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terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

DESCONFIEM DAS CRIPTOMOEDAS: ELAS SÃO UM GIGANTESCO COLAPSO ANUNCIADO! – 2

(continuação deste post)
N
a forma atual está claro que o valor monetário, fiduciário, é artificial, de vez que não provém da constituição de valor válido advindo da produção de mercadorias e tem o seu custo de produção como critério definidor do valor (tempo de trabalho abstrato coagulado na mercadoria).  

É aí que entram na pauta social as moedas criptografadas, as quais nada mais são do que a representação convencional de uma outra moeda ou moedas, mais artificial ainda do que as ditas cujas. Trata-se da abstração da abstração. 

Não há valor substancial no dinheiro enquanto padrão monetário nacional; muito menos nas moedas eletrônicas, que apenas pretendem representar as primeiras. 

Como se explica que o bitcoin, moda eletrônica inventada por alguns espertalhões do fantástico mundo do mercado financeiro decrépito, mesmo sem nada produzir, tenha se valorizado em 700% durante determinado período e em 200% no último ano da pandemia que paralisou a produção, gerando, com isto, lucros estratosféricos aos seus compradores??? 

Agora mesmo, determinado grupo financeiro resolveu comprar bitcoins e, com isto, duplicou a valor do seu investimento como num passe de mágica. É claro que, a exemplo das bolhas financeiras (como a do subprime), esta é a mais moderna forma de pirâmide financeira, sem base de substância e com data marcada para sua implosão.

Evidentemente, por serem livres do controle tirânico dos bancos e do fisco, as criptomoedas ganham popularidade como meio eficaz e célere de pagamento e investimento, daí a sua valorização artificial. 
Sem falar na conveniência de não permitirem a descoberta do detentor da conta (como nos bancos suíços, que abrigavam dinheiro sujo do mundo inteiro). Sendo ele identificado por um código criptografado pessoal, as criptomoedas se tornam um paraíso para a lavagem de dinheiro. 

Imaginem se o ex-deputado baiano Geddel Vieira Lima tivesse comprado bitcoin, ao invés de esconder o dinheiro em malas! Estaria por aí lampeiro, posando de digno representante do povo.

Mas, como as criptomoedas apenas representam moedas reais e se valorizam por um mecanismo da lei da oferta e da procura, tende a chegar um momento no qual o objeto de sua representação, as moedas oficiais, evidenciem as suas insubsistências; em tal momento, a queda das criptomoedas será maior do que a dos seus ativos financeiros fiduciários oficiais. Trata-se, portanto, de um gigantesco colapso anunciado.

O mundo hoje está gerido pelo controle monetário das nações emissoras de moedas fortes (dólar e euro), daí querer-se tanto a autonomia dos Bancos Centrais, justamente porque, com ela, o poder político cede lugar ao poder do controle monetário. 

Se os governos são ruins, opressores, subservientes ao poder econômico que os sustenta, os Bancos Centrais e seus controles monetários são absolutamente impessoais e insensíveis aos dramas humanos. As criptomoedas fazem parte desse universo de artificialismo insubsistente e tenebroso.

Já é hora, ou estamos passando da hora, de darmos um fim na riqueza abstrata como
condottieri das nossas vidas.

Ora, como não dá mais para segregar os indivíduos sociais transformados em cidadãos, socialmente, pelo trabalho abstrato, há que os segregar mediante a distribuição de dinheiro sem valor (caso do auxílio emergencial), como forma de:
— a eles, manter miseravelmente vivos; e, 
— àqueles que fazem o controle monetário, preservar-lhes a condição de senhores da dominação econômica e política, eternizando seus privilégios. 

Os dominadores fundamentais não são mais os patrões (ainda que permaneçam como parte desse processo), mas sim  os detentores do controle monetário e do mundo financeiro, que ditam qual a quantidade de ração a ser ministrada aos escravos da pós-modernidade, por intermédio de dinheiro sem valor, seja um padrão monetário nacional ou uma criptomoeda internacional. 

