Mostrando postagens com marcador São Francisco. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador São Francisco. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

DILMA SAI DO ALVORADA PARA ENTRAR NA REALIDADE PARALELA

Não sou vaidoso, prefiro o barbeiro a 50 metros da minha casa do que qualquer cabeleireiro masculino chique, que me faria perder tempo no trajeto e cobraria os olhos da cara.

E foi ele, o Adriano, quem me garantiu: "O olhar da Dilma é de quem tem problemas mentais". Desfiou uma série de episódios noticiados que comprovariam sua tese.

Já o Rui Martins, velho guerreiro do jornalismo, a vê como uma pessoa que paira numa realidade paralela e ignora olimpicamente tudo que contrarie suas convicções. Teve o azar de qualificar tal estado de autismo, tal qual outros comentaristas políticos já haviam feito, mas sobre ele desabou uma tempestade de e-mails indignados, como consequência da ação concertada de um desses grupos de pressão que pululam na internet. 

O paralelo foi mesmo infeliz, mas o coitado do Rui não merecia ser tratado com tamanha fúria, como se uma palavrinha mal colocada anulasse toda sua história de vida de defensor dos direitos humanos!

Como isto não está na esfera dos meus conhecimentos, não darei palpite nenhum sobre o que levou a Dilma se tornar tão ensimesmada e incapaz de levar em consideração o que lhe contraponham. Só direi que tal comportamento me causa espanto.

Um exemplo: a Advocacia Geral da União move uma encarniçada perseguição jurídica contra mim, evitando pagar-me o que milhares de anistiados já receberam. Já perdeu três julgamentos no STJ por unanimidade (8x0, 7x0 e 8x0) e continua recorrendo a um verdadeiro arsenal de medidas protelatórias para retardar indefinidamente o único desfecho possível do caso. Comete, portanto, um aberrante abuso de poder.
Amigos mandaram mensagem à Dilma e, para não desmerecer suas iniciativas, mandei também, embora cético. A resposta foi sempre a mesma: como presidente da República, ela não poderia interferir num assunto de competência do Judiciário.

Evidentemente, esclarecemos que na esfera do Judiciário a questão ficara decidida quando do julgamento do mérito da questão em fevereiro de 2011, só continuando pendente graças à guerrilha jurídica da AGU, que é vinculada ao Executivo e não ao Judiciário. E o que recebemos da Dilma foi a repetição, com outras palavras, da mensagem anterior; ou seja, ela simplesmente ignorou nossa contestação!

O pior é que a Dilma age assim também em assuntos amplamente noticiados, não apenas no que diz respeito aos direitos de antigos companheiros de ideais, violentados na surdina. 

Acaba de afirmar, p. ex., que o processo de impeachment não foi aberto em função da voz das ruas. Ora, se ela estava com um índice de aprovação reduzido a irrisórios 10% e os defensores do impedimento ganhavam de goleada todas as batalhas nas ruas (promoviam as maiores manifestações, realizavam protestos num número superior de municípios e mobilizavam mais pessoas no cômputo geral), qual seria, afinal, a voz das ruas?

Mas, Dilma continua sustentando até hoje que o processo só foi aberto porque o grande vilão Eduardo Cunha quis chantagear o governo, não sendo atendido. Ora, quem acompanhou passo a passo os acontecimentos, atentamente e sem antolhos ideológicos, percebeu que Cunha, pelo contrário, retardou a abertura do processo, enquanto barganhava com os dois lados. 

Havia dezenas de pedidos, evidentemente a situação brasileira era tão grave que justificava tal questionamento da forma como Dilma governava o país. O papel do presidente da Câmara Federal, portanto, era o de submeter a questão, consecutivamente, à assessoria jurídica, a uma comissão especial e ao plenário, ao invés de se comportar como um novo arquivador geral da Nação. Quando enfim o fez, todas estas barreiras foram facilmente transpostas.

É simplesmente patético que, só conseguindo o apoio de 137 deputados, contra 367 favoráveis ao impedimento (eram necessários 342), Dilma e os dilmistas continuem até agora inculpando Eduardo Cunha! 

Dois terços dos deputados e outro tanto de senadores estão mandando Dilma para casa, depois de quase nove meses de trâmites parlamentares e recursos ao Supremo Tribunal Federal, com o último julgamento sendo conduzido pelo presidente do STF, num país em que ninguém foi preso, ninguém foi torturado, ninguém foi assassinado, nenhum texto jornalístico foi censurado, nenhum parlamentar foi cassado e o mais amplo direito de defesa foi assegurado. Lá isto se parece com um golpe?

Certamente não com os do século passado, quase sempre com tanques na rua e marcados por banhos de sangue. E nem mesmo com o episódio que os dilmistas alegaram ser semelhante, a destituição do presidente paraguaio Fernando Lugo, que começou e terminou em apenas dois dias!

E o que dizer dos elogios em boca própria ao Projeto de Transposição do Rio São Francisco, aquela maracutaia orçada em R$ 4,6 bilhões, que já consumiu R$ 12,2 bilhões e vai exigir, pelo menos, outros R$ 10 bilhões, sem resultados para apresentar após 10 anos e que já recebeu o apelido de bolsa-empresário?! Alguém esqueceu de avisar a Dilma que a transposição é o maior elefante branco dos governos petistas?

Por último: de tudo que Dilma e os dilmistas vêm falando desde 2 de dezembro de 2015, quando o impeachment começou, faltou, simplesmente... o fundamental!

