁVEL PENA DE MORTE ESTÁ EM DECLÍNIO NO MUNDO

A Igreja Católica Apostólica Romana aumenta a pressão contra uma das mais chocantes modalidades de assassinato do ser humano pelo Estado: a pena capital.

"A pena de morte é inadmissível, porque atenta contra a inviolabilidade e a dignidade da pessoa", afirmou o papa Francisco, acrescentando que a Igreja se compromete com sua abolição em todo mundo. 

Assim, a legitimação das execuções de condenados está sendo excluída do catecismo, o livro que explica a doutrina da Igreja. Seu artigo 2.267 agora explica: 
"Durante muito tempo o recurso à pena de morte por parte da autoridade legítima, depois do devido processo, foi considerado uma resposta apropriada à gravidade de alguns delitos e um meio admissível, embora extremo, para tutela do bem comum.
Hoje está cada vez mais viva a consciência de que a dignidade da pessoa não se perde nem mesmo depois de ter cometido crimes muito graves. Além disso, foram implementados sistemas de detenção mais eficazes, que garantem a necessária defesa dos cidadãos, mas que, ao mesmo tempo, não tiram do réu a possibilidade de se redimir definitivamente"
Desde meados do século passado, vários pontífices têm se manifestado contra a pena capital. João Paulo II, p. ex., a qualificou de "cruel e inútil".

A maioria dos países predominantemente católicos de todo o mundo já aboliu ou suspendeu as execuções judiciais e, em várias ocasiões, o Vaticano e o papa solicitaram sua suspensão aos Estados Unidos.

Segundo a Anistia Internacional, no ano passado houve 993 execuções em 23 nações. As que mais incidiram nessa prática bestial foram, pela ordem, China, Irã, Arábia Saudita, Iraque e Paquistão. 

Os EUA, que tiraram a vida de 23 pessoas, insistem em continuar sendo o único país do continente americano a admitir tal abominação.
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A maior campanha já movida em escala mundial contra a execução de condenados
não evitou que os anarquistas italianos Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti
fossem eletrocutados em 1927 nos EUA. 50 anos depois o governador do
Massachusetts reconheceu oficialmente a inocência de ambos.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

HÁ BRASILEIROS COM A CABEÇA NO SÉCULO 21, HÁ OS QUE EMPACARAM NO 19 OU NO 20.

Por Elio Gaspari
UM BRASIL POLITICAMENTE INCORRETO
Duas informações trazidas pelo Datafolha podem ser úteis para que se conheça melhor o país que neste ano elegerá o presidente da República, 27 governadores, a Câmara dos Deputados e dois terços do Senado.

Mais da metade dos entrevistados (57%) disseram que as mulheres que fazem aborto devem ir para a cadeia, e dois terços (66%) são contra a legalização do consumo de maconha.

Outra pesquisa, do Ibope, informa que 49% de seus entrevistados declararam-se a favor da pena de morte. (Enquanto nos dois outros itens a pesquisa indica que a oposição caiu, neste os defensores da pena de morte aumentaram, pois em 2011 estavam em 31%.)

De pouco adianta adjetivar essas opiniões. A questão é substantiva: a banda do país que ainda vive os problemas do século 20 e, em certos casos, os do 19, está blindada em relação a alguns temas da agenda do 21. Não faz o gênero politicamente correto.

A descriminalização da maconha é um tema da agenda do 21. Já o direito das mulheres ao aborto foi tema do 20, ainda divide a sociedade americana e prevaleceu em dezenas de países. 
57% querem presa mulher que aborta; 49%, pena de morte

E os temas do 19? Estão diante dos olhos de todos os brasileiros quando leem ou ouvem que a polícia subiu um morro e matou "dois suspeitos". Suspeitos de quê? Em 1835, o ministro da Justiça falava de "uma população sempre perigosa". Eram os negros livres.

Há um Brasil que é pouco ouvido e mal-entendido, mas que está aí, não poderá se mudar para Miami, e em outubro irá às urnas. 