O Estado falido e seus políticos (estes últimos fora de foco e distantes da realidade funcional social, sendo a cada dia denunciados por seus atos absurdos e sua corrupção escancarada, além de terem as suas carantonhas repulsivas expostas numa pantomima que só não se evidencia mais grotesca ainda os olhos do povo porque a mídia está impedida de colocar o dedo na verdadeira problemática) são responsáveis pela perpetuação da miséria social quando a humanidade já adquiriu suficiente domínio do saber científico para erradicá-la em definitivo.

Não são os jornalistas, presos a uma camisa de força artificialmente sustentada que os obriga a focar naquilo que é fora de foco e, com isto, a manterem a população desinformada, os verdadeiros culpados pela inconsciência social sobre o que está em curso. 

A culpa cabe a uma forma de dominação que insiste em manter a todos cegos e conduzidos ao abismo pela flauta mágica e impositiva do valor sem valor.

Daí a importância de um veículo (como este blog) permanecer sem amarras comerciais patronais mercadológicas, nem envolvimento com governos e/ou partidos políticos, de forma a poder sempre fazer uma abordagem como a que ora realizamos – e isto quando a própria internet não nos proíbe! 

Vivemos a dor de um parto de alto risco, mas ainda há tempo de salvar o bebê. Precisamos, contudo, estar conscientes de como vem sendo conduzido este pré-parto, para que possamos conduzir bem o próprio parto. (por Dalton Rosado)

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

VEJAM O QUE RESTOU DE UMA GRANDE MARACUTAIA CONTRA A QUAL NOS POSICIONAMOS EM 2007 – 1

Por Celso Lungaretti
Durante o segundo mandato de Lula, eu não enxergava qualquer possibilidade de uma Presidência da República sob o capitalismo servir verdadeiramente aos explorados, pois o Poder que decide, numa democracia burguesa, é o econômico. 

Então, apesar da repulsa que sentia pelo reformismo e o assistencialismo praticados pelo governo federal, eu considerava ocioso criticar as administrações petistas, já que meu foco não era o de melhorar o gerenciamento do capitalismo, mas sim o de fazer avançarem as lutas pela sua superação. 

Não transigia, contudo, no tocante à defesa dos valores mais caros aos revolucionários. Quando tais valores eram atingidos por aquele governo de esquerda que tão pouca afinidade mostrava ter com eles (vinha desprezando-os desde os expurgos que o PT efetuou em suas fileiras na década de 1980), aí sim eu ia à luta. E com toda contundência de que era capaz. 

Foi o que aconteceu durante a greve de fome de D. Luiz Flávio Cappio contra o projeto da transposição das águas do rio São Francisco, porque, sendo as mesmas um recurso que revolucionários sempre utilizaram em situações extremas, eu temia que ficassem definitivamente desmoralizadas. 
Protagonistas de greves de fome fracassadas

Já bastavam os vexames do Lula e do Garotinho para dar-lhes má fama! 

Isto porque em 1980, no vigor de seus 34 anos, Lula desistira após os míseros 6 dias durante os quais recusou alimentação no Dops/SP.

E o robusto Anthony Garotinho em 2006, aos 46 anos, aguentara 11 dias. Ou seja, exatamente um sexto da duração daquela em que morreu o mártir Bobby Sands, do IRA.

Já uma greve de fome vitoriosa que teve lugar no Brasil, a dos quatro de Salvador em 1986 (vide aqui), tanto a imprensa burguesa quanto a esquerda domesticada optaram por ignorar olimpicamente, pois tal êxito não lhes convinha...   

Naquela de 2007, o bispo acabaria entregando os pontos no 23º dia, mas era um sexagenário e sua vontade só fraquejou ao sofrer um desmaio e ser hospitalizado. Aproveitando que ele estava fragilizado, médicos e sacerdotes fizeram sua cabeça.