Pois o motivo real do impeachment, todos sabemos, é a terrível recessão a que Dilma conduziu o país e o fato de que passara 16 meses do seu segundo mandato sem conseguir governar e sem saber o que fazer, numa paralisia governamental inacreditável, enquanto o povo sofria e o abismo se aprofundava. 
O que ela precisaria fazer para alterar o ânimo nacional favorável ao impedimento? Convencer a opinião pública de que já tinha uma saída para a crise e seria capaz de dar a volta por cima.

Foi o que ela não fez em nenhum momento, talvez porque não vislumbrasse mesmo saída nenhuma.

Então, por que fazia tanta questão de continuar no poder? Para prolongar nossa agonia? Porque seu ego se ressentia?

Não lamento sua desdita, pois ela em nenhum momento teve a humildade de admitir seus erros e colocar o drama dos coitadezas acima de seus melindres pessoais. Choro é pelos desempregados e suas famílias, que não têm onde cair mortos e, desesperados, nem sequer receberam um alento da esquerda palaciana, pois sua própria existência equivalia a uma muda acusação à Dilma e atrapalhava os esforços para lhe salvarem o pescoço.

Foi para defender a causa dos explorados e proteger os indefesos que aderi à esquerda no longínquo ano de 1967, aos 16 anos. Eu não mudei. Lamento que tantos outros tenham mudado. A revolução é uma grande devoradora de caracteres.

domingo, 17 de julho de 2016

PARA EMPRESÁRIOS E BANQUEIROS, AS DOAÇÕES DO BNDES; PARA O AGRONEGÓCIO, A MARACUTAIA DA TRANSPOSIÇÃO...

Um dos aspectos mais chocantes do período em que o Partido dos Trabalhadores impôs sua hegemonia sobre a esquerda brasileira foi a passividade com a qual esta aceitou o entrelaçamento de interesses com os mais predatórios segmentos da burguesia e com os mais repulsivos inimigos da liberdade. 

Práticas que, quando adotadas pelos adversários de direita, eram denunciadas como emblemáticas de sua condição de inimigos do povo, passaram a ser copiadas descaradamente pelos mandatários do PT e toleradas pela companheirada como um preço a ser pago pela governabilidade.

Duas delas foram esmiuçadas pelos jornalões paulistas neste final de semana. O Estado de S. Paulo, em editorial do sábado (16), constatou que vultosos recursos públicos foram generosamente doados pelos governos petistas não apenas para os companheiros empresários, mas também para os camaradas banqueiros:
"Sabia-se que as centenas de bilhões de reais que, entre 2009 e 2015, o Tesouro repassou ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiar investimentos não estimularam o crescimento, mas beneficiaram muitas empresas escolhidas pelo governo do PT, daí o programa ter sido chamado de bolsa-empresário, uma ajuda financeira do poder público para grupos empresariais preferidos do Palácio do Planalto. 
O que pesquisas recentes demonstram é que não foram apenas as empresas selecionadas pela administração petista que ganharam com esse imenso desperdício de dinheiro público. Mesmo dispondo de condições bastante favoráveis para administrar os recursos do Tesouro (que assumiu os subsídios implícitos nas operações), o BNDES ficou com uma parcela reduzida dos resultados desses financiamentos. Os bancos comerciais que realizaram as operações em seu nome se apropriaram de mais de 80% dos rendimentos. O programa transformou-se, também, numa espécie de bolsa-banqueiro.  
...o Tesouro emitiu títulos de dívida pública para transferir R$ 520 bilhões ao BNDES. Esses recursos deveriam ser utilizados no financiamento de máquinas e equipamentos, de modo a estimular a produção e, assim, reativar a economia. O PSI [Programa de Sustentação do Investimento] deveria durar um ano, mas foi sendo renovado seguidamente até o fim do ano passado, quando o governo petista resolveu enterrá-lo.
Foi de grande valia para um grupo de empresas, mas, apesar de sua longa duração, de sete anos, e, sobretudo, do montante que envolveu, não teve resultados expressivos para o País. A economia não se recuperou e, desde meados de 2014, está em recessão...
...Levantamento feito pelo economista José Roberto Afonso, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, mostra que os bancos comerciais (...) se apropriaram de mais de R$ 8 bilhões dos R$ 10 bilhões de spreads que as operações geraram. O BNDES, assim, ficou com menos de R$ 2 bilhões".
E, na Folha de S. Paulo dominical, ficamos sabendo que o malfadado projeto de transposição do rio São Francisco, uma descarada maracutaia em benefício do progressista agronegócio, continua detonando orçamentos e prazos:
"Sérias dúvidas sobre a capacidade do rio São Francisco de gerar água suficiente para a bilionária obra da transposição fizeram o governo lançar um novo programa de revitalização do rio.
Batizado de Novo Chico, (...) o programa visa terminar obras de saneamento nas cidades na bacia do rio, desassorear o leito e recuperar mananciais, entre outras intervenções. Estão acertados gastos de, no mínimo, R$ 10 bilhões até 2026. 
Mas o valor vai aumentar porque o governo ainda trabalha no orçamento de algumas intervenções, como dragagem, e também pedirá aos Estados da região que invistam mais recursos no projeto...
...quase dez anos depois [do lançamento do programa], o governo já gastou R$ 10 bilhões na obra dos canais e R$ 2,2 bilhões na revitalização, e nenhuma delas está pronta. Além disso, em ambas há suspeitas de desvio de recursos, corrupção e ineficiência. A construção dos canais é alvo da Lava Jato".
Admito, humildemente, que passei batido pela bolsa-empresário e pela bolsa-banqueiro no momento em que deveriam ter sido contundentemente denunciadas e combatidas. Mea maxima culpa.