53% dos entrevistados com renda superior a dez salários mínimos defendem a legalização da maconha e 70% querem a descriminalização do aborto. 

Na turma que anda de ônibus (até dois salários mínimos), o quadro inverte-se e só 26% concordam com as duas propostas. Moralista, essa faixa da população é a mais afetada pelo que resta da agenda do 19. Ela associa o cheiro da maconha à bandidagem e quer a sua ordem porque mal consegue viver na desordem que lhe é imposta. 
A dama do FMI visitando em 2015 o teleférico dos Alpes. Que agora está parado há mais de um ano...

Veja-se o caso do teleférico do Morro do Alemão, no Rio. Foi vendido como se fosse uma obra do século 21. A doutora Christine Lagarde, do FMI, andou nele e sentiu-se no Alpes.

Se o bondinho do Pão de Açúcar ficar parado um só dia, o Brasil do 21 gritará. O teleférico do Alemão está parado há mais de um ano, mas sua clientela está na agenda do 19. (Em 2012 o teleférico transportava 10 mil passageiros por dia, o bondinho transporta 2.500.)

Nos últimos meses, o Rio teve mais manifestações a favor da liberação da maconha do que pela liberação do teleférico. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas as duas querem dizer alguma coisa. No mínimo, que é mais confortável batalhar pela agenda do 21 do que reconhecer que a do 19 continua aí. 
Gilberto Gil: ave rara na passeata? À sua frente tem mais! 
Os números do Datafolha e do Ibope apontam para um país que é de bom tom fingir-se que não existe.

É a síndrome da Passeata dos Cem Mil, cujo cinquentenário comemora-se em junho. Foi um momento de esplendor da vontade popular, mas deu em rigorosamente nada. 

Uma imagem da multidão que marchou pela avenida Rio Branco tinha uma peculiaridade. Nela só havia um negro, o petroleiro Twist. (Fora da lente do fotógrafo Evandro Teixeira, havia outros. Gilberto Gil, p. ex., na comissão de frente.)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

RODRIGO GULARTE, 42 ANOS, ASSASSINADO POR UM GOVERNO BESTIAL, UM GOVERNO DE MERDA!

Há quem considere que o estupro dos direitos humanos por parte de nações atrasadíssimas deva ser relevado, "cada povo com suas leis e seus costumes".

Eu não. Jamais! Para mim, qualquer governo que tira a vida de um ser humano por dá lá aquela palha é um GOVERNO BESTIAL, UM GOVERNO DE MERDA.

A pena capital para quem matou é uma regressão à barbárie.

A pena capital para quem não matou é simplesmente inqualificável. Assassinato com tintura de legalidade.

A INDONÉSIA TEM UM GOVERNO BESTIAL, UM GOVERNO DE MERDA. Ponto final.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

BOBBIO: PENA DE MORTE É "HOMICÍDIO LEGALIZADO, PERPETRADO A SANGUE FRIO, PREMEDITADO".

"...o indivíduo tem o direito de matar em legítima defesa, enquanto a coletividade não o tem? Responde-se: a coletividade não tem esse direito porque a legítima defesa nasce e se justifica somente como resposta imediata numa situação na qual seja impossível agir de outro modo; a resposta da coletividade é mediatizada através de um processo, por vezes até mesmo longo, no qual se conflitam argumentos pró e contra. 

Em outras palavras, a condenação à morte depois de um processo não é mais um homicídio em legítima defesa, mas um homicídio legalizado, perpetrado a sangue frio, premeditado. Um homicídio que requer executores, ou seja, pessoas autorizadas a matar. 

...o Estado não pode colocar-se no mesmo plano do indivíduo singular. O indivíduo age por raiva, por paixão, por interesse, em defesa própria. O Estado responde de modo mediato, reflexivo, racional. Também ele tem o dever de se defender. Mas é muito mais forte do que o indivíduo singular e, por isso, não tem necessidade de tirar a vida desse indivíduo para se defender. O Estado tem o privilégio e o benefício do monopólio da força. Deve sentir toda a responsabilidade desse privilégio e desse beneficio. 