Antes desse desfecho pífio, eu escrevi o libelo abaixo, postando-o no meu blog principal de então (Celso Lungaretti – O Rebate). E estou trazendo-o para cá porque uma reportagem desta 2ª feira (2) sobre a realidade atual do projeto de transposição lança novas luzes sobre a questão, conforme os leitores verão adiante. 
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LULA VAI MIRAR-SE EM CRISTO OU PILATOS?
Qualquer semelhança entre as frases abaixo NÃO é mera coincidência:
"Então Pilatos, vendo que nada aproveitava, antes o tumulto crescia, tomando água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: Estou inocente do sangue deste justo. Considerai isso." (Mateus 27:24)  
"Eu tenho de escolher entre ele, que está fazendo uma greve de fome premeditada, e 12 milhões de nordestinos (...) que precisam da água para sobreviver. E não tenha dúvida que eu ficarei com os pobres." (presidente Luiz Inácio Lula da Silva, lavando as mãos diante do novo protesto de D. Luiz Flávio Cappio contra o projeto da transposição das águas do rio São Francisco, iniciado no último dia 27)
Resta sempre a esperança de que Lula ponha a mão na consciência e faça a opção correta: não a de repetir Pilatos, que, mesmo não vendo culpa nenhuma em Cristo, foi responsável por seu açoitamento e crucificação; mas sim a de repetir Cristo, que expulsou os vendilhões do templo para evitar que continuasse servindo de covil a ladrões.

O bravo bispo de Barra (BA), que já ficara 11 dias sem alimentar-se em 2005, sustenta que “essa água não é para 12 milhões de pessoas, é para pequenos grupos do capital”, acusando o Governo Federal de difundir “propaganda falsa” e Lula, de desrespeitar o acordo que pôs fim à greve de fome anterior: 
D. Flávio Cappio sendo levado para o hospital

— Nós só suspendemos o jejum lá em Cabrobó porque houve um compromisso para que fossem paralisadas as obras e houvesse negociações. Nós confiamos na palavra do governo. O diálogo teve início, mas logo se acabou. Nós acreditávamos que fosse devido ao ano eleitoral. Quando Lula foi reeleito, nós o procuramos, pedindo a reabertura do diálogo. A resposta do presidente foi o início das obras de transposição, usando o Exército. O governo manteve-se surdo. As coisas ficaram piores. Este é o motivo pelo qual retomei o jejum.

Segundo os opositores, a transposição vai ter impacto extremamente negativo sobre o rio São Francisco (que já está fragilizado e necessitando de urgente revitalização) ao levar suas águas para os grandes açudes do Nordeste, com a principal finalidade de favorecer empreendimentos privados. 

Alegam que, pela metade do custo, poderia ser implementados projetos como o da Agência Nacional de Águas, para beneficiar os 32 milhões de habitantes de mais de mil municípios; e as obras da Articulação do Semi-árido Brasileiro, voltadas para outros 10 milhões. 

Então, tanto em termos ambientais quanto econômicos, seria uma péssima destinação dos recursos públicos. "O governo se tornou a voz de um pequeno grupo da elite e, infelizmente, o presidente Lula se tornou refém do capital internacional", afirma D. Cappio, que desta vez se diz disposto a levar seu protesto até a morte, se não for retirado o Exército e arquivado o projeto. “O rio e o povo merecem.”
Não deveriam envolver Antônio Conselheiro com mamatas!
Ele também rebateu as críticas dos que o acusam de suicida, como o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, para quem “essa postura fundamentalista do bispo vai contra ensinamentos da igreja, como saber que é pecado atentar contra a vida”:

— Eu recomendaria que conhecessem um pouquinho mais a pessoa de Jesus Cristo e a sua doutrina. Que lessem o Evangelho de João 10:10, onde Jesus diz que ele é o bom pastor, que veio pra doar a vida às suas ovelhas. A história da Igreja é uma história de mártires, de homens e mulheres que deram a vida por amor à sua fé, por amor a seus irmãos. 

Finalmente, vale lembrar que personagens históricos da grandeza do Mahatma Gandhi também consideraram válida uma “greve de fome premeditada”, como recurso extremo para tentarem fazer com que a justiça prevalecesse, quando todos os outros caminhos estavam bloqueados. (por Celso Lungaretti, em 05/12/2007)
(continua neste post)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

BITCOIN: UM FALSO MILAGRE.

"O bitcoin fará com os bancos o que
o e-mail fez com o correio postal"
(Rick Falkvinge, empresário de TI)

De repente, como mais um pretenso milagre virtual cibernético, aparece uma forma de dinheiro que afirma não estar vinculado à emissão de moedas pelos Bancos Centrais dos Estados nacionais. Uma meia verdade, e como toda meia verdade, termina por ser uma mentira inteira. 