Mas, quanto à bolsa-agronegócio, esta foi objeto de uma infinidade de artigos, principalmente durante a greve de fome do bispo Flávio Cappio, com a qual me solidarizei. Em dezembro de 2007, cobrei incisivamente uma postura mais digna e combativa por parte da esquerda:
"Passamos a vida recriminando a sordidez da política oficial e as negociatas que colocam recursos públicos a serviço de interesses privados. Como procedemos, no entanto, quando um bispo sexagenário ousa confrontar os abutres que saqueiam uma das regiões mais miseráveis do País e arrisca a vida em defesa do seu rebanho? O que estamos fazendo para apoiar esse altaneiro desafio às práticas viciadas e viciosas de nossa democracia? Pouco, quase nada".
E, em carta aberta a Lula, botei o dedo na ferida:
"A relutância extrema do seu governo em discutir a interligação das águas do rio São Francisco é evidência gritante de que tal projeto não sobreviveria a um debate franco. E reforça as suspeitas de que haja interesses escusos envolvidos. 
Cidadãos de reconhecida competência e credibilidade apontam falhas de todo tipo: concepção equivocada, relação custo/benefício muitíssimo pior que a de projetos alternativos, danos ecológicos que podem se tornar catastróficos. Por que tanta insistência, a ponto de tocar a obra com soldados, evocando os tempos sinistros da ditadura militar?"
Hoje salta aos olhos que os opositores do faraônico projeto sempre estiveram certos. E que as suspeitas por eles levantadas tinham tudo a ver, pois tal elefante branco, inicialmente orçado em R$ 4,6 bilhões, já consumiu R$ 12,2 bilhões e agora somos informados de que vai exigir, pelo menos, outros R$ 10 bilhões. Ou seja, o estouro se encaminha para a casa de 400% e nada nos garante que ficará por aí...

Esta fase do amoralismo petista no poder será lembrada pela verdadeira esquerda como motivo de terrível vergonha e como anos totalmente perdidos para a revolução brasileira.
.
Antônio Conselheiro não viu realizada sua profecia de 
que o sertão viraria mar, destacada na obra-prima de 
Glauber Rocha (clique acima e assista-a na íntegra). 
Lula também dificilmente a verá... 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

EU E DILMA: UM CASO DE DESAMOR À PRIMEIRA VISTA (2ª parte)

Saudei a vitória da Dilma, abrindo-lhe um crédito de confiança. Manifestei a esperança de que, na Presidência, ela continuasse sendo a militante de outrora, que "como Chaplin, queria chutar o traseiro dos ociosos" e "como Marx, pretendia proporcionar a cada trabalhador o necessário para sua realização plena como ser humano".

Mantive-me, contudo, cautelosamente reticente, pois ela me inspirava mais dúvidas do que certezas:
"Dilma (...) terá de provar que é algo mais do que uma estátua de esculpida com tamanha perfeição pelo artista Michelangelo da Silva que acabou ocupando o melhor pedestal no panteão do Planalto. 
...O lulismo no poder já provou sua competência no gerenciamento do estado em conformidade com os interesses dominantes, mas garantindo uma fatia um pouco maior do bolo para aqueles que produzem todas as fatias. 
A dívida social, entretanto, está muito longe de ser zerada, como o foi o débito com o FMI. 
Torço para que a Dilma saiba aproveitar seu grande momento..."
E, aliviado, voltei a me distanciar da política oficial, pois a linha que definira para minha atuação na web era a de ignorar as escaramuças e pendengas da Corte, defendendo apenas os personagens e valores revolucionários.

P. ex., projetos governamentais e as críticas que opositores lhes faziam não estavam na minha mira, mas o da transposição do rio São Francisco passou a estar quando o bispo Luís Flávio Cappio contra ela utilizou um recurso frequente nas lutas revolucionárias, o da greve de fome. Fiquei indignado com a decisão do Lula, de pagar para ver, tão insensível como qualquer Margaret Thatcher, ajudando a esvaziar uma forma extrema de protesto a que já recorremos muitas vezes no passado e poderemos ter de voltar a recorrer.

Então, até hoje sou implacável com essa maracutaia do agronegócio, sempre destacando as notícias negativas que pipocam: não cumprimento de metas, estouros do orçamento, evidências de inutilidade ou insuficiência de algumas iniciativas do programa e, claro, corrupção. Tudo aquilo que D. Cappio tentou evitar.

Mas, é uma exceção. Como regra, considero que os governos, sob o capitalismo, jamais levarão os explorados aonde eles precisam chegar, daí não merecerem a atenção obsessiva que a grande imprensa e a esquerda chapa branca lhes dedica. Fixo-me nas perspectivas de transformação da sociedade, não no dia a dia do gerenciamento da dominação burguesa.

Então, mesmo percebendo que Dilma se tornara uma pessoa bem diferente daquela que conhecera, evitei comentar sua atuação presidencial, salvo no que esta se chocasse frontalmente com o ideário da esquerda.

Em 1969, ela seguia fielmente a linha da VAR-Palmares, que acreditava ser imprescindível algum enraizamento nas massas para a organização não se tornar apenas um exército combatendo outro.

Já para nós, os egressos e depois refundadores da VPR, bastava estarmos imbuídos da ideologia do proletariado, sendo dispensável o contato orgânico com  o mesmo, que nos acarretaria riscos terríveis de segurança. O perfil de nosso pessoal seria mais apropriado para o cumprimento das tarefas militares da revolução, propaganda armada inclusive, deixando para outros grupos os laços com a população. 