...busquemos dar uma razão para nossa repugnância frente à pena de morte. A razão é uma só: o mandamento de não matar. (...) Dostoiévski o disse magnificamente, quando pôs na boca do Príncipe Michkin as seguintes palavras: 'Foi dito: Não matarás. E, então, se alguém matou, por que se tem de matá-lo também? Matar quem matou é um castigo incomparavelmente maior do que o próprio crime. O assassinato legal é incomparavelmente mais horrendo do que o assassinato criminoso'.

...acreditamos firmemente que o desaparecimento total da pena de morte do teatro da história estará destinada a representar um sinal indiscutível do progresso civil. Esse conceito foi muito bem expresso por John Stuart Mill (...): 'Toda a história do progresso humano foi uma série de transições por meio das quais costumes e instituições, umas após outras, foram deixando de ser consideradas necessárias à existência social e passaram para a categoria de injustiças universalmente condenadas'.

Estou convencido de que esse será também o destino da pena de morte. Se me perguntarem quando se cumprirá esse destino, direi que não sei. Sei apenas que o seu cumprimento será um sinal indiscutível do progresso moral." (Norberto Bobbio, um dos maiores pensadores do século 20)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

REPÚDIO AO "SADISMO DOENTIO DO SISTEMA PENAL-JUDICIAL DOS EUA"

Ainda sobre o assassinato legalizado de Troy Davis, o bravo companheiro Carlos Lungarzo traz algumas informações e ponderações importantes:
"Davis sofreu o sadismo doentio do sistema penal-judicial dos EUA, representado por 20 anos de espera por sua execução, enquanto todas as protestos de milhões de pessoas no planeta, e os sucessivos recursos eram ignorados.

Troy foi defendido durante anos por Anistia Internacional, e celebridades do mundo todo, incluindo o ex-presidente Carter e o Papa Bento XVI, que pediram seu indulto.

As nove testemunhas disseram inicialmente que tinham visto Troy atirando no policial, mas, vários anos depois, quando a causa foi julgada em segunda instância, sete deles reconheceram que tinham sido ameaçados e extorquidos pela polícia para depor contra Davis.

Para que o julgamento parecesse normal, o juiz e o promotor escolheram mais de metade de jurados negros, mas estes confessaram depois que, por causa da perseguição racial no Sul americano e a situação indefesa de afroamericanos pobres, eles votaram pela condenação pois se sentiam incapazes de suportar as ameaças do promotor e dos juízes contra os membros de suas famílias".
E a Anistia Internacional, à qual Lungarzo pertence, emitiu nota oficial condenando o linchamento judicial de Davis. Eis os trechos principais:
"Troy Davis, de 42 anos, que se encontrava no corredor da morte desde 1991, foi executado por injeção letal na prisão do Estado da Geórgia em Jackson, no dia 21 de Setembro, apesar das sérias dúvidas em torno da sua condenação.
No mesmo dia, o Irã enforcou publicamente um jovem de 17 anos condenado pelo homicídio de um afamado atleta, apesar das proibições internacionais de execução de adolescentes, enquanto a China executou um paquistanês condenado por tráfico de drogas apesar dos crimes de droga não se incluírem nos crimes 'mais graves' do Direito internacional.
'Este é um dia triste para os direitos humanos em todo o mundo. Ao executarem estes indivíduos, estes países estão a mover-se contra a corrente global da abolição da pena de morte', afirmou Guadalupe Marengo, Vice-diretor da Amnistia Internacional para a América.
Os ativistas da Anistia Internacional fizeram uma extensa campanha contra a pena de morte. Nos últimos dias, foram enviadas, às autoridades da Geórgia, quase um milhão de assinaturas em nome de Troy Davis, apelando para comutarem a sua sentença de morte. Foram realizadas vigílias e eventos em aproximadamente 300 locais por todo o mundo.
Troy Davis foi condenado à morte em 1991, pelo homicídio do polícia Mark Allen Macphail em Savannah, no estado da Geórgia. O caso contra Troy Davis baseou-se principalmente em declarações de testemunhas. Desde o seu julgamento em 1991, sete das nove testemunhas chave retiraram ou alteraram o seu testemunho, algumas alegando coerção policial.