Trata-se do bitcoin, que viralizou (para usar uma expressão da internet) como moeda capaz de facilitar a vida mercantil e, ao mesmo tempo, proporcionar ganhos fáceis aos que aderirem à sua compra. Eu disse compra, porque o principal modo de se obter bitcoin é adquirindo-o com moeda oficial vigente que, teoricamente, lhe empresta lastro existencial.  

Daí podermos afirmar, logo de início, que o bitcoin é uma representação virtual de moedas oficiais que representam a abstração valor (esta última, teoricamente, com lastro na produção de mercadorias, que são por sua vez, ao mesmo tempo, concretas e abstratas). 

O bitcoin é, portanto, uma abstração virtual representativa de outra abstração. 

Sendo o próprio dinheiro uma abstração meramente virtual, ainda que tornada real nas mercadorias sensíveis e serviços, o bitcoin é o suprassumo da abstração, ainda mais virtual, porque só existe eletronicamente (não há papel-moeda bitcoin).
"Uma abstração virtual representativa de outra abstração"

Passemos pois à análise, com lupa de aumento e sob o critério da isenção científica, da substância constitutiva e significado da moeda bitcoin. 

Qualquer moeda é (ou deveria ser) a representação do valor. Tanto a moeda que representa o valor como o próprio valor são, ambos, abstrações numéricas que representam (ou deveriam representar) trabalho objetivado, cristalizado nas mercadorias sensíveis ou serviços; estes, por se tratarem de uma forma de relação social aceita e que interfere materialmente na vida das pessoas, transformam-se em abstrações reais, materializadas.

As moedas e o valor são abstrações porque meramente numéricas e resultantes da contabilização mental que lhes emprestam uma forma específica de relação social; são reais porque terminam por se consubstanciar numa relação social materializada nas mercadorias e serviços que servem ao consumo humano concreto, independentemente do seu caráter abstrato. 

Nesse sentido o bitcoin nada mais é do que uma convenção de síntese de valor numérico contido em todas as moedas que são socialmente aceitas e que integram a sua cesta de valores, podendo facilitar as relações mercantis internacionais e nacionais reduzindo custos de operações na circulação. 

Trata-se de um serviço eletrônico (de risco), pura e simplesmente.
Anúncio de uma concessionária de veículos

É falacioso se dizer que a emissão de bitcoin tem vida própria como valor, independentemente da emissão de moedas pelos Bancos Centrais nacionais unificadas; afinal, não passa de um grande fundo de moedas nacionais e até mesmo do dólar estadunidense, a moeda internacional, como se tivesse o poder de emissão monetária. 

A emissão de bitcoin não tem nenhuma relação com emissão de dinheiro novo, mas é uma emissão de título de crédito extraoficial que, uma vez aceito, passa a circular no mercado, tal qual uma nota promissória ou outro título de crédito qualquer, ainda que tenha a aparência de moeda com poder de compra (passando, assim, a tê-lo efetivamente).  

O bitcoin está sujeito às intempéries próprias às emissões de moedas de cada país, que mais dia menos dia evidenciar-se-ão como títulos de créditos insolváveis. 

Em muitas comunidades são adotadas moedas que circulam em âmbito restrito, mas todas elas, tal como o bitcoin (que é muito mais abrangente, complexo e sigiloso), têm lastro em moedas oficiais. 

Como sabemos, já hoje as moedas nacionais são emitidas sem a correspondência na produção de mercadorias, posto que, na composição do PIB dos países, os setores primário (agronegócio) e secundário (industrial) da economia são únicos produtores de valores novos que autorizam a emissão de moeda devidamente lastreada, representando parcela bem menor nesse indicador do que o setor terciário (serviços), que não produz valor novo.
Dinheiro de fantasia conhecemos desde a meninice...

Não é nenhuma novidade a afirmação de que impera a emissão de moeda sem lastro no sistema produtor de mercadorias, causando inflação (mais dinheiro sem mercadorias produzidas), principalmente para os países periféricos do capitalismo, cujas moedas emitidas sem lastro não são acreditadas no mercado internacional. 