Paradoxalmente, aquela que em 1969 nos acusava de vanguardistas não mais procurava, quatro décadas depois, estar junto das massas e interagir com elas.

Integrando governos desde 1986, adquirira os jeitos e trejeitos dos tecnoburocratas, passando a se ver como a mulher sapiens a quem competiria detectar o que fosse melhor para o povo e, gerindo pedaços do Estado, impulsionar as transformações que via como necessárias, independentemente de as massas compreenderem tais intentos e com eles concordarem. 

Para ela, implicitamente, os humildes explorados deixaram de ser os sujeitos da História, tornando-se apenas os beneficiários da ação estatal. Sua nova postura era um amálgama do velho nacional-desenvolvimentismo na economia com um bolivarismo light na política (uma tendência a avassalar outros Poderes e entes estatais, mas de forma gradual e sutil, sem incorrer num autoritarismo chocante).

Não deixo de compreender o que levou Dilma e muitos outros esquerdistas a abdicarem dos projetos de transformação em profundidade da nossa sociedade, contentando-se com mudanças bem mais tímidas. O desencanto da terrível derrota da geração que pegou em armas contra a ditadura os fez procurar atalhos para obterem, pelo menos, alguns resultados.

Se tivessem lido com mais atenção Marx, Rosa Luxemburgo e outros clássicos, saberiam que o reformismo convém muito mais à burguesia do que aos explorados; e que a mera infiltração no Estado não equivale a uma revolução, pois aquilo que o povo verdadeiramente não conquista, dificilmente conseguirá manter depois.

Até porque acaba não reconhecendo como seu o governo de seus presumidos benfeitores, muitas vezes interessados mais em se perpetuarem indefinidamente no poder do que em fazerem avançar o processo revolucionário.

Não me dispus, contudo, a fazer críticas mais contundentes ao primeiro governo da Dilma, pois sabia que, com tais premissas, ela não iria longe --ou seja, dificilmente conseguiria consolidar o reformismo e fechar, por longo período, as portas à revolução. Sua esperança de fazer deslanchar a economia brasileira a partir da ação estatal era um anacronismo, o pré-sal o sonho de uma noite de verão. Isso tudo jamais daria certo.

E, claro, a fetichização dos governos por parte da esquerda (além da gana de parte dela pelas boquinhas) ainda é tão forte que, sensatamente, avaliei como contraproducente abrir o jogo: eu ficaria isolado.

Algo que para mim é questão de princípio me fez, no entanto, deixar de lado o cálculo político e assumir uma postura mais incisiva com relação ao Governo Dilma: a criação de uma Comissão da Verdade como contraponto propagandístico a algo muitíssimo mais sério, a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre a guerrilha do Araguaia, responsabilizando o Brasil pelo extermínio de 70 militantes (em sua grande maioria, capturados com vida) e exigindo apuração rigorosa dos massacres, localização dos restos mortais e punição dos carrascos. (continua)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A "TRANSPOSIÇÃO" ATINGIU SUA META: AS VERBAS FORAM TRANSPOSTAS PARA AS CONTAS BANCÁRIAS DE PILANTRAS.

Lá se vão mais de seis anos desde que este blogue passou a tratar a transposição do rio São Francisco como uma maracutaia, alinhando-se com as denúncias do bispo Flávio Cappio --que fez duas greves de fome contra o malfadado projeto-- e da Comissão Pastoral da Terra.

Vale dizer que já então o Tribunal de Contas da União apontava "indícios de corrupção" nas obras. E a Pastoral questionava o custo astronômico da transposição em comparação com outras soluções menos espalhafatosas e provavelmente mais eficazes, além do seu impacto ambiental preocupante ao extremo.

Então, a única novidade da notícia que o site da Folha de S. Paulo colocou no ar nesta manhã foi a eternidade que demorou para qualquer Operação Lava-Jato da vida ir atrás de roubalheira tão manjada:
"A Polícia Federal deflagrou nesta 6ª feira uma operação para investigar superfaturamento em obras da transposição do rio São Francisco. Os desvios teriam ocorrido em 2 dos 14 lotes da transposição.
De acordo com os investigadores, empresários de um consórcio responsável pelas obras com superfaturamento utilizaram empresas de fachada para desviar cerca de R$ 200 milhões no trecho que vai do agreste pernambucano até a Paraíba. Os contratos investigados, até o momento, são de R$ 680 milhões".

sexta-feira, 8 de junho de 2012

DE HORA EM HORA A MARACUTAIA DA TRANSPOSIÇÃO PIORA

Em 2007 eu lancei o artigo Lula vai mirar-se em Cristo ou Pilatos?, exortando nosso então presidente da República a refletir melhor sobre o projeto de transposição do rio São Francisco e a greve de fome de D. Luiz Flávio Cappio.

Mas, o bispo abandonou o jejum precipitadamente e o Governo Federal ganhou a aposta que fazia contra a vida dele, ficando com as mãos livres para tocar adiante a transposição dos recursos públicos para os bolsos de grandes capitalistas, de forma a que se confirmassem as piores previsões e advertências dos críticos do projeto.

Passados quatro anos e meio, o custo total saltou dos orçados R$ 4,7 bilhões para 8,2 bilhões, o que já representa um acréscimo de 74,5%. Pior: o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, em recente audiência na Câmara Federal, reconheceu que não sabe quanto mais será necessário para o término das obras, pois apenas 36% dos projetos ligados à transposição foram concluídos.