A Anistia Internacional opõe-se à pena de morte em todos os casos, sem exceção.

'A pena de morte é um sintoma de uma cultura de violência e não uma solução', acrescentou Guadalupe Marengo. 'Devemos manter a esperança e as execuções angustiantes levadas a cabo no dia 21 de Setembro devam levar os membros da Amnistia Internacional e outros ativistas a quererem continuar a luta contra a pena de morte'".
Somo minha voz à da AI: sou totalmente favorável à abolição da pena de morte em todos os casos, sem exceção. Exorto meus leitores a fazerem o mesmo, ajudando a dar um fim a mais este resquício de barbárie que, para nossa imensa vergonha, perdura em pleno século 21.

Que nunca mais um inocente seja covardemente assassinado como o foi Troy Davis!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

TROY DAVIS: ASSASSINADO!

Os EUA assassinaram Troy Davis na noite desta 4ª feira (21), indiferentes ao pedido de clemência de quase 1 milhão de peticionários e ao apelo do Papa Bento XVI.

A condenação foi grotesca: inexistia qualquer prova material; nem sequer foi encontrada a arma do crime; e, das 9 testemunhas, 7 caíram em contradição.

Negaram a Troy o direito a novo julgamento, apesar de a sentença ser questionável ao extremo.

Salta aos olhos que houve componente racista no caso, tendo o presidente Barack Obama se omitido vergonhosamente. É covarde, indigno e cúmplice de linchadores.

A pena de morte constitui, ela sim, um crime e uma aberração. Pertence à pré-História da humanidade. Já passou do tempo de a extirparmos da face da Terra.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O ESTADO DE UTAH VAI ASSASSINAR HOJE UM HOMEM

Les assassins de l'ordre é o título original de um filme memorável que Marcel Carné dirigiu em 1971, com Jacques Brel no papel principal.

E é também a melhor designação para os que, em pleno século XXI, ainda estão aplicando a lei do
olho por olho, dente por dente, correspondente a um estágio de civilização há muito superado.

Se um ser humano mata outro, é homicida.


Se um estado mata um ser humano, com ou sem formalidades jurídicas, também é homicida. Cruel. Vingativo. Rancoroso. Insensível, Brutal. Bárbaro. Fanático. Maldito. E quantos outros adjetivos houver, que nos permitam expressar nossa indignação e repulsa face à bestialidade do homem contra o homem.


Então, os
assassinos da ordem do estado de Utah, EUA, vão alvejar nesta 6ª feira um senhor que, há 25 anos, matou a tiros um advogado, numa tentativa desastrada de fuga.

Passou um quarto de século tendo pesadelos com o dia da execução. Sofreu o inferno em vida. E hoje vai ser abatido como um cão.


Há lugares onde ainda não se saiu da pré-História da humanidade.


UMA REFLEXÃO
Houve jurados que decidiram a morte de um semelhante; juíz(es) e governador(es) insensíveis a seu apelo desesperado por clemência.

Fico pensando que o pior dos mundos possíveis é essa combinação de uma punição do estágio tribal com a Justiça impessoal dos nossos tempos. A regressão dos que deveriam ser civilizados.

Se as pessoas que condenam um ser humano à morte fossem obrigadas a aplicarem elas próprias a sentença, seriam capazes de o fazer? Olho nos olho, apertariam o gatilho, acionariam a energia da cadeira elétrica ou liberariam a lâmina da guilhotina?

Duvido. São, além de tudo, assassinos sem coragem nem brio. Só matam delegando o serviço imundo de carniceiro a outrém.

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