Há, contudo, uma diferença: a moeda bitcoin, ao invés de ser inflacionária como o são todas as outras que compõem a sua cesta monetária, é deflacionária, ou seja, ela se valoriza a cada dia, mas de modo artificial, não passando de um mecanismo de mercado sujeita às oscilações que lhe são próprias.  

Tal fenômeno, aparentemente mágico, decorre do simples fato de que, como sua aquisição é limitada ao volume de bitcoins programado para circulação, e sendo eles cada vez mais procurados, incide sobre tal moeda a chamada lei da oferta e da procura, que provoca a oscilação de aumento de suas capacidades de compra (aumento de preços, não de valor, que é coisa diferente), ensejando uma ilusão aos desavisados.        

A cada vez maior procura do bitcoin faz aumentar o seu preço relativamente às moedas que compõem a sua cesta de lastro monetário, numa evidência da artificialidade do processo, que deverá evidenciar-se inconsistente e causar mais uma fissura no já artificial sistema financeiro internacional quando as moedas que representa perderem a capacidade de compra.  

Como o bitcoin compõe-se, além das moedas fortes, também, com moedas fracas, ou seja, dos países periféricos do capitalismo, a perda de capacidade de compra dos bitcoins tende a ocorrer antes mesmo da queda das chamadas moedas fortes (o dólar estadunidense e o euro, p. ex.).

Mais dia, menos dia, bitcoins cairão na mira dos governos
VIRTUDES E RISCOS DA MOEDA VIRTUAL

A microeletrônica não produz estragos apenas na lógica do sistema produtor de mercadorias a partir da prescindência do trabalho abstrato, único produtor de valor válido e novo no universo da vida mercantil.

Há efeitos colaterais de grande significado que estão a demonstrar as contradições e irracionalidade do capitalismo desenvolvido como modo de mediação social dito moderno. Um deles é exatamente o surgimento da moeda bitcoin e sua magia ilusória e insubsistente.

Mas há benefícios por ela proporcionados que servem como chamarizes aparentemente convincentes para o seu uso, ainda que conspirem contra o próprio sistema no qual ela está inserida. 

É evidente que a vida social mercantil, a partir de um sistema virtual comandado por computadores e celulares computadorizados em conexão com a comunicação via satélite (internet), facilita-lhe a operacionalização, dada a sua agilidade. 

O comércio virtual de mercadorias, no que diz respeito à sua contratação (compra e venda), é um mercado abstrato por excelência, ainda que possa se materializar nas mercadorias e serviços, pois os valores de uso de ambos permanecem inalterados. 
Uso do bitcoin dificulta fiscalização da cobrança de impostos

A agilidade dos procedimentos mercantis num mundo em que time is money é outro fator contributivo para o uso dos serviços via moeda bitcoin.   

Tal forma de mercantilização se passa em boa parte fora do controle do Estado, que, assim, não pode fiscalizar a cobrança de impostos advindos dessas atividades. A sonegação de impostos, que tanto mal faz à estrutura estatal de sustentação da ordem capitalista, é um dos motivos do sucesso da moeda bitcoin, mas, paradoxalmente, é uma das ameaças a sua aceitação legal e tende a ser criminalizada como atividade marginal pelas razões que passamos a expor.

Além de propiciar a sonegação de tributos, a moeda bitcoin tem a possibilidade de proporcionar aos seus detentores o anonimato quanto à titularidade da propriedade, tal como as contas dos bancos suíços nos quais o depositante é identificado por um código secreto.

O setor mais gravemente atingido é o financeiro, na medida em que os bitcoins não circulam dentro das contas bancárias, e isto deverá acarretar um problema a mais para um sistema já combalido.

É evidente que os detentores de capitais advindos de atividades ilícitas (corrupção com o dinheiro público, tráfico de armas e entorpecentes, jogos de azar, etc.) têm na moeda bitcoin um porto seguro para a guarda dos seus valores. 
Geddel Vieira deveria é ter comprado bitcoins
Fico a imaginar o que faria o ex-ministro Geddel Vieira Lima com a possibilidade de comprar, incógnito, bitcoins com o dinheiro ilícito que possuía guardado em malas num apartamento.

Não vai tardar muito para que os Estados nacionais capitalistas regulamentem a emissão, aquisição e propriedade dos bitcoins, o que representará uma grave ameaça ao seu funcionamento e circulação. 