Quanto ao prazo de entrega, a melhor das hipóteses agora é 2015.

Ou seja, a verdadeira dúvida é quanto à denominação mais apropriada para tal mostrengo: maracutaia da transposição  ou  elefante branco do São Francisco?

Só para reavivar a memória dos leitores, reproduzo alguns trechos daquele primeiro (da dezena de) artigo(s) que escrevi sobre o assunto:
"...[D. Cappio] que já ficara 11 dias sem alimentar-se em 2005, sustenta que 'essa água não é para 12 milhões de pessoas, é para pequenos grupos do capital', acusando o Governo Federal de difundir 'propaganda falsa' e Lula, de desrespeitar o acordo que pôs fim à greve de fome anterior.

...Segundo os opositores, a transposição vai ter impacto extremamente negativo sobre o rio São Francisco (que já está fragilizado e necessitando de urgente revitalização) ao levar suas águas para os grandes açudes do Nordeste, com a principal finalidade de favorecer empreendimentos privados.
Alegam que, pela metade do custo, poderiam ser implementados projetos como o da Agência Nacional de Águas, para beneficiar os 32 milhões de habitantes de mais de mil municípios; e as obras da Articulação do Semi-árido Brasileiro, voltadas para outros 10 milhões.
Então, tanto em termos ambientais quanto econômicos, seria uma péssima destinação dos recursos públicos. 'O governo se tornou a voz de um pequeno grupo da elite e, infelizmente, o presidente Lula se tornou refém do capital internacional', afirma dom Cappio..."

sábado, 10 de março de 2012

MARACUTAIA DA TRANSPOSIÇÃO JÁ ESTOUROU O ORÇAMENTO EM 78%

"...o custo da obra de transposição do rio São Francisco teve mais um aumento bilionário.

O projeto, que inicialmente era orçado em R$ 4,6 bilhões, agora custa 77,8% mais caro: R$ 8,18 bilhões, de acordo com o relatório do Ministério do Planejamento. Diante da estimativa anterior de R$ 6,85 bilhões, feita em 2011, o reajuste é de 19,4%.

Desde 2007, quando as obras começaram, o preço da transposição foi alterado uma vez durante o governo Lula e duas durante a gestão de Dilma Rousseff..." (notícia deste sábado, 10, da Folha de S. Paulo)

"O risco final é que, atravessando acidentes geográficos consideráveis, como a elevação da escarpa sul da Chapada do Araripe -- com grande gasto de energia! --, a transposição acabe por significar apenas um canal tímido de água, de duvidosa validade econômica e interesse social, de grande custo, e que acabaria, sobretudo, por movimentar o mercado especulativo, da terra e da política" (geógrafo Aziz Ab'Sáber, em abril de 2011)

"Essa água não é para 12 milhões de pessoas, é para pequenos grupos do capital... O governo se tornou a voz de um pequeno grupo da elite e, infelizmente, o presidente Lula se tornou refém do capital internacional" (D. Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra (BA), em 2007)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

TRANSPOSIÇÃO: A USURA CEGA NORTEOU A ESCOLHA DE PROJETO

Meu companheiro e amigo há quase quatro décadas, o baiano Franklin Machado foi uma das figuras mais fascinantes que conheci na Cacimba --grupo de resistência cultural da São Paulo dos anos 70, que lançava publicações alternativas, realizava pequenos eventos (de  saraus de protesto  até uma inusitada participação mambembe na opulenta Bienal) e, principalmente, ajudava humanos a sobreviverem à desumanidade, fisica e espiritualmente.

Éramos umas poucas dezenas de estranhos na terra estranha do Brasil do milagre. E, dentre todos, o Franklin se destacava como o mais  jovial e falastrão, o nosso showman.

Advogado, jornalista e poeta, repentinamente resolveu abrir mão das outras carreiras e atividades, passando a dedicar-se exclusivamente à literatura de cordel, com o nome de Maxado Nordestino. 

Criava também as xilogravuras. Produziu-se à caráter, com visual exótico, incluindo gravatinha borboleta. Comprou uma velha kombi e saiu vendendo seus folhetos por toda Sampa. Era atração permanente da feira de artesãos da Praça da República.

Seus muitos amigos na imprensa não perdiam oportunidade para encaixá-lo nas reportagens sobre a cidade e seus personagens marcantes.

Não sei dizer se era bom ou mau cordeleiro. Eu tinha como único referencial nesta área um clássico absoluto, A chegada de Lampião no inferno. Seria injusto exigir dele algo equivalente.

Depois de mais de 200 cordéis lançados em meia-dúzia de anos, deu outra guinada: voltou à Feira de Santana natal, onde continuou atuando como agitador cultural e foi até secretário da Cultura. 

Hoje é reconhecido como um dos nossos principais pesquisadores e autores de cordel. Um dos seus blogues é este aqui.

O Franklin acaba de me mandar um artigo que escreveu no final de 2007 sobre as obras do rio São Francisco, como complemento ao meu É "maracutaia da transposição" ou "elefante branco do São Francisco"?.