O sistema capitalista (economia real e o sistema financeiro) e suas instituições estatais fazem água por todos os lados e a moeda bitcoin é mais uma das muitas invencionices fadadas ao malogro: os pulos do gato propiciados pelas novas possibilidades eletrônicas não bastam para salvar do naufrágio um mundo mercantil em fase de dessubstancialização irreversível da própria forma-valor.
(por Dalton Rosado)

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

COMO UM GOVERNO ZUMBI SOBREVIVE A TODOS NÓS?!

O GOVERNO TEMER ACABOU?
Quando assumiu a Presidência da República em agosto de 2016, Michel Temer tinha dois objetivos: um explícito e outro inconfessável.

O primeiro era recuperar a economia, que estava em frangalhos após a péssima gestão de Dilma Rousseff. O segundo era estancar a sangria provocada pela Operação Lava Jato.

Na lógica torta da política brasileira, as duas metas caminhavam juntas. Só seria viável convencer deputados e senadores a aprovar as reformas que o país precisava se as investigações perdessem o ímpeto.

E só seria possível levar os empresários a fazerem vista grossa para as tentativas de barrar a Lava Jato se a economia estivesse se recuperando após milhares de empregos perdidos.

Pouco mais de um ano depois, Temer parece ter sido relativamente bem sucedido nas duas frentes. A crise política arrefeceu e a economia, finalmente, começou a melhorar.

Podem até surgir fatos novos nas delações de Lúcio Funaro, Antônio Palocci e, eventualmente, Geddel Vieira de Lima, mas é pouco provável que tragam revelações mais bombásticas que as dos irmãos Joesley e Wesley Batista.

Do lado da economia, a recessão chegou ao fim, graças aos expressivos cortes de juros e à queda da inflação. A recuperação tende a ser lenta, mas é melhor do que nada.

O governo está fazendo um esforço para reorganizar a base aliada e tentar aprovar novas reformas, principalmente a da Previdência, mas é pouco provável que consiga. Em suas projeções, os analistas econômicos já não contam mais com isso.

"Vai ser muito difícil aprovar qualquer tema impopular, porque as eleições já começaram", diz Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores, lembrando que faltam apenas seis semanas para o recesso de fim de ano.

Quando retornarem a Brasília em 2018, deputados e senadores só vão pensar na montagem das chapas eleitorais e em quem precisa deixar o cargo para concorrer. É pouquíssimo provável que se dediquem a temas espinhosos que desagradem os eleitores.

Até mesmo o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, não sabe se vai se aventurar nas urnas.

Talvez esse seja o sinal mais contundente de que, mesmo faltando 12 meses para as eleições, o governo Temer já acabou ou está muito próximo do fim.
(por Raquel Landim)

sábado, 9 de setembro de 2017

DALTON ROSADO ESTÁ INDIGNADO: "A QUE PONTO ENLAMEARAM A ESTRELA OUTRORA ESPERANÇOSA DO SOCIALISMO!"

A ÉTICA E A MORAL DA RIQUEZA ABSTRATA

"Quem com porcos se mistura,
farelo come" (provérbio lusitano)
Comportamento ético é aquele consentâneo com um código de postura estabelecido como válido para as ações por uma determinada convenção social (de comunidades, de grupos de pessoas, etc.); a moral, por seu turno, diz respeito ao princípio de comportamento que deve nortear as ações humanas no sentido do bem e da justiça comuns, independentemente de quaisquer convenções circunstanciais. 

A ética é código de comportamento em sentido estrito e a moral, em sentido lato. Assim, a ética estabelecida dentro de um determinado círculo social pode contrariar um senso de moral universalmente aceito. Todas as ações sociais ou individuais obedecem a um padrão ético qualquer, que pode eventualmente, como sói acontecer, contrariar o padrão moral ideal. 

A quebra o padrão ético é atitude antiética restrita aos que a ela se submetem; a quebra do padrão moral é abjeta para todos e em qualquer circunstância. Os ladrões, p. ex., têm um rígido padrão ético para a partilha do roubo e uma postura moralmente abjeta perante o conceito de honestidade.

O objetivo desta introdução foi fornecer parâmetro de aferição do que seja comportamento ético e comportamento moral em relação ao fenômeno social da acumulação da riqueza material e da riqueza abstrata (dinheiro e mercadorias) em contraponto com a pobreza sob um mesmo critério de mediação social, bem como para comportamentos dos gestores de dinheiro público. 

No capitalismo não é considerada uma atividade socialmente antiética ganhar dinheiro desenvolvendo uma atividade empresarial qualquer com o uso de capitais, mediante a extração de mais-valia dos empregados, objetivando o lucro e a acumulação da riqueza material e abstrata; afinal, trata-se do critério de mediação socialmente estabelecido e legalmente estatuído, embora a extração de mais-valia que enseja a acumulação da riqueza seja moralmente condenável. 

O trabalhador empregado numa atividade empresarial qualquer, ao vender a sua força de trabalho, também tem o objetivo de ganhar dinheiro sob a forma de salário. Ambos, patrão e empregado, agem sob a coerção de um modelo social pré-estabelecido como padrão e código de ética social: os primeiros como privilegiados detentores do capital (ainda que o patrão seja o Estado, como no socialismo real) e os segundos, como empobrecidos serviçais desse mesmo capital. 

Assim, o admitido pelo (equivocado) trabalhador e pelo (satisfeito) patrão como regra de comportamento é o padrão ético de relação social mediada pela forma-valor. 

A mediação social por meio da forma valor (dinheiro e mercadorias) obedece a um padrão moral socialmente negativo e execrável, razão pela qual é imposto de modo coercitivo: qualquer tentativa de estabelecer-se um modo de vida social fora do dito cujo será alvo de coibição pela lei e pelo Estado, mediante o uso da força. 

A acumulação da riqueza se dá necessariamente de modo segregacionista, ou seja, com a apropriação indébita pelo capitalista do valor que o trabalhador produz, posto que este último jamais pode receber um quantum de valor igual ao que gerou em sua jornada de trabalho .

Esse é o mecanismo pelo qual existe, e agora se intensifica graças ao uso da tecnologia aplicada à produção de mercadorias, a exploração social causadora da imensa desigualdade social mundo afora. 

A relação social sob a forma-valor, abominável em termos morais mas eticamente aceita:
  • é a aceitação sob coerção ou inconsciente consenso de uma ética anti-social que legitima a mediação social sob a forma-valor, mesmo que ela seja moralmente inaceitável; 
  • é a positivação dos conceitos de mediação social capitalista como padrão ético virtuoso, empanando a possibilidade de se considerá-lo moralmente inaceitável. 
O conceito de moral como ideal de justiça abomina o capitalismo, mesmo que o padrão ético de comportamento social estabelecido o avalize, até porque o consenso de sua aceitação deriva de uma legitimação obtida por coerção social, muito embora itso represente uma nulidade absoluta.

A corrupção com o dinheiro público visando à mesma acumulação patrimonial é moral e eticamente condenada. 

É que, no capitalismo, há roubo consentido e roubo criminalizado, como resultante de uma moral social abjeta e de um padrão ético equivocado e juridicamente imposto ou convencionado.   

Os benefícios da delação premiada aos corruptos são moralmente abomináveis e eticamente equivocados.

Quando se negocia com bandidos fatalmente se entra no mundo tenebroso da mentira, da insegurança, da traição, do ardil e outras mazelas humanas, quebrando-se o padrão moral de comportamento universalmente aceito como bom e correto.  

Vai daí que as pretensas vantagens sociais e judiciais decorrentes da premiação aos criminosos por delatarem seus comparsas terminam sempre por resvalarem para a vala comum do comportamento amoral e da ética delituosa. 

Quem se iguala aos criminosos nas suas práticas, perde a noção de humanidade e boa moralidade.

Quem premia a delação de criminosos, admite implicitamente a tortura e a morte de presos como prática de justiça, ainda que assim não queira se conduzir nem se dê conta de tal identidade. Trata-se do velho juízo de valor de que o fim justificaria os meios.

Defender a delação premiada é incorrer no mesmo raciocínio dos que, a exemplo de Jair Bolsonaro, defendem a pena de morte (felizmente banida do Brasil) como pena para determinados crimes. 