Eis os trechos mais interessantes, sobre uma das opções mais sensatas que o Governo Federal desconsiderou, preferindo a mais onerosa e ecologicamente nociva:
"Um braço do Rio Tocantins pode ser desviado para o São Francisco e, assim, fornecer a quantidade de água que o atual projeto de transposição precisa para abastecer o norte do Nordeste.
Esse projeto de desvio do Tocantins é do engenheiro baiano Sylvio Geyger, após pesquisas de mais de dez anos.
 ...conclui ser possível a revitalização do Rio São Francisco recebendo um braço do rio Tocantins pelo rio Grande que sai exatamente na cidade da Barra para encontrar o São Francisco.
O rio Tocantins deságua na Baía de Guajará, em Belém, sendo por muitos considerado um rio autônomo e não um afluente do rio Amazonas. O Estado do Pará, com tantos rios não precisa muito das águas do Tocantins e o estado do Tocantins ainda não tem tanta necessidade delas no momento.

Assim, com este reforço e mais o reflorestamento e revitalização das margens do São Francisco, poderiam tornar viável a transposição para atender os irmãos nordestinos do norte, não só para abastecimento como para a irrigação e implantação de indústrias.

Sim, porque somente 4% serão para o abastecimento, pois 24% serão para irrigação das terras semi-áridas do sul do Ceará e do oeste de Pernambuco a fim de produzir uvas, vinhos, soja, pecuária e frutas tropicais destinadas à exportação basicamente. O  restante 72% serão para  indústrias a serem instaladas  decorrentes dum pólo industrial planejado no pobre Estado do Ceará com o projeto de uma siderúrgica.
 Atualmente o Lago de Sobradinho está somente com l5% de sua capacidade  e de onde serão retirados os metros cúbicos para o eixo norte. 
As autoridades (...) querem tocar as obras de qualquer maneira e custo, uma vez que Lula está caminhando para final de mandato e o dinheiro é bastante para a ganância de muitos.

Naturalmente, o projeto divide os nordestinos quando o São Francisco é considerado o  rio da unidade nacional, pois acham que os do sul, como os estados de Minas, Bahia,  Sergipe e Alagoas não precisam desta água.

A usura cega e parece que insensatos estão governando e que o descaso para com a opinião publica  prevalece, como já alertou o presidente  do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas e professor da UFMG, Apolo Heringer Lisboa:

'Essa obra não começa. Se começar, não vai adiante. Se for adiante, vai fracassar'".
Palavras proféticas: vem fracassando e estoura cada vez o orçamento, daí já estar sendo chamada de  elefante branco.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

É "MARACUTAIA DA TRANSPOSIÇÃO" OU "ELEFANTE BRANCO DO SÃO FRANCISCO"?

Notícia desta 5ª feira (29) do jornal O Estado de S. Paulo:
"Para tentar terminar as obras da transposição do Rio São Francisco em mais quatro anos, o governo Dilma Rousseff recorrerá a uma nova licitação bilionária de obras já entregues à iniciativa privada. O custo estimado do negócio é de R$ 1,2 bilhão, informou ao Estado o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, responsável pela obra mais cara do Programa de Aceleração do Crescimento bancada com dinheiro dos impostos.

A obra começou em 2007 como um dos grandes projetos do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A transposição desviará parte das águas do São Francisco por meio de mais de 600 quilômetros de canais de concreto para quatro Estados: Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco.

Depois de R$ 2,8 bilhões gastos, a transposição registra atualmente obras paralisadas, em ritmo lento e até trechos onde os canais terão de ser refeitos, como é o caso de 214 metros em que as placas de concreto se soltaram por entupimento num bueiro de drenagem.

O custo inicial da transposição, estimado em R$ 5 bilhões, já saltou para R$ 6,9 bilhões, calcula Fernando Bezerra, incluindo a nova licitação...

Relicitar parte dos trechos entregues a grupos de empreiteiras foi a forma que a equipe de Bezerra encontrou para concluir as obras e evitar que a transposição do São Francisco se transforme em um  elefante branco".
Há exatos quatro anos, depois da segunda greve de fome do bispo Luiz Flávio Cappio contra este projeto faraônico e suspeitíssimo, eu já escrevia:
"Salta aos olhos que a interligação não é a opção ideal para saciar a sede dos nordestinos, nem a de melhor relação custo/benefício e muito menos a recomendável em termos ecológicos, devendo os motivos de sua adoção ser buscado alhures.

Ou seja, ficaram fortíssimas as suspeitas de que novamente os interesses privados estão sendo priorizados na destinação de recursos públicos. É a chamada  crônica da CPI anunciada".
A única dúvida é quanto à melhor denominação para o empreendimento.

Antes, só se falava em  maracutaia da transposição.

Agora surge uma alternativa:  elefante branco do São Francisco.

De resto, qualquer jogador perspicaz apostaria todas as suas fichas em que, mais dia, menos dia, uma CPI das mais  cabeludas  será o desfecho da opereta.

Quem viver, verá.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

MARACUTAIA DA TRANSPOSIÇÃO: JÁ ESTOURARAM O ORÇAMENTO EM 36%

Há quatro meses, o geógrafo, professor e escritor Aziz Ab´Sáber alertou:
"A afoiteza com que se está pressionando o governo a conceder grandes verbas para início das obras de transposição das águas do São Francisco terá conseqüências imediatas para os especuladores de todos os naipes.

O risco final é que, atravessando acidentes geográficos consideráveis, como a elevação da escarpa sul da Chapada do Araripe -- com grande gasto de energia! --, a transposição acabe por significar apenas um canal tímido de água, de duvidosa validade econômica e interesse social, de grande custo, e que acabaria, sobretudo, por movimentar o mercado especulativo, da terra e da política".
O "grande custo" (além de um enorme atraso na entrega da obra) evidencia-se nesta notícia de ontem da Folha.com:
"O Ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, anunciou nesta terça-feira que as obras de transposição do rio São Francisco vão ficar mais caras e a água só vai começar a chegar aos nordestinos a partir de 2014.
 Segundo ele, a previsão inicial atualizada do custo do projeto era de R$ 5 bilhões, mas o valor foi aumentado para R$ 6,8 bilhões.
...a conclusão real dos trabalhos ficará para 2014 e 2015 nos dois eixos da obra, segundo Bezerra.
A previsão inicial do governo era que as obras chegassem ao fim em 2010 e 2012".
Resumo da opereta: o empreendimento faraônico não cumprirá suas alegadas finalidades e desrespeitou em muito o cronograma e o orçamento -- cujo estouro, por enquanto, é de 36%, mas ainda crescerá, com certeza! Afora a existência de  fortes suspeitas (para não dizer  absoluta certeza) de corrupção...
Ou seja, tudo transcorre exatamente como antecipou o bispo Luiz Flávio Cappio, quando de sua segunda greve de fome contra a  maracutaia da transposição, em dezembro de 2007

“Essa água não é para 12 milhões de pessoas, é para pequenos grupos do capital”, resumia ele.

Sábias palavras.

domingo, 25 de outubro de 2009

D. TOMÁS BALDUÍNO PEDE O FIM DOS "PROJETOS FARAÔNICOS DEVASTADORES"

Longe de mim a pretensão de expertise em todos os assuntos. Conheço meus limites.

Mas, o acompanhamento atento da política há quatro décadas e meia, além do exercício do jornalismo profissional durante 34 anos, aguçaram meu faro. Sei distinguir bem o aroma de perfume do fedor da carniça.

Então, desde o primeiro momento, senti que a razão estava do lado de D. Flavio Cappio, na polêmica da transposição das águas do rio São Francisco.

Talvez por conhecer muito bem os megaprojetos e os interesses neles embutidos: trabalhando na Imprensa do Palácio dos Bandeirantes, constatei que a política oficial é pior ainda do que supõe nossa vã filosofia.

Ademais, há valores sagrados para mim, como o de somar forças com todo idealista que faça greve de fome em nome de uma causa justa (ou do que lhe pareça ser uma).

É um instrumento de luta dos fracos contra os poderosos: não pode ser debilitado. Que se debilitem, antes, os governos! Fazem menos falta...

Os realistas políticos -- que estão mais para lacaios do Poder e suas boquinhas -- hoje mesmo andaram me acusando de estacionado nos valores do passado, um jurássico que até hoje não saiu da década de 1960.

Ora, se para me tornar moderninho precisarei abdicar da solidariedade revolucionária, que me desculpem, mas seguirei até o fim defendendo os Cappios e Battistis.

Cada um escolhe com quem se identifica. Eu escolhi personagens como esses, lá no início de minha jornada. E, ao contrário do Lula, não vejo motivos para mudar.

Mas, retomando o fio da meada, o que eu quero mesmo é recomendar o excepcional artigo de D. Tomás Balduíno, bispo emérito de Goiás e ex-presidente da Pastoral da Terra, Réquiem para a Transposição do São Francisco, publicado pela Folha de S. Paulo neste domingo.

Estou totalmente convencido da exatidão dos seus argumentos e prognósticos, inclusive o de que essa monumental pirâmide desabará, como tantas outras pirâmides do passado.

O texto inteiro está impecável, mas me agradaram, principalmente, estes trechos:
"Imagino que Lula (...) possa estar sonhando em se ligar pessoalmente com o nordestino rio São Francisco, símbolo da integração nacional, transformando o grande sertão da seca num abençoado oásis...

"Isso explica, quem sabe, sua apaixonada tenacidade em querer levar adiante essa obra apesar das inúmeras reações contrárias de parte do Judiciário, do Ministério Público, da mídia, dos cientistas, do episcopado católico, das organizações sociais, dos atingidos pelas obras: camponeses, quilombolas, grupos indígenas.

"A transposição pretende guindar continuamente, em um desnível de 300 metros, 2,1 bilhões de m3 da água mais cara do mundo para o Nordeste, que, por sua vez, já acumula 37 bilhões de m3 a custo zero. Se o problema da seca do Nordeste não se resolve com esses 37 bilhões de m3 armazenados, irá ser resolvido com 2,1 bilhões de m3 da transposição?

"...os 70 mil açudes do Nordeste construídos nesses cem anos demonstram que lá não falta água. O que falta é a distribuição dessa água. Basta implantar um vigoroso sistema de adutoras, como o proposto pela Agência Nacional de Águas, por meio do 'Atlas do Nordeste', que foi abafado pelo governo.

"Trata-se de levar água por meio de uma malha de tubos e adutoras a toda a população difusa do semiárido para o abastecimento humano, sem a transposição. Enquanto a transposição atenderia 12 milhões de pessoas em quatro Estados, segundo dados oficiais, o projeto alternativo atenderia 44 milhões em dez Estados. Custo: metade do preço da transposição.

"Enquanto, de um lado, ainda prevalece a indústria da seca (a transposição aí se inscreve), que rende uma fortuna para os políticos e empresários e mantém o povo na situação do flagelado retirante, (...) do outro lado está surgindo uma nova consciência nas comunidades populares carregada de esperança libertadora.

"Trata-se da convivência com o semiárido. (...) A questão não é 'acabar com a seca', mas de se adaptar ao ambiente de forma inteligente.

"Nessa linha, um pedreiro sergipano inventou a tecnologia revolucionária das chamadas cisternas familiares de captação da água de chuva para o consumo humano.

"Está chegando, pois, a transfiguração do povo e da terra construída de baixo para cima, no respeito e na convivência, libertando-se dos projetos faraônicos devastadores, impostos autoritariamente de cima para baixo.

"Esse humilde toque de sino, alegre e festivo, já se pode ouvir com nitidez, pois essa mudança, cheia de vida e esperança, é um fato no grande sertão nordestino."
Amém.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

CARAVANA ELEITOREIRA VISITA MARACUTAIA DO SÃO FRANCISCO

Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comanda caravana eleitoreira de visita às obras de transposição do rio São Francisco, vale lembrarmos as duas greves de fome com que o bispo de Barra (BH), Luiz Flávio Cappio, tentou evitar a concretização desse projeto de incremento do agronegócio às expensas do Erário e com graves danos ecológicos.

Foram 11 dias de jejum solidário em 2005, interrompidos por promessa não-cumprida pelo Governo Federal de abrir um verdadeiro diálogo sobre a obra; e 24 dias em 2007, quando D. Cappio acabou cedendo às recomendações médicas, face aos riscos reais de vida que estava correndo, sob os olhares indiferentes dos que chegaram ao poder nos braços do povo e hoje priorizam os interesses do capital.

Fiz quatro textos sobre a cruzada de D. Cappio em dezembro/2007: Lula vai mirar-se em Cristo ou Pilatos?, Senhor Deus dos Desgraçados, Carta aberta ao presidente Lula e O rescaldo da greve de fome.

Estão entre aqueles de que mais me orgulho, nesta melancólica década em que tantos e tantos de nossos companheiros do passado trocaram os ideais pelas conveniências, postergando indefinidamente as lutas pelo estabelecimento de uma sociedade sem classes, que deveriam nortear todas as ações dos revolucionários.

Para sintetizar, podemos formar um quadro sobre o projeto a partir de trechos desses artigos que até hoje permanecem válidos:
"O governo se tornou a voz de um pequeno grupo da elite e, infelizmente, o presidente Lula se tornou refém do capital internacional" (D. Cappio)

“...essa água não é para 12 milhões de pessoas, é para pequenos grupos do capital” (D. Cappio)

"...a transposição vai ter impacto extremamente negativo sobre o rio São Francisco (que já está fragilizado e necessitando de urgente revitalização) ao levar suas águas para os grandes açudes do Nordeste, com a principal finalidade de favorecer empreendimentos privados".

"...pela metade do custo, poderia ser implementados projetos como o da Agência Nacional de Águas, para beneficiar os 32 milhões de habitantes de mais de mil municípios; e as obras da Articulação do Semi-árido Brasileiro, voltadas para outros 10 milhões".

"A arrogância com que o Governo Federal trata as vozes dissonantes é uma confissão involuntária de que seu projeto não sobreviveria a um debate franco".

"Cidadãos de reconhecida competência e credibilidade apontam falhas de todo tipo: concepção equivocada, relação custo/benefício muitíssimo pior que a de projetos alternativos, danos ecológicos que podem se tornar catastróficos. Por que tanta insistência, a ponto de tocar a obra com soldados, evocando os tempos sinistros da ditadura militar?"
E, do site da Comissão Pastoral da Terra, vale reproduzir algumas avaliações que o sociólogo Rubem Siqueira faz hoje do projeto:
"Não há nenhuma preocupação com a quantidade da água. O São Francisco está perdendo vazão... a revitalização que o governo alardeia não está acontecendo, e o rio continua em seu processo de degradação.

"...poucas estações de esgoto estão sendo projetadas, pois são caras, mas são elas que devolvem ao rio a água limpa. (...) Em alguns casos, vimos que aumentou o esgoto lançado no rio e não o esgoto tratado. Mas a grande questão é ainda a quantidade da água. Saíram agora estudos de climatologia dizendo que, entre os rios do mundo, na América do Sul, o São Francisco foi o rio que mais perdeu água. Perdeu 35% de vazão nos últimos 50 anos. (...) É um rio com todas as evidências de um quadro hídrico crítico, no entanto, o governo continua com esses projetos que privilegiam a produção de cana-de-açúcar para etanol em toda a bacia do São Francisco.

"...semiárido brasileiro (...) é uma região, entre os semiáridos do mundo, que mais concentrou água, que mais fez açudes. São 70 mil açudes. Há açudes que têm seis bilhões de metros cúbicos de água. São grandes cemitérios de água, porque essas águas estão lá e não estão sendo usadas, ou são usadas pelos grandes latifundiários. Para que, então, exportar água? Alguns falam que a transposição dará segurança hídrica às águas do nordeste. Mas nós perguntamos: aumentar a oferta hídrica para quem? Para fazer o que? A que custo? Qual o desenvolvimento que está por trás da transposição? Esse debate não está sendo feito. Essa água acumulada, por lei, deve ser acessível à população do árido, mas não é.

"Volta e meia, o Tribunal de Contas da União pública divulga relatórios, mostrando que, nas obras da transposição, têm ocorrido ilegalidades e indícios de corrupção. Na região, houve uma expectativa muito grande de empregos que não se concretizaram ainda. Há problemas de prostituição com esse pessoal que vem para o trabalho concreto, além do desmatamento nas regiões 'beneficiárias'. Algumas famílias de camponeses já foram desapropriadas e indenizadas, com isso, a produção de alimentos caiu. Isso significa fome, sede. Há uma insegurança na população. Esses são os impactos iniciais".
Related Posts with Thumbnails