O caso de Joesley Batista, cuja delação mais parece o feitiço se voltando contra o feiticeiro, evidencia de forma emblemática aonde levam os caminhos tortuosos, amorais e eticamente equivocados da trilha do compadrio da justiça com a bandidagem. 

Além do mais demonstra à saciedade a incapacidade dos instrumentos institucionais (tribunais de contas, Justiça Eleitoral, comissões de licitações de obras e serviços públicos, contabilidade pública, etc.) para fiscalizarem e coibirem os desvios na gestão das verbas ditas públicas.

A lei que autoriza a delação premiada com a absolvição parcial e cômoda, antes de ser moralmente reprovável, é um mecanismo socialmente incompreensível, uma vez que ela absolve criminosos corruptos em larga escala para apenas prender alguns poucos. Se quisermos admitir algo de positivo na delação premiada, seria apenas a constatação de quão frágil e indigno é o padrão de solidariedade entre os criminosos e quão insustentável o padrão da ética estabelecida pelo crime. 

As máfias exigem juramento de fidelidade dos seus membros e quem quebra tal código de ética é punido com a morte. Na justiça, quem delata é premiado. 

Tais posturas são faces distintas de uma mesma moeda, literalmente, pois tudo se resume à intenção dos criminosos de quaisquer tipos de acumular riqueza abstrata (valor, dinheiro e mercadorias).

A DELAÇÃO DE ANTÔNIO PALOCCI – Tenho, pessoalmente, todas as razões do mundo para continuar até hoje magoado com o José Dirceu. Foi ele quem a direção nacional do PT incumbiu de ir até Fortaleza em 1988 para comunicar que, se o grupo da prefeita Maria Luíza insistisse na candidatura a prefeito de Dalton Rosado (eles sabiam que ganharíamos as eleições internas no Diretório Municipal), seus integrantes seriam todos expulsos. 

Insistimos e fomos expulsos. O comportamento de José Dirceu e a sua condenação no caso mensalão e petrolão são de fazerem corar de vergonha a estátua de Tiradentes. 

Mas uma coisa se deve reconhecer: num ato de dignidade solidária entre bandidos, José Dirceu se mantém calado (até aqui) com relação aos seus comparsas.  

Ver o médico Antônio Palocci, que ocupou os mais altos cargos da República, operar os seus comparsas de governo (que lhe conferiram poder político-institucional em compadrio político-financeiro) numa tentativa de livrar a própria pele sem que tenha sofrido um arranhão físico sequer, é de causar repulsa nauseabunda.

A que ponto enlamearam a outrora esperançosa estrela do socialismo, aqui e alhures"   
 
AS MALAS ABARROTADAS DE GEDDEL  – Como terá ficado a cara do Presidente Temerário ao ver pela televisão as malas com R$ 52 milhões apreendidas pela polícia em apartamento usado por Geddel Vieira Lima, até ontem ministro do seu governo e tido como homem de sua inteira confiança (tanto que, graças a ele, ocupou altos cargos na saqueada Caixa Econômica Federal)? Há que se ter muito verniz para lustrar a cara de pau da desfaçatez governamental. 

Isso tudo nada mais é do que a República nua e crua. Tida como paradigma de comportamento a ser buscado e incensada por seus hipócritas áulicos como um benéfico (acredite quem quiser...) arcabouço jurídico-constitucional da ordem social capitalista, agora sua máscara caiu e são bem poucos os que ainda engolem o papo furado de que o mar de lama se constituiria num desvirtuamento dos pretensamente isonômicos princípios republicanos. 

Estava certo William Shakespeare, ao assim definir a moeda corrente de então (1623) na peça Timão de Atenas: 
"Ouro amarelo, fulgurante, ouro precioso! (...) / Arrasta os sacerdotes e os servos para longe do seu altar, arranca o travesseiro onde repousa a cabeça dos íntegros. Esse escravo dourado ata e desata vínculos sagrados; / abençoa o amaldiçoado; / torna adorável a lepra repugnante; / nomeia ladrões e confere-lhes títulos, genuflexões e a aprovação na bancada dos senadores. / (...) mineral execrável, prostituta vil da humanidade".
(por Dalton Rosado) 